domingo, 16 de agosto de 2015

Anedotas - Recolhidas na Net - (Facebook sobretudo)

 
Anedotas - Recolhidas na Net - (Facebook sobretudo)
 
O Maridão
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Um grupo de homens está na sauna, quando eis que um telemóvel começa a tocar:
- Alô
- Querido
- Sim querida
- Está na sauna
- Sim estou
- Sabe o que é, estou em frente a uma loja de roupa que tem um casaco de vison magnifico, posso compra-lo?
- Quanto custa
- Só 3.000 €
- Bem está bem compra
 
- Ah que bom, outra coisa, acabei de passar no concessionário da mercedes e vi o ultimo modelo, é fantástico, falei com o vendedor que faz um ótimo preço.
- Qual é o preço
- Meu amor são só 150.000 €
- Bom ok mas por esse preço tem de ter todas as opções.
- Pode deixar eu trato brigado queridão. Olha outra coisa só
- O quê
- Hoje passei em frente á imobiliária e reparei que aquela casa que vimos o ano passado está a venda, lembras-te dela? Aquela que tem jardim, churrasqueira completamente isolada naquela praia magnífica lembras?
- Lembro sim quanto custa?
- Meu querido somente 650.000€ agora
- Bom pode comprar mas pague no máximo somente 620.000 €
- Está bom amor, obrigado és um maridão até logo beijos
- Até logo
 
Ele desliga o telemóvel e pergunta aos outros...
...
...
...
- ALGUEM SABE DE QUEM É ESTE TELEMOVEL?

 
 
Correndo à chuva

Uma mulher tinha um caso amoroso enquanto o marido estava a trabalhar. Um dia de chuva estava na cama com o amante quando, para seu horror, ouviu o carro do marido a estacionar à porta de casa.
"Meu Deus!...Rápido! Agarra as tuas roupas e salta pela janela!...O meu marido chegou mais cedo!"
"Não posso saltar lá pra fora, está a chover muito!"
"Se o meu marido te apanha aqui, mata-nos aos dois!Ele tem mau feitio e uma arma, a chuva é o menor dos teus problemas!"
Então ele agarra as roupas e salta pela janela.
Enquanto corre pela rua fora, à chuva, vê-se no meio duma maratona, organizada pela Câmara Municipal.
Estando nú, com as roupas debaixo do braço, tenta correr bem no meio da multidão.
 
Passado um bocado, um pequeno grupo começa a olhá-lo com curiosidade.
"Corres sempre nú?"
"Oh, sim!Dá-me uma grande sensação de liberdade!" -responde já ofegante.
 
Outro corredor aproxima-se dele:" Corres sempre a carregar a tua roupa debaixo do braço?"
"Oh, sim!Desta maneira posso vestir-me logo no fim da corrida e meter-me no carro para ir para casa!"
 
Então um terceiro corredor olha um bocadinho mais para baixo e pergunta:
"Corres sempre utilizando um preservativo?"
 
"Não...Não" -gagueja ele- "Só quando chove!"

 
GESTÃO POR OBJETIVOS
 
Era uma vez uma aldeia onde viviam dois homens que tinham o mesmo nome: Joaquim Gonçalves.
Um era sacerdote e o outro taxista.
Quis o destino que morressem no mesmo dia.
Quando chegaram ao céu, São Pedro esperava-os.
- O teu nome?
- Joaquim Gonçalves.
- És o sacerdote?
- Não, o taxista.
 
São Pedro consulta as suas notas e diz:
- Bom, ganhaste o paraíso. Levas esta túnica com fios de ouro e este ceptro de platina com incrustações de rubis.
- Podes entrar.
- O teu nome?
- Joaquim Gonçalves.
- És o sacerdote?
- Sim, sou eu mesmo.
- Muito bem, meu filho, ganhaste o paraíso.
- Levas esta bata de linho e este ceptro de ferro.
 
