domingo, 16 de agosto de 2015

Fiel companheiro - Texto de Joaquim Nogueira

 
Fiel companheiro
 
 Texto de Joaquim Nogueira
 
 «… chamava-se Ben-Hur… não tinha raça certa e era preto… hoje o meu Black faz-me lembrar um pouco esse meu primeiro cão… eu tinha na altura os meus 5 anos e me lembro muito bem dele…
 
tinha a sua casota ao fundo do quintal junto aos galinheiros e ao pombal… (já naquele tempo o meu pai era columbófilo e de muito cedo a minha paixão pelos pombos se revelou que mais tarde, vim também a interessar-me pela modalidade)… servia de guarda mas de dia andava solto pelo quintal…
 
já contei no meu antigo blogue algumas histórias do meu actual Black mas sobre este meu primeiro companheiro ainda não havia escrito algo sobre ele… quando os meus pais saíam de casa e eu tinha de ficar, ele o Ben Hur ficava comigo dentro de casa…
 
então, inocentemente, brincava com ele e recordo que o seu corpo era maior que o meu… recordo que um dia a brincadeira me cansou e eu adormeci deitado no chão do corredor… ao meu lado o Ben Hur tinha-se deitado com a pata debaixo do meu pescoço e naquela posição ficara até os meus pais chegarem…
 
acordei com o rosnar do bicho… meus pais queriam pegar em mim mas o cão não o permitia… talvez dentro dele se travasse uma batalha: a quem obedecer?… Ao dono, meu pai, ou defender a posição do seu fiel companheiro que era eu?…
 
Recordo de me ter levantado e ao mesmo tempo ele se levantou também e se sacudiu, como é costume deles quando saem da água, como para desentorpecer os músculos que deveriam estar exaustos da posição ora assumida…
 
não tenho uma recordação muito fiel do olhar dele mas lembro-me do meu, dez anos depois quando ele morreu após prolongada doença e já cego não deixou de olhar para onde eu estava a ver os seus últimos momentos… não me via mas sentia-me…

quando tombou o focinho preto no cimento do chão, os meus olhos não contiveram as lágrimas… e, sinceramente, não sei porque me lembrei hoje dele, aqui e agora…
 
talvez porque o latido lá fora do meu actual Black me tenha feito recuar 50 anos no tempo e lembrar-me do meu primeiro cão…»
 
 


 

Ternura... - Conto de Irene Fernandes Abreu in Blogue Valium 50

 
Ternura...
 
 

 
 Marisa deu uma corrida e ainda conseguiu apanhar o comboio, que fechou logo as portas mal ela entrou. A carruagem nem estava muito cheia.
 
Olhou indecisa para o banco que estava logo à entrada da porta para se sentar, mas desistiu da ideia, porque a mulher que lia uma revista, estava sentada de tal forma, que não sobrava muito espaço para ela. Foi então que reparou na velhinha num dos bancos a meio da carruagem, que lhe lançou um sorriso convidativo:
- «Ah menina, ainda bem que se sentou aqui, estava com medo que fosse aquele sujeito que tem ar de ladrão...»
 
Ela sorriu e acenou com a cabeça, num gesto cúmplice.
 Sentada à janela do comboio, a velhinha confidenciou que já tinha tirado os «ouros», ou seja, os fios e pulseiras que habitualmente usava e que vinham já da sua avó. Filigranas raras, deviam valer bom dinheiro, se a roubassem... nem queria pensar no desgosto.
 
Tinha medo andar com eles assim à vista, pois o caminho da estação até a casa, a pé, era escuro e longo e agora andava por aí tanta malandragem, que todo o cuidado era pouco.
 
A «menina» olhou a idosa e enterneceu-se, lembrava-lhe a mãe, já falecida. A velhinha continuou a tagarelar, falando da filha, dos netos, da vida cara, do tempo cheio de humidade, que lhe atacava o reumático...
 
