domingo, 16 de agosto de 2015

Casimiro de Abreu - Por Sanio Morgado

 
 
Casimiro de Abreu
 
Por Sanio Morgado
 
José Marques Casimiro de Abreu nasceu numa antiga freguesia que correspondia aos atuais municípios de Casimiro de Abreu e Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, Brasil, aos 4 dias do mês de janeiro de 1839.
 
Filho de rico fazendeiro e comerciante português, que tinha atividades clandestinas relacionada com a escravidão, Casimiro inicia ali mesmo seus estudos na própria fazenda da família, continuando em Nova Friburgo e no Rio de janeiro, embora ocorressem interrupções nos estudos, devido aos problemas de seu pai com a justiça que lhe obrigava a contragosto as atividades comerciais.
 
Viajando a Portugal já com 14 anos, dedica-se às letras , publicando páginas em prosa e um drama «Camões e o Jaú», representado quando o poeta contava 17 anos. Pouco depois retorna ao Rio e com a atividade literária intensa, já que não gostava do comércio.
 

 
Casimiro era profundamente religioso e bom caráter, meio moleque, gozador e fumante de bons charutos. Em 1859 publicou-se «AS PRIMAVERAS» , livro de grande valor literário. Sua obra escassa com pouco mais de 100 poemas distingue-se pela leveza e meiguice com um tom nostálgico advindo de sua enfermidade e saudades da pátria.
 
Antes mesmo de completar 22 anos , atacado pela tuberculose, em 18 de outubro de 1860 o grande ícone da cultura fluminense faleceu , após 8 meses de pavoroso calvário. E um dos patronos da Academia Brasileira de Letras.
 
-«Oh! Que saudades que eu tenho da aurora da minha vida , da minha infância querida que os anos não trazem mais!» (Meus oito anos).
«Se eu tenho de morrer na flor dos anos Meu Deus! Não seja já; Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde, cantar o sabiá!» (Canção do Exílio).
 
Ao passarmos por sua terra natal, hoje em sua homenagem CASIMIRO DE ABREU, há um tom poético em sua arquitetura e beleza, conhecida como a cidade dos poetas, nos reserva na região dos lagos do Rio de Janeiro um dos mais belos cartões postais com seu mar e sua montanha.
 

 
 DESEJO
 
Se eu soubesse que no mundo
 existia um coração,
 que só por mim palpitasse
 de amor em terna expansão;
 do peito calara as mágoas,
 bem feliz eu era então!
 
Se essa mulher fosse linda
como os anjos lindos são,
 se tivesse quinze anos,
 se fosse rosa em botão,
 se ainda brincasse inocente
 descuidosa no gazão;
 
Se tivesse a tez morena,
 os olhos com expressão,
 negros, negros, que matassem,
 que morressem de paixão,
 impondo sempre tiranos
 um jugo de sedução;
 
Se as tranças fossem escuras,
 lá castanhas é que não,
 e que caíssem formosas
 ao sopro da viração,
 sobre uns ombros torneados,
 em amável confusão;
 
Se a fronte pura e serena
 brilhasse d’inspiração,
 se o tronco fosse flexível
 como a rama do chorão,
 se tivesse lábios rubros,
 pé pequeno e linda mão;
 
Se a voz fosse harmoniosa
 como d’harpa a vibração,
 suave como a da rola
 que geme na solidão,
 apaixonada e sentida
como do bardo a canção;
 
E se o peito lhe ondulasse
 em suave ondulação,
 ocultando em brancas vestes
 na mais branda comoção
 tesouros de seios virgens,
 dois pomos de tentação;
 
E se essa mulher formosa
 que me aparece em visão,
 possuísse uma alma ardente,
 fosse de amor um vulcão;
 por ela tudo daria...
-A vida, o céu, a razão!
 
 Sanio Morgado
 
 
 

sábado, 15 de agosto de 2015

EXERCICIOS MENTAIS E SENILIDADE - Por Manuel Fragata de Morais


EXERCICIOS MENTAIS E SENILIDADE

in Memórias da Ilha

Por Manuel Fragata de Morais

Ao chegarmos à média idade, notamos que começamos a esquecermo-nos de pequenas coisas, pequenos acontecimentos e situações e entramos em parafuso, preocupados com a nossa memória que já não mais responde aos comandos tradicionais.
E uma reacção primária e normal, todavia se pararmos para pensar um pouco, cedo chegaremos a uma conclusão óbvia; a de que a memória, tal como o corpo, sem exercício, não funciona de maneira adequada e começa a mirrar, a tornar-se esparsa e espaçada.

