segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Jornal Raizonline Nº 274 de 16 de Agosto de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - O despertar para a escrita

 
Jornal Raizonline Nº 274 de 16 de Agosto de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - O despertar para a escrita
 
Já tenho lido várias vezes, até em biografias de escritores ou poetas  com algum relevo ou mesmo muito, que para eles tudo começou com uma redacção ou um poema feito na Escola.
 
A professora (normalmente é uma professora) gostou muito do escrito, mostrou às colegas e estas por sua vez juntaram-se aos elogios e ali, desde logo, traçaram um destino, que a ser cumprido, será sempre lembrado pelo aluno.
 
Claro que nestas coisas, como em tantas outras, acabamos por nos lembrar até do texto, ou parte do texto, (quando é texto) que originou esta precoce atenção magesterial.
 
Não nos sentimos obrigados a dar continuidade àquilo que nos foi apontado em criança mas se eventualmente um outro sucesso se segue a este serôdio evento depressa surge na nossa ideia, ou na ideia de muitos, que «desde criança, etc. etc.» se teve uma queda para as letras, ou para outra arte que seja.
 
Daí as referências dos autores quando biografados.
 
Pois eu tive uma redacção, na 4ª classe (aos 9/10 anos mais ou menos), cuja professora, ainda felizmente entre nós, se encarregou de me augurar um futuro promissor nas letras.
 
Anos depois vim a bater numa outra professora que também gostava daquilo que eu escrevia e que chegou a encarregar-me, em conjunto com outro colega, de fazer uma elegia histórica já nem me lembro a quem ou ao quê.
 
Fé assim solidificada com alguns anos de intervalo achei que era mesmo na escrita que estava o meu futuro, não propriamente a título profissional, mas como hobby preferencial.
 
Não me tenho dado muito mal nesta actividade que aqui agora procuro demonstrar mais uma vez (entre milhares que já passaram) mas há uma curiosidade que eu gostaria de apontar.
 
Em desenho artístico achava que sempre fui uma nulidade. Faço pintura e desenho desde há cerca de 50 anos, recebo alguns cumprimentos e elogios de pessoas que percebem mesmo do assunto, mas sempre considerei esta actividade artística como uma actividade paralela e o complexo da nulidade sempre me perseguiu: «Este gajo diz isto, que está bom, para não me deprimir» pensei eu durante muitos anos, muitos mesmo.
 
Pois aqui há cerca de dois anos encontro-me com um colega de escola há muito não visto que me diz passados uns minutos de bate papo : «É pá, o que eu admirava era a tua correcção de traço no desenho e aqueles efeitos de côr que tu conseguias fazer...».
 
Pensei que ele estava a gozar comigo porque não me lembrava de ter tido alguma referência doutoral nesse campo: tive uma vez uma maçã esverdeada no quadro de honra da sala, recordei para mim mesmo, mas mais nada. A média era chapa baixa, enfim...
 
Mas não era engano dele não senhor, eu até não era mau de todo a desenho embora o professor não me gramasse muito sabe-se lá porquê.
 
E esta minha potencialidade, durante 50 anos praticada por mim como arte menor subiu alguns degraus na minha consideração.
 
Assim e fazendo jus àquilo que gostaria de ter escrito na minha campa (daqui a muitos anos, claro) na minha opinião o epitáfio ideal seria este:
 
«Fartou-se de escrever pensando que era essa a sua arte e desenhou e pintou sem consciência de que o sabia fazer.»
 
Daniel Teixeira
 
 
 
 

O preço do brincar - por Tom Coelho

 
O preço do brincar
* por Tom Coelho
 
“A melhor maneira de formar crianças boas é fazê-las felizes.”
(Oscar Wilde)

Um catálogo de produtos encartado em um jornal ou uma visita a uma loja de brinquedos podem levar pais a uma espantosa constatação: brincar nunca foi tão caro.
 
É impressionante o preço médio dos produtos e como os mesmos somente se mostram acessíveis à maioria da população graças ao artifício do pagamento parcelado. Brinquedos fabricados em produção seriada, permitindo-lhe uma drástica redução dos custos, porém com valores literalmente exorbitantes e até injustificáveis.
 
O pior é que as crianças são bombardeadas diariamente, em especial através da televisão, por meio dos diversos canais infantis disponíveis, com campanhas publicitárias envolventes que despertam nos pequenos dois sentimentos quase incontroláveis: o desejo, consciente e ligado ao objeto, e o impulso, inconsciente e associado a uma representação mental.
 
Como resultado disso, os adultos sentem-se cerceados, de modo que o máximo que conseguem é impor limites, ensinando seus filhos a fazerem escolhas, a partir do argumento de que não se pode ter tudo o que se deseja. Mas há outras lições e reflexões possíveis...
 
Tive o privilégio de viver minha infância com a liberdade de frequentar as ruas. Assim, jogava futebol com os colegas, empinava pipa, brincava de esconde-esconde, bolinha de gude, queimada ou pega-pega com as demais crianças do bairro, mesmo após o pôr-do-sol. Eram tempos nos quais a violência urbana não espreitava a cada esquina, onde os veículos respeitavam limites de velocidade nas ruas residenciais, e quando vizinhos de fato dialogavam.
 
Hoje vivemos encastelados em edifícios ou condomínios, porém isolados, pouco compartilhando com aqueles que moram no entorno. Nossas agendas densas e o tempo cada vez mais curto, fazem-nos terceirizar o lazer. Assim, os jovens vivem aficionados a equipamentos eletrônicos, hipnotizados por seus videogames, tablets e smartphones, enquanto os mais novos são entregues a uma miríade de brinquedos temáticos que proporcionam prazer de curto prazo. O brincar, tão essencial à formação psicossocial e motora, tornou-se sinônimo de consumismo.
 
Mais do que rememorar brincadeiras do passado, precisamos resgatar a simplicidade imanente à natureza infantil. Crianças divertem-se com desenhos feitos com papel e lápis, com pequenas obras de arte feitas a partir de materiais recicláveis, com histórias contadas ao pé do ouvido. Em última instância, tudo o que querem é companhia, carinho, afeto e atenção. Tudo isso não nos custa nada, sendo o que efetivamente pode entreter, ensinar e edificar valores para toda a vida.

* Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de sete livros. E-mail: tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.


 

Lendas - Lady Godiva

Lendas

Lady Godiva

Em Coventry vivia-se um tempo difícil. O sol não aquecera os pomares, fazendo com que as azeitonas e as vinhas não produzissem o suficiente para que se fizesse com fartura o azeite e o vinho. A miséria do povo era tão latente quanto à modéstia de jóias que as mulheres da nobreza traziam sobre o corpo, ou as vestes modestas que faziam dos seus habitantes os menos abastados de toda a Inglaterra.

Como se não bastasse a penúria vivida, a insatisfação assolava os habitantes, cada vez mais empobrecidos pelos altos impostos cobrados pelo conde Leofric, senhor absoluto daquele feudo. Grande parte do alimento colhido naquela estação ingrata, saía da boca do povo para que se pagasse os impostos ao nobre senhor. A fome pairava afoita pelas casas, pelos campos, por Coventry.

O conde Leofric era casado com uma das mulheres mais belas de toda a Inglaterra. Lady Godiva era serena, cabelos sedosos, longos e dourados como os raios do sol. Seus olhos eram azuis como o mar, traziam uma expressão de infinito que seduzia ao marido e todos os súditos em volta. Lady Godiva era de uma bondade imensa. Servos e escravos eram tratados por ela com dignidade. Não se furtava da caridade e de ajudar aos desvalidos e desprovidos da grandiosidade da vida e da sua opulência secular.

Um dia, os servos trouxeram diante do conde um camponês que fora apanhado a roubar nabos da horta de Leofric. Levado diante do conde, o infeliz declarou que cometera aquela imprudência extrema por não ter nada para comer, que os últimos grãos que colhera foram usados para pagar os impostos devidos. Que os cinco filhos pequenos choravam de fome, atormentando-o toda a noite. Ao ouvir os relatos do infeliz, Lady Godiva comoveu-se, convenceu o marido a não punir o infeliz, fornecendo ainda, alimentos para os seus filhos. Mesmo irritado, o conde acedeu com a bondade infinita da mulher.