 Saíram na mesma estação e foi cada uma para seu lado, enquanto a jovem se metia no carro, estacionado mesmo ali, a velha senhora seguia devagar junto à linha. Ela olhou-a e, lembrando-lhe mais uma vez a figura da mãe, sentiu uma enorme ternura.
 
O seu carro já tinha percorrido alguns metros, quando num impulso, meteu marcha -atrás e parou junto da velhinha:
-«Avozinha, entre!» - disse com um sorriso meigo, esticando o braço e abrindo-lhe a porta do lado do passageiro.
 
Depois de a deixar à porta de casa, feliz por não ter de fazer a tal caminhada cheia de perigos de assaltantes e, entregue à filha e aos netos, Marisa retomou o seu caminho.
 
Chegou a casa, cansada mas contente. Bebeu um café e só então abriu a mala e despejou em cima da mesa o espólio desse dia, conseguido à custa de uns tantos empurrões nos transportes públicos...


 

 

Poesia de Sanio Aguiar Morgado - CINQUENTA ANOS - TEMPO DA POESIA

 
Poesia de Sanio Aguiar Morgado

CINQUENTA ANOS
 
 Hoje acordei com
 cinquenta anos e fui procurar
minha cara no espelho.

Onde estará o rosto
 que era meu, com tudo que sou
 e sempre esteve comigo.

Os cabelos que me
 cobriam a testa, a pele sem
fungos e o olhar sem rugas.

Agora tenho que me
 aceitar todos os dias e acostumar
 com todas estas diferenças.

Não me encontrarei
 mais neste espelho, mas este olhar
sei que ainda é o meu.
 
TEMPO DA POESIA
 
 Não há como evitar
este tempo que se esvai,
 pelos meus dedos
 e o olhar.

Perdendo-se em
labirintos, com sonhos
 presos a abismos
 que não se comunicam

Agonizando pelas
paredes e nas fotos
e papéis esquecidos
em gavetas.

Guardarei comigo
 preso a correntes, meus
 versos, estrofes e rimas
 do tempo da poesia.
 
FLORBELA ESPANCA
 
 Versos que ecoam do além,
 dor que não é só tua,
 é minha também.

Os amantes e sofredores
 estarão sempre juntos,
 eternamente...

Florbela Espanca,
o amor que de ti se espalha,
como vento beijando rosas.

Vila Viçosa... a tempestade
 de todo teu sofrimento
 no chão desta aldeia.

Paixão eterna, antiga,
 vida tão breve, tão sofrida,
 flor bela…flor querida...
 
QUEBRA CABEÇAS
 
 Desde pequeno fui guardando
 peças curiosas que encontrava,
 algumas pareciam escondidas
 e outras pelo caminho onde passava.

A vida foi então seguindo
 e muitas depois fui achando
 como um quebra cabeças que
 aos poucos fui montando.

Já percebo a sua forma,
 seus inúmeros tons, sei
 as peças que me faltam e que
 dependem mais de mim.

Não é fácil encontrá-las agora,
 é já segredo, uma revelação,
 e a qualquer instante poderei ver
 o mistério desta emoção.

Sanio Morgado
 
 

 
 

Coluna: Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano. - O Saci Pererê

 
Coluna: Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.
 
O Saci Pererê
 
Prólogo atual: este texto, feito em abril de 1998; faz parte de meu penúltimo livro, uma antologia de contos, crônicas e poesias, cujo título é «Fragmentos»; na verdade um livro quase inédito, posto que não tenho tempo de procurar livreiros e eles não me enxergam, quando os encontro.... .
 
Devido à tragédia que ocorreu com a cidade de São Luiz de Paraitinga, SP, durante o mês de janeiro de 2010 e sendo esta cidade a sede da Sociedade dos Criadores de Sacis (SOSACI), resolvei torná-lo público. Gostaria que os leitores pudessem ajudar as famílias de lá, da maneira que puderem!
 
