sábado, 28 de fevereiro de 2015

Refugiados da Ucrânia

Refugiados da Ucrânia

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Refugiados afegãos, paquistaneses, palestinianos, congoleses e somalis  num centro de detenção em Chop, no oeste da Ucrânia, em 2009.

Refugiados da Ucrânia

O Guantánamo do Este

Menos mediática que o Mediterrâneo, a Ucrânia é um importante ponto de passagem para a Europa dos refugiados que fogem dos islamitas na África oriental. Mas as condições de acolhimento são indignas, como testemunham os requerentes de asilo.
Por Lorenzo Ferrari

"Hasan Hirsi tem 21 anos e saiu da Somália aos quinze anos, depois de os terroristas de al-Shabab terem atacado a sua aldeia e assassinado o seu pai. Fugiu para Moscovo e, a partir de lá, uma rede de tráfico de humanos levou-o até Kiev. Hirsi demorou cinco anos – e cinco tentativas – para passar da Ucrânia para a União Europeia. Cada vez que tentava, era detido pelos guardas fronteiriços ucranianos, húngaros e eslovacos e passou cerca de três anos em centros de detenção e prisões ucranianas, onde afirma ter sido roubado, espancado e torturado pelas forças de segurança. Hoje em dia, revela ao Spiegel, refere-se à Ucrânia como “o inferno” e continua a ter pesadelos.

Apesar de a atenção dos meios de comunicação social e dos políticos se concentrar sobretudo nas rotas de imigração que passam pelo Mediterrâneo, Maximilian Popp observa, numa longa investigação publicada no site em inglês da revista alemã, que “até agora o interesse era limitado no que diz respeito à rota oriental e à saída de imigrantes como Hasan Hirsi”. Contudo, “no ano passado, com o conflito em curso na Ucrânia, centenas de imigrantes tentaram chegar à UE através da Europa oriental”.

Um dos principais cruzamentos da rota oriental situa-se na cidade ucraniana de Uzhgorod. Os refugiados passam, muitas vezes, meses à espera que as suas famílias lhes enviem o dinheiro necessário para seguirem o seu caminho. Em seguida, “em troca de várias centenas de euros, os traficantes ucranianos conduzem os imigrantes desde Uzhgorod até à Hungria ou à Eslováquia”, escreve Maximilian Popp.

Apesar de os Estados-membros da UE serem responsáveis por examinar os pedidos de asilo, “os países ao longo da sua fronteira oriental, como a Hungria ou a Grécia, ignoram muitas vezes as regras e enviam os refugiados para trás”. Foi assim que Hirsi, que queria apresentar um pedido de asilo, foi enviado várias vezes de volta para a Ucrânia.

Entre 2000 e 2006, a UE concedeu 35 milhões de euros à Ucrânia, para que esta reforçasse o controlo das suas fronteiras. Nos últimos anos, Bruxelas desembolsou 30 milhões de euros adicionais para construir e modernizar os seus centros de detenção e de acolhimento para imigrantes.
Um acordo assinado em 2010, entre a UE e a Ucrânia, estabeleceu que os refugiados que entram na UE através da Ucrânia podem ser reenviados para esta última.

“Ao longo da fronteira oriental da Europa, a externalização da política de asilo da UE é mais avançada do que em qualquer outra região”, escreve Popp, que acrescenta que, “aparentemente, Bruxelas espera que este sistema leve à diminuição do número de requerentes de asilo na Europa – sem chamar demasiado a atenção”.

Mas, já em 2010, a ONG Human Rights Watch tinha criticado a UE “por esta ter investido milhões com o intuito de deslocar o fluxo de imigrantes para longe da Europa e em direcção à Ucrânia, sem garantir que foram tomadas medidas suficientes para assegurar um tratamento humano dos refugiados.

Segundo o testemunho de Hasan Hirsi, os refugiados na Ucrânia são tratados de forma desumana. Um dos campos de detenção onde esteve detido, em Pavshino, era por exemplo conhecido como “o Guantánamo do este”. Nos campos, os imigrantes “eram mantidos num local escuro e não aquecido e os guardas recusavam-se a deixá-los utilizar as casas de banho.

Muitos refugiados urinavam em garrafas ou no chão e não recebiam nada para comer durante dias. “Estávamos encarcerados como animais”, afirma Hirsi. Durante os interrogatórios, os agentes batiam nos imigrantes e davam-lhes choques eléctricos. Segundo Hirsi, um deles disse: “agora estão na Ucrânia e não na Alemanha ou na Inglaterra. Aqui, não há democracia”.

O relato de Hirsi coincide com o de vários outros relatórios e testemunhos. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a detenção dos imigrantes na Ucrânia viola a Convenção europeia dos Direitos Humanos.

Teme-se que o tratamento dos imigrantes possa piorar devido à actual crise na Ucrânia. Tal como observa o representante do ACNUR, “o Governo de Kiev já se encontra totalmente sobrecarregado com a gestão e a protecção dos refugiados internos, cerca de um milhão de pessoas. […] Na verdade, não tem condições para se ocupar também dos requerentes de asilo”.

Voxeurop, Der Spiegel




Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira


Eclipse


O eclipse chega montado num raio que esgrima o céu vibrante 
Elas seguem-no com o olhar, as carpideiras de rostos taciturnos
O eclipse envolve-lhes o mundo num manto escuro num instante,
Abraçando com ferocidade o Sol com os seus tentáculos nocturnos

E elas olham, desamparadas, sem reter as lágrimas ainda no peito para derramar
Enquanto a escuridão se espalha, como uma sinuosa nuvem de pó negro
E tudo engole, num momento de terror, na senda de tudo apagar
Cada recanto. Cada rua. Cada casa. Cada memória. Cada alma.

As carpideiras ajoelham-se, gritando enlouquecidas um lamento visceral
Ai o Mundo! Todo o seu Mundo! Agora rendido, chamuscado, perdido…
O rio de lágrimas destas carpideiras condoídas abre caminho para o triste funeral … 

O caixão vai pesado de sonhos, de memórias, de risos e de esperanças
E elas, as carpideiras, que carregam com temor esse caixão de um Mundo traído
E lamentam-no, esse cadáver envolto em solidão, despido de todas as crenças…


Peregrina


Fitando a janela chora a cansada peregrina
Encosta desamparada a cabeça no mármore gelado
E murmura baixinho doridas preces, lamentando a sua sina
Sabendo que ainda não encontrou o caminho almejado

Vislumbra o amanhecer lá fora, e o céu a clarear de mansinho,
A noite que se despede preguiçosa com laivos de carmesim e dourado,
A Lua que boceja cansada e parece desaparecer no seu cantinho,
E o Sol que acorda resplandecente no seu lugar honrado

Suspira profundamente, a cigana, e fita cansada o seu bordão
Um último olhar para a neve lá fora, imaculada, ainda sem pegadas
Tão alta que parece envolver todo o mundo numa fofa nuvem de algodão

Campos brancos imensos que gritam a imensidão dessa terra já sem magia
E adiante, lá fora no ar gélido da madrugada, esperam por ela as incontáveis estradas
 Que percorre, sentindo a cada passo uma mais profunda nostalgia…


Prece


Um rio de lágrimas grossas e salgadas
Desce pelo rosto até aos lábios unidos em prece
Uma ladainha demente de almas atormentadas
O rosto marcado pela saudade que não envelhece

Querer é o castigo que carrega no peito
Esta ânsia que acorda e rouba o sono
Este desejo sem fim tão longamente insatisfeito
As saudades que caem como folhas velhas no Outono

Saudades que renascem com cada nova Primavera
Que não queimam ao calor abrasador do Verão
Nem conhecem Invernos que não sejam de espera

Falta de ti que não abranda nem  conhece fim
Corpo e alma sequiosos de ti, cegos de razão
Sonhadores do instante perfeito em que mergulhas em mim... 






 

Poesia de Pedro Du Bois


Poesia de Pedro Du Bois


CALMA

 
na calmaria cede espaço ao cansaço.

Descansa o silêncio e se desentende

em ritos descontinuados. Desavenças

e calçadas ressoam passos. Acalma

o vento. Reclama ao vento a passagem.

Impressiona o sono em ideias aleatórias

de descobertas e conformismos. No

dito recupera da razão o lídimo saber

sobre a calma na alma despossuída.

Em passos atravessa a hora e despede

do gerânio a flor inacabada. Gira o Sol

em retorno: o dia permanece na explosão

sintética da espera. A calma na calúnia

desdita arrebenta os sinos entre torres.

O desafogo na morte: calma arrebatada

ao espírito. Acalma o corpo ao começo.
 
(Pedro Du Bois, inédito)


 SOLO E ÁGUA


 O solo absorve

aqüífera água. O poço

                         cancela

                         o isolamento: corda

                                               caçamba.



Retiro o cesto e guardo a garrafa:

o vinho descansado

sugere o instante da embriaguez



                          o solo absolve

                          a água derramada.
 