O tema de hoje ocorreu-me ao pensar nos 86 anos que minha mãe em breve celebrará, e nos 81 anos que o meu querido amigo e confrade no esgrimir de palavras e ideias, o nosso Uanhenga Xitu, aliás de Agostinho Mendes de Carvalho ou, melhor dito, seu nome de kimbundu, celebrou há dias, com muito carinho de todos nós.

Ambos são pessoas activas e envolvidas, a minha mãe não tanto quanto o ti Mendes nas mesmas lavras, claro. Mas nas dela, é um prazer ver, desde que a memória não lhe seja muito solicitada. Se não, o caso vira prazeroso para todos nós, por ela não se dar por achada,

Li um programa, elaborado por uma americana, a senhora Kimberly McClain, que é uma espécie de guia prático, uma receita, para ajuda do refrescamento da memória, que consiste em exercícios práticos e simples, para que não passemos horas a indagarmo-nos onde é que o raio da chave da casa ficou, para onde é que fugiu o telemóvel, se desligámos ou não o gás da cozinha, culparmo-nos por não termos recordado o aniversário da Maricota, etc.

Esses exercícios são um pouco o que seria a aeróbica para o corpo ou, já que estou a falar de mais velhos, a ginástica sueca, ou a musculação soft do John Weismuller (vejam que já nem me recordo como se escreve), lembram-se?

E não há, hoje, qualquer sombra de dúvida que, para aqueles que se mantêm permanente e mentalmente activos, a senilidade é uma praga ainda bem longe. Perguntem aos mais velhos(as) que passam a vida a fazer palavras cruzadas, passatempos, a jogar xadrez ou damas, quebra-cabeças, a escrever, a desenhar e ou a pintar, a dançar kuduro ou a tarrachinha, a inventar engenhocas com os restos das latas e artefactos velhos e usados, ou a atazanar a vida de colegas quer no Parlamento quer no Governo com picuinhices que fazem muito bem à saúde mental.

E é claro que, numa sociedade como a norte-americana, crescentemente mais envelhecida e «engordecida» (a minha palavra preferida), com o mal de Alzheimer respandido, assim como com outros tipos de doenças mentais, esta preocupação com a memória, atirou a comunidade científica para pesquisas múltiplas, sobretudo no que refere ao scanning e mapeamento do cérebro, onde, com ajuda de alta tecnologia, já o esquadrinharam quase todo para aprenderem e entenderem o seu funcionamento, a fim de que o envelhecimento não signifique necessária e imediatamente uma questão de senilidade.

Aliando-se os exercícios mentais aos antioxidantes, como o selénio, a vitamina C e E, ou às ervas tradicionais, poder-se-á contribuir para um retardamento do processo da perda de memória e a proteger-se o cérebro.

Já é evidente que os processos para evitar-se o «engordecimento» (que me perdoem o bisar do termo, mas trata-se de amor à primeira vista) que leva às paragens cardíacas, como alimentação correcta, manutenção de um colesterol e pressão arterial baixos, exercícios físicos regulares, são os mesmos que protegem o cérebro, daí procurar-se saber se as mesmas drogas para o colesterol serão eficazes para a nossa matéria pensante.

A receita para a memória, que a senhora McClain utiliza, numa possível relação causa - efeito, inclui, entre outras coisas, uma dieta alimentar saudável correndo paralela a exercícios físicos diários, técnicas de relaxamento e exercícios de memória diversos.

Mesmo sabendo que os mais velhos(as), por tendência natural, são avessos a tudo isto que referi, aqui deixo o recado. Toca de exercitar, de comer bem, não em quantidade mas em qualidade se possível, e fazer exercícios mentais, como memorizar o que o vosso guarda-roupa tem lá dentro, por exemplo, ou quando é que viram o vosso neto tomar banho pela última vez.


