domingo, 16 de agosto de 2015

Poesia de Adelina Velho da Palma - A NOVA VELHA - ANULAÇÃO - ÓDIO

 
Poesia de Adelina Velho da Palma
 
A NOVA VELHA
 
De longe faz lembrar uma menina
empoleirada nos saltos da mãe,
embora de estatura muito aquém
duma ideal figura feminina…
 
A cabeleira ruiva estilo crina
aderna num ridículo vaivém,
o traje é colorido, vê-se bem,
demasiado até, pra gente fina…
 
Mas eis que tal visão se aproxima
e nos permite enfim grato prazer
de lhe colocar bem a vista em cima…
 
Só então nos é dado perceber
verrugas, flacidez e pantomina
de velha que não soube envelhecer…
 
Adelina Velho da Palma

ANULAÇÃO
 
Ao pé de ti eu não sou como sou
visto a pele de alguém bem diferente
pois se fosse como sou realmente
não podias ficar aonde eu estou...
 
Não me opondo a que estejas onde estou
consinto em comportar-me como ausente
de vontade e opinião dormente
imune à enormidade que te dou...
 
Se tivesses alma suficiente
eu não abdicaria do que sou
e tu encarnarias outra gente...
 
Mas não consegues ir aonde eu vou
por isso quem avança para a frente
sou eu – não sendo aquilo que sou!...
 
Adelina Velho da Palma

AVISO
 
O soneto que se segue contem ideias e/ou palavras que podem chocar o
leitor mais sensível
 
ÓDIO
 
Quero-te exangue, tolhido com dores,
a súplica e o medo em teu olhar,
a boca desfigurada num esgar
e o corpo carcomido por tumores...
 
Quero-te esmagado por dissabores,
atormentado, contrito, alvar,
sem nada que te possa aliviar
nem arrependimento nem licores...
 
Quero-te humilhado sem esperança,
castrado, sem recurso nem vingança,
presa de patético frenesi...
 
Quero-te reduzido à nulidade,
cuspir-te na cara à minha vontade
e esquecer que um dia te conheci!...
 
Adelina Velho da Palma
 
 
 
 

Os saltimbancos - Conto de Maria Petronilho

 
Os saltimbancos
 
Conto de Maria Petronilho

Chegaram em carroças.
 
Os miúdos da aldeia medieval onde estive entregue ao abandono, corriam atrás, rindo muito dos velhos chapéus de palha que os burros levavam enfiados nas cabeças, as orelhas felpudas surgindo por entre dois buracos, disfarçados com flores de papel desbotado.
 
E à noite, lá fomos: eu, a minha avó e a Henriqueta, juntar-nos à roda de povo no pequenino largo.
As pessoas, de escuro no escuro, ficaram de pé.
Os aparelhos eram cadeiras, mesas e duas estacas espetadas no chão de terra batida, uma corda esticada entre elas.
 
Os artistas vestiam farrapos, velhos e rotos.
 
Na roda dos pobres, aquela miséria extrema provocou comentários.
Sobretudo a magreza da menina que atravessou de braços no ar, a corda. Levezinha como uma borboleta, ameaçando partir a voar.
 
A contorcionista vestia um maillôt e estava tão grávida que as mulheres cochichavam entre si:
- Coitados, já começam a trabalhar na barriga da mãe.
Na meia-luz dos lampiões, pouco mais vi que a lástima.
 
Escutava o que se dizia à volta, e no fim um menino pequeno e sério passou por entre todos o chapéu do pai, que apresentara o espectáculo, sem fausto.
 
Os homens remexeram as moedas raras no fundo dos bolsos das calças surradas, as mulheres remexeram as bolsas de feltro que ainda se usavam por baixo dos aventais.
 
E os tostões, pequeninos e negros, iam caindo um a um, dois a dois... com esforço, num mudo entendimento da fome compartilhada.
 
Só as crianças sorriram e bateram palmas. Os artistas aplaudiram no fim a plateia improvisada.
 
Nunca, nunca na minha vida gostei de circo!
 
Nem no Coliseu, por detrás da praça dos Restauradores, onde ofereciam bilhetes no Natal aos filhos dos funcionários, nem na TV do Circo do Mónaco, nem do magnífico circo de Moscovo.
 
