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sábado, 15 de agosto de 2015

Coluna de Liliana Josué - (Sobre) DUAS GOTAS... A MESMA FONTE (Livro de Liliana Josué e Mário Matta e Silva)


Coluna de Liliana Josué


(Sobre) DUAS GOTAS... A MESMA FONTE (Livro de Liliana Josué e Mário Matta e Silva)

Minha introdução no dia do lançamento do livro

Já por várias vezes pensei e colocar este texto e o livro no meu blog , no entanto fui sempre adiando pois considerava-o já sem grande actualidade. Hoje conclui que não, é um trabalho de 2007 mas faz parte de mim, e deu-me deu um enorme prazer fazê-lo. Por isso mesmo aqui vai ele.

Foi na Antologia da Associação Portuguesa de Poetas de 2006,que me estreei na publicação de poesia própria, mais tarde continuando noutras Antologias.
Porém, este livro tornou-se um importante desafio para mim.
Desbravar uma tal temática não é tarefa fácil. Não pela falta de encanto, mas pela sua ousadia.

E certo que, hoje em dia, o tema do erotismo não tem grandes tabus, mas também não é menos verdade que expô-lo nem sempre é fácil. E porquê? Porque a mulher ainda sente a grilhetas de toda uma existência de repressão.
Mesmo quando se dizia que a mulher estava a ser libertada do seu cativeiro, quanto a mim, não foi verdade, ainda hoje não é verdade.

Por exemplo, no Período Medieval, a Igreja, considerava uma heresia a questão do erotismo. Por sua causa muita gente foi castigada e perseguida. Quanto às mulheres, um autêntico flagelo.
Mais tarde, com o Renascimento, apesar da tentativa de abertura das mentalidades (com a perfeição dos legados clássicos), a mulher ainda é mostrada, na arte, muito ligada a símbolos religiosos, a Inquisição assim o impunha( não quero com isto dizer que não houvesse quem tivesse tentado dar uma outra perspectiva da mulher), mas coisa ainda muito primária, e pouco edificante.

Entramos no Romantismo e deparamos com a mulher idealizada, quase assexuada, a pura das puras. Quando assim não se apresentava, quanto muito poderia ser considerada uma interessante rameira ou cortesã .

Com a pretensão, um pouco mais tarde, dos Impressionistas (correspondendo na literatura ao Simbolismo) dá-se outra nova pseudo evolução feminina. Como exemplo temos o célebre quadro de Manet «Dejeuner sur L'herbe» (1863). Um quadro sem dúvida lindíssimo mas, aquela nudez feminina ainda não é sinónimo de respeito, mas sim uma provocação do autor perante a sociedade da sua época.

Dando um salto até aos nossos dias, e para não me alargar mais, considero que a mulher ainda é pouco respeitada na sua nudez e no seu erotismo.
Não é por exibir o corpo em tudo o que é cartaz publicitário, cinema, etc. que a emancipação e o respeito chegaram. Por vezes é o contrário, continua subjugada a canons criados por sociedades ainda escravisantes da mulher.

Por isso mesmo sinto-me satisfeita, embora não sendo fácil, expor ao mundo algo criado por mim, onde mostro, ou pelo menos assim o pretendi, uma mulher completa, reunindo amor e erotismo como um todo, porque erotismo sem amor não é o verdadeiro erotismo e amor sem erotismo também não é suficiente.

Igual entusiasmo me despertou a existência de um dialogo conseguido entre os dois autores, duma forma, que me parece, pouco divulgada.
O Ser Humano só constitui um todo na união das suas partes.

Nota: Os dois poemas abaixo fazem parte do livro

CONFLITO

Saltei o «muro da vergonha»
afrontando hirta a medonha
multidão. Suando emoções
cuspindo raivas e tensões
esbarrando em risos escarninhos
olhares franzidos, miudinhos.
Chegaste perto, macio, triste
e de alma em alvoroço viste
meus olhos baços de contida
raiva, no silêncio sofrida.
Teus lábios tocaram os meus
soprando a nuvem do adeus.

De brandos beijos nossas bocas
passaram a delícias loucas
e a fúria que eu antes senti
pelo mundo, entreguei-a a ti
desfrutando assim o vigor
das tuas carícias de amor.

(in: Duas Gotas... A Mesma Fonte)

Liliana Josué



IRRESISTIVEL

Gosto de te sentir abandonado
na nossa sala de sofá listado
e requebrar de forma incorrigível
porque vou ser p'ra ti irresistível.

Gosto de correr nua à tua frente
como animal bravio de sangue quente
num despudor de gesto irreprimível
porque vou ser p'ra ti irresistível.

Gosto desse teu beijo extenuado
que me atiras lá do sofá listado
porque vou ser p'ra ti irresistível.

Gosto de olhar teu corpo nu, ansioso
sentir nele o desejo furioso
porque sei que te sou imprescindível.

(in: Duas Gotas... A Mesma Fonte)

Liliana Josué 



 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Dois poemas de Liliana Josué - POEMA PARA A CATARINA - OS DOIS ANOS DA CATARINA


Dois poemas de Liliana Josué

POEMA PARA A CATARINA

O tempo ainda é minúsculo
como gota acabada de soltar-se
fruto ainda verde
pendente na árvore vida
esperando que a sustentem

pezinho pequeno
passada incerta
na procura do seu futuro
sem saber que o está fazendo

o cabelo salta a compasso
brilhando de ingenuidade e encanto

boca sorrindo na alegria ver o gato
olhos atentos no presente
para que o amanhã se torne menos estranho
gargalhada ao tocar o pelo do cão
mãozinhas abertas pedindo auxílio

és a minha zínia de verão
o meu girassol de luz
petúnia dos meus dias.

