terça-feira, 31 de março de 2015

João e Marquinha - Conto de João Furtado


João e Marquinha

Conto de João Furtado


Sentado a porta da casa, o João olha para o nada. O seu olhar é vago e a solidão que o atinge faz-lhe estar distante de tudo. A electricidade não chegou ainda à sua casa. Não tem televisão nem rádio.

Descalço e com roupa retalhada, as pernas não são as mesmas de há 60 anos atrás. Nem a memória é a mesma, mas uma coisa é certa, o amor que sente pela Marquinha é o mesmo de sempre.

O rosto enrugado e a boca desdentada, mal consegue suportar o peso do cachimbo fumegante, seu companheiro de sempre. Muita vida vivida foi para esquecimento, mas a Marquinha continua viva nele. A única que não morreu numa memória cada vez mais morta que viva.

Marquinha era diferente de todas. Teve muitas mulheres durante os seus longos 80 anos de vida, mas nenhuma foi como a Marquinha, o seu primeiro amor. Nunca teve uma foto da Marquinha, mas sempre a teve na memória. A imagem da Marquinha jamais saiu da sua memória. Hoje, que nem dos filhos se recorda bem, continua a viver a sua Marquinha.

A casa da Marquinha era no alto da colina, nos Órgãos, Ilha de Santiago. Era um sobrado lindo e via-se de longe, entretanto não era fácil lá chegar. Para se ir a casa da Marquinha tinha-se que andar quase dois quilómetros sempre a subir. Num serpentear de curvas e contra-curvas entre argilas e pedras, que qualquer descuido seria razões de acidente gravíssimo. O caminho íngreme e quase perpendicular obrigava a uma perícia incalculável.

O João, hoje velho e cansado, continua a ter a imagem da Marquinha, dengosa, com pano amarrado à cintura bamboleando quando transportava a lata de água, ladeira acima. Negra, esguia e bela, subindo ao compasso do batuque. Luxuriosamente bela, a Marquinha era a única lembrança da juventude do João.

Desde muito cedo, João enrabichou-se pela Marquinha, ele tinha 18 anos e ela 14. Ele de enxada no punho e ela de balaio e pano à cintura. Ele a cavar o chão para ela semear.

Eram muitos, quase 30 pessoas, entre homens, mulheres, rapazes e raparigas, mas ele só via ela, a Marquinha. E ela, dengosa, fingindo-se alheia a tudo, mas atirando o feitiço de mulher, que bem cedo sabe da força que esconde nos seios firmes e libidinosos, escondidos por fino e sensual pano de cetim.

Um pouco acima da fina cintura de cobra, fazia salientar a bela e carnuda anca de mulher badia. Ele a cavar para ela. Era um djunta-mon, onde não estava apenas o trabalho, mas mostrar do que era capaz. Que era melhor que todos os outros rapazes! Ela era o troféu em disputa.

Ela, a Marquinha sabia disto, se mostrava e se sentia orgulhosa a ser razão do frenesim que à sua volta desenrolava. Mas não falava com ninguém, se mostrava e se escondia, no jogo do amor e do pudor. Os adultos, os pais, viam tudo e fingiam nada ver.

Todos sabiam do jogo. Todos participavam no jogo. Ela tinha que se resguardar e se mostrar difícil. Ele queria que ela fosse difícil e ficava orgulhoso disso. À tardinha ia esperá-la na ribeira. Sabia que ela ia e ela sabia que o ia encontrar lá. Continuavam os rituais.

Ele insistindo na conversa e ela esquiva jogando com as palavras:
 -Marquinha, sou louco por ti!
 -João devias era ir para o hospital então para te tratares!
 -Marquinha, deixa de brincadeiras, estou a falar a sério. Quero-te! Quero casar contigo!
 -João, não vês que ainda sou criança?

O João pegava-lhe nas mãos e ela lutava e fingia-se ofendida. Afirmava que a mãe estava a vir atrás dela. Dizia que ontem tomou uma carga de porrada, porque a madrinha dela teria dito à mãe que a viu com o João. O João todo fanfarrão prometeu que ia falar com a tagarela da madrinha da Marquinha! O que tinha ela a ver com a vida dos dois?

A Marquinha ameaçou-o:
 -Se disseres alguma coisa, sou eu que nunca mais falo contigo!

Ela tenta fugir dele e ele tenta fazer-lhe ficar mais uns minutos. Ela corre e ele vai atrás. Tenta prende-la, a lata de vinte litros de água que leva à cabeça cai. A lata fica informe, ele tenta dar um jeito. Está a ficar escuro. Ela tem mesmo que ir. Não seria desta vez que receberia um sim. Ele sabe que ela esta a gostar, mais fica orgulhoso com o não. Assim o sim será mais valioso. O não é uma pré-garantia de que a mulher vai ser fiel. Amanhã dirá sim, tinha a certeza!