(Pedro Du Bois, inédito)


 TER


 Na formação aleatória

                    e responsabilizada

                    acredito na suavidade da música

                    no encontro das esferas: a colisão

                    evitada céus estrelas combinadas

                    em esburacados espaços (negros)



na deformação trazida

aos olhares informes das cobranças

sei do absoluto mistério



nas informações transmitidas

ao menino criado em ordens

reunidas renuncio ao saber

das asperezas e me rendo: músicas

suavizam a finalidade na destruição

conformada das vivências.
 
(Pedro Du Bois, inédito)



http://pedrodubois.blogspot.com






Poesia de Mário Matta e Silva


Poesia de Mário Matta e Silva


NO SONHO DO BEM-ME-QUER

Vou na amplitude da tarde
colher a vastidão das planícies
ofuscar-me nos brilhos do sol
derramar por aí o meu próprio eu
tão insolente e tão irrequieto
no extravasar desse imenso rol
de deusas e de musas que caem do céu
aos trambolhões, em queda-livre
sobre o amontoado de fantasias
que vou construindo sem regras
nem preceitos, nem esquadros
dicionários, guias, mapas ou tratados
mas que guardo para mim ao fim dos dias
que se vêm misturar ao sono perturbado
para que nessas planícies feitas
de libertinagem, tenha por companhia
essa luz uniforme e cálida do dia
com os seus matizes e os seus perfumes
prenhes de papoilas e mal-me-queres
ensopados de ácidos estrumes
com raiva depositados no ventre terra
e a partir dela desabrocha a natureza
tão meiga, tão generosa, tão aveludada
que tanto se deseja e tanto se quer
pelo restolho árido de cada madrugada
febril a mitigar a sede em riacho puro
até que pela noite ribombe o escuro
num sonho morno feito de bem-me-quer.

5 de Agosto de 2014

MÁRIO MATTA E SILVA


BATIAM AS SEIS DA TARDE

Batiam a seis da tarde
Numa recepção à lua
Tarde fria de luz crua
Na despedida do sol
Vem outra noite a rebol
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Ténue tom crepuscular
Vem a noite pra te amar
Tão solene e tão vilã
Mesclado de romã
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
No campanário sombrio
Vai de manso água do rio
Nas sombras do arvoredo
Cresce o pranto, cresce o medo
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Foi-se o dia radioso
Em teu corpo esplendoroso
Chora a criança num pranto
Sofrem velhos sem encanto
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Há um crime, uma traição
Acelera um coração
No amor, na euforia
Da praia vem maresia
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Ouvem-se tiros estridentes
Morrem à fome inocentes
E tudo cega o olhar
Perfumes, peitos a arfar
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Numa luta de emoções
Canalhas, agiotas, aldrabões
Declarações apaixonadas
Na espera das alvoradas
Batiam as seis da tarde.

22 de Janeiro de 2015

Mário Matta e Silva





 

Três Lendas


Três Lendas



Lenda do Manto de Santo António
 
À entrada da vila de Monchique existe uma imagem de Santo António com um manto azul bordado a ouro que lhe foi oferecido por uma jovem em agradecimento por o santo lhe ter arranjado casamento. Mas a verdade é que este casamento não foi tão feliz como a jovem esperava. O marido tratava-a mal apesar da gravidez anunciada da mulher.

Nasceu uma filha que cresceu entre discussões azedas até que aos oito anos a menina decidiu apelar para a bondade de Santo António pôr termo a tamanho martírio.

Ajoelhou-se junto à sua imagem e prometendo-lhe que nunca lhe faltariam flores, a menina sentiu após algumas horas que alguém lhe batia no ombro. Um homem estranho e atraente perguntou-lhe porque estava ali e pediu-lhe algo para comer e um sítio para descansar.

A menina levou-o para sua casa e enquanto que a mãe acolheu o visitante o pai resmungou pelo atrevimento da filha. O visitante dirigiu-lhe frases apaziguadoras, alertando-o para o facto de que estava a desperdiçar uma felicidade que estava perfeitamente ao seu alcance: a de viver em harmonia com a sua mulher e a sua filha.

Como que encantado pelas palavras do visitante, o homem ajudou pela primeira vez a sua mulher a preparar a refeição e sentiu que iniciava nesse instante uma vida nova.

Quando voltaram à sala, o estranho homem tinha desaparecido e no seu lugar estava uma pequena imagem de Santo António, semelhante à que se encontrava no nicho da vila.

A notícia do milagre correu a aldeia e a partir daquele dia aquela casa encheu-se de felicidade e ao santo nunca mais faltaram as flores.




A Moura do Castelo de Tavira

A noite de S. João é, desde tempos imemoriais, a noite das mouras encantadas. A tradição conta que no castelo de Tavira existe uma moura encantada que todos os anos aparece nessa noite para chorar o seu triste destino.

Os mais antigos dizem que essa moura é a filha de Aben-Fabila, o governador mouro da cidade que desapareceu quando Tavira foi conquistada pelos cristãos, depois de encantar a sua filha. A intenção do mouro era voltar a reconquistar a cidade e assim resgatar a infeliz filha, mas nunca o conseguiu.

Existe uma lenda que conta a história de uma grande paixão de um cavaleiro cristão, D. Ramiro, pela moura encantada. Foi precisamente numa noite de S. João que tudo aconteceu. Quando D. Ramiro avistou a moura nas ameias do castelo, impressionou-o tanto a sua extrema beleza como a infelicidade da sua condição.

Perdidamente enamorado, resolveu subir ao castelo para a desencantar. A subida através dos muros da fortaleza não se revelou tarefa fácil e demorou tanto a subir que, entretanto, amanheceu e assim passou a hora de se poder realizar o desencanto.

Diz o povo que a moura, mal rompeu a aurora, entrou em lágrimas para a nuvem que pairava por cima do castelo, enquanto D. Ramiro assistia sem nada poder fazer.

A frustração do jovem cavaleiro foi tão grande que este se empenhou com grande fúria nas batalhas contra os Mouros. Conquistou, ao que dizem, um castelo, mas ficou sem moura para amar...



Lenda das Três Gémeas

No tempo em que Silves pertencia aos Mouros, vinha o rei Mohamed a passear a cavalo quando encontrou um destacamento do seu exército que trazia reféns cristãos.

Entre estes estava uma lindíssima jovem, sumptuosamente vestida, acompanhada da sua aia, filha de um nobre morto durante o saque ao seu castelo. Mohamed ordenou que a nobre dama fosse levada para o seu castelo, onde a rodeou de todas as atenções, e lhe pediu que abraçasse a fé de Maomé para se tornar sua mulher.

A jovem chorou de desespero porque Mohamed não lhe era indiferente, mas a sua aia encontrou a solução: ambas renegariam a fé cristã apenas exteriormente para agradar ao rei mouro e possibilitar o casamento.
Passado algum tempo, nasceram três gémeas a quem os astrólogos auspiciaram beleza, bondade e ternura, para além de inteligência, mas avisaram o rei que este deveria vigiá-las quando estas chegassem à idade de casar. O rei não as deveria confiar a ninguém.

Passaram alguns anos e a sultana morreu, ficando a aia, que tinha tomado o nome árabe de Cadiga, a tomar conta das jovens. Quando estas eram adolescentes o rei levou-as para um castelo longe de tudo, onde havia apenas o mar por horizonte.

As princesas tornaram-se mulheres, mas embora gémeas tinham personalidades muito diferentes. A mais velha era intrépida, curiosa, porte distinto e de olhar insinuante e profundo. A do meio era a mais bela, de uma singular beleza e apreciava tudo o que era belo, as jóias, as flores e os perfumes caros. A mais nova era a mais sensível. Tímida e doce, passava horas a olhar o mar sob o luar prateado ou o pôr-do-sol ardente.

Um dia, contra todas as indicações do rei aportou perto do castelo uma galera com reféns cristãos, entre os quais se salientavam três jovens belos, altivos e bem vestidos.

Curiosas, as princesas perguntaram a Cadiga quem eram aqueles homens de aspecto tão diferente dos mouros. Cadiga respondeu-lhes que eram cristãos portugueses e contou às princesas tudo sobre o seu passado.
Como as princesas começassem a ficar demasiado interessadas com os jovens cristãos, Cadiga pediu ao rei que levasse as filhas para junto de si, sem lhe explicar a razão. Cavalgavam as princesas com o rei e o seu séquito a caminho de Silves quando se cruzaram com os três cativos cristãos que não respeitaram a ordem de baixarem o olhar.

As princesas quando os avistaram levantaram os véus e o rei, furioso, mandou castigar os cristãos insolentes. As princesas ficaram muito tristes mas conseguiram convencer Cadiga a arranjar maneira de se encontrarem com os jovens cristãos.

A paixão violenta desencadeada por aquele encontro foi alegria de pouca dura. Os três cristãos foram resgatados pelo rei português e iriam embora em breve. As princesas dispuseram-se a segui-los e a converterem-se à fé cristã antes de casarem com os nobres cristãos.

Cadiga rejubilava por conseguir resgatar para a fé que secretamente professava as filhas da sua ama. Foi então que a princesa mais nova se recusou a partir e a abandonar o pai.