19/07/2015

Liliana Josué


OS DOIS ANOS DA CATARINA

Eu sou uma menina de dois anos
Gosto de brincar com muitos bichanos

Quando um gato peludo faz ron-ron
Rio sem parar e imitou-lhe o som

Quando vou na rua e vejo um cão
Pulo de alegria ai que perdição

Se ele abana a cauda e faz ão-ão
Dou gargalhadas de satisfação

Já tive medo de todas as flores
Explicar não sei estes meus temores

Agora gosto pois sou mais crescida
Ponho-as no cabelo com ar de atrevida

Tenho uma cozinha só para mim
Tachos e pratos tornam-se um festim

Até já mexi sopa no fogão
E o leite entornei mesmo ali no chão

Vou-vos contar um segredo terrível
Se dizem a outros fico irascível

Então lá vai o que trago comigo
Com grande pesar aqui eu vos digo

Sou muito teimosa o dobro em mimada
Faço tais birras que fico estoirada

Não sei o porquê de eu ser assim
Talvez algum genes se colasse a mim

Mas sou muito alegre, feliz, amada
Pois muita paixão me tem sido dada

Eu sou uma menina de dois anos
Nada para mim’ inda são enganos

19/07/2015

Liliana Josué




domingo, 28 de junho de 2015

QUANDO AS FOLHAS CAEM - Texto de Liliana Josué


QUANDO AS FOLHAS CAEM

Texto de Liliana Josué

 O velho Manuel era um homem alto e pesado; olhos pequenos, ligeiramente rasgados e brilhantes, de tom pardo e vivos como os de uma criança.

Os cabelos brancos ainda se mostravam um tanto vaidosos do seu vigor, emoldurando graciosamente as aquelas faces bordadas de rugas.

 Suas mãos eram mapas de gelhas, salpicadas de largas sardas acastanhadas mas ainda com alguma destreza. As pernas é que já não tinham a agilidade de antigamente e os pés arrastavam ligeiramente pelo chão.

No entanto, o seu porte era ainda contornado de certa virilidade.

 Cansado de olhar as grandes vespas do jornal, pois a vista para pouco mais dava, levantou-se do puído sofá, outrora verde, adornado de outonais folhas castanhas, saindo em direcção ao jardim perto de sua casa.

 Enquanto caminhava lentamente, nesse fim de tarde, ouvia os pássaros num cântico murmurado de saudade pelos apetecidos dias de verão.

 Manuel sentou-se num banco de madeira pintado de verde, debaixo de uma grande amoreira. As folhas fustigadas por ligeira aragem, cantarolavam nostálgicas melodias de despedida, e num recato de fim de tempo caíam uma a uma, no seu amarelo envelhecer, enquanto se ofereciam dóceis , em tapetes macios, aos pés daquele homem.

 Na relva verdejante, bandos de crianças corriam e gritavam, como pássaros acabados de aprender a voar, no seu entusiasmo de brincadeiras que só a elas diziam respeito.

 Havia ainda cães brincando com seus donos em corridas e saltinhos, de rabito espetado, numa felicidade sem limites. Enquanto outros, de pelo frouxo e olhar triste, fugiam de cauda encolhida na certeza de não serem desejados.

 Manuel tudo via e entendia. Inclinou um pouco a cabeça para trás, observando o céu acinzentado, e um leve sorriso marcou-lhe a boca de lábios finos. «Os eternos contrastes e desigualdades».

Um vento mais forte soprou num uivo de lobo, e o tapete de folhas mexeu-se num seco rostilhar, chamando a atenção daquele homem. Este olhou-as, agora atentamente, vergando lentamente o corpo.

Os seu pés mal se viam submersos naquele acolhedor tapete matizado. Numa admiração de velho que pensara já nada o perturbar, reparou serem elas também velhas mas belas.

 Esticou os braços e segurou algumas nas suas mãos. Chegou-as ao rosto inalando emocionado seu cheiro a terra, enquanto duas lágrimas traiçoeiras lhe rolaram pelas faces molhando as folhas quase mortas.

 Em atitude de abandono, ali permaneceu num abraço de cumplicidade, esperando serenamente algo de que sempre tanto medo tivera. Afinal a outra parte escura da vida também podia ser bela e repousante.

 Eis que uma nuvem de lindas folhas castanhas, amarelas e encarniçadas desceram suavemente pela árvore envolvendo totalmente o ancião, adormecendo este em doce serenidade.






 

SANTOS POPULARES - Por Liliana Josué


SANTOS POPULARES

Por Liliana Josué

Viva os Santos Populares
Nós os queremos vaidosos
Cantem , dancem, não aos pares
Pois tornam-se “duvidosos”

As santas, pobres senhoras
De populares nada têm
São mulheres provocadoras
Certo é não poupar ninguém

Sto. António e S. João
Num enfado bem notado
Perninha de dança dão
Mas sem fêmea a seu lado

S. Pedro fica sozinho
Nem chuva por companhia
Abre o céu devagarinho…
Resignação de santinho

As santas muito indignadas
Por tão infame injustiça
Protestam mas reservadas
Por não se verem na liça

Só têm direito a manto
E mãos postas a rezar
Nas igrejas, bem no canto
Para o padre não excitar

De olhares frouxos os santinhos
Lá vão nas marchas danadas
Sentem falta dos carinhos
Das santas enclausuradas

Lisboa, 17/06/2015

Liliana Josué




sexta-feira, 15 de maio de 2015

Poesia de Liliana Josué


Poesia de Liliana Josué

IRENE

(04.11.1916 / 15.04.2015)

Agora és livre nessa imensidão desconhecida
tiraram-te as grilhetas de um sono maldito
onde não se vislumbrava paz mas estranheza.
não posso acreditar que tal já estivesse escrito
não posso acreditar em tal maldade

canta agora os teus hinos
toca o piano da tua felicidade
não tenhas nunca saudade deste mundo
que ruim fim te deu
em viperinos tons de azul celeste

voa, sê feliz, liberta-te de tudo
dança nas pétalas do Universo
retomando o folego perdido
pois agora és gazela branca correndo em euforia
numa autonomia eterna e milagrosa

eu Quero esta verdade
Imponho esta verdade
mesmo que tudo isto que escrevi
seja apenas o eco da minha vontade.