Para os leitores lusófonos terem uma idéia, o desastre ambiental em São Luis de Paraitinga parece ser muito maior do que aquele que ocorreu na Ilha da Madeira, na última sexta feira, 19 de fevereiro de 2010; ainda com a diferença de que São Luis Paraitinga é uma cidade importante sob muitos aspectos, porém pobre... .
 
Quem quiser conhecer como a cidade era, entrar no site:
 o www.paraitinga.com.br
 
 
Toda vez que chegava uma nova família na fazenda de café, onde eu vivia, todos se alegravam. Os adultos, por terem mais um amigo por perto, já para a molecada da fazenda, nem se fala! E, ao ver-mos que na família nova tinha um menino da nossa idade então, ficávamos curiosíssimos: será que o novo amiguinho teria um dote especial? Será que ele sabe jogar bola melhor, brigar melhor, nadar melhor? Será que ele sabe tocar viola ou cavaquinho, fazer gaiola de passarinho e arapuca; será que é bom de estilingue ou bodoque e etc.?
 
Cada um de nós ficava imaginando qual seria a sua experiência de vida; se ele tinha irmãos e outras coisas.
Como era praxe, colono novo almoçava na casa do administrador no dia da chegada: era as «boas vindas». O Administrador, meu pai, pagava a despesa do próprio bolso, pois o fazendeiro sovina jamais o reembolsou; talvez Deus tenha feito isso por ele! Papai tinha muita pena de gente que viajava com filhos pequenos durante muitas horas, às vezes passavam o dia todo sem comer.
 
- Naquele sábado não foi diferente, quando vi o «panelão» que borbulhava no fogão à lenha, logo imaginei: como não vai haver festa, é colono novo chegando, e de longe.
- Percorri toda a colônia avisando meus amiguinhos que teríamos gente nova na fazenda e que meu pai afirmou que tinha um menino da minha idade. Nesse dia não saímos para pegar frutas, nem caçar, nem jogar bola: passamos o dia todo debaixo da mangueira do quintal da minha casa, brincando com vaquinhas e cavalinhos de bucha, caminhõezinhos de lata de marmelada, aos quais atávamos um «cordoné» para poder puxá-los.
 
Desse modo transportávamos uma boiada do curral de um até o piquete de outro, e vice-versa. Fazíamos transações comerciais, as quais eram pagas com tampinhas de refrigerantes (o guaraná Paulista valia um conto; guaraná Caçula, destões (um mil réis); Mãe-Preta ou Níger, quinhentos réis).
 
A tarde já se anunciava mostrando a barra do dia avermelhada e o céu azul, que só a região de Cravinhos tem, quando percebemos um certo alvoroço com o pessoal da casa: a carroça com a mudança do novo colono chegou. Eu e meus amiguinhos corremos até o portão da frente da casa e deparamos com uma família diferente: o pai, que estava conversando com o meu, era um crioulo alto, forte, com dentes brancos e perfeitos, com as carapinhas já embranquecendo; a mãe parecia bastante jovem, com um bebê no colo, ao mesmo tempo que dava ordens ao menino e sua irmã, um tanto atarantados com minha presença e de meus amiguinhos, e remexia em sacolas, sacos e embornais à procura de não sei o quê.
 
Meu pai muito gentil, pediu que apeassem e se preparassem para aquele almoço fora de hora. Minha mãe foi chispando reacender o fogo e botar o panelão e a assadeira para aquecer.
 
- Eu e meus amiguinhos não desgrudávamos os olhos do menino, que agora sabíamos chamar-se Ditinho, que por sua vez parecia muito incomodado com a nossa presença. Toda a família do Ditinho foi até a «vasca» do fundo do quintal, se refrescaram, banharam os braços e o rosto, molharam delicadamente a cabeça e a mãe penteou-os todos, até o marido.
 