Ficou para trás e, conta a lenda, morreu de tristeza pouco tempo depois.
A sua alma ainda hoje se lamenta e chora na torre do castelo nas noites sem lua.





Duo: Arlete Brasil Deretti Fernandes e Hildebrando Menezes


Duo: Arlete Brasil Deretti Fernandes e Hildebrando Menezes

A Criança que vive em mim.
.
Dei-me conta da criança que um dia fui,
Que vive em mim, e à qual sou grata,
Não poderia esquecê-la nem deixá-la morrer.
Foram e são tempos bons e inocentes
Sem as armadilhas perversas doutras idades
Que por vezes nos assaltam sem piedade

Presto-lhe a homenagem de meus sentimentos.
Sua evocação suaviza os difíceis momentos,
Com esta menina aprendo a viver.
E assim me faço intenso a evitar sofrer
Por não deixar o tempo ao espírito desaquecer
Tudo então ganha sentido e bela coloração

Observo através das recordações, nos jogos,
doces gestos, pensamentos e inclinações,
Isto revela-me a doçura da sensibilidade.
Que depois reponho e componho a saudade
Nos versos mais simples nas entonações
Entôo, canto e ouço as mais lindas canções

Ao recordá-la, enlaço-a à minha existência,
Ela me inspira, me alegra e me vêm sensações
Através de palavras e sorrisos inocentes.
Assim tudo ganha graça, sentido interessante

Porque eu sinto vibrar a força aqui presente
A impulsionar a alavanca que ergue a mente

A segurar atos, habilidades e pensamentos
Não quero cometer este crime simbólico
E por isto evoco a criança com satisfação,
Ela me dá a pedra de toque da emoção
Também não quero deixar morrer a jovem.
Que envelheço rápido a sentir vertigem

Minha existência é um todo, hoje sou do ontem
A continuação, e do amanhã a construção.
Assim minha vida não se perde em blocos.
São alicerces e sustentáculos da satisfação
Por isto admiro a simplicidade nos gestos,
Que formam o mosaico da autenticidade

Nas atitudes onde não tem lugar a maldade.
Vejo-me a colher flores com toda a liberdade.
Do natural ao transcendental das traquinagens
A subir em árvores de variadas espécies, a
Colher frutos e por insetos ser picada,
Chegando em casa com minha roupa rasgada.

Sentar-me ao colo de meus pais com carinho.
Dar e receber os afagos na maior ternura
No cheiro e no cafuné coberto de doçuras
Às vezes, sair disparada, a correr
da avó para não levar uma chinelada.
Tudo isso traz no seu bojo a eternidade

Na parreira colher deliciosas uvas, cultivadas
Com amor pelo meu pai. Sentir alegria de viver,
Sem tristezas, tudo era somente prazer.
E aqui nesse dueto eu revivi ao escrever
O menino, a menina que apesar de crescer
Esta ainda dentro de mim a me enternecer.


 



 


Texto de Liliana Josué - CRÓNICA SOBRE NÓS


Texto de Liliana Josué

CRÓNICA SOBRE NÓS

Sabes, estou no sítio onde eu muitas vezes queria ir, o meu preferido para aquelas circunstâncias , e tu, embora também gostando, preferias inequivocamente o outro, o grande, muito amplo, pejado de gente e vida. Mas tu não eras assim!... o meu, era o tal lugar não muito grande e tranquilo, colorido mas discreto, um nadinha melancólico como eu e que sempre me puxou a vontade de rabiscar qualquer coisa, como agora.

Cá estou eu a ouvir música artificial de piano enquanto penso em ti. Fazes-me falta, mesmo nos desencontros de opinião, de vontades e crenças. E tu, aí onde estás, longe, sentes falta de mim? nem que seja só um pontinho no peito? gostava que sim.

Sabes, já não vou comprar o queijo branco e ácido à mercearia do russo, não me apetece. Esse queijo só fazia sentido comido e disputado por ambos, assim não. Recuso as lojas de roupa barata na rua larga e comprida, sem ti aborrecem-me, tal como o restaurante chinês que também tinha sushi, o qual eu comi pela primeira vez com alguma relutância, mas depois até gostei.

Sabes, fazes-me falta, não tenho a culpa mas é assim. O frio por aqui é muito, tanto no corpo como na alma, creio que onde estás não seja melhor. Sei que nunca deste muita importância ao que escrevo, mas, mesmo assim, no tal lugar onde estou tive de o fazer. Já cá não vinha há bastante tempo, e ao entrar entrei igualmente em mim, acredita que também tinha saudades minhas.

Variávamos pouco os sítios distrativos e relaxantes, talvez por isso mesmo os evite. Parte das nossas vidas permanece muito concentrada nesses locais. Por lá tudo ficou parado à nossa espera. Sinto-te longe, mas acredito que a distância está no tempo em que nos sentimos sós.

Sabes, fazes-me falta, mesmo muita falta.

Liliana Josué






Sortido de Anedotas Recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Sortido de Anedotas Recolhidas na Net (Facebook sobretudo)

Sogra contra o casamento...

Durante uma das muitas discussões entre marido e mulher.
Diz esta:
- Que pena eu não ter seguido os conselhos da minha falecida mãe e nunca ter casado contigo!
O marido:
- O quê?! A tua mãe tentou evitar que casasses comigo?!
A mulher, lavada em lágrimas, acenou afirmativamente com a cabeça.
Volta o marido:
- Meu Deus! Como eu fui injusto para com aquela mulher…


Proveta alentejano...

Dois alentejanos estavam passeando. Diz um deles:
- Ó compadri, vocemecê sabi dizer alguma coisa da manêra como são fêtos os bebés proveta?
Responde o outro:
- Sê sim sinhori, amigo Chico! Olhi, até foi assim que a minha Maria e eu fizemos o nosso primêro filho!
Pergunta o primeiro muito interessado:
- Ah sim?!!! Antão, diga lá comé que foi?
Explica o segundo:
- Olhe, compadri, ela e eu íamos passeando pelo monti e a certa altura, ela parou à sombra duma olivêra e disse-me: ”Manéli, olha..., aprovêta”


A amante

Marido e mulher estão a jantar num belo restaurante quando entra uma rapariga absolutamente fantástica, que se dirige à mesa deles, dá um beijo apaixonado ao marido, diz "Vemo-nos mais tarde" e vai-se embora.
A mulher fita o marido, e furiosa pergunta:
- Quem diabo era aquela?
- Oh - responde o marido, - é a minha amante.
- Ah é? Pois esta foi a última gota de água! Para mim chega! Quero o divórcio!
- Compreendo - responde o marido, - mas lembra-te, se nos divorciarmos acabam-se as compras em Paris, os Invernos na República Dominicana, os Verões em Itália, os Porsches e Ferraris na garagem e o iate. Mas a decisão é tua.
Nesse momento entra um amigo comum no restaurante com uma loura estonteante pelo braço.
- Quem é aquela mulher que entrou com o Bernardo? -pergunta ela.
- É a amante dele - responde o marido.
- A nossa é mais bonita - responde a mulher.


Gravidez milagrosa

Uma solteirona descobre que uma amiga ficou grávida com apenas uma oração que fez na igreja de uma aldeia próxima.
Dias depois, a solteirona foi a essa igreja e disse ao padre:
- Bom dia, padre.
- Bom dia, minha filha. Em que posso ajudá-la?
- Sabe, padre, eu soube que uma amiga minha veio aqui há umas semanas atrás e ficou grávida só com uma Ave-Maria. É verdade, padre?
- Não, minha filha, não foi com uma Ave-Maria... foi com um padre nosso... mas ele já foi transferido!


Conversa entre beatas

Quatro mães católicas a tomarem chá:
A primeira, querendo impressionar as outras, diz:
- O meu filho é padre. Quando ele entra em qualquer lugar todos se levantam e dizem: «Boa tarde, Padre!»
A segunda não fica para trás e comenta:
- Pois o meu filho é bispo. Quando entra em uma sala, com aquela roupa, todos param o que estão a fazer e dizem: «Sua benção, senhor Bispo"!
A terceira, calmamente, acrescenta:
- Pois o meu é cardeal. Quando entra numa sala todos se levantam, beijam o seu anel e dizem: «Sua benção, Eminência!»
A quarta permanece quieta. Então, a mãe do cardeal, só para provocar, pergunta:
- E o seu filho, não é religioso?
Ela responde:
- O meu filho tem 1.90m, é bronzeado, com olhos verdes, pratica musculação e trabalha como stripper. Quando entra numa sala todo mundo olha e diz:
«MEEEUUU DEEEUS!!!»


"Três velhinhas reunidas para um chá da tarde:

- Bolas, acho que estou a ficar mesmo velha! - comenta uma delas. Ontem dei por mim com a vassoura na mão e não me lembrava se já tinha varrido a casa ou não.
- Isso não é nada - diz a outra. No outro dia eu dei por mim de pé, ao lado da cama, de camisola, e não sabia se tinha acabado de acordar ou se estava a preparar-me para dormir.
- Cruz credo - diz a terceira - Deus me livre ficar assim! E deu três batidinhas na mesa: toc-toc-toc. Olhou para a cara das outras e calmamente disse:
- Esperem um pouco que eu já volto! Estão a bater à porta!"