15.04.2015
Liliana Josué

FRAGA

Imponente azul
interrompido pelas impulsivas nuvens brancas
que após o conquistarem
se espraiam em ondas de desmaios

serras, montanhas, vales
silvas, giestas, alecrim
pomar de sonhos maduros
verde chão de beijo eterno
calor de puros abraços

lugar da fraga cinzenta
bordejada pelo musgo
ventos soltos numa sinfonia de paz
onde não entra o remorso
nem se desfaz a harmonia

ovelhas balindo devoção e conforto
moldando-se à anatomia do espaço
numa concomitante alegria

início de mundo, paraíso
friso de indomáveis cores
solfejos de pássaros
marulhar de águas
neves que hão de surgir
coaxar de rãs em insondáveis saltos
seixos amarelos…

lugar misterioso onde o valor da vida
reside na simples vontade de sorrir.

Liliana Josué




quinta-feira, 16 de abril de 2015

SUBTILEZAS - Conto / Crónica de Liliana Josué


SUBTILEZAS

Conto / Crónica de Liliana Josué

O dia era ainda uma criança, com poucas horas de vida. Excepcionalmente eu tinha chegado depois de todos. Não porque me atrasasse mas, aquela gente, tinha por hábito adiantar-se à hora prevista da partida. Quando tal sucedia e vislumbrava, ao fundo da rua, a camioneta de esgar piscante, sem ninguém à porta: cerrava os dentes e atirava-me em correria desenfreada até penetrar, de rompante, na sua boca de hálito zombeteiro. Aplaudiam-me da proeza e tranquilizavam a minha alma informando-me,( como se eu não soubesse) não me encontrar atrasada. Um pouco nervosa comentava mentalmente: «Esta gente deve ter palhas na cama!» .

Eram todos mais velhos que eu, talvez por isso mesmo a pressa fosse maior, pois o tempo era menor. Ainda arquejante semeava beijinhos para um lado, apertos de mão para o outro e um nunca acabar de sorrisos. Depois da maratona concluída, sentava-me discretamente num dos últimos bancos, respirava fundo, encostava a cabeça para trás e semicerrava os olhos numa atitude de abandono.

 Totalmente recomposta, dava comigo a observar atentamente os ocupantes do enorme veiculo. A alguns enxergava apenas o cocuruto da cabeça, a outros conseguia contemplar as faces: De sono nem vislumbre. Deparava com expressões calmas e felizes, de quem já muito fizera e, se sentia no seu pleno direito de desfrutar um resto de vida agradável e compensador.

 Por cada cabelo branco haveria, certamente, uma história não contada; por cada ruga um desgosto quantas vezes dissimulado ; por cada sorriso o triunfo de tantas barreiras ultrapassadas. Tudo isso me enternecia guardando, religiosamente, aquelas expressões bem dentro de mim. Absorvida por tais especulações, espraiava o meu olhar através da janela, encharcando-me da plana e verdejante paisagem alentejana, tornando-a cúmplice dos meus pensamentos.

 Também eu já era detentora de alguns cabelos brancos, rugas na cara e sorrisos esperançosos. No meio de toda esta gente fantástica impunha-se um personagem encantador: Estatura média, magro, cabelo farto e bigodinho maroto. Nos seus olhos podia ler-se a devoção por tudo o que fosse arte. Desde a antiga igreja românica, ao espectacular quadro impressionista, sem jamais esquecer a poesia.

 Só de pronunciar essa palavra mágica, o seu rosto alterava-se surgindo-nos pleno de êxtase e adoração. Sem dúvida será alguém que hei-de lembrar e admirar para todo o sempre. A sua tertúlia poética era singela em «número» mas imponente em «género».

Subitamente acordei do torpor dos meus pensamentos. A camioneta parou. Chegara a costumada pausa para o café da manhã. Enquanto que para muitos, essa milagrosa bebida matinal se revestia de importância capital, para mim, tornava-se perniciosa. Um café antes do almoço transformava-se num barril de pólvora. A pulsação poderia atingir os cento e vinte, e as minhas mãos agiriam autonomamente, sempre pelo oposto à minha vontade. Por isso limitava-me a folhear algumas revistas na tabacaria do estabelecimento.

 Findo o tempo estipulado para a recuperação de forças, regressávamos ao monstro que nos observava pachorrentamente, com orelhas quebradiças de cão atento, e introduzíamo-nos no seu interior através da sua boca plácida e um tanto desdenhosa.

A viagem continuava em conversa animada com o companheiro do lado ou o vizinho da frente. Chegados ao destino eram áhs! e óhs! de contentamento e deleite. Tanta coisa linda. Contemplei igrejas faustosas e conventos de admiráveis azulejos, fui bafejada pela sorte de poder admirar apaixonantes desenhos de Siza Vieira, traço breve e expressivo.

 A medida que a visita prosseguia o agrado tornava-se maior.
 Foi-nos sugerido observar as cisternas de determinado convento. Assim o fizemos. Não continham água, era um local subterrâneo, escuro, frio e um tanto assustador. A minha sensação, dentro daquele buraco negro, era como o de alguém tentando penetrar o insondável e misterioso mundo do Além. Inesperadamente um arrepio traiçoeiro percorreu-me a espinha, seguido de um bater forte de coração.

 A minha volta pressentia murmúrios tímidos e sombras deslizantes. Uma das senhoras pertencente ao grupo, expulsou os meus receios ao aproximar – se entabulando conversa. Apurando a vista o mais que pôde, fez-me notar a existência dum estranho objecto colocado junto a uma das paredes da cisterna, por baixo da única abertura que deixava penetrar uma efémera claridade. Foi-se chegando lentamente ao estranho corpo, eu imitei-a.

 Era um objecto esguio e comprido, com cerca de metro e meio de altura. A senhora muito compenetrada da sua missão exclamou triunfante: «Nem mais, isto é um medidor de água». Eu acenei afirmativamente a cabeça, admirando tamanha perspicácia.