Nesse ínterim minha mãe chamou-os para comer e já estava com a mesa posta: no panelão, risota caipira: uma espécie de sopa de pouco caldo com arroz, batata, frango, cenoura, vagem, cozidos com açafrão recém colhido, coberto de salsinha picada e queijo curado ralado; havia também mandioca frita, feijão, uma farinheira cheia de farinha de mandioca, que eu ajudei a fazer, e uma assadeira com um pernil de tatu «rabo mole» tostadinho, duas jarras de água da bica e uma tigela de arroz-doce com folhas de laranjeiras.
 
Eu e meus amiguinhos não ficamos ao lado da nova família de colonos, mas ficamos apinhados do lado de fora das duas janelas da sala com a grande mesa, onde freqüentemente comíamos em, no mínimo, nove pessoas.
 
Enquanto o pai do Ditinho almoçava, os camaradas da fazenda descarregaram a mudança na casa recém caiada da colônia, com chão de terra - batida, dois quartos, sala e cozinha. Na fazenda, os banheiros são feitos do lado de fora, diretamente sobre uma fossa, que a cada ano era coberta de «cal viva» e aterrada, sendo então feita uma outra.
 
Na verdade era cercada por folhas de zinco, e de zinco era também a cobertura. Eu e meus amiguinhos assistimos a despedida da família do Ditinho, agradecendo a hospitalidade e rumando para sua nova casa. Quando passou por nós, o Ditinho disse amanhã eu quero falar com vocês!
 
Ficamos bastante ansiosos, e mal podíamos esperar para falarmos com o novo amigo no dia seguinte. De manhã, como de costume, apanhei a caneca de louça, coloquei dois ou três dedos de café, acrescentei quatro colheres de açúcar cristal e fui até o curral, para tomar meu café com leite «direto da fonte».
 
A «fonte» era uma vaca rústica, toda «chitadinha» de branco e preto, chamada Bela Vista, que era a nossa preferida. O tirador de leite, que começava a ordenha por volta das quatro da manhã, precisava tirar o leite todo antes das sete horas, quando então enviava para minha casa duas latas de vinte litros: uma para os colonos e outra para fazer os queijos dos patrões; pelo menos dois por dia.
 
Portanto, o tirador de leite sempre deixava a Bela Vista para o final, pois a qualquer momento eu e meus irmãos podíamos querer leite fresco. Ele esperava até sete horas, aí então terminava seu serviço.
 
Pois bem, após meu desjejum, passei em casa e comi um belo pedaço de pão caseiro com queijo e me dirigi à colônia: pretendia reunir os meus amiguinhos e, juntos, irmos a casa do Ditinho. Mas, ao chegar à colônia, já os vi todos, inclusive o Ditinho, num bate-papo animado, que só parou quando me aproximei e disse: - o que você quer falar com a gente? Antes mesmo de o Ditinho abrir a boca, o Ném, meu amigo disse: ele vê e ouve saci - pererê!!.
 
Ele vê o que?, disse eu sem entender direito: saci - pererê, disseram todos em coro.
 
Nesse ponto, o Ditinho começou a contar a sua história: disse que sua mãe verdadeira já havia morrido, e aquela que morava com seu pai, era sua madrasta, e que sua irmã, por parte de mãe sofre de vermes e desmaia quando passa vontade de comer alguma coisa, mas que o bebê é lindo; a madrasta não liga pra ele e seu pai é generoso e trabalhador e que desde que era menino, ele via saci - pererê, só que não sabia o que era: a primeira vez que viu tinha quatro anos, fazia muito tempo, pois agora já tem sete e que qualquer criança pode ver o saci - pererê e que ele não faz mal a ninguém, só faz estripulias, que quando tinha cinco anos ele não quis brincar com o Saci e que o Saci derrubou todas as panelas da madrasta no chão da cozinha, durante a madrugada e que seu pai deu dois tiros de espingarda nele e que agora tem medo do saci se vingar do seu pai.
 