Já ouvi vários nomes...mas nozes não!

"O caçador e os esquilos
Dois caçadores, um experiente e outro novato, vão à caça em África.
Quando chegam ao local da caçada, o mais experiente diz para o outro:
- Ficas aqui e não fazes barulho nenhum.
O mais novato ficou quieto debaixo de uma árvore, enquanto o outro foi andando. Passados alguns minutos, ouve-se um grande grito. O mais experiente vem a correr, chega ao pé do outro e pergunta:
- Eu não te disse para não fazeres barulho?
- Eu sei e tentei. Até passou aqui um leão, olhou para mim e eu não disse nada. Uma cobra enorme chegou ao pé de mim, subiu por mim acima e eu não disse nada. Só que chegaram dois esquilos que subiram por dentro das minhas calças e começaram a conversar:
-Comemos aqui as nozes ou levamos para casa?"


Empregada Angolana

Fofoca de empregada Angolana
Aproveitando a ausência dos patrões, "Craudete", a empregada africana, fofoca com uma amiga de Luanda ao telefone:
- Maria, aqui nesta mansão é tudo fachada, nêga!
- Porquê, Craudete?, pergunta a amiga.
- Nada é dos patrão! Tudo é imprestado!
- Como assim?, pergunta a outra, curiosa.
- A roupa dos patrão não és deles, as dele é de um tal de
Armani, a gravata de um tal Pierre Cardin, os vistido dela és de uma tal Fatima Lopes e os carro é da Mercedes... Nada é deles, minina!
- Nossa, Craudete... Qui pobreza!
- O pió di tudo cê inda num sabe...
Outro dia o patrão tava no telefone falando com amigo dizendo que tinha um grande Picasso...
Pura mentira, Mana... É piquinininho, que dá dó.


E o Balde?

Sempre tive um tremendo tesão pela vizinha do apartamento ao lado.
Vivia pensando num jeito para traçá-la.
Um dia, conversando com o marido dela, ouvi dele:
- Preciso pintar meu apartamento, mas trabalho o dia inteiro e chego cansado.
Tentei contratar um pintor, mas o cara pediu os "olhos da cara" ...
Aí, tive a ideia:
- Não seja por isso. Estou de férias e pintar paredes é o meu hobby.
Posso fazer o serviço pra você, com prazer ....
O marido aceitou feliz, a oferta.
Bom papo que eu sou, mal comecei a pintar o apartamento e consegui levar a mulher prá cama.
Só não esperava que o marido fosse esquecer os documentos em casa e voltar, justamente nesse dia.
A mulher, ouvindo o marido abrir a porta da sala, correu para o banheiro e o marido me encontrou peladão, no quarto, em cima da escada, dando umas pinceladas na parede ....
Aos berros, perguntou:
- O que é isso, cara? ! ... Começou pelo quarto,... e nu ? !
- Ora, estou pintando de graça, começo por onde quiser.
- Mas nu ?
- Queria que eu manchasse a minha roupa com tinta ? ...
- Mas de «pinto» duro ? ! ? ! ....
- E onde é que eu vou pendurar o balde ?


Um Lisboeta, de passagem pelo Alentejo,

foi surpreendido com a notícia de que um amigo tinha falecido e seria enterrado naquela tarde..
Chateado com a situação, a perda de um amigo do peito, procurou saber onde seria o velório e foi para lá.
Ao chegar, viu que no caixão estava o morto inteiramente nu e ao lado um grande pote cheio de creme, no qual cada um dos presentes metia a mão e após apanhar um pouco, passava sobre o defunto.
Surpreendido pela cena, coisa inusitada para ele, aproximou-se da esposa e perguntou:
- Desculpe-me a ignorância, mas o que lhe estão a fazer, é tradição por aqui ?
A esposa respondeu:
- Não! É inédito! Nunca o fizemos. Ele é que pediu para ser cremado...



 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A esfinge de Édipo - Por Daniel Teixeira


A esfinge de Édipo

Por Daniel Teixeira


Todos nós sabemos que a famosa esfinge colocou a Édipo uma pergunta à qual ele respondeu correctamente. Sabemos que a Esfinge é um monstro, temos uma ideia daquilo que deverá ser a figura de um monstro mas pouco sabemos, em geral, sobre a Esfinge. Na verdade sempre nos interessou mais saber da correcção da resposta de Édipo do que da Esfinge.

Reza a história (das esfinges) que ela é fruto dos amores incestuosos da temível Equina e de seu filho Ortros, o cão de Gérion. Contudo, reza também a lenda que Hera (mulher de Zeus) a colocou às portas de Tebas a fim de punir esta cidade e o seu rei, Laios - pai de Édipo - culpado de amores contra a natureza com o efebo Críssipos.

Ou seja, a Esfinge, nascida do pecado, como se viu acima, é colocada  à entrada de uma cidade para punir um outro pecado, que, por acaso se passa com o pai de Édipo (este último pecado que será a famosa homossexualidade).

Como se fosse por acaso, e não se vá criticar de falta de imaginação os lendadores, a colocação da esfinge é feita no lado ocidental (não no lado oriental, não no lado norte, não no lado sul) e apresenta um enigma a cada viajante que se não lembre de entrar pelos restantes três lados da cidade, ou que se não lembre simplesmente de entrar pelo lado Ocidental mais ao lado Norte ou ao lado Sul do que o local onde está colocada a Esfinge. Aqueles que se não mostram capazes de resolver o enigma apresentado pela esfinge são devorados pelo monstro sanguinário.



Mas, apresentemos o monstro himself: A esfinge parece usar uma estranha máscara, de tal modo a sua face é impassível e já enigmática, daí que o termo esfíngico seja aplicado à falta de mobilidade expressiva.

Os seus olhos, imutavelmente vazios, parecem esconder alguma coisa de feroz e implacável, isto no seu desenho inicial, segundo se diz, desenho este (imaginado claro) que vem do tempo anterior aos deuses gregos, do tempo dos Titãs.

Aquela esfinge do Édipo, recriada pelos gregos já no tempo dos deuses, é, no entanto, feminina, sem dúvida, uma vez que a dúvida ficava em aberto na anterior descrição, não havendo definição de parecenças de género.

O seu corpo adelgaça-se (típico da definição feminina) ao ponto de se tornar o de uma leoa (também tipicamente feminina a descrição embora no plano temperamental) e o peito aparece, tal como a face, totalmente feminino.

Um pormenor andrógino, para aligeirar, e talvez como concessão envergonhada à anterior imagem - a original titânica - é o nascimento de asas no dorso, que mais tarde vem a funcionar como ideia antecipatória da conhecida figura do anjo que conhecemos hoje e sabemos que não tem género (nem masculino nem feminino) mas que aparenta ter sexo masculino.

O volume de personagens nestas lendas, gregas e posteriores, incluindo as romanas, embora enverede um pouco pela dispersão nalguns casos, bifurcando-se seguindo intervenções de vários deuses, acaba por se restringir neste plano quando se trata de descrever factos que relevem.

Parece haver da parte dos lendadores, provavelmente não os iniciais mas aqueles que deram seguimento ao contado uma intenção de simplificar de forma a facilitar a transmissão oral. Neste caso, e conforme veremos  mais à frente, a história de Édipo e da Esfinge aparece mesmo amputada de uma parte na sua versão mais conhecida.

Na verdade foram feitas pela Esfinge duas perguntas a Édipo e todos nós conhecemos largamente uma, mas não conhecemos pelo menos tão largamente a segunda.

A primeira é a tradicional pergunta sobre qual é o animal que tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à noite. É o homem, que na sua infância caminha sobre pés e mãos, que na idade adulta (meio-dia) se ergue sobre os dois pés e na velhice (noite) se apoia no cajado para caminhar.

Mas a outra, é assim: "Quais são as duas irmãs uma das quais dá nascimento à outra que por sua vez faz nascer a primeira?!"

A esta circular pergunta, respondeu Édipo: "Trata-se do Dia e da Noite!" (Aqui interessa dizer que Dia é feminino em grego o que nos faria esbarrar a nós que utilizamos o masculino para definir Dia).

Tendo assim acertado Édipo, a esfinge soltou um rugido terrível e acabou por se precipitar do alto da penedia, matando-se.

Por isso, e como conclusão, não nos esqueçamos nunca que a Édipo foram colocadas duas questões, uma que tem a ver com o homem e outra que tem a ver com o Universo. 

Seria contudo curioso analisar porque razão ambas as perguntas são basilarmente contraditórias porque a primeira fala de animal para definir o homem e a segunda fala do ser humano (duas irmãs) para apontar para o Universo. 


  

Romance acabado - Conto de Daniel Teixeira

Romance acabado
Conto de Daniel Teixeira


Eu tinha os condimentos todos na minha história, ou pensava que tinha, mas talvez eu tivesse exagerado na complexidade de dar volta ao romance e construir as páginas necessárias para que a obra ficasse satisfatoriamente aceitável.