-Quando te verei de novo? – Quase gritou, porque ela já ia longe!
-Não sei, amanhã irei à Praia vender umas galinhas e ovos! – Respondeu a Marquinha antes de se perder no escuro. - Era uma resposta que ele queria. Ela, tentando desconversar, está a convidá-lo a ir com ela à Praia. Era isto que iria fazer!

O cérebro humano é mesmo uma caixa de surpresas. O João que já nem se lembrava do seu próprio nome, não conseguia esquecer nenhum pormenor do seu romance com a Marquinha.

No dia seguinte levantou-se muito cedo. Às quatro já estava na estrada à espera da Marquinha. Ela vinha com as amigas. Quando o viu foi-se disfarçando, como se estivesse com carga a mais ou tivesse alguma pulguinha nos pés que a impedia de andar.

As amigas entenderam, sorriram e avançaram a passos largos, para depois continuarem mais devagar. Não queriam atrapalhar os namorados, mas também não queria deixa-los sozinhos. A viajem era longa, porque teriam de fazer quase dezanove quilómetros. A Marquinha ia à Praia, mas o João não, o João a acompanhava apenas uma parte do caminho, talvez um ou dois quilómetros.

A Marquinha chamou as amigas, elas não responderam. Sabiam que ela estava a fazer fita, fazia parte do jogo. Ele a pegou. A disse que havia chegado o momento.
- …Ou me dizes sim ou não te largo!
- … Não, não e não… - Disse a Marquinha.

Ele não foi na cantiga, não a largou. Pegou-lhe na mão. O João lembra-se como se fosse hoje. A Marquinha abaixou-se à procura de algumas pedrinhas. O Coração de João alegrou-se. Imaginou o que ia acontecer. Sabia o ritual. A Marquinha endireitou-se com três pedrinhas na mão e atirou uma a uma contra o peito do João dizendo:
-Te quero…….., te quero…………, te quero !

Estava cumprida a tradição para o primeiro acto. Haveriam mais cenas no futuro, mas o primeiro acto terminava ali com te quero, te quero, te quero…Sabia que nem um beijo iria conseguir se não roubasse. Rapidamente abraçou-a e beijou-a. Ela, a Marquinha ruborizada e envergonhada fugiu apresada. Ele disse, já enquanto ela se afastava:
-Venho te esperar aqui, logo a tarde!
-Sim! – Respondeu ela já longe.

Satisfeito e alegre, ele regressara para ir trabalhar. Ela a Marquinha juntara-se às colegas e caminharam rumo a Praia. Ambos ignoravam que estavam a ser espiados desde início pelo Joaquim.

Joaquim gostava da Marquinha, mas sabia que Marquinha tinha um fraco por João. Ele morava noutra ribeira, mas a algum tempo que vinha a espiar a Marquinha, na esperança de poder ter algum favor por parte dela. Com o sim que ouviu não restavam muito mais esperanças, senão fazer o que devia ser feito.

O João, hoje velho e desdentado, sentado a porta, com o cachimbo apagado na boca, engolindo o indigesto ar fedorento de tabaco que ele mesmo ainda cultiva ao redor da casa, revê como num filme, mais uma vez, aquele dia que marcou profundamente a sua monótona vida de jovem agricultor.

Lembra-se, como se tivesse sido ontem, a felicidade que sentiu quando deixou a Marquinha e foi tomar o pequeno-almoço reforçado antes de ir trabalhar. Lembra-se que ia a imaginar o dia em que mandaria seus pais pedir a Marquinha em casamento. Imaginava tudo, titim por titim.

A Marquinha haveria de lhe dizer que no próximo sábado era boa data. Ele informaria aos pais. Os seus pais falariam com os pais da Marquinha. Informariam que iriam pedir oficialmente as mãos da Marquinha. O teatro estaria encenado e sem possibilidades de falha alguma. Chegaria o sábado escolhido.

No sábado escolhido, os seus pais iriam. A Marquinha que já havia cochido e pilado o milho. Feito xeren, cuscus, massa e mais iguarias. Tudo para uma grande festa. Mal visse a delegação a subir a difícil ladeira que dava acesso a sua casa, iria afastar. A Marquinha ficaria longe e acompanharia tudo à distância.

Os pais da Marquinha iriam fingir que nada sabiam. Surpresos com a visita, que muito os honrava, mas não viam como a sua criança pudesse estar a pensar no casamento, ela a Marquinha que ainda ontem usava fraldas. Devia ser engano.

Bem,… por via de duvidas, seria melhor que fosse a desavergonhada a confirmar. Iriam chamá-la. Chamariam várias vezes para depois ela aparecer cabisbaixa. A Marquinha iria confirmar que ele o João andava há muito atrás dela, mas ela nunca lhe havia dado alguma esperança.