Depois dos acontecimentos, Lady Godiva andou por todos os cantos de Coventry. Montou em seu cavalo, atravessou as muralhas, rondando por toda a parte. Descobriu que a fome assolava o lugar. Que grande parte dos alimentos colhidos iriam para os impostos do conde. Compadecida com o sofrimento daquele povo, Lady Godiva prometeu a si mesma intervir e a ajudá-lo.

Quando retornou ao castelo, encontrou o marido no estábulo, a supervisionar a alimentação das bestas. Lady Godiva desceu do seu cavalo. A respiração arfava de cansaço. Mesmo assim, encontrou forças para contar ao marido da tristeza e miséria que se abatia sobre Coventry. Falou com tanta ênfase que as lágrimas afloraram-lhe os olhos, derramando-se sobre as faces. O conde ouviu a mulher, que lhe implorava para que abaixasse os impostos. Não se deixou comover, mas as lágrimas da esposa, a sua veemência em defender os oprimidos, fizeram com que Leofric tentasse um ardil. Usando da sua inteligência sarcástica, ele esboçou um sorriso irônico e disse à mulher:
 

-Muito bem, já que insistes tanto na defesa deste povo, comovendo-me com as lágrimas que destroem a cor do céu dos teus olhos, concedo-te o pedido. Mas para que se realize, imponho-te uma condição, que a próxima vez que fores cavalgar, tu o faças sem roupas, completamente nua pelas ruas de Coventry.
-Tenho a tua palavra de que se o fizer, irás cumprir a promessa?
-Minha amada, se cavalgares nua pelas ruas de Coventry, não só abaixarei os impostos, como perdoarei a dívida aos mais necessitados.
-Que assim seja feito.

Leofric sorriu para a mulher. A promessa fora-lhe fácil fazer, difícil seria Lady Godiva cumprir a condição que impusera. Estava confiante de que ela desistiria e, ao sentir-se culpada, deixar-lhe-ia em paz com aquelas lamúrias.

Mas Lady Godiva trazia no coração uma bondade maior do que qualquer moral estabelecida pela mesquinhez dos homens. Lady Godiva mandou que os seus servos avisassem ao povo do seu sacrifício para salvá-los dos impostos e da fome. Pediu que durante a sua cavalgada penitente, todos os moradores deixassem as ruas e que se fechassem em suas casas. Comovido com a grandiosidade de Godiva, o povo de Coventry aceitou atender-lhe o pedido.

Assim, Lady Godiva desafiou a ironia e mesquinhez do marido. Despiu as vestes no estábulo, montou, completamente nua, o seu belo cavalo. Cavalgou por todas as ruas de Coventry de cabeça erguida, sem que ninguém ousasse observá-la. Somente Jack, o moleiro, não resistiu de contemplar tamanha beleza edênica. Contrariando a todos os moradores, abriu uma fresta da janela da sua casa, ao olhar tamanha beleza nua a desfilar pelas ruas, viu uma grande luz sobre os seus olhos, que foram cegados para sempre.

Ao retornar da cavalgada, Lady Godiva encontrou o conde à espera. Comovido, ele vestiu as roupas à mulher, depois se ajoelhou aos seus pés, reafirmando a palavra dada. Levantou-se e beijou a mulher.Leofric retirou os impostos altos dos ombros do seu povo. Naquele ano as colheitas foram abundantes em Coventry.

O azeite jorrou nos lagares, o trigo transformou-se em pães quentes sobre as mesas, e o vinho abençoou as refeições. Lady Godiva passou a ser amada pelo seu povo, até mesmo por Jack, o moleiro, que depois da luz da nudez da mulher sobre o cavalo, não viu mais nada na vida.



Poesia de Pedro Du Bois - SILÊNCIO - LADOS

 
Poesia de Pedro Du Bois

 
SILÊNCIO



A reafirmação do ocaso

sucessivo ao decorrido. Tempos

eleitos em esquecimentos. Torpor

                                       e formato.



A recondução do corpo ao silêncio

originário. O primeiro sinal de vida

escrito no todo universal.



            A solidão se completa

            em esquecimento

                  e silêncio.
 
(Pedro Du Bois, inédito)


LADOS



Na peça dos fundos
deposito o que não quero

que me acompanhe



no fundo do quarto
depósito as jóias



aos interesses maiores

deposito flores plastificadas

nas memórias arquivadas

dos inoxidáveis seres

desprovidos de passado



nos desinteresses

reverbero cânticos

e desprezo no rito

a sensação vazia

do conflito: entre

orações descubro

o texto analisado

no espúrio tempo

desconexo da vaidade



Faço o que me é pedido

perdido em estrelas

vistas em céus

anilados: anilhado

o pássaro se descobre

em céus abandonados



do que faço a pedido

relembro a ensolarada

tarde das tradições:

       antes do poente

     na desorientação

                 do corpo



Quando é hora

acordo em sonhos

e me desfaço do corpo

ao relento: na afirmação da gratidão
sou descrente emotivo



sendo hora do quando

me encontrar no bastante

faço do enjôo o sábado

aferido em descanso



Irrealizado termo
usado no subterfúgio

dos automóveis
em estreitas estradas:

o cotovelo do lado de fora

na sequência quilométrica



o termo correto na irrealização

do esteta no conforto da história:

habito a vida anterior do trajeto

e me recuso em novidades



ao morrerem malvadezas

se estendem sob o solo
no aguardo do perdão



malvadezas morrem

em perdões e se reabilitam

nas bondades contrariadas



Busco a fotografia publicada

na revista há tantos anos:

testemunho no aguardo

do desvelo com que notícias

praticam vaidades



a fotografia busca

representar em ânsia

a permanência: desbota

e envelhece personagens



Arrasto o tronco caído

sobre ao leito: não posso

estragar a rodovia no permitir
a interrupção da viagem



o tronco arrastado

permanece: leito desdobrado
na fluidez do trânsito

concatenado das saídas.





(Pedro Du Bois, inédito)


 
http://pedrodubois.blogspot.com
 
 
 


Poesia de Virgínia Teixeira - Vidas passadas - Caminho forjado - Sonhei que morrias

 
Poesia de Virgínia Teixeira
 
Vidas passadas
 
A minha alma deambula neste caminho agreste
Como tantas outras vezes deambulou noutras vidas
A minha alma procurou-te sem saber até que vieste
E a sede e a fome amansaram, por ti ávidas
 
Milhares de vidas percorri sem te encontrar
Milhares de vidas percorri apenas para te perder
Milhares de vidas roguei por ti sem me aperceber
Milhares de vidas gastas só para te procurar
 
E quando nos encontrámos, em cada vida passada
E me amaste por apenas um momento, ferozmente
A minha alma encontrou o seu porto e acreditou ter nele pousada
 
E quando nos perdemos, em cada vida passada
E nos despedimos com o olhar marejado e a alma pesada
Proferi mais uma vez a promessa de te procurar eternamente...

Caminho forjado
 
A amazona forja o seu próprio caminho,
Com uma espada de ferro incandescente
De um lado ao outro como um remoinho,
Cortando o mato bravio compassadamente
 
Desbrava o seu próprio caminho a guerreira
Com golpes desferidos com aparente bravura
De um lado ao outro, numa apaixonada cegueira
Abatendo as ervas daninhas e roseiras sem censura
 
A amazona assim desvenda o caminho da sua sina
Com golpes desferidos à falta de um caminho desimpedido
Cegamente, sem saber o que está para lá de cada colina
 
Marcando cada passo com uma grossa lágrima em pérola transformada
Sem hesitar, avança, com o seu peito de mulher aberto ao desconhecido
Não crente, não esperançosa, mas incapaz de se admitir derrotada!

 
Sonhei que morrias
 
Esta noite sonhei que morrias...
Encontrei-te deitado num caixão com aroma a eternidade
As mãos repousadas no peito que já não movias
E as pálpebras cerradas a esconder o teu olhar de tempestade...
 
As lágrimas corriam pelo meu rosto contorcido
E a minha voz transformada num grito alucinado
Som de besta selvagem, de espirito perdido...
Abracei o teu cadáver jurando manter-te acorrentado
 
Prometi-te o meu coração estraçalhado no peito
O meu corpo e a minha alma abandonadas à sua sorte
Deitei-me devagar junto a ti no teu eterno leito
 
E beijei-te como uma menina bravia que saboreia a morte
Envolvi-te com o desespero de mulher endoidecida
E ali restei, ao teu lado, eternamente adormecida...
 