O sacerdote diz:
- Desculpe, mas deve haver engano.
- Eu sou o Joaquim Gonçalves, o sacerdote!
- Sim, meu filho, ganhaste o paraíso.
- Levas esta bata de linho e...
 
- Não pode ser! Eu conheço o outro senhor.
- Era taxista, vivia na minha aldeia e era um desastre! Subia os passeios, batia com o carro todos os dias, conduzia pessimamente e assustava as pessoas.
Nunca mudou, apesar das multas e repreensões policiais.
E quanto a mim, passei 75 anos pregando todos os domingos na paróquia.
Como é que ele recebe a túnica com fios de ouro e eu... Isto?
 
- Não é nenhum engano - diz São Pedro.
- Aqui no céu, estamos a fazer uma gestão mais profissional, como a que vocês fazem lá na Terra.
- Não entendo!
 
- Eu explico. Agora orientamo-nos por objectivos. É assim: durante os últimos anos, cada vez que tu pregavas, as pessoas dormiam.
- E cada vez que ele conduzia o táxi, as pessoas começavam a rezar.
 
- Resultados! Percebeste? Gestão por Objectivos! O que interessa são os resultados, a forma de lá chegar é completamente secundária...

 
Um padre estava a distribuir bíblias
 
Um padre estava a distribuir bíblias para as pessoas venderem e ajudarem as obras da igreja. De repente, chega um gago a oferecer os seus serviços.
-Pa...pa..dre, eu ga..go...gosta...taria de aju...ju...dar a ve...ve..nder bi...bi...bíblias:
Comovido com a tentativa de colaborar, o padre deu umas poucas bíblias ao gago.
No final da tarde, durante o acerto de contas, o padre ia perguntando aos colaboradores.
-Você quantas vendeu?
-Vendi duas.
-E você?
-Vendi uma.
 
-E você, quantas vendeu? - Perguntou ao gago.
-Eu va..ve..ndi tu..tudo.
-Tudo? - Espantou-se o padre - mas como?
 
-É sa..simples: Eu cha..chegava pa..pra pe...pessoa e pa..pe..perguntava: o se..senhor va..vai ca...comprar a bi..bíblia ou quer que...que eu leia?

 
Visitas domiciliares
 
MEDECINA NO MEIO RURAL
 
Um velho doutor que sempre trabalhara no meio rural, achou que tinha chegado a hora de se aposentar depois de ter exercido medecina mais de 50 anos !
Ele encontrou um jovem médico para o lugar dele e sugeriu ao novo diplomado que o acompanhasse nas visitas domiciliares, para que as pessoas se habituassem a ele progressivamente.
 
Na primeira casa uma mulher queixou-se que lhe doía muito o estômago. O velho doutor respondeu-lhe:
- Sabe, a causa provável e que você abusou nas frutas frescas... Por que não reduz a quantidade que consome ?
 
Quando sairam da casa o jovem disse:
- O senhor nem sequer examinou aquela mulher... Como conseguiu chegar ao diagnóstico assim tao rápido ?
- Oh, nem valia a pena examina-la... Você notou que eu deixei cair o estetoscópio no chão ? Quando me abaixei para apanha-lo, notei que havia meia duzia de cascas de mangas, um pouco verdes, no balde do lixo. É provável que isso lhe deu as dores. Na próxima visita você se encarrega do exame.
 
- Humm ! Que esperteza ! Eu penso que vou tentar empregar essa técnica. Na casa seguinte, eles passam vários minutos a falar com uma mulher ainda jovem.
Ela queixava-se de uma grande fadiga:
- Eu sinto-me completamente sem forças...
 
O jovem doutor disse-lhe então:
- Você deu provavelmente muito de si para a igreja... Se reduzir essa actividade, talvez recupere um pouco da sua energia.
 
