segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Poesia de Pedro Du Bois - SILÊNCIO - LADOS

 
Poesia de Pedro Du Bois

 
SILÊNCIO



A reafirmação do ocaso

sucessivo ao decorrido. Tempos

eleitos em esquecimentos. Torpor

                                       e formato.



A recondução do corpo ao silêncio

originário. O primeiro sinal de vida

escrito no todo universal.



            A solidão se completa

            em esquecimento

                  e silêncio.
 
(Pedro Du Bois, inédito)


LADOS



Na peça dos fundos
deposito o que não quero

que me acompanhe



no fundo do quarto
depósito as jóias



aos interesses maiores

deposito flores plastificadas

nas memórias arquivadas

dos inoxidáveis seres

desprovidos de passado



nos desinteresses

reverbero cânticos

e desprezo no rito

a sensação vazia

do conflito: entre

orações descubro

o texto analisado

no espúrio tempo

desconexo da vaidade



Faço o que me é pedido

perdido em estrelas

vistas em céus

anilados: anilhado

o pássaro se descobre

em céus abandonados



do que faço a pedido

relembro a ensolarada

tarde das tradições:

       antes do poente

     na desorientação

                 do corpo



Quando é hora

acordo em sonhos

e me desfaço do corpo

ao relento: na afirmação da gratidão
sou descrente emotivo



sendo hora do quando

me encontrar no bastante

faço do enjôo o sábado

aferido em descanso



Irrealizado termo
usado no subterfúgio

dos automóveis
em estreitas estradas:

o cotovelo do lado de fora

na sequência quilométrica



o termo correto na irrealização

do esteta no conforto da história:

habito a vida anterior do trajeto

e me recuso em novidades



ao morrerem malvadezas

se estendem sob o solo
no aguardo do perdão



malvadezas morrem

em perdões e se reabilitam

nas bondades contrariadas



Busco a fotografia publicada

na revista há tantos anos:

testemunho no aguardo

do desvelo com que notícias

praticam vaidades



a fotografia busca

representar em ânsia

a permanência: desbota

e envelhece personagens



Arrasto o tronco caído

sobre ao leito: não posso

estragar a rodovia no permitir
a interrupção da viagem



o tronco arrastado

permanece: leito desdobrado
na fluidez do trânsito

concatenado das saídas.





(Pedro Du Bois, inédito)


 
http://pedrodubois.blogspot.com
 
 
 


Poesia de Virgínia Teixeira - Vidas passadas - Caminho forjado - Sonhei que morrias

 
Poesia de Virgínia Teixeira
 
Vidas passadas
 
A minha alma deambula neste caminho agreste
Como tantas outras vezes deambulou noutras vidas
A minha alma procurou-te sem saber até que vieste
E a sede e a fome amansaram, por ti ávidas
 
Milhares de vidas percorri sem te encontrar
Milhares de vidas percorri apenas para te perder
Milhares de vidas roguei por ti sem me aperceber
Milhares de vidas gastas só para te procurar
 
E quando nos encontrámos, em cada vida passada
E me amaste por apenas um momento, ferozmente
A minha alma encontrou o seu porto e acreditou ter nele pousada
 
E quando nos perdemos, em cada vida passada
E nos despedimos com o olhar marejado e a alma pesada
Proferi mais uma vez a promessa de te procurar eternamente...

Caminho forjado
 
A amazona forja o seu próprio caminho,
Com uma espada de ferro incandescente
De um lado ao outro como um remoinho,
Cortando o mato bravio compassadamente
 
Desbrava o seu próprio caminho a guerreira
Com golpes desferidos com aparente bravura
De um lado ao outro, numa apaixonada cegueira
Abatendo as ervas daninhas e roseiras sem censura
 
A amazona assim desvenda o caminho da sua sina
Com golpes desferidos à falta de um caminho desimpedido
Cegamente, sem saber o que está para lá de cada colina
 
Marcando cada passo com uma grossa lágrima em pérola transformada
Sem hesitar, avança, com o seu peito de mulher aberto ao desconhecido
Não crente, não esperançosa, mas incapaz de se admitir derrotada!