Aquele primeiro que vi e ainda vejo por detrás das lágrimas que sinto bastou-me para toda a vida!


 

Poesia de Arlete Deretti Fernandes - A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho

 
Poesia de Arlete Deretti Fernandes

A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho 

A Quem muito amei
 
 Queria ser uma flor, a rosa.
 De todas a mais delicada.
 Queria ser pedra preciosa
 que cintila ao sol, na madrugada.

Ao surgir de seus primeiros raios,
 a iluminar a natureza inteira,
 eu saio a vagar, a procurar-te,
 até chegar a lua branca e faceira.

Meu destino será amar-te para sempre,
 a plainar pela imensidão do Universo,
 qual ave a chamar a companheira.

Esta cicatriz jamais se fechará,
 espero encontrar-te em outra vida,
 minha saudade só assim se aplacará.

Arlete Deretti Fernandes
 
Bolinhas de sabão
 
A menina de vestido bonito,
 lá do topo da escada,
 solta bolinhas de sabão
 e as observa admirada!
 Multicoloridas bolhinhas !!!
 que voam nas asas do vento.

Vestido de bolinhas esvoaçante,
 Lá no topo da escada!
 a menina embevecida e deslumbrante,
 sonha que as bolinhas seguem sua estrada,
 sem saber que se acorda na vida num instante,
 E as bolinhas explodem no ar, espatifadas!.

Arlete Deretti Fernandes
 
Sementes de Amor
 
Se eu for um plantador de esperanças,
 jogarei lindas sementes pelos caminhos que passar.
 Sementes de amor aos carentes,
sementes de paz aos sofridos,
 sementes de alegria aos tristonhos.

E quando voltar da jornada,
 pularei, cantarei versos de esperança
 a todos que dela precisarem.
 Verei ao longe o arco íris depois da chuva,
 as estrelas, o capim e o cheiro de terra molhada.

E sorrirei, porque muitas sementes
 brotaram na minha volta, e de seus brotos
 saíram pétalas multicoloridas,
 e as crianças têm boas escolas,
 os doentes são tratados em bons hospitais,
 os idosos recebem carinho.
 E as sementes de amor proliferam cada vez mais...

Arlete Deretti Fernandes
 
Sonho
 
Quero chegar bem devagarinho.
 Pé antepé, e com carinho,
 Recordar aquela meiga criança
 Que um dia esperou o coelhinho.

Passar a mão em seus lindos cabelos,
 Beijar seu rosto inocente,
 Olhar com alegria seus olhos,
 Que amarei para sempre.

Quando chegam estas datas
 Meu coração sente mais saudades
 De um tempo que foi ontem.

Caminho pelos gramados
 E no meio das plantas revejo
 Um cinema inesquecível.

Arlete Deretti Fernandes


 

Poesia de António Cambeta - VENDAVAL; SAUDADES NO CAIS DEIXEI

 
Poesia de António Cambeta
 
VENDAVAL;  SAUDADES NO CAIS DEIXEI   
 
 VENDAVAL
 
 No meu pequeno, mas belo jardim
 entrou a tristeza
 o vendaval que assolou a região
 levou-me as belas flores
 as rosas negras, os crisântemos amarelos
 as orquídeas de âncora
 que eu tinha bem estimadas
 como um tesouro que Deus nos dá.

As plantei e tratei
 com paciência de bonzo
 numa tarde serena e luminosa
 de Maio

Diariamente
vigiava meu tesouro
 de orquídeas de âncora
 de Fá Mui e de tulipas

Visionava distante com se de um sonho
 se tratasse.
 De um sonho pleno de amor.

Viver o sonho que sonhei
 entre as orquídeas de âncora de meu jardim
 embriaga-me
 no seu perfume oriental
 das orquídeas de âncora.

Uma noite
 a tristeza
 entrou em meu pequeno mas belo jardim
 e com o vendaval da noite
 minhas orquídeas de âncora
 minhas rosas negras
 meus crisântemos amarelos
 foram levadas pelo vento.

Na manhã seguinte
 ao encontrar todo o meu tesouro
 desfeito, chorei lágrimas de sangue.
 no chão ainda pude ver uma orquídea de âncora
 tentar sobreviver foi só o que restou

De novo, com paciência de chinês
 tentarei fazer florir meu tesouro
 e o protegendo das intempéries
 irei fazer para que minhas orquídeas de ancora
 fiquem bem amarradas ao fundo da terra
 para que jamais as possa perder
 
 SAUDADES NO CAIS DEIXEI
 
 Saudades no cais deixei
 ficando assim aliviado,
 esqueci quem tanto amei jamais serei atraiçoado.

