sábado, 24 de janeiro de 2015

Jornal Raizonline nº 262 de 26 de Janeiro de 2015


Jornal Raizonline nº 262 de 26 de Janeiro de 2015

COLUNA UM- Daniel Teixeira

Alteração gráfica do Jornal

Por razões relacionadas com as alterações verificadas nos sistemas de busca dos motores (de busca) resolvemos (ainda que e sempre a título experimental) transferir o nosso Jornal, até agora publicado em servidor com domínio próprio (raizonline.com) para publicação a partir deste número num dos nossos blogues.

Os números anteriores a este 262º número encontram-se no respectivo site acima referido (http://www.raizonline.com/) e por lá vão ficar, pelo menos até ao mês de Setembro, altura em que se decidirá se se continua a pagar o domínio ou não.

Na verdade, em termos de alcance de leituras temos visto reduzir-se o número de clics no Jornal, o que se pode atribuir a mais que um factor.

O facto de termos até agora colocado um resumo de cada postagem num outro Blogue (que não este) mostra-nos que é relativamente menor o número de pessoas que vão até ao Jornal ler os textos completos do que aquele que se fica pelo resumo apresentado no Blogue.

As razões deste facto são também mais que uma: uma parte das pessoas não repara no link colocado abaixo de cada postagem e considera (os leitores não assíduos ou sem trabalhos publicados, sobretudo) que lhes satisfaz a amostragem que fazemos considerando mesmo que o nosso resumo constitui a totalidade do texto.

Assim, razões de facilidade de busca e facilidade de acesso aos textos totais são as motivações que nos levam para já a fazer esta alteração: de site (domínio próprio) para Blogue da Google.

Ainda uma outra razão, embora de segunda ordem, nos leva também a esta alteração: estamos (no Jornal em site) com uma centena de páginas, renovadas em grupos de vinte / vinte e cinco periodicamente, o que faz com que os textos fiquem, na nossa opinião, demasiado tempo online num mesmo exemplar. No caso do Blogue, eles ficarão até mais tempo online, mas de acordo com a sua distribuição número a número.

Este número tem o seu índice geral no seguinte link (Índice) mas como é o primeiro desta série poderá ser acedido calmamente através do sistema habitual nos Blogues (postagem anterior).

Esperamos ir resolvendo alguns problemas que entretanto possam vir a surgir e muito sinceramente achamos que este sistema tem futuro nas nossas publicações uma vez que praticamente toda a gente conhece o mecanismo dos blogues.

Que tenham uma boa semana são os meus desejos.

Daniel Teixeira  




 

Dias de cinema - Por Carlos Guerreiro


Dias de cinema

Por Carlos Guerreiro

Retirado do Blogue Aterrem em Portugal


A memória dos 70 anos do final da II Guerra Mundial traz até Lisboa um conjunto de documentários e filmes que vão passar até aos primeiros dias de Fevereiro. No Cinema Ideal, na Rua do Loreto, passam diariamente até 4 de Fevereiro - três documentários de forma sequencial.

Assim, a partir das 16 horas, passa “O último dos injustos”, seguido às 20 horas de “O homem decente” e, por fim, às 21.45 horas, de “A noite cairá”. Aos fins de semana, às 11 horas, é tempo de rever, na mesma sala, “O grande ditador” de Charles Chaplin.

“O último dos injustos” é uma viagem a dois tempos ao Gueto de Theresienstadt, conduzida por Claude Lanzmann. Em 1975 ele entrevistou o último dos sobreviventes daquele que os nazis venderam como um gueto modelo.




No Cinema Ideal podem ver-se documentários sobre a II Guerra Mundial até ao dia 4 de Fevereiro.

Em 2012 ele regressou para recordar esse tempo. “O homem decente” é o retrato da vida e da mente do “Arquitecto da Solução Final”, Heinrich Himmler, feita através de de cartas, fotografias e diários encontrados na casa de família dos Himmler em 1945.

Em “A noite cairá” recupera as imagens filmadas pelos britânicos nos campos de concentração em 1945. O objectivo passava por editar um filme que servisse para mostrar aos alemães os horrores em que tinham participado.

Questões diversas adiaram a montagem da película que, com o surgimento da guerra fria, ficou esquecida em prateleiras. Também há cinema relacionado com a temática da II Guerra Mundial no Cinema S. Jorge. Trata-se de uma iniciativa do Goethe Institut, que preparou num ciclo temático com algumas das produções mais conhecidas da DEFA sobre o nacional-socialismo produzidas pós 1945.


No Cinema S. Jorge começa no dia 26 um ciclo com filmes Alemães sobre o Nacional-Socialismo pós 1945.

Tratam-se de cinco filmes, realizados nos anos 50 e 70, que vão passar a partir dos dia 26 naquela sala às 21 horas. O primeiro filme é “Estrelas”. Segue-se, no dia 27, “Nu entre Lobos”, a 28, “Jacob, o Mentiroso”, a 29, “Eu tinha dezanove” e a 30 “Os assassinos estão entre nós.

Para obter mais informações pode consultar a nossa Agenda ou ligar-se ao site do Goethe Institut  na iniciativa.

Bons filmes e bom fim de semana…

Carlos Guerreiro




O SONHO É AQUELE LUGAR QUE SEDUZ, COMO SE SE DEIXASSE APRISIONAR - Crónica de Gociante Patissa


O SONHO É AQUELE LUGAR QUE SEDUZ, COMO SE SE DEIXASSE APRISIONAR

Crónica de Gociante Patissa

Os homens gabam-se ter sonhos, quando são na verdade estes que carregam aqueles. Não posso dizer que tenha até aqui inventado a asserção. Temos os sonhos, são nossos, mas não mandamos neles, nem os mudamos. Ou mudamos? Parece-me mais certo ver os sonhos como a não aceitação da impotência, da circunstância vivida.

O sonho, enquanto meta, mais não é do que o tempo indeterminado entre o hoje e o amanhã promissor, algures na manivela do tempo. Certa pessoa, no contexto de trabalho, chegaria a escandalizar-se diante de uma resposta minha em 2006. Questionado sobre o que sonhava ser em termos profissionais, justamente no segundo ano de fracassada tentativa de entrar para a universidade, disse-lhe eu que não levávamos para a esfera do sonho a coisa, que o sonho não contava onde tudo escasseia.

A gente até já sabe com o que se pode, ou não, sonhar. Se limitadas são as almas, também o são por solidariedade sonhos. Mas, incorrigíveis, sonhamos sempre, talvez porque o onírico tem a chatice de ser multidirecional. Que remédio!

E eu sonhava, mais ou menos a partir de 1996, com a possibilidade de ver um dia um livro numa vitrina de livraria... com o meu nome na capa.
Seria o chamado sonho de Gutenberg? Ora, tal sonho carregou a minha imaginação, a auto - superação e as energias até 2008. E sem que eu pudesse controlar, o sonho metamorfoseou-se, porque ele, o sonho, lida mal com a ideia de chegar ao destino, o sonho é afinal um caminhante de só começar.

Agora o sonho passou a ter na mira a primeira oportunidade de ser entrevistado para falar (não sobre, mas) de um livro meu, discutir, se tal se aplica, o interior.

Até agora só tenho recebido da imprensa oportunidades para anunciar e informar - o que desde já agradeço, para não ser ingrato, posto que, de tão recorrente, pode ser um indicador da fatia de atenção que me é merecida enquanto criador do campo da escrita.

Foi por isso que recebi com satisfação, no começo de uma entrevista a propósito da novela «Não Tem Pernas o Tempo», uma pergunta muito pertinente, de um entrevistador que tinha um exemplar com considerável antecedência. "Vou-te apresentar como escritor?" Essa pergunta é ainda menos complexa do que a outra, para a qual me engasgo sempre: "Qual é o título do livro?"

Esta sim, é uma grande questão! Desfez-se pois o segredo. O sonho mesmo é chegar a ser lido e inspirar guião, mas sei também deste carácter fugidio de um sonho, pelo que me darei por avisado, se disso não passar.
 
Qual é mesmo o título do livro?