 
Sonhei que morrias
 
Esta noite sonhei que morrias...
Encontrei-te deitado num caixão com aroma a eternidade
As mãos repousadas no peito que já não movias
E as pálpebras cerradas a esconder o teu olhar de tempestade...
 
As lágrimas corriam pelo meu rosto contorcido
E a minha voz transformada num grito alucinado
Som de besta selvagem, de espirito perdido...
Abracei o teu cadáver jurando manter-te acorrentado
 
Prometi-te o meu coração estraçalhado no peito
O meu corpo e a minha alma abandonadas à sua sorte
Deitei-me devagar junto a ti no teu eterno leito
 
E beijei-te como uma menina bravia que saboreia a morte
Envolvi-te com o desespero de mulher endoidecida
E ali restei, ao teu lado, eternamente adormecida...
 

 
 

A FAMÍLIA TECO-TECO - Conto Infanto-Juvenil de Avómi (Cremilde Vieira da Cruz)

A FAMÍLIA TECO-TECO

Conto Infanto-Juvenil de Avómi (Cremilde Vieira da Cruz)
Ia eu muito contente apanhando pedrinha aqui, florinha ali, olhando as árvores, sorrindo às ervinhas, quando ouvi uma vozinha muito fininha que pedia socorro. Corri para o local donde vinha a voz e deparei-me com um coelhinho que chorava.

- Que te aconteceu, coelhinho?- perguntei-lhe.
- Tive um acidente - respondeu o coelhinho - Parti uma patinha quando fugia dum caçador maroto que queria matar-me, para fazer uma boa almoçarada. O mais grave é que, depois de tanto fugir, não sei onde estou, e não consigo orientar-me para voltar para casa. Os meus pais e irmãos devem estar desesperados.

- Deixa-me ver a tua patinha!... Ah, isto está feio! De certo terás que ir ao veterinário para te tratar e é melhor fazê-lo quanto antes, porque se o não fizeres, podes ficar com a patinha aleijada.
- Terei que ir ao veterinário?! O que é isso?
- O veterinário é um Senhor que trata os animais; é o médico dos animais.
- Ah, nunca tinha ouvido falar!
- Mas o que eu mais queria, era encontrar a minha casa e a minha família. Longe dos meus familiares, sinto-me muito triste.

- Vais dizer-me onde vivem os teus pais e depois de teres a patinha tratada pelo veterinário, levar-te-ei a casa. - disse eu.
- O meu pai é o Senhor Teco-Teco e a minha mãe a Senhora Teco-Teco. A nossa casa é na quinta do Senhor Conde de... Ai que me esqueci do nome do Senhor Conde!... - disse o coelhinho.
- E como se chama a quinta? Se me disseres o nome da quinta e onde fica...
- A quinta fica num Monte e chama-se Quinta da Corticeira.

A nossa toca é muito espaçosa e gostamos muito de lá viver, porque temos sempre ervinhas frescas e aguinha muito limpa, sem precisarmos de ir para longe da toca. A água corre num riacho ali ao pé e faz um barulho tão bonito, que até parece que canta.
- Não te preocupes, que não será difícil encontrarmos os teus pais, pois pelas indicações que me dás, havemos de lá ir ter.
 

- Que bom! Estou tão desejoso de chegar a minha casa e tão preocupado com os meus pais! Eles devem estar aflitíssimos e muito tristes.
- Então vamos lá visitar o Senhor Dr. Pereira que é um veterinário meu amigo, e ele tratar-te-á cuidadosamente. A tua patinha ficará boa num instante. Vem cá para o meu colo, não quero que te esforces a andar. A tua patinha não deve estar partida, mas sim muito magoada, pois se estivesse partida não poderias andar.

Fomos ao consultório do Dr. Pereira que vive numa aldeia ali perto e ele observou logo a patinha do coelhinho Teco-Teco.
- Isto não é nada de grave. A tua patinha está apenas magoada. Vou pôr-te uma pomadinha e daqui a pouco estarás pronto para uma corrida.
 

