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domingo, 16 de agosto de 2015

Os saltimbancos - Conto de Maria Petronilho

 
Os saltimbancos
 
Conto de Maria Petronilho

Chegaram em carroças.
 
Os miúdos da aldeia medieval onde estive entregue ao abandono, corriam atrás, rindo muito dos velhos chapéus de palha que os burros levavam enfiados nas cabeças, as orelhas felpudas surgindo por entre dois buracos, disfarçados com flores de papel desbotado.
 
E à noite, lá fomos: eu, a minha avó e a Henriqueta, juntar-nos à roda de povo no pequenino largo.
As pessoas, de escuro no escuro, ficaram de pé.
Os aparelhos eram cadeiras, mesas e duas estacas espetadas no chão de terra batida, uma corda esticada entre elas.
 
Os artistas vestiam farrapos, velhos e rotos.
 
Na roda dos pobres, aquela miséria extrema provocou comentários.
Sobretudo a magreza da menina que atravessou de braços no ar, a corda. Levezinha como uma borboleta, ameaçando partir a voar.
 
A contorcionista vestia um maillôt e estava tão grávida que as mulheres cochichavam entre si:
- Coitados, já começam a trabalhar na barriga da mãe.
Na meia-luz dos lampiões, pouco mais vi que a lástima.
 
Escutava o que se dizia à volta, e no fim um menino pequeno e sério passou por entre todos o chapéu do pai, que apresentara o espectáculo, sem fausto.
 
Os homens remexeram as moedas raras no fundo dos bolsos das calças surradas, as mulheres remexeram as bolsas de feltro que ainda se usavam por baixo dos aventais.
 
E os tostões, pequeninos e negros, iam caindo um a um, dois a dois... com esforço, num mudo entendimento da fome compartilhada.
 
Só as crianças sorriram e bateram palmas. Os artistas aplaudiram no fim a plateia improvisada.
 
Nunca, nunca na minha vida gostei de circo!
 
Nem no Coliseu, por detrás da praça dos Restauradores, onde ofereciam bilhetes no Natal aos filhos dos funcionários, nem na TV do Circo do Mónaco, nem do magnífico circo de Moscovo.
 
Aquele primeiro que vi e ainda vejo por detrás das lágrimas que sinto bastou-me para toda a vida!


 

domingo, 26 de julho de 2015

COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO - Que o vento me levante!; Jaz o semeador na seara; O Poeta Palhaço


COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO



 Que o vento me levante!; Jaz o semeador na seara; O Poeta Palhaço



 Que o vento me levante!

 Docemente
 me eleve
 acima de toda a pena
 na sua diáfana
 asa
 proteja
 da dor salgada
 entranhe
 no azul profundo
 leve
 as cinzas magoadas
 na busca
 de nuvens brancas
 onde
 repouse a fronte
 adormeça e acorde
 sossegue
 de onde volte
 renascida
 para cantar a ternura
 e
 saudar a primavera
 na luz que a todos afaga,
 aspergindo amor na Terra!



 Jaz o semeador na seara

 Há gente que
 quando parte
 deixa o mundo tão mais pobre!

 tu, semeaste searas de verde esperança
 nas terras que a guerra devastava.
 tu foste onde não se ousava
 enfrentar a amargura
 onde quer que ela grassava.

 Eras bandeira de esperança,
 semeador de ventura

 Hoje ceifou-te a loucura.
 Jazes no chão, qual papoila
 que os campos iluminava!

 (Homenagem a Sérgio Vieira de Mello, diplomata brasileiro assassinado em Bagdad)

 

 O Poeta Palhaço

 Poeta, conto-te um caso
 Que conheço bem de perto:
 Era uma vez um palhaço
 Pobre e roto, caricato,
 De narizinho redondo
 De um carmesim esfolado.
 Entrava em cena quando
 Nos bastidores do circo
 Se maquilhava um outro
 Que usava fato bordado
 Riso pintado no rosto
 Chapéu como o de Tartufo
 Cantava em voz de contralto...

 O palhaço de que falo
 Voava em cada salto
 Como se o levasse um sonho
 Não se ria no entanto
 E ficava sempre mudo.
 Quando se achava no escuro,
 Ficava vazio o circo,
 Encolhia-se num canto
 Abria a voz de seu pranto
 E sozinho, libertado,
 Tirava um papel do bolso
 E, com o dedo lambuzado,
 No suor do próprio rosto,
 Ia escrevendo, escrevendo
 Em poemas, seu calvário
 De pobre palhaço risonho,
 Enfim assumindo o vulto
 Dessoutro sério, tristonho.

 Encolhido no seu canto,
 Descobria enfim o choro
 Do ai profundo, seu Fado
 Ser poeta alistado
 De peito dilacerado...

 Esquecendo então ser mudo
 Soava o alto carpido
 Estremecido, enfim solto.
 Mau grado tendo o pano
 Da tenda para abafá-lo,
 Soava tão dolorido
 Que alarmava todo o povo
 Perturbando-lhe o sono.