Gociante Patissa, Benguela 14.12.14


 



O DOCE E SUAVE PRAZER DO ENVELHECIMENTO - Joaquim Nogueira


O DOCE E SUAVE PRAZER DO ENVELHECIMENTO

Por Joaquim Nogueira


… recuo algumas décadas (intensamente vividas) do historial da minha vida e lembro que nada me fazia pensar, naquelas alturas, do momento em que viesse a “absorver” a inevitabilidade do envelhecimento… são alturas da nossa vida em que nunca se pensa nos anos que passarão (muito rapidamente) a voar e, um dia, sem notarmos a não ser duma forma muito patética que já passamos dos 50… 

mas, maravilha, ainda aí a nossa postura é de alegria: atingir a “meta” dos 50 é algo para festejar e a festa que a família e os amigos nos fazem é algo que jamais esqueceremos (relembro a minha algures nos finais de 1995)… depois, outra vez, muito rapidamente, de novo, atinge-se a barreira dos 60… nessa altura somos levados a pensar nos familiares que, anteriormente, chegaram a esse marco… depois, bem depois é um ápice e o dia a dia é tão veloz que as 24 horas parecem minutos a escapulirem por entre os dedos…
 
… e sorrio… sorrio porque por mais estranho que pareça, sinto-me feliz… sinto que já vivi tempos fantásticos… lembro-os com saudade é certo mas com a alegria de ter vivido cada momento, cada minuto como se fosse uma hora e o tempo não acabava e o dia era imenso, enorme, longo, perfeito e talvez eterno…
 
… estou, pois, numa altura da vida em que os dias passam com uma rapidez estranha mas, ao mesmo tempo, aceito esse facto como algo que assim tem de ser… e sorrio de novo por saber que estar aqui e agora foi o resultado do vivido nos momentos antes… e sinto uma serenidade estranha, algo tão diferente de todo o stress que foi então a constante absoluta dos dias que vivi e olho para o dia de amanhã como a meta que tenho de alcançar com a mesma calma com que alcancei o dia de hoje…
 
… viver, pois, o dia a dia num suave e doce abraço com o tempo que me é concedido, é a razão para olhar para a “frente” sem medos, sem receios, sem preconceitos…
 
… aos mais novos, aos meus filhos, aos meus netos, a toda a gente que está vivendo a vida que eu já vivi apenas digo que vivam todos os momentos com intensidade, que agarrem os minutos fazendo deles eternas horas de alegria… que não pensem em coisas tristes porque viver é uma bênção e como tal deve ser absorvida…
 
… espero viver ainda muitos anos e em cada dia que viver amanhã e nos seguintes eu sinta que foi mais um minuto que tive para absorver tudo o que o Universo me deu, me dá e me dará… e saber que afinal de contas o envelhecer é suave e doce como um gelado que nos escorre pela garganta e nos dá um saboroso, doce e suave prazer…



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Prosa Poética por Ilona Bastos


Prosa Poética por Ilona Bastos

Olhares

Tudo se resume a um olhar sobre o mundo e ao desvendar das maravilhas que encerra.

Já em criança o fazia: colhia flores, apanhava pedrinhas, folhas, conchinhas, e trazia-as para casa.

Acabavam, depois, por secar entre as folhas de um livro, perder-se ou ir parar ao cesto dos papéis, essas jóias tão acarinhadas. Agora não! Encontrei um cofre, que é este blog.

Aqui coloco as folhas e as flores que trouxe da rua. Aqui os guardo, expondo-os aos olhos do mundo, os vídeos que me comoveram, as músicas que me deliciaram, os excertos de livros que se me tornaram inesquecíveis.
 
Eis, portanto, as minhas jóias - o meu cofre!



 
Quando te abrigavas no meu ventre

 
Quando te abrigavas no meu ventre, e eu descia pausadamente esta avenida suave e curva, olhava, por sobre o muro do jardim, as árvores, as flores, os carreiros pejados de folhas e dizia: Vê, meu filho, meu amor! Quanta beleza te espera cá fora!

E quando ouvia os gorjeios dos pássaros escondidos nas ramagens, sorria e murmurava para ti: Escuta, que maravilha! Cantam, as aves, de alegria, por saberem que vais nascer!

E em todos os momentos contigo conversava, confidenciando-te segredos, prometendo-te um mundo encantador, cheio de felicidade, contando-te da ânsia de sentir-te nos meus braços, aconchegar-te junto ao peito, criar-te.

Recordo-me de tudo isto agora que já és homem, e que uma incógnita me atordoa.

Pausadamente desço a avenida, como o fazia então – e também hoje faço o meu olhar saltar o muro baixo, atravessar as grades e espraiar-se pelo jardim, caminhar pelos carreiros, acariciar as sebes, deter-se nas bagas vermelhas e redondas de um arbusto, voejar por entre as folhas douradas que aqui e ali se desprendem dos ramos, planam um pouco e aterram suavemente nos caminhos.

A beleza é semelhante à de outrora. Também o meu espírito se deleita com a Natureza. Mas a dúvida, subtil, insidiosa, macula, incerta, a minha felicidade. Não sei, agora, o que se abriga em mim.



Acerco-me da janela e fico a observar a chuva a bater

Acerco-me da janela e fico a observar a chuva a bater, a colar-se ao vidro por fracções de segundo e a escorregar lentamente, deixando atrás de si um rasto brilhante.

Preparo-me para recebê-la condignamente: visto-me, calço-me, coloco a bolsa a tiracolo, pego na pasta e saio.
 Cá está a chuva prometida!

Estranhamente, os outros parecem não vê-la… Deixam os edifícios, caminham pelo passeio, saem dos automóveis, atravessam a rua desprotegidos, como se a não sentissem. Alguns levam mesmo o chapéu-de-chuva no braço, como se de um adereço inútil se tratasse. Só eu subo a rua de gabardina abotoada, guarda-chuva a cobrir-me, chapéu enterrado na cabeça.
 Espanto-me. Será que só chove em mim?

Detenho o olhar nas poças de água, onde as gotas, com um só toque, desenham círculos sucessivos, concêntricos, num ondear expressivo. Também sobre o fundo das árvores, escurecidas pelo céu nublado, confirmo as rectas que a chuva risca num movimento ininterrupto.
 Será possível que só eu veja e sinta a chuva?

Eis que alcanço a avenida e as dúvidas se dissipam. Aí, a chuva é real nos transeuntes que se deslocam apressados, de botas calçadas, guarda-chuvas abertos, correndo da esquerda para a direita e desta para a esquerda, alheados de tudo o que não seja o seu destino. Nas paragens, recolhem-se debaixo dos abrigos, olhos abertos, expectantes, ou sobrancelhas franzidas.

Os autocarros chapinham junto à calçada, e aguardam pacientemente que os rapazes da escola atravessem a passadeira, pesadas mochilas às costas, capuzes na cabeça, mãos nos bolsos, passo decidido. Por vezes, pequenas corridas. E as meninas, de cabelos ao vento, conversam sem parar. Os automóveis sibilam, limpa pára-brisas em acção, avançando sobre o passeio, para deixar uma criança, arrancando depois, com sofreguidão, nos sinais luminosos.

Sim, isto é um dia de chuva – reconheço.

E lanço então os meus passos sobre a multidão em movimento.




O longo Inverno - Conto por Arlete Piedade


O longo Inverno

Conto por Arlete Piedade

Era inverno e chovia há muitos dias. Já tinha passado o Natal e outro ano se tinha iniciado e não parava de chover. O mês de Janeiro estava quase no fim e desde o princípio de Dezembro que chovia sem parar.

Francelina era a mais velha das quatro irmãs que viviam naquela casa quase isolada no pequeno aglomerado de casas, longe da aldeia, no meio dos campos. A norte era rodeado de pinhais e a sul, uma vasta campina atravessada de um ribeiro de água fresca e cristalina, estendia-se a perder de vista em direcção ás aldeias vizinhas.

Na margem do ribeiro, um velho moinho de água, moía incansável o trigo e o arroz, necessário á vida da aldeia e nos campos alagadiços, criava-se arroz, milho, e cultivavam-se hortas e vinhas.

Todas as famílias, tinham o seu pedaço de terra na campina, mas os pais das quatro irmãs, tinham também outras propriedades na aldeia vizinha de onde o seu pai era natural. Mas eram terrenos cultivados com oliveiras herdadas de varias gerações.

Todos os anos no outono as irmãs iam apanhar as azeitonas para levar para o lagar e extrair o azeite dourado que era depois guardado nas talhas em barro durante o inverno longo.

Durante o verão, Francelina e as suas irmãs, Amélia, Laura e Gertrudes, iam trabalhar nos campos de cultivo intensivo perto da cidade, a mais de 30 kms de distância. Estava-se em 1950, os tempos ainda eram de recuperação da grande guerra, e as irmãs deslocavam-se a pé acompanhadas do seu burro, que carregava as ferramentas de trabalho e os mantimentos necessários para a sua subsistência, bem como alguma roupa.

A sua mãe sempre doente, ficava em casa na companhia do marido que era pedreiro. Mas naqueles tempos, as casas eram construídas de adobes, que eram grandes blocos feitos
de terra prensada e seca dentro de moldes de madeira, e que eram retirados e colocados nos lugares, para fazer as paredes, transportados ás costas, pelos pedreiros e seus ajudantes.

Então a somar á doença da mãe, juntava-se o cansaço do pai, prematuramente envelhecido e sempre com dores nas costas. Quando as filhas chegavam dos campos estavam á espera da sua magra jorna, para pagar as contas do médico e dos remédios, bem como da mercearia da aldeia, que lhes dava crédito porque sabia que as filhas iam trabalhar e ganhar algum dinheiro.

Mas durante o inverno, não havia trabalho. Os campos estavam alagados com as cheias do rio Tejo, e não se podia cultivar. Entre Outubro e Março, eram os tempos das vacas magras. Valia-lhe os «fiados» e o azeite armazenado nas bojudas talhas de barro.

Quando a fome apertava e o dono da mercearia e da farmácia começavam a pedir se podiam pagar, o pai só tinha uma solução. Dizia á filha mais velha:
 - Francelina, vai lá encher uns garrafões de azeite, que eu vou vendê-los á feira amanhã! – E diz ás tuas irmãs, para darem mais uma ração ao burro, para ver se ele pode com os garrafões que eu preciso de o levar!

Era o que as irmãs queriam ouvir. Estavam cansadas de estar fechadas em casa e de ver a chuva cair lá fora. Agora era ver quais delas, conseguiam convencer o pai a acompanhá-lo á feira.

Tinham ouvido dizer que os serradores da aldeia vizinha também já tinham voltado das florestas da Beira Baixa e sabiam que um deles andava interessado na irmã mais velha. Pelo menos ela tinha que ir á feira com o pai. Quem sabe o encontrava e o namoro não ia em frente. Pelo menos era menos uma boca para alimentar.