- Obrigado, Senhor Dr. - disse o coelhinho - O Senhor é muito simpático e bom. Se soubesse o susto que apanhei, quando vi aquele caçador a apontar-me a arma!... Nunca tinha corrido tanto na minha vida. A minha sorte foi ter-me magoado quando já estava bastante longe dele, senão...
Esta amiga socorreu-me e trouxe-me aqui para o Senhor Dr. tratar a minha patinha, pois se assim não fosse estaria ainda no meio do mato, perdido e cheio de dores.
- Onde moras? - perguntou o veterinário.
- Moro na Quinta da Corticeira.

- Essa quinta é muito perto daqui! Estás a ver aquele Monte? É ali a Quinta da Corticeira.
Como estás muito cansado e a nossa amiga também deve estar, levá-los-ei no meu carro, para evitar que subam o monte a pé.
- Obrigado, Senhor Dr. Pereira! Estou tão contente por o ter conhecido!

Quando chegar a casa vou dizer aos meus pais que o Senhor é o melhor médico do mundo e, tenho a certeza que a partir de agora, a Família Teco-Teco há-de vir ao seu consultório sempre que houver qualquer problema de saúde.

Avómi

(Cremilde Vieira da Cruz)



domingo, 16 de agosto de 2015

Anedotas - Recolhidas na Net - (Facebook sobretudo)

 
Anedotas - Recolhidas na Net - (Facebook sobretudo)
 
O Maridão
.
Um grupo de homens está na sauna, quando eis que um telemóvel começa a tocar:
- Alô
- Querido
- Sim querida
- Está na sauna
- Sim estou
- Sabe o que é, estou em frente a uma loja de roupa que tem um casaco de vison magnifico, posso compra-lo?
- Quanto custa
- Só 3.000 €
- Bem está bem compra
 
- Ah que bom, outra coisa, acabei de passar no concessionário da mercedes e vi o ultimo modelo, é fantástico, falei com o vendedor que faz um ótimo preço.
- Qual é o preço
- Meu amor são só 150.000 €
- Bom ok mas por esse preço tem de ter todas as opções.
- Pode deixar eu trato brigado queridão. Olha outra coisa só
- O quê
- Hoje passei em frente á imobiliária e reparei que aquela casa que vimos o ano passado está a venda, lembras-te dela? Aquela que tem jardim, churrasqueira completamente isolada naquela praia magnífica lembras?
- Lembro sim quanto custa?
- Meu querido somente 650.000€ agora
- Bom pode comprar mas pague no máximo somente 620.000 €
- Está bom amor, obrigado és um maridão até logo beijos
- Até logo
 
Ele desliga o telemóvel e pergunta aos outros...
...
...
...
- ALGUEM SABE DE QUEM É ESTE TELEMOVEL?

 
 
Correndo à chuva

Uma mulher tinha um caso amoroso enquanto o marido estava a trabalhar. Um dia de chuva estava na cama com o amante quando, para seu horror, ouviu o carro do marido a estacionar à porta de casa.
"Meu Deus!...Rápido! Agarra as tuas roupas e salta pela janela!...O meu marido chegou mais cedo!"
"Não posso saltar lá pra fora, está a chover muito!"
"Se o meu marido te apanha aqui, mata-nos aos dois!Ele tem mau feitio e uma arma, a chuva é o menor dos teus problemas!"
Então ele agarra as roupas e salta pela janela.
Enquanto corre pela rua fora, à chuva, vê-se no meio duma maratona, organizada pela Câmara Municipal.
Estando nú, com as roupas debaixo do braço, tenta correr bem no meio da multidão.
 
Passado um bocado, um pequeno grupo começa a olhá-lo com curiosidade.
"Corres sempre nú?"
"Oh, sim!Dá-me uma grande sensação de liberdade!" -responde já ofegante.
 
Outro corredor aproxima-se dele:" Corres sempre a carregar a tua roupa debaixo do braço?"
"Oh, sim!Desta maneira posso vestir-me logo no fim da corrida e meter-me no carro para ir para casa!"
 
