segunda-feira, 16 de março de 2015

Bento - Conto de Abílio Pacheco


Bento - Conto de Abílio Pacheco
 

No bar, à noitinha, homens jogam sinuca, bebem, falam das mulheres que passam na rua... Bento sai do trabalho; cansado, camisa batendo de suor, para em frente ao bar, entra, senta, pede uma cerveja... bebê o primeiro copo de um só gole e pensa na vida:

A casa de tábua que há muito já quisera ele mesmo construir de alvenaria; até comprara um milheiro de tijolos, erguera uma parede, começara uma outra e o dinheiro não dera para mais nada.

A mulher dava aulas na única escola do bairro, uma creche pequena de apenas três salas, todas de madeira. A filha mais velha, 09 anos, cuidava da casa, limpava, fazia a comida lavava as ouças, cuidava do caçula, de dois anos, pela manhã, à tarde ia estudar e o deixava com a outra irmã de seis anos na casa de uma parenta da mãe que chamavam Tia mesmo sem saber se era realmente tia ou não.

Bento pede outra cerveja, nisso chega um amigo que senta e pede um copo.

O amigo, também pedreiro, fala futilidades; Bento olha a rua e deixa o olhar se perder, o pensamento vaga ao som da voz do amigo e de um breguinha que toca no bar...

Lembra de quando era menino, o pai chegava tarde da noite em casa, sempre bêbado; a mãe, impaciente, esperava na porta olhando a rua de uma extremidade a outra, ele acordava ouvindo os passos macios rondando a casa, levantava e dizia ir ao banheiro, quando se deitava custava a dormir, e às vezes só dormia depois que o pai chegava, brigava, xingava e até batia na mãe; outras vezes conseguia dormir e acordava ouvindo o pai brigando; triste, no quarto, Bento chorava, pensava besteira fazia planos, enchia-se de esperança no futuro; dormia...

O amigo pede outra cerveja e continua conversando... «Aquela ali, olha!» aponta uma vizinha que passa «Vive de chamego com um moleque que passa o dia vadiando pela rua com outros da mesma laia, tem gente com gosto pra tudo...» balança a cabeça negativamente e vira o copo na boca.

Bento que já não divaga mais, se ajeita na cadeira, espicha o pescoço olhando a vizinha que sobe a rua; finalmente dá atenção ao amigo.

Ficam conversando futilidades, esquecem os problemas que carregam.

Enquanto bebem, o tempo corre na rua com os carros que passam... vai ficando mais tarde... mais tarde... e o tempo passa a andar lento com as poucas pessoas que vagam na rua quase deserta.

As garrafas de cerveja se reúnem embaixo da mesa; Bento levanta trôpego, vai ao banheiro, escuuuuuro... e miiiiiijaa...

Voltando, olha as garrafas vazias sob a mesa, senta e vê que o amigo parece meio esquisito, a noite estranha, a rua torta, o corpo tonto... os olhos teimam em não mais ficarem abertos...

Bento apaga... A noite continua a mesma com o tempo suave deslizando no asfalto rua abaixo...

-- Acorda , Bento! Já é hora de ir trabalhar. – a mulher o chama da porta do quarto, a cabeça dói de ressaca, o corpo pesado, os olhos irritados com a luz; fica rolando na cama, depois levanta e vai banheiro ouvindo a mulher contar que o amigo e mais dois trouxeram-no para casa, deram-lhe um banho e um café amargo que ela passara às pressas.

Sentando à mesa, Bento lembra do pai que chegava porre em casa e brigava e xingava e batia na mãe...

Sai para o trabalho com a mesma lembrança da infância e vai recordando os pensamentos, a esperança que tinha, os planos que fizera para o presente...

Em casa, a filha de 06 anos pergunta:
-- Mãe, por que o papai bebe? – a mãe, no jirau, deixa o olhar perder-se triste no azul do céu enquanto os olhos umedecem.

A filha, fica sem resposta... 



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