 
 

A FAMÍLIA TECO-TECO - Conto Infanto-Juvenil de Avómi (Cremilde Vieira da Cruz)

A FAMÍLIA TECO-TECO

Conto Infanto-Juvenil de Avómi (Cremilde Vieira da Cruz)
Ia eu muito contente apanhando pedrinha aqui, florinha ali, olhando as árvores, sorrindo às ervinhas, quando ouvi uma vozinha muito fininha que pedia socorro. Corri para o local donde vinha a voz e deparei-me com um coelhinho que chorava.

- Que te aconteceu, coelhinho?- perguntei-lhe.
- Tive um acidente - respondeu o coelhinho - Parti uma patinha quando fugia dum caçador maroto que queria matar-me, para fazer uma boa almoçarada. O mais grave é que, depois de tanto fugir, não sei onde estou, e não consigo orientar-me para voltar para casa. Os meus pais e irmãos devem estar desesperados.

- Deixa-me ver a tua patinha!... Ah, isto está feio! De certo terás que ir ao veterinário para te tratar e é melhor fazê-lo quanto antes, porque se o não fizeres, podes ficar com a patinha aleijada.
- Terei que ir ao veterinário?! O que é isso?
- O veterinário é um Senhor que trata os animais; é o médico dos animais.
- Ah, nunca tinha ouvido falar!
- Mas o que eu mais queria, era encontrar a minha casa e a minha família. Longe dos meus familiares, sinto-me muito triste.

- Vais dizer-me onde vivem os teus pais e depois de teres a patinha tratada pelo veterinário, levar-te-ei a casa. - disse eu.
- O meu pai é o Senhor Teco-Teco e a minha mãe a Senhora Teco-Teco. A nossa casa é na quinta do Senhor Conde de... Ai que me esqueci do nome do Senhor Conde!... - disse o coelhinho.
- E como se chama a quinta? Se me disseres o nome da quinta e onde fica...
- A quinta fica num Monte e chama-se Quinta da Corticeira.

A nossa toca é muito espaçosa e gostamos muito de lá viver, porque temos sempre ervinhas frescas e aguinha muito limpa, sem precisarmos de ir para longe da toca. A água corre num riacho ali ao pé e faz um barulho tão bonito, que até parece que canta.
- Não te preocupes, que não será difícil encontrarmos os teus pais, pois pelas indicações que me dás, havemos de lá ir ter.
 

- Que bom! Estou tão desejoso de chegar a minha casa e tão preocupado com os meus pais! Eles devem estar aflitíssimos e muito tristes.
- Então vamos lá visitar o Senhor Dr. Pereira que é um veterinário meu amigo, e ele tratar-te-á cuidadosamente. A tua patinha ficará boa num instante. Vem cá para o meu colo, não quero que te esforces a andar. A tua patinha não deve estar partida, mas sim muito magoada, pois se estivesse partida não poderias andar.

Fomos ao consultório do Dr. Pereira que vive numa aldeia ali perto e ele observou logo a patinha do coelhinho Teco-Teco.
- Isto não é nada de grave. A tua patinha está apenas magoada. Vou pôr-te uma pomadinha e daqui a pouco estarás pronto para uma corrida.
 

- Obrigado, Senhor Dr. - disse o coelhinho - O Senhor é muito simpático e bom. Se soubesse o susto que apanhei, quando vi aquele caçador a apontar-me a arma!... Nunca tinha corrido tanto na minha vida. A minha sorte foi ter-me magoado quando já estava bastante longe dele, senão...
Esta amiga socorreu-me e trouxe-me aqui para o Senhor Dr. tratar a minha patinha, pois se assim não fosse estaria ainda no meio do mato, perdido e cheio de dores.
- Onde moras? - perguntou o veterinário.
- Moro na Quinta da Corticeira.

- Essa quinta é muito perto daqui! Estás a ver aquele Monte? É ali a Quinta da Corticeira.
Como estás muito cansado e a nossa amiga também deve estar, levá-los-ei no meu carro, para evitar que subam o monte a pé.
- Obrigado, Senhor Dr. Pereira! Estou tão contente por o ter conhecido!

Quando chegar a casa vou dizer aos meus pais que o Senhor é o melhor médico do mundo e, tenho a certeza que a partir de agora, a Família Teco-Teco há-de vir ao seu consultório sempre que houver qualquer problema de saúde.

Avómi

(Cremilde Vieira da Cruz)



domingo, 16 de agosto de 2015

Anedotas - Recolhidas na Net - (Facebook sobretudo)

 
Anedotas - Recolhidas na Net - (Facebook sobretudo)
 
O Maridão
.
Um grupo de homens está na sauna, quando eis que um telemóvel começa a tocar:
- Alô
- Querido
- Sim querida
- Está na sauna
- Sim estou
- Sabe o que é, estou em frente a uma loja de roupa que tem um casaco de vison magnifico, posso compra-lo?
- Quanto custa
- Só 3.000 €
- Bem está bem compra
 
- Ah que bom, outra coisa, acabei de passar no concessionário da mercedes e vi o ultimo modelo, é fantástico, falei com o vendedor que faz um ótimo preço.
- Qual é o preço
- Meu amor são só 150.000 €
- Bom ok mas por esse preço tem de ter todas as opções.
- Pode deixar eu trato brigado queridão. Olha outra coisa só
- O quê
- Hoje passei em frente á imobiliária e reparei que aquela casa que vimos o ano passado está a venda, lembras-te dela? Aquela que tem jardim, churrasqueira completamente isolada naquela praia magnífica lembras?
- Lembro sim quanto custa?
- Meu querido somente 650.000€ agora
- Bom pode comprar mas pague no máximo somente 620.000 €
- Está bom amor, obrigado és um maridão até logo beijos
- Até logo
 
Ele desliga o telemóvel e pergunta aos outros...
...
...
...
- ALGUEM SABE DE QUEM É ESTE TELEMOVEL?

 
 
Correndo à chuva

Uma mulher tinha um caso amoroso enquanto o marido estava a trabalhar. Um dia de chuva estava na cama com o amante quando, para seu horror, ouviu o carro do marido a estacionar à porta de casa.
"Meu Deus!...Rápido! Agarra as tuas roupas e salta pela janela!...O meu marido chegou mais cedo!"
"Não posso saltar lá pra fora, está a chover muito!"
"Se o meu marido te apanha aqui, mata-nos aos dois!Ele tem mau feitio e uma arma, a chuva é o menor dos teus problemas!"
Então ele agarra as roupas e salta pela janela.
Enquanto corre pela rua fora, à chuva, vê-se no meio duma maratona, organizada pela Câmara Municipal.
Estando nú, com as roupas debaixo do braço, tenta correr bem no meio da multidão.
 
Passado um bocado, um pequeno grupo começa a olhá-lo com curiosidade.
"Corres sempre nú?"
"Oh, sim!Dá-me uma grande sensação de liberdade!" -responde já ofegante.
 
Outro corredor aproxima-se dele:" Corres sempre a carregar a tua roupa debaixo do braço?"
"Oh, sim!Desta maneira posso vestir-me logo no fim da corrida e meter-me no carro para ir para casa!"
 
Então um terceiro corredor olha um bocadinho mais para baixo e pergunta:
"Corres sempre utilizando um preservativo?"
 
"Não...Não" -gagueja ele- "Só quando chove!"

 
GESTÃO POR OBJETIVOS
 
Era uma vez uma aldeia onde viviam dois homens que tinham o mesmo nome: Joaquim Gonçalves.
Um era sacerdote e o outro taxista.
Quis o destino que morressem no mesmo dia.
Quando chegaram ao céu, São Pedro esperava-os.
- O teu nome?
- Joaquim Gonçalves.
- És o sacerdote?
- Não, o taxista.
 