 Satisfeita a nossa curiosidade demos por concluída aquela sapiente descoberta. Eis que, inesperadamente, a senhora apercebeu-se duma pequena placa onde se encontrava algo escrito. Assestou afincadamente o olhar e conseguiu ler os dizeres. Intrigada perguntei-lhe o que se encontrava ali escrito.

 A ingénua senhora, meio embaraçada, balbuciou: «Afinal isto não é nenhum medidor de água, é uma obra de arte duma escultura... uma Leonor qualquer coisa». Senti uma enorme vontade de rir.

Tínhamos sido mordazmente enganadas. A tudo hoje se chama arte. Talvez com razão. Só o facto de sabermos viver em tranquilidade é já uma obra de grande mestria artística.

 Mas quanto ao ferro comprido e ferrugento ... , francamente!.




sexta-feira, 20 de março de 2015

HAJA PACIÊNCIA - Texto de Liliana Josué


HAJA PACIÊNCIA

Texto de Liliana Josué

I

Cá estou eu, mais uma vez, para denunciar outra peculiar vivência. Não vou tratar deste assunto com poesia, em forma de conto e muito menos com punhos de renda, vai ser relatado tal como aconteceu.

No verão, mais precisamente em Junho, fui chamada a comparecer a uma consulta médica no Hospital dos Capuchos por indicação e pedido da minha médica de família, por sinal uma ótima profissional, com a finalidade de ser operada à vesícula.

Nessa mesma consulta correu tudo muito bem, o médico ouviu-me atentamente, registou o essencial e mandou-me fazer os exames da praxe: RX tórax, análises e consulta de anestesia, informando-me que depois de tudo concluído deveria ser chamada para a intervenção entre trinta a quarenta e cinco dias, ou seja, cerca de mês e meio.

Como esse espaço de tempo ia cair sobre as minhas férias pedi ao médico que tivesse a gentileza de adiar a dita por um mês, ao que ele acedeu prontamente registando a altura exata em que iria ser operada, em Outubro de 2014. Até aqui estava tudo certo, mas o tempo foi passando e o mês de também. De início não me preocupei muito pois sabia que poderia haver algum atraso nos processos de internamento.

A certa altura, adoeci e fui novamente à minha médica para ser observada e medicada convenientemente. Ela, já minha conhecida de há muitos anos, e na qual deposito a minha confiança, foi verificar a fixa onde tem assente todo o meu historial.

Entretanto interrompeu a procura e perguntou-me se já tinha sido operada (pois estávamos em Fevereiro). Eu respondi na inocência dos ignorantes que ainda não tinha sido chamada. A médica voltou à minha ficha (pois como sabem agora há cruzamento de informação entre hospitais e centros de saúde) e pôs-se em campo na busca da data marcada para esse efeito.
De início não encontrou nada, mas eu insisti no sebastiânico mês de Outubro que por fim lá apareceu já muito envergonhado e amarelecido. Parou um instante, pensou uns segundos e por fim disse-me: “Isto está esquecido no hospital, lamento mas tem de contatar com eles”. Suspirei contrariada mas fiz o que ela me mandou.

Como não tenho todo o tempo necessário para andar a correr hospitais em busca do meu processo esquecido, tomei as minhas providências no sentido de resolver a questão telefonicamente.

Abreviando a narração, acrescento apenas que passei mais de 15 dias a telefonar para variadíssimos números sem obter qualquer resultado. Pois é, diziam-me sistematicamente não existir qualquer processo. Aqui a situação tornou-se ainda mais feia e confusa, pondo-me a cabeça e a ansiedade às voltas.

Estava completamente perdida, decidindo finalmente ir mesmo ao dito hospital, que também podia ser outro, (pois e médico dava consultas e operava num e fazia urgências noutro).

Mas, felicidade suprema, numa derradeira tentativa de contatar com ele o milagre deu-se, o senhor doutor falou comigo e ficou um tanto pasmado por eu ter tido tanta dificuldade em contatá-lo visto não ser comum tal situação.

Sim, claro, lembrava-se perfeitamente de mim, que não estava nada esquecida mas que havia muitos doentes…, concluindo, marcou-me a intervenção para uma semana depois, logo assim, sem mais rodeios. No dia indicado apresentei-me no Hospital dos Capuchos às nove horas da manhã.
Finalmente iria ser resolvido o meu problema vesicular.

II

Dividi este assunto em três partes para não se tornar cansativo, no entanto umas sem as outras também não fazem sentido.

Fui levada pela minha filha, que sempre simpática e solícita me acompanhou passo a passo. Aproximei-me do guichet , informei já ter chegado e a simpática senhora que estava no atendimento pediu-me para me sentar nas cadeirinhas em frente para que, logo que fosse oportuno poder fazer a minha inscrição.

Note-se que aquele sítio não era uma sala de espera mas um corredor onde as correntes da ar pareciam cobras de gelo envolvendo-nos as pernas e o resto do corpo. Aos poucos a tensão nervosa foi aumentando, tentando ingloriamente a minha filha apaziguar-me. Sem pingo de paciência vi chegar as treze horas.

Ainda mais descontrolada dirigi-me novamente ao guichet pedindo para falar com o meu médico. A funcionária, já muito atrapalhada, informou-me que ele estava perto e que ia chamá-lo para falar comigo. Voltei a sentar-me com a cara em brasa e uma garrafa de água fria que ia rolando por todo o rosto pois o jejum já se fazia sentir e bem, mas o médico não aparecia.

Desorbitada voltei a pedir à infeliz funcionária que queria mesmo falar com o meu médico, ao que ela respondeu já lhe ter dado o recado e só ele sabia porque ainda não tinha vindo. Aqui eu já me encontrava transformada num “monstro” quase indomável.

Inesperadamente eis que o médico apareceu junto de mim com um ar de quem já passou por aquilo um incontável número de vezes. Muito afogueada perguntei-lhe porque é que ainda estava naquele corredor miserável e sem saber de nada (isto andava pelas catorze horas).