Havia várias fontes de inspiração mas eram fontes ao nível superficial porque é praticamente impossível fugir às nossas referências literárias e o processo da minha personagem era bem diferente de tudo aquilo que seria pensável coadunando-se bastante com a minha anterior experiência de crítico literário.

Tratava este meu romance que acabou por não o ser do relacionamento entre o escritor e o público e a crítica também, embora esta última fosse referida de uma forma mais subtil.

O meu personagem era suficientemente inteligente para saber que podia dispensar alguns leitores, ou mesmo muitos, mas que estaria liquidado como escritor caso afrontasse a crítica de uma forma demasiado directa, de nada lhe valendo os numerosos prémios até ali acumulados. Seria irremediavelmente votado ao olvido, ostracizado.

A crítica que o tinha elogiado e continuava a elogiá-lo nunca o deitaria abaixo senão pelo olvido depois de o ter subido, isso sabe-se, eu sei como as coisas funcionam : poderiam aqueles que se tinham mantido mais discretos no seu apoio começar por meter uma ou outra opinião menos favorável, progressivamente, mas esse processo levaria muito tempo ou não seria nunca mesmo completado. Ele nunca seria reduzido a zero.

Para além disso, deste cuidadoso aspecto do seu relacionamento com a crítica e no outro campo onde se sentia sem peias, nas conferências, notava ele pela leitura das expressões das pessoas que uma parte grande do seu público então presente considerava que aqueles mitos, os mitos que ele criara, aqueles que ele pretendia desfazer mais não eram que manifestações da sua excentricidade.

Na verdade que coisa mais fácil de apreender pela grande massa, mesmo aquela que era muito, mas mesmo muito culta que todo ele era excentricidade?

Vestia-se quase como um mendigo, o cabelo encrespado parecia não ter sido regado havia dias ou mesmo semanas, o blusão surrado acumulava gordura no colarinho e nas mangas, a barba crescia-lhe desordenada e a sua forma de se expressar era extremamente difícil de ser entendida: entrava num caminho de discurso para logo se perder nas encruzilhadas e depois nas curvas e mais tarde regressava, passado tempo ao ponto de partida. Mas era bom a escrever, confuso, mas bom.

Assim, havia alguns planos que podiam muito bem ser considerados quase paranóicos no comportamento do meu personagem sobretudo quando se entendia - quando se entendia - o fio daquilo que ele dizia e que afinal era claro e simples para ele e para muita gente que o quisesse entender.

Mas, acho que as pessoas não o queriam mesmo entender quando ele falava: tinham criado dele uma imagem, tinham incorporado aquilo que ele escrevia na sua imagem dele e a razão da sua grande frustração devia-se não a ele mas sim aos outros que tinham de alguma forma feito daquilo que ele era aquilo que sempre pensaram e iam pensando dele sempre na mesma linha de construção.

Não havia mesmo nada a fazer, dizia eu mesmo ao meu personagem, porque eu dialogava com ele, procurava encontrar-lhe uma saída que lhe fosse satisfatória, que o levasse a permitir-me ao fim de umas duas centenas de páginas escrever finalmente a palavra «fim».

Ele chegara à conclusão que as pessoas não o liam tal como ele escrevia, quer dizer, que as pessoas davam um sentido diferente quer às suas palavras quer aos seus temas e ao percorrer quase o mundo em conferências tentou sempre explicar que não era aquilo que as pessoas pensavam o que ele queria dizer, porque essas mesmas pessoas faziam a identificação dos seus textos com ele mesmo e faziam as suas palavras, entendidas nesta perspectiva, como se fossem guias ou referenciais do seu comportamento real e ao tomá-lo como ídolo pensavam que a sua ligação comportamental pessoal era a ideal, aquela que deviam seguir.

Ora, de nada disso se tratava, repetia ele, uma vez e dezenas ou mesmo centenas de vezes quer em conversas particulares, quer em escritos, quer nas inúmeras conferências para as quais era convidado. A sua ideia - dizia ele - era a de criar nos seus leitores uma repulsa tão forte àquilo que os seus personagens representavam ou faziam que fizesse surgir neles, leitores, o desejo de uma moral e de um comportamento inverso.

E era dramática a situação dele, tentando combater moinhos que existiam de facto mas que não eram susceptíveis de lhe proporcionar nem sequer uma ilusória vitória.Tentei convencê-lo a suicidar-se, coisa que teria parecido uma coisa assim quase normal para quem trabalha na escrita a tal nível de complexidade e abstracção e que tem grande tradição na literatura e nas artes mas ele não aceitou a ideia o que me alegrou ao fim e ao cabo.

Para mim nada mais eficaz, nestes casos do que uma morte acidental, uma coisa que possa acontecer a qualquer um, uma doença em limite, enfim, uma morte normal se é que a morte é alguma vez uma coisa normal.

Mas tanto ele como eu tivemos receio que isso acabasse por funcionar como um incentivo maior à sua leitura, porque escritor morto tem mais sucesso. Havia a possibilidade, sempre tão seguida na literatura de o mandar para um sítio qualquer inopinado, uma reclusão num desconhecido local mas isso não resolvia nem o meu nem o problema dele.

Continuariam, os seus leitores à espera que ele voltasse e eu não conseguiria gerir a sua ausência de forma a meter o tão desejado termo «fim» no meu romance.

Que posso eu dizer mais? Nada mais tenho a acrescentar senão pedir desculpas por não ter escrito este romance. E daí, desculpa porquê ? Talvez este meu romance nem fosse lido senão por mim...bem talvez também o lesse a pessoa que fizesse a correcção e o ordenamento na editora, mas essa não conta.








A NOITE CAIRÁ de André Singer, Reino Unido, 2014


A NOITE CAIRÁ

de André Singer, Reino Unido, 2014, 75’, M/14

Recolhido em Cineclube de Faro



FICHA TÉCNICA
Realização: André Singer
Argumento: Lynette Singer
Fotografia: Richard Blanshard
Montagem: Arik Lahav, Steve Miller
Som: Aviv Aldema
Compositor: Nicholas Singer
Origem: Reino Unido
Ano: 2014
Duração: 75’



A 15 de Abril de 1945, as tropas britânicas libertaram o campo de concentração de Bergen-Belsen. Uma equipa de filmagens filmou as pilhas de cadáveres e os sobreviventes, provas irrefutáveis dos crimes cometidos pelo regime Nazi. O produtor Sidney Bernstein planeava usá-las num filme e convidou Alfred Hitchcock para o montar. Mas, depois do fim da Guerra, as forças de ocupação mudaram a sua política e em vez de confrontar a Alemanha com a culpa, preferiram instalar a confiança para tornar possível a reconstrução do pós-Guerra. E estas imagens de horror indizível foram confinadas aos arquivos. A Noite Cairá segue as pisadas deste filme inacabado conhecido como o “Hitchcock perdido”.

CRÍTICA
 
O documentário de Singer coloca o cerne da questão no projecto do produtor Sidney Bernstein, que devido a um conjunto de circunstâncias relacionadas com a instabilidade política do pós-guerra nunca chegou a ser completado. Até hoje: no final de 2014 o Imperial War Museum regressou às imagens recolhidas pelos soldados, num importantíssimo trabalho de digitalização e restauração. Um dos aspectos mais determinantes no projecto concebido por Bernstein, e que nunca chegou a ser verdadeiramente concretizado, está relacionado com o envolvimento de Alfred Hitchcock.

As imagens recolhidas pela equipa de Bernstein seriam o ponto de partida para aquele que seria o único documentário da carreira de Hitchcock. Uma das razões avançadas para a inviabilidade do projecto prende-se com a recusa em acolher o elevado número de refugiados judeus, tanto da parte dos Estados Unidos como do Reino Unido. Perante a intensidade visceral das imagens, temia-se que o documentário não cumprisse o seu propósito fundamental - que passava em larga medida pela demonstração da dimensão dos crimes cometidos pelo regime Nazi -, tornando-se antes numa ferramenta de pressão política; sensibilizada pela injustiça atroz cometida contra o povo judeu, havia a hipótese da população manifestar forte apoio ao acolhimento dos refugiados em território aliado. 


 
Por outro lado, e esta era uma questão primordialmente referente ao contexto do Reino Unido, haveria também o receio que a divulgação do documentário contribuísse para a desmoralização do povo alemão, frequentemente responsabilizado pelas ações do seu regime; com os primeiros sinais de uma guerra fria a poluir o horizonte político, a prioridade passavam também por evitar alienar um potencial aliado contra a então União Soviética. Em ambos os casos, é esta uma das dimensões da difícil relação entre o sentido último da história e a "imagem", e que parece fazer eco de algumas das reservas avançadas por Lanzamnn. Singer nunca entra em diálogo explicito com o debate lançado por Lanzmann, tão pouco nos moldes em que o realizador de Shoah colocou a questão, mas o que aqui importa sublinhar é a importância de uma reflexão sobre a relação entre imagem e a (re)construção da História.