-Se não tivesses dado, eles não estariam cá! – Diria a mãe toda imperiosa e triste com tamanha ingratidão por parte da filha.
Ela baixaria mais a cabeça, pareceria que quereria beijar o chão. Não responderia nada!
-Diga lá, queres ou não casar com ele? - Tornaria a mãe da Marquinha, a Marquinha continuaria em silêncio. - Falas ou não falas? Posso dizer que não queres?

-Sim mãe, fui eu que mandei! – Diria a Marquinha tão baixo, tão baixo, que só se perceberia, porque todos já sabiam a resposta e a Marquinha também já sabia que quanto mais baixo, mais respeitada pareceria aos olhos da futura família que estava a arranjar! Seguiria o momento de choro por parte da mãe da Marquinha pela ingratidão da filha e por parte da Marquinha pela incompreensão da mãe.

Os homens assistiriam impávidos e serenos à espera da cena seguinte. A nova mãe, ou seja a mãe do João iria acariciar e acolher nos braços a nova filha ou seja a Marquinha. Seguiria a fase dos sermões e regras de namoro, com mais e menos restrições. Por fim o almoço e a recepção digna do momento.

Recorda com nostalgia o dia que foi o mais pequeno de trabalho e o mais longo de ansiedade. Trabalhou e não sentiu o peso da enxada. Não sentiu o peso da enxada mas sentiu que estavam quase parados os ponteiros do relógio.

Por fim chegou a hora. À tardinha saiu e foi ao ponto combinado esperar a sua amada. Esperou e desesperou. Ela não apareceu.

O Joaquim teve a certeza que havia perdido a batalha. Sabia que se não agisse rapidamente podia ser pior. Chamou os amigos e ficaram à coita. A Marquinha chegou antes da hora prevista. Normalmente chegavam da Praia ao escurecer. Mas desta vez as meninas chegaram antes das quatro. Sabia que ela ia a casa e arranjaria alguma desculpa para ir ao encontro do João. Escondeu-se e esperou.

A Marquinha estava alegre. Falou com as meninas até chegarem à Praia. Estava alegre, irradiava felicidade, as amigas ficaram contagiadas. Riam e falavam sem parar. O negócio correu bem, muito melhor do que o esperado. Uma hora depois já tinham tudo vendido. Regressaram muito mais cedo também. Antes das quatro já estavam nos Órgãos. Cada uma na sua casa. Estava ansiosa. Queria ver o João. Gostava muito dele. Já deviam estar a namorar se não fosse a tradição que exigia que a mulher fosse difícil.

Imaginou como seria o casamento. Iria entrar na igreja toda vestida de branco. As amigas cheias de ciúmes iriam vê-la. Os olhos estariam salientes e inchados de ter passado a noite toda a chorar. Mas iria chorar de verdade. Queria ser feliz, muito feliz. A felicidade e o choro são sentimentos directamente proporcionais. Era assim.

Estaria sentada e rodeada de mulheres mais velhas e vividas, ela já tinha assistido algumas vezes. As mulheres iriam descrever a vida difícil que iria ter. O calvário que seria o casamento. Quanto pior for descrito e pintado o quadro da sua vida futura mais profícua e feliz seria. Ela estaria preparada para o pior e contentava-se com o que a providência lhe proporcionasse.

Mal começara a escurecer pegou na lata e disse que ia apanhar água. A mãe quis faze-la desistir. Estava cansada, acabara de chegar da Praia. Ela não desistiu, disse que o pote estava vazio. Que ia num pé e voltaria noutro. Foi e só voltou meses depois.

O Joaquim e os amigos esperavam-na na estrada. Mal ela ia a passar saíram e pegaram-na. Colocaram-na no ombro e levaram-na. Prenderam-na dentro de casa durante meses. Ela nunca se conformou e cada dia que passava odiava mais o Joaquim. A saudade do João. O amor não vivido do João a fazia odiar cada vez mais o Joaquim.

O amor forçado, amarrado e unilateral do Joaquim só piorava mais a situação. Foi na dor e na tristeza que a Marquinha se engravidou. Presa no pé da cama, feita de quatro estacas de madeira enterradas ao chão. Ia ser mãe no cativeiro. Não tinha outro remédio senão ser mãe. O Joaquim ao vê-la grávida, soltou-a.

Dias depois deixou de a ver, bastou um descuido que ela regressou aos Órgãos, grávida, infeliz e sem honra.

O João estava noivo da Bianina, uma das suas amigas. Não amava Bianina, amava Marquinha, mas ia casar com a Bianina. Não queria casar-se de burro e com uma das pernas da calça rolada. A Mariquinha jamais casaria, teve um filho, o filho do Joaquim. Não casou nem com o João nem com mais ninguém!

Mas o amor de João por Marquinha e de Marquinha por João foi eterno, hoje ele não se recorda de mais ninguém, mas de Marquinha continua a ter a mesma saudade!



 

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