Ele, com um ar tolerante, resignado e calmo disse-me que dado o adiantado da hora podia beber um golinho da água para enganar a fome e a sede.

Eu, no meu desespero, perguntei-lhe se realmente iria ser operada, ou não, visto ser tão tarde e ainda ter pessoas à minha frente para o mesmo fim, não falando do desconforto total daquele corredor onde não se podia descansar minimamente, ao que ele me respondeu: “Operada vai ser, mas só lá para o fim do dia, ainda está aqui porque não há camas disponíveis na enfermaria, estamos à espera que surjam altas”.

Fiquei de boca aberta a olhar para ele, acabando o mesmo por acrescentar: “Mas se quiser pode não ser operada hoje, pode adiar para daqui a uma semana quinze dias…” ainda mais atónita fiquei mas pus essa hipótese, a minha filha num ato reflexo quase gritou:” Nem penses nisso, tu não vais desistir!”.

Eu tremi e questionei novamente o médico: “Senhor doutor, se eu marcar nova data pode acontecer o mesmo que hoje?”, ao que ele respondeu resignadamente que sim. Claro que não desisti. Ele apertou-me a mão complacente informando que a qualquer momento vagaria uma cama e retirou-se .

Por volta das dezassete horas chamaram-me para a inscrição e pouco tempo depois fui finalmente chamada para o internamento. Quando dei por mim encontrava-me no pavilhão dos homens, mas no recobro, que segundo agora sei é misto mas na altura não sabia. Só aí havia camas.

Eu não queria acreditar que estava a viver tudo aquilo, a situação desde o início era Kafkiana e eu nada podia fazer nem sabia como encarar. Ali fiquei deitadinha e sossegadinha mas, ao menos, já de soro enfiado na mão, assim a fraqueza suportava-se melhor. Entretanto uns gemiam, outros diziam que morriam e outros dormiam apenas. Claro, eu estava num recobro, era de se esperar.

Estava-me a esquecer de aqui deixar registado de já lá se encontrar a senhora que chegou antes de mim, sem ser operada, exatamente nas mesmas circunstâncias, e mais tarde entrou outra já operada. A partir daquele momento deixei de me afligir, senti que o abismo tinha acabado ali, tudo o que viesse a seguir era uma história que eu iria contar.

Fui operada por volta das dezanove horas e quarenta minutos. Toda a sala e o local onde me deitaram eram gelo, nem sei como as pessoas não se constipam, mas antes de adormecer, a tiritar de frio, e já com o efeito da anestesia alguém me disse que assim tinha de ser para evitar o desenvolvimento de vírus e bactérias, entendi e aceitei a explicação, era perfeitamente compreensível tal desconforto e já não dei por mais nada.

A operação correu lindamente e voltei para o recobro misto. Aí já pouco liguei a isso. Passei lá a noite e toda e parte da manhã. Finalmente fui para a enfermaria perto da hora do almoço. Almocei e como já podia andar e não tinha feito intolerância aos alimentos deram-me alta. Vá lá, ainda passei umas horas na enorme enfermaria de lindos azulejos creio que do seculo XXIII, cheia de senhoras aconchegadinhas. Parecia um gineceu em decadência. Essa noite já fui dormir casa da minha filha.

III

Do fundo do meu coração agradeço ao médico que me acompanhou , a toda a equipe que me operou, aos enfermeiros que me assistiram e a todo o pessoal auxiliar do Hospital dos Capuchos. Trataram-me dignamente e muito profissionalmente. Da minha parte têm total admiração e respeito pois trabalham em situações caóticas mas dão conta do recado. Coisa que noutro hospital não aconteceu, na parte das urgências, mas agora talvez consiga dar um certo desconto.

O meu dedo é apontado, isso sim, ao nosso Sistema Nacional de Saúde. Os utentes são tratados como seres inferiores (Filhos de um Deus Menor), encalhados à porta do hospital e depois atirados para um buraco onde se possa colocar uma cama (e ainda termos direito a cama já não é mau).
Senhor Ministro da Saúde, experimente ou mande experimentar algum amigo ou familiar seu este tipo de situação, só assim, talvez entenda, o mal que está a fazer aos portugueses. Sabe o que é sentir que vale “nada”? Que é uma “coisa” que anda no hospital aos baldões? Que representa num “transtorno” e “peso” público?...

Senhor Ministro da Saúde e restante Governo, não tratem tão mal quem trabalha nos hospitais. Médicos a operar com cargas horárias enormes disfarçando o cansaço e ainda dando um sorriso e apertos de mão, enfermeiros atenciosos mas que já pouco conseguem ouvir, auxiliares de corpo moído… enfim tanto ainda havia mais para lhes dizer mas fico-me por aqui.

Acrescento apenas que se não lutamos todos (utentes e profissionais de saúde), pelos nossos direitos, qualquer dia não haverá mais dia.

18/02/2014

Liliana Josué




quarta-feira, 18 de março de 2015

Poesia de Liliana Josué


Poesia de Liliana Josué

PEDRO

No meu gemido Universal nasceste
menino robusto e lindo
crucial momento na minha existência

criança adorável em choro de vida

despontou o lírio branco que eu embalei
e amei na solidão do meu mundo

não deixei que te transformassem em nada
não, não deixei
eras meu, estavas em mim
e sendo assim
mais nada contava

querida vozinha em soluço de agradecimento

choravas por causa da música
e brincavas com o reflexo dos espelhos

doce canto, doce pranto
plena certeza de te querer aqui.

22/02/2015
Liliana Josué

GATOS VERDES

 Quatro gatos verdes
 observavam o seu desventrado quarto.
 Gavetas voadoras com línguas de fora;
 armários navegando assustados
 por ondas de papeis;
 leito num furacão
 envolto em negras nuvens de pó.

 Os gatos... eram gatos?
 Sim! Eram gatos! Na certeza da dúvida...
 mas tinham cor de papagaios!
 Verdes, brilhantes...
 talvez fossem... gatos - papagaios!?
 Mas não falavam!