O mar, esse sei que é traiçoeiro,
 mas a ele estou habituado,
 o tenho por amigo e companheiro,
 sei que dele sou sempre amado.

Suas águas vou percorrendo,
 as marés as vou contando,
 e aos poucos envelhecendo
 mas dele sempre gostando.

Neste mar imenso e salgado
 suas águas vou sulcando,
 tendo o leme bem calibrado
 minhas mágoas vou soltando.

Tenho o mar e o céu por companhia,
 à noite as estrelas vou contemplando,
 e o sol que raia de dia,
 esses me vão acompanhando

Vivo um pouco na solidão
 não tendo com quem falar,
 fortalece meu coração,
 Tenho Deus para me ajudar.

O rumo nunca perdi,
 com o norte sempre atinei,
 foi nele que sempre vivi
 e nele sempre estarei.

é sempre bom conselheiro,
 para quem com ele souber falar,
 ele é bom é fiel companheiro
 que sempre nos sabe amar.

Meu rumo está destinado,
 ao longe, o cais já avisto,
 a ele ficarei amarrado
 nesta viagem tudo está já está previsto.

O mar, este, agora de berço me serve,
 depois será minha sepultura,
 minhas cinzas ele conserve
quando chegar à altura.

Depois, para sempre nele repousarei,
 findarão as minhas mágoas,
 e eternamente navegarei
 em suas serenas águas.

Outras marés outros oceanos,
 irei então encontrar,
 findam assim os desenganos
 a quem na vida tanto soube amar.


 

A Lenda da Senhora Matilde e da «San Líjà Bote» - Conto de João Furtado

 
A Lenda da Senhora Matilde e da «San Líjà Bote»
 
Conto de João Furtado
 
 Vestida imaculadamente de branco, a senhora Matilde, sim era este o nome da velha que diariamente sentava-se a berma do rio Papagaio.
 
Usava saias longas e de pregas e uma blusa de mangas folhadas. Esperava alguém, alguém que deveria voltar e nunca mais voltaria. Aquela zona era denominada de «San Lijà Bote», em português, senhora Luísa Bote.
 
Que esperava a senhora Matilde? Alias quem esperava ela?O João diariamente passava por ela e tornava a passar. Passava para ir a escola e passava de novo quando voltava para a casa. A senhora Matilde lá estava.
 
Ia bem cedinho e só regressava a noite. Há anos que ela passava o dia sentada. Alimentava de cola e agua. Graças a Deus a cola era uma semente milagrosa. Bastava uma semente para não se sentir a fome durante longo período do dia e era fácil de se conseguir.
 O fazia ela sentada ali e quem esperava ela?
 A agua cristalina e transparente descia rio abaixo até o mar alheio a tudo e a todos e a Senhora Matilde, alheia a tudo que passava a sua volta fixava os olhos no rio e via a agua correr na sua trajectória milenar, enquanto respondia a todos que por ela passassem o «Passô» com outro «passô».
 
Ninguém mais se importava com ela. O hábito de ficar sentada a beira do rio já se havia transformado em normal, natural. Um tão estranho hábito tornou-se habitual e quando o estranho se transforma em normal, ninguém mais liga. A Senhora Matilde já tinha se tornado em parte integrante do ambiente.
 
Um dia ela não pode ir, ela tinha apanhado uma ligeira gripe, ai sim todos acharam anormal e correram para a casa dela, para saberem o que havia acontecido com ela.
 
O João sabia o caminho que devia seguir de cor e salteado. Nunca deveria encurta-la. Devia ir tomar sempre a ponte e atravessar o rio, seja porque razão ou motivo for.
Mas naquele dia estava com pressa e o rio parecia tão calmo… podia saltar a casa ficava a poucos metros da margem do outro lado do rio.
 
Já estava a entrar na água quando ouviu a Senhora Matilda a chama lhe:
- Mino, minooooooooo, vem cá!
 Voltou, veio responder, na Ilha era assim, todos se conheciam e se respeitavam, uma Ilha pequena e uma cidade ainda mais pequena.
 
