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segunda-feira, 30 de março de 2015

O DUELO - UMA HISTÓRIA DE TÍTULOS E INVEJA - Por Miriam de Sales Oliveira


O DUELO

UMA HISTÓRIA DE TÍTULOS E INVEJA - Por Miriam de Sales Oliveira 

O filme que está em cartaz nos cinemas de Salvador,talvez passe desapercebido ,diante de tantos títulos  mais chamativos a ao gosto popular.Mas”,O Duelo” é um bom filme e  nos proporciona momentos de diversão  ,mas,também,nos faz pensar.

Baseado no romance de Jorge Amado,”Os Velhos Marinheiros” conta a história de um homem,Vasco Moscozo de Aragão,que nasceu como se diz na Bahia “,com a bunda pro fogo”,ou seja,com mil motivos para ser feliz,mas,vivia mergulhado numa indisfarçável  melancolia.

Isso chateava seu grande amigo,o Capitão dos Portos,que ,um dia,resolveu tirar isto a limpo.E o Vasco desembuchou,vomitou a mágoa.Bon vivant e neto de avó rico ,com futuro garantido sem precisar dar um prego numa barra de sabão,Vasco mal frequentou  o segundo grau,a duras penas e reprimendas do avô.Na idade adulta  ,o fato de ser Seu Vasco começou a pesar na sua vaidade;seus amigos eram doutores -médicos,advogados,comandantes,capitães – só ele era “seu”,um qualquer,um ninguém apesar dos contos de reis na sua conta bancária e de servir de banco muitas vezes emprestando dinheiro aos titulados.

O Comandante jurou resolver o problema.

-Deixa comigo.

-Mas,como?

Bem,o como vocês leem o livro ou assistem o filme.

O fato é que Vasco dormiu “seu” e acordou Capitão de Longo Curso,um título dado aos comandantes de navios da Marinha Mercante brasileira que os torna aptos  de comandar qualquer navio mundo afora.

Bom,o caso do título está resolvido.Agora,vamos falar da inveja.

Muitos anos depois ,Vasco,já cansado da esbórnia,remediado e solitário resolveu mudar-se para um subúrbio de Salvador, instalando –se de mala,cuia e instrumentos náuticos, numa casinha gostosa junto ao mar.

Brilhante e carismático logo conquistou amigos e era o ídolo do lugar.

E é ai que entra a inveja na pessoa de um morador que se sentiu desprestigiado e jogado pras traças  e,por causa disto,criou um ódio mortal pelo comandante.

Jurava que era mentira tudo o que ele contava,aliás ,causos muito engraçados que prendia as pessoas e aumentava o ódio do cidadão.

Quem nunca enfrentou uma situação destas ?  Qualquer um que se destaque e seja brilhante num mundo de foscos.

A inveja destrói,pisoteia ,fere;ela é amarga,revoltada,feroz.

Assim,o sujeitinho pegou o trem e foi á capital vasculhar a vida do Vasco.

Chegou radiante,sorridente,vencedor.Trazia notícias muito acintosas de como o Seu Vasco virou capitão.

Mas,para os foscos a vitória dura pouco.E a decepção foi grande.

Pensa que ele se rendeu?Continuou vociferando contra o rival e virou a chacota da cidade.

E mais não contarei,pois, leiam o livro –para mim um dos melhores de Jorge – e vejam o filme.Um duelo de monstros  entre Joaquim de Almeida  ,o Capitão e José Wilker,o invejoso.

E está feito o convite e contada a história.Entrou por uma porta ,saiu pela outra,o Rei Meu Senhor que te conte outra.