Assim que deixaram aquela casa, o velho doutor disse para novo:
- O seu diagnóstico surpreendeu-me... Como é que chegou a conclusão que aquela mulher se dava de corpo e alma aos trabalhos religiosos ?
 
- Eu apliquei a mesma técnica que o senhor me indicou:
Deixei cair o meu estetoscópio e, quando me abaixei para o apanhar, vi o padre debaixo da cama...!!!
 
 

 

Poesia de Adelina Velho da Palma - A NOVA VELHA - ANULAÇÃO - ÓDIO

 
Poesia de Adelina Velho da Palma
 
A NOVA VELHA
 
De longe faz lembrar uma menina
empoleirada nos saltos da mãe,
embora de estatura muito aquém
duma ideal figura feminina…
 
A cabeleira ruiva estilo crina
aderna num ridículo vaivém,
o traje é colorido, vê-se bem,
demasiado até, pra gente fina…
 
Mas eis que tal visão se aproxima
e nos permite enfim grato prazer
de lhe colocar bem a vista em cima…
 
Só então nos é dado perceber
verrugas, flacidez e pantomina
de velha que não soube envelhecer…
 
Adelina Velho da Palma

ANULAÇÃO
 
Ao pé de ti eu não sou como sou
visto a pele de alguém bem diferente
pois se fosse como sou realmente
não podias ficar aonde eu estou...
 
Não me opondo a que estejas onde estou
consinto em comportar-me como ausente
de vontade e opinião dormente
imune à enormidade que te dou...
 
Se tivesses alma suficiente
eu não abdicaria do que sou
e tu encarnarias outra gente...
 
Mas não consegues ir aonde eu vou
por isso quem avança para a frente
sou eu – não sendo aquilo que sou!...
 
Adelina Velho da Palma

AVISO
 
O soneto que se segue contem ideias e/ou palavras que podem chocar o
leitor mais sensível
 
ÓDIO
 
Quero-te exangue, tolhido com dores,
a súplica e o medo em teu olhar,
a boca desfigurada num esgar
e o corpo carcomido por tumores...
 
Quero-te esmagado por dissabores,
atormentado, contrito, alvar,
sem nada que te possa aliviar
nem arrependimento nem licores...
 
Quero-te humilhado sem esperança,
castrado, sem recurso nem vingança,
presa de patético frenesi...
 
Quero-te reduzido à nulidade,
cuspir-te na cara à minha vontade
e esquecer que um dia te conheci!...
 
Adelina Velho da Palma
 
 
 
 

Os saltimbancos - Conto de Maria Petronilho

 
Os saltimbancos
 
Conto de Maria Petronilho

Chegaram em carroças.
 
Os miúdos da aldeia medieval onde estive entregue ao abandono, corriam atrás, rindo muito dos velhos chapéus de palha que os burros levavam enfiados nas cabeças, as orelhas felpudas surgindo por entre dois buracos, disfarçados com flores de papel desbotado.
 
E à noite, lá fomos: eu, a minha avó e a Henriqueta, juntar-nos à roda de povo no pequenino largo.
As pessoas, de escuro no escuro, ficaram de pé.
Os aparelhos eram cadeiras, mesas e duas estacas espetadas no chão de terra batida, uma corda esticada entre elas.
 
Os artistas vestiam farrapos, velhos e rotos.
 
Na roda dos pobres, aquela miséria extrema provocou comentários.
Sobretudo a magreza da menina que atravessou de braços no ar, a corda. Levezinha como uma borboleta, ameaçando partir a voar.
 
A contorcionista vestia um maillôt e estava tão grávida que as mulheres cochichavam entre si:
- Coitados, já começam a trabalhar na barriga da mãe.
Na meia-luz dos lampiões, pouco mais vi que a lástima.
 
Escutava o que se dizia à volta, e no fim um menino pequeno e sério passou por entre todos o chapéu do pai, que apresentara o espectáculo, sem fausto.
 
