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domingo, 17 de maio de 2015

Crónica por Martim Afonso Fernandes - O JOVEM VOADOR


Histórias da Vida Real

Crónica por Martim Afonso Fernandes

O JOVEM VOADOR

Ícaro Passos de Araújo, era o nome de um rapazola de mais ou menos seus treze anos. Gostava muito de aventuras e mais ainda de fazer diabruras.
Não perdia filmes que pudessem lhe sugerir algo de importante e curioso. Certa ocasião sonhou que estava a voar. E resolveu começar um projeto voador!

Em primeiro lugar saltou de cima de uma casa com um guarda-chuva aberto, que deu-lhe alguns segundos de prazer, deslocou-se uns cinqüenta metros, mas a armadura metálica do sombreiro não resistiu e virou ao contrário.

Depois, a continuar suas experiências, pegou um pato, ave caseira, e começou a jogar para cima e a observar os movimentos das asas. A abrir e a fechar.

Com uma cartolina, resolveu desenhar modelos de asas e passou para a construção. Preparou uma armação de bambu e cobriu-a com tecido. Colocou o aparato sobre suas costas e os braços dentro dos suportes para acionar os movimentos de bater as asas.

Chegou o dia do teste. Chamou os colegas para ajudá-lo a fixar aquela armação móvel, que estava bem comentada na cidade e na escola onde estudava. Sua residência situava-se numa rua de declive bem acentuado. Tudo pronto. O Icaro sonhador partiu para a realização de seu grande projeto.

Ao se projetar do telhado de sua casa, a euforia e os aplausos dos presentes foram grandes, mas duraram pouco tempo. Faltou energia para que seus braços pudessem deslocar o ar e galgar uma distância e uma altura para completar o percurso de seu desejo. Por proteção de anjos, não chegou a quebrar-se muito, sua aterrissagem fé-lo cair de pé e sair a rolar pelo mato rasteiro que por ali existia.

Ao completar maior idade, Ícaro foi prestar serviço militar na Força Aérea Brasileira, podendo assim realizar uma parte de seu sonho. Não voou com asas próprias, mas com asas metálicas, com aviões a propulsão, motorizados ou turbinados.

Este jovem passou para a história. Dava seus longos passos no ar, cortando os ares que na sua infância tanto sonhara atravessar. Mais uma vez o homem sonhou voar. E realizou seu grande sonho.

Seria seu nome e seus sobrenomes que o incentivaram a querer subir às alturas? Aqui no Brasil chamamos aos tripulantes de navios de marujos, por andarem no mar. E, para completar, não ficaria nada mal chamar de araújo a quem anda pelos ares.

Ícaro, após terminar seu tempo de prestação ao serviço militar, retornou à vida civil. Há muitos anos passados, reencontrei um amigo nosso de infância e ao perguntar-lhe sobre alguns companheiros de nosso tempo, lembramo-nos entre outros das diabruras que fazíamos e do rumo profissional que cada um tomou. O nome do rapazola que acabou voando veio-nos à mente. Daí o nosso papo:

-Que rumo tomou o Ícaro? Meu amigo respondeu:
-Aquele encapetado trabalha numa fábrica de industrialização de carne de siri para exportação, numa cidade vizinha daqui.

Aí interroguei meu colega:
-Ele formou-se em química?

-Não, disse meu colega. Hoje ele é operador de caldeira para geração de vapor do sistema industrial. E o mais engraçado é que foi usada uma locomotiva antiga a vapor servindo para decoração da indústria que ele trabalha.

Ao ouvir esta resposta, dei aquela minha gargalhada que ecoa aos pés da montanha. Meu amigo assustou-se com o troar do barulho e me interrogou: -Por que tamanha gargalhada, homem?

Ao que respondi: - Se Ícaro ainda tiver aquela vontade doida de voar e fechar todas as válvulas de segurança da caldeira, com a pressão alta da mesma, ela explodirá e leva tudo para o espaço sideral!!!





quinta-feira, 5 de março de 2015

Crónica por Martim Afonso Fernandes


Crónica por Martim Afonso Fernandes

Histórias da Vida Real

A Cadeia Pública

Em minha cidade natal tive vários amigos mais velhos, ou melhor, «com mais tempo de casa neste planeta!». Há amizades que conservo até hoje.

Alguns já mudaram-se para o piso de cima. É muito bom recordar!

A cadeia pública ficava próxima da usina de geração de energia, da lagoa de alimentação e circulação do sistema energético. O acesso à cadeia era pela rua principal, onde localizavam-se estabelecimentos comerciais e residências.

Como os moradores eram ordeiros, se o carcereiro dependesse do dinheiro da carceragem para viver, morreria de fome.