No dia seguinte iniciaram a jornada ainda era de noite. O burro estava bem alimentado e os garrafões de azeite foram colocados nos ceirões e amarrados com cordas. Depois de comerem umas sopas de pão de milho duro, molhadas em café, pai e filha colocaram-se a caminho do mercado que era na vila distante 10 kms. Demoravam cerca de três horas e tinham que estar lá bem cedo para apanhar um bom lugar e poderem vender o azeite por um preço melhor.

Apenas Francelina como a mais velha, pode acompanhar o pai que ia á frente pelo estreito caminho á beira do regato, levando o burro pela arreata . Atrás seguia a filha, que com 22 anos e habituada ás longas caminhadas, não tinha problemas em fazer a caminhada até á vila.

Ia contente, a pensar no seu pretendente. Ele era da aldeia vizinha e tinha uma propriedade ao lado de uma do seu pai. Nesse Outono quando estavam a apanhar a azeitona, ele andava também a fazer o mesmo trabalho e tinham conversado um pouco.

Ele tinha-lhe dito que era serrador e que ia estar fora até ao Carnaval, porque ia serrar para longe, para a Beira Baixa, e que lá fazia muito frio e caía neve. Ela tinha gostado da conversa dele e tinha-lhe dito também que no verão ia trabalhar para os campos da lezíria do Tejo, para ajudar o pai a pagar as contas.

Durante as semanas em que tinham apanhado azeitona nas propriedades vizinhas, os dois jovens tinham ficado mais amigos e todos os dias se falavam. Quando a adiafa chegou, que era a festa do final da apanha da azeitona, tinha havido um baile e tinham dançado juntos todas as danças.

Depois cada um seguiu o seu caminho, com a promessa de se verem no mercado pelo Carnaval. Francelina ia ligeira e mal sentia os pés tocarem no chão. Esperava pelo pedido de namoro e em resolver a sua vida.




Poesia de Manuela Pittet


Poesia de Manuela Pittet


UTOPIA

Amor, sempre ele/ ela= Energia
 Essa busca incessante de harmonia
 Onde todas as criaturas habitam
 Multidimensionais, os espaços onde viajamos
 Os paradigmas que criamos
 Como Seres que somos
 Tão desconhecidos (ainda) do nosso interior...
 Alquimia, nirvana, pedra filosofal
 Desejo ainda poluído pelo medo
 Que timidamente pede e foge
 A iluminação que o atraí e repele (...),
 Nos desejos inconfessados da criação
 Que catalogamos nas páginas da utopia...
 Percentagem cerebral... Domínio!
 Controle da espiral, no A.D.N., domínio!
 Querer avançar e ainda inventar
 Colocando o sonho e o mental
 Nos cestos da fabulação...
 Utopia... ainda... Utopia
 Que dia após dia
 Sai do pó que impressionava as páginas
 Do Livro profundo onde se escondia...
 Se lavar nas ondas do conhecimento
 Tão desconhecidas do conceito racional
 Libertando poluição magnética
 No nosso corpo energético, imortal.
 O Amor surge em potência
 E oferece majestade à utopia
 Hoje não a olhamos com os mesmos olhos
 Hoje é ela que nos olha e sorri
 Que, mais do que uma imagem do mental
 Ela é, realidades do nosso poder de criação
 Algumas reluzentes outras tenebrosas
 Na construção de um todo...
 Libertai-vos homens
 O vosso poder de amar
 Vos transporta para além da utopia
 Agarrai esse poder!!!


O MEU AMOR

Eu amo a morte
 Porque ela não morre em mim (…)
 O meu pensamento não morre
 Porque eu mato a morte
 Com meus punhais de vida!…
 Viver a morte com vida
 Morrer a vida sem morte (…)
 E pronunciar as palavras
 Que nenhum ser humano aprendeu
 (Estas que meus olhos falam
 mas que teimosamente não querem ouvir…)
 enfim…
 esfregar meu corpo na areia da Terra prometida
 fazer amor com o sol e as estrelas
 e ser o feixe de luz
 que desmente a morte e a vida
 que é com seu calor e brilho
 A EXISTÊNCIA
 O IDEAL
 O SONHO…
 E ser assim, o Amor
 E os esposos da felicidade
 CASADOS PELO VENTO QUE AQUI NÃO SOPRA!…

(in: «Cartas da minha Alma»)

EIS-ME…

… Eis que se confirmam
 As certezas da imaginação racionalista
 E as incertezas do imprevisto onírico…
 Como pedras rolantes
De um planeta sem vida
Onde se inventam pássaros
 E se dança a monotonia
 Da racionalidade inexistência (…),
 Eis que chega
 O viajante « intemporal » !…
 Eis que felicito
 A ignorância do sábio
 E o orgulho do ignorante…
 Eis-me que cheguei
 Perante o incognoscível
 Da inteligência metafísica
 E o ocultismo
 Da sabedoria dogmática
 Enlatada de misticismo...
 EIS-ME QUE VOS CHEGO
 NA TARDE LONGA
 DA MINHA PARTIDA !…





Crise na educação e a identidade da Escola - umas impressões...- Se Gyn


Crise na educação e a identidade da Escola - umas impressões...

Por: Se Gyn

Hoje de manhã, assisti estarrecido a uma reportagem exibida no Jornal «Bom dia Brasil», da Globo, em que a polícia havia localizado um misto de arsenal de armas de médio e grosso calibre e, paiol de munição, ambos improvisados em diferentes locais de um Brizolão, uma escola pública carioca, dedicada ao chamado ensino de tempo integral.

O problema não está no fato em si, mas nas circunstâncias em que ele ocorreu. Na tal reportagem, a despeito do revoltante fato de que, no Rio, os bandidos chegaram ao ponto de eleger (com sucesso e, pelo jeito, sem cerimônia alguma) um prédio público como o local adequado para finalidades criminosas, era o fato da diretora tentar impedir o acesso da polícia ao prédio - dando-se ao desplante, inclusive, de tentar marcar hora para tanto, sob a alegação de que estava em curso na escola, naquele momento atividades relativas à comemoração da semana da consciência negra e, do fato de que, depois de localizado e exposto ao sol o impressionante arsenal de armas e lotes de munição, a diretora cara de pau, tenha negado publicamente o conhecimento de uso da escola que dirige para fins um tanto «heterodoxos», digamos.

(Peço paciência a todos, porque minhas opiniões sobre o ensino pátrio não são das mais agradáveis. E, por outro lado, isso aqui vai longe - muito longe. Talvez dê preguiça... Mas, espero que você vá até o fim. Trata-se de algo relacionado ao futuro dos brasileirinhos, nossos filhos, sobrinhos, netos, vizinhos, etc.)...

Como a diretora, isto é, a pessoa a quem a Secretaria da Prefeitura do Rio de Janeiro confiou a tarefa de gerenciar, em todos os seus aspectos, não poderia ter notado que sua escola era utilizada diuturnamente para ocultar armas e munições, sabendo que, para tanto, os bandidos tinham, forçosamente, de entrar e sair dali? Como pode ela negar desconhecimento do fato, sabendo que os locais de esconderijo de armas e munições (caixas de controle de tubulação e fiação de energia elétrica, entre outros) eram acessadas continuamente, para realização de manutenção e reparos?

Como poderia uma centena de alunos da tal escola, dada a curiosidade própria das crianças, não notar nada a respeito e, relatar ao funcionário da escola ou professor mais próximo? De um único jeito. O Impossível. A tal diretora, educadora e agente do Estado, mentiu, descaradamente, diante das câmeras, seja por que motivo for - nenhum deles, justificável, entretanto, se levarmos em consideração a função ... da escola e, o objetivo do processo educacional: preparar o individuo para o convívio social, para o mundo do trabalho e, o exercício da educação.

A escola brasileira anda contaminada por um série de pestes, que impedem de cumprir a sua finalidade. Hoje em dia, os grupos mais diferentes reivindicam tudo da escola, menos, que seja eficiente na educação das crianças e jovens brasileiros.

As pestes são muitas, mas destaco três: a praga da renúncia da autoridade, a doença do esquerdismo nefasto do quadro de professores e material didático e, o virus do utilitarismo da escola e do processo educacional, como ferramenta de práticas heterodoxas da chamada «inclusão social».

A renúncia da autoridade é inegável e, até razoavelmente conhecida de pais e professores, em virtude do número de atos dos mais diversos tipos de violência praticados na escola, por alunos, circunstantes ou, invasores (caso dos bandidos que se assenhoraram do Brizolão, no Rio).

Ela decorre do fato de que, o educador - outrora, a quem se chamava respeitosamente de professor, não tem, não assume ou, nega o peso da responsabilidade posta por sobre seus ombros, preferindo alegar, espertamente, que é apenas um mediador do processo educacional, renegando que é, inafastavelmente, que encontra-se no papel de agente de formação de crianças e jovens, que, afinal de contas, não estão ali a passeio e, que isto exige dele um posicionamento, uma atitude e, um compromisso, ao longo de sua carreira, um instante após o outro - com todo o respeito, mas, se o caso fosse de mediar, contratavam-se espécie de árbitros de educação e, não, professores (na escola pública pelo menos, este ainda é o nome legal para o cargo que exercem).

Destes, deve ser exigida sim, formação profissional adequada e aprimoramento constante, pois são mais que meros formadores de opinião, são formadores de homens, futuros cidadãos...