IN MEMORIAS DA ILHA - CRONICAS

Publicada por FRAGATA DE MORAIS

http://www.literaturafragatademorais.blogspot.com/  



 

Coluna de Liliana Josué - (Sobre) DUAS GOTAS... A MESMA FONTE (Livro de Liliana Josué e Mário Matta e Silva)


Coluna de Liliana Josué


(Sobre) DUAS GOTAS... A MESMA FONTE (Livro de Liliana Josué e Mário Matta e Silva)

Minha introdução no dia do lançamento do livro

Já por várias vezes pensei e colocar este texto e o livro no meu blog , no entanto fui sempre adiando pois considerava-o já sem grande actualidade. Hoje conclui que não, é um trabalho de 2007 mas faz parte de mim, e deu-me deu um enorme prazer fazê-lo. Por isso mesmo aqui vai ele.

Foi na Antologia da Associação Portuguesa de Poetas de 2006,que me estreei na publicação de poesia própria, mais tarde continuando noutras Antologias.
Porém, este livro tornou-se um importante desafio para mim.
Desbravar uma tal temática não é tarefa fácil. Não pela falta de encanto, mas pela sua ousadia.

E certo que, hoje em dia, o tema do erotismo não tem grandes tabus, mas também não é menos verdade que expô-lo nem sempre é fácil. E porquê? Porque a mulher ainda sente a grilhetas de toda uma existência de repressão.
Mesmo quando se dizia que a mulher estava a ser libertada do seu cativeiro, quanto a mim, não foi verdade, ainda hoje não é verdade.

Por exemplo, no Período Medieval, a Igreja, considerava uma heresia a questão do erotismo. Por sua causa muita gente foi castigada e perseguida. Quanto às mulheres, um autêntico flagelo.
Mais tarde, com o Renascimento, apesar da tentativa de abertura das mentalidades (com a perfeição dos legados clássicos), a mulher ainda é mostrada, na arte, muito ligada a símbolos religiosos, a Inquisição assim o impunha( não quero com isto dizer que não houvesse quem tivesse tentado dar uma outra perspectiva da mulher), mas coisa ainda muito primária, e pouco edificante.

Entramos no Romantismo e deparamos com a mulher idealizada, quase assexuada, a pura das puras. Quando assim não se apresentava, quanto muito poderia ser considerada uma interessante rameira ou cortesã .

Com a pretensão, um pouco mais tarde, dos Impressionistas (correspondendo na literatura ao Simbolismo) dá-se outra nova pseudo evolução feminina. Como exemplo temos o célebre quadro de Manet «Dejeuner sur L'herbe» (1863). Um quadro sem dúvida lindíssimo mas, aquela nudez feminina ainda não é sinónimo de respeito, mas sim uma provocação do autor perante a sociedade da sua época.

Dando um salto até aos nossos dias, e para não me alargar mais, considero que a mulher ainda é pouco respeitada na sua nudez e no seu erotismo.
Não é por exibir o corpo em tudo o que é cartaz publicitário, cinema, etc. que a emancipação e o respeito chegaram. Por vezes é o contrário, continua subjugada a canons criados por sociedades ainda escravisantes da mulher.

Por isso mesmo sinto-me satisfeita, embora não sendo fácil, expor ao mundo algo criado por mim, onde mostro, ou pelo menos assim o pretendi, uma mulher completa, reunindo amor e erotismo como um todo, porque erotismo sem amor não é o verdadeiro erotismo e amor sem erotismo também não é suficiente.

Igual entusiasmo me despertou a existência de um dialogo conseguido entre os dois autores, duma forma, que me parece, pouco divulgada.
O Ser Humano só constitui um todo na união das suas partes.

Nota: Os dois poemas abaixo fazem parte do livro

CONFLITO

Saltei o «muro da vergonha»
afrontando hirta a medonha
multidão. Suando emoções
cuspindo raivas e tensões
esbarrando em risos escarninhos
olhares franzidos, miudinhos.
Chegaste perto, macio, triste
e de alma em alvoroço viste
meus olhos baços de contida
raiva, no silêncio sofrida.
Teus lábios tocaram os meus
soprando a nuvem do adeus.

De brandos beijos nossas bocas
passaram a delícias loucas
e a fúria que eu antes senti
pelo mundo, entreguei-a a ti
desfrutando assim o vigor
das tuas carícias de amor.