A cadeia já servia de moradia para o policial responsável.

O movimento do Porto era ininterrupto. De vez em quando algum marinheiro tomava umas graspas fora da conta e aparecia fazendo algazarra.

A polícia logo fazia o convite e o levava para curtir o porre e «ver o sol nascer quadrado». A ordem de descanso era de doze horas.

Quando era alguém de Imbituba, conhecido do delegado ou do policial, que desse algum apronto, era recolhido para que servisse de lição.

A cela tinha grade de madeira e era fechada por fora. Só o nome «cadeia» já impunha respeito ou medo.

Geralmente depois do preso completar umas duas horas de estágio, o policial chamava o detento e dizia:

-Vou dar uma volta. Lá naquele canto tem uma taboa solta. Levanta e sai pelo buraco, mas coloca a taboa no lugar. Some, porque se eu te pegar por aí, vais passar uma semana toda dentro do cubículo.

O detento atendia a ordem do policial, e para se ver livre, corria direto para casa. Como a saída da cadeia era pela rua principal, geralmente deduzia-se que aquele tinha sido preso. O pior era no dia seguinte agüentar as piadas e gozações dos amigos.

Porque sempre tinha alguém para perguntar:
 -Fulano, pagaste a diária do hotel do delegado? Que tal, a cama era boa? E o café da manhã?

Velhos e bons tempos, que não voltam mais.

Imbituba era uma cidade tão tranqüila, que quando o delegado queria falar com alguém que cometia algum deslize ou que descumprisse alguma lei, mandava um recado por um amigo ou pelo vizinho, para que o dito cujo comparecesse à delegacia.

Aconselhava-o paternalmente e prometia-lhe que se reincidisse na falta, da próxima vez a pena seria de uma semana no xadrez.

Assim a tranqüila Imbituba ia levando seus dias de paz e ordem.

O progresso veio lentamente, a imigração foi aumentando, a população crescendo.

Felizmente, o índice de criminalidade e o tráfico de drogas é mínimo para a expansão demográfica desta bela cidade de avenidas bem traçadas e de praias, ilhas e lagoas espelhados pelas águas límpidas e azuis do Atlântico.




sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Histórias da Vida Real - Crónica por Martim Afonso Fernandes


Histórias da Vida Real - Crónica por Martim Afonso Fernandes


Cinema


Por muitos anos o salão de cinema em Imbituba situava-se ao lado dos barracões, que eram também moinhos de farinha de mandioca.

Era um conjunto de mais ou menos quinze barracões, inclusive alguns serviam de quartel do Exército no tempo da Guerra, onde foi instalado o 12° CEMAC, ou seja Grupo Motorizado de Artilharia de Costa, depois transferido para São Francisco do Sul.

Os barracões foram construídos pela Companhia Docas, localizados próximos à ICC. Serviam de depósito para armazenar farinha de mandioca, que era exportada para a Alemanha, para confeccionar matéria plástica, armazenar trigo, sal e granéis.

Os moinhos eram equipados com máquinas de beneficiamento de embalagem de farinha.

O referido cinema ficava entre dois armazéns. Era comum os moinhos funcionarem dia e noite.

Embora os ventiladores do cinema funcionassem durante as sessões, mesmo assim o talco da farinha, o amido, era muito fino e sempre se espalhava pelo salão.

Deixava vestígios bem acentuados nas roupas escuras, nas cabeças, nos chapéus, não dando para negar a quem assistia ao filme, que não esteve no cinema.

Não era preciso nem esperar que o filme terminasse, pois nos intervalos para troca de bobinas do filme, as luzes eram acesas, e ali já se via o talco branqueando as cabeças.

Era só o moinho funcionar quando passasse o filme para os telespectadores branquearem.

Mais ou menos em 1950 foi construído um novo salão para o cinema, no Centro Comercial, com maior espaço e modernidade, inclusive com palco para a apresentação de teatros, shows de mágicos, palestras, etc.

Era opcional ir assistir o filme, ou encontrar amigos e amigas, Também se arriscava ir ao encontro de uma namorada, pois o que não faltavam eram moças e moços para abrilhantar o movimento.

Também era um ponto para casais renovarem amizades. O cinema tornou-se o símbolo da comunicação ao vivo.

Com a vinda da TV, depois do videocassete e o DVD, chegou ao fim toda aquela amizade que se construía dando espaço à falta de comunicação e ao isolamento.

Hoje em dia, principalmente nas cidades menores, não se encontra uma sala de cinema, a não ser naquelas que tem seus shoppings centers completos.

O Filme Italiano, Cinema Paradiso, bem retrata a saudade e o romantismo dos cinemas.

E eu, assim como muitos, sinto saudades dos namoros no escurinho dos cinemas!!!