Tornou a dizer «passo» era o costume. Se encontrassem mil vezes, mil «passo» era dado.
-Sabes porque estou cá sentada? Não, não sabes! Tenho uma única filha, a Maitê, devia ter tua idade quando entrou na água, precisamente onde ias entrar. Nunca mais voltou e eu estou cá a espera dela, um dia haverá de voltar.
-Para onde foi ela?
-A «San Lijá Bote» levou-a para o seu mundo. Todos dizem que ela nunca mais voltará, mas eu sei que um dia a Maitê voltará. Um dia a “San Líjá Bote» deverá dormir e ela fugirá e regressará.
 
-Há quantos anos ela desapareceu?
-Há mais de trinta anos, mas vou esperar, vou esperar até o dia que ela regressar, irá voltar um dia! Era um dia de sol como hoje. A água estava cristalina e transparente. Ela vinha em grupo da escola. Entrou na agua e as colegas ficaram a vê-la, de repente fez um remoinho no meio do rio e ela foi puxada. As outras crianças viu-a a ser puxada e nada podiam fazer, até que ela se perdeu para sempre.
 
-A senhora vai ficar aqui mais quanto tempo? Porque não entra no rio e vai procurar a sua filha?
 
A senhora Matilde não respondeu. Caiu de novo no seu silencio e na sua resposta ao «passo» que os habitantes da Ilha lhe desejava…
 
Por muito tempo o João e os habitantes da ilha continuaram a ver a senhora Matilde imaculadamente vestida de branco sentada esperando a filha Maitê. Até que um dia ela deixou de ser vista. Procuraram-na por toda a Ilha, mas ninguém a encontrou. Ninguém soube ao certo o que aconteceu com a Senhora Matilde.
 
O João tinha uma certeza, a Matilde havia entrado no rio, havia ido procurar a Maitê e a «San Lijá Bote» ficou com ela também. Disse para toda a Ilha, afirmou que foi ele que a aconselhou a fazer tamanho disparate, mas ninguém acreditou nele.
 
Ainda hoje fala-se na «San Lijá Bote» na sua fome insaciável de povoar o seu reino encantado e também fala-se do desaparecimento misterioso da Matilde.
 
Mas nunca ninguém ligou os dois casos.
 
Ninguém não, o João os ligou sempre.
 

 

Laudelina - Por: Cecílio Elias Netto

 
Laudelina
 
Por: Cecílio Elias Netto
 
 Sempre estiveram abertas e viçosas as flores de Laudelina. Quem passasse pela antiga casa, na esquina da 15 com José Pinto de Almeida, poderia vê-las, ainda que protegidas por grades, pedindo para serem roubadas. Pois as flores de dona Laudelina Cotrim de Castro surgiram para ser roubadas por moços enamorados.
 
Eramos uma cidade sem grades, num tempo sem prisões morais e sustos. Em noites de serestas, as flores de Laudelina ficavam assanhadas à espera de quem as roubasse para levar às janelas das namoradas, noites de serestas sob céus enluarados.
 
Pulava-se a mureta do jardim num fingimento comum: ela fingia não ouvir passos mansos no jardim, nós fingíamos que a estávamos enganando.

Quando passo por lá, não consigo deixar de pensar nas flores de Laudelina. E, talvez por essa tristeza que surge não se sabe de onde ou porquê, dá-me uma vontade danada de pular o muro, roubar rosas em plena tarde chuvosa, sair caminhando em busca de um violão e, então, sentar na sarjeta e chamar os amigos para cantar modinha de coisas de amor.
 
Pois estão muito feios os nossos tempos e parece que vão enfeiando até mesmo o amor.
E, na tristeza repentina de uma tarde chuvosa, as flores de Laudelina pareceram aqueles «psius» que ela sabia dar quando se deparava com tolices das pessoas.

Um «psiu» que permanece no ar, diante das tolices que vimos fazendo nesse ir sem saber para onde, nesse vir sem ter para o quê voltar.

A casa que foi de Laudelina fizeram bater uma saudade danada dentro do peito, saudade ou nostalgia não consigo definir, mas sei que melancolia doída como garoa fina caindo em folha seca.
 
