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domingo, 16 de agosto de 2015

Coluna: Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano. - O Saci Pererê

 
Coluna: Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.
 
O Saci Pererê
 
Prólogo atual: este texto, feito em abril de 1998; faz parte de meu penúltimo livro, uma antologia de contos, crônicas e poesias, cujo título é «Fragmentos»; na verdade um livro quase inédito, posto que não tenho tempo de procurar livreiros e eles não me enxergam, quando os encontro.... .
 
Devido à tragédia que ocorreu com a cidade de São Luiz de Paraitinga, SP, durante o mês de janeiro de 2010 e sendo esta cidade a sede da Sociedade dos Criadores de Sacis (SOSACI), resolvei torná-lo público. Gostaria que os leitores pudessem ajudar as famílias de lá, da maneira que puderem!
 
Para os leitores lusófonos terem uma idéia, o desastre ambiental em São Luis de Paraitinga parece ser muito maior do que aquele que ocorreu na Ilha da Madeira, na última sexta feira, 19 de fevereiro de 2010; ainda com a diferença de que São Luis Paraitinga é uma cidade importante sob muitos aspectos, porém pobre... .
 
Quem quiser conhecer como a cidade era, entrar no site:
 o www.paraitinga.com.br
 
 
Toda vez que chegava uma nova família na fazenda de café, onde eu vivia, todos se alegravam. Os adultos, por terem mais um amigo por perto, já para a molecada da fazenda, nem se fala! E, ao ver-mos que na família nova tinha um menino da nossa idade então, ficávamos curiosíssimos: será que o novo amiguinho teria um dote especial? Será que ele sabe jogar bola melhor, brigar melhor, nadar melhor? Será que ele sabe tocar viola ou cavaquinho, fazer gaiola de passarinho e arapuca; será que é bom de estilingue ou bodoque e etc.?
 
Cada um de nós ficava imaginando qual seria a sua experiência de vida; se ele tinha irmãos e outras coisas.
Como era praxe, colono novo almoçava na casa do administrador no dia da chegada: era as «boas vindas». O Administrador, meu pai, pagava a despesa do próprio bolso, pois o fazendeiro sovina jamais o reembolsou; talvez Deus tenha feito isso por ele! Papai tinha muita pena de gente que viajava com filhos pequenos durante muitas horas, às vezes passavam o dia todo sem comer.
 
- Naquele sábado não foi diferente, quando vi o «panelão» que borbulhava no fogão à lenha, logo imaginei: como não vai haver festa, é colono novo chegando, e de longe.
- Percorri toda a colônia avisando meus amiguinhos que teríamos gente nova na fazenda e que meu pai afirmou que tinha um menino da minha idade. Nesse dia não saímos para pegar frutas, nem caçar, nem jogar bola: passamos o dia todo debaixo da mangueira do quintal da minha casa, brincando com vaquinhas e cavalinhos de bucha, caminhõezinhos de lata de marmelada, aos quais atávamos um «cordoné» para poder puxá-los.
 
Desse modo transportávamos uma boiada do curral de um até o piquete de outro, e vice-versa. Fazíamos transações comerciais, as quais eram pagas com tampinhas de refrigerantes (o guaraná Paulista valia um conto; guaraná Caçula, destões (um mil réis); Mãe-Preta ou Níger, quinhentos réis).
 
A tarde já se anunciava mostrando a barra do dia avermelhada e o céu azul, que só a região de Cravinhos tem, quando percebemos um certo alvoroço com o pessoal da casa: a carroça com a mudança do novo colono chegou. Eu e meus amiguinhos corremos até o portão da frente da casa e deparamos com uma família diferente: o pai, que estava conversando com o meu, era um crioulo alto, forte, com dentes brancos e perfeitos, com as carapinhas já embranquecendo; a mãe parecia bastante jovem, com um bebê no colo, ao mesmo tempo que dava ordens ao menino e sua irmã, um tanto atarantados com minha presença e de meus amiguinhos, e remexia em sacolas, sacos e embornais à procura de não sei o quê.
 
Meu pai muito gentil, pediu que apeassem e se preparassem para aquele almoço fora de hora. Minha mãe foi chispando reacender o fogo e botar o panelão e a assadeira para aquecer.
 
- Eu e meus amiguinhos não desgrudávamos os olhos do menino, que agora sabíamos chamar-se Ditinho, que por sua vez parecia muito incomodado com a nossa presença. Toda a família do Ditinho foi até a «vasca» do fundo do quintal, se refrescaram, banharam os braços e o rosto, molharam delicadamente a cabeça e a mãe penteou-os todos, até o marido.
 
Nesse ínterim minha mãe chamou-os para comer e já estava com a mesa posta: no panelão, risota caipira: uma espécie de sopa de pouco caldo com arroz, batata, frango, cenoura, vagem, cozidos com açafrão recém colhido, coberto de salsinha picada e queijo curado ralado; havia também mandioca frita, feijão, uma farinheira cheia de farinha de mandioca, que eu ajudei a fazer, e uma assadeira com um pernil de tatu «rabo mole» tostadinho, duas jarras de água da bica e uma tigela de arroz-doce com folhas de laranjeiras.
 
Eu e meus amiguinhos não ficamos ao lado da nova família de colonos, mas ficamos apinhados do lado de fora das duas janelas da sala com a grande mesa, onde freqüentemente comíamos em, no mínimo, nove pessoas.
 
Enquanto o pai do Ditinho almoçava, os camaradas da fazenda descarregaram a mudança na casa recém caiada da colônia, com chão de terra - batida, dois quartos, sala e cozinha. Na fazenda, os banheiros são feitos do lado de fora, diretamente sobre uma fossa, que a cada ano era coberta de «cal viva» e aterrada, sendo então feita uma outra.
 
Na verdade era cercada por folhas de zinco, e de zinco era também a cobertura. Eu e meus amiguinhos assistimos a despedida da família do Ditinho, agradecendo a hospitalidade e rumando para sua nova casa. Quando passou por nós, o Ditinho disse amanhã eu quero falar com vocês!
 
Ficamos bastante ansiosos, e mal podíamos esperar para falarmos com o novo amigo no dia seguinte. De manhã, como de costume, apanhei a caneca de louça, coloquei dois ou três dedos de café, acrescentei quatro colheres de açúcar cristal e fui até o curral, para tomar meu café com leite «direto da fonte».
 
A «fonte» era uma vaca rústica, toda «chitadinha» de branco e preto, chamada Bela Vista, que era a nossa preferida. O tirador de leite, que começava a ordenha por volta das quatro da manhã, precisava tirar o leite todo antes das sete horas, quando então enviava para minha casa duas latas de vinte litros: uma para os colonos e outra para fazer os queijos dos patrões; pelo menos dois por dia.
 
Portanto, o tirador de leite sempre deixava a Bela Vista para o final, pois a qualquer momento eu e meus irmãos podíamos querer leite fresco. Ele esperava até sete horas, aí então terminava seu serviço.
 
Pois bem, após meu desjejum, passei em casa e comi um belo pedaço de pão caseiro com queijo e me dirigi à colônia: pretendia reunir os meus amiguinhos e, juntos, irmos a casa do Ditinho. Mas, ao chegar à colônia, já os vi todos, inclusive o Ditinho, num bate-papo animado, que só parou quando me aproximei e disse: - o que você quer falar com a gente? Antes mesmo de o Ditinho abrir a boca, o Ném, meu amigo disse: ele vê e ouve saci - pererê!!.
 
Ele vê o que?, disse eu sem entender direito: saci - pererê, disseram todos em coro.
 
Nesse ponto, o Ditinho começou a contar a sua história: disse que sua mãe verdadeira já havia morrido, e aquela que morava com seu pai, era sua madrasta, e que sua irmã, por parte de mãe sofre de vermes e desmaia quando passa vontade de comer alguma coisa, mas que o bebê é lindo; a madrasta não liga pra ele e seu pai é generoso e trabalhador e que desde que era menino, ele via saci - pererê, só que não sabia o que era: a primeira vez que viu tinha quatro anos, fazia muito tempo, pois agora já tem sete e que qualquer criança pode ver o saci - pererê e que ele não faz mal a ninguém, só faz estripulias, que quando tinha cinco anos ele não quis brincar com o Saci e que o Saci derrubou todas as panelas da madrasta no chão da cozinha, durante a madrugada e que seu pai deu dois tiros de espingarda nele e que agora tem medo do saci se vingar do seu pai.
 
