quarta-feira, 29 de julho de 2015

Monólogo de criança - Texto de Ivone Boechat


Monólogo de criança

Texto de Ivone Boechat

Sou criança! Cheguei, recentemente, de uma longa viagem. Andei pelo caminho misterioso do pensamento dos meus pais, e, durante a concepção, fiz um estágio muito feliz ao lado do coração da minha mãe.

Hoje estou aqui, um pouco assustada, porque os adultos conversam coisas confusas que ainda não consegui entender. A vida é simples e bonita, mas os adultos complicam tudo.

Sabe, imaginam que nós, crianças, somos incapazes, fracas e bobas. Não é nada disso! A gente está apenas se esforçando para crescer e, à medida que o tempo passa, florescer e ajudar a construir este mundo: soltar os passarinhos das gaiolas, plantar flores nos jardins, devolver o azul cristalino dos nossos lagos e abrir as janelas das casas.

As pessoas crescem, ficam fortes e nos sufocam com suas idéias e, às vezes, nem nos deixam falar nada. Algumas, por falta de argumentos, nos agridem.

Eu gostaria que nos olhassem como sementes de guerra ou de paz. "Quem semeia vento, colhe tempestade". Aos gritos, batendo portas, e com tanta falta de compreensão, a gente pode ingressar na juventude, agressiva e desajustada.

Na verdade, a criança tem uma mensagem de paz. Por favor, se você está triste e não se realizou como pessoa, procure, urgente, um outro meio de desabafar suas mágoas. Não deposite suas dores e lágrimas nessa plantinha que mal começa a brotar.

Ela se chama criança e só cresce feliz com os fluídos magnéticos do AMOR.

Ivone Boechat 



 

terça-feira, 28 de julho de 2015

Poesia de Cremilde Vieira da Cruz - NÃO ME CITES - CONSCIENTES DE NOSSA INCONSCIÊNCIA - O POEMA QUE QUIS FAZER-TE (A MEUS FILHOS)


Poesia de Cremilde Vieira da Cruz - NÃO ME CITES - CONSCIENTES DE NOSSA INCONSCIÊNCIA - O POEMA QUE QUIS FAZER-TE (A MEUS FILHOS)


NÃO ME CITES


Não deixes que tua sombra te faça sombra,
Nem te despedaces de cansaço de fugir
De ti, num desespero que te assombra
De obscura tristeza, e te faz partir,

Receando o mundo inteiro, na penumbra
De teus passos, no jardim que não viste florir.
Diante de teus olhos nada se vislumbra,
Mas dentro em pouco, a alvorada vai surgir.

Se deslizares pelas ondas esculturais
De teus pensamentos nobres, na descoberta
De cada hora em cada hora certa,

Não me cites, nem recordes que existi.
Encontrarás então uma porta aberta
E deixarás de ter tua alma deserta.

Cremilde Vieira da Cruz


CONSCIENTES DE NOSSA INCONSCIÊNCIA


Percorremos conscientes,
A noite misteriosa,
Sob vagas altas que o mar atira sobre nós.
Ainda agora era a alvorada de nosso amor
Que agora, não sei porquê, é misterioso, mas enorme.
Talvez quando nascemos,
Alguém tenha trocado nossos caminhos.

Devia ser madrugada
E, de luzes apagadas, enganaram-se.
Nascemos para sentir nosso amor e dizer,
Mas esta distância desarrumada,
Quase muda e fria...
Não nascemos para ser aquecidos pelo mesmo sol,
Nem para caminhar na noite iluminada.

Envolve-nos uma escuridão enorme
E um mistério rude,
Mas esta força etérea que sentimos,
Faz-nos caminhar, caminhar...
Caminhamos de olhos fechados, mas conscientes,
Nesta distância desarrumada,
Como que abraçados por um mistério.

Quando abrimos os olhos,
Conscientes de nossa inconsciência,
Estamos abraçados.

Cremilde Vieira da Cruz



O POEMA QUE QUIS FAZER-TE (A MEUS FILHOS)


Quis fazer-te um poema tão belo,
Quanto o é teu coração,
Tão brilhante,
Como o brilho de teu olhar,
Tão grandioso,
Como o amor que te tenho.

Mas os meus pensamentos nublados
E empobrecidos de solidão,
Minha mente fatigada...
Oh, pobre inspiração que ruiu,
Como as paredes do castelo dos meus sonhos...!
Não te fiz o poema.