Não sei se foram as rosas, se a ausência de Laudelina Cotrim de Castro o que começa a machucar e a doer, pois essa sensação de ausência dói e machuca.
Laudelina preenchia todos os espaços vazios de Piracicaba e sabia afastar qualquer tristeza.
 
Ela não suportaria viver em tempos tão amargos, mas não fugiria deles. Laudelina mudaria os tempos, pois ela era mulher de mudar, de transformar, de mexer.
E se o jardim da casa dela ficou é porque ela permanece viva em algum lugar e não a estamos vendo. O «psiu», agora, entra pelo coração. E fica incomodando.

Temos que mudar, é preciso mudar. Mas não sei o quê, nem como. E, talvez, estejamos cometendo equívocos terríveis pensando que as mudanças venham apenas pela política. Não virão. Há certezas enraigadas demais e, portanto, obstáculos a quaisquer mudanças.
 
Talvez, os tempos estejam pedindo que, no lugar de tantas certezas, passemos a ter mais dúvidas. Princípios é que precisam de raízes, certezas, não. Como as plantas de Laudelina que, enraízadas, se renovavam em cada florada.

Aquela notável mulher sabia viver a experiência do novo sem precisar da novidade, Laudelina tinha a sabedoria de manter vivo o eterno sem deixá-lo envelhecer.
São abençoadas as pessoas que vêem a presença do infinito em cada instante da vida.

A casa de Laudelina era como que um marco de confiança para os estudantes que, indo e voltando – sabendo para onde ir, tendo para onde voltar – subiam e desciam a rua 15, uma passarinhada garrulando em direção às nossas escolas.

De dia, as flores de Laudelina encantavam, perfumavam. De noite, davam piscadelas para ser roubadas. Eram tempos, sim, de saber que as rosas não falam, que as rosas trescalam.
 
Bate uma saudade danada no coração ao ver que não há mais jovens ladrões das rosas de Laudelina, pobres rosas solitárias à passagem da multidão. Sei lá. Ouvi um «psiu» no coração. E deu saudade de Laudelina.
 
Bom dia


 

Fiel companheiro - Texto de Joaquim Nogueira

 
Fiel companheiro
 
 Texto de Joaquim Nogueira
 
 «… chamava-se Ben-Hur… não tinha raça certa e era preto… hoje o meu Black faz-me lembrar um pouco esse meu primeiro cão… eu tinha na altura os meus 5 anos e me lembro muito bem dele…
 
tinha a sua casota ao fundo do quintal junto aos galinheiros e ao pombal… (já naquele tempo o meu pai era columbófilo e de muito cedo a minha paixão pelos pombos se revelou que mais tarde, vim também a interessar-me pela modalidade)… servia de guarda mas de dia andava solto pelo quintal…
 
já contei no meu antigo blogue algumas histórias do meu actual Black mas sobre este meu primeiro companheiro ainda não havia escrito algo sobre ele… quando os meus pais saíam de casa e eu tinha de ficar, ele o Ben Hur ficava comigo dentro de casa…
 
então, inocentemente, brincava com ele e recordo que o seu corpo era maior que o meu… recordo que um dia a brincadeira me cansou e eu adormeci deitado no chão do corredor… ao meu lado o Ben Hur tinha-se deitado com a pata debaixo do meu pescoço e naquela posição ficara até os meus pais chegarem…
 
acordei com o rosnar do bicho… meus pais queriam pegar em mim mas o cão não o permitia… talvez dentro dele se travasse uma batalha: a quem obedecer?… Ao dono, meu pai, ou defender a posição do seu fiel companheiro que era eu?…
 
Recordo de me ter levantado e ao mesmo tempo ele se levantou também e se sacudiu, como é costume deles quando saem da água, como para desentorpecer os músculos que deveriam estar exaustos da posição ora assumida…
 
não tenho uma recordação muito fiel do olhar dele mas lembro-me do meu, dez anos depois quando ele morreu após prolongada doença e já cego não deixou de olhar para onde eu estava a ver os seus últimos momentos… não me via mas sentia-me…

quando tombou o focinho preto no cimento do chão, os meus olhos não contiveram as lágrimas… e, sinceramente, não sei porque me lembrei hoje dele, aqui e agora…
 
talvez porque o latido lá fora do meu actual Black me tenha feito recuar 50 anos no tempo e lembrar-me do meu primeiro cão…»