 Constrangidos
 observavam o mundo ressequido
 daquele quarto esquizofrénico.
 Que ambição dali poderem sair
 mas uma despudorada Força contrária
 puxava-os e impedia a desejada saída.
 A liberdade é só para alguns
 ou mesmos nenhuns.

 Um dos quatro gatos - papagaios
 fixou uma porta abstracta
 passou por ela, quis tentar a liberdade.
 Os outros três por lá ficaram
 no caos das suas vidas
 dentro do quarto
 sem se atreverem a olhar mais longe.
 O gato - papagaio que se soltou
 tornou-se azul, brilhante como o céu
 e conseguiu cheirar o ar sem mofo.

 Seria gato? Seria ave?
 Quem o saberia?
 Só se comprovaria ser ele lindo.

 Do seu futuro
 mais ninguém soube.
 Será que encontrou a liberdade?
 Ou terá morrido na saudade
 dos outros três gatos verdes
 fechados nas bolorentas paredes?

 Liliana Josué

 Primavera Branca

 Há sol azul
 nos olhos do ancião,
 metamorfoses de vidas
 esvoaçando como tule
 adormecem esse olhar
 de solidão.

 Cabeça pendendo sonhos
 recordações
 do distante
 memórias de luares antigos
 polvilhados de emoções
 de cor imaculada
 e cheiro a ontem.

 Tudo é Primavera branca
 cabelo, barba, ilusão...
 a face nívea desgostos tranca
 só os olhos é que não.

 Liliana Josué





quinta-feira, 5 de março de 2015

Coluna Poética de Liliana Josué


Coluna Poética de Liliana Josué 

NA JANELA DA MINHA VIDA

Sentei-me à janela da minha vida
uma procissão de personagens desfilou
o sol desmaiava de vergonha
como tela desbotada, sem imagens.

Fechei os olhos e vi
beijos e bandeiras pejados de esperanças
cantares de primavera
viragens e crenças
mudança iminente.

A certeza na igualdade
foi minha companheira
como verdade certeira.

Corri, sorri, gritei, acreditei...
Ai meu horizonte de cor
meu suspiro tão fraterno.
Tudo nascia em verdade.

Acreditei no que fiz
por momentos fui feliz.


SUSPIRO

Lembro-me de ti
há já muito tempo
talvez do princípio do mundo.

Sei que te vi
como a minha salvação
da solidão que vesti.
Teu olhar deu-me alento
para me olhar bem no fundo.

Caminhei na tua direcção
confiante
num suspiro delirante.

Foste luz, paz, vida...
foste tudo.
Eu do meu recanto mudo
saí
numa onda de paixão
gratidão e confiança.

Mas tropecei no acaso
e sem saber como
caí.

 
VIVÊNCIAS

Por Liliana Josué

Eu penso que está sol...
Sinto que está sol...
tenho calor
estou mole...

E tu aí?
Como vives o calor?
Será que sentes ardor
ou apenas ignorância
dessa tua inconstância?

Eu vejo o mar azul, limpo.
E tu aí?
Vês o mar no seu total
no seu humor desigual
ora doce, ora fatal?

Eu dou-lhe a areia a namorar
e ele desfaz-se em espuma
deslumbrado.
E tu aí?
Sentes a areia pelo ar
namoriscando o seu mar
afagando como pluma
esse azul... tule adorado?

Todas as minhas vivências
são experiências
pessoais.
E as tuas?
São segredos tão iguais?
NAO

Eu sinto o meu existir
E tu aí?
Existes no teu sentir?...




sábado, 28 de fevereiro de 2015

Texto de Liliana Josué - CRÓNICA SOBRE NÓS


Texto de Liliana Josué

CRÓNICA SOBRE NÓS

Sabes, estou no sítio onde eu muitas vezes queria ir, o meu preferido para aquelas circunstâncias , e tu, embora também gostando, preferias inequivocamente o outro, o grande, muito amplo, pejado de gente e vida. Mas tu não eras assim!... o meu, era o tal lugar não muito grande e tranquilo, colorido mas discreto, um nadinha melancólico como eu e que sempre me puxou a vontade de rabiscar qualquer coisa, como agora.

Cá estou eu a ouvir música artificial de piano enquanto penso em ti. Fazes-me falta, mesmo nos desencontros de opinião, de vontades e crenças. E tu, aí onde estás, longe, sentes falta de mim? nem que seja só um pontinho no peito? gostava que sim.

Sabes, já não vou comprar o queijo branco e ácido à mercearia do russo, não me apetece. Esse queijo só fazia sentido comido e disputado por ambos, assim não. Recuso as lojas de roupa barata na rua larga e comprida, sem ti aborrecem-me, tal como o restaurante chinês que também tinha sushi, o qual eu comi pela primeira vez com alguma relutância, mas depois até gostei.

Sabes, fazes-me falta, não tenho a culpa mas é assim. O frio por aqui é muito, tanto no corpo como na alma, creio que onde estás não seja melhor. Sei que nunca deste muita importância ao que escrevo, mas, mesmo assim, no tal lugar onde estou tive de o fazer. Já cá não vinha há bastante tempo, e ao entrar entrei igualmente em mim, acredita que também tinha saudades minhas.

Variávamos pouco os sítios distrativos e relaxantes, talvez por isso mesmo os evite. Parte das nossas vidas permanece muito concentrada nesses locais. Por lá tudo ficou parado à nossa espera. Sinto-te longe, mas acredito que a distância está no tempo em que nos sentimos sós.

Sabes, fazes-me falta, mesmo muita falta.

Liliana Josué






quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Poemas de Liliana Josué



Poemas de Liliana Josué


Em memória dum grande amigo que partiu desta vida terrena

As lágrimas por nós choradas
na tua quase vontade
de quereres , finalmente, livre pássaro
são tristes, fundas pesadas
apertam o coração
e marcam a existência
de quem te quis tanto, tanto…

mas mesmo assim tu partiste
levitando nesse prazer da ausência
de quem já não pertence aqui

foste habitar o eterno
que os vivos inventam por desconhecimento
o os mortos abraçam no contentamento
de o ter alcançado

ficam as memórias de um viver passado
ficam quase certezas de não estares infeliz
ficam as historias que tu não contaste
ficam os contornos dum tempo feliz.