Todavia, quero que saibas,
Que tenho um poema dentro de mim,
Que sinto e é teu.
O meu poema,
Aquele que quis fazer-te...
Olha-me nos olhos,
Como quando te embalava,
Como quando te abraçavas a mim!

Olha-me nos olhos
E lerás o meu poema.

Cremilde Vieira da Cruz




Leitura obrigatória em momentos de crise - As escolhas dos intelectuais franceses nos anos sombrios da Ocupação

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Leitura obrigatória em momentos de crise

Recolhido em Livres Pensantes

As escolhas dos intelectuais franceses nos anos sombrios da Ocupação

Por Luciano Trigo

"Em Junho de 1940, após uma resistência pífia, Paris – então a capital cultural e artística do mundo – e boa parte do território francês foram ocupadas pelos nazis, e somente quatro anos depois a cidade seria libertada pelas tropas aliadas.

A conduta dos intelectuais e artistas locais durante a Ocupação é um tema que até hoje desperta paixões e mobiliza a opinião pública na França. Em tom de reportagem, “Paris ocupada – Os aventureiros da arte moderna: 1940-1944 (L&PM, 368 pgs. R$ 44,90), o premiado ensaísta e romancista Dan Franck faz um balanço impressionante do período: embora deixe claras as suas simpatias e antipatias pessoais, ele vai além do julgamento simplista que divide a França da época entre resistentes e colaboradores, sempre buscando contextualizar e fundamentar com um rigoroso trabalho de apuração as escolhas individuais e tomadas de posição política de cada um.

E mostra que, entre os extremos do heroísmo e da traição, da arriscada resistência clandestina e da tentadora capitulação total ao inimigo, houve muitas gradações – e, com raras excepções, a maioria optou em algum grau pelo-meio termo, por alguma forma de acomodação.

“Paris ocupada” não é um livro de historiador, mas uma ágil narrativa em mosaico, uma colecção de episódios reveladores das tragédias individuais e da tragédia colectiva da França ocupada.

Dessa forma, Franck consegue recriar de forma convincente a atmosfera das ruas e vielas, dos cafés e teatros parisienses que padeciam sob o jugo do invasor. “A Cidade-Luz se ensombreceu”, escreve Franck. “Os museus se esvaziaram na meticulosa operação para proteger dos nazis as principais obras de arte do país, e teve início um dos mais sombrios períodos da longa história de Paris, com intervenção política, toque de recolher, perseguição a judeus e a outras minorias, prisões arbitrárias, violência, medo e suspeita.”

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Leia aqui um trecho de “Paris ocupada”, de Dan Franck.

Nesse contexto – e lembrando que naquele momento ninguém sabia quem ia vencer a guerra –, a necessidade de conciliar o trabalho e a subsistência, ou a fuga (quando essa alternativa se apresentava, já que em muitos casos o problema imediato era ficar vivo), com o imperativo moral de se posicionar em relação ao invasor, gerou muito dramas e tragédias pessoais.

Por outro lado, entre os mais velhos muitos haviam testemunhado os horrores da Primeira Guerra se transformaram em pacifistas radicais, mesmo que o preço fosse viver de joelhos; outros eram movidos pela ideologia (numa época em que a palavra fazia algum sentido), ou pela canalhice pura – o que não exclui a genialidade artística, caso do antissemita Céline, autor de “Viagem ao fim da noite”.

Mas Franck lembra sempre que esses homens e mulheres eram reais, de carne e osso, indivíduos que tinham que lidar com questões familiares e afectivas, com crises financeiras, casamentos desfeitos, traições e inimizades, pequenas humilhações, enfim, todas as angústias decorrentes das exigências mesquinhas do dia a dia: editores esmagados que não tinham papel para imprimir seus livros, cineastas e produtores em busca de bobinas de filme, escritores trabalhando com medo da censura, outros morrendo sob tortura.

Como em seus outros livros, Franck aborda as trajectórias de tantos personagens e conta tantos episódios reveladores, chocantes ou inusitados que seria impossível abarcar tudo no curto espaço de uma resenha.

Mas vale citar três personagens que costumam ser associados a posições heróicas, quando na verdade não foi bem assim:

Jean-Paul Sartre, que se omitiu em diversos momentos importantes e retomou tranquilamente suas actividades académicas após um curto período no front (registado nos “Diários de uma guerra estranha”), enquanto colegas eram perseguidos;

André Malraux, que se alienou em sua casa de campo e só aderiu à Resistência nas vésperas do fim do conflito, em 1944;

e Marguerite Duras, que trabalhava junto ao departamento responsável por censurar as obras “inadequadas” do ponto de vista dos nazis.