Eu e meus amiguinhos, inclusive o novo, ficamos ali até que ouvi o sino da sede da fazenda: era o sinal da minha mãe, avisando os filhos e meu pai que o almoço já estava pronto. Durante o almoço com minha família comentei com meu pai do menino novo que via e ouvia saci - pererê e enquanto meus irmãos faziam caçoada de mim, meu pai falou: Pois, agora, toda vez que vocês saírem juntos, você tem que levar uma caixa de fósforos no bolso. Meus irmãos todos se calaram e meu pai não disse mais uma palavra, continuou calmamente a almoçar, com o olhar cúmplice de minha mãe: No mesmo instante eu percebi que meu pai também acreditava, ou já tinha visto um saci - pererê.
 
Durante os próximos dias e durante todo o ano, até a colheita do café, após a qual todos os contratos dos colonos venciam e discutia-se, quem vai ficar na fazenda e quem vai sair, discutíamos os casos dos sacis - pererês.
 
Certo dia o tirador do leite não encontrava os baldes para a ordenha, num outro dia os rabos dos cavalos apareciam amarrados uns aos outros, noutra ocasião esvaziaram o lavador de café, inundando todo o terreiro de secagem e atrasando o beneficiamento por mais de uma semana, enfim de vez em quando alguma traquinagem acontecia na fazenda: e eu sempre com a caixa de fósforos no bolso.
 
No final da colheita do café daquele ano, a família do Ditinho resolveu ir embora para São Paulo e eu e meus amiguinhos ficamos muito tristes, pois embora o Ditinho não pudesse jogar bola e tivesse dificuldade de nadar ou caçar de estilingue suas estórias eram muito excitantes.
 
No dia da sua partida, marcamos com ele para nos despedirmos junto à porteira da fazenda, uns dois quilômetros longe de casa, em meio a uma mata fechada. Quando a carroça com a mudança chegou, não vimos o Ditinho. Perguntamos por ele, e seu pai disse: ele vem vindo a pé pelo meio do mato - e foi embora. Estranhamos muito, mas ficamos ali esperando.
 
Após algum tempo, ouvimos um assovio longo e forte e nos voltamos para uma «picada» no mato e vimos o Ditinho com um boné vermelho na cabeça, cachimbo na boca, pulando sobre sua perna aleijada, completamente pelado e gritando:- me dá o fogo senão morre ou fica bobo!
 
Todo amedrontado, retirei a caixa de fósforos do bolso e entreguei ao Ditinho, que saiu rindo alto e assoviando, pulando atrás da carroça de mudança.
 
O Ditinho era o próprio saci-pererê!


 

Casimiro de Abreu - Por Sanio Morgado

 
 
Casimiro de Abreu
 
Por Sanio Morgado
 
José Marques Casimiro de Abreu nasceu numa antiga freguesia que correspondia aos atuais municípios de Casimiro de Abreu e Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, Brasil, aos 4 dias do mês de janeiro de 1839.
 
Filho de rico fazendeiro e comerciante português, que tinha atividades clandestinas relacionada com a escravidão, Casimiro inicia ali mesmo seus estudos na própria fazenda da família, continuando em Nova Friburgo e no Rio de janeiro, embora ocorressem interrupções nos estudos, devido aos problemas de seu pai com a justiça que lhe obrigava a contragosto as atividades comerciais.
 
Viajando a Portugal já com 14 anos, dedica-se às letras , publicando páginas em prosa e um drama «Camões e o Jaú», representado quando o poeta contava 17 anos. Pouco depois retorna ao Rio e com a atividade literária intensa, já que não gostava do comércio.
 

 
Casimiro era profundamente religioso e bom caráter, meio moleque, gozador e fumante de bons charutos. Em 1859 publicou-se «AS PRIMAVERAS» , livro de grande valor literário. Sua obra escassa com pouco mais de 100 poemas distingue-se pela leveza e meiguice com um tom nostálgico advindo de sua enfermidade e saudades da pátria.
 
Antes mesmo de completar 22 anos , atacado pela tuberculose, em 18 de outubro de 1860 o grande ícone da cultura fluminense faleceu , após 8 meses de pavoroso calvário. E um dos patronos da Academia Brasileira de Letras.
 