Então um terceiro corredor olha um bocadinho mais para baixo e pergunta:
"Corres sempre utilizando um preservativo?"
 
"Não...Não" -gagueja ele- "Só quando chove!"

 
GESTÃO POR OBJETIVOS
 
Era uma vez uma aldeia onde viviam dois homens que tinham o mesmo nome: Joaquim Gonçalves.
Um era sacerdote e o outro taxista.
Quis o destino que morressem no mesmo dia.
Quando chegaram ao céu, São Pedro esperava-os.
- O teu nome?
- Joaquim Gonçalves.
- És o sacerdote?
- Não, o taxista.
 
São Pedro consulta as suas notas e diz:
- Bom, ganhaste o paraíso. Levas esta túnica com fios de ouro e este ceptro de platina com incrustações de rubis.
- Podes entrar.
- O teu nome?
- Joaquim Gonçalves.
- És o sacerdote?
- Sim, sou eu mesmo.
- Muito bem, meu filho, ganhaste o paraíso.
- Levas esta bata de linho e este ceptro de ferro.
 
O sacerdote diz:
- Desculpe, mas deve haver engano.
- Eu sou o Joaquim Gonçalves, o sacerdote!
- Sim, meu filho, ganhaste o paraíso.
- Levas esta bata de linho e...
 
- Não pode ser! Eu conheço o outro senhor.
- Era taxista, vivia na minha aldeia e era um desastre! Subia os passeios, batia com o carro todos os dias, conduzia pessimamente e assustava as pessoas.
Nunca mudou, apesar das multas e repreensões policiais.
E quanto a mim, passei 75 anos pregando todos os domingos na paróquia.
Como é que ele recebe a túnica com fios de ouro e eu... Isto?
 
- Não é nenhum engano - diz São Pedro.
- Aqui no céu, estamos a fazer uma gestão mais profissional, como a que vocês fazem lá na Terra.
- Não entendo!
 
- Eu explico. Agora orientamo-nos por objectivos. É assim: durante os últimos anos, cada vez que tu pregavas, as pessoas dormiam.
- E cada vez que ele conduzia o táxi, as pessoas começavam a rezar.
 
- Resultados! Percebeste? Gestão por Objectivos! O que interessa são os resultados, a forma de lá chegar é completamente secundária...

 
Um padre estava a distribuir bíblias
 
Um padre estava a distribuir bíblias para as pessoas venderem e ajudarem as obras da igreja. De repente, chega um gago a oferecer os seus serviços.
-Pa...pa..dre, eu ga..go...gosta...taria de aju...ju...dar a ve...ve..nder bi...bi...bíblias:
Comovido com a tentativa de colaborar, o padre deu umas poucas bíblias ao gago.
No final da tarde, durante o acerto de contas, o padre ia perguntando aos colaboradores.
-Você quantas vendeu?
-Vendi duas.
-E você?
-Vendi uma.
 
-E você, quantas vendeu? - Perguntou ao gago.
-Eu va..ve..ndi tu..tudo.
-Tudo? - Espantou-se o padre - mas como?
 
-É sa..simples: Eu cha..chegava pa..pra pe...pessoa e pa..pe..perguntava: o se..senhor va..vai ca...comprar a bi..bíblia ou quer que...que eu leia?

 
Visitas domiciliares
 
MEDECINA NO MEIO RURAL
 
Um velho doutor que sempre trabalhara no meio rural, achou que tinha chegado a hora de se aposentar depois de ter exercido medecina mais de 50 anos !
Ele encontrou um jovem médico para o lugar dele e sugeriu ao novo diplomado que o acompanhasse nas visitas domiciliares, para que as pessoas se habituassem a ele progressivamente.
 
Na primeira casa uma mulher queixou-se que lhe doía muito o estômago. O velho doutor respondeu-lhe:
- Sabe, a causa provável e que você abusou nas frutas frescas... Por que não reduz a quantidade que consome ?
 