Mas a lista de personagens famosos cuja conduta Franck esquadrinha é longa: André Breton, Louis Aragon, Antoine de Saint-Exupéry, Louis-Ferdinand Céline, Drieu de la Rochelle, Arthur Koestler, Paul Éluard, Matisse, Jean Giono, Jean Cocteau etc.

Depois de “Boémios”, que retratou a vida de artistas como Picasso, Matisse e Modigliani de 1900 a 1930 (lançado no Brasil pela editora Planeta), e “Libertad!”, que abordou o período 1930-1939, com ênfase no impacto da Guerra Civil Espanhola na comunidade artística (ainda sem tradução), “Paris ocupada” é o terceiro volume de uma ambiciosa série de Dan Franck sobre a vida intelectual na França no século 20.

Leitura obrigatória em momentos de crise, de relativismo moral e de polarização política, como o que estamos atravessando." 

Jornal Globo, 19.07.2015


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Anedotas Recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


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Alentejano esperto

Um advogado, daqueles cheios de manias tipo jet7, de Cascais, vai caçar patos para o Alentejo.
Dá um tiro, acerta num pato, mas a ave cai dentro da propriedade dum lavrador.

Enquanto o advogado tentava saltar a vedação, o lavrador chega num tractor e pergunta-lhe o que estava ele a fazer.
O advogado respondeu:
-Acabei de abater um pato, mas ele caiu na sua terra, e agora vou buscá-lo.

O velhote responde:
-Esta propriedade é privada, por isso não pode entrar.
O advogado, indignado:
-Olhe, eu sou um dos melhores advogados de Portugal, ouviu? Se não me deixa ir buscar o pato, processo-o e fico-lhe com tudo o que tem!

O lavrador sorriu e disse:

O senhor não sabe como é que funcionam as coisas aqui no Alentejo! Nós aqui temos o Código Napoleónico, resolvemos estas pequenas zangas com a Regra Alentejana dos Três Pontapés.

Primeiro eu dou-lhe três pontapés; depois você dá-me dois pontapés; e assim consecutivamente até um de nós desistir!

O advogado já se estava a passar com o velho, olhou-o e pensou que seria fácil dar-lhe uma carga de porrada. Por isso, aceitou resolver as coisas segundo o costume local.

O velho, muito calmamente, saiu do tractor e caminhou até perto do advogado.

O primeiro pontapé, dado com uma galocha bem pesada, acertou directamente nas “bolas” do advogado, que caiu de joelhos e vomitou.

O segundo pontapé quase arrancou o nariz do advogado.

Quando o advogado caiu de cara, com as dores, o lavrador apontou o terceiro pontapé aos rins, o que fez com que o outro quase desistisse.

Contudo, o coração negro e vingativo do advogado falou mais alto. Ele não desistiu, levantou-se, todo ensanguentado, e disse:
Bora, velhote! Agora é a minha vez! Vai sentir o poder do meu pé!!!!

O lavrador sorriu e disse:

Nah! Eu desisto! Leve lá o pato!


O alentejano mais pobre da aldeia

O alentejano mais pobre da aldeia só tinha uma bicicleta, mas um dia aparece no Café Central com um descapotável.
Admirados, perguntam os conterrâneos:
"Atão cumpadri, onde arranjou esse carrinho?"

"Nem calculam! Na estrada vi uma moça, por acaso bem jeitosa, a chorar e perguntê "o que é que se passa?"
Atão ela disse-me "veja lá, um carrinho tão novo e já avariado!".

Atão, abri o motor, liguê dois fios e pronto! O carro estava arranjado.

Atão ela puxou-me para trás de um chaparro, despiu-se toda e disse-me "para pagar o trabalho que o senhor teve, faça o que quiser!". E eu fiz o que quis, meti-me no carro e abalê com ele."

Em coro, respondem os outros:

"E vossemecê fez muito bem. De certeza que a roupa também nã lhe servia..."


CASAMENTO NO CÉU

Um casalinho seguia no seu automóvel para a igreja onde iam casar quando são abalroados por um camião e morrem ambos.

Vão para o céu onde são recebidos por S.Pedro a quem perguntam se não seria possível casarem no céu já que não o tinham feito na terra.