A doença do esquerdismo - espécie de sub - socialismo, presente nos livros didáticos e, na, digamos assim, prática educacional dos professores, na minha opinião, é uma mistura de oportunismo e sem - vergonhice criminosa.

Trata-se da introdução nos livros didáticos de conceitos generalistas vinculados à fracassada e deletéria doutrina socialista, de Karl Marx, dentro da visão de Gramsci - isto é, a tal da visão crítica e revolucionária da história e das ciências em geral, dentro de uma perspectiva de conquista do poder e imposição do socialismo através da doutrinação das massas.

Na prática, isto significa: utilizar-se de instituições próprias de um regime democrático, para a propaganda de um regime autoritário e violento, por natureza.

O fracasso político e econômico do Socialismo na Rússia e leste europeu - depois de mais de três dezenas de milhões de vidas humanas ceifadas e, os resultados da implantação de ditaduras comunistas no oriente - onde a cifra de eliminados passa de 80 milhões de vidas humanas e, principalmente, do conhecimento de que o regime criminoso dos irmãos Castro implantado em Cuba já custou o sacrifício da vida ou da liberdade de mais de 100.000 pessoas, noves fora a fuga de mais de 1 milhão e meio de cubanos para os EUA, não é motivo suficiente para uma crítica dos autores de livros didáticos e, menos ainda de professores.

Pelo contrário, numa falta de senso do razoável e leitura crítica ou, pelo menos razoável da realidade, da compreensão que a Escola é lugar de formação basilar e, não de doutrinação ideológica ou partidária, seguem, dia após dia, a espalhar a pregação sua ideologia nas salas de aula, a título de ensinar, querendo criticar justamente o regime político que deu certo, à diferença de todos os outros: a democracia representativa, conquista histórica da civilização ocidental, do qual disse Churchil: «é o pior regime, à exceção de todos os outros».
 
O que é Escola? Escola, hoje é uma instituição, mais do que prédio, professor e livro. É mais do que um simples máquina de ensino pré-fabricado destinado, para um contingente de população. É uma prioridade de toda sociedade que se julga civilizada. É um meio insubstituível de oferecer ao indivíduo, as ferramentas mínimas para a sobrevivência no meio social - a alfabetização, a informação basilar, os valores sociais relevantes, a consciência individual, social e, nacional é, o lugar onde acontece um processo insubstituível de socialização e, sim, civilização...

 A questão não tem nada há ver com oferta de estrutura, nem de material. Em geral, este problema está superado. O problema está nas teses subjacentes ao ensino ofertado, no preconceito e desrespeito da clientela escolar - que é vista como uma espécie de população dependente e, não como a clientela a quem é endereçado o sistema de ensino, custeado pelos impostos do contribuinte.

Tudo isso se traduz no método de ensino escolhido, na responsabilidade do diretor na condução da atividade do ensino regular, na presença diuturna do professor em sala de aula, na escolha do material didático adequado e, por aí, vai... Sem isso, vc tem prédio, escola, profissionais reunidos, mas não, ensino.

 Sobre essa questão de gratuidade do ensino público mantido pelo Estado, creio que é preciso dizer em alto e bom som: ele nunca foi, não é, nem será gratuito. Ele tão somente é ofertado gratuitamente ao público alvo, mas é custeado, dia após dia com recursos de impostos arrecadados. Assim, cada resma de papel, cada lâmpada acesa, cada hora do professor em sala de aula (e, não raro, em paralisação), é custeada, na verdade, pelo contribuinte. Não é dádiva, nem presente - é obrigação constitucional.

 Escola não pode ser transformada numa espécie de creche para crianças e adolescentes. A responsabilidade da família é, outra coisa.

 Não pode também, ser desviada da sua função principal, a título de utilização para fins supostamente nobres ligadas à tal da inclusão social. Se ela cumprir o papel para o qual foi destinada, então, fatalmente uma revolução social se processará, pois teremos gerações e gerações de pessoas mais preparadas para a vida em todos os sentidos, que vai desaguar no mundo da profissão, do empreendedorismo, da multiplicação de conhecimento, oportunidades e de acesso à renda e à riqueza.

A tal da escola aberta, na prática, tem muito de liberalismo irresponsável, pois, não raro, sacrifica horas de ensino em favor das chamadas «atividades de cunho social». Quantas e quantas vezes, durante as caminhadas, passei por um colégio estadual próximo à minha casa e, presenciei a realização de atividades na quadra de esportes e no pátio do colégio em horário de aula, que acabam tirando dos alunos que estão em classe, a atenção necessária para o aprendizado - campeonatos de futebol, de salão, ensaios de dança de rua, por exemplo, onde a gritaria (palavrões no meio) e a utilização de serviço de som, é uma constante.

 Escola não é lugar de experiências e improvisações sem fundamento. A função da escola é única e, qualquer um pode defini-la sem grande esforço. Mas, querem complicar... Pode-se enganar a duas ou três gerações, mas o número de pessoas que vão questionar os números, a qualidade e, principalmente, os resultados vai aparecer e, depois, crescer, até chegar a um ponto logicamente insustentável.

 A questão é a qualificação de professores - ué, mas eles não estão em pé de igualdade com os professores das escolas privadas (pelo menos é isso que dizem seus currículos e, as gratificações que recebem)? O problema é dos baixos salários pagos à categoria - mas, eles não estão em pé de igualdade com os salários dos professores da rede privada?



 O empecilho é a falta de estrutura adequada - quantas escolas da rede privada de ensino tem a mesma estrutura da escola pública? Tudo está vinculado ao projeto neoliberal do atual governo - ah, não, façam-me o favor de humilhar seus currículos e não insultar nossa inteligência - vamos esperar que ocorra uma revolução socialista para começar a ensinar direito as nossas crianças e adolescentes? Nem vem...

 Nos regimes democráticos, em geral, o Estado está separado da igreja e, isto foi fruto de longas perlengas e discussões, noites sangrentas e guerras. Mas, após as revoluções ditas burguesas, o Estado não era mais a personificação do Rei ou déspota, que podia impor a sua religião como religião oficial, mas a personificação do poder do povo, da sociedade organizada democraticamente - num ambiente assim, a imposição de religião oficial, não tem lugar. A religião, aí, é um direito individual, assim como todas as escolhas a ela relacionadas. O individuo pode livremente escolher sua religião e iniciar os descendentes nela.

Mas, não tem direito nem poder de impô-la a quem quer que seja, nem aos próprios filhos. Dentro de um enquadramento assim, o ensino religioso é inadequado, no ensino formal, pois, a Escola é lugar de escolhas e ensino generalizante, voltado para todos os indivíduos, indistintamente, que se colocam ali em pé de igualdade. Como se vê, a prática da religião e a atividade do ensino tem diretrizes diferentes. A educação religiosa, assim, só pode ser escolha e, encargo da família. E nem vou falar do resultado tendencioso de que resulta a prática do ensino religioso, para determinadas religiões, em detrimento de outras...

 O que pensam, entretanto, as crianças e adolescentes que vêem sua escola sendo invadida, dia após dia, com a cumplicidade de sua diretora, funcionários e professores? Será que gosta da escola? Será que sente orgulho dos mestres que tem? Como será que vai repercutir esses fatos, em sua formação? Na minha opinião, eles nem sequer se manifestam porque, desde crianças interagem com um ambiente onde ninguém está comprometido com resultados e, eficiência, por isso, não demonstram claramente seu desencanto com a escola que frequenta. Mas, esse silêncio é muito, muito eloquente.

 Existe uma corrente muito grande de pensadores, ativistas e políticos que querem transformar o sistema de ensino ruim atualmente estabelecido numa outra coisa: a chamada escola de tempo integral. Atrás desse nome aparentemente anódino e promissor, se esconde uma idéia bastante questionavel: a do suposto combate ou inibição dos chamados riscos sociais a que são submetidas as crianças e adolescentes de baixa renda, através de sua manutenção em tempo integral, na escola.

Em primeiro lugar, ninguém avaliou os custos de tais medidas, que significa na prática: mais despesas com a contratação de servidores e professores, mais despesas com alimentação, material didático ou de apoio e, mais gastos com água tratada e energia elétrica, no mínimo - pergunta-se: quanto custa a implementação desse projeto e, quem paga a conta (como se eu e você não soubéssemos) .

Em segundo lugar, ninguém diz ao certo, o que essas crianças vão fazer na escola, depois do período de aulas curriculares - reforço, dizem uns, atividades complementares, dizem outros. E lá vamos nós, questionando se não seria melhor encarar de frente, o problema da proposta e qualidade de ensino ofertada à população à custa de impostos e, qual seria, exatamente, o o efeito didático das tais atividades complementares e, se essas são melhores do que o convívio da criança com a família e, seu lar.

 E aqui, chegamos ao ponto mais interessante: muita gente vende essa idéia como uma forma safada de garantir aos pais o descanso da consciência sobre o destino dos filhos, enquanto cumprem sua jornada de trabalho. Ou seja, à parte o ensino, as escolas se transformariam numa espécie de creche para crianças e adolescentes em idade escolar custeada pelo contribuinte, chamando para si o papel e a obrigação que é dos pais.