Eu e meus amiguinhos, inclusive o novo, ficamos ali até que ouvi o sino da sede da fazenda: era o sinal da minha mãe, avisando os filhos e meu pai que o almoço já estava pronto. Durante o almoço com minha família comentei com meu pai do menino novo que via e ouvia saci - pererê e enquanto meus irmãos faziam caçoada de mim, meu pai falou: Pois, agora, toda vez que vocês saírem juntos, você tem que levar uma caixa de fósforos no bolso. Meus irmãos todos se calaram e meu pai não disse mais uma palavra, continuou calmamente a almoçar, com o olhar cúmplice de minha mãe: No mesmo instante eu percebi que meu pai também acreditava, ou já tinha visto um saci - pererê.
 
Durante os próximos dias e durante todo o ano, até a colheita do café, após a qual todos os contratos dos colonos venciam e discutia-se, quem vai ficar na fazenda e quem vai sair, discutíamos os casos dos sacis - pererês.
 
Certo dia o tirador do leite não encontrava os baldes para a ordenha, num outro dia os rabos dos cavalos apareciam amarrados uns aos outros, noutra ocasião esvaziaram o lavador de café, inundando todo o terreiro de secagem e atrasando o beneficiamento por mais de uma semana, enfim de vez em quando alguma traquinagem acontecia na fazenda: e eu sempre com a caixa de fósforos no bolso.
 
No final da colheita do café daquele ano, a família do Ditinho resolveu ir embora para São Paulo e eu e meus amiguinhos ficamos muito tristes, pois embora o Ditinho não pudesse jogar bola e tivesse dificuldade de nadar ou caçar de estilingue suas estórias eram muito excitantes.
 
No dia da sua partida, marcamos com ele para nos despedirmos junto à porteira da fazenda, uns dois quilômetros longe de casa, em meio a uma mata fechada. Quando a carroça com a mudança chegou, não vimos o Ditinho. Perguntamos por ele, e seu pai disse: ele vem vindo a pé pelo meio do mato - e foi embora. Estranhamos muito, mas ficamos ali esperando.
 
Após algum tempo, ouvimos um assovio longo e forte e nos voltamos para uma «picada» no mato e vimos o Ditinho com um boné vermelho na cabeça, cachimbo na boca, pulando sobre sua perna aleijada, completamente pelado e gritando:- me dá o fogo senão morre ou fica bobo!
 
Todo amedrontado, retirei a caixa de fósforos do bolso e entreguei ao Ditinho, que saiu rindo alto e assoviando, pulando atrás da carroça de mudança.
 
O Ditinho era o próprio saci-pererê!


 

domingo, 26 de julho de 2015

PINIQUINHOS SEM ASAS - Texto de Antônio Carlos A. dos Santos, Acas


PINIQUINHOS SEM ASAS

 Texto de Antônio Carlos A. dos Santos, Acas


Dona Geralda era uma senhora dos seus sessenta anos e por todos muito querida, por ser amável com todos. Ela veio de longe, aqui para a fazenda São José, veio lá de Minas Gerais, de um lugar cujo nome me pareceu muito bonito: São Sebastião do Paraíso.

Extremamente pobre, poderia se dizer que era mesmo miserável. Não tinha nenhum bem, exceto a aliança e o bem querer da família. Mestre nas artes de quitandeira, dona Geralda era muito requisitada para ajudar em pequenas festas nas casas das comadres, tais como batizados, crismas e casamentos.

Fazia pães de queijo, pau - à - pique, mané - pelado, broa de milho, biscoitos de araruta e de mandioca, e de quebra cozinhava muito bem. A limpeza de sua casa era um primor. Suas roupas, além das de seu marido e filhos, apesar de surradas e rústicas, mostravam bem os dotes de dona Geralda: as camisas, vestidos e calças eram um remendo só, ou melhor, pareciam feitos de retalhos, tantos os remendos, uns sobre os outros, caprichosamente alinhavados (Geralda não possuía máquina de costura) porém fazia a própria roupa e da família, tudo costurado à mão!!, além da limpeza e a brancura de suas roupas, só comparável ao seu sorriso.

Pois bem, sendo eu um menino, me acostumei a comer todos os quitutes da dona Geralda, e muitas vezes consegui convencer minha mãe a convidá-la para fazer alguns pães de queijo ou broa de milho. Devido à generosidade dela, de vez em quando passava por sua casa, quando vinha da escola. Algumas vezes dava certo, e ela me oferecia bolo de fubá, pé de moleque e outras delícias.

Certa feita apareceu em casa um grupo de garotos e garotas, vestindo roupas elegantes e procurando por mim. Um amiguinho da fazenda vizinha, ao ver chegar os filhos do patrão, inventou de ir pescar, para se livrar deles, ao que os garotos e garotas de São Paulo quiseram acompanhá-lo.

Sem saber o que fazer, disse que eu é que sabia onde dava peixe bom, e agora estavam ali, ávidos para pescar. Para se ter ideia, levaram até molinete e carretilha, que eu só conhecia de revistas, para pescar num córrego de, no máximo, dois metros de largura e um metro de profundidade.

Levei-os até um trecho do córrego e os deixei lá pescando. Eu e meu amiguinho caímos fora. Como crianças de cidade não sabem brincar sozinhos no campo, logo se cansaram e passaram a correr atrás dos cavalos, além de espantar o gado que estava sendo recolhido para a ordenha.

- Leve esses diabos daqui, disse o cocheiro e tirador de leite, leve esses diabos daqui, disseram os camaradas, minha mãe e tudo o mais. Procurei pelo amiguinho da fazenda vizinha que havia trazido esses pestes, mas ele já havia ido embora. Que fazer?

Eu os reuni, e prometi que os levaria até a divisa da fazenda, de onde iriam juntos com pessoas da fazenda vizinha que os estariam esperando, conforme tratado telefonicamente pela minha mãe e a mulher do doutor patrão de outra fazenda, já desesperada sem notícias dos filhos.

Para percorrer os seis quilômetros da minha casa até o local da divisa, num trecho de cêrca de arame farpado, conhecido por «passador», (pois permitia que pessoas passassem pela cerca de arame farpado, porém os animais não), tínhamos que atravessar a colônia da minha fazenda; e ao passar pela casa da dona Geralda, ela nos convidou a todos para entrar, mais ou menos oito pessoas.

Serviu um bolo de fubá delicioso e ainda quentinho, e, praxe na minha terra, coou um cafezinho fresco. Dona Geralda pegou uma bandeja redonda e colocou uma série de canequinhas esmaltadas, na cor azul, com florezinhas brancas e passou a servir àquele grupo risonho que já, à esta altura, haviam devorado o bolo, demonstrando uma total falta de educação.

Dona Geralda foi primeiro servir a Marta, uma garota um tanto gordinha e branca como leite (embora estivesse toda vermelha por exposição ao sol demorada). Marta agradeceu, e girou a canequinha, tentando encontrar a asa da mesma, visto que não havia pires; girou a segunda, a terceira, a quarta e nada!!


Penico ou pinico (piniquinho=piniquim)

 Muito sem jeito, olhou para Dona Geralda que calmamente lhe disse:

- Pega na caneca, fia. «Us piniquim tá tudo sem asa, uai».
 


 Canecas de café (aqui com asa)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Lenda do Amendoim - Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos - Acas


A Lenda do Amendoim

Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos - Acas

Originário da América do Sul, (controvérsias à parte, alguns especialistas afirmam que o amendoim se originou no Brasil; outros especialistas dizem que o grão surgiu no Gran Chaco, região que abrange parte do Paraguai, o norte da Argentina, parte da Bolívia e o Peru).

Desde a sua descoberta na América, o amendoim conquistou o mundo todo: Europa e, mais tarde, para os Estados Unidos, onde, durante a depressão econômica (fim da década de 20 e início da década de 30) o amendoim, por sua alta qualidade nutricional, foi utilizado como suplemento proteico para a merenda escolar. 


Representação estilizada da planta do amendoim


 O Arachis Hipogeae (seu nome científico) tornou-se, então, o principal ingrediente da famosa Peanut Butter, ou pasta de amendoim, tão consumida como substituta da manteiga nas mesas estrangeiras. No Brasil, o amendoim se concentra na área de confeitos, salgadinhos e doces. O amendoim fincou raízes nos quatro continentes emprestando seu sabor pronunciado a centenas de receitas.

O amendoim está tão integrado às tradições culinárias da Asia e da Africa que seus povos nunca querem acreditar que tenha surgido longe de seus dois continentes, mas sim na América do Sul. Essa, porém é apenas uma das particularidades de um alimento ancestral, cujos primeiros vestígios de cultivo datam de 3 000 a.C., no Peru.

Sua importância na cultura pré-inca era tamanha que os mortos costumavam ser enterrados com grãos de amendoim, para garantir o sustento na vida futura, segundo registra a enciclopédia The Oxford Companion to Food (Alan Davidson, Oxford University Press,).

