sexta-feira, 20 de março de 2015

HAJA PACIÊNCIA - Texto de Liliana Josué


HAJA PACIÊNCIA

Texto de Liliana Josué

I

Cá estou eu, mais uma vez, para denunciar outra peculiar vivência. Não vou tratar deste assunto com poesia, em forma de conto e muito menos com punhos de renda, vai ser relatado tal como aconteceu.

No verão, mais precisamente em Junho, fui chamada a comparecer a uma consulta médica no Hospital dos Capuchos por indicação e pedido da minha médica de família, por sinal uma ótima profissional, com a finalidade de ser operada à vesícula.

Nessa mesma consulta correu tudo muito bem, o médico ouviu-me atentamente, registou o essencial e mandou-me fazer os exames da praxe: RX tórax, análises e consulta de anestesia, informando-me que depois de tudo concluído deveria ser chamada para a intervenção entre trinta a quarenta e cinco dias, ou seja, cerca de mês e meio.

Como esse espaço de tempo ia cair sobre as minhas férias pedi ao médico que tivesse a gentileza de adiar a dita por um mês, ao que ele acedeu prontamente registando a altura exata em que iria ser operada, em Outubro de 2014. Até aqui estava tudo certo, mas o tempo foi passando e o mês de também. De início não me preocupei muito pois sabia que poderia haver algum atraso nos processos de internamento.

A certa altura, adoeci e fui novamente à minha médica para ser observada e medicada convenientemente. Ela, já minha conhecida de há muitos anos, e na qual deposito a minha confiança, foi verificar a fixa onde tem assente todo o meu historial.

Entretanto interrompeu a procura e perguntou-me se já tinha sido operada (pois estávamos em Fevereiro). Eu respondi na inocência dos ignorantes que ainda não tinha sido chamada. A médica voltou à minha ficha (pois como sabem agora há cruzamento de informação entre hospitais e centros de saúde) e pôs-se em campo na busca da data marcada para esse efeito.
De início não encontrou nada, mas eu insisti no sebastiânico mês de Outubro que por fim lá apareceu já muito envergonhado e amarelecido. Parou um instante, pensou uns segundos e por fim disse-me: “Isto está esquecido no hospital, lamento mas tem de contatar com eles”. Suspirei contrariada mas fiz o que ela me mandou.

Como não tenho todo o tempo necessário para andar a correr hospitais em busca do meu processo esquecido, tomei as minhas providências no sentido de resolver a questão telefonicamente.

Abreviando a narração, acrescento apenas que passei mais de 15 dias a telefonar para variadíssimos números sem obter qualquer resultado. Pois é, diziam-me sistematicamente não existir qualquer processo. Aqui a situação tornou-se ainda mais feia e confusa, pondo-me a cabeça e a ansiedade às voltas.

Estava completamente perdida, decidindo finalmente ir mesmo ao dito hospital, que também podia ser outro, (pois e médico dava consultas e operava num e fazia urgências noutro).

Mas, felicidade suprema, numa derradeira tentativa de contatar com ele o milagre deu-se, o senhor doutor falou comigo e ficou um tanto pasmado por eu ter tido tanta dificuldade em contatá-lo visto não ser comum tal situação.

Sim, claro, lembrava-se perfeitamente de mim, que não estava nada esquecida mas que havia muitos doentes…, concluindo, marcou-me a intervenção para uma semana depois, logo assim, sem mais rodeios. No dia indicado apresentei-me no Hospital dos Capuchos às nove horas da manhã.
Finalmente iria ser resolvido o meu problema vesicular.

II

Dividi este assunto em três partes para não se tornar cansativo, no entanto umas sem as outras também não fazem sentido.

Fui levada pela minha filha, que sempre simpática e solícita me acompanhou passo a passo. Aproximei-me do guichet , informei já ter chegado e a simpática senhora que estava no atendimento pediu-me para me sentar nas cadeirinhas em frente para que, logo que fosse oportuno poder fazer a minha inscrição.

Note-se que aquele sítio não era uma sala de espera mas um corredor onde as correntes da ar pareciam cobras de gelo envolvendo-nos as pernas e o resto do corpo. Aos poucos a tensão nervosa foi aumentando, tentando ingloriamente a minha filha apaziguar-me. Sem pingo de paciência vi chegar as treze horas.

Ainda mais descontrolada dirigi-me novamente ao guichet pedindo para falar com o meu médico. A funcionária, já muito atrapalhada, informou-me que ele estava perto e que ia chamá-lo para falar comigo. Voltei a sentar-me com a cara em brasa e uma garrafa de água fria que ia rolando por todo o rosto pois o jejum já se fazia sentir e bem, mas o médico não aparecia.

Desorbitada voltei a pedir à infeliz funcionária que queria mesmo falar com o meu médico, ao que ela respondeu já lhe ter dado o recado e só ele sabia porque ainda não tinha vindo. Aqui eu já me encontrava transformada num “monstro” quase indomável.