Um dos motivos de maior interesse do documentário de Singer passa pela aproximação às sugestões e instruções dadas por Hitchcock à equipa de Bernstein. Para evitar suspeitas sobre a credibilidade das imagens, Hitchcock recomendou que se utilizassem planos e sequências longas – daí a insistência nos momentos em que é possível ver as campas a céu aberto com os corpos dos judeus, com soldados nazis junto das suas vítimas. Outra sugestão foi a de demonstrar a proximidade entre os campos de concentração e povoações civis, de uma maneira ou de outra implicadas naquela tragédia.


 
Algumas das imagens restauradas pelo Imperial War Museum vão sendo intercaladas ao longo de toda a exposição factual de A Noite Cairá, e o que é aqui também impressionante é a "nitidez" ou "realismo" que o digital vem trazer a este imprescindível documento histórico. É que a degradação das imagens de arquivo tendem a distanciar-nos do momento histórico em que foram recolhidas: é oposto da impressão provocada pela alta definição digital e da sua relação afetiva com o espetador.
 
A obra não nos apresenta uma leitura do sentido último do Holocausto, mas relembra-nos da nossa proximidade histórica com o horror do Nazismo.

O melhor: A contextualização da dimensão política do documentário.
O pior: Nada a apontar.

José Raposo, www.c7nema.net



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Jornal Raizonline Nº 263 de 12 de Fevereiro de 2015


Jornal Raizonline Nº 263 de 12 de Fevereiro de 2015

Coluna Um - Daniel Teixeira


Em tempos que ladram a nossa cultura passa

Verdadeiramente inspirador é este título embora a sua versão inicial dele difira. E daí talvez fosse também pouco correcto reescrevê-la aqui na sua formulação exacta porque no nosso entender só se lhe aplica o sentido e não o significado.

Na verdade a nossa caravana não tem cães que lhe ladrem, ou se os tivesse nem disso nos aperceberíamos, embora devamos ter presente que os tempos actuais ladram verdadeiramente, um pouco para todos ou então para muitos.

Depois temos também uma questão com uma outra proporcionalidade nos termos a utilizar do caso original e na transcrição que aqui fazemos. Na verdade somos talvez um pequeno grão de areia, um pequeníssimo grão de areia: Florbela Espanca faz referência à insignificância de um grão de areia que se desprende utilizando a expressão de Marco Aurélio. Apenas um grão que se perde...nada mais que isso.

Esta cultura da relativização das percas, quando as há, funciona assim para o Estoico Marco Aurélio e para a poetiza Florbela tendo em atenção que não se trata de uma redução qualquer, de uma redução de uma coisa.

Subtilmente, ou de forma subliminar, o que se afirma é que aquilo que se perde, o tal grão de areia, não afecta a estrutura da construção na qual se acredita: há coisas que sendo compostas por milhões de grãos de areia continuam na mesma. O espírito, a ideia, não se resume a uma soma de grãos (de areia), mas sim à riqueza da sua estrutura.

Por isso por aqui vamos nós todos, perdendo e ganhando alguns grãos de areia e uns e outros, os que se perdem e os que se ganham, recompensam-se entre si naquela ideia sempre acompanhada de que sem a perca de uns e sem o ganho de outros não haveria progressão: na ideia, nas coisas, nos homens, na cultura.

Que tenham uma boa semana são os meus desejos.

Daniel Teixeira

Ps: Este é o número 263 do Raizonline: na coluna da direita, na parte que se refere às etiquetas (O que aqui se escreve), encontrarão lá uma etiqueta com o Nº263-12/02/2015 que, aberto o link, dá acesso a todos os trabalhos publicados neste número.



«DIZEI-LHE QUE TAMBEM DOS PORTUGUESES ALGUNS TRAIDORES HOUVE ALGUMAS VEZES»


«DIZEI-LHE QUE TAMBEM DOS PORTUGUESES ALGUNS TRAIDORES HOUVE ALGUMAS VEZES»

Texto de Paulo em Filhos de um Deus Menor

«Dizei-lhe que também dos portugueses, alguns traidores houve algumas vezes» (Luiz de Camões - canto IV, estrofe XXXIII)

 Na verdade, com esta frase Camões não se referia ao ano de 2015 nem tão pouco ao século XXI, mas sim aqueles portugueses que nos tempos de D. João I, se passaram para o lado de Castela (Espanha) e combateram contra os interesses de Portugal.

Hoje, quando se coloca a questão da crise em Portugal, vêm os mais altos dignitários da Nação atribuir a culpa à conjuntura da Europa ou mesmo planetária fazendo, com isso, crer que Portugal é uma vitima inocente da «desgraça». Ninguém parece ter a coragem de Camões...

Porém, quando a crise passar - se passar - haja quem tenha a coragem de dizer que tal crise também se deveu a portugueses traidores que houve algumas vezes.

Embora São Paulo tenha dito que o Diabo não tem forma, que é «espírito dos ares» (o ar - mau das crenças populares) admite-se no entanto que Ele não possa ser o culpado da crise actual em Portugal. Na verdade o bicho das sete cabeças do Apocalipse, o veado da lenda da Senhora da Nazaré e o corvo de Santo Espedito, não podem ser arguidos neste processo.

Não porque sejam inimputáveis em razão de anomalia psíquica. Não. Os culpados são uma espécie de Diabos tornados ermitãos, isto é: aqueles que levaram uma vida dissipada e corrompida e, depois de velhos, se tornaram penitentes e filósofos. Estes não são inimputáveis, embora , por vezes, consigam dar a «volta» à justiça ainda que popular...

Neste ano de 2015 é preciso que o Povo saiba que Deus e o Diabo não são concorrentes, diga-se o que se disser; as clientelas é que diferem. Tal como o distinto advogado não aceita defender a causa do plebeu - excepto quando é mediática - , tal como o médico de nomeada não se interessa pelos clientes pobres, nem o ilustre pensador pelas vilezas deste mundo, assim os políticos endeusados - que são muitos - desconsideram as paixonetas dos seus «adoradores», as intrigas de bairro, as mortes na estrada, as reivindicações das classes profissionais distintas, a mesquinhez dos negócios domésticos e, de quando em quando, a bandeira de Portugal.

Infelizmente, hoje raramente se roga a Deus pelas coisas nobres mas, constantemente, solicita-se o Diabo para as coisas materiais (palácios, carros de alta cilindrada, piscina, dinheiro, prestigio pessoal). Esta divisão de papeis permitiu, nestes últimos anos, que a maioria dos que nos administraram tivessem solicitado mais do que rogado. Agora, o resultado esta à vista.

Muitos políticos, perante a actual crise, hão-de seguir a prudência popular neste ano de 2015, que aconselha a acender uma vela a Deus e outra ao Diabo, porque pensam assim: «Deus é bom mas não tenho de que me queixar do Diabo».


Paulo




E é sempre assim - Daniel Teixeira


E é sempre assim

Conto de Daniel Teixeira


Desde sempre que pensei que as coisas iam ficar por ali. Aliás desde o primeiro minuto que interiormente já pensava isso. Quer dizer, eu já a conhecia um pouco, muito pouco, é certo, mas sabia que havia uma diferença grande entre nós.

Talvez não fosse assim tão grande, essa diferença, afinal e talvez fosse eu mesmo que a fizesse grande. Talvez tenha sido assim tal como as coisas se passam nos dias das nossas vidas quando nem sequer queremos desejar uma coisa que sabemos não poder vir a ter.

O processo para mim é simples, ou é fácil de explicar e é quase evidente que eu o reconheça, o processo. Colocamos essa coisa que não podemos ter muito longe do nosso alcance para não vir a desejá-la e para não sofrermos por não a ter.

Era isso que eu pensava dela, ou era assim mesmo que eu pensava e por mais voltas que tivesse dado às minhas ideias sobre ela dificilmente teria pensado que as coisas não tivessem ficado por ali, quer dizer por ali onde eu as tinha colocado: ela inalcançável e eu sem ambições frustrantes sobre a forma como alcançá-la.

Depois, bem, depois, passado já bastante tempo de nos conhecermos as coisas deram uma volta, ou mesmo duas, se quisermos. Não sei exactamente como as coisas se foram passando e como o tempo conseguiu influir, mas houve um dia, aquele dia, em que as nossas distâncias diminuíram. E é por isso que eu disse acima que talvez tenha havido duas voltas porque acho que a nossa ideia se aproximou, convergiu, vinda de dois sentidos. De mim e dela.

Foi quase por acaso acho eu, talvez estivéssemos os dois precisados um do outro, ou cada um de nós de um outro. E o que se seguiu foi muito rápido.

Muito rápido mesmo foi aquele passo de proximidade e convergência.

Estivemos envolvidos durante toda a tarde e durante toda a noite: fomos dois rios sedentos de foz, duas cascatas deslizantes em murmúrio, dois corpos em reencontro, duas almas sobrevoando-se.

Depois, bem, depois, veio o sol, quer dizer, o sol da manhã começou a entrar por entre os cortinados, a derramar-se sobre os nossos corpos, sobre os seus cabelos, sobre o seu peito, sobre a sua face.