(in: Duas Gotas... A Mesma Fonte)

Liliana Josué



IRRESISTIVEL

Gosto de te sentir abandonado
na nossa sala de sofá listado
e requebrar de forma incorrigível
porque vou ser p'ra ti irresistível.

Gosto de correr nua à tua frente
como animal bravio de sangue quente
num despudor de gesto irreprimível
porque vou ser p'ra ti irresistível.

Gosto desse teu beijo extenuado
que me atiras lá do sofá listado
porque vou ser p'ra ti irresistível.

Gosto de olhar teu corpo nu, ansioso
sentir nele o desejo furioso
porque sei que te sou imprescindível.

(in: Duas Gotas... A Mesma Fonte)

Liliana Josué 



 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Jornal Raizonline Nº 273 de 30 de Julho de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - Os anos da miséria


Jornal Raizonline Nº 273 de 30 de Julho de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - Os anos da miséria

Os anos da miséria

Viver em Portugal nunca foi fácil: basta ler alguns dos nossos clássicos, descontando aqueles que fizeram apologias em curtos períodos da nossa história, para ficarmos certos que umas vezes com razão outras sem muita razão, rara é a perspectiva positiva sobre o ser-se português em Portugal.

Camilo Castelo Branco, numa resenha crítica que faz sobre Camões, diz com o sentido de humor corrosivo que se lhe reconhece, que não se quer, na nossa literatura, um Camões sorridente, feliz, quer-se um Camões torturado pela desgraça, um sofredor. A ilha dos amores, esse milagre camoneano vive algures num canto recôndito do longo poema: não tem quase direito a referência.Mas já a morte da pobre Inês enche referências e ensaios aos milhares.

Em certo sentido, com mais humor ou menos humor, uma parte substancial - bem substancial frise-se - da nossa história retém, preferentemente, as partes «choramingas» e com raras excepções o português pela-se por uma boa angústia que venha antes ou após o jantar.

Em rigor pode dizer-se que o português médio (de uma média transversal numérica e de classe) fica feliz apenas quando refere uma forma da desgraça do seu ser português em Portugal. António Gedeão diz num dos seus poemas que «não é impunemente que se nasce em Portugal». Ou seja, tem de se pagar um preço e para os mais pessimistas o total a pagar nunca se acaba.

Por isso continuamos pagando: os jornais mais lidos em Portugal são aqueles que colectam as desgraças do dia a dia e mesmo a chamada leitura cor de rosa tem de ter, por exemplo, a desgraça de se engordar ou de se emagrecer, uns quilitos, nada de mais, esquecendo oportunamente que por este país (e pelo mundo fora) existem pessoas que gostariam de ter semelhantes preocupações.

Eu, por exemplo, não admito sequer a possibilidade de não estar sempre extremamente triste, não forçosamente porque vivo em Portugal mas porque se o não estiver (triste, extremamente triste) sinto-me estrangeiro, emigrado, refugiado.

E quando se diz que se está triste, por estes lados do planeta, é mesmo para valer. Dentro desta alarvidade de tristeza não há gota de alegria que entre, mesmo que ela esteja a chover. Os corpos e as mentes fecham-se, encarquilham-se - é o termo - curvam-se sobre si mesmos e servem de ricochete a toda a possibilidade de alegria que ronde pelas proximidades.

Para finalizar, e para dar uma alegria triste aos portugueses que se prezam da nossa tristeza, afirmo que tenho uma suspeita de que em Portugal e para Portugal e para os portugueses não existe um horizonte de alegria previsto para os próximos anos.



Tabuí e seus Causos - INCIDENTE NA JARDINEIRA - PALAVRA DE BÊBADO VALE?


Tabuí e seus Causos

INCIDENTE NA JARDINEIRA

O Tié, caipirim miudim e timiduzim embarcou, nos tempos de antigamente, na jardineira que transportava o povo de Belzonte pra Tabuí. Ao seu lado, bem na janela, um “armário” engravatado, pesando mais de uns cento e vinte quilos, alto demais da conta e com cara de lutador de alguma coisa, no maior ronco.

Já bem depois da metade da viagem, o Tié, de tanto ver curva, cheirar poeira com cecê misturados com fedor de gasolina, começa a ficar enjoado e a virar o zoinho. Foi fono, foi fono, até que não aguentou mais e entregou os pontos.