 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A NOITE CAIRÁ de André Singer, Reino Unido, 2014


A NOITE CAIRÁ

de André Singer, Reino Unido, 2014, 75’, M/14

Recolhido em Cineclube de Faro



FICHA TÉCNICA
Realização: André Singer
Argumento: Lynette Singer
Fotografia: Richard Blanshard
Montagem: Arik Lahav, Steve Miller
Som: Aviv Aldema
Compositor: Nicholas Singer
Origem: Reino Unido
Ano: 2014
Duração: 75’



A 15 de Abril de 1945, as tropas britânicas libertaram o campo de concentração de Bergen-Belsen. Uma equipa de filmagens filmou as pilhas de cadáveres e os sobreviventes, provas irrefutáveis dos crimes cometidos pelo regime Nazi. O produtor Sidney Bernstein planeava usá-las num filme e convidou Alfred Hitchcock para o montar. Mas, depois do fim da Guerra, as forças de ocupação mudaram a sua política e em vez de confrontar a Alemanha com a culpa, preferiram instalar a confiança para tornar possível a reconstrução do pós-Guerra. E estas imagens de horror indizível foram confinadas aos arquivos. A Noite Cairá segue as pisadas deste filme inacabado conhecido como o “Hitchcock perdido”.

CRÍTICA
 
O documentário de Singer coloca o cerne da questão no projecto do produtor Sidney Bernstein, que devido a um conjunto de circunstâncias relacionadas com a instabilidade política do pós-guerra nunca chegou a ser completado. Até hoje: no final de 2014 o Imperial War Museum regressou às imagens recolhidas pelos soldados, num importantíssimo trabalho de digitalização e restauração. Um dos aspectos mais determinantes no projecto concebido por Bernstein, e que nunca chegou a ser verdadeiramente concretizado, está relacionado com o envolvimento de Alfred Hitchcock.

As imagens recolhidas pela equipa de Bernstein seriam o ponto de partida para aquele que seria o único documentário da carreira de Hitchcock. Uma das razões avançadas para a inviabilidade do projecto prende-se com a recusa em acolher o elevado número de refugiados judeus, tanto da parte dos Estados Unidos como do Reino Unido. Perante a intensidade visceral das imagens, temia-se que o documentário não cumprisse o seu propósito fundamental - que passava em larga medida pela demonstração da dimensão dos crimes cometidos pelo regime Nazi -, tornando-se antes numa ferramenta de pressão política; sensibilizada pela injustiça atroz cometida contra o povo judeu, havia a hipótese da população manifestar forte apoio ao acolhimento dos refugiados em território aliado. 


 
Por outro lado, e esta era uma questão primordialmente referente ao contexto do Reino Unido, haveria também o receio que a divulgação do documentário contribuísse para a desmoralização do povo alemão, frequentemente responsabilizado pelas ações do seu regime; com os primeiros sinais de uma guerra fria a poluir o horizonte político, a prioridade passavam também por evitar alienar um potencial aliado contra a então União Soviética. Em ambos os casos, é esta uma das dimensões da difícil relação entre o sentido último da história e a "imagem", e que parece fazer eco de algumas das reservas avançadas por Lanzamnn. Singer nunca entra em diálogo explicito com o debate lançado por Lanzmann, tão pouco nos moldes em que o realizador de Shoah colocou a questão, mas o que aqui importa sublinhar é a importância de uma reflexão sobre a relação entre imagem e a (re)construção da História.

Um dos motivos de maior interesse do documentário de Singer passa pela aproximação às sugestões e instruções dadas por Hitchcock à equipa de Bernstein. Para evitar suspeitas sobre a credibilidade das imagens, Hitchcock recomendou que se utilizassem planos e sequências longas – daí a insistência nos momentos em que é possível ver as campas a céu aberto com os corpos dos judeus, com soldados nazis junto das suas vítimas. Outra sugestão foi a de demonstrar a proximidade entre os campos de concentração e povoações civis, de uma maneira ou de outra implicadas naquela tragédia.


 
Algumas das imagens restauradas pelo Imperial War Museum vão sendo intercaladas ao longo de toda a exposição factual de A Noite Cairá, e o que é aqui também impressionante é a "nitidez" ou "realismo" que o digital vem trazer a este imprescindível documento histórico. É que a degradação das imagens de arquivo tendem a distanciar-nos do momento histórico em que foram recolhidas: é oposto da impressão provocada pela alta definição digital e da sua relação afetiva com o espetador.
 