São Pedro consulta as suas notas e diz:
- Bom, ganhaste o paraíso. Levas esta túnica com fios de ouro e este ceptro de platina com incrustações de rubis.
- Podes entrar.
- O teu nome?
- Joaquim Gonçalves.
- És o sacerdote?
- Sim, sou eu mesmo.
- Muito bem, meu filho, ganhaste o paraíso.
- Levas esta bata de linho e este ceptro de ferro.
 
O sacerdote diz:
- Desculpe, mas deve haver engano.
- Eu sou o Joaquim Gonçalves, o sacerdote!
- Sim, meu filho, ganhaste o paraíso.
- Levas esta bata de linho e...
 
- Não pode ser! Eu conheço o outro senhor.
- Era taxista, vivia na minha aldeia e era um desastre! Subia os passeios, batia com o carro todos os dias, conduzia pessimamente e assustava as pessoas.
Nunca mudou, apesar das multas e repreensões policiais.
E quanto a mim, passei 75 anos pregando todos os domingos na paróquia.
Como é que ele recebe a túnica com fios de ouro e eu... Isto?
 
- Não é nenhum engano - diz São Pedro.
- Aqui no céu, estamos a fazer uma gestão mais profissional, como a que vocês fazem lá na Terra.
- Não entendo!
 
- Eu explico. Agora orientamo-nos por objectivos. É assim: durante os últimos anos, cada vez que tu pregavas, as pessoas dormiam.
- E cada vez que ele conduzia o táxi, as pessoas começavam a rezar.
 
- Resultados! Percebeste? Gestão por Objectivos! O que interessa são os resultados, a forma de lá chegar é completamente secundária...

 
Um padre estava a distribuir bíblias
 
Um padre estava a distribuir bíblias para as pessoas venderem e ajudarem as obras da igreja. De repente, chega um gago a oferecer os seus serviços.
-Pa...pa..dre, eu ga..go...gosta...taria de aju...ju...dar a ve...ve..nder bi...bi...bíblias:
Comovido com a tentativa de colaborar, o padre deu umas poucas bíblias ao gago.
No final da tarde, durante o acerto de contas, o padre ia perguntando aos colaboradores.
-Você quantas vendeu?
-Vendi duas.
-E você?
-Vendi uma.
 
-E você, quantas vendeu? - Perguntou ao gago.
-Eu va..ve..ndi tu..tudo.
-Tudo? - Espantou-se o padre - mas como?
 
-É sa..simples: Eu cha..chegava pa..pra pe...pessoa e pa..pe..perguntava: o se..senhor va..vai ca...comprar a bi..bíblia ou quer que...que eu leia?

 
Visitas domiciliares
 
MEDECINA NO MEIO RURAL
 
Um velho doutor que sempre trabalhara no meio rural, achou que tinha chegado a hora de se aposentar depois de ter exercido medecina mais de 50 anos !
Ele encontrou um jovem médico para o lugar dele e sugeriu ao novo diplomado que o acompanhasse nas visitas domiciliares, para que as pessoas se habituassem a ele progressivamente.
 
Na primeira casa uma mulher queixou-se que lhe doía muito o estômago. O velho doutor respondeu-lhe:
- Sabe, a causa provável e que você abusou nas frutas frescas... Por que não reduz a quantidade que consome ?
 
Quando sairam da casa o jovem disse:
- O senhor nem sequer examinou aquela mulher... Como conseguiu chegar ao diagnóstico assim tao rápido ?
- Oh, nem valia a pena examina-la... Você notou que eu deixei cair o estetoscópio no chão ? Quando me abaixei para apanha-lo, notei que havia meia duzia de cascas de mangas, um pouco verdes, no balde do lixo. É provável que isso lhe deu as dores. Na próxima visita você se encarrega do exame.
 
- Humm ! Que esperteza ! Eu penso que vou tentar empregar essa técnica. Na casa seguinte, eles passam vários minutos a falar com uma mulher ainda jovem.
Ela queixava-se de uma grande fadiga:
- Eu sinto-me completamente sem forças...
 
O jovem doutor disse-lhe então:
- Você deu provavelmente muito de si para a igreja... Se reduzir essa actividade, talvez recupere um pouco da sua energia.
 
Assim que deixaram aquela casa, o velho doutor disse para novo:
- O seu diagnóstico surpreendeu-me... Como é que chegou a conclusão que aquela mulher se dava de corpo e alma aos trabalhos religiosos ?
 
- Eu apliquei a mesma técnica que o senhor me indicou:
Deixei cair o meu estetoscópio e, quando me abaixei para o apanhar, vi o padre debaixo da cama...!!!
 
 

 

Poesia de Adelina Velho da Palma - A NOVA VELHA - ANULAÇÃO - ÓDIO

 
Poesia de Adelina Velho da Palma
 
A NOVA VELHA
 
De longe faz lembrar uma menina
empoleirada nos saltos da mãe,
embora de estatura muito aquém
duma ideal figura feminina…
 
A cabeleira ruiva estilo crina
aderna num ridículo vaivém,
o traje é colorido, vê-se bem,
demasiado até, pra gente fina…
 
Mas eis que tal visão se aproxima
e nos permite enfim grato prazer
de lhe colocar bem a vista em cima…
 
Só então nos é dado perceber
verrugas, flacidez e pantomina
de velha que não soube envelhecer…
 
Adelina Velho da Palma

ANULAÇÃO
 
Ao pé de ti eu não sou como sou
visto a pele de alguém bem diferente
pois se fosse como sou realmente
não podias ficar aonde eu estou...
 
Não me opondo a que estejas onde estou
consinto em comportar-me como ausente
de vontade e opinião dormente
imune à enormidade que te dou...
 
Se tivesses alma suficiente
eu não abdicaria do que sou
e tu encarnarias outra gente...
 
Mas não consegues ir aonde eu vou
por isso quem avança para a frente
sou eu – não sendo aquilo que sou!...
 
Adelina Velho da Palma

AVISO
 
O soneto que se segue contem ideias e/ou palavras que podem chocar o
leitor mais sensível
 
ÓDIO
 
Quero-te exangue, tolhido com dores,
a súplica e o medo em teu olhar,
a boca desfigurada num esgar
e o corpo carcomido por tumores...
 
Quero-te esmagado por dissabores,
atormentado, contrito, alvar,
sem nada que te possa aliviar
nem arrependimento nem licores...
 
Quero-te humilhado sem esperança,
castrado, sem recurso nem vingança,
presa de patético frenesi...
 
Quero-te reduzido à nulidade,
cuspir-te na cara à minha vontade
e esquecer que um dia te conheci!...
 
Adelina Velho da Palma
 
 
 
 

Os saltimbancos - Conto de Maria Petronilho

 
Os saltimbancos
 
Conto de Maria Petronilho

Chegaram em carroças.
 
Os miúdos da aldeia medieval onde estive entregue ao abandono, corriam atrás, rindo muito dos velhos chapéus de palha que os burros levavam enfiados nas cabeças, as orelhas felpudas surgindo por entre dois buracos, disfarçados com flores de papel desbotado.
 
E à noite, lá fomos: eu, a minha avó e a Henriqueta, juntar-nos à roda de povo no pequenino largo.
As pessoas, de escuro no escuro, ficaram de pé.
Os aparelhos eram cadeiras, mesas e duas estacas espetadas no chão de terra batida, uma corda esticada entre elas.
 
Os artistas vestiam farrapos, velhos e rotos.
 
Na roda dos pobres, aquela miséria extrema provocou comentários.
Sobretudo a magreza da menina que atravessou de braços no ar, a corda. Levezinha como uma borboleta, ameaçando partir a voar.
 
A contorcionista vestia um maillôt e estava tão grávida que as mulheres cochichavam entre si:
- Coitados, já começam a trabalhar na barriga da mãe.
Na meia-luz dos lampiões, pouco mais vi que a lástima.
 
Escutava o que se dizia à volta, e no fim um menino pequeno e sério passou por entre todos o chapéu do pai, que apresentara o espectáculo, sem fausto.
 
Os homens remexeram as moedas raras no fundo dos bolsos das calças surradas, as mulheres remexeram as bolsas de feltro que ainda se usavam por baixo dos aventais.
 
E os tostões, pequeninos e negros, iam caindo um a um, dois a dois... com esforço, num mudo entendimento da fome compartilhada.
 
Só as crianças sorriram e bateram palmas. Os artistas aplaudiram no fim a plateia improvisada.
 