-«Oh! Que saudades que eu tenho da aurora da minha vida , da minha infância querida que os anos não trazem mais!» (Meus oito anos).
«Se eu tenho de morrer na flor dos anos Meu Deus! Não seja já; Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde, cantar o sabiá!» (Canção do Exílio).
 
Ao passarmos por sua terra natal, hoje em sua homenagem CASIMIRO DE ABREU, há um tom poético em sua arquitetura e beleza, conhecida como a cidade dos poetas, nos reserva na região dos lagos do Rio de Janeiro um dos mais belos cartões postais com seu mar e sua montanha.
 

 
 DESEJO
 
Se eu soubesse que no mundo
 existia um coração,
 que só por mim palpitasse
 de amor em terna expansão;
 do peito calara as mágoas,
 bem feliz eu era então!
 
Se essa mulher fosse linda
como os anjos lindos são,
 se tivesse quinze anos,
 se fosse rosa em botão,
 se ainda brincasse inocente
 descuidosa no gazão;
 
Se tivesse a tez morena,
 os olhos com expressão,
 negros, negros, que matassem,
 que morressem de paixão,
 impondo sempre tiranos
 um jugo de sedução;
 
Se as tranças fossem escuras,
 lá castanhas é que não,
 e que caíssem formosas
 ao sopro da viração,
 sobre uns ombros torneados,
 em amável confusão;
 
Se a fronte pura e serena
 brilhasse d’inspiração,
 se o tronco fosse flexível
 como a rama do chorão,
 se tivesse lábios rubros,
 pé pequeno e linda mão;
 
Se a voz fosse harmoniosa
 como d’harpa a vibração,
 suave como a da rola
 que geme na solidão,
 apaixonada e sentida
como do bardo a canção;
 
E se o peito lhe ondulasse
 em suave ondulação,
 ocultando em brancas vestes
 na mais branda comoção
 tesouros de seios virgens,
 dois pomos de tentação;
 
E se essa mulher formosa
 que me aparece em visão,
 possuísse uma alma ardente,
 fosse de amor um vulcão;
 por ela tudo daria...
-A vida, o céu, a razão!
 
 Sanio Morgado
 
 
 

sábado, 15 de agosto de 2015

EXERCICIOS MENTAIS E SENILIDADE - Por Manuel Fragata de Morais


EXERCICIOS MENTAIS E SENILIDADE

in Memórias da Ilha

Por Manuel Fragata de Morais

Ao chegarmos à média idade, notamos que começamos a esquecermo-nos de pequenas coisas, pequenos acontecimentos e situações e entramos em parafuso, preocupados com a nossa memória que já não mais responde aos comandos tradicionais.
E uma reacção primária e normal, todavia se pararmos para pensar um pouco, cedo chegaremos a uma conclusão óbvia; a de que a memória, tal como o corpo, sem exercício, não funciona de maneira adequada e começa a mirrar, a tornar-se esparsa e espaçada.

O tema de hoje ocorreu-me ao pensar nos 86 anos que minha mãe em breve celebrará, e nos 81 anos que o meu querido amigo e confrade no esgrimir de palavras e ideias, o nosso Uanhenga Xitu, aliás de Agostinho Mendes de Carvalho ou, melhor dito, seu nome de kimbundu, celebrou há dias, com muito carinho de todos nós.

Ambos são pessoas activas e envolvidas, a minha mãe não tanto quanto o ti Mendes nas mesmas lavras, claro. Mas nas dela, é um prazer ver, desde que a memória não lhe seja muito solicitada. Se não, o caso vira prazeroso para todos nós, por ela não se dar por achada,

Li um programa, elaborado por uma americana, a senhora Kimberly McClain, que é uma espécie de guia prático, uma receita, para ajuda do refrescamento da memória, que consiste em exercícios práticos e simples, para que não passemos horas a indagarmo-nos onde é que o raio da chave da casa ficou, para onde é que fugiu o telemóvel, se desligámos ou não o gás da cozinha, culparmo-nos por não termos recordado o aniversário da Maricota, etc.