Me impressiona como no Brasil, querem empurrar ou responsabilizar o Estado pelas responsabilidades do indivíduo. Todo mundo que acompanha o noticiário sabe no que resultou a implementação da chamada escola de tempo integral, no do Rio de Janeiro, desde os tempos de Brizola... Mas, os ativistas da educação, os militantes de movimentos populares e políticos vão em frente, defendendo essa idéia irresponsável (aí, incluido o Senador por Goiás, Demóstenes Torres, em quem votei).

 Lugar de criança, sem dúvida, é na escola - mas, olha lá, no horário letivo. Depois disso, não conheço lugar melhor que sua casa, seu mundo familiar, onde deve ficar sob a vigília e a orientação dos pais - ou, alguém da família, em seus lugares, que lhe deve noções básicas sobre a sua relação consigo mesma, com o mundo e com os outros...

 Sócrates ensinava aos discípulos numa praça pública ou, à sombra de uma árvore. Hoje em dia, em muitos países do chamado terceiro mundo, a despeito da gritante falta de material didático e estrutura, as crianças conseguem com tranquilidade absorver o ensino básico. Pois bem, pelo menos quanto às escolas públicas mantidas pelo Estado que conheço, sua estrutura física e humana parece bastante razoável, se não muito boa. Esse negócio de escola aberta, escola solidária e sei lá, mais o que, não passa de desvio de curso, de fuga da responsabilidade.

 Para mim, o negócio é parar de inventar histórias para disfarçar o fracasso e a falta de coragem e, fazer a escola pública mantida pelo Estado cumprir sua função básica, isto é, ensinar muito bem as crianças que a frequentam (para fazer valer o seu custo e, o dinheiro do contribuinte). Se isso acontecer no Brasil, não tenho dúvidas de que, acontece uma revolução e, a alavancagem de nosso desenvolvimento social e econômico.

 O que falta? Vontade, compromisso, objetivos e, coragem para implantar um ensino de qualidade - e isso começa no gabinete do governante e acaba na sala de aula (com o professor dentro, pra variar).

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 Quando comecei a estudar, fui fazer o pré, numa escola rural a cerca de quatro quilômetros da casa onde morava, na zona rural (distância que a gente percorria a pé, todo dia, alegremente). A escola tinha turno único e, em cada fileira, uma turma, do pré escolar até a quarta-série. O professor, era também secretário e merendeiro. Mas funcionava - os alunos aprendiam os rudimentos do português, da matemática, de história e geografia. Pelos simples fato de que o saudoso professor João Teixeira ia lá, todo dia nos ensinar e, não confundia humildade com determinação.

 Se Gyn




O papel da escola como fonte de afirmação da cultura e da identidade: Currículo Escolar em questão.- Mirian Cristina Ubaldo


O papel da escola como fonte de afirmação da cultura e da identidade: Currículo Escolar em questão.

Mirian Cristina Ubaldo

Todo educador reconhece a grande dificuldade e o desafio que é desenvolver e aplicar nas escolas espaços pedagógicos que trabalhem atividades voltadas à valorização da multiplicidade de identidades que formam o povo brasileiro.

Para Moura (2001), este espaço deve ser criado por meio de um currículo reflexivo, que leve o aluno a conhecer suas origens, saber quem são e desta forma reconhecer-se como brasileiro. Este currículo deve levar o aluno a valorizar sua cultura orgulhando-se de sua história sem nunca negar sua identidade como muitos brasileiros fazem.

O esquecimento premeditado e consciente da própria cultura acontece muitas vezes em razão da escola não oferecer meios para que o aluno conheça sua história percebendo o papel dela na formação cultural e social do país. Repensar o papel da escola como bem sua função e sua importância na afirmação cultural dos diferentes povos do nosso país, é uma atitude urgente a ser tomada não só por educadores, mas por todos os seguimentos políticos. Para reconhecer isto basta observar a realidade social e educacional em que o Brasil se encontra.

De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apesar de 45% a população brasileira ser mestiça compondo a maioria do povo trabalhador e contribuindo para o desenvolvimento econômico do país, através de sua história, como afirma Moura (2001), ainda se encontra na classe dos menos favorecidos e discriminados socialmente.

A cultura dos povos brasileiros principalmente das comunidades negras rurais vem sendo banalizada ao longo do tempo e nós educadores somos grandes responsáveis não passando aos nossos alunos a importância das tradições. Estamos matando o passado de um povo e um povo sem passado é um povo sem identidade que se deixa marginalizar continuando a sombra da sociedade constituindo esta aceitada minoria de menos favorecida.

Moura (2001), em pesquisa realizada nas comunidades quilombolas de Minas Gerais, Maranhão, e Rio Grande do Sul constatou a existência de uma vivência de identidade baseada na «cultura do contraste» onde a cultura das festas é o objeto usado para sua elaboração e aquisição. É com estas festas que os quilombolas afirmam de maneira vigorosa sua diferença e é através desta afirmação da identidade que eles reivindicam o direito de viverem de seu trabalho quase sempre do campo e artesanato, vivenciando sua fé com danças, cantos e práticas de devoções.

Em sua pesquisa Moura (2001), buscou analisar a importância das festas quilombolas na transmissão e internalização dos valores culturais e sociais que possibilitam a afirmação e a expressão da diferença permitindo desta forma a inserção das comunidades negras na sociedade de maneira significante.

Desde o planejamento à execução e avaliação das atividades e tarefas comunitárias as crianças permanecem ao redor dos adultos numa interação natural e descontraída. As festas ao fazerem parte do contexto cotidiano, tornam-se um veículo informal de transmissão do saber que é assimilado aos poucos ao mesmo tempo em que possibilita uma reflexão sobre as necessidades de mudanças e adequação às condições dos novos tempos sem romper com sua essência.

Desta forma constitui-se a existência de um currículo invisível segundo Moura, por meio do qual são repassadas através das gerações as normas de convívio comunitário. O currículo invisível ao ser desenvolvido sem uma intenção explicita oferece às crianças o conhecimento que elas precisam sobre suas origens, o valor de seus antepassados, o contexto presente e as expectativas para o futuro, fazendo com que elas valorizem a cultura de seu povo não deixando a sua identidade perder-se no tempo.

É notória a seriedade das festas nas comunidades quilombolas que lutam segundo Moura (2001), com alegria, mas de maneira contextualizada e compromissada para viver o momento presente sem esquecer o passado, alegria esta duramente conquistada.

As festas nas comunidades negras estudadas por Moura passaram a ser ao longo da história uma educação informal extremamente importante na formação das identidades no processo de ensino aprendizagem. Esta maneira de trabalhar a educação informal, currículo invisível, possibilita que o aluno conheça a história de seu país, a importância de sua cultura e sua formação étnica, o que raramente acontece nas escolas tradicionais e que poderia ser mais bem aceita na educação formal.

A grande diferença destacada por Moura (2001) entre a transmissão do saber das comunidades negras rurais pesquisadas e das escolas tradicionais é que enquanto, no primeiro caso o processo de aprendizagem como fruto da socialização procede de maneira informal e espontânea, na escola tradicional o saber não esta pautado na experiência do aluno como também não é levado em conta os diferentes valores culturais presentes na sala de aula.

O ensino neste caso é sistematizado, imposto como único e as historicidades que formam o contexto de origem destes alunos não servem de referência na formação do currículo. Desta forma a educação formal pode criar um sentido de exclusão para o aluno ao invés de facilitar a sua construção de identidade e a afirmação de sua cultura por não conseguir estabelecer uma relação lógica entre os conteúdos que lhe são ensinados e sua experiência pessoal e familiar de vida.

Nas comunidades quilombolas como afirma G. Moura (2001-pag.64), [... as crianças se identificam positivamente com tudo que esta acontecendo a sua volta, como condição de um saber que os forma para a vida].

A importância da vivência do aluno fora da escola, esse saber que lhe é transmitido pelas gerações, ou seja, a educação não formal e sua importância como papel educativo vem sendo enfatizada à várias décadas por diferentes correntes pedagógicas, mas este discurso cai por terra quando posto em pratica.

O que encontramos na realidade, no lugar de currículo invisível como o dos quilombolas é a existência de uma didática estritamente formal onde o conhecimento válido é aquele construído especificamente para ser «transferido», um conhecimento de igualamento, ou seja, ao entrar na escola as vivencias, experiências e cultura de cada criança deixam de existir e todos aprenderão à mesma coisa da mesma forma, aprendizado este que já esta pronto não foi construída com a participação da parte mais interessada – o educando.

Não pretendo aqui afirmar que a forma ideal de transmissão do saber é a das comunidades negras rurais criticando os demais currículos sem nada oferecer em troca para reflexão, mas que certamente existe nelas um forte aprendizado para nós educadores, isto é inegável.

Se buscarmos com atenção as lembranças que trazemos de nossa infância como as brincadeiras de roda, as conversas de comadre, os contos e causos que nos ensinaram muito sobre regras, valores, condutas e muito mais, entenderemos como as crianças aprendem com mais alegria e de forma prazerosa se associarmos o que elas já sabem ao entrarem na escola com o que temos a oferecer.

O que precisamos para tal parece ser simples se dermos um salto da teoria para a prática: Uma didática com a proposta de enaltecer a cultura dos diferentes povos e comunidades que formam o nosso país possibilitando desta forma a criança aprenda desde cedo à importância de afirmar sua própria cultura e sua identidade valorizando os saberes que o passado lhe deixou como herança.

Ensinar é aprender. Ensinar não é transmitir conhecimentos. O educador não tem o vírus da sabedoria. Ele orienta a aprendizagem, ajuda a formular conceitos, a despertar as potencialidades inatas dos indivíduos para que se forme um consenso em torno de verdades e eles próprios encontrem as suas opções.