Quando sairam da casa o jovem disse:
- O senhor nem sequer examinou aquela mulher... Como conseguiu chegar ao diagnóstico assim tao rápido ?
- Oh, nem valia a pena examina-la... Você notou que eu deixei cair o estetoscópio no chão ? Quando me abaixei para apanha-lo, notei que havia meia duzia de cascas de mangas, um pouco verdes, no balde do lixo. É provável que isso lhe deu as dores. Na próxima visita você se encarrega do exame.
 
- Humm ! Que esperteza ! Eu penso que vou tentar empregar essa técnica. Na casa seguinte, eles passam vários minutos a falar com uma mulher ainda jovem.
Ela queixava-se de uma grande fadiga:
- Eu sinto-me completamente sem forças...
 
O jovem doutor disse-lhe então:
- Você deu provavelmente muito de si para a igreja... Se reduzir essa actividade, talvez recupere um pouco da sua energia.
 
Assim que deixaram aquela casa, o velho doutor disse para novo:
- O seu diagnóstico surpreendeu-me... Como é que chegou a conclusão que aquela mulher se dava de corpo e alma aos trabalhos religiosos ?
 
- Eu apliquei a mesma técnica que o senhor me indicou:
Deixei cair o meu estetoscópio e, quando me abaixei para o apanhar, vi o padre debaixo da cama...!!!
 
 

 

Poesia de Adelina Velho da Palma - A NOVA VELHA - ANULAÇÃO - ÓDIO

 
Poesia de Adelina Velho da Palma
 
A NOVA VELHA
 
De longe faz lembrar uma menina
empoleirada nos saltos da mãe,
embora de estatura muito aquém
duma ideal figura feminina…
 
A cabeleira ruiva estilo crina
aderna num ridículo vaivém,
o traje é colorido, vê-se bem,
demasiado até, pra gente fina…
 
Mas eis que tal visão se aproxima
e nos permite enfim grato prazer
de lhe colocar bem a vista em cima…
 
Só então nos é dado perceber
verrugas, flacidez e pantomina
de velha que não soube envelhecer…
 
Adelina Velho da Palma

ANULAÇÃO
 
Ao pé de ti eu não sou como sou
visto a pele de alguém bem diferente
pois se fosse como sou realmente
não podias ficar aonde eu estou...
 
Não me opondo a que estejas onde estou
consinto em comportar-me como ausente
de vontade e opinião dormente
imune à enormidade que te dou...
 
Se tivesses alma suficiente
eu não abdicaria do que sou
e tu encarnarias outra gente...
 
Mas não consegues ir aonde eu vou
por isso quem avança para a frente
sou eu – não sendo aquilo que sou!...
 
Adelina Velho da Palma

AVISO
 
O soneto que se segue contem ideias e/ou palavras que podem chocar o
leitor mais sensível
 
ÓDIO
 
Quero-te exangue, tolhido com dores,
a súplica e o medo em teu olhar,
a boca desfigurada num esgar
e o corpo carcomido por tumores...
 
Quero-te esmagado por dissabores,
atormentado, contrito, alvar,
sem nada que te possa aliviar
nem arrependimento nem licores...
 
Quero-te humilhado sem esperança,
castrado, sem recurso nem vingança,
presa de patético frenesi...
 
Quero-te reduzido à nulidade,
cuspir-te na cara à minha vontade
e esquecer que um dia te conheci!...
 
Adelina Velho da Palma
 
 
 
 

Os saltimbancos - Conto de Maria Petronilho

 
Os saltimbancos
 
Conto de Maria Petronilho

Chegaram em carroças.
 
Os miúdos da aldeia medieval onde estive entregue ao abandono, corriam atrás, rindo muito dos velhos chapéus de palha que os burros levavam enfiados nas cabeças, as orelhas felpudas surgindo por entre dois buracos, disfarçados com flores de papel desbotado.
 
E à noite, lá fomos: eu, a minha avó e a Henriqueta, juntar-nos à roda de povo no pequenino largo.
As pessoas, de escuro no escuro, ficaram de pé.
Os aparelhos eram cadeiras, mesas e duas estacas espetadas no chão de terra batida, uma corda esticada entre elas.
 
Os artistas vestiam farrapos, velhos e rotos.
 