Despejou tudo o que tinha comido – pão de queijo, sanduíche de mortadela, pastel de queijo, linguiça frita, ovo cozido e mais umas doze coisinhas diferentes – bem no peito do colega de viagem.

E aquilo, além de encher os bolsos do paletó, ficou escorrendo entre este e a camisa do companheiro viajante. No desespero, suando frio, cheirando inhaca, limpando a boca e o bigodim com a manga da camisa, Tié queria sumir no mundo, descer da condução ou, no mínimo, mudar de lugar, mas a jardineira tava lotada e não parava pra nada.

O “armário” nem tium. Continuava puxando o sono e roncando, com a boca aberta.

Pouco antes de chegar a Tabuí, o monte de homem acorda, sente o cheiro estranho – cheiro não, fedentina braba - e passa a mão naquele peito melecado e gosmento. Quando olha, desconfiado, confuso e indignado pro Tié, este bate a mão no ombro do vizinho de banco e pergunta, carinhoso e cheio de dedos:

- Cumpanhero, cê miorô?... Tá mais mió?... Tá?

©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos



PALAVRA DE BÊBADO VALE?

Dois negociantes da cidade grande resolvem sair pelo interior a fora a fim de passar a perna na capiauzada.

Foi aí que chegaram em Tabuí, cidadezinha alterosa. Lá num boteco de um cantinho da cidade, caladinho, sentado num tamborete, estava o velho Vito. Cavalinho piquira lá fora esperando o dono tomar umas e outras para depois carregá-lo com toda paciência para casa.

Só que o velho Vito, capiau desconfiado e esperto, sem nem um tostão no bolso, estava esperando alguém para também dar um golpe.

Quando os dois bacanas entram no boteco, tendo visto o cavalinho lá fora, olham gulosos para o velho. E este, vendo os dois, mira sedento nos olhos de cada um e faz aquele ar tristonho de capiau sofredor e ignorante.

E o Vito, mesmo olhando a importância dos dois, pensa com os seus poucos botões: "pra quem tá com fome e com sede duma branquinha, formiga é pimenta do reino. Vô enguli essas duas formigonas engravatadas..."

- Não quer vender o cavalo, meu amigo?

- Vendo uai! Vinte mil mango é o preço dele. Quem pagá leva!
Os negociantes se entreolham e resolvem executar um plano que já tinha dado certo diversas vezes. Encher de cachaça o vendedor para levar o animal praticamente de graça.

- Não quer acompanhar a gente num traguinho, meu amigo?
- Carece não, moço! vô injeitá! Responde o velho Vito já arrependido da resposta. Boca seca. Sede danada duma branquinha queimadeira.

- Eu insisto, meu amigo! Venha pra junto de nós!
O velhinho sai, morrendo de humildade, do seu cantinho, e de uma golada só entorna no bucho meio copo de cachaça e ainda lambe os beiços.

Os negociantes gostaram da reação do velho e pensam: "já está no papo". Mandam encher outro copo que o velho Vito entorna novamente de uma golada só.
- Quanto é mesmo o cavalinho, meu amigo?
- É trinta. Trinta mil mango é o preço dele. Quem pagá leva.

Os dois da cidade grande se olham meio assustados; Pedem mais uma talagada para tirar a dúvida, e o velhinho emborca tudo de uma só virada.
- O cavalinho é quanto mesmo, meu amigo?
- É corenta. Corenta mil mango. Quem pagá leva.

Depois de mais uns três copos da branquinha, com o velho Vito já bêbado, de quatro e trocando as palavras, o cavalinho já estava custando setenta mil paus.

Os dois negociantes cada vez mais assustados e ficando sem graça com a história. Entornam mais bebida no velho.
- E o cavalinho, velho, diga quanto você quer por ele?

- Ieu? Hic... Quero nada não, moço! Hic... Num é pra vendê mais não! Hic... Ia vendê ele pra tomá uns golo. Já tomei dimais da conta, agora vendo mais meu amiguinho não, uai! Hic!...