23/01/2015
 
Liliana Josué


EVA

O vento batia forte
a chuva era um rosário
fevereiro, inverno na sua total nobreza
adversário rígido mas necessário

e foi nesse frio agreste
que certa criança nasceu
linda, loira, branca, doce
uma pérola pequenina
pérola minha, muito minha

sim, era o mundo que o meu ventre tinha dentro
e que nesse frio dorido
fez a vida receber

fio dourado
erva pura e verde
brisa marinha
calor do meu corpo cansado
esperança sem fim
vinda de mim
tenra haste desse fevereiro agreste.

06/02/2015
 
Liliana Josué

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Texto de Liliana Josué - EU VI UM SAPO…


Texto de Liliana Josué

Decidi colocar um conto/crónica da minha autoria como início do ano 2015, sem fotos, só letrinhas.
Hesitei em colocar o nome do Hospital mas pensando melhor vou colocá-lo aqui mesmo: HOSPITAL DE S. JOSÈ

EU VI UM SAPO…

Joana, minha amiga desde o tempo das fraldas, sempre teve problemas asmáticos. A sua infância e juventude foram bastante acidentadas por esse mesmo facto, embora tivessem existido períodos de acalmia com muita felicidade e brincadeira. Apesar de tudo, era uma miúda cheia de vida e entusiasmo. Franzina mas rija.

Lembro-me de quando a ia visitar nas alturas das crises asmáticas, acamada e sem qualquer possível tratamento (pois naquele tempo não havia os recursos que existem hoje), apenas mezinhas caseiras como os pachos de algodão embebido em álcool ou papas de linhaça colocados, com duvidosas esperanças de melhoria, sobre o peito. Os lábios tornavam-se roxos apertados pela boca cerrada, narinas muito abertas e silvos saltando do peito, o qual parecia um fole nervoso e descompassado. Não conseguia falar.

Por vezes sentavam-na à janela do quarto para apanhar ar. O pai chegou a levá-la de carro , já um tanto “démodé”, abrir as janelas e correr com ela a cidade para que o vento lhe batesse forte na cara e ela se sentisse melhor. Hoje sabemos que isso nada faz, mas naquela época não, naquela época aquilo tinha de lhe fazer bem ou pelo menos fazê-la sentir melhor.

A situação embrulhava-me em tristeza e até em algum medo mas, mesmo assim, gostava de estar com ela. Lia-lhe livros de contos de fadas adornados com lindos desenhos que a minha amiga tanto gostava de colorir, ou lia páginas da coleção “As Aventuras dos Cinco”, cuja personagem Zé era disputada por ambas. Falava-lhe do meu gato amarelo ou do cágado que eu tinha no meu quintal, e também do meu vizinho guloso que me espreitava pelas janelas . Algumas vezes acompanhava-a no seu choro amargo e aflito, mas o meu era discreto para não a assustar ainda mais.

Já mais crescida, ou mesmo adulta, aquela erva daninha e corrosiva enraizada no seu peito abrandou as tenazes e a minha amiga tornou-se muito menos receosa, caminhado pela vida com um passo quase firme. 

Divertíamo-nos com imensas coisas, uma delas era fazermo-nos passar por estrangeiras nos parques da cidade, e muita gente acreditava. Eu era uma rapariga alta e de formas bem marcadas, dava nas vistas. Sem ser bela tinha um gracioso palminho de cara, não desvalorizando a minha inteligência que igualmente fazia parte do meu charme. 

A Joana era baixa, magra, pele muito branca, sardas no rosto, olhos esverdeados um pouco tristes, mas bonitos, e um invejável cabelo arruivado, mas era o seu sorriso que nos enternecia a alma. Quanto à sua inteligência também era patente, no entanto diferente da minha, era mais observadora e intuitiva. 

Os rapazes rondavam-nos como gatos com cio, e nós apimentávamos a situação fingindo-nos não portuguesas, os nossos tipos davam para fazer isso. Eles arregalavam os olhos enquanto perguntavam de risinho cobiçoso: “Vocês são francesas… ? inglesas…? alemãs…?” .

O tempo foi passando e agora já maduras a minha amiga voltou a ter crises asmáticas bastante violentas. O horizonte voltou a tornar-se triste e cinzento. Ontem deu entrada, de urgência, num hospital público. 

Foi rapidamente atendida, quanto a isso nada a dizer, fizeram-lhe todo os exames médicos considerados necessários e aplicaram-lhe os tratamentos mais indicados. Até aqui tudo bem, apesar do seu mal, mas depois… .

Como sua acompanhante estive quase sempre junto dela, pois até dá jeito para ajudar. O seu corpo arquejante afundou-se na cadeira embrulhado em toda uma parafernália de equipamentos médicos, alguns deles colocados por ela própria, por exigência dos serviços, mas ela não sabia que assim que tinha de ser. Ouvi um voz ao fundo: “então quando coloca o tubo do oxigénio no nariz? Está sentada mesmo em cima dele”. 

A minha amiga meio amedrontada e admirada procurou fazer desajeitadamente o que lhe diziam. Eu, infelizmente, também pouco podia acrescentar quanto ao manuseamento dos utensílios visto ainda menos perceber do assunto. Mas até se percebia tanto mau humor do pessoal pois o trabalho era muito e para além do mais estava-se num domingo. 

Caramba, que chatice ter de se estar ali no domingo, ainda por cima tudo gente nova que o que mais queria era estar a dormir ou a divertir-se, ou mesmo a namorar! 

Não compreendi o porquê mas realmente eram todos muito jovens, onde estariam os mais velhos? Se lá se encontrassem alguns até podia ser que tivessem um pouco mais de mais paciência, quem sabe…? Sim, quem sabe…?. 