A obra não nos apresenta uma leitura do sentido último do Holocausto, mas relembra-nos da nossa proximidade histórica com o horror do Nazismo.

O melhor: A contextualização da dimensão política do documentário.
O pior: Nada a apontar.

José Raposo, www.c7nema.net



sábado, 7 de fevereiro de 2015

PASOLINI, de Abel Ferrara

PASOLINI, de Abel Ferrara  

Retirado de Cineclube de Faro





PASOLINI
Abel Ferrara, França, 2013, 86’, M/18


FICHA TÉCNICA
Título Original: Pasolini
Realização: Abel Ferrara 
Argumento: Maurizio Braucci e Abel Ferrara uma ideia de Nicola Tranquillino e Abel Ferrara 
Montagem: Fabio Nunziata
Fotografia: Stefano Falivene
Interpretação: Willem Dafoe, Riccardo Scamarcio, Ninetto Davoli, Maria de Medeiros
Ano: 2013
Origem: França
Duração : 86´



Um dia, uma vida. Roma, na noite de 2 de Novembro de 1975... O grande poeta e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini é assassinado. Pasolini é um símbolo de uma arte que batalha contra o poder. Os seus escritos são escandalosos, os seus filmes são perseguidos pelos censores, muita gente o ama e muitos o odeiam. 

No dia da sua morte, Pasolini passa as últimas horas com a sua amada mãe e mais tarde com os amigos mais próximos, e finalmente sai para a noite no seu Alfa Romeo em busca de aventura na cidade eterna. Pela aurora, Pasolini é encontrado morto numa praia em Ostia nos arredores da cidade. Num filme flutuante e visionário, uma mistura de realidade e imaginação, Abel Ferrara reconstrói o ultimo dia do grande poeta.


CRÍTICA

Figura essencial na história do moderno cinema italiano, Pier Paolo Pasolini (1922-1975) surge, agora, como personagem central de um filme assinado pelo americano Abel Ferrara — um retrato notável, centrado numa magnífica interpretação de Willem Dafoe.

Escusado será dizer que nunca seria simples revisitar, em filme, a vida de uma personalidade tão fascinante, e também tão cheia de contrastes, como Pier Paolo Pasolini.

O autor de filmes como "O Evangelho Segundo São Mateus" (1964), "Decameron" (1971) ou "Salò ou os 120 Dias de Sodoma" (1975) foi, afinal, um criador tão ousado no plano temático como inventivo no domínio das linguagens — e, convém não esquecer, como cineasta, mas também enquanto escritor.

Ao abordar a figura de Pasolini, o americano Abel Ferrara resiste a qualquer caracterização banalmente biográfica, muito menos determinista. Aliás, o seu "Pasolini" começa por se distinguir pelo arco temporal que escolhe — trata-se de revisitar apenas o derradeiro dia de vida do cineasta (2 de Novembro de 1975), quando foi assassinado numa praia de Ostia, nos arredores de Roma.



Não estamos, assim, perante uma "evocação" tradicional. Por um lado, o filme mostra-nos um Pasolini empenhado no lançamento daquele que seria o seu derradeiro filme ("Salò"), ao mesmo tempo que se mantém uma voz activa na discussão da situação política em Itália; por outro lado, através da contaminação de diversos elementos (em particular a escrita de um argumento que deixaria inacabado), deparamos com um criador reflectido no espelho dos seus fantasmas, afinal discutindo sempre os sentidos da sua intervenção pública.

Para a vibração emocional dos resultados, é obviamente essencial a composição de Willem Dafoe. Ferrara dirige-o muito para além de qualquer lógica "ilustrativa", pedindo-lhe antes a definição de uma personagem envolvida num turbilhão de desejos e ideias que, em última instância, nos conduzem à discussão do próprio lugar social do artista. Nesta perspectiva, para além da sua visão dialéctica de Pasolini, o filme "Pasolini" pode ser também uma sugestiva porta de entrada no seu universo literário e cinematográfico.

João Lopes, rtp.pt/cinemax