S. Pedro disse que sim e que trataria pessoalmente de satisfazer tão nobre pedido.

Passaram 3 meses e nada! Foram ter com S.Pedro e perguntaram-lhe o que se passava, ao que ele respondeu:
– Não se preocupem, pois eu estou a tratar do assunto, não está esquecido.

Passaram-se 2 anos e casamento, nicles! S. Pedro, uma vez mais, assegurou-lhes que estava a tratar do assunto. Finalmente, passados 20 anos, vem S.Pedro a correr com um padre e dirige-se ao casalinho:
– Vamos, chegou a hora!

Fez-se o casamento e foram felizes durante algum tempo, mas passados uns meses foram ter com S. Pedro e disseram-lhe que as coisas não estavam muito bem e que pretendiam divorciar-se.
– Pode conseguir-nos isso aqui no céu?

E S.Pedro responde:

– Estão a brincar comigo ou quê? Levei 20 anos a encontrar um padre aqui no céu. Como é que vou agora encontrar um advogado?




segunda-feira, 27 de julho de 2015

Poesia de Conceição Tomé - O Mistério da Vida; Dia Outonal ; Paz Para o Mundo


Poesia de Conceição Tomé



 O Mistério da Vida; Dia Outonal ; Paz Para o Mundo  



 O Mistério da Vida

 

 Ninguém conhece se há vida
 Para além daquela que conhecemos
 Porque a vida é um mistério
 Que ainda não desvendamos.
Apenas sabemos,
Que nascemos e morremos.

 Quem somos nós na conjunção
Do Universo infinito
 Se ainda ignoramos
 O seu fim e o seu princípio?
 Talvez daqui a uns quantos milénios
 Se humanos ainda houver
 Esse mistério deixe de o ser.

 São Tomé

 

 Dia Outonal

 

 A manhã soturna e fria
 Deixou-me no coração
 Uma forte nostalgia
 E uma certa crispação.
 Um céu plúmbeo
 Descarregou a sua mágoa
 Que escorreu pelas vidraças
 Em forma de gotas de água.
 E vi as árvores da rua
 Trémulas de medo e de frio
 Uma a uma ficar nua.
As suas exuberantes vestes
 Num tom castanho - acobreado
 Serem arrancadas pelo vento
E rolarem pelo chão molhado
 Num frenético rodopio.
 Era o prenúncio do Inverno
Que se vai aproximando
Frio e intransigente
À espera da Primavera
 Que chegará brevemente
Para vestir de novo as árvores
Com um tom verde - brilhante.

 São Tomé

 

 Paz Para o Mundo

 

 Cessem os gritos
de fome e de terror
 das crianças abandonadas,
desnutridas!
 Sequem os rios
 do pranto e da dor
 e aflorem as puras fontes
de vergonha escondidas!
 Clamem bem alto
as palavras de todos os poetas
 Pela Paz do Mundo e pelo Amor,
 como um bom presságio de profetas!
 Obstrua-se
o curso da destruição
 pelas guerras hediondas,
sem sentido!
 Brote a fraternidade
em cada coração,
 para que o mal seja sempre vencido
 e só o Amor
seja engrandecido
 neste planeta ainda belo
que está a ficar moribundo!
 Haja Paz! Paz para o Mundo!

 São Tomé




Poesia de João Furtado - VAGUEANDO POR AQUI NESTE MUNDO


Poesia de João Furtado



VAGUEANDO POR AQUI NESTE MUNDO

Andei naquele, noutro e neste autocarro
 Ao lado esteve, está e estará um amigo caro
 Que com encontros e desencontro já nem reparo!

Desta vez ia ver minha querida e estimada tia
 O aniversário dela mais uma vez era o dia
 Nada pude eu comer, um dente muito doía...

Enquanto o autocarro violentamente trepidava
 Eu este poema imaginava e escrevê-lo tentava
 Uma menina indiscreta ao lado gargalhada dava!

Perto uma madura mulher casada com o Baco
 Tentava a força dar ao rapaz novo um cavaco
 Ele, o rapaz na jovem força olhava com asco!

Meu pensamento continuava vagueando
 Ao ritmo do autocarro sempre viajando
 Aos homens e ao mundo meditando!

De Quioto à Copenhaga à Cancun há anos
 De reuniões de certezas e de enganos
 No céu o ozono chora com os danos!

Africa de Sul é a próxima esperança
 Nesta caminhada que nada alcança
 Porque o homem quer cheia a pança!

Na