Esses exercícios são um pouco o que seria a aeróbica para o corpo ou, já que estou a falar de mais velhos, a ginástica sueca, ou a musculação soft do John Weismuller (vejam que já nem me recordo como se escreve), lembram-se?

E não há, hoje, qualquer sombra de dúvida que, para aqueles que se mantêm permanente e mentalmente activos, a senilidade é uma praga ainda bem longe. Perguntem aos mais velhos(as) que passam a vida a fazer palavras cruzadas, passatempos, a jogar xadrez ou damas, quebra-cabeças, a escrever, a desenhar e ou a pintar, a dançar kuduro ou a tarrachinha, a inventar engenhocas com os restos das latas e artefactos velhos e usados, ou a atazanar a vida de colegas quer no Parlamento quer no Governo com picuinhices que fazem muito bem à saúde mental.

E é claro que, numa sociedade como a norte-americana, crescentemente mais envelhecida e «engordecida» (a minha palavra preferida), com o mal de Alzheimer respandido, assim como com outros tipos de doenças mentais, esta preocupação com a memória, atirou a comunidade científica para pesquisas múltiplas, sobretudo no que refere ao scanning e mapeamento do cérebro, onde, com ajuda de alta tecnologia, já o esquadrinharam quase todo para aprenderem e entenderem o seu funcionamento, a fim de que o envelhecimento não signifique necessária e imediatamente uma questão de senilidade.

Aliando-se os exercícios mentais aos antioxidantes, como o selénio, a vitamina C e E, ou às ervas tradicionais, poder-se-á contribuir para um retardamento do processo da perda de memória e a proteger-se o cérebro.

Já é evidente que os processos para evitar-se o «engordecimento» (que me perdoem o bisar do termo, mas trata-se de amor à primeira vista) que leva às paragens cardíacas, como alimentação correcta, manutenção de um colesterol e pressão arterial baixos, exercícios físicos regulares, são os mesmos que protegem o cérebro, daí procurar-se saber se as mesmas drogas para o colesterol serão eficazes para a nossa matéria pensante.

A receita para a memória, que a senhora McClain utiliza, numa possível relação causa - efeito, inclui, entre outras coisas, uma dieta alimentar saudável correndo paralela a exercícios físicos diários, técnicas de relaxamento e exercícios de memória diversos.

Mesmo sabendo que os mais velhos(as), por tendência natural, são avessos a tudo isto que referi, aqui deixo o recado. Toca de exercitar, de comer bem, não em quantidade mas em qualidade se possível, e fazer exercícios mentais, como memorizar o que o vosso guarda-roupa tem lá dentro, por exemplo, ou quando é que viram o vosso neto tomar banho pela última vez.


IN MEMORIAS DA ILHA - CRONICAS

Publicada por FRAGATA DE MORAIS

http://www.literaturafragatademorais.blogspot.com/  



 

Coluna de Liliana Josué - (Sobre) DUAS GOTAS... A MESMA FONTE (Livro de Liliana Josué e Mário Matta e Silva)


Coluna de Liliana Josué


(Sobre) DUAS GOTAS... A MESMA FONTE (Livro de Liliana Josué e Mário Matta e Silva)

Minha introdução no dia do lançamento do livro

Já por várias vezes pensei e colocar este texto e o livro no meu blog , no entanto fui sempre adiando pois considerava-o já sem grande actualidade. Hoje conclui que não, é um trabalho de 2007 mas faz parte de mim, e deu-me deu um enorme prazer fazê-lo. Por isso mesmo aqui vai ele.

Foi na Antologia da Associação Portuguesa de Poetas de 2006,que me estreei na publicação de poesia própria, mais tarde continuando noutras Antologias.
Porém, este livro tornou-se um importante desafio para mim.
Desbravar uma tal temática não é tarefa fácil. Não pela falta de encanto, mas pela sua ousadia.