Os homens remexeram as moedas raras no fundo dos bolsos das calças surradas, as mulheres remexeram as bolsas de feltro que ainda se usavam por baixo dos aventais.
 
E os tostões, pequeninos e negros, iam caindo um a um, dois a dois... com esforço, num mudo entendimento da fome compartilhada.
 
Só as crianças sorriram e bateram palmas. Os artistas aplaudiram no fim a plateia improvisada.
 
Nunca, nunca na minha vida gostei de circo!
 
Nem no Coliseu, por detrás da praça dos Restauradores, onde ofereciam bilhetes no Natal aos filhos dos funcionários, nem na TV do Circo do Mónaco, nem do magnífico circo de Moscovo.
 
Aquele primeiro que vi e ainda vejo por detrás das lágrimas que sinto bastou-me para toda a vida!


 

Poesia de Arlete Deretti Fernandes - A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho

 
Poesia de Arlete Deretti Fernandes

A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho 

A Quem muito amei
 
 Queria ser uma flor, a rosa.
 De todas a mais delicada.
 Queria ser pedra preciosa
 que cintila ao sol, na madrugada.

Ao surgir de seus primeiros raios,
 a iluminar a natureza inteira,
 eu saio a vagar, a procurar-te,
 até chegar a lua branca e faceira.

Meu destino será amar-te para sempre,
 a plainar pela imensidão do Universo,
 qual ave a chamar a companheira.

Esta cicatriz jamais se fechará,
 espero encontrar-te em outra vida,
 minha saudade só assim se aplacará.

Arlete Deretti Fernandes
 
Bolinhas de sabão
 
A menina de vestido bonito,
 lá do topo da escada,
 solta bolinhas de sabão
 e as observa admirada!
 Multicoloridas bolhinhas !!!
 que voam nas asas do vento.

Vestido de bolinhas esvoaçante,
 Lá no topo da escada!
 a menina embevecida e deslumbrante,
 sonha que as bolinhas seguem sua estrada,
 sem saber que se acorda na vida num instante,
 E as bolinhas explodem no ar, espatifadas!.

Arlete Deretti Fernandes
 
Sementes de Amor
 
Se eu for um plantador de esperanças,
 jogarei lindas sementes pelos caminhos que passar.
 Sementes de amor aos carentes,
sementes de paz aos sofridos,
 sementes de alegria aos tristonhos.

E quando voltar da jornada,
 pularei, cantarei versos de esperança
 a todos que dela precisarem.
 Verei ao longe o arco íris depois da chuva,
 as estrelas, o capim e o cheiro de terra molhada.

E sorrirei, porque muitas sementes
 brotaram na minha volta, e de seus brotos
 saíram pétalas multicoloridas,
 e as crianças têm boas escolas,
 os doentes são tratados em bons hospitais,
 os idosos recebem carinho.
 E as sementes de amor proliferam cada vez mais...

Arlete Deretti Fernandes
 
Sonho
 
Quero chegar bem devagarinho.
 Pé antepé, e com carinho,
 Recordar aquela meiga criança
 Que um dia esperou o coelhinho.

Passar a mão em seus lindos cabelos,
 Beijar seu rosto inocente,
 Olhar com alegria seus olhos,
 Que amarei para sempre.

Quando chegam estas datas
 Meu coração sente mais saudades
 De um tempo que foi ontem.

Caminho pelos gramados
 E no meio das plantas revejo
 Um cinema inesquecível.

Arlete Deretti Fernandes


 

Poesia de António Cambeta - VENDAVAL; SAUDADES NO CAIS DEIXEI

 
Poesia de António Cambeta
 
VENDAVAL;  SAUDADES NO CAIS DEIXEI   
 
 VENDAVAL
 
 No meu pequeno, mas belo jardim
 entrou a tristeza
 o vendaval que assolou a região
 levou-me as belas flores
 as rosas negras, os crisântemos amarelos
 as orquídeas de âncora
 que eu tinha bem estimadas
 como um tesouro que Deus nos dá.