Por ser chamado em inglês de groundnut (noz subterrânea) é frequentemente confundido com as nozes, embora na verdade seja uma leguminosa aparentada do feijão e da ervilha. Espécie de clima tropical, ele tem um curioso sistema de reprodução: a planta floresce como tantas outras, no solo, porém logo empurra o próprio talo com a flor para baixo da terra, onde cresce o fruto, ou seja, a vagem contendo suas duas ou três sementes.

Depois de maduro é tostado. (Aqui vai uma ressalva do ACAS, que viveu numa fazenda desde seu nascimento até os treze anos de idade: as flores «Não são empurradas» para baixo da terra, mas sim o lavrador é que as recobre com terra; exceto as pontas cimeiras). Então, a flor se transforma na vagem, que se torna dura e adquire cor de palha. As sementes, amareladas e extremamente oleosas, são recobertas por uma finíssima película marrom-avermelhada.

Existe uma hipótese remota de que o amendoim seja brasileiro, como veremos numa das lendas abaixo. Há quem defenda, inclusive, seu nascimento na região atualmente compreendida por Mato Grosso, onde ocorre particularmente variado (muitos tipos de amendoim). O mais provável, porém, é que essa leguminosa tenha se originado entre o sul da Bolívia e o norte da Argentina. Dali se espalhou espontaneamente até alcançar o México e o Caribe, onde foi encontrada pelos espanhóis nas primeiras expedições europeias ao Novo Mundo, no século XV. Então, começou sua saga rumo à cozinha asiática.

Inicialmente, os espanhóis a levaram para o leste da Asia, conforme a publicação Vegetables (Roger Phillips e Martyn Rix, Random House, Nova York, 1994). Mais tarde, eles e os portugueses espalharam o amendoim por outras regiões asiáticas, disseminando-o de forma irreversível. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, em 1522, o amendoim era um dos poucos alimentos cultivados pelos índios, junto com a mandioca, o milho, a batata, o cará e o inhame.

Saboreado cru, assado ou cozido, servia igualmente para a extração do óleo e, por isso, era cobiçadíssimo. Entretanto, não há registro de sua aplicação culinária, como ingrediente, nos tempos do Descobrimento, conforme ressalta Luís Câmara Cascudo in «História da Alimentação no Brasil» (Editora Global, 1967). O grande mestre da cultura nacional ainda registra uma interessante particularidade do ritual de cultivo do amendoim: só podia ser feito por mulheres (vide lenda a seguir) e, além disso, a planta tinha de ser semeada e colhida pela mesma mulher, índia ou mestiça.

Vigorava a crença de que, se o homem tocasse na planta, arruinaria a colheita, como descreve, em seus registros da época, Gabriel Soares de Sousa, um dos primeiros observadores da cultura brasileira.

Os portugueses levaram o amendoim do Brasil para a Africa nos porões dos navios negreiros. Ao mesmo tempo, exportaram a tradição do cultivo feminino. Até ao fim do século XIX, a ativa indústria de óleo de amendoim na República do Congo e no Senegal (Africa) continuava proibindo formalmente a presença masculina em seu ambiente.

A propagação foi tão rápida que em apenas 100 anos, o amendoim já estava nos fundamentos da cozinha africana, condição que persiste até os dias de hoje. Como ingrediente culinário, ou na forma de óleo, integra alguns dos pratos mais populares daquele continente, caso do mafetigâ: um purê feito do amendoim, muito consumido em todo o litoral.

No Senegal e em Moçambique, condimenta carnes, peixes, inhames e bananas e seu óleo é o primeiro substituto do óleo de palma ou dendê. Uma grande «iguaria do Sudão» é o arroz cozido no óleo de amendoim, com cebolas e tomates cortados, várias espécies de crustáceos e peixes, além de couve, mandioca, inhame, okra, pimenta e sal. -Fica «delicioso»; na avaliação de Câmara Cascudo.

O óleo de amendoim também entra no preparo do célebre fou-fou, uma pasta condimentada e temperada que deve ser feita em almofariz e regada com caldo. No preparo dessa iguaria africana não se pode usar nenhum objeto metálico. Uma das receitas favoritas naquele continente é o caldo de galinha combinado com pasta de amendoim.

Da Africa, as variedades brasileiras foram levadas para a América do Norte, hoje um dos maiores produtores mundiais de amendoim, onde surgiram diversas variações. Além de muito apreciado como aperitivo (tostado e salgado, servido com ou sem pele), o amendoim é a estrela de uma das receitas mais populares dos Estados Unidos: a manteiga de amendoim, que na verdade consiste numa pasta feita com seus grãos prensados.

Os americanos adoram usá-la em sanduíches, combinada com geleias. No Estado da Louisiana, onde a presença negra na culinária é determinante, o amendoim proliferou nas fazendas a partir de sementes trazidas pelos escravos. Por toda a região, surgiram pratos feitos com ele, entre os quais a guloseima natalina preferida das crianças, peanut brittle (tijolo de amendoim), um parente do brasileiro pé-de-moleque, que os americanos embrulham em saquinhos para dar de presente à garotada no dia de Natal.

No Brasil, os docinhos de amendoim também fazem a festa da criançada, porém bem longe do Natal. Segundo o calendário nacional, a alta temporada do amendoim acontece por ocasião das festas juninas. No interior de São Paulo (região de Ribeirão Preto e Cravinhos), havia o hábito de servirem nas noites de rezas dos festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro, o chamado «café de amendoim», feito a partir de amendoim torrado e moído.

Este néctar brasuca foi ingerido por este autor em inúmeras oportunidades, quando do tempo em que vivia na roça. Já a paçoquinha, o pé-de-moleque e o caju de amendoim são receitas tradicionais.

O uso no preparo de confeitos vem dos tempos da Colônia. No início da década de 30, na falta da farinha de trigo lusitana, a mulher portuguesa teve a ideia de adotar o amendoim moído como substituto (tal como feito nos EUA), segundo Câmara Cascudo.

Já no Brasil, a farinha de trigo que quase inexistia, foi substituída pelo fubá de milho. O óleo de amendoim também teve grande difusão no país até o fim do século XX, quando foi paulatinamente substituído pelo óleo de soja.

Na culinária asiática, o prestígio do óleo de amendoim jamais foi abalado. Constitui ingrediente quase obrigatório em toda a Asia. Além disso, o emprego do amendoim tostado, salgado, inteiro ou moído é frequente em todo o continente. Na China, participa de receitas como o frango picado com pimentão, salsão, cebola e caldo de galinha, que no Brasil se tornou conhecido como «frango xadrez».

O livro Dona Benta - Comer Bem (Companhia Editora Nacional, São Paulo, 2003) recomenda 1 (uma) xícara (chá) de amendoim para 4 filetes de frango cortados em cubos.

Na India, figura em diversas receitas. Na rica culinária da Indonésia, um dos pratos típicos é o camarão com amendoim, cebolinha e alho. Como ingrediente, também se revela essencial no preparo do popular «gadogado», combinação de batatas, broto de feijão, tofu, ovos, pepinos e um molho condimentado à base de pasta de amendoim, leite de coco e tomate. Na Tailândia, o típico «curry panan» leva frango, salada de papaia verde e amendoim.

E, mesmo no Japão, onde não integra tantas receitas, seu óleo é bastante utilizado com fins culinários. O amendoim é muito proteico: em média, à cada 100 gramas do produto são extraídas de 25 a 50 gramas de proteína!!!!!!!!!!!!!! E é fonte natural das vitaminas E, B6, B2, Niacina, Folato e Thiamina, além dos minerais Magnésio, Cobre, Fósforo, Potássio, Zinco, Ferro e Cálcio.

Também é utilizado na dieta mediterrânea, pois auxilia na redução do colesterol LDL, se fazendo presente nas dietas médicas para diabéticos. O consumo mundial de amendoim como alimento, é da ordem de 8 milhões de toneladas e de 15 a18 milhões de toneladas são esmagados para fabricação de óleo comestível.

Os maiores produtores (e consumidores) mundiais de amendoim são: a India, a China e os Estados Unidos. Já o Japão e países europeus como Portugal, a Alemanha, a Holanda, a França, a Espanha e os países do Reino Unido, são países importadores. No Brasil, o consumo de amendoim é da ordem de 100 mil toneladas de grãos, produzidos no próprio país.

 A AFLATOXINA

 Ela é conhecida em todos os países que produzem ou consomem amendoim, e há normas que estabelecem os níveis dessa toxina a partir dos quais o produto é considerado impróprio para consumo. Se o amendoim for contaminado por um fungo conhecido como «Aspergilo Flavus», poderá produzir uma substância chamada aflatoxina; hepatotóxica, causadora de problemas hepáticos (tumores) em humanos e outros animais.