E foi estranho como me ficou a parecer, em poucos minutos ou mesmo em poucos segundos, que tudo aquilo era absurdo, que não estava tudo certo, que havia ali qualquer coisa ou quase tudo que não tinha lugar e que aquele não era o nosso mundo desejado e não era um mundo a desejar. Foi mesmo estranho, muito estranho. E foi isso que senti, estranheza.

Agora que penso nisso, já passado algum tempo, talvez não tenha sido estranho mesmo, nada estranho, aquilo que senti naquela manhã ensolarada naquele quarto. Foi somente o manifestar daquele meu desejo de manter as coisas como estavam antes, quer dizer, de a manter naquele justo ponto da minha ideia : ela inalcançável e eu sem ambições frustrantes sobre ela.


Daniel Teixeira

UMA CASA EM BEIRUTE (2) - Sylvia Beirute


UMA CASA EM BEIRUTE (2)

Por Sylvia Beirute

 

 um nome. as pessoas reduzem-se a um nome. a linguagem agrava as coisas. as pessoas também se reduzem a linguagens. na realidade o nome e tudo o que ele comporta, como o chamar, o entoar, o evocar, reduz-se a uma linguagem. quando a criança me chamou, disse o meu nome: «Carlaiz», disse ela. disse-o de uma forma diferente. disse-o como se se desmoronasse a linguagem subjacente.

eu nunca pensei no meu nome com esta sensação associada, concluí. nunca o meu nome conheceu uma matéria tão informe, sem opositor chamativo, com uma redução subliminar, própria do domínio do puro. Carlaiz, perguntava a criança, aceitas jantar connosco na sexta-feira? e eu pensava. eu não parava de pensar na primeira questão. disse «porque não?» com um sorriso como se pudesse fugir sem pernas. «ainda tenho de tratar do meu contrato, acabei de chegar à cidade», acrescentei.
 
 a questão filosófica mais importante numa pessoa sozinha no mundo, senão num espaço, maior ou menor, é a possibilidade (ou capacidade) de escolher a própria família. se for num espaço estrangeiro esse acolhimento é paradoxalmente mais efectivo. como que há um distanciamento natural entre quem recebe e quem chega, mas que aproxima pela descoberta, conquista, ou curiosidade radiográfica. mas que será isto? por que será assim?
 
 de seguida propus-me a não responder a quaisquer perguntas que pudesse naturalmente formular. trazia muitas questões, procurava respostas. respostas daquelas que não perguntam de novo. especialmente aquelas que não perguntam o mesmo que já fora perguntado.

 quando cheguei a casa rezei e chorei. tenho o hábito de fazer sempre duas coisas ao mesmo tempo. acoplá-las ainda que aparentemente de tal não sejam passíveis. rezar e chorar creio que, ao contrário de outras, são duas funções que se podem executar em conjunto. com o tempo, quando chorava instantaneamente, também rezava. era como se impusesse ao verbo um outro lado transitivo. e vivia a experiência. dir-se-ia que rezava o choro. certos contrários não fazem sentido. não podia dizer que chorava a reza, por exterior a mim.

comecei a viver em beirute uma outra dimensão. a minha casa seria decorada segundo outros padrões, podia começar relações do zero, esconder o meu passado, desarticular-me por completo no exercício do ser individual.

 no meu ouvido ainda permanecia o meu nome dito pela criança: «Carlaiz».

Sylvia Beirute



O primeiro beijo dá-se com o olhar. - João Manuel Brito Sousa


O primeiro beijo dá-se com o olhar.
 
Por João Manuel Brito Sousa


Ando por aqui. De manhã, entre as dez e as onze, mais onze que dez, saio à rua. Fecho a porta do prédio e ponho o pé na calçada. Estou na cidade que eu amo. Um amor feito de muitas recordações e saudade.

A cidade de hoje recebe-me bem. Estou aqui à dois meses e já conquistei algumas boas amizades. Entre outras, cito, por ser justo, Humberto Daniel, Jorge Gaspar e José de Sousa Pinto.

Sei que o meu coração não consegue odiar. Vou andando assim, tentando viver, um dia de cada vez. e percorro lugares e caminhos, montras e lojas, umas que já existiam de antigamente outras que nasceram agora.

O primeiro lugar que visito é a livraria do Pátio das Letras, onde normalmente compro um livreco, dos baratos. Depois, sento-me na esplanada e tomo um café. Aparece malta e conversamos um pouco. Sigo depois até ao mercado, onde normalmente revejo amigos..

O último foi o Jorge Custoidinho, grande, grande, grande amigo, dos tempos da primária. Estou a vê-lo no seu primeiro dia de escola. Fomos sempre amigos, eu e o Jorge, irmão doutra amizade enorme, a Fernanda Custoidinho, a quem aproveito para saudar.

O Jorge cruzou-se comigo, parou e cumprimentou-me. Trazia o brilho da amizade no olhar. E fez-me uma pergunta engraçada: «onde é que estás agora ?...».

Entupi … que raio, pensei.. Mas expliquei-lhe e aprovou o projecto. Que não garanto seja o mesmo daqui a quinze dias… Encontro-me com outros amigos, como o Custódio Serôdio, o Joaquim da minha terra, que emigrou para França anos 50 e tais e que me contou uma história interessantíssima... Que não posso deixar de a transcrever.

Tomámos um café e ás tantas ele pega na palavra e falou mais de uma hora seguida. Disse Joaquim:

«Em 1963 em Paris fui convidado por uns amigos a festejar o nascimento do Marquitos, filho de um preso político espanhol que tinha lutado contra Franco. Esteve 23 anos seguidos na cadeia, até que Franco, em 1943 fez publicar um decreto-lei que libertava todos os presos políticos com mais de vinte anos de cadeia seguidos.

Saíra cá para fora, mas tudo lhe parecia estranho e não se entendia muito bem com o brilho das luzes, com a dinâmica da cidade e por aí fora. Andava vigiado e sabia disso. Estivera preso dos 20 aos 43 anos e a sua vida não conheceu a Primavera, ou seja, nunca tinha amado nem sido amado, apesar de sentir o desejo.

Um dia encontrou um amigo doutros tempos, que depois dos abraços e cumprimentos lhe disse: «Mira, esta noche às diez por acá »…. «No te entiendo», terá dito o presidiário.

«às diez en la calle. Por acá, si»… E foi mesmo.. De tal modo que às onze dessa noite os amigos estavam num bar de meninas. Que tal ? perguntou o amigo…. Hum, respondeu o preso, que entretanto pensava no momento que estava a viver, coisa que sempre combatera…O amigo voltou a aproximar-se e o presidiário, parecia infeliz.

O amigo então apresenta-lhe Isabel, uma menina a quem entregou uma nota de 500 pesetas, dizendo-lhe: «Leva-o para o Hotel e fá-lo feliz» e virando-se para o presidiário: «Está aqui o teu primeiro beijo». Depois contas-me. Tenho de ir. Hasta mañana, ainda disse..

Vamos disse a menina. Para onde? Para o Hotel, óbvio. Espera, disse o presidiário. Vamos até um café, quero conhecer-te melhor. E foram. Conversaram e às tantas, disse ela. Vamos ? Fazer quê ? não sei fazer nada. Deixa, eu faço tudo. Foram. Aconteceu o quê? Não sei.

às quatro da madrugada o presidiário voltou para casa onde o irmão e a cunhada o esperavam preocupados. Mas… tudo bem. A cunhada pediu-lhe o casaco para o escovar. E ao fazê-lo, encontrou num dos bolsos um papel enrolado. Perguntou ao presidiário, o que é isto, Ferdinand ?...

Mostra, disse Ferdinand, que entretanto aceitou o embrulhinho. Desenrolou-o. Era a nota de 500 pesetas que Isabel introduzira no seu bolso do casaco e onde tinha deixado escrito: «Volta amanhã outra vez»…

Ferdinand foi para o quarto depois de dar as boas noites.. Pensou no assunto. E resolveu no outro dia passar por uma florista e comprar 500 pesetas de flores. E dirigiu-se depois para o Hotel onde tinha estado com Isabel, onde deixou as flores, pedindo que as entregassem á menina tal.