Na roda dos pobres, aquela miséria extrema provocou comentários.
Sobretudo a magreza da menina que atravessou de braços no ar, a corda. Levezinha como uma borboleta, ameaçando partir a voar.
 
A contorcionista vestia um maillôt e estava tão grávida que as mulheres cochichavam entre si:
- Coitados, já começam a trabalhar na barriga da mãe.
Na meia-luz dos lampiões, pouco mais vi que a lástima.
 
Escutava o que se dizia à volta, e no fim um menino pequeno e sério passou por entre todos o chapéu do pai, que apresentara o espectáculo, sem fausto.
 
Os homens remexeram as moedas raras no fundo dos bolsos das calças surradas, as mulheres remexeram as bolsas de feltro que ainda se usavam por baixo dos aventais.
 
E os tostões, pequeninos e negros, iam caindo um a um, dois a dois... com esforço, num mudo entendimento da fome compartilhada.
 
Só as crianças sorriram e bateram palmas. Os artistas aplaudiram no fim a plateia improvisada.
 
Nunca, nunca na minha vida gostei de circo!
 
Nem no Coliseu, por detrás da praça dos Restauradores, onde ofereciam bilhetes no Natal aos filhos dos funcionários, nem na TV do Circo do Mónaco, nem do magnífico circo de Moscovo.
 
Aquele primeiro que vi e ainda vejo por detrás das lágrimas que sinto bastou-me para toda a vida!


 

Poesia de Arlete Deretti Fernandes - A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho

 
Poesia de Arlete Deretti Fernandes

A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho 

A Quem muito amei
 
 Queria ser uma flor, a rosa.
 De todas a mais delicada.
 Queria ser pedra preciosa
 que cintila ao sol, na madrugada.

Ao surgir de seus primeiros raios,
 a iluminar a natureza inteira,
 eu saio a vagar, a procurar-te,
 até chegar a lua branca e faceira.

Meu destino será amar-te para sempre,
 a plainar pela imensidão do Universo,
 qual ave a chamar a companheira.

Esta cicatriz jamais se fechará,
 espero encontrar-te em outra vida,
 minha saudade só assim se aplacará.

Arlete Deretti Fernandes
 
Bolinhas de sabão
 
A menina de vestido bonito,
 lá do topo da escada,
 solta bolinhas de sabão
 e as observa admirada!
 Multicoloridas bolhinhas !!!
 que voam nas asas do vento.

Vestido de bolinhas esvoaçante,
 Lá no topo da escada!
 a menina embevecida e deslumbrante,
 sonha que as bolinhas seguem sua estrada,
 sem saber que se acorda na vida num instante,
 E as bolinhas explodem no ar, espatifadas!.

Arlete Deretti Fernandes
 
Sementes de Amor
 
Se eu for um plantador de esperanças,
 jogarei lindas sementes pelos caminhos que passar.
 Sementes de amor aos carentes,
sementes de paz aos sofridos,
 sementes de alegria aos tristonhos.

E quando voltar da jornada,
 pularei, cantarei versos de esperança
 a todos que dela precisarem.
 Verei ao longe o arco íris depois da chuva,
 as estrelas, o capim e o cheiro de terra molhada.

E sorrirei, porque muitas sementes
 brotaram na minha volta, e de seus brotos
 saíram pétalas multicoloridas,
 e as crianças têm boas escolas,
 os doentes são tratados em bons hospitais,
 os idosos recebem carinho.
 E as sementes de amor proliferam cada vez mais...

Arlete Deretti Fernandes
 
Sonho
 
Quero chegar bem devagarinho.
 Pé antepé, e com carinho,
 Recordar aquela meiga criança
 Que um dia esperou o coelhinho.

Passar a mão em seus lindos cabelos,
 Beijar seu rosto inocente,
 Olhar com alegria seus olhos,
 Que amarei para sempre.

Quando chegam estas datas
 Meu coração sente mais saudades
 De um tempo que foi ontem.

Caminho pelos gramados
 E no meio das plantas revejo
 Um cinema inesquecível.

Arlete Deretti Fernandes