A aflatoxina é considerada substância cancerígena e tem provocado intoxicações que levam à morte animais alimentados com torta de amendoim contaminada. Também pode provocar intoxicação no homem quando consumido na forma de grãos torrados, ou de doces. E é importante observar que no processo de extração de óleo, a contaminação pela aflatoxina é eliminada deste produto. A presença de fungos e bactérias nos alimentos em geral, não é fato raro. A maioria desses microrganismos são comumente encontrados na natureza. Por isso, todo alimento, antes de ser consumido, exige cuidados na sua produção, manuseio e comercialização, para que se previnam efeitos prejudiciais à saúde.

A aflatoxina não afeta só o amendoim, mas também o milho e a soja. Importante é  salientar que em São Paulo, onde se concentra 90% da produção brasileira, já há setores que estão produzindo amendoim com excelente padrão de qualidade. São cooperativas e outros produtores independentes, além de indústrias equipadas com os mais modernos equipamentos e laboratórios para controle de qualidade.

No Brasil, existem normas, assim como todas as orientações necessárias para que o amendoim seja produzido com segurança. Tais medidas visam que o produto chegue ao consumidor com a necessária qualidade. Por isso, são adotadas técnicas adequadas em toda a cadeia de produção: da produção agrícola aos estoques do produto no varejo, passando pelos setores de beneficiamento e industrialização.

Significativos investimentos estão sendo feitos para a produção de amendoim isento de aflatoxina, através da instalação de equipamentos para secagem artificial, prevenindo o aparecimento de fungos produtores da toxina. Outro aspecto preventivo importante refere-se à utilização de variedades mais adaptadas às nossas condições de clima e solo. Uma variedade brasileira, o «AC-Caiapó» por exemplo, apresenta uma série de características que, em conjunto, propiciam significativa redução de contaminações por esses fungos.

 IMPORTANCIA DO AMENDOIM

 O amendoim (do tupi mandu'wi, «enterrado») é a semente comestível da planta, Arachis Hypogaea, da família Fabaceae. Embora confundido com noz, o amendoim é um membro da família da ervilha Fabaceae e a noz não é uma fruta, mas um legume ou vagem. O amendoim é a quarta maior cultura oleaginosa mundial. Os maiores produtores de amendoim são a China, a India e os Estados Unidos.

A partir da década de 1940, o uso da manteiga de amendoim nos EUA foi se expandindo e, hoje consomem 500.000 toneladas de amendoim destinadas exclusivamente à fabricação da pasta de amendoim, que os americanos do norte consomem em substituição à manteiga ou margarina.

Segundo documentação arqueológica de 3800 a 2900 a.C., o amendoim teve sua origem a leste dos Andes e, não se sabe quantos anos ou séculos que o amendoim vem sendo domesticado pelo homem. Segundo Evaristo Eduardo e Miranda, chefe geral da Embrapa Monitoramento por Satélite, o amendoim foi descoberto e explorado muito antes de os atuais índios surgirem. Quando os espanhóis iniciaram sua exploração já se podia encontrar amendoim até no México.

Os colonizadores então levaram a planta para cultivar na Espanha, enquanto que os comerciantes da época a levaram para Africa, Filipinas e por toda Asia. O amendoim levado pelos portugueses à Africa salvou da fome diversos povos do Sahel, no limite do Saara. Por volta de 1560, o amendoim foi introduzido na Africa Ocidental, e no início do século XVII, a planta do amendoim já era comum em toda região tropical oeste do continente africano.

A expansão aconteceu também com a ajuda dos escravos que foram levados a América do Norte e carregaram consigo o amendoim, onde plantaram em todo o sul dos Estados Unidos. Nessa região, o amendoim foi até emblema do Estado da Geórgia.

No século XVIII, o amendoim, chamado na época pelos norte-americanos como nozes da terra ou ervilhas da terra, foi matéria de muitos estudos botânicos, sendo considerado excelente alimento. No fim da primeira década do século XIX, o amendoim já era plantado na Carolina do Sul e usado como alimento e substituto de cacau, devido seu óleo. As primeiras colheitas comerciais apareceram em 1818 na cidade de Wilmington na Carolina do Norte.

A cultura do amendoim já estava presente em todos os estados sulistas e em 1860, com a Guerra de Secessão foi dado o primeiro aumento notável do consumo norte-americano. Na metade do século XIX os amendoins torrados e grelhados passaram a ser vendidos na rua, em jogos de beisebol e circos. Os vendedores ambulantes que gritavam «Hot Roasted Peanuts» foram ouvidos pela primeira vez nas apresentações do Circo Barnum e, assim, o desejo pelo produto se propagou por todos os Estados Unidos junto às viagens da caravana do Circo Barnum.

A produção crescia nessa época e os amendoins continuavam a ser colhidos e processados manualmente, porém a falta de qualidade e uniformidade do produto, e elevados custos de colheita, mantinham a demanda em níveis baixos. Foi o George Washington Carver (1860-1943) quem programou o sistema de rotação de culturas entre as plantações de algodão e amendoim, no Sul dos Estados Unidos.

Nesse momento, apareceram os primeiros equipamentos que permitiam uma maior mecanização das colheitas, com a consequente redução de custo. Carver ainda mostrou que mais de 300 alimentos podiam ser derivados do amendoim. Em 1938, a indústria do amendoim nos Estados Unidos já era um negócio de mais de US$200 milhões.

No Brasil, o cultivo e a produção de amendoim são atividades agrícolas importantes em diversas regiões do Estado de São Paulo, com uma concentração de 80% da produção brasileira. O produto destina-se principalmente à indústria de confeitaria, venda/consumo in-natura, e fabricação de óleo. Hoje, a área estimada de plantio está em torno de 150 mil hectares, distribuídos entre as lavouras conduzidas neste novo padrão tecnológico (São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Bahia) e os pequenos cultivos familiares em diversos Estados, de Norte a Sul do País.



 O AMENDOIM

 A colheita do amendoim é realizada com duas operações: o arranquio e o enleiramento das plantas no campo (onde permanecem por alguns dias para secagem natural ou «cura»). A colheita ou «trilha» é o despendoamento ou retirada das vagens. Em lavouras comerciais, há máquinas que realizam ambos os processos (arrancadores/invertedores; recolhedoras) mecanicamente, com alto rendimento.

O enleiramento (ou inversão das plantas) consiste no posicionamento das plantas em linhas uniformes ao longo do campo, com as vagens voltadas para cima, sem contato com o solo. Atualmente, os amendoins de lavouras que visam alto padrão de qualidade, são transportados, logo após a colheita, para secadores artificiais.

Neste caso, não há necessidade de que as plantas permaneçam enleiradas no campo durante muitos dias. A secagem artificial de amendoim requer equipamentos especialmente desenhados para este fim, e, o seu manuseio, requer conhecimentos necessários para que o produto não perca as suas qualidades alimentícias.

Além de amendoim, a Arachis hypogaea recebe outros nomes regionais como: alcagoita (sul de Portugal), aráquide, caranga, carango (Moçambique), jiguba, jinguba, mandubi, manobi, amendubi, amendo mepinda (Angola), mancarra (Cabo Verde e Guiné-Bissau). Em alemão é conhecido por Erdnuss, em espanhol por cacahuete, em francês por arachide e arachis e em inglês por peanut.

 LENDAS DO AMENDOIM

 1ª LENDA INDIGENA: CATXERÊ, A MULHER- ESTRELA

 Esta é a história de Catxerê, a mulher estrela, que desceu do céu, dormiu com o índio e ensinou os Craós a plantar e preparar o milho, batata, inhame, mandioca e amendoim. Foi assim:

- O último rapaz solteiro da tribo dormia sozinho, sobre a sua esteira, no pátio da aldeia. Uma estrela o viu lá de cima e, condoída, resolveu se casar com ele. Para isso, transformou-se em um sapo e, pula que pula; subiu em seu peito! O dorminhoco acordou assustado e, com um tapa, atirou-o no chão. Mas então, o sapo virou formosa mulher e dormiu com o jovem.

Pela manhã, a cunhantã diminuiu de tamanho. Ficou tão pequenininha que pediu ao noivo que a guardasse no porongo (cabaça), que estava pendurado no fumeiro. Durante o dia, o índio tirou o porongo de lugar, destampou-o e sorriu para a moça que lá estava encerrada.

Quando saiu para caçar, recomendou que ninguém mexesse naquilo, mas a irmã dele, cheia de curiosidade, abriu-o e descobriu lá dentro a minúscula mulher. Ao voltar, examinou o nó tradicional da sua tribo e compreendeu que alguém havia violado seu segredo. Zangado, declarou que viveria com Catxerê, como marido e mulher.
- Não vou mais dormir no pátio, como os solteiros!