©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos

https://www.facebook.com/causos e

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Prazer e obrigação - por Tom Coelho


Prazer e obrigação

por Tom Coelho

“Marcha com o pé direito para as tuas obrigações
e com o pé esquerdo para os teus prazeres.”
 (Pitágoras)

Desde minha adolescência sempre fui um praticante de esportes, usufruindo de seus muitos benefícios. Da natação, que contribuiu para amenizar os efeitos de uma bronquite alérgica, passando pelo basquetebol, que me ensinou a importância do trabalho em equipe, até o taekwondo, arte marcial coreana que me auxiliou na construção de uma postura autoconfiante e determinada, típica da cultura oriental.

Também pratiquei canoagem e vela, desenvolvendo a concentração para manter-me equilibrado e veloz dentro da embarcação; paraquedismo, aprendendo a conhecer e superar limitações, respeitar o medo e até enfrentar um acionamento de reserva; e esgrima, através da qual pude exercitar foco e precisão, em detrimento de velocidade e explosão.

Porém, com o passar dos anos, engolido pelas demandas profissionais e talvez pelo fato de sempre ter atuado de forma muito competitiva em todas estas atividades, perdi o hábito da atividade física entregando-me, muito a contragosto, ao sedentarismo.

Tomado pela consciência dos riscos e pelo avançar da idade, tenho recorrentemente tentado retomar a prática esportiva. Confesso que não é fácil, pois o que cabe em minha agenda são sessões eventuais de musculação em uma academia – e este é o tipo de atividade que não me oferece nenhum prazer. Apenas a título de ilustração, realizo a série de exercícios fazendo contagem regressiva à espera de concluí-los com a maior brevidade possível...

Dia destes encontrei um amigo na academia, eu chegando, ele partindo. Perguntei-lhe: “Você vem todos os dias?”, ao que ele respondeu: “Se eu pudesse, viria. E você?”. Disse-lhe: “Se eu pudesse, não viria nunca!”.

Isso nos traz uma importante reflexão. Há coisas que fazemos por obrigação e há outras que fazemos por prazer. E algumas trazem-nos prazer após serem feitas por obrigação. Por exemplo, escovar os dentes não é algo prazeroso – nunca vi alguém que dissesse: “Preciso terminar logo meu almoço, pois estou ansioso para o momento de escovar os dentes”. Mas é inegável a sensação de bem-estar que sentimos após a higiene bucal.

Passamos a vida inteira fazendo muitas coisas por obrigação à espera do que nos proporcionará prazer. Quando crianças, temos que comer legumes e vegetais para, depois, saborear uma gostosa sobremesa. Enquanto estudantes, a lição de casa precede os reconfortantes momentos no videogame. Já adultos, temos uma densa agenda de compromissos pessoais e profissionais a cumprir, e muitos projetam para o futuro os momentos de alegria, seja um cinema no final de semana, as férias no final do ano, ou uma nova e reluzente fase na carreira, muitas vezes chamada de “plano B” – quando deveria ser, na verdade, o “plano A”.

Nosso maior desafio é conciliar obrigação e prazer. Transformar uma tradicional reunião de trabalho em fonte de aprendizado; uma protocolar visita familiar, em momento de descontração. Precisamos aprender a fazer isso. Hoje e agora.

* Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de sete livros. E-mail: tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.




O nosso sempre Padre Jorge - por Cecílio Elias Netto


O nosso sempre Padre Jorge

por Cecílio Elias Netto

Há pessoas que deixam de se pertencer a si mesmas. Tornam-se patrimônio comum, coletivo. Monsenhor Jorge Simão Miguel – o ainda sempre Padre Jorge – é uma delas. Tenho, por causa dele, um outro privilégio na vida: o de conhecê-lo desde quando chegou a Piracicaba, ordenado pelo então bispo D.Ernesto de Paula. Foi em 1955 e eu, ainda, era adolescente, estudando no Colégio D.Bosco.

O sorriso daquele padre “turquinho”, baixinho, era irresistível. E ainda é. Em Vila Rezende, o pároco era o Padre Romário, figura também inesquecível, perfil de santo com aquela magreza que sugeria fragilidade, escondendo, porém, uma espiritualidade contagiante. Abro um parêntese, por ter-me lembrado de um episódio de infância, quando menti para o Padre Romário. Foi o seguinte e conto no próximo parágrafo.

