Mostrar mensagens com a etiqueta Abílio Pacheco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Abílio Pacheco. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 23 de junho de 2015

A porta de vidro - Crónica de Abilio Pacheco


A porta de vidro

Crónica de
Abilio Pacheco
 
Semana passada, fui ao chaveiro tirar cópias de umas chaves. O molho tinha três chaves. Segurei duas delas e disse que gostaria de uma cópia de cada. Era uma senhora. Ela recolheu das minhas mãos, sumiu e depois voltou segurando a que não era para copiar e disse: duas cópias, certo? Não, senhora – respondi – uma de cada das outras duas. Ela revirou o chaveiro e fez cara de quem entendeu mas não gostou.

Colocou uma das chaves num suporte. Depois tirou e disse: É de uma porta de vidro. Como não disse nada, ela insistiu: Não é de uma porta de vidro!? Eu lhe disse que não. Ela puxou um huuummmm prolongado. Meditou e quis saber de onde era a chave. Disse-lhe que era da porta do apartamento. De vidro? Não, senhora. De madeira. Aprumou matriz e chave lisa no esmeril, resmungou: porta de vidro. Enquanto tirava a cópia da outra chave, dizia: De vidro. É de uma porta de vidro.

Aparou arestas das duas chaves e voltou-se para mim segurando a chave como brandindo: Esta chave é de uma porta de vidro! Convenci-me que não adiantaria discutir. Em qualquer outra situação, eu iria insistir que estava certo, mas havia rodado mais de 170 km (Capanema-Belém), eram quase 16h e tinha alguma fome. Além do mais, não me parecia haver motivo para insistir. Resolvi não teimar. Conforme ela me estendia a chave, eu confirmava que era. Era de uma porta de vidro. Eu pegaria as chaves, pagaria pela cópia e iria para casa.

Ela puxou de uma vez: Afinal, o senhor não disse que a porta era de madeira!? A mulher me desmontou de vez. Não quisera teimar, mas tergiversar parece que não fora a melhor opção. Estiquei um ééééé… Ela inclinou o rosto para um lado como quem dissesse ‘tô te vendo!’. Respirei calmo e disse, procurando um caminho no meio daquela armadilha. Senhora, a chave (hum!!) é de uma porta de vidro (ãh), mas a minha porta é de madeira (ah!).

Ela parecia ter se desarmado e ia me entregando a chave quando recuou novamente e perguntou onde eu morava. Cruzando minha resposta ela emendou a pergunta se eu estava indo para lá. Naturalmente, sim. Essa sua história está estranha, viu moço! Eu vou lá com o senhor. E foi. No caminho, resmungou outros problemas de clientes como eu. Aquilo não era somente uma cópia de chave errada. Seria caso de polícia. A chave era de uma porta de vidro. Conhecia bem aquelas chaves, seus formatos…

Chegamos à porta e lhe mostrei a madeira. Pegou a chave, ela mesma. Enfiou na fechadura e girou. Olhou-me aborrecida. Cobrou-me pelas cópias e pela visita. Paguei sem reclamar. Ela pegou o dinheiro, fez um rolinho e levantou alto como fosse uma vareta e vibrou o braço bradando. A chave é de uma porta de vidro. E ainda de costas reclamou: de vidro!

Belém/Capanema, 07 de fevereiro de 2013.

Abilio Pacheco

Professor universitário, escritor de prosa e verso, revisor de textos e organizador de antologias. Mestre em Letras (UFPA) e doutorando em Literatura (THL-UNICAMP). Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará, Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça) e faz parte da AVSPE.




segunda-feira, 16 de março de 2015

Bento - Conto de Abílio Pacheco


Bento - Conto de Abílio Pacheco
 

No bar, à noitinha, homens jogam sinuca, bebem, falam das mulheres que passam na rua... Bento sai do trabalho; cansado, camisa batendo de suor, para em frente ao bar, entra, senta, pede uma cerveja... bebê o primeiro copo de um só gole e pensa na vida:

A casa de tábua que há muito já quisera ele mesmo construir de alvenaria; até comprara um milheiro de tijolos, erguera uma parede, começara uma outra e o dinheiro não dera para mais nada.

A mulher dava aulas na única escola do bairro, uma creche pequena de apenas três salas, todas de madeira. A filha mais velha, 09 anos, cuidava da casa, limpava, fazia a comida lavava as ouças, cuidava do caçula, de dois anos, pela manhã, à tarde ia estudar e o deixava com a outra irmã de seis anos na casa de uma parenta da mãe que chamavam Tia mesmo sem saber se era realmente tia ou não.

Bento pede outra cerveja, nisso chega um amigo que senta e pede um copo.

O amigo, também pedreiro, fala futilidades; Bento olha a rua e deixa o olhar se perder, o pensamento vaga ao som da voz do amigo e de um breguinha que toca no bar...

Lembra de quando era menino, o pai chegava tarde da noite em casa, sempre bêbado; a mãe, impaciente, esperava na porta olhando a rua de uma extremidade a outra, ele acordava ouvindo os passos macios rondando a casa, levantava e dizia ir ao banheiro, quando se deitava custava a dormir, e às vezes só dormia depois que o pai chegava, brigava, xingava e até batia na mãe; outras vezes conseguia dormir e acordava ouvindo o pai brigando; triste, no quarto, Bento chorava, pensava besteira fazia planos, enchia-se de esperança no futuro; dormia...