A irmã arrumou as suas camas dentro de casa. à noite, ele tirou a moça da cumbuca e Catxerê cresceu, tornando-se alta e bonita. Pela manhã foram banhar-se juntos no rio, e ela viu uma árvore grande, cheia de espigas, que os periquitos beliscavam. Catxerê ensinou então, aos Craós como se planta, colhe e prepara o milho, assim como a mandioca, o inhame e o amendoim, que até então não eram conhecidos, pois os indígenas alimentavam-se de «pau puba». Mandou o rapaz fazer uma roça.

Ensinou-lhe a derrubar com o facão, a carpir, a plantar. Depois disse:
- Agora volto ao céu, onde vivem meus parentes, e trarei mudas de batata, inhame, mandioca e amendoim, para plantar na roça.
Logo depois voltou. Tudo foi plantado e os índios adotaram para sempre as plantas ali cultivadas. Uma noite, porém, quando o índio andava a caça, apareceram em sua casa cinco homens que, sabendo de sua ausência, violentaram a mulher -estrela. Depois se deitaram para dormir. Ela aproveitou o sono deles e cuspiu na boca de todos eles; matando-os! Os Craós davam grande importância mágica ao cuspe.

Quando o marido voltou, contou-lhe tudo e subiu para o céu.
- E nunca mais voltou!!!!!!!!!!!!!!!!....

2ª LENDA: A ORIGEM DO AMENDOIM, SEGUNDO OS INDIOS MACURAP

 Doinmã era um menino pequeno. Ele fazia cocô de amendoim. Não saía bosta, saía amendoim mesmo. Ele gritava para sua mãe: «Mãe, estou com vontade de fazer cocô». Aí a mãe lhe dava uma panela de barro, Doinmã sentava e enchia de amendoim. A mãe cozinhava aquele amendoim para todos. Um dia a mãe saiu e deixou o menino com seu tio. O menino gritou: -«Tio, quero fazer cocô»
 - «Vá lá fora» - disse o tio!

Mas o menino pegou a panela e fez seu amendoim ali mesmo. O tio ficou com raiva ao descobrir de onde vinha o amendoim e bateu no menino. Bateu tanto que a criança morreu. Mas depois acabou pegando de novo a criança e mandou-a ressuscitar, para aumentar o número de pessoas... .

 3ª LENDA: A ORIGEM DO AMENDOIM ENTERRADO (adaptação livre do ACAS)

 Doinmã era um menino pequeno. Ele fazia cocô de amendoim. Não saía bosta, saía amendoim mesmo. Ele gritava para sua mãe: «Mãe, estou com vontade de fazer cocô». Aí a mãe lhe dava uma panela de barro, Doinmã sentava e enchia de amendoim. A mãe cozinhava aquele amendoim para todos. Um dia a mãe saiu e deixou o menino com seu tio. O menino gritou: -«Tio, quero fazer cocô»
 - «Vá lá fora» - disse o tio!

Mas o menino pegou a panela e fez seu amendoim ali mesmo. O tio ficou com raiva ao descobrir de onde vinha o amendoim e bateu no menino. Bateu tanto que a criança morreu. O tio, com medo da mãe de Doinmã, enterrou o menino perto do rio. Todos choraram o sumiço de Doinmã; até o tio! Depois de um tempo, surgiu uma planta na beira do rio, justamente perto de onde a mãe de Doinmã se banhava.

Quando ela estava se secando ao sol, ouviu um choro igual ao de Doinmã! Ela viu que o choro vinha daquela planta de flores amarelas que estava enterrada.
-Ela arrancou a planta; nas raízes estavam os amendoins de Doinmã!!!!

 BIBLIOGRAFIA e DADOS NA INTERNET (SEM MAIORES DEFINIÇÕES DE AUTORIAS OU COM AUSÊNCIA DELAS):

 . Ignácio J. Godoy - Pesquisador Instituto Agronômico
 . Livro Terra Grávida; de Betty Mindlin e narradores indígenas macurap
 . Catxerê, a mulher estrela- Professora Marlene (sem mais definições)
. Fonte: www.unitins.br  ; www.proamendoim.com.br
. Programa da ABICAB (Associação Brasileira da Indústria de Chocolate, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados).
 . Conceição Trucom - Fonte: www.docelimao.com.br
. Matéria publicada na edição 153 da Revista Gula - Julho/2005
 . Revista Vida & Saúde.
 . Adaptação livre do autor na 3ª lenda do amendoim.




terça-feira, 28 de abril de 2015

O Saci Pererê - Conto / causo de Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.


O Saci Pererê

Conto / causo de Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.


Prólogo atual: este texto, feito em abril de 1998; faz parte de meu penúltimo livro, uma antologia de contos, crônicas e poesias, cujo título é «Fragmentos»; na verdade um livro quase inédito, posto que não tenho tempo de procurar livreiros e eles não me enxergam, quando os encontro.... .

Devido à tragédia que ocorreu com a cidade de São Luiz de Paraitinga, SP, durante o mês de janeiro de 2010 e sendo esta cidade a sede da Sociedade dos Criadores de Sacis (SOSACI), resolvei torná-lo público. Gostaria que os leitores pudessem ajudar as famílias de lá, da maneira que puderem!

Para os leitores lusófonos terem uma idéia, o desastre ambiental em São Luis de Paraitinga parece ser muito maior do que aquele que ocorreu na Ilha da Madeira, na última sexta feira, 19 de fevereiro de 2010; ainda com a diferença de que São Luis Paraitinga é uma cidade importante sob muitos aspectos, porém pobre... .
Quem quiser conhecer como a cidade era, entrar no site: www.paraitinga.com.br

Toda vez que chegava uma nova família na fazenda de café, onde eu vivia, todos se alegravam. Os adultos, por terem mais um amigo por perto, já para a molecada da fazenda, nem se fala! E, ao ver-mos que na família nova tinha um menino da nossa idade então, ficávamos curiosíssimos: será que o novo amiguinho teria um dote especial? Será que ele sabe jogar bola melhor, brigar melhor, nadar melhor? Será que ele sabe tocar viola ou cavaquinho, fazer gaiola de passarinho e arapuca; será que é bom de estilingue ou bodoque e etc.?

Cada um de nós ficava imaginando qual seria a sua experiência de vida; se ele tinha irmãos e outras coisas. Como era praxe, colono novo almoçava na casa do administrador no dia da chegada: era as «boas vindas». O Administrador, meu pai, pagava a despesa do próprio bolso, pois o fazendeiro sovina jamais o reembolsou; talvez Deus tenha feito isso por ele! Papai tinha muita pena de gente que viajava com filhos pequenos durante muitas horas, às vezes passavam o dia todo sem comer.

- Naquele sábado não foi diferente, quando vi o «panelão» que borbulhava no fogão à lenha, logo imaginei: como não vai haver festa, é colono novo chegando, e de longe.

- Percorri toda a colônia avisando meus amiguinhos que teríamos gente nova na fazenda e que meu pai afirmou que tinha um menino da minha idade. Nesse dia não saímos para pegar frutas, nem caçar, nem jogar bola: passamos o dia todo debaixo da mangueira do quintal da minha casa, brincando com vaquinhas e cavalinhos de bucha, caminhõezinhos de lata de marmelada, aos quais atávamos um «cordoné» para poder puxá-los.

Desse modo transportávamos uma boiada do curral de um até o piquete de outro, e vice-versa. Fazíamos transações comerciais, as quais eram pagas com tampinhas de refrigerantes (o guaraná Paulista valia um conto; guaraná Caçula, destões (um mil réis); Mãe-Preta ou Níger, quinhentos réis).

A tarde já se anunciava mostrando a barra do dia avermelhada e o céu azul, que só a região de Cravinhos tem, quando percebemos um certo alvoroço com o pessoal da casa: a carroça com a mudança do novo colono chegou.

Eu e meus amiguinhos corremos até o portão da frente da casa e deparamos com uma família diferente: o pai, que estava conversando com o meu, era um crioulo alto, forte, com dentes brancos e perfeitos, com as carapinhas já embranquecendo; a mãe parecia bastante jovem, com um bebê no colo, ao mesmo tempo que dava ordens ao menino e sua irmã, um tanto atarantados com minha presença e de meus amiguinhos, e remexia em sacolas, sacos e embornais à procura de não sei o quê.

Meu pai muito gentil, pediu que apeassem e se preparassem para aquele almoço fora de hora. Minha mãe foi chispando reacender o fogo e botar o panelão e a assadeira para aquecer.

- Eu e meus amiguinhos não desgrudávamos os olhos do menino, que agora sabíamos chamar-se Ditinho, que por sua vez parecia muito incomodado com a nossa presença. Toda a família do Ditinho foi até a «vasca» do fundo do quintal, se refrescaram, banharam os braços e o rosto, molharam delicadamente a cabeça e a mãe penteou-os todos, até o marido.