Bibliografia:

MOURA, M. G. V. . Direito à diferença. In: Kabengele Munanga(org). (Org.). Superando o racismo na escola. : Ministério da Educação, Secretaria de Educação Fundamental, 2001, v. , p. -.



Dois Poemas - Por Denise Severgnini


Dois Poemas - Por  Denise Severgnini

A Poetisa Fenecida

Expirado o momento d’inspiração
 Carnífice martírio de letras soltas
 Mal diagramadas numa expiação
 Em plúmbeo veludo, já envoltas
 Traçam ritos da vate tão exaurida
 Harpejam fúnebres árias... Riem
 Do seu não ser expresso em vida
 Letras malfadadas sobrevivem...

Poetisa serpenteia na soturnidade
 Diáfanas vestes encobrem a agonia
 Sem sua lira, não há prosperidade
 Nem como poder falar de idolatria
 Epopéias do desencanto desfraldam
 Bandeiras que sacolejam escuridão
 Perecidas almas a ela circunavegam
 Impingindo um tanto de aliviação...

Não há conforto na palavra oblíqua
 Um ego sorumbático nada produz
 Nem mesmo um cura a ele se adéqua
 Pois ela não se ajoelha ante uma cruz
 Sucumbiram quimeras, versos alados
 Desalento unânime na incerta essência
 Tranquiliza na lápide, ossos cansados
 Como epitáfio: Poetisa por excelência!

Sentindo a morte de perto

Há um beijo que não dei, mas já é tarde
 O destinatário partiu faz muito tempo...
 Há aquela flor que não reguei... Sem alarde,
 Dou-lhe a líquida fonte de vida... Contratempo
 Há em mim, aquela dor que não cultivei...
 Há no firmamento, A Força Maior,
 
Que agnóstica, inconsiderada, quase eu repudiei...
 Visita-me espectro das sombras... De amor,
 Busco roupagem... A disfarçar as mazelas que experimento
 De passagem marcada à estação terminal... Repenso!
 Escrevo ,eu trabalho, leio estudo,... Pra quê?...Nem minto!
 Há ainda lavrado em meu peito aquele verso denso...

 Não exaurido, nem sentenciado... Que sem querer eu sinto!
 Tenho tempo... Dou-me o tempo... Apesar do desalento
 Andejo de mãos dadas com o Criador... Sobrevivendo!
 Meu jazigo aguarda-me, mas não agora!Entendendo,
 Que há a expectativa do mal, mas a finalização do bem
 Vou indo... Escrevendo... Chorando... Com ELE... Até o além!




Histórias da Vida Real - Crónica por Martim Afonso Fernandes


Histórias da Vida Real - Crónica por Martim Afonso Fernandes


Cinema


Por muitos anos o salão de cinema em Imbituba situava-se ao lado dos barracões, que eram também moinhos de farinha de mandioca.

Era um conjunto de mais ou menos quinze barracões, inclusive alguns serviam de quartel do Exército no tempo da Guerra, onde foi instalado o 12° CEMAC, ou seja Grupo Motorizado de Artilharia de Costa, depois transferido para São Francisco do Sul.

Os barracões foram construídos pela Companhia Docas, localizados próximos à ICC. Serviam de depósito para armazenar farinha de mandioca, que era exportada para a Alemanha, para confeccionar matéria plástica, armazenar trigo, sal e granéis.

Os moinhos eram equipados com máquinas de beneficiamento de embalagem de farinha.

O referido cinema ficava entre dois armazéns. Era comum os moinhos funcionarem dia e noite.

Embora os ventiladores do cinema funcionassem durante as sessões, mesmo assim o talco da farinha, o amido, era muito fino e sempre se espalhava pelo salão.

Deixava vestígios bem acentuados nas roupas escuras, nas cabeças, nos chapéus, não dando para negar a quem assistia ao filme, que não esteve no cinema.

Não era preciso nem esperar que o filme terminasse, pois nos intervalos para troca de bobinas do filme, as luzes eram acesas, e ali já se via o talco branqueando as cabeças.

Era só o moinho funcionar quando passasse o filme para os telespectadores branquearem.

Mais ou menos em 1950 foi construído um novo salão para o cinema, no Centro Comercial, com maior espaço e modernidade, inclusive com palco para a apresentação de teatros, shows de mágicos, palestras, etc.

Era opcional ir assistir o filme, ou encontrar amigos e amigas, Também se arriscava ir ao encontro de uma namorada, pois o que não faltavam eram moças e moços para abrilhantar o movimento.

Também era um ponto para casais renovarem amizades. O cinema tornou-se o símbolo da comunicação ao vivo.

Com a vinda da TV, depois do videocassete e o DVD, chegou ao fim toda aquela amizade que se construía dando espaço à falta de comunicação e ao isolamento.

Hoje em dia, principalmente nas cidades menores, não se encontra uma sala de cinema, a não ser naquelas que tem seus shoppings centers completos.

O Filme Italiano, Cinema Paradiso, bem retrata a saudade e o romantismo dos cinemas.

E eu, assim como muitos, sinto saudades dos namoros no escurinho dos cinemas!!!



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Texto de Liliana Josué - EU VI UM SAPO…


Texto de Liliana Josué

Decidi colocar um conto/crónica da minha autoria como início do ano 2015, sem fotos, só letrinhas.
Hesitei em colocar o nome do Hospital mas pensando melhor vou colocá-lo aqui mesmo: HOSPITAL DE S. JOSÈ

EU VI UM SAPO…

Joana, minha amiga desde o tempo das fraldas, sempre teve problemas asmáticos. A sua infância e juventude foram bastante acidentadas por esse mesmo facto, embora tivessem existido períodos de acalmia com muita felicidade e brincadeira. Apesar de tudo, era uma miúda cheia de vida e entusiasmo. Franzina mas rija.

Lembro-me de quando a ia visitar nas alturas das crises asmáticas, acamada e sem qualquer possível tratamento (pois naquele tempo não havia os recursos que existem hoje), apenas mezinhas caseiras como os pachos de algodão embebido em álcool ou papas de linhaça colocados, com duvidosas esperanças de melhoria, sobre o peito. Os lábios tornavam-se roxos apertados pela boca cerrada, narinas muito abertas e silvos saltando do peito, o qual parecia um fole nervoso e descompassado. Não conseguia falar.

Por vezes sentavam-na à janela do quarto para apanhar ar. O pai chegou a levá-la de carro , já um tanto “démodé”, abrir as janelas e correr com ela a cidade para que o vento lhe batesse forte na cara e ela se sentisse melhor. Hoje sabemos que isso nada faz, mas naquela época não, naquela época aquilo tinha de lhe fazer bem ou pelo menos fazê-la sentir melhor.

A situação embrulhava-me em tristeza e até em algum medo mas, mesmo assim, gostava de estar com ela. Lia-lhe livros de contos de fadas adornados com lindos desenhos que a minha amiga tanto gostava de colorir, ou lia páginas da coleção “As Aventuras dos Cinco”, cuja personagem Zé era disputada por ambas. Falava-lhe do meu gato amarelo ou do cágado que eu tinha no meu quintal, e também do meu vizinho guloso que me espreitava pelas janelas . Algumas vezes acompanhava-a no seu choro amargo e aflito, mas o meu era discreto para não a assustar ainda mais.

Já mais crescida, ou mesmo adulta, aquela erva daninha e corrosiva enraizada no seu peito abrandou as tenazes e a minha amiga tornou-se muito menos receosa, caminhado pela vida com um passo quase firme. 

Divertíamo-nos com imensas coisas, uma delas era fazermo-nos passar por estrangeiras nos parques da cidade, e muita gente acreditava. Eu era uma rapariga alta e de formas bem marcadas, dava nas vistas. Sem ser bela tinha um gracioso palminho de cara, não desvalorizando a minha inteligência que igualmente fazia parte do meu charme. 

A Joana era baixa, magra, pele muito branca, sardas no rosto, olhos esverdeados um pouco tristes, mas bonitos, e um invejável cabelo arruivado, mas era o seu sorriso que nos enternecia a alma. Quanto à sua inteligência também era patente, no entanto diferente da minha, era mais observadora e intuitiva. 

Os rapazes rondavam-nos como gatos com cio, e nós apimentávamos a situação fingindo-nos não portuguesas, os nossos tipos davam para fazer isso. Eles arregalavam os olhos enquanto perguntavam de risinho cobiçoso: “Vocês são francesas… ? inglesas…? alemãs…?” .

O tempo foi passando e agora já maduras a minha amiga voltou a ter crises asmáticas bastante violentas. O horizonte voltou a tornar-se triste e cinzento. Ontem deu entrada, de urgência, num hospital público. 

Foi rapidamente atendida, quanto a isso nada a dizer, fizeram-lhe todo os exames médicos considerados necessários e aplicaram-lhe os tratamentos mais indicados. Até aqui tudo bem, apesar do seu mal, mas depois… .

Como sua acompanhante estive quase sempre junto dela, pois até dá jeito para ajudar. O seu corpo arquejante afundou-se na cadeira embrulhado em toda uma parafernália de equipamentos médicos, alguns deles colocados por ela própria, por exigência dos serviços, mas ela não sabia que assim que tinha de ser. Ouvi um voz ao fundo: “então quando coloca o tubo do oxigénio no nariz? Está sentada mesmo em cima dele”. 