Inesperadamente eis que o médico apareceu junto de mim com um ar de quem já passou por aquilo um incontável número de vezes. Muito afogueada perguntei-lhe porque é que ainda estava naquele corredor miserável e sem saber de nada (isto andava pelas catorze horas).

Ele, com um ar tolerante, resignado e calmo disse-me que dado o adiantado da hora podia beber um golinho da água para enganar a fome e a sede.

Eu, no meu desespero, perguntei-lhe se realmente iria ser operada, ou não, visto ser tão tarde e ainda ter pessoas à minha frente para o mesmo fim, não falando do desconforto total daquele corredor onde não se podia descansar minimamente, ao que ele me respondeu: “Operada vai ser, mas só lá para o fim do dia, ainda está aqui porque não há camas disponíveis na enfermaria, estamos à espera que surjam altas”.

Fiquei de boca aberta a olhar para ele, acabando o mesmo por acrescentar: “Mas se quiser pode não ser operada hoje, pode adiar para daqui a uma semana quinze dias…” ainda mais atónita fiquei mas pus essa hipótese, a minha filha num ato reflexo quase gritou:” Nem penses nisso, tu não vais desistir!”.

Eu tremi e questionei novamente o médico: “Senhor doutor, se eu marcar nova data pode acontecer o mesmo que hoje?”, ao que ele respondeu resignadamente que sim. Claro que não desisti. Ele apertou-me a mão complacente informando que a qualquer momento vagaria uma cama e retirou-se .

Por volta das dezassete horas chamaram-me para a inscrição e pouco tempo depois fui finalmente chamada para o internamento. Quando dei por mim encontrava-me no pavilhão dos homens, mas no recobro, que segundo agora sei é misto mas na altura não sabia. Só aí havia camas.

Eu não queria acreditar que estava a viver tudo aquilo, a situação desde o início era Kafkiana e eu nada podia fazer nem sabia como encarar. Ali fiquei deitadinha e sossegadinha mas, ao menos, já de soro enfiado na mão, assim a fraqueza suportava-se melhor. Entretanto uns gemiam, outros diziam que morriam e outros dormiam apenas. Claro, eu estava num recobro, era de se esperar.

Estava-me a esquecer de aqui deixar registado de já lá se encontrar a senhora que chegou antes de mim, sem ser operada, exatamente nas mesmas circunstâncias, e mais tarde entrou outra já operada. A partir daquele momento deixei de me afligir, senti que o abismo tinha acabado ali, tudo o que viesse a seguir era uma história que eu iria contar.

Fui operada por volta das dezanove horas e quarenta minutos. Toda a sala e o local onde me deitaram eram gelo, nem sei como as pessoas não se constipam, mas antes de adormecer, a tiritar de frio, e já com o efeito da anestesia alguém me disse que assim tinha de ser para evitar o desenvolvimento de vírus e bactérias, entendi e aceitei a explicação, era perfeitamente compreensível tal desconforto e já não dei por mais nada.

A operação correu lindamente e voltei para o recobro misto. Aí já pouco liguei a isso. Passei lá a noite e toda e parte da manhã. Finalmente fui para a enfermaria perto da hora do almoço. Almocei e como já podia andar e não tinha feito intolerância aos alimentos deram-me alta. Vá lá, ainda passei umas horas na enorme enfermaria de lindos azulejos creio que do seculo XXIII, cheia de senhoras aconchegadinhas. Parecia um gineceu em decadência. Essa noite já fui dormir casa da minha filha.

III

Do fundo do meu coração agradeço ao médico que me acompanhou , a toda a equipe que me operou, aos enfermeiros que me assistiram e a todo o pessoal auxiliar do Hospital dos Capuchos. Trataram-me dignamente e muito profissionalmente. Da minha parte têm total admiração e respeito pois trabalham em situações caóticas mas dão conta do recado. Coisa que noutro hospital não aconteceu, na parte das urgências, mas agora talvez consiga dar um certo desconto.

O meu dedo é apontado, isso sim, ao nosso Sistema Nacional de Saúde. Os utentes são tratados como seres inferiores (Filhos de um Deus Menor), encalhados à porta do hospital e depois atirados para um buraco onde se possa colocar uma cama (e ainda termos direito a cama já não é mau).
Senhor Ministro da Saúde, experimente ou mande experimentar algum amigo ou familiar seu este tipo de situação, só assim, talvez entenda, o mal que está a fazer aos portugueses. Sabe o que é sentir que vale “nada”? Que é uma “coisa” que anda no hospital aos baldões? Que representa num “transtorno” e “peso” público?...

Senhor Ministro da Saúde e restante Governo, não tratem tão mal quem trabalha nos hospitais. Médicos a operar com cargas horárias enormes disfarçando o cansaço e ainda dando um sorriso e apertos de mão, enfermeiros atenciosos mas que já pouco conseguem ouvir, auxiliares de corpo moído… enfim tanto ainda havia mais para lhes dizer mas fico-me por aqui.

Acrescento apenas que se não lutamos todos (utentes e profissionais de saúde), pelos nossos direitos, qualquer dia não haverá mais dia.

18/02/2014

Liliana Josué




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