Joana fechou os olhos lacrimejantes aguardando meio resignada pelo bom sucesso dos tubos, fios e frascos enquanto eu ia observando todo aquele espectáculo. Volta e meia uma idosa gritava com dores na perna e agonias. Muito chata, é certo, mesmo muito chata, mas também muito idosa. Como o seu “show” não pegava resolveu então fazer uma voz doce e melada de submissão canina dizendo: “ ó minha querida, não me arranja uma pomadinha e dava-me uma massagem na perna?”. 

A funcionária que se situava mais perto dela olhou-a furiosa e disse: “fricção, eu…? eu…? eu…?” e virou-lhe as costas indignada. Mas talvez até fosse por bem que ela não lhe fez a fricção, quem sabe…?

Outro idoso que mal se podia mexer, e mesmo sentado se apoiava numa bengala tinha uma bata vestida, daquelas próprias dos hospitais feias e deprimentes, era esquelético , feio e um nadinha rezingão, pretendia com muito custo, ajustar a mesma aos ombros pois a dita tinha-lhe sido vestida à pressa. Dizia com cara de poucos amigos: “tenho frio”. 

Ora lá estava outro chato! E não queriam que os pobres funcionários se aborrecessem, mas que abuso e falta de compreensão. É claro que o débil protesto pouco lhe adiantou, ficaria mesmo assim, desconfortável e com frio se o vizinho do lado, também ele idoso e muito doente, não lhe tivesse estendido a mão e a muito custo o ajudasse a puxar um pouco mais a bata. 

Eu senti-me bastante indignada comigo própria por nada fazer, mas estava a acompanhar a minha amiga e não as outras pessoas que não tinham ali os acompanhantes, para além do mais tinha medo de ofender os funcionários, de modo que os meus pés não se descolavam do chão.

Uma outra senhora igualmente de provecta idade queria ir à casa de banho, pediu muitas vezes, mas muito tempo teve de esperar. Até que um auxiliar mal encarado chegou com uma cadeira de rodas e puxando-a por um braço a quis levantar e sentar na dita (até eu sei que não é assim que se agarra uma pessoa sem forças), mas pelos vistos o pobre homem não sabia, coitado, não sabia, e então…? e quase berrando à mulherzinha disse-lhe: “ olhe que se não se segura bem cai aqui mesmo”. 

E não é que ia caindo mesmo!..? tal como um outro tinha caído noutra cadeira de rodas?! Mas aí, sejamos honestos, a culpa tinha sido da cadeira pois rompera-se sozinha. Um segundo auxiliar viu a cena e deu uma ajuda mais vigorosa à senhora. 

Entretanto a tal funcionária histérica remoía entre dentes: “estão mal é habituados, têm é muitos luxos.” No entanto eu achava curioso que em certas alturas esta mesma funcionária olhava para mim e atirava-me um sorriso de compaixão e simpatia, eu correspondia não fosse ela zangar-se. Muito mais eu vi e a minha amiga também, instalando-se dentro de nós uma revolta silenciosa e comungada.

Hoje fui visitá-la a casa, está melhor felizmente, e vai ficar totalmente restabelecida, certamente. Os olhos deixaram de estar mortiços e o peito sem chiadeira nem solavancos. Tudo estava a entrar na normalidade, mas a nódoa negra marcada a socos nos nossos corações por aquele hospital, essa, não vamos conseguir curar.

Liliana Josué




Conto de Liliana Josué - Aguarela


Aguarela


Conto de Liliana Josué


Enquanto caminhava deparei com um espectáculo digno dos deuses de gostos mais requintados.

Não pela sua magnificência, mas pela singeleza, constatando que muitas vezes ali passara sem que realmente nada tivesse visto, na pressa da minha vida.

A planície era um manto longo a deixar de se ver. Papoilas vermelhas de olhar atrevido salpicavam o extenso tapete verde. O sol, estrela imponentemente e estática, ruborizava ainda mais essas frágeis criaturas, ao mesmo tempo que doirava os pequenos mal-me-queres que por ali se espraiavam.

Alguns chorões deixavam que a brisa acariciasse suas macias cabeleiras, num rostilhar de perpétuo alívio e bem estar, murmurando segredos que só ela entendia.

E os gira-sois, que seres simpáticos e divertidos, de grandes olhos castanhos enfeitados de loiras pestanas, cantavam o sol em felicidade suprema e, quando ele partia, baixavam suas cabecitas e adormeciam rezando para para que nunca lhes faltasse.

Prestei mais atenção em meu redor e deparei com duas delicadas borboletas, de sedosas asas brancas, poisando num discreto lírio cor de marfim, acasalando felizes. Todos os outros lírios viraram suas corolas em direcção ao pequeno riacho num sorriso envergonhado.

Este, corria um tanto travesso por entre as pedras, suas companheiras, vestidas de verde musgo e adornadas por avencas.

Não resisti por muito tempo a descalçar meus pés e mergulhá-los nessa água de cristal. Arregacei a comprida saia azul- marinho sarapintada de cerejas encarnadas, tirei o chapéu de palha decorado com uma fita cor-de rosa e ramo de violetas. Coloquei-o sobre a margem; manta castanha protectora do riacho.

Senti um frio que me arrepiou a espinha, olhei para baixo num pasmo estático e assim permaneci sem tempo. Em seguida, meus pés dançaram num serpentear de água, brincaram lá no fundo, sobre a condescendente areia. Meus dedos ondulantes arrebitaram como meninos traquinas. Deleitada sorri para a o riacho frio, ele numa atitude gaiata devolveu-me esse sorriso.

O arrepio desapareceu e a alegria invadiu-me.

Dei um grito de libertação enquanto meus desgostos eram levados por aquelas renovadoras águas de mistério.

Pulei para fora do riacho e corri até mais não poder, de saia esvoaçando pelo vento e cabelos flutuando pelo ar.

De exaustão deitei-me sobre a terra quente, senti seu coração a palpitar e o som da vida em permanente actividade.

Apertei-me toda contra ela e, sem saber porquê, chamei-lhe MÃE.


Liliana Josué