Nesse ínterim minha mãe chamou-os para comer e já estava com a mesa posta: no panelão, risota caipira: uma espécie de sopa de pouco caldo com arroz, batata, frango, cenoura, vagem, cozidos com açafrão recém colhido, coberto de salsinha picada e queijo curado ralado; havia também mandioca frita, feijão, uma farinheira cheia de farinha de mandioca, que eu ajudei a fazer, e uma assadeira com um pernil de tatu «rabo mole» tostadinho, duas jarras de água da bica e uma tigela de arroz-doce com folhas de laranjeiras.

Eu e meus amiguinhos não ficamos ao lado da nova família de colonos, mas ficamos apinhados do lado de fora das duas janelas da sala com a grande mesa, onde freqüentemente comíamos em, no mínimo, nove pessoas.

Enquanto o pai do Ditinho almoçava, os camaradas da fazenda descarregaram a mudança na casa recém caiada da colônia, com chão de terra - batida, dois quartos, sala e cozinha. Na fazenda, os banheiros são feitos do lado de fora, diretamente sobre uma fossa, que a cada ano era coberta de «cal viva» e aterrada, sendo então feita uma outra.

Na verdade era cercada por folhas de zinco, e de zinco era também a cobertura. Eu e meus amiguinhos assistimos a despedida da família do Ditinho, agradecendo a hospitalidade e rumando para sua nova casa. Quando passou por nós, o Ditinho disse amanhã eu quero falar com vocês!

Ficamos bastante ansiosos, e mal podíamos esperar para falarmos com o novo amigo no dia seguinte. De manhã, como de costume, apanhei a caneca de louça, coloquei dois ou três dedos de café, acrescentei quatro colheres de açúcar cristal e fui até o curral, para tomar meu café com leite «direto da fonte».

A «fonte» era uma vaca rústica, toda «chitadinha» de branco e preto, chamada Bela Vista, que era a nossa preferida. O tirador de leite, que começava a ordenha por volta das quatro da manhã, precisava tirar o leite todo antes das sete horas, quando então enviava para minha casa duas latas de vinte litros: uma para os colonos e outra para fazer os queijos dos patrões; pelo menos dois por dia.

Portanto, o tirador de leite sempre deixava a Bela Vista para o final, pois a qualquer momento eu e meus irmãos podíamos querer leite fresco. Ele esperava até sete horas, aí então terminava seu serviço.

Pois bem, após meu desjejum, passei em casa e comi um belo pedaço de pão caseiro com queijo e me dirigi à colônia: pretendia reunir os meus amiguinhos e, juntos, irmos a casa do Ditinho. Mas, ao chegar à colônia, já os vi todos, inclusive o Ditinho, num bate-papo animado, que só parou quando me aproximei e disse: - o que você quer falar com a gente? Antes mesmo de o Ditinho abrir a boca, o Ném, meu amigo disse: ele vê e ouve saci - pererê!!.

Ele vê o que?, disse eu sem entender direito: saci - pererê, disseram todos em coro.

Nesse ponto, o Ditinho começou a contar a sua história: disse que sua mãe verdadeira já havia morrido, e aquela que morava com seu pai, era sua madrasta, e que sua irmã, por parte de mãe sofre de vermes e desmaia quando passa vontade de comer alguma coisa, mas que o bebê é lindo; a madrasta não liga pra ele e seu pai é generoso e trabalhador e que desde que era menino, ele via saci - pererê, só que não sabia o que era: a primeira vez que viu tinha quatro anos, fazia muito tempo, pois agora já tem sete e que qualquer criança pode ver o saci - pererê e que ele não faz mal a ninguém, só faz estripulias, que quando tinha cinco anos ele não quis brincar com o Saci e que o Saci derrubou todas as panelas da madrasta no chão da cozinha, durante a madrugada e que seu pai deu dois tiros de espingarda nele e que agora tem medo do saci se vingar do seu pai.

Eu e meus amiguinhos, inclusive o novo, ficamos ali até que ouvi o sino da sede da fazenda: era o sinal da minha mãe, avisando os filhos e meu pai que o almoço já estava pronto. Durante o almoço com minha família comentei com meu pai do menino novo que via e ouvia saci - pererê e enquanto meus irmãos faziam caçoada de mim, meu pai falou: Pois, agora, toda vez que vocês saírem juntos, você tem que levar uma caixa de fósforos no bolso.

Meus irmãos todos se calaram e meu pai não disse mais uma palavra, continuou calmamente a almoçar, com o olhar cúmplice de minha mãe: No mesmo instante eu percebi que meu pai também acreditava, ou já tinha visto um saci - pererê.

Durante os próximos dias e durante todo o ano, até a colheita do café, após a qual todos os contratos dos colonos venciam e discutia-se, quem vai ficar na fazenda e quem vai sair, discutíamos os casos dos sacis - pererês.

Certo dia o tirador do leite não encontrava os baldes para a ordenha, num outro dia os rabos dos cavalos apareciam amarrados uns aos outros, noutra ocasião esvaziaram o lavador de café, inundando todo o terreiro de secagem e atrasando o beneficiamento por mais de uma semana, enfim de vez em quando alguma traquinagem acontecia na fazenda: e eu sempre com a caixa de fósforos no bolso.

No final da colheita do café daquele ano, a família do Ditinho resolveu ir embora para São Paulo e eu e meus amiguinhos ficamos muito tristes, pois embora o Ditinho não pudesse jogar bola e tivesse dificuldade de nadar ou caçar de estilingue suas estórias eram muito excitantes.

No dia da sua partida, marcamos com ele para nos despedirmos junto à porteira da fazenda, uns dois quilômetros longe de casa, em meio a uma mata fechada. Quando a carroça com a mudança chegou, não vimos o Ditinho. Perguntamos por ele, e seu pai disse: ele vem vindo a pé pelo meio do mato - e foi embora. Estranhamos muito, mas ficamos ali esperando.

Após algum tempo, ouvimos um assovio longo e forte e nos voltamos para uma «picada» no mato e vimos o Ditinho com um boné vermelho na cabeça, cachimbo na boca, pulando sobre sua perna aleijada, completamente pelado e gritando:- me dá o fogo senão morre ou fica bobo!

Todo amedrontado, retirei a caixa de fósforos do bolso e entreguei ao Ditinho, que saiu rindo alto e assoviando, pulando atrás da carroça de mudança.

O Ditinho era o próprio saci-pererê!




quinta-feira, 16 de abril de 2015

BRINCANDO COM PAPAI - Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos (ACAS)


BRINCANDO COM PAPAI

Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos (ACAS)



Se um dia papai voltasse, eu tentaria viver com ele tudo aquilo que sempre quis e nunca aconteceu. Ah, se eu pudesse voltar o tempo! Papai iria brincar comigo. Não chegaria cansado, nem estressado, nem nervoso, nem dopado, nem triste. A luta, para seus filhos terem alguma coisa no futuro, não o deixou viver o presente.

Hoje ele é passado. Papai morreu quando eu tinha dezoito anos de idade; ele tinha à época, pouco mais de cinquenta. Ele nunca participou de minha adolescência; menos ainda, por Deus o ter levado tão cedo, da minha chegada à idade adulta.

Ah, se papai me abraçasse, ao menos uma única vez; eu diria a ele que o amava. Quem sabe assim ele e eu perdêssemos nossa timidez?

Se papai me abraçasse, eu lhe daria um presente: uma máquina do tempo!
 Ai então, eu ligaria meu «transformador de gente» e o faria ser menino de novo. Eu próprio entraria na máquina e nós dois, meninos; finalmente brincaríamos como só as crianças sabem brincar.

Cansados, eu o olharia embevecido, enquanto nova transformação ocorreria; eu e ele, aos poucos íamos ficando velhos. Fecharíamos nossos olhos e nos elevaríamos acima das casas, das ruas, das luzes, das cidades, do país e do mundo. Quem sabe finalmente eu veria a Europa, que tanta vontade tenho de conhecer e não pude; nem poderei.

Se um dia papai voltasse e eu pudesse conviver com ele tudo aquilo que quis e que nunca aconteceu, eu o acompanharia até a presença do Pai Eterno.

Reclamaria Dele, a falta de tempo que papai teve e do fato dele não me ver crescer. Ah, se eu pudesse voltar o tempo!

Se eu pudesse voltar o tempo, papai iria brincar comigo até o fim dos tempos. Eu, morto que estou, finalmente brincaria com papai.

Se um dia, você leitor, ouvir cantigas de roda, catiras batidas na mão e nos pés, ouvir sabiás cantando numa praça mal cuidada da cidade grande, ou ver um caipira lavrando a terra, saudado pela natureza, saiba leitor, será eu e meu pai, nos divertindo na eternidade; visto que na vida pouco nos divertimos.