Guto – Antônio Augusto de Souza Campos, de quem tenho saudade imensa – e eu éramos duas crianças que se não largavam. Pulávamos muros de vizinhos para nos encontrar com amiguinhos das ruas São José e Prudente de Moraes. Dona Nenê, mãe de Guto, era uma senhora de catolicidade impecável, de fé profunda.

E ela fez questão de Guto frequentar as aulas dos “cruzadinhos”, dadas pelo Padre Romário no salãozinho da Igreja de São Benedito. Minha família era católica, sem, no entanto, grande entusiasmo. Pai maçom, mãe católica, pode-se imaginar a maravilhosa simbiose em que fui educado: livre pensar e dogmatismo unidos.

Pois bem. Guto começou a me atazanar a vida para que eu o acompanhasse para ser “cruzadinho”. Fui, amigo leal. Mas não suportei. E justifiquei minha fuga alegando, ao Padre Romário, o fato de meu “pai ser maçom”. Ora, meu pai não tinha nada a ver com minha mentira. O saudoso Padre Romário me olhou como se eu fosse filho do demônio, “vade retro Satana”. Escapei de ser “cruzadinho” e Guto também.

Retorno ao Pároco Emérito, Monsenhor Jorge, nosso sempre Padre Jorge. Na realidade, não consigo imaginar Piracicaba – e, em especial, Vila Rezende – sem ele. Pois esse homem se tornou mais do que uma presença. Felizmente ainda em vida, ele conseguiu – e não conseguiu impedir – tornar-se como que um espírito, um mito, um ícone.

Com aquela sua batina preta – que ele se recusou a tirar, mesmo após o Concílio Vaticano II – ele foi acolhido, amado, recebido em incontáveis lares piracicabanos. Nunca se negou a atender fosse quem fosse, do mais santo de seus paroquianos a prostitutas, bandidos, excluídos da sociedade.

Agora – quando ele se torna patrimônio espiritual de Piracicaba, completando 60 anos de sacerdócio – posso dizer que o Padre Jorge, por amor ao ser humano, foi além do direito canônico, de leis e regras da Igreja, perdoando e abençoando aqueles a quem as regras condenavam. E, mesmo assim, foi um servidor fiel da sua Igreja, de seus bispos, todos com quem trabalhou, a começar do primeiro deles, D.Ernesto de Paula.

Muito, muito antes de o Vaticano começar a abrir-se à compreensão dos divorciados, o Padre Jorge já os atendia, acolhendo-os de maneira cautelosa e em caráter privado. Sou testemunha – pois trabalhamos juntos, por mais de 20 anos, nos Cursilhos de Cristandade – de seu amor pelas pessoas, de sua compreensão, mesmo porque ele foi, no exercício do seu sacerdócio, aquilo que Nietszche chamou de “Humano, Demasiado Humano”.

O Padre Jorge foi como a própria Igreja se define: “santa e pecadora”. Por isso, ele sempre pode perdoar com facilidade, amando sem condenar. Ele me dizia o que, talvez, deve ter tido a muitos: “Cada um sabe onde o calo dói.”

Padre Jorge completa, agora, 60 anos de sacerdócio. E eu – em véspera de completar 60 anos de jornalismo – posso afirmar que poucas, pouquíssimas pessoas em Piracicaba foram e são tão amadas como ele. Não apenas por católicos ou religiosos, mas por todos os que o conheceram e ainda conhecem. Padre Jorge praticou o ecumenismo antes mesmo de a própria Igreja Católica referir-se a essa confraternidade. E com uma virtude especial, especialíssima: sempre foi e ainda é um corintiano fanático, companheiros que somos desse amor irracional pelo Corinthians.

Desejo, com esta crônica, apenas abraçá-lo, renovando-lhe a amizadel que sempre nos uniu. Junto-me à multidão que o cumprimenta. E lembro-me, então, do conto de Alexandre Herculano, “O Pároco de Aldeia”, em que ele, lembrando-se do velho padre de sua infância, escreve, apesar de seu anti-clericalismo: “Parecia-me que, estando ao pé dele, estava mais perto de Deus, cujo valido, por assim dizer, era o padre-prior.”

Monsenhor Jorge Simão Miguel – o Padre Jorge – é o pároco amado da aldeia chamada Piracicaba. Para sempre.