 Mal o amanhecia o dia
 Punha-se a varrer a areia
 E ao papel que escrevera,
 Usando a tinta da cara,
 Em confetes o rasgava;
 Ia enfim lavar a cara
 E de novo, pintalgava
 um semblante de alegria.

 Tomava assento a plateia
 Entrava o palhaço em cena
 ... No brilho da noite, ria! 




domingo, 12 de julho de 2015

COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO


COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO



 Preciso a vela de um barco; Em busca de uma centelha; Envelhecendo 

 

 Preciso a vela de um barco

 Uma vela larga e branca

 Habituada à salmoura

 Preciso secar o pranto

 Levar para longe a tristeza

 Vagueio só à deriva

 Sou a naufraga da vida

 Nada vislumbro no céu

 Tragam-me a vela de um barco

 Aonde sufoque o pranto

 E me leve para longe

 Do rasto deste momento

 Que me traz em desalento

 ... Preciso as asas de um anjo!

 



 Em busca de uma centelha

Mariposa que se lança

 Desvairada contra a chama

 Que o sentido lhe alucina

 Pássaro que o surto olvida

 Ao magnetismo da cobra

 Sem cuidar que perde a vida

 Assim tomba a minha alma

 Qual nuvem na trovoada

 Que pelo chão se derrama

 De si mesma compungida

 Procurando na negrura

 Sobras da própria centelha


 
 Envelhecendo


 Envelheço, sim, com orgulho!

 Que quererias?!

 Que pedisse emprestadas horas

 às gerações vindouras,

 Eu, que findo?!

 Cabe-me olhar amplo,

 Que já vi tanto

 E resisti de sobejo.

 Cabe-me ser tronco,

 Que não ramo prometendo

 Florir sem fruto.

 Cabe-me ser esteio

 Aos que no vento se arrojam.

 Serenamente aguardo o sagrado limbo

 De onde emergi e onde mergulharei

 Atavicamente

 De novo.





quinta-feira, 16 de abril de 2015

Natália Correia - à frente do seu tempo... - Por Maria Petronilho


Natália Correia - à frente do seu tempo...

Por Maria Petronilho

 Nasceu a 13 de Setembro de 1913, saiu da ingrata vida a 16 de Março de 1993

«Será preciso passar uma década sobre a minha morte para começarem a compreender o que escrevi. Sei-o porque o sinto. E vai ser a partir dos Açores que isso acontecerá.???

Natália Correia nasceu adiantada no tempo, para o anunciar, antecipar. Poetisa, dramaturga, romancista,, ensaísta, deputada, editora, pintora, tradutora, marcou a vida portuguesa, abalou os pés de barro dos deuses que atabafavam a cultura portuguesa.

Concebia, à semelhança de Teixeira de Pascoaes, «a poesia como uma profecia» e o «poeta como um profeta».
Na sua obra, celebra o ser humano como «andrógino» (recordemos o vocábulo que inventou, «Mátria»); o ser completo; uno e plural. O Desejado, o que contém a esperança e a resistência. Pedro e Inês, símbolos da paixão, da volúpia pela morte. Da Ilha, espaço do sagrado, da esfinge, da iniciação.

 Bate-se pela recuperação do excelso, do politeísmo, do feminismo, do barroco, do diferente. E pelo repúdio da crucificação, da massificação, do descontrolo demográfico... numa terra onde se morria de fome.

«Como atingir a paz com os olhos postos num só deus, se as guerras são fornecidas pela nossa fé na vitória sobre a fé dos outros?», interrogava, interrogava-se.

A participação política foi-lhe, desde muito cedo, uma constante. Introduzida nos círculos da Oposição (fase em que foi jornalista), depressa se destacou na luta contra a Ditadura, apoiando as campanhas de Norton de Matos e de Humberto Delgado. Após a Revolução dos Cravos, aceita ser deputada independente.

«Fui deputada porque me pediram para introduzir o discurso cultural no Parlamento». Utilizando como ninguém a riquíssima tradição cultural de escárnio e maldizer da nossa poesia. As causas, as pessoas do coração e do sonho, da fé, tinham-na do seu lado; as causas, as pessoas da manipulação, do utilitarismo, da serventia, conheciam-lhe a cólera, o chiste, a indignação... que fazia penetrar com mestria e elegância.


«Não me mato
Antes me zango
Até ficar um cato
Quem me tocar, maldito
Que se pique»

Glória te seja dada, Natália Correia, agora e sempre... enfim! 


 
Notas Biográficas de Natália Correia

Natália de Oliveira Correia nasceu em Fajã de Baixo, na ilha de São Miguel nos Açores em 13 de Setembro de 1923, e morreu em Lisboa a 16 de Março de 1993, foi uma intelectual, poetisa e activista social, autora de extensa e variada obra publicada, com predominância para a poesia. Deputada à Assembleia da República de 1980 a 1991, interveio politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. Foi a autora da letra do Hino dos Açores. Juntamente com José Saramago, Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues foi, em 1992, um dos fundadores da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC)

 A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Colaborou com frequência em diversas publicações portuguesas e estrangeiras. Foi uma figura central das tertúlias que reuniam em Lisboa nomes centrais da cultura e da literatura portuguesas nas décadas de 1950 e 1960. Ficou conhecida pela sua personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflecte na sua escrita. A sua obra está traduzida em várias línguas.