Nunca, nunca na minha vida gostei de circo!
 
Nem no Coliseu, por detrás da praça dos Restauradores, onde ofereciam bilhetes no Natal aos filhos dos funcionários, nem na TV do Circo do Mónaco, nem do magnífico circo de Moscovo.
 
Aquele primeiro que vi e ainda vejo por detrás das lágrimas que sinto bastou-me para toda a vida!


 

Poesia de Arlete Deretti Fernandes - A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho

 
Poesia de Arlete Deretti Fernandes

A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho 

A Quem muito amei
 
 Queria ser uma flor, a rosa.
 De todas a mais delicada.
 Queria ser pedra preciosa
 que cintila ao sol, na madrugada.

Ao surgir de seus primeiros raios,
 a iluminar a natureza inteira,
 eu saio a vagar, a procurar-te,
 até chegar a lua branca e faceira.

Meu destino será amar-te para sempre,
 a plainar pela imensidão do Universo,
 qual ave a chamar a companheira.

Esta cicatriz jamais se fechará,
 espero encontrar-te em outra vida,
 minha saudade só assim se aplacará.

Arlete Deretti Fernandes
 
Bolinhas de sabão
 
A menina de vestido bonito,
 lá do topo da escada,
 solta bolinhas de sabão
 e as observa admirada!
 Multicoloridas bolhinhas !!!
 que voam nas asas do vento.

Vestido de bolinhas esvoaçante,
 Lá no topo da escada!
 a menina embevecida e deslumbrante,
 sonha que as bolinhas seguem sua estrada,
 sem saber que se acorda na vida num instante,
 E as bolinhas explodem no ar, espatifadas!.

Arlete Deretti Fernandes
 
Sementes de Amor
 
Se eu for um plantador de esperanças,
 jogarei lindas sementes pelos caminhos que passar.
 Sementes de amor aos carentes,
sementes de paz aos sofridos,
 sementes de alegria aos tristonhos.

E quando voltar da jornada,
 pularei, cantarei versos de esperança
 a todos que dela precisarem.
 Verei ao longe o arco íris depois da chuva,
 as estrelas, o capim e o cheiro de terra molhada.

E sorrirei, porque muitas sementes
 brotaram na minha volta, e de seus brotos
 saíram pétalas multicoloridas,
 e as crianças têm boas escolas,
 os doentes são tratados em bons hospitais,
 os idosos recebem carinho.
 E as sementes de amor proliferam cada vez mais...

Arlete Deretti Fernandes
 
Sonho
 
Quero chegar bem devagarinho.
 Pé antepé, e com carinho,
 Recordar aquela meiga criança
 Que um dia esperou o coelhinho.

Passar a mão em seus lindos cabelos,
 Beijar seu rosto inocente,
 Olhar com alegria seus olhos,
 Que amarei para sempre.

Quando chegam estas datas
 Meu coração sente mais saudades
 De um tempo que foi ontem.

Caminho pelos gramados
 E no meio das plantas revejo
 Um cinema inesquecível.

Arlete Deretti Fernandes


 

Poesia de António Cambeta - VENDAVAL; SAUDADES NO CAIS DEIXEI

 
Poesia de António Cambeta
 
VENDAVAL;  SAUDADES NO CAIS DEIXEI   
 
 VENDAVAL
 
 No meu pequeno, mas belo jardim
 entrou a tristeza
 o vendaval que assolou a região
 levou-me as belas flores
 as rosas negras, os crisântemos amarelos
 as orquídeas de âncora
 que eu tinha bem estimadas
 como um tesouro que Deus nos dá.

As plantei e tratei
 com paciência de bonzo
 numa tarde serena e luminosa
 de Maio

Diariamente
vigiava meu tesouro
 de orquídeas de âncora
 de Fá Mui e de tulipas

Visionava distante com se de um sonho
 se tratasse.
 De um sonho pleno de amor.

Viver o sonho que sonhei
 entre as orquídeas de âncora de meu jardim
 embriaga-me
 no seu perfume oriental
 das orquídeas de âncora.

Uma noite
 a tristeza
 entrou em meu pequeno mas belo jardim
 e com o vendaval da noite
 minhas orquídeas de âncora
 minhas rosas negras
 meus crisântemos amarelos
 foram levadas pelo vento.

Na manhã seguinte
 ao encontrar todo o meu tesouro
 desfeito, chorei lágrimas de sangue.
 no chão ainda pude ver uma orquídea de âncora
 tentar sobreviver foi só o que restou

De novo, com paciência de chinês
 tentarei fazer florir meu tesouro
 e o protegendo das intempéries
 irei fazer para que minhas orquídeas de ancora
 fiquem bem amarradas ao fundo da terra
 para que jamais as possa perder
 
 SAUDADES NO CAIS DEIXEI
 
 Saudades no cais deixei
 ficando assim aliviado,
 esqueci quem tanto amei jamais serei atraiçoado.

O mar, esse sei que é traiçoeiro,
 mas a ele estou habituado,
 o tenho por amigo e companheiro,
 sei que dele sou sempre amado.

Suas águas vou percorrendo,
 as marés as vou contando,
 e aos poucos envelhecendo
 mas dele sempre gostando.

Neste mar imenso e salgado
 suas águas vou sulcando,
 tendo o leme bem calibrado
 minhas mágoas vou soltando.

Tenho o mar e o céu por companhia,
 à noite as estrelas vou contemplando,
 e o sol que raia de dia,
 esses me vão acompanhando

Vivo um pouco na solidão
 não tendo com quem falar,
 fortalece meu coração,
 Tenho Deus para me ajudar.

O rumo nunca perdi,
 com o norte sempre atinei,
 foi nele que sempre vivi
 e nele sempre estarei.

é sempre bom conselheiro,
 para quem com ele souber falar,
 ele é bom é fiel companheiro
 que sempre nos sabe amar.

Meu rumo está destinado,
 ao longe, o cais já avisto,
 a ele ficarei amarrado
 nesta viagem tudo está já está previsto.

O mar, este, agora de berço me serve,
 depois será minha sepultura,
 minhas cinzas ele conserve
quando chegar à altura.

Depois, para sempre nele repousarei,
 findarão as minhas mágoas,
 e eternamente navegarei
 em suas serenas águas.

Outras marés outros oceanos,
 irei então encontrar,
 findam assim os desenganos
 a quem na vida tanto soube amar.


 

A Lenda da Senhora Matilde e da «San Líjà Bote» - Conto de João Furtado

 
A Lenda da Senhora Matilde e da «San Líjà Bote»
 
Conto de João Furtado
 
 Vestida imaculadamente de branco, a senhora Matilde, sim era este o nome da velha que diariamente sentava-se a berma do rio Papagaio.
 
Usava saias longas e de pregas e uma blusa de mangas folhadas. Esperava alguém, alguém que deveria voltar e nunca mais voltaria. Aquela zona era denominada de «San Lijà Bote», em português, senhora Luísa Bote.
 
Que esperava a senhora Matilde? Alias quem esperava ela?O João diariamente passava por ela e tornava a passar. Passava para ir a escola e passava de novo quando voltava para a casa. A senhora Matilde lá estava.
 
Ia bem cedinho e só regressava a noite. Há anos que ela passava o dia sentada. Alimentava de cola e agua. Graças a Deus a cola era uma semente milagrosa. Bastava uma semente para não se sentir a fome durante longo período do dia e era fácil de se conseguir.
 O fazia ela sentada ali e quem esperava ela?
 A agua cristalina e transparente descia rio abaixo até o mar alheio a tudo e a todos e a Senhora Matilde, alheia a tudo que passava a sua volta fixava os olhos no rio e via a agua correr na sua trajectória milenar, enquanto respondia a todos que por ela passassem o «Passô» com outro «passô».
 
Ninguém mais se importava com ela. O hábito de ficar sentada a beira do rio já se havia transformado em normal, natural. Um tão estranho hábito tornou-se habitual e quando o estranho se transforma em normal, ninguém mais liga. A Senhora Matilde já tinha se tornado em parte integrante do ambiente.
 
Um dia ela não pode ir, ela tinha apanhado uma ligeira gripe, ai sim todos acharam anormal e correram para a casa dela, para saberem o que havia acontecido com ela.
 