As plantei e tratei
 com paciência de bonzo
 numa tarde serena e luminosa
 de Maio

Diariamente
vigiava meu tesouro
 de orquídeas de âncora
 de Fá Mui e de tulipas

Visionava distante com se de um sonho
 se tratasse.
 De um sonho pleno de amor.

Viver o sonho que sonhei
 entre as orquídeas de âncora de meu jardim
 embriaga-me
 no seu perfume oriental
 das orquídeas de âncora.

Uma noite
 a tristeza
 entrou em meu pequeno mas belo jardim
 e com o vendaval da noite
 minhas orquídeas de âncora
 minhas rosas negras
 meus crisântemos amarelos
 foram levadas pelo vento.

Na manhã seguinte
 ao encontrar todo o meu tesouro
 desfeito, chorei lágrimas de sangue.
 no chão ainda pude ver uma orquídea de âncora
 tentar sobreviver foi só o que restou

De novo, com paciência de chinês
 tentarei fazer florir meu tesouro
 e o protegendo das intempéries
 irei fazer para que minhas orquídeas de ancora
 fiquem bem amarradas ao fundo da terra
 para que jamais as possa perder
 
 SAUDADES NO CAIS DEIXEI
 
 Saudades no cais deixei
 ficando assim aliviado,
 esqueci quem tanto amei jamais serei atraiçoado.

O mar, esse sei que é traiçoeiro,
 mas a ele estou habituado,
 o tenho por amigo e companheiro,
 sei que dele sou sempre amado.

Suas águas vou percorrendo,
 as marés as vou contando,
 e aos poucos envelhecendo
 mas dele sempre gostando.

Neste mar imenso e salgado
 suas águas vou sulcando,
 tendo o leme bem calibrado
 minhas mágoas vou soltando.

Tenho o mar e o céu por companhia,
 à noite as estrelas vou contemplando,
 e o sol que raia de dia,
 esses me vão acompanhando

Vivo um pouco na solidão
 não tendo com quem falar,
 fortalece meu coração,
 Tenho Deus para me ajudar.

O rumo nunca perdi,
 com o norte sempre atinei,
 foi nele que sempre vivi
 e nele sempre estarei.

é sempre bom conselheiro,
 para quem com ele souber falar,
 ele é bom é fiel companheiro
 que sempre nos sabe amar.

Meu rumo está destinado,
 ao longe, o cais já avisto,
 a ele ficarei amarrado
 nesta viagem tudo está já está previsto.

O mar, este, agora de berço me serve,
 depois será minha sepultura,
 minhas cinzas ele conserve
quando chegar à altura.

Depois, para sempre nele repousarei,
 findarão as minhas mágoas,
 e eternamente navegarei
 em suas serenas águas.

Outras marés outros oceanos,
 irei então encontrar,
 findam assim os desenganos
 a quem na vida tanto soube amar.


 

A Lenda da Senhora Matilde e da «San Líjà Bote» - Conto de João Furtado

 
A Lenda da Senhora Matilde e da «San Líjà Bote»
 
Conto de João Furtado
 
 Vestida imaculadamente de branco, a senhora Matilde, sim era este o nome da velha que diariamente sentava-se a berma do rio Papagaio.
 
Usava saias longas e de pregas e uma blusa de mangas folhadas. Esperava alguém, alguém que deveria voltar e nunca mais voltaria. Aquela zona era denominada de «San Lijà Bote», em português, senhora Luísa Bote.
 
Que esperava a senhora Matilde? Alias quem esperava ela?O João diariamente passava por ela e tornava a passar. Passava para ir a escola e passava de novo quando voltava para a casa. A senhora Matilde lá estava.
 