O amigo pede outra cerveja e continua conversando... «Aquela ali, olha!» aponta uma vizinha que passa «Vive de chamego com um moleque que passa o dia vadiando pela rua com outros da mesma laia, tem gente com gosto pra tudo...» balança a cabeça negativamente e vira o copo na boca.

Bento que já não divaga mais, se ajeita na cadeira, espicha o pescoço olhando a vizinha que sobe a rua; finalmente dá atenção ao amigo.

Ficam conversando futilidades, esquecem os problemas que carregam.

Enquanto bebem, o tempo corre na rua com os carros que passam... vai ficando mais tarde... mais tarde... e o tempo passa a andar lento com as poucas pessoas que vagam na rua quase deserta.

As garrafas de cerveja se reúnem embaixo da mesa; Bento levanta trôpego, vai ao banheiro, escuuuuuro... e miiiiiijaa...

Voltando, olha as garrafas vazias sob a mesa, senta e vê que o amigo parece meio esquisito, a noite estranha, a rua torta, o corpo tonto... os olhos teimam em não mais ficarem abertos...

Bento apaga... A noite continua a mesma com o tempo suave deslizando no asfalto rua abaixo...

-- Acorda , Bento! Já é hora de ir trabalhar. – a mulher o chama da porta do quarto, a cabeça dói de ressaca, o corpo pesado, os olhos irritados com a luz; fica rolando na cama, depois levanta e vai banheiro ouvindo a mulher contar que o amigo e mais dois trouxeram-no para casa, deram-lhe um banho e um café amargo que ela passara às pressas.

Sentando à mesa, Bento lembra do pai que chegava porre em casa e brigava e xingava e batia na mãe...

Sai para o trabalho com a mesma lembrança da infância e vai recordando os pensamentos, a esperança que tinha, os planos que fizera para o presente...

Em casa, a filha de 06 anos pergunta:
-- Mãe, por que o papai bebe? – a mãe, no jirau, deixa o olhar perder-se triste no azul do céu enquanto os olhos umedecem.

A filha, fica sem resposta... 



quinta-feira, 5 de março de 2015

Mulher: Verônica - Por Abílio Pacheco


Mulher: Verônica

Por Abílio Pacheco



Para homenagear as mulheres por ocasião do dia oito de março que se aproxima, resolvi retirar das gavetas esta prosa poética que faz parte de um projetinho de livro nascido após a leitura de As cidade invisíveis, de Ítalo Calvino. A ideia: cada texto teria um nome de mulher com letra inicial diferente. Eis a letra “v”.


Verônica

Conheci Verônica numa noite de sábado já passada a meia-noite, portanto domingo eu deveria dizer. Não digo. A magia do sabath para mim só encerra pela manhã, aos raios do sol. E a magia dos encontros com essa mulher nada tem a ver com o dominus diem. Seus cabelos pagãos, seus olhos em brilho de Blimunda, seu rosto serenado em sisudez, seu corpo em talho de telha e em textura de camurça, seus seios suculentos e em formato de minhas mãos enconcheadas, sua língua com gosto de prazer procrastinado… toda ela tinha promessa de me deixar proscrito. Definitivamente Verônica era mulher de outras vias diversas da via sacra. O amor nela, por ela, com ela não combinavam com o domingo.

Não pense que de Verônica tive o retrato dado, compreendido, logo de primeira. Sabia que ela estava no 11º piso da torre, cujos andares tinham pé direito sobrelevado em metade. Só não sabia da rusticidade do prédio. Não bastava o esforço de argumento para convencê-la de me ceder endereço de sua morada. Nem o quanto ainda iria papear para poder conhecê-la mulher. Era preciso demonstrar fôlego. Pé ante pé. Degrau a degrau. Patamar por patamar. A torre tinha os elevadores defeituosos e, naquele dia, quebrados. Suspeito dela me ter chamado justo neste dia propositadamente. Era preciso vencer algumas provas. O controle da ansiedade era já por si a primeira e aqueles 363 degraus eram a segunda. No alto, é certo, estaria a terceira.

Como disse, não espere que dela tenha conhecido mulher já nesta subida. O esforço de subir degraus e três lances de escada por andar resultaram-me em gostosas dores em abdomên e panturrilhas. A porta, dissera-me, estaria apenas encostada. Foi o que lembrei já passando o sexto andar, quando os movimentos do corpo tornam-se de repetição irreflexiva. Subi o último lance de onze degraus no esforço de controlar respiração e caminhei até a porta de olhos fixos num post-it. Entre e esteja à vontade. Era um conjugado, ao primeiro passo era já possível dar conta do apartamento todo. Estava vazio.

* * *

Eu chegaria a ela naquela primeira noite apenas por acordes e melodias. Ainda semi-esbaforido sentei à borda da cama. Apoiei cotovelos em joelhos e depois derreei-me para trás sobre os lençóis aplainados. De olhos fechados, veio-me Verônica por uma voz em melodia a sair de mim mesmo quase como num canto em capela:


Verônica, me sinto tão só…
 Quero sua boca beijar… (*)

(*) são versos da canção intitulada “Verônica”, de Maurício Reis