E escreveu num cartão que colocou dentro do «bouquet: «Para Isabel, o meu primeiro amor:»…

Dias depois encontrou o amigo.
 - Então que tal?
- Hum… respondeu Ferdinand
- Saiu o primeiro beijo?
 - Hum… disse ainda Ferdinand.
 - Então ? insistiu o amigo.
 - E Ferdinand, disse: «O primeiro beijo dá-se com o olhar»




Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira


Menina, Mulher, Mãe, Companheira

Menina despojada da sua meninice cedo demais,
Mulher desnudada da sua feminilidade
Mãe sem quem embalar com suavidade
 Companheira forçada a caminhar só pelo cais

Criança que vislumbra os barcos e sonha neles embarcar
Mulher que fita os barcos e anseia pelo seu marinheiro
Mãe que, para lá dos barcos, olha o horizonte vazio sem lastimar  
Companheira que se abraça para escapar da solidão e encontra no mar o seu cheiro

Menina que se ajoelha à beira-mar e reza com fervor
Menina crente, com o peito aberto e a alma selvagem
Mulher que é corpo e essência, paixão e entrega sem pudor

Mulher ardente que se entrega ao mar sem medo do vendaval
Mãe que embala o cadáver que encontra na margem
Companheira que silencia no peito a ânsia intemporal… 


Morreu a menina

As lágrimas caem do céu que vocifera ferozmente
A angústia e a raiva que traz nas nuvens que obscurecem o dia
Nesta terra gélida e desconhecida onde abriguei o espírito carente
De uma menina que morreu há muito, aquela que Via,

Morreu a menina inocente que clamava poesias ao vento
A que escrevia sentimentos para sobreviver
A que amava tão profundamente que raiava o sofrimento
A menina que eu não soube proteger…

O vento agride as árvores e força-as a recuar
As lágrimas do céu derramam-se sem cansaço,
E a que restou, luta para finalmente encontrar

Encontrar o caminho de onde se perdeu
O tão ansiado descanso no seu regaço
A certeza de que, afinal, algo ainda permaneceu…


Veneno

Tantas lágrimas derramadas num tempo já ido
Fluidas num rio de sal e angústia, lamacento de traição
Rio que corria revoltado e feroz, de mim condoído
Ferida de morte por um punhal afiado com desilusão…

E, ao nascer do Sol, o rio começou lentamente a secar
E no pântano viu-se nascer uma singela flor de esperança.
Os passos ficaram mudos na fuga e pensaram parar
E os raios ardentes acenderam a centelha voraz da aliança

Na lama da Razão ficou enterrado o punhal odiado
Encoberto, mas tão real quanto a desilusão que restou…
E ao anoitecer, quando a Lua do seu sono despertou,

O rio voltou a brilhar ao luar com um laivo esverdeado,
De veneno puro, que se impregna devagar e profundamente,
Para os laços dourados do amor macular, eternamente… 





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

ROBERTO GOMES – O Terno Branco

ROBERTO GOMES – O Terno Branco 


ROBERTO GOMES, acaba de lançar mais um livro de contos, A Guitarra de Jemi Hendrix, pela Criar Edições. Para os leitores que conhecem Roberto Gomes não haverá surpresa quanto a excelência de sua escrita ficcional. Mas, para os seus novos leitores, não será demasia dizer que ele é um dos escritores brasileiros contemporâneos mais importantes – daí minha indicação para que não deixem de ler o livro A Guitarra de Jemi Hendrix, que é composto por quinze excelentes contos. 

Mesmo voltado para a literatura – conto, novela, romance, bem como pela ficção infantil, com a qual foi distinguido com o Prêmio Jabuti – Roberto Gomes não se afastou da Filosofia, depois que se graduou, na Universidade Federal do Paraná, há algumas décadas. Na Universidade, não se  limitou a exercer a docência, também levou seus conhecimentos filosóficos para o livro, como é exemplo Crítica da Razão Tupiniquim, que há algumas décadas vem sendo adotado por muitas escolas do nosso país, e com edições renovadas.

Como nosso propósito nesta postagem é dar conhecimento aos leitores do lançamento do novo livro de contos de Roberto Gomes, vamos transcrever abaixo o conto O terno branco, do livro A Guitarra de Jemi Hendrix:


 
O terno branco

Roberto Gomes


Ele já não tinha nome.

Era conhecido pelos apelidos, que eram muitos, dependendo de onde estivesse, dos amigos a sua volta, se era madrugada e estava numa boate, se anoitecia e estava num boteco. Só não tinha um apelido para as manhãs, quando passava dormindo, roncando demasiado alto para seu corpo pequeno, produzindo um estardalhaço sonoro que parecia capaz de quebrar vidraças.

Acordava pontualmente às duas da tarde, a boca queimando, os olhos vermelhos, que dizia infestados por espinhos, não tem mesmo um espinho neste olho?, perguntava, abrindo as pálpebras com dois dedos em alicate. Saía da cama gemendo, ia ao banheiro, enfiava a cabeça debaixo da torneira e, num mesmo gesto, esticava a mão para apanhar a garrafa de conhaque que deixava no armário ao lado. Bebia no gargalo e estalava os beiços.

Sempre vestido de preto.

Uma calça e duas camisas pretas e puídas, que fediam a mil noites e muitas mulheres da vida. Só permitia que fossem lavadas às segundas-feiras, quando não acordava às duas horas da tarde e seguia roncando pelo resto do dia. Saía da cama quando já era noite. Pedia um café embora soubesse que ninguém o atenderia e, cruzando o corredor rumo à cozinha, declarava:

- Segunda-feira é mesmo um dia que não presta pra nada.

Tomava café frio, olhava com desinteresse para a televisão, diante da qual a mulher e a filha estavam plantadas como duas samambaias. Ia ao banheiro com algum estrondo, empestando os ares da casa, batia portas, deixava cair os sapatos quando tentava calçá-los, atrapalhava-se com a camisa do pijama, que enroscava nos braços. Depois desta encenação que repetia com uma precisão de relógio, dizia puta que o pariu que ninguém fala comigo nesta casa! e, parado no meio da sala, decretava, com ênfase:

- Segunda-feira é mesmo um dia que não presta pra nada!

E voltava para a cama, onde se punha a fazer cálculos na tentativa de descobrir há quantos anos ninguém o ouvia, há quantos séculos não tinha notícias da filha, que estava lá plantada no sofá, como era mesmo o nome da desinfeliz?, há quanto tempo não conversava com o filho, que cuspia para o lado quando cruzava com ele? E a mulher, quem era ela?

Depois, dormia aos solavancos até mergulhar num sonho onde havia uma mulher que lhe dizia: vem. Ele ia, sentava-se à mesa, contava casos, anedotas, pregava apelidos em quem estivesse por perto e fazia com que todos rissem muito e batessem nas suas costas dizendo que era mesmo um sujeito admirável, uma figura. Acordava na terça-feira, às duas horas da tarde, pontualmente. E recomeçava.

No mais, terminava certas noites emborcado numa calçada, acordava com dois policiais cutucando suas costelas com o coturno. Noutras, abria os olhos numa casa desconhecida, no meio da madrugada, diante de uma cortina de plástico que era um escandaloso campo coberto com flores vermelhas e amarelas. Ou era erguido por dois braços fortes e jogado na rua, onde quebrava um dente contra o meio-fio. Ia até a farmácia, passava mercúrio cromo na boca, nos braços, na testa, pregava alguns esparadrapos pelo corpo e entrava no primeiro boteco.

Foi assim até o dia em que chegou em casa num domingo à tarde, provocando alvoroço na vizinhança, o que ele fazia em casa àquela hora?, o que estava acontecendo? Atravessou a curiosidade daquela gente cretina sem se deixar abalar e entrou em casa com um pacote muito jeitoso debaixo do braço. Cumprimentou a todos, não recebeu resposta alguma, a filha na frente da televisão, a mulher fabricando os biscoitos com os quais sustentava a casa, o filho cuspindo para os lados como se fosse um preto velho de macumba.

Entrou no quarto e, como sempre, deixou a porta aberta. Todos viram quando abriu o pacote com cuidado e dele retirou um terno branco, claríssimo, e uma camisa também branca. Viram quando estendeu o terno sobre a cama e dependurou a camisa num prego ao lado do armário. Despiu-se, jogando no chão o terno preto e a camisa preta, e estava nu, pois não usava cuecas, uma de suas implicâncias. Viram sua exibição inocente de carnes flácidas, a bunda murcha, o sexo desatento entre as pernas.

Então ele vestiu a camisa branca, as calças brancas, o paletó branco. Olhou-se no espelho balançando a cabeça e, quando se virou para a porta, a mulher, a filha e o filho fizeram de conta que não estavam olhando e mergulharam de novo na tela da televisão. Ele veio até a sala, perguntou se ninguém ia lhe oferecer um café. Não teve resposta. Foi à cozinha e tomou um copo de água, derrubou uma caneca e, quando retornava ao quarto, disse:

- Amanhã é segunda-feira e segunda-feira não serve mesmo pra nada.

Quando entrou no quarto, os três observaram o modo cerimonioso como ajeitou o terno branco no corpo, acomodou os punhos da camisa, aprumou o colarinho, alisou os lençóis, afofou o travesseiro e se deitou na cama. Ficou muito reto, parecendo maior do que era, as mãos sobre o peito, os sapatos apontando para o teto, o nariz muito fino interrogando contra a janela ao fundo.

Logo estava roncando aos arrancos. O filho fechou a porta do quarto, a filha aumentou o volume da televisão. Estranharam quando ele não acordou ao anoitecer da segunda-feira, pedindo café e reclamando que segunda-feira não serve mesmo pra nada. Só às duas horas da tarde de terça-feira abriram a porta do quarto.

- Acho que não roncava desde as dez horas de ontem, a filha explicou ao médico que foi chamado às pressas.