 Notabilizou-se através de diversas vertentes da escrita, já que foi poetisa, dramaturga, romancista, ensaísta, tradutora, jornalista, guionista e editora, tornou-se conhecida na imprensa escrita e, sobretudo, na televisão, com o programa Mátria, onde advogou uma forma especial de feminismo – afastado do conceito politicamente correcto do movimento — o matricismo —, identificador da mulher como arquétipo da liberdade erótica e passional e fonte matricial da humanidade; mais tarde, à noção de Pátria e de Mátria acrescenta a de Frátria.

 Dotada de invulgar talento oratório e grande coragem combativa, tomou parte activa nos movimentos de oposição ao Estado Novo, tendo participado no MUD (Movimento de Unidade Democrática, 1945), no apoio às candidaturas para a Presidência da República do general Norton de Matos (1949) e de Humberto Delgado (1958) e na CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, 1969). Foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, considerada ofensiva dos costumes, (1966) e processada pela responsabilidade editorial das Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta. Foi responsável pela coordenação da Editora Arcádia, uma das grandes editoras portuguesas do tempo.

 A sua intervenção política pública levou-a ao parlamento, para onde foi eleita em 1980 nas listas do PPD (Partido Popular Democrático), passando a independente. Foi autora de polémicas intervenções parlamentares, das quais ficou célebre, num debate sobre o aborto, em 1982, a réplica satírica que fez a um deputado do CDS sobre a fertilidade do mesmo.

 Fundou em 1971, com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta, o bar Botequim, onde durante as décadas de 1970 e 1980 se reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa. Foi amiga de António Sérgio (esteve associada ao Movimento da Filosofia Portuguesa), David Mourão - Ferreira («a irmã que nunca tive"), José-Augusto França («a mais linda mulher de Lisboa»), Luiz Pacheco («esta hierofântide do século XX»), Almada Negreiros, Mário Cesariny («era muito mais linda que a mais bela estátua feminina do Miguel Ângelo»), Ary dos Santos («beleza sem costura»), Amália Rodrigues, Fernando Dacosta, entre muitos outros. Foi uma entusiasmada e grande impulsionadora pelo aparecimento do espectáculo de café-concerto em Portugal, na figura do polémico travesti Guida Scarllaty, o actor Carlos Ferreira, na época um jovem arquitecto de quem era grande amiga. Na sua casa, foi anfitriã de escritores famosos como Henry Miller, Graham Greene ou Ionesco.

 Natália Correia recebeu, em 1991, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro Sonetos Românticos. No mesmo ano foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade; era já detentora da Ordem de Santiago.

 Natália Correia casou quatro vezes. Após dois primeiros curtos casamentos, casou em Lisboa a 31 de Julho de 1953 com Alfredo Luiz Machado (1904-1989), a sua grande paixão, bem mais velho do que ela e já viúvo, casamento este que durou até à morte deste, a 17 de Fevereiro de 1989. (São já notáveis as cartas de amor da jovem Natália para Alfredo Luiz Machado.) Em 1990, tinha Natália 67 anos de idade, celebrou um casamento de conveniência com o seu colaborador e amigo Dórdio Guimarães.

 Na madrugada de 16 de Março de 1993, morreu, subitamente, com um ataque cardíaco, em sua casa, depois de regressada do Botequim. A sua morte precoce deixou um vazio na cultura portuguesa muito difícil de preencher. Legou a maioria dos seus bens à Região Autónoma dos Açores, que lhe dedicou uma exposição permanente na nova Biblioteca Pública de Ponta Delgada, instituição que tem à sua guarda parte do seu espólio literário (que partilha com a Biblioteca Nacional de Lisboa), constante de muitos volumes éditos, inéditos, documentos biográficos, iconografia e correspondência, incluindo múltiplas obras de arte e a biblioteca privada.




domingo, 8 de fevereiro de 2015

Coluna de Maria Petronilho


Coluna de Maria Petronilho



Se eu partir

Se eu partir...
quero voar
nas asas de teus braços,
mar!

Ilha não quero ficar!

Quero ver o despontar
no dia do teu olhar!

Quero contigo crescer,
vogar, adejar, pairar
como uma estrela
de milhares que entrevejo
quando me queres amar!


Se eu partir, quero chegar
a um mundo maior
onde seja lei querer
escutar, unir,
cativar!


Sublimação das Lágrimas

Não me façam viver às escuras!
não me ordenem a solidão!

nada tenho além da vida
e das exaltadas quimeras
que mantenho

quero ser alvorada
movendo as trevas
 para que ninguém sofra
o tormento que me dilacera
 e exponho
 quando me desvendo
 rogando
 o amor intrínseco

nada mais quero senão
demudar a lágrima
em sorriso!


Cansada de Guerra!

 Ondeia o pranto
 pungente mar fundo
 de sangue embotado
 gerações tremendo
 florinhas abrindo
 e já se finando

de chacinas, basta!

qual bandeira erguida
construa-se esperança
resolva-se a guerra
nem que por decreto
seja primavera!