Vocês ainda nos virão nos sorrisos ocultos dos personagens das estátuas que contam a história da terra bandeirante, em cada praça onde quer elas estejam.

Vocês nos ouvirão nos gorjeios dos canários da terra, dos coleirinhas, dos curiós, dos pintassilgos, no farfalhar das folhas dos jequitibás, nas flores dos ipês que os tornam sagrados, nas algazarras das crianças, nos curumins e cunhãs do Mato Grosso, que apreciaram um texto desse velho escrevinhador que, se não deixou filhos, foi abençoado por Deus com o dom de ver e ouvir estrelas, apreciar a natureza e entendê-la e a amar sua querida Dirce, despudoradamente.

Foi uma pena, meu pai, que não houvéssemos brincado mais com a vida, de não ter ouvido mais música caipira, de ter sorrido mais, como os curupiras e sacis que me acordaram hoje, só para que eu pudesse escrever este texto.

Pai, até breve! Não se perca de mim; não me desapareça.

ACAS



quinta-feira, 2 de abril de 2015

Ode ao Quinhentão - Poema de Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS


Ode ao Quinhentão

Poema de Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS

(Esta poesia foi feita em sala de aula, durante Curso Livre de Poesias e Literatura Brasileira, no distante ano de 2000)

I

A bruxa vestida de negro
 Com muitas verrugas e muitos pêlos
No nariz, pilota vassoura
 Já gasta puída, careca
 Que o diabo à guinchar agoura.

II

O que é o Brasil, que ninguém vê?
 -Zunzuns, assovios, vastos gritos
 Permeiam a mata, onde o ipê
 Se destaca, belo altaneiro:
 Onde mora o saci pererê.

III

Montado num porco, o caipóra
 Vigia gnomos brasucas e Yara
 Mãe d’água, que sonha com botos
 Que atraem moças virgens pro rio...
 E o curupira que vigia as matas
 Por cinco e longos séculos à fio
 Pra que não se façam queimadas
 Nem deixar que poluam as cascatas
 Onde se banha Yemanjá.
 O esforço parece que é vão...

IV

Matas tantas, quantas, imensas
 Manacás, mandaquis, jabotis
 Mangabas, goiabas, sapotis
 Que o fogo aos poucos consome...
 Fechemos nossos olhos à dor
 Joguemos sal por sobre os ombros
 -Que vá de retro, lobisomem.

V

São os entes imaginários
 Que povoam nossas cabeças
 Antropofagia de mários
 Provocando muitos enleios
 Bois-mamão, bumbá e as mulas
 Sem cabeça, são os cavalos
Marinhos, reizados, catiras
 E o negrinho do pastoreio
 Cabeça urbana, pés caipiras.

VI

Justifica-se o meu Brasil
 Tão caboclo, caipira, gentil
 Tão audaz, sereno, dolente
 Esse mulato insoneiro
 Ainda moço, só quinhentão
 Que crê: para ser brasileiro
 E preciso amansar barbatão
 E com meia braça de corda
 Chegar um touro ao mourão
 E preciso calçar esporas
 E cair muitos, muitos tombos
 E sentir o ardor das chibatas
 E fugir para poucos quilombos
 E ter na cabeça um mote
 Paciência, a mais não poder
 E muito peso no cangote
 Fazer verso de pé quebrado
 E sofrer, viver o agora
 Ser índio, ou mulato indolente
 Contar «causos», onde se gabe
 Que o Brasil é terra da gente!

Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS





domingo, 15 de março de 2015

Adeus Inezita Barroso - Por Antônio Carlos Afonso dos Santos - Acas


Adeus Inezita Barroso

Por Antônio Carlos Afonso dos Santos - Acas

Vinte e sete dias depois de internada no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, morreu ontem, 08/3/2015, aos 90 anos de idade, a cantora, apresentadora de rádio e TV, pesquisadora e atriz, Inezita Barroso. A causa mortis foi “insuficiência respiratória aguda”. Inezita deixou uma filha, Marta Barroso, 3 netos e 5 bisnetos.

Nascida Inez Madalena Aranha de Lima, Inezita desde os quatorze anos de idade pensava em ser mais que uma aluna de canto, violão e declamação, que era ministrado pela professora Mary Buarque.

Ela dava muita importância ao folclore e música regional, contrariando tudo que sua família, herdeira de várias fazendas de café, pretendia. Perseguiu sua vocação, com enorme energia, durante toda sua vida.

Ainda menina, Inezita participava de recitais infantis de emissoras de rádio, tais como a Rádio Cruzeiro do Sul e Rádio Cultura de São Paulo.
Inezita, que nasceu em  04 de março de 1925 (faleceu em 08 de março de 2015), era formada Biblioteconomia pela USP onde lecionou por longo tempo. Foi casada com Adolfo Barroso, de quem adotou o sobrenome no seu nome artístico.



Em 1952 trabalhou na Rádio Clube do Recife, ainda amadora.  Em 1953 foi contratada pela rádio Nacional de São Paulo, deixando se ser amadora. No ano seguinte, mudou-se para a Rádio Record de São Paulo, onde atuou também na TV Record, onde teve um programa exclusivo dedicado à música regional e ao folclore.

Nessa época, gravou seus primeiros discos de 78 rotações, incluindo ali dois clássicos: ”Moda da Pinga”, de autoria de Zica Bergami e “Ronda”, de Paulo Vanzolini (só depois Ronda foi gravada pela Nora Ney e muito tempo depois, pela Maria Bethânia).

Outro grande sucesso de Inezita em disco, foi a música “Lampião de Gás”. Inezita gravou 65 LPs com modinhas, toadas, modas de viola, rasqueados, cateretês e sambas de roda, todos pinçados nas origens, sempre respeitando a legitimidade do autêntico.

Inezita atuou na TV Cultura de São Paulo, no programa “Viola, minha Viola”, desde 1980 (quando substituiu Moraes Sarmento ), até 2015. Foram 35 anos ininterruptos de música de raiz e folclore brasileiro mostrado à população.

Inezita nasceu numa casa da Rua Conselheiro Brotero, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo; segundo ela em entrevista ao jornal “O Estado de São Paulo”, em janeiro de 2012, exatamente quando passava uma escola de samba (Camisa Verde) à porta da casa; escola de samba que hoje se chama “Camisa Verde e Branco”. – Nasci ouvindo marchinha paulista; disse ela na ocasião.


CINEMA

Sua boa estampa (morena bonita, cabelos negros) participou de seis filmes nos anos 50: “Ângela”, “Destino em Apuros”, “O Craque”, “Carnaval em Lá Maior”, “É Proibido Beijar”, além do filme “Mulher de Verdade”; onde ganhou o Prêmio “SACI”, de melhor atriz.

História do Violão Quebrado

Depois de percorrer todo o brasil fazendo pesquisa de folclore, Inezita ficou desiludida, porque nenhuma emissora de rádio ou TV queriam exibir sua pesquisa.

Depois de levar o oitavo não, ela quebrou o violão, fez uma fogueira e jogou nas chamas todo o material recolhido pelo Brasil.Pensando bem, aquela fogueira não queimou nada. Tudo o que Inezita Barroso viu pelo País afora ficou bem guardado, fortalecendo a maior defensora das tradições culturais que o Brasil já teve.

POSTERIDADE

Eu, ACAS, nunca esquecerei o contato que fiz com a Inezita em 2002: fui informado que ela fazia um show beneficente no Hospital das Clínicas, todos os anos. Por sorte, fui informado desse show em tal dia de 2002 e fui lá: foi maravilhoso.

Até aproveitei para presentear Inezita com meu primeiro livro, o “Pequeno Dicionário de Caipirês”, pois eu também participei (convidado) do lanche oferecido à Inezita neste local.

Mas, Inezita será lembrada sempre por uma música: “Moda da Pinga”, que ai vai os primeiros versos:

Co´a marvada pinga é que me atrapaio,
Eu entro na venda e já dô meu taio,
Eu pego no copo e dali num saio,
Ali mêmo eu bebo, ali mêmo eu caio,
Só pra í pra casa é que dô trabaio, oi lá! ... .




- Há quem afirme que, embora os versos de Zica Bergami sejam preservados, continuam sendo acrescentados novos versos à essa música até os dias atuais; tal é a força e o apelo da mesma.

De hoje em diante, uma nova estrela aparecerá nos céus do Brasil: Inezzita estará lá, brilhando como sempre.

fim




 

quarta-feira, 4 de março de 2015

Coluna de Antônio Carlos Affonso dos Santos. - ACAS, o Caipira Urbano. - Ipês


Coluna de Antônio Carlos Affonso dos Santos.
           ACAS, o Caipira Urbano.