A minha amiga meio amedrontada e admirada procurou fazer desajeitadamente o que lhe diziam. Eu, infelizmente, também pouco podia acrescentar quanto ao manuseamento dos utensílios visto ainda menos perceber do assunto. Mas até se percebia tanto mau humor do pessoal pois o trabalho era muito e para além do mais estava-se num domingo. 

Caramba, que chatice ter de se estar ali no domingo, ainda por cima tudo gente nova que o que mais queria era estar a dormir ou a divertir-se, ou mesmo a namorar! 

Não compreendi o porquê mas realmente eram todos muito jovens, onde estariam os mais velhos? Se lá se encontrassem alguns até podia ser que tivessem um pouco mais de mais paciência, quem sabe…? Sim, quem sabe…?. 

Joana fechou os olhos lacrimejantes aguardando meio resignada pelo bom sucesso dos tubos, fios e frascos enquanto eu ia observando todo aquele espectáculo. Volta e meia uma idosa gritava com dores na perna e agonias. Muito chata, é certo, mesmo muito chata, mas também muito idosa. Como o seu “show” não pegava resolveu então fazer uma voz doce e melada de submissão canina dizendo: “ ó minha querida, não me arranja uma pomadinha e dava-me uma massagem na perna?”. 

A funcionária que se situava mais perto dela olhou-a furiosa e disse: “fricção, eu…? eu…? eu…?” e virou-lhe as costas indignada. Mas talvez até fosse por bem que ela não lhe fez a fricção, quem sabe…?

Outro idoso que mal se podia mexer, e mesmo sentado se apoiava numa bengala tinha uma bata vestida, daquelas próprias dos hospitais feias e deprimentes, era esquelético , feio e um nadinha rezingão, pretendia com muito custo, ajustar a mesma aos ombros pois a dita tinha-lhe sido vestida à pressa. Dizia com cara de poucos amigos: “tenho frio”. 

Ora lá estava outro chato! E não queriam que os pobres funcionários se aborrecessem, mas que abuso e falta de compreensão. É claro que o débil protesto pouco lhe adiantou, ficaria mesmo assim, desconfortável e com frio se o vizinho do lado, também ele idoso e muito doente, não lhe tivesse estendido a mão e a muito custo o ajudasse a puxar um pouco mais a bata. 

Eu senti-me bastante indignada comigo própria por nada fazer, mas estava a acompanhar a minha amiga e não as outras pessoas que não tinham ali os acompanhantes, para além do mais tinha medo de ofender os funcionários, de modo que os meus pés não se descolavam do chão.

Uma outra senhora igualmente de provecta idade queria ir à casa de banho, pediu muitas vezes, mas muito tempo teve de esperar. Até que um auxiliar mal encarado chegou com uma cadeira de rodas e puxando-a por um braço a quis levantar e sentar na dita (até eu sei que não é assim que se agarra uma pessoa sem forças), mas pelos vistos o pobre homem não sabia, coitado, não sabia, e então…? e quase berrando à mulherzinha disse-lhe: “ olhe que se não se segura bem cai aqui mesmo”. 

E não é que ia caindo mesmo!..? tal como um outro tinha caído noutra cadeira de rodas?! Mas aí, sejamos honestos, a culpa tinha sido da cadeira pois rompera-se sozinha. Um segundo auxiliar viu a cena e deu uma ajuda mais vigorosa à senhora. 

Entretanto a tal funcionária histérica remoía entre dentes: “estão mal é habituados, têm é muitos luxos.” No entanto eu achava curioso que em certas alturas esta mesma funcionária olhava para mim e atirava-me um sorriso de compaixão e simpatia, eu correspondia não fosse ela zangar-se. Muito mais eu vi e a minha amiga também, instalando-se dentro de nós uma revolta silenciosa e comungada.

Hoje fui visitá-la a casa, está melhor felizmente, e vai ficar totalmente restabelecida, certamente. Os olhos deixaram de estar mortiços e o peito sem chiadeira nem solavancos. Tudo estava a entrar na normalidade, mas a nódoa negra marcada a socos nos nossos corações por aquele hospital, essa, não vamos conseguir curar.

Liliana Josué




Poesia de Mário Matta e Silva


Poesia de Mário Matta e Silva


A face e a folha

Eu recolhi uma folha tricolor
Atirada para o chão do meu jardim
Feita de suspiros outonais
De veios firmes, desiguais
Com duas faces que olham para mim.

Eu acariciei as faces de um róseo rosto
Serenas e com aroma a romã
Na excitação duma pele sedosa e morna
Com a lágrima que vai de mansinho e torna
A descer docemente nas brisas da manhã.

Eu envolvi-me nestas duas maravilhas
Exultando os meus sentidos
Brandos, cálidos e um tanto divinais 
De assombros tamanhos, sensuais 
E os meus dedos são raios de sol destemidos.

29 de Outubro de 2014 

Mário Matta e Silva


Aventureiro

Esta vida é uma aventura
Uma aventura pegada
Eu sou nela aventureiro
Um aventureiro mais nada…

Eu vivo desta aventura
Exaltando de paixão 
Sentindo tua ternura
Acalmar o meu coração.

Vou andando o dia-a-dia
Nesta tormenta teimando
Num só bem que em mim porfia
Na luta que estou travando.

E que mais sei eu pedir
Quando a manhã se desfaz
Se o passado a insistir
Me faz olhar para trás.

Morre o ano, nasce o ano
E eu sempre a desejar
Que o ano que vem nascendo
Cresça sem me destronar.

Vem a noite, foge o dia
Nesta grande cavalgada
A pedir em euforia
Que haja feliz alvorada.

Sinto a vida, fujo à morte
Como um doido desvairado
Procuro o bem e a sorte
No presente do meu fado.

Ando alegre na tristeza
De me ver envelhecer
Vou conforme a Natureza
Até que esfume meu Ser.

Ai que grande correria
Faço dos anos meu pranto
Procurando em cada dia
O que é prazer e encanto.

30 de Dezembro de 2014 

Mário Matta e Silva






Conto de Liliana Josué - Aguarela


Aguarela


Conto de Liliana Josué


Enquanto caminhava deparei com um espectáculo digno dos deuses de gostos mais requintados.

Não pela sua magnificência, mas pela singeleza, constatando que muitas vezes ali passara sem que realmente nada tivesse visto, na pressa da minha vida.

A planície era um manto longo a deixar de se ver. Papoilas vermelhas de olhar atrevido salpicavam o extenso tapete verde. O sol, estrela imponentemente e estática, ruborizava ainda mais essas frágeis criaturas, ao mesmo tempo que doirava os pequenos mal-me-queres que por ali se espraiavam.

Alguns chorões deixavam que a brisa acariciasse suas macias cabeleiras, num rostilhar de perpétuo alívio e bem estar, murmurando segredos que só ela entendia.

E os gira-sois, que seres simpáticos e divertidos, de grandes olhos castanhos enfeitados de loiras pestanas, cantavam o sol em felicidade suprema e, quando ele partia, baixavam suas cabecitas e adormeciam rezando para para que nunca lhes faltasse.

Prestei mais atenção em meu redor e deparei com duas delicadas borboletas, de sedosas asas brancas, poisando num discreto lírio cor de marfim, acasalando felizes. Todos os outros lírios viraram suas corolas em direcção ao pequeno riacho num sorriso envergonhado.

Este, corria um tanto travesso por entre as pedras, suas companheiras, vestidas de verde musgo e adornadas por avencas.

Não resisti por muito tempo a descalçar meus pés e mergulhá-los nessa água de cristal. Arregacei a comprida saia azul- marinho sarapintada de cerejas encarnadas, tirei o chapéu de palha decorado com uma fita cor-de rosa e ramo de violetas. Coloquei-o sobre a margem; manta castanha protectora do riacho.

Senti um frio que me arrepiou a espinha, olhei para baixo num pasmo estático e assim permaneci sem tempo. Em seguida, meus pés dançaram num serpentear de água, brincaram lá no fundo, sobre a condescendente areia. Meus dedos ondulantes arrebitaram como meninos traquinas. Deleitada sorri para a o riacho frio, ele numa atitude gaiata devolveu-me esse sorriso.

O arrepio desapareceu e a alegria invadiu-me.

Dei um grito de libertação enquanto meus desgostos eram levados por aquelas renovadoras águas de mistério.

Pulei para fora do riacho e corri até mais não poder, de saia esvoaçando pelo vento e cabelos flutuando pelo ar.

De exaustão deitei-me sobre a terra quente, senti seu coração a palpitar e o som da vida em permanente actividade.

Apertei-me toda contra ela e, sem saber porquê, chamei-lhe MÃE.


Liliana Josué 




Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira


O lago

O lago permanece ali, há séculos plantado
Um corpo de água, aparentemente plácido.
Dizem-no triste, esse lago tão negligenciado.
Não lhe gabam o singular esverdeado translúcido

Da sua tona, nem o brilho do Sol ardente
Que apaixonadamente o beija todo o dia
Primeiro de mansinho, depois como um demente
Até que o anoitecer lhe encurta a estadia

Dizem que o lago não merece admiração
Que a sua tona até ao vento é impassível
Que nem um tornado podia incutir-lhe emoção

Mas esquecem-se, esses que tanto falam
Das suas profundezas onde poucos se aventuram
Onde o mundo singular que se encontra é inesquecível!