Ia bem cedinho e só regressava a noite. Há anos que ela passava o dia sentada. Alimentava de cola e agua. Graças a Deus a cola era uma semente milagrosa. Bastava uma semente para não se sentir a fome durante longo período do dia e era fácil de se conseguir.
 O fazia ela sentada ali e quem esperava ela?
 A agua cristalina e transparente descia rio abaixo até o mar alheio a tudo e a todos e a Senhora Matilde, alheia a tudo que passava a sua volta fixava os olhos no rio e via a agua correr na sua trajectória milenar, enquanto respondia a todos que por ela passassem o «Passô» com outro «passô».
 
Ninguém mais se importava com ela. O hábito de ficar sentada a beira do rio já se havia transformado em normal, natural. Um tão estranho hábito tornou-se habitual e quando o estranho se transforma em normal, ninguém mais liga. A Senhora Matilde já tinha se tornado em parte integrante do ambiente.
 
Um dia ela não pode ir, ela tinha apanhado uma ligeira gripe, ai sim todos acharam anormal e correram para a casa dela, para saberem o que havia acontecido com ela.
 
O João sabia o caminho que devia seguir de cor e salteado. Nunca deveria encurta-la. Devia ir tomar sempre a ponte e atravessar o rio, seja porque razão ou motivo for.
Mas naquele dia estava com pressa e o rio parecia tão calmo… podia saltar a casa ficava a poucos metros da margem do outro lado do rio.
 
Já estava a entrar na água quando ouviu a Senhora Matilda a chama lhe:
- Mino, minooooooooo, vem cá!
 Voltou, veio responder, na Ilha era assim, todos se conheciam e se respeitavam, uma Ilha pequena e uma cidade ainda mais pequena.
 
Tornou a dizer «passo» era o costume. Se encontrassem mil vezes, mil «passo» era dado.
-Sabes porque estou cá sentada? Não, não sabes! Tenho uma única filha, a Maitê, devia ter tua idade quando entrou na água, precisamente onde ias entrar. Nunca mais voltou e eu estou cá a espera dela, um dia haverá de voltar.
-Para onde foi ela?
-A «San Lijá Bote» levou-a para o seu mundo. Todos dizem que ela nunca mais voltará, mas eu sei que um dia a Maitê voltará. Um dia a “San Líjá Bote» deverá dormir e ela fugirá e regressará.
 
-Há quantos anos ela desapareceu?
-Há mais de trinta anos, mas vou esperar, vou esperar até o dia que ela regressar, irá voltar um dia! Era um dia de sol como hoje. A água estava cristalina e transparente. Ela vinha em grupo da escola. Entrou na agua e as colegas ficaram a vê-la, de repente fez um remoinho no meio do rio e ela foi puxada. As outras crianças viu-a a ser puxada e nada podiam fazer, até que ela se perdeu para sempre.
 
-A senhora vai ficar aqui mais quanto tempo? Porque não entra no rio e vai procurar a sua filha?
 
A senhora Matilde não respondeu. Caiu de novo no seu silencio e na sua resposta ao «passo» que os habitantes da Ilha lhe desejava…
 
Por muito tempo o João e os habitantes da ilha continuaram a ver a senhora Matilde imaculadamente vestida de branco sentada esperando a filha Maitê. Até que um dia ela deixou de ser vista. Procuraram-na por toda a Ilha, mas ninguém a encontrou. Ninguém soube ao certo o que aconteceu com a Senhora Matilde.
 
O João tinha uma certeza, a Matilde havia entrado no rio, havia ido procurar a Maitê e a «San Lijá Bote» ficou com ela também. Disse para toda a Ilha, afirmou que foi ele que a aconselhou a fazer tamanho disparate, mas ninguém acreditou nele.
 
Ainda hoje fala-se na «San Lijá Bote» na sua fome insaciável de povoar o seu reino encantado e também fala-se do desaparecimento misterioso da Matilde.
 
Mas nunca ninguém ligou os dois casos.
 
Ninguém não, o João os ligou sempre.
 