E certo que, hoje em dia, o tema do erotismo não tem grandes tabus, mas também não é menos verdade que expô-lo nem sempre é fácil. E porquê? Porque a mulher ainda sente a grilhetas de toda uma existência de repressão.
Mesmo quando se dizia que a mulher estava a ser libertada do seu cativeiro, quanto a mim, não foi verdade, ainda hoje não é verdade.

Por exemplo, no Período Medieval, a Igreja, considerava uma heresia a questão do erotismo. Por sua causa muita gente foi castigada e perseguida. Quanto às mulheres, um autêntico flagelo.
Mais tarde, com o Renascimento, apesar da tentativa de abertura das mentalidades (com a perfeição dos legados clássicos), a mulher ainda é mostrada, na arte, muito ligada a símbolos religiosos, a Inquisição assim o impunha( não quero com isto dizer que não houvesse quem tivesse tentado dar uma outra perspectiva da mulher), mas coisa ainda muito primária, e pouco edificante.

Entramos no Romantismo e deparamos com a mulher idealizada, quase assexuada, a pura das puras. Quando assim não se apresentava, quanto muito poderia ser considerada uma interessante rameira ou cortesã .

Com a pretensão, um pouco mais tarde, dos Impressionistas (correspondendo na literatura ao Simbolismo) dá-se outra nova pseudo evolução feminina. Como exemplo temos o célebre quadro de Manet «Dejeuner sur L'herbe» (1863). Um quadro sem dúvida lindíssimo mas, aquela nudez feminina ainda não é sinónimo de respeito, mas sim uma provocação do autor perante a sociedade da sua época.

Dando um salto até aos nossos dias, e para não me alargar mais, considero que a mulher ainda é pouco respeitada na sua nudez e no seu erotismo.
Não é por exibir o corpo em tudo o que é cartaz publicitário, cinema, etc. que a emancipação e o respeito chegaram. Por vezes é o contrário, continua subjugada a canons criados por sociedades ainda escravisantes da mulher.

Por isso mesmo sinto-me satisfeita, embora não sendo fácil, expor ao mundo algo criado por mim, onde mostro, ou pelo menos assim o pretendi, uma mulher completa, reunindo amor e erotismo como um todo, porque erotismo sem amor não é o verdadeiro erotismo e amor sem erotismo também não é suficiente.

Igual entusiasmo me despertou a existência de um dialogo conseguido entre os dois autores, duma forma, que me parece, pouco divulgada.
O Ser Humano só constitui um todo na união das suas partes.

Nota: Os dois poemas abaixo fazem parte do livro

CONFLITO

Saltei o «muro da vergonha»
afrontando hirta a medonha
multidão. Suando emoções
cuspindo raivas e tensões
esbarrando em risos escarninhos
olhares franzidos, miudinhos.
Chegaste perto, macio, triste
e de alma em alvoroço viste
meus olhos baços de contida
raiva, no silêncio sofrida.
Teus lábios tocaram os meus
soprando a nuvem do adeus.

De brandos beijos nossas bocas
passaram a delícias loucas
e a fúria que eu antes senti
pelo mundo, entreguei-a a ti
desfrutando assim o vigor
das tuas carícias de amor.

(in: Duas Gotas... A Mesma Fonte)

Liliana Josué



IRRESISTIVEL

Gosto de te sentir abandonado
na nossa sala de sofá listado
e requebrar de forma incorrigível
porque vou ser p'ra ti irresistível.

Gosto de correr nua à tua frente
como animal bravio de sangue quente
num despudor de gesto irreprimível
porque vou ser p'ra ti irresistível.

Gosto desse teu beijo extenuado
que me atiras lá do sofá listado
porque vou ser p'ra ti irresistível.

Gosto de olhar teu corpo nu, ansioso
sentir nele o desejo furioso
porque sei que te sou imprescindível.

(in: Duas Gotas... A Mesma Fonte)

Liliana Josué