O João sabia o caminho que devia seguir de cor e salteado. Nunca deveria encurta-la. Devia ir tomar sempre a ponte e atravessar o rio, seja porque razão ou motivo for.
Mas naquele dia estava com pressa e o rio parecia tão calmo… podia saltar a casa ficava a poucos metros da margem do outro lado do rio.
 
Já estava a entrar na água quando ouviu a Senhora Matilda a chama lhe:
- Mino, minooooooooo, vem cá!
 Voltou, veio responder, na Ilha era assim, todos se conheciam e se respeitavam, uma Ilha pequena e uma cidade ainda mais pequena.
 
Tornou a dizer «passo» era o costume. Se encontrassem mil vezes, mil «passo» era dado.
-Sabes porque estou cá sentada? Não, não sabes! Tenho uma única filha, a Maitê, devia ter tua idade quando entrou na água, precisamente onde ias entrar. Nunca mais voltou e eu estou cá a espera dela, um dia haverá de voltar.
-Para onde foi ela?
-A «San Lijá Bote» levou-a para o seu mundo. Todos dizem que ela nunca mais voltará, mas eu sei que um dia a Maitê voltará. Um dia a “San Líjá Bote» deverá dormir e ela fugirá e regressará.
 
-Há quantos anos ela desapareceu?
-Há mais de trinta anos, mas vou esperar, vou esperar até o dia que ela regressar, irá voltar um dia! Era um dia de sol como hoje. A água estava cristalina e transparente. Ela vinha em grupo da escola. Entrou na agua e as colegas ficaram a vê-la, de repente fez um remoinho no meio do rio e ela foi puxada. As outras crianças viu-a a ser puxada e nada podiam fazer, até que ela se perdeu para sempre.
 
-A senhora vai ficar aqui mais quanto tempo? Porque não entra no rio e vai procurar a sua filha?
 
A senhora Matilde não respondeu. Caiu de novo no seu silencio e na sua resposta ao «passo» que os habitantes da Ilha lhe desejava…
 
Por muito tempo o João e os habitantes da ilha continuaram a ver a senhora Matilde imaculadamente vestida de branco sentada esperando a filha Maitê. Até que um dia ela deixou de ser vista. Procuraram-na por toda a Ilha, mas ninguém a encontrou. Ninguém soube ao certo o que aconteceu com a Senhora Matilde.
 
O João tinha uma certeza, a Matilde havia entrado no rio, havia ido procurar a Maitê e a «San Lijá Bote» ficou com ela também. Disse para toda a Ilha, afirmou que foi ele que a aconselhou a fazer tamanho disparate, mas ninguém acreditou nele.
 
Ainda hoje fala-se na «San Lijá Bote» na sua fome insaciável de povoar o seu reino encantado e também fala-se do desaparecimento misterioso da Matilde.
 
Mas nunca ninguém ligou os dois casos.
 
Ninguém não, o João os ligou sempre.
 

 

Laudelina - Por: Cecílio Elias Netto

 
Laudelina
 
Por: Cecílio Elias Netto
 
 Sempre estiveram abertas e viçosas as flores de Laudelina. Quem passasse pela antiga casa, na esquina da 15 com José Pinto de Almeida, poderia vê-las, ainda que protegidas por grades, pedindo para serem roubadas. Pois as flores de dona Laudelina Cotrim de Castro surgiram para ser roubadas por moços enamorados.
 
Eramos uma cidade sem grades, num tempo sem prisões morais e sustos. Em noites de serestas, as flores de Laudelina ficavam assanhadas à espera de quem as roubasse para levar às janelas das namoradas, noites de serestas sob céus enluarados.
 
Pulava-se a mureta do jardim num fingimento comum: ela fingia não ouvir passos mansos no jardim, nós fingíamos que a estávamos enganando.

Quando passo por lá, não consigo deixar de pensar nas flores de Laudelina. E, talvez por essa tristeza que surge não se sabe de onde ou porquê, dá-me uma vontade danada de pular o muro, roubar rosas em plena tarde chuvosa, sair caminhando em busca de um violão e, então, sentar na sarjeta e chamar os amigos para cantar modinha de coisas de amor.
 
Pois estão muito feios os nossos tempos e parece que vão enfeiando até mesmo o amor.
E, na tristeza repentina de uma tarde chuvosa, as flores de Laudelina pareceram aqueles «psius» que ela sabia dar quando se deparava com tolices das pessoas.

Um «psiu» que permanece no ar, diante das tolices que vimos fazendo nesse ir sem saber para onde, nesse vir sem ter para o quê voltar.

A casa que foi de Laudelina fizeram bater uma saudade danada dentro do peito, saudade ou nostalgia não consigo definir, mas sei que melancolia doída como garoa fina caindo em folha seca.
 
Não sei se foram as rosas, se a ausência de Laudelina Cotrim de Castro o que começa a machucar e a doer, pois essa sensação de ausência dói e machuca.
Laudelina preenchia todos os espaços vazios de Piracicaba e sabia afastar qualquer tristeza.
 
Ela não suportaria viver em tempos tão amargos, mas não fugiria deles. Laudelina mudaria os tempos, pois ela era mulher de mudar, de transformar, de mexer.
E se o jardim da casa dela ficou é porque ela permanece viva em algum lugar e não a estamos vendo. O «psiu», agora, entra pelo coração. E fica incomodando.

Temos que mudar, é preciso mudar. Mas não sei o quê, nem como. E, talvez, estejamos cometendo equívocos terríveis pensando que as mudanças venham apenas pela política. Não virão. Há certezas enraigadas demais e, portanto, obstáculos a quaisquer mudanças.
 
Talvez, os tempos estejam pedindo que, no lugar de tantas certezas, passemos a ter mais dúvidas. Princípios é que precisam de raízes, certezas, não. Como as plantas de Laudelina que, enraízadas, se renovavam em cada florada.

Aquela notável mulher sabia viver a experiência do novo sem precisar da novidade, Laudelina tinha a sabedoria de manter vivo o eterno sem deixá-lo envelhecer.
São abençoadas as pessoas que vêem a presença do infinito em cada instante da vida.

A casa de Laudelina era como que um marco de confiança para os estudantes que, indo e voltando – sabendo para onde ir, tendo para onde voltar – subiam e desciam a rua 15, uma passarinhada garrulando em direção às nossas escolas.

De dia, as flores de Laudelina encantavam, perfumavam. De noite, davam piscadelas para ser roubadas. Eram tempos, sim, de saber que as rosas não falam, que as rosas trescalam.
 
Bate uma saudade danada no coração ao ver que não há mais jovens ladrões das rosas de Laudelina, pobres rosas solitárias à passagem da multidão. Sei lá. Ouvi um «psiu» no coração. E deu saudade de Laudelina.
 
Bom dia


 

Fiel companheiro - Texto de Joaquim Nogueira

 
Fiel companheiro
 
 Texto de Joaquim Nogueira
 
 «… chamava-se Ben-Hur… não tinha raça certa e era preto… hoje o meu Black faz-me lembrar um pouco esse meu primeiro cão… eu tinha na altura os meus 5 anos e me lembro muito bem dele…
 
tinha a sua casota ao fundo do quintal junto aos galinheiros e ao pombal… (já naquele tempo o meu pai era columbófilo e de muito cedo a minha paixão pelos pombos se revelou que mais tarde, vim também a interessar-me pela modalidade)… servia de guarda mas de dia andava solto pelo quintal…
 
já contei no meu antigo blogue algumas histórias do meu actual Black mas sobre este meu primeiro companheiro ainda não havia escrito algo sobre ele… quando os meus pais saíam de casa e eu tinha de ficar, ele o Ben Hur ficava comigo dentro de casa…
 
então, inocentemente, brincava com ele e recordo que o seu corpo era maior que o meu… recordo que um dia a brincadeira me cansou e eu adormeci deitado no chão do corredor… ao meu lado o Ben Hur tinha-se deitado com a pata debaixo do meu pescoço e naquela posição ficara até os meus pais chegarem…
 
acordei com o rosnar do bicho… meus pais queriam pegar em mim mas o cão não o permitia… talvez dentro dele se travasse uma batalha: a quem obedecer?… Ao dono, meu pai, ou defender a posição do seu fiel companheiro que era eu?…
 
Recordo de me ter levantado e ao mesmo tempo ele se levantou também e se sacudiu, como é costume deles quando saem da água, como para desentorpecer os músculos que deveriam estar exaustos da posição ora assumida…
 
não tenho uma recordação muito fiel do olhar dele mas lembro-me do meu, dez anos depois quando ele morreu após prolongada doença e já cego não deixou de olhar para onde eu estava a ver os seus últimos momentos… não me via mas sentia-me…

quando tombou o focinho preto no cimento do chão, os meus olhos não contiveram as lágrimas… e, sinceramente, não sei porque me lembrei hoje dele, aqui e agora…
 
talvez porque o latido lá fora do meu actual Black me tenha feito recuar 50 anos no tempo e lembrar-me do meu primeiro cão…»
 
 


 

Ternura... - Conto de Irene Fernandes Abreu in Blogue Valium 50

 
Ternura...
 