 

Laudelina - Por: Cecílio Elias Netto

 
Laudelina
 
Por: Cecílio Elias Netto
 
 Sempre estiveram abertas e viçosas as flores de Laudelina. Quem passasse pela antiga casa, na esquina da 15 com José Pinto de Almeida, poderia vê-las, ainda que protegidas por grades, pedindo para serem roubadas. Pois as flores de dona Laudelina Cotrim de Castro surgiram para ser roubadas por moços enamorados.
 
Eramos uma cidade sem grades, num tempo sem prisões morais e sustos. Em noites de serestas, as flores de Laudelina ficavam assanhadas à espera de quem as roubasse para levar às janelas das namoradas, noites de serestas sob céus enluarados.
 
Pulava-se a mureta do jardim num fingimento comum: ela fingia não ouvir passos mansos no jardim, nós fingíamos que a estávamos enganando.

Quando passo por lá, não consigo deixar de pensar nas flores de Laudelina. E, talvez por essa tristeza que surge não se sabe de onde ou porquê, dá-me uma vontade danada de pular o muro, roubar rosas em plena tarde chuvosa, sair caminhando em busca de um violão e, então, sentar na sarjeta e chamar os amigos para cantar modinha de coisas de amor.
 
Pois estão muito feios os nossos tempos e parece que vão enfeiando até mesmo o amor.
E, na tristeza repentina de uma tarde chuvosa, as flores de Laudelina pareceram aqueles «psius» que ela sabia dar quando se deparava com tolices das pessoas.

Um «psiu» que permanece no ar, diante das tolices que vimos fazendo nesse ir sem saber para onde, nesse vir sem ter para o quê voltar.

A casa que foi de Laudelina fizeram bater uma saudade danada dentro do peito, saudade ou nostalgia não consigo definir, mas sei que melancolia doída como garoa fina caindo em folha seca.
 
Não sei se foram as rosas, se a ausência de Laudelina Cotrim de Castro o que começa a machucar e a doer, pois essa sensação de ausência dói e machuca.
Laudelina preenchia todos os espaços vazios de Piracicaba e sabia afastar qualquer tristeza.
 
Ela não suportaria viver em tempos tão amargos, mas não fugiria deles. Laudelina mudaria os tempos, pois ela era mulher de mudar, de transformar, de mexer.
E se o jardim da casa dela ficou é porque ela permanece viva em algum lugar e não a estamos vendo. O «psiu», agora, entra pelo coração. E fica incomodando.

Temos que mudar, é preciso mudar. Mas não sei o quê, nem como. E, talvez, estejamos cometendo equívocos terríveis pensando que as mudanças venham apenas pela política. Não virão. Há certezas enraigadas demais e, portanto, obstáculos a quaisquer mudanças.
 
Talvez, os tempos estejam pedindo que, no lugar de tantas certezas, passemos a ter mais dúvidas. Princípios é que precisam de raízes, certezas, não. Como as plantas de Laudelina que, enraízadas, se renovavam em cada florada.

Aquela notável mulher sabia viver a experiência do novo sem precisar da novidade, Laudelina tinha a sabedoria de manter vivo o eterno sem deixá-lo envelhecer.
São abençoadas as pessoas que vêem a presença do infinito em cada instante da vida.

A casa de Laudelina era como que um marco de confiança para os estudantes que, indo e voltando – sabendo para onde ir, tendo para onde voltar – subiam e desciam a rua 15, uma passarinhada garrulando em direção às nossas escolas.

De dia, as flores de Laudelina encantavam, perfumavam. De noite, davam piscadelas para ser roubadas. Eram tempos, sim, de saber que as rosas não falam, que as rosas trescalam.
 
Bate uma saudade danada no coração ao ver que não há mais jovens ladrões das rosas de Laudelina, pobres rosas solitárias à passagem da multidão. Sei lá. Ouvi um «psiu» no coração. E deu saudade de Laudelina.
 
Bom dia