Uns e outros

Para uns o fado é a tristeza
Arrastam consigo o sofrimento e a saudade
Outros caminham pela Vida com leveza
E despedem-se sem lágrimas nem contrariedade

Uns carregam no peito as lágrimas de uma vida
E trazem o olhar húmido de melancolia
Outros trazem no peito uma alegria incontida
E no olhar um sorriso sem hipocrisia

Uns passam pelos dias sem nada vislumbrar
Outros abraçam a Vida com alegria
Uns tornam-se cegos pela cortina de lágrimas no olhar

Outros caminham como quem dança
Mas uns e outros são irmãos no dia da morte
Cadáveres apenas, qualquer que tenha sido a sua sorte.


Inverno

Entranha-se na pele e na alma este frio extremo
O ar glacial que sopra sem descansar nem amansar
O vendaval que não posso negar que temo
O gelo que se incrusta nos ossos sem se apiedar

Encharca-me a pele e a alma esta chuva incessante
A água que se agita num feroz redemoinho
Como lágrimas que parecem brotar do meu peito suplicante
O manto de água que cobre toda a terra no seu caminho

O Sol que nunca vem para me aquecer os ossos cansados
Que nunca escorre a água do meu longo cabelo
Que nunca me liberta dos meus mantos pesados…

Cubro a alma de mantos e véus e rezo pelo degelo
Vergo-me à violência da chuva e sonho com um leito seco que me acalente
Porque esta alma tão cansada ainda é a de uma sobrevivente!







Texto de Miriam de Sales Oliveira - O QUE ESPERAR DE 2015


O QUE ESPERAR DE 2015

Texto de Miriam de Sales Oliveira

Qualquer coisa será melhor que a decepção dos 7xI da Copa de 2014,diz um amigo ainda desolado.

Pois é ,provamos um prato amargo que  pôs abaixo uma velha ilusão:não,nós não temos o melhor futebol do mundo.Depois disto nossas esperanças desceram ladeira abaixo,como uma pluma ao vento.

Mas,passada a dor da desilusão  aprendemos que nossa vida  é  constituída  de ciclos: infância,juventude,maturidade ,velhice e morte.Tudo tem início ,meio e fim.O tempo é inexorável.

Estaria nosso país vivendo o fim de um ciclo?

Temos que voltar a crescer,temos que ouvir mais as ruas,temos que combater a corrupção,temos que nos livrar de velhos dogmas,como este do futebol,por exemplo,que estilhaçou nossa autoestima.Afinal,quem somos nós? Que país  queremos ser?

Uma coisa é certa,temos que deixar de ser o “país do futuro” e passarmos a pensar no presente.Deveremos ser mais responsáveis e mudar o que precisa ser mudado.Doa a quem doer.

Criticar não  resolve nada.Mas,realizar,sim.Que tal levantarmos o traseiro da poltrona,arregaçar as mangas e entrar na luta?Somos o povo que detém o poder,somos um conjunto de cidadãos ,a sociedade civil capaz de realizar mudanças,a começar pelo voto consciente e pela análise profunda dos acontecimentos.Mahatma Gandhi   nos aconselha:”-Seja você a mudança que deseja ver no mundo. “

2015 sinaliza para a maior participação popular, para uma maior consciência em relação aos direitos e deveres,para cobranças pacíficas e para o fortalecimento das instituições.

Temos “quase” tudo,só nos falta um povo esclarecido e consciente.

Miriam de Sales Oliveira



Conto Crónica de Daniel Teixeira - O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU


O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU

Conto Crónica de Daniel Teixeira


O cerro do lagarto, em Alcaria Alta, é uma lenda da qual eu não me lembro de ter ouvido falar dela por outras pessoas senão pela minha mãe que me disse tê-la ouvido contar pelo meu avô. Contava-me ela que algures, numas terras, todas elas com pequenas e maiores elevações, os chamados cerros, havia uma grande pedra com um lagarto esculpido em ouro embutido que só uma pessoa tinha visto uma vez. Dizia ela tratar-se de um local conhecido como sendo o «cerro do lagarto» mas que ninguém sabia qual cerro era.

Essa pessoa, à hora do pôr do sol, teria visto um brilho grande vindo do solo e aproximando-se teria visto então o lagarto em ouro. Teria tentado arrancar o ouro sem o conseguir e não podendo trazer consigo a pedra dadas as suas dimensões e peso tinha marcado o local onde ela estava e ficara de regressar no dia seguinte munido das ferramentas necessárias para recolher o lagarto de ouro partindo a pedra. Por mais que procurasse a pedra no dia seguinte e nos seguintes não a encontrou.

Ao que consta na lenda o homem terá ficado de tal forma transtornado e obcecado que mesmo ali montou uma pequena habitação como os pastores costumam fazer com pedras empilhadas e estevas cruzadas regadas com argila em líquido a fazer de tecto e ali terá ficado buscando nas redondezas e cada vez mais longe durante anos até que a morte o levou passados muitos anos.

Quem o viu durante esse tempo de vida não conseguiu nunca chegar-lhe à fala porque ele fugia e escondia-se nos inúmeros barrancos que por ali haviam. Reparavam essas mesmas pessoas que ele transportava sempre consigo uma roupa em estilo de albornoz pendendo do ombro com um peso que todos achavam serem pedras.

Quando se deu por certo o seu falecimento quem lá foi buscar o corpo, passados muitos dias, verificou que ele tinha a sua pequena casa e abrigo repleto de bocados de xisto, a pedra predominante naquelas paragens, todas elas partidas em pequenos bocados e algumas quase em pó.

Ora esta história foi-me de facto contada pela minha mãe: parece-me evidente tratar-se de uma lenda e o meu avô era um bom contador de histórias. Contudo de reparar que friso o seguinte: contar histórias para ele não era propriamente contar mentiras. Ele contava o que lhe constava e que lhe contavam e praticamente percorreu todo o sul do país quer em trabalho quer nos seus negócios pelo que muito terá ouvido e muito terá guardado.

A minha memória sobre este tal de cerro do lagarto esteve adormecida durante bastantes anos mas não pude deixar de a relacionar com uma outra lenda que me apareceu relatada na Net com localização no Peru (América Latina, a milhares de quilómetros de Alcaria Alta) e que tem igualmente a sua génese num cerro, o Cerro do Nariz do Diabo e que conta assim.

Para o Cerro do Nariz do Diabo existe uma lenda Peruana referindo o Lagarto segundo a qual uma cultura pré-inca terá habitado o território do Nariz do Diabo assim conhecido por ser encimado por um cerro (uma pequena montanha) que se destaca das outras pelo facto de ter dois orifícios no seu rochedo xistoso semelhantes a duas fossas nasais.

Essa mesma cultura pré-inca considerava os lagartos, abundantes nas proximidades do Rio Chira (um importante Rio em Sullana), como divindades pelo que confeccionaram com ouro uma imagem de um Lagarto que veneravam como um deus.

É provável que os «marcaveles», os habitantes desses locais, ao terem conhecimento da chegada das hordas de Pizarro, cobiçando o ouro e a prata, tenham enterrado o sagrado «lagarto de ouro» nas entranhas de este misterioso e legendário Cerro (do Nariz do Diabo). Dizem que o local era um cemitério e que em alguns dia do ano têm lugar visitas aos jazigos existentes. Há alguns anos às quintas feiras santas homenageavam-se os falecidos do local.

A lenda do lagarto de ouro

Neste cerro aparece um pequeno Lagarto de Ouro que dorme nas margens do rio e que sai sempre ao alvorecer encantando os que deambulam por ali com o seu brilho e adormece-os e leva-os para dentro do cerro do qual não voltam a sair nunca mais.

No mês de Abril na semana santa os marcavelenses rezavam a seguir ao meio dia e acabavam antes da meia noite pedindo que o lagarto nunca lhes aparecesse.

Um dia chegaram à hospedaria local uns jornalistas que tinham ouvido falar das diversas versões desta lenda do lagarto e pediram que lhes fosse contada a lenda e a pessoa que a contou preveniu-os desta faceta do lagarto de encantar as pessoas e de levá-las para o interior do cerro não saindo elas mais de lá. Quiseram no entanto saber se era apenas uma lenda ou se havia algum fundo de verdade nesta lenda.

No dia seguinte levantaram-se de madrugada e foram com o guia até ao inicio do cerro. O guia, com temor de ir mais à frente, sentou-se em frente ao cerro e via como eles riam enquanto esperavam e um deles entretanto resolveu tirar uma fotografia ao cerro pelo que desceu até ao seu sopé.

Quando voltou para junto dos seus amigos viu que o lagarto de ouro tinha aparecido e como eles começaram a seguir o lagarto deslumbrados com o brilho do ouro. Quanto mais entravam nos caminhos do cerro o lagarto ia deixando como rasto bocados de ouro até desaparecer da sua vista.

Este jornalista fugiu daquele cerro assustado enquanto se ouviam gritos espantosos. Os seus colegas nunca mais apareceram.

Quem conta esta lenda do Lagarto do Cerro do Diabo, sempre um velho, muito velho mesmo, mas bem rijo ainda nos movimentos acrescenta sempre no final a pergunta: querem ir visitar o Cerro para ver se encontram o Lagarto de Ouro? Eu levo-os...mas só vou até ao sopé do Monte...

Há quem tenha visto nos olhos do velho indígena quando o sol lhe ilumina a face um brilho intenso como se fosse o brilho do ouro.