 

 
 Marisa deu uma corrida e ainda conseguiu apanhar o comboio, que fechou logo as portas mal ela entrou. A carruagem nem estava muito cheia.
 
Olhou indecisa para o banco que estava logo à entrada da porta para se sentar, mas desistiu da ideia, porque a mulher que lia uma revista, estava sentada de tal forma, que não sobrava muito espaço para ela. Foi então que reparou na velhinha num dos bancos a meio da carruagem, que lhe lançou um sorriso convidativo:
- «Ah menina, ainda bem que se sentou aqui, estava com medo que fosse aquele sujeito que tem ar de ladrão...»
 
Ela sorriu e acenou com a cabeça, num gesto cúmplice.
 Sentada à janela do comboio, a velhinha confidenciou que já tinha tirado os «ouros», ou seja, os fios e pulseiras que habitualmente usava e que vinham já da sua avó. Filigranas raras, deviam valer bom dinheiro, se a roubassem... nem queria pensar no desgosto.
 
Tinha medo andar com eles assim à vista, pois o caminho da estação até a casa, a pé, era escuro e longo e agora andava por aí tanta malandragem, que todo o cuidado era pouco.
 
A «menina» olhou a idosa e enterneceu-se, lembrava-lhe a mãe, já falecida. A velhinha continuou a tagarelar, falando da filha, dos netos, da vida cara, do tempo cheio de humidade, que lhe atacava o reumático...
 
 Saíram na mesma estação e foi cada uma para seu lado, enquanto a jovem se metia no carro, estacionado mesmo ali, a velha senhora seguia devagar junto à linha. Ela olhou-a e, lembrando-lhe mais uma vez a figura da mãe, sentiu uma enorme ternura.
 
O seu carro já tinha percorrido alguns metros, quando num impulso, meteu marcha -atrás e parou junto da velhinha:
-«Avozinha, entre!» - disse com um sorriso meigo, esticando o braço e abrindo-lhe a porta do lado do passageiro.
 
Depois de a deixar à porta de casa, feliz por não ter de fazer a tal caminhada cheia de perigos de assaltantes e, entregue à filha e aos netos, Marisa retomou o seu caminho.
 
Chegou a casa, cansada mas contente. Bebeu um café e só então abriu a mala e despejou em cima da mesa o espólio desse dia, conseguido à custa de uns tantos empurrões nos transportes públicos...


 

 

Poesia de Sanio Aguiar Morgado - CINQUENTA ANOS - TEMPO DA POESIA

 
Poesia de Sanio Aguiar Morgado

CINQUENTA ANOS
 
 Hoje acordei com
 cinquenta anos e fui procurar
minha cara no espelho.

Onde estará o rosto
 que era meu, com tudo que sou
 e sempre esteve comigo.

Os cabelos que me
 cobriam a testa, a pele sem
fungos e o olhar sem rugas.

Agora tenho que me
 aceitar todos os dias e acostumar
 com todas estas diferenças.

Não me encontrarei
 mais neste espelho, mas este olhar
sei que ainda é o meu.
 
TEMPO DA POESIA
 
 Não há como evitar
este tempo que se esvai,
 pelos meus dedos
 e o olhar.

Perdendo-se em
labirintos, com sonhos
 presos a abismos
 que não se comunicam

Agonizando pelas
paredes e nas fotos
e papéis esquecidos
em gavetas.

Guardarei comigo
 preso a correntes, meus
 versos, estrofes e rimas
 do tempo da poesia.
 
FLORBELA ESPANCA
 
 Versos que ecoam do além,
 dor que não é só tua,
 é minha também.

Os amantes e sofredores
 estarão sempre juntos,
 eternamente...

Florbela Espanca,
o amor que de ti se espalha,
como vento beijando rosas.

Vila Viçosa... a tempestade
 de todo teu sofrimento
 no chão desta aldeia.

Paixão eterna, antiga,
 vida tão breve, tão sofrida,
 flor bela…flor querida...
 
QUEBRA CABEÇAS
 
 Desde pequeno fui guardando
 peças curiosas que encontrava,
 algumas pareciam escondidas
 e outras pelo caminho onde passava.

A vida foi então seguindo
 e muitas depois fui achando
 como um quebra cabeças que
 aos poucos fui montando.

Já percebo a sua forma,
 seus inúmeros tons, sei
 as peças que me faltam e que
 dependem mais de mim.

Não é fácil encontrá-las agora,
 é já segredo, uma revelação,
 e a qualquer instante poderei ver
 o mistério desta emoção.

Sanio Morgado
 
 

 
 

Coluna: Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano. - O Saci Pererê

 
Coluna: Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.
 
O Saci Pererê
 
Prólogo atual: este texto, feito em abril de 1998; faz parte de meu penúltimo livro, uma antologia de contos, crônicas e poesias, cujo título é «Fragmentos»; na verdade um livro quase inédito, posto que não tenho tempo de procurar livreiros e eles não me enxergam, quando os encontro.... .
 
Devido à tragédia que ocorreu com a cidade de São Luiz de Paraitinga, SP, durante o mês de janeiro de 2010 e sendo esta cidade a sede da Sociedade dos Criadores de Sacis (SOSACI), resolvei torná-lo público. Gostaria que os leitores pudessem ajudar as famílias de lá, da maneira que puderem!
 
Para os leitores lusófonos terem uma idéia, o desastre ambiental em São Luis de Paraitinga parece ser muito maior do que aquele que ocorreu na Ilha da Madeira, na última sexta feira, 19 de fevereiro de 2010; ainda com a diferença de que São Luis Paraitinga é uma cidade importante sob muitos aspectos, porém pobre... .
 
Quem quiser conhecer como a cidade era, entrar no site:
 o www.paraitinga.com.br
 
 
Toda vez que chegava uma nova família na fazenda de café, onde eu vivia, todos se alegravam. Os adultos, por terem mais um amigo por perto, já para a molecada da fazenda, nem se fala! E, ao ver-mos que na família nova tinha um menino da nossa idade então, ficávamos curiosíssimos: será que o novo amiguinho teria um dote especial? Será que ele sabe jogar bola melhor, brigar melhor, nadar melhor? Será que ele sabe tocar viola ou cavaquinho, fazer gaiola de passarinho e arapuca; será que é bom de estilingue ou bodoque e etc.?
 
Cada um de nós ficava imaginando qual seria a sua experiência de vida; se ele tinha irmãos e outras coisas.
Como era praxe, colono novo almoçava na casa do administrador no dia da chegada: era as «boas vindas». O Administrador, meu pai, pagava a despesa do próprio bolso, pois o fazendeiro sovina jamais o reembolsou; talvez Deus tenha feito isso por ele! Papai tinha muita pena de gente que viajava com filhos pequenos durante muitas horas, às vezes passavam o dia todo sem comer.
 
- Naquele sábado não foi diferente, quando vi o «panelão» que borbulhava no fogão à lenha, logo imaginei: como não vai haver festa, é colono novo chegando, e de longe.
- Percorri toda a colônia avisando meus amiguinhos que teríamos gente nova na fazenda e que meu pai afirmou que tinha um menino da minha idade. Nesse dia não saímos para pegar frutas, nem caçar, nem jogar bola: passamos o dia todo debaixo da mangueira do quintal da minha casa, brincando com vaquinhas e cavalinhos de bucha, caminhõezinhos de lata de marmelada, aos quais atávamos um «cordoné» para poder puxá-los.
 