Ipês


Ipê Amarelo


Conheci os ipês na minha infância, numa fazenda de café no interior de São Paulo, Brasil. Extasiava-me aquelas árvores soberbas, vestidas de roxo, rosa, amarelo e branco. Conforme aprendi com os mais velhos, aquela era uma árvores sagrada, posto que o Criador havia feito um trato com ela (árvore) para que elas se vestissem de festa para mostrar que, a cada ano, a vida se renova no final do inverno e chegada da primavera. Os ipês roxo e o branco florescem entre julho e agosto; o amarelo e o rosa, no início de agosto e estendem-se até meados de setembro, quando anunciam aos trabalhadores do campo que já é hora de preparar a terra para mais um cultivo de arroz e de milho.

Mês de agosto. Inverno no seu último estágio. Os pastos ressequidos pela ação das geadas abrigava um gado magro e sonolento. Com pouco para comer nas invernadas e piquetes, os animais aguardavam com paciência bovina e eqüina, o pouco de ração de cana picada e milho «silado em trincheira», que o fazendeiro sovina nunca queria fazer na quantidade suficiente. A poeira levantava com os redemoinhos de sacis dos ventos mogianos, nas estradas secas onde os roceiros de pés descalços, rachados pela ação frio e da terra alcalina, caminhavam nos campos onde os ipês solitários, coloriam aquele resto de inverno, com sua melhor e mais bonita roupa floral estampada. O inverno, normalmente uma estação triste e cinzenta, vestia-se de alegria, com os ipês floridos...

 

Ipê Rosa


Quando somos crianças, «o tempo corre devagar». Naquela época, o tempo era diferente: moroso como as vacas que voltam no fim da tarde, com os úberes murchos, mas com esperança de rever seu filhote e quiçá comer uma iguaria, que tanto pode ser sal ou cana picada, ou silagem. Tudo andava ao ritmo da natureza, nos seus estágios e estações naturais.

E os bosques da Fazenda São José ficavam todos enfeitados por dezenas de ipês floridos. Havia o ipê roxo, o ipê rosa, o ipê branco, o ipê amarelo. Muitos anos depois, já na vida citadina, soube da existência do ipê verde, tão raro quanto bons leitores ou beija-flores vermelhos. Há um consenso no interior do Brasil que o ipê tem sentimentos iguais aos dos humanos: se ficamos concentrando nossa energia, focados na realização de um sonho, de repente tudo muda. E muda para melhor. Este «Ponto de Desequilíbrio», faz com quê até pessoas das quais nada se espera, num momento de superação, façam algo que nos surpreende, que vai além das previsões mais otimistas. 


 Ipê amarelo – Arvore Símbolo do Brasil


O ipê (amarelo) é a árvore símbolo do Brasil. O nome ipê vem da língua tupi, e pronuncia-se «ype», e significa «árvore com casca grossa». A designação científica do ipê é: gênero Tabebuia, da família das Bignoniáceas. A madeira do ipê é muito comercializada, especialmente para revestir pisos, devido à sua alta resistência. A casca do ipê roxo é considerada uma panacéia para muitos males, inclusive para prevenção contra o câncer. Como curiosidade, destaco outros nomes com que os ipês são conhecidos no Brasil: páu-d’arco, peúva, peroba-de-campos, ipê-amarelo, ipê, aipê, ipê-branco, ipê-mamono, ipê-mandioca, ipê-ouro, ipê-pardo, ipê-vacariano, entre outros.

Há uma lenda que conta a origem do ipê. Ela diz o seguinte:


«Naqueles tempos, o inverno estava nos seus últimos dias e todas as árvores da floresta estavam começando a florescer. Somente os ipês continuavam sem flores. Os ipês, cada vez mais se entristeciam com aquela situação. Eles eram os únicos que não tinham nem flores nem frutos.

Então, os amarelos canários da terra, percebendo a tristeza dos ipês, resolveram fazer seus ninhos somente nos galhos de um dos ipês. E ninhais também foram feitos pelas araras vermelhas e azuis e os sanhaços em outro; as garças brancas em outro, as siaciras em outro, e num outro ipê menos imponente, foram os periquitos, jandaias, maritacas e papagaios.

Os ipês ficaram muito felizes e resolveram pedir à Providência Divina que lhes dessem flores, como forma de agradecimento aos canários da terra e a todos os outros pássaros da floresta, pela alegria que tinham levado a eles.

No dia seguinte, dizem; sob o mais belo céu azul que aqueles sertões já conheceram, os ipês floresceram em várias cores. Cada um dos ipês se vestiu nas cores e matizes dos pássaros que os havia adotado. Quando tudo isso aconteceu, dizem, era agosto. E assim, desde então, os ipês têm florescidos em agosto.

Agora, a cada agosto, um vento frio sopra desde os sertões do Brasil: é a Providência Divina anunciando que ainda mais uma vez os ipês florescerão, cumprindo a aliança entre Deus e a Natureza. As cores dos ipês são, portanto, expressão de um milagre do amor de Deus pela natureza e pelos seres que vivem na Terra».
Ipê Branco


Mas eis que, de repente, esta árvore de outros espaços irrompe no meio do asfalto. Interrompe o tempo urbano de correrias, semáforos, buzinas e ultrapassagens. E eu tenho de parar ante esta aparição do outro mundo! Assim como aconteceu com Moisés, que pastoreava os rebanhos do sogro, quando viu um arbusto pegando fogo, sem se consumir. Ao se aproximar para ver melhor, ouviu uma voz que dizia: «Tira as sandálias dos teus pés, pois a terra em que pisas é santa». Acho que não foi sarça ardente. Deve ter sido um ipê florido. De fato, algo arde, sem queimar, não na árvore, mas na alma. E concluo que o Escritor Sagrado estava certo. Também eu acho sacrilégio chegar perto e pisar as milhares de flores caídas, tão lindas, agonizantes, tendo já cumprido sua vocação de amor.

Mas sei que no espaço urbano as coisas fluem de maneira diferente. O milagre da floração dos ipês é visto por muitos moradores dos centros urbanos como canseira para a vassoura. 

Ipê Rosa e Chão Sagrado

-Melhor o cimento limpo que a copa colorida, dizia uma minha conhecida.

Não raro sei de casos de pessoas que, por se cansarem de varrer as flores do ipê caídas no piso do quintal ou na frente das casas; atacam os ipês. Outras árvores são também castigadas pela ignorância dos humanos. Lembro-me de uma araucária numa rua ao lado do escritório no qual eu trabalhava; indefeso, com sua casca cortada a toda volta, e furos de broca. Meses depois, estava morto, seco. Restaram somente dois ninhos de bem-te-vis; um com filhotes e outro com ovos.

Numa manhã qualquer, passei sob o grande pinheiro seco e os dois ninhos estavam no chão, talvez arrancados por uma ventania, talvez derrubados pela mesma mão assassina que matou o pinheiro. Num dos ninhos estavam os fetos de dois filhotes, no outro as cascas de dois ovos quebrados. 



 Ipê Roxo


Mas no final, o que importa é o ritual de amor que o Criador faz manifestar-se no inverno. Ele espalhará sementes pela terra e a vida triunfará sobre a morte, o verde arrebentará o asfalto, e as flores nas cores em tons roxo, rosa, amarela e branca, enfeitarão nossas cidades, ano após ano. Alguns poucos ainda verão os ipês de flores verdes, que tanto procuro e nunca vi.

Espero, ansioso e esperançoso, que um dia o ser humano respeite a natureza. A despeito de toda a nossa loucura, os ipês continuam fiéis à sua vocação de beleza, e nos esperarão tranqüilos, todos os meses de agosto de nossa curta vida, por toda a eternidade. Todo ano temos um encontro marcado: no mês de agosto, devemos nos preparar para ver e sentir a floração dos ipês, pois ainda haverá de vir um tempo em que os homens e a natureza conviverão em harmonia e os ipês serão os ícones desse «Novo tempo».



 Ipê Amarelo em Rua da Cidade de São Paulo - Brasil

 
PS: em setembro de 2008, recebi de uma escritora de um site no qual participo; imagens com as fotos de flores do ipê verde, as quais por pura imperícia as perdi. Também fui homenageado pelos curumins e cunhãs da Escola Primária de uma aldeia indígena da região de Dourados, MT.

Nota: O Raizonline conseguiu encontrar o Ipê verde que o autor refere acima. Ei-lo



Os pequenos brasileiros fizeram desenhos dos ipês floridos e repassaram aos seus pais, na aldeia, a lenda do ipê. Só isso me bastaria para que ficasse orgulhoso, mas a cada mês recebo algum tipo de manifestação sobre este texto. Agradeço a Deus por tê-lo feito, mostrado e contado.