quinta-feira, 4 de junho de 2015

Poesia de Cremilde Vieira da Cruz


Poesia de Cremilde Vieira da Cruz


TENHO MEDO

Tenho medo de ter medo,
Deste medo que me faz medo.

Tenho medo do medo que tenho.
Tenho medo que tanto medo,
Me faça perder o medo,
De perder o que não tenho.

Tenho medo...

Cremilde Vieira da Cruz


SONHO

Vinhas
Todos
Os dias
E eu
Olhava,
Olhava,
Olhava...
Pr’a ti.

Depois,
Surgiu
Chuva
Miúda,
Molhou
Os sonhos.

Fugi,
Com medo
De te
Amar.

Cremilde Vieira da Cruz


ANOITECER

Espreito quase ininterruptamente à janela,
E para além de vestes abanadas pelo vento,
Rostos desconhecidos,
Não vejo nada.

É um domingo qualquer,
À espera de ti,
E vedam-me a visão,
Persianas envelhecidas,
Paredes intransponíveis,
Nuvens de poeiras esquálidas,
Portas trancadas opacas.

Neste domingo de horas curtas,
Quase no fim,
Ainda espero por ti.
Espero por ti,
Espreito à janela
E apenas se me deparam paisagens mórbidas,
Ou qualquer sonho inatingível.

Apetecia-me o mar,
O longe...
Afaga-me a “Rosa em Botão”
Do poema de Vinicius.
O mar não me chamou,
Partiu não me levou.
O céu não me quis ver,
Partiu sem me dizer.

Havia uma palavra azul
Que me estendia os braços,
Que me levava pela mão,
Que me beijava os dedos,
Mas morreu.
Morreu de sede,
De fome,
E de saudades do mar
Que lhe afagava as raizes.
Costumava falar-me de ti com carinho.
A cada instante,
Embrenhava-me na paisagem tranquila daquelas horas,
E sonhava...

Não sei porque espero por ti.
Não sei porque espero por alguém...
Ainda espreito à janela,
E escorre dos vidros um silêncio negro,
Como o negrume de minha ansiedade.

Escrevo para ti,
Porque não posso falar contigo.
Minhas falas morreram,
E foram com a enchente do rio,
Na hora da tempestade.

Escrevo para ti,
Para estar mais perto de ti,
Nesta hora de crepúsculo
De pensamentos desnudos,
Conscientes da verdade.

Cremilde Vieira da Cruz





Sem comentários:

Enviar um comentário