Desse modo transportávamos uma boiada do curral de um até o piquete de outro, e vice-versa. Fazíamos transações comerciais, as quais eram pagas com tampinhas de refrigerantes (o guaraná Paulista valia um conto; guaraná Caçula, destões (um mil réis); Mãe-Preta ou Níger, quinhentos réis).
 
A tarde já se anunciava mostrando a barra do dia avermelhada e o céu azul, que só a região de Cravinhos tem, quando percebemos um certo alvoroço com o pessoal da casa: a carroça com a mudança do novo colono chegou. Eu e meus amiguinhos corremos até o portão da frente da casa e deparamos com uma família diferente: o pai, que estava conversando com o meu, era um crioulo alto, forte, com dentes brancos e perfeitos, com as carapinhas já embranquecendo; a mãe parecia bastante jovem, com um bebê no colo, ao mesmo tempo que dava ordens ao menino e sua irmã, um tanto atarantados com minha presença e de meus amiguinhos, e remexia em sacolas, sacos e embornais à procura de não sei o quê.
 
Meu pai muito gentil, pediu que apeassem e se preparassem para aquele almoço fora de hora. Minha mãe foi chispando reacender o fogo e botar o panelão e a assadeira para aquecer.
 
- Eu e meus amiguinhos não desgrudávamos os olhos do menino, que agora sabíamos chamar-se Ditinho, que por sua vez parecia muito incomodado com a nossa presença. Toda a família do Ditinho foi até a «vasca» do fundo do quintal, se refrescaram, banharam os braços e o rosto, molharam delicadamente a cabeça e a mãe penteou-os todos, até o marido.
 
Nesse ínterim minha mãe chamou-os para comer e já estava com a mesa posta: no panelão, risota caipira: uma espécie de sopa de pouco caldo com arroz, batata, frango, cenoura, vagem, cozidos com açafrão recém colhido, coberto de salsinha picada e queijo curado ralado; havia também mandioca frita, feijão, uma farinheira cheia de farinha de mandioca, que eu ajudei a fazer, e uma assadeira com um pernil de tatu «rabo mole» tostadinho, duas jarras de água da bica e uma tigela de arroz-doce com folhas de laranjeiras.
 
Eu e meus amiguinhos não ficamos ao lado da nova família de colonos, mas ficamos apinhados do lado de fora das duas janelas da sala com a grande mesa, onde freqüentemente comíamos em, no mínimo, nove pessoas.
 
Enquanto o pai do Ditinho almoçava, os camaradas da fazenda descarregaram a mudança na casa recém caiada da colônia, com chão de terra - batida, dois quartos, sala e cozinha. Na fazenda, os banheiros são feitos do lado de fora, diretamente sobre uma fossa, que a cada ano era coberta de «cal viva» e aterrada, sendo então feita uma outra.
 
Na verdade era cercada por folhas de zinco, e de zinco era também a cobertura. Eu e meus amiguinhos assistimos a despedida da família do Ditinho, agradecendo a hospitalidade e rumando para sua nova casa. Quando passou por nós, o Ditinho disse amanhã eu quero falar com vocês!
 
Ficamos bastante ansiosos, e mal podíamos esperar para falarmos com o novo amigo no dia seguinte. De manhã, como de costume, apanhei a caneca de louça, coloquei dois ou três dedos de café, acrescentei quatro colheres de açúcar cristal e fui até o curral, para tomar meu café com leite «direto da fonte».
 
A «fonte» era uma vaca rústica, toda «chitadinha» de branco e preto, chamada Bela Vista, que era a nossa preferida. O tirador de leite, que começava a ordenha por volta das quatro da manhã, precisava tirar o leite todo antes das sete horas, quando então enviava para minha casa duas latas de vinte litros: uma para os colonos e outra para fazer os queijos dos patrões; pelo menos dois por dia.
 
Portanto, o tirador de leite sempre deixava a Bela Vista para o final, pois a qualquer momento eu e meus irmãos podíamos querer leite fresco. Ele esperava até sete horas, aí então terminava seu serviço.
 
Pois bem, após meu desjejum, passei em casa e comi um belo pedaço de pão caseiro com queijo e me dirigi à colônia: pretendia reunir os meus amiguinhos e, juntos, irmos a casa do Ditinho. Mas, ao chegar à colônia, já os vi todos, inclusive o Ditinho, num bate-papo animado, que só parou quando me aproximei e disse: - o que você quer falar com a gente? Antes mesmo de o Ditinho abrir a boca, o Ném, meu amigo disse: ele vê e ouve saci - pererê!!.
 
Ele vê o que?, disse eu sem entender direito: saci - pererê, disseram todos em coro.
 
Nesse ponto, o Ditinho começou a contar a sua história: disse que sua mãe verdadeira já havia morrido, e aquela que morava com seu pai, era sua madrasta, e que sua irmã, por parte de mãe sofre de vermes e desmaia quando passa vontade de comer alguma coisa, mas que o bebê é lindo; a madrasta não liga pra ele e seu pai é generoso e trabalhador e que desde que era menino, ele via saci - pererê, só que não sabia o que era: a primeira vez que viu tinha quatro anos, fazia muito tempo, pois agora já tem sete e que qualquer criança pode ver o saci - pererê e que ele não faz mal a ninguém, só faz estripulias, que quando tinha cinco anos ele não quis brincar com o Saci e que o Saci derrubou todas as panelas da madrasta no chão da cozinha, durante a madrugada e que seu pai deu dois tiros de espingarda nele e que agora tem medo do saci se vingar do seu pai.
 
Eu e meus amiguinhos, inclusive o novo, ficamos ali até que ouvi o sino da sede da fazenda: era o sinal da minha mãe, avisando os filhos e meu pai que o almoço já estava pronto. Durante o almoço com minha família comentei com meu pai do menino novo que via e ouvia saci - pererê e enquanto meus irmãos faziam caçoada de mim, meu pai falou: Pois, agora, toda vez que vocês saírem juntos, você tem que levar uma caixa de fósforos no bolso. Meus irmãos todos se calaram e meu pai não disse mais uma palavra, continuou calmamente a almoçar, com o olhar cúmplice de minha mãe: No mesmo instante eu percebi que meu pai também acreditava, ou já tinha visto um saci - pererê.
 
Durante os próximos dias e durante todo o ano, até a colheita do café, após a qual todos os contratos dos colonos venciam e discutia-se, quem vai ficar na fazenda e quem vai sair, discutíamos os casos dos sacis - pererês.
 
Certo dia o tirador do leite não encontrava os baldes para a ordenha, num outro dia os rabos dos cavalos apareciam amarrados uns aos outros, noutra ocasião esvaziaram o lavador de café, inundando todo o terreiro de secagem e atrasando o beneficiamento por mais de uma semana, enfim de vez em quando alguma traquinagem acontecia na fazenda: e eu sempre com a caixa de fósforos no bolso.
 
No final da colheita do café daquele ano, a família do Ditinho resolveu ir embora para São Paulo e eu e meus amiguinhos ficamos muito tristes, pois embora o Ditinho não pudesse jogar bola e tivesse dificuldade de nadar ou caçar de estilingue suas estórias eram muito excitantes.
 
No dia da sua partida, marcamos com ele para nos despedirmos junto à porteira da fazenda, uns dois quilômetros longe de casa, em meio a uma mata fechada. Quando a carroça com a mudança chegou, não vimos o Ditinho. Perguntamos por ele, e seu pai disse: ele vem vindo a pé pelo meio do mato - e foi embora. Estranhamos muito, mas ficamos ali esperando.
 
Após algum tempo, ouvimos um assovio longo e forte e nos voltamos para uma «picada» no mato e vimos o Ditinho com um boné vermelho na cabeça, cachimbo na boca, pulando sobre sua perna aleijada, completamente pelado e gritando:- me dá o fogo senão morre ou fica bobo!
 
Todo amedrontado, retirei a caixa de fósforos do bolso e entreguei ao Ditinho, que saiu rindo alto e assoviando, pulando atrás da carroça de mudança.
 
O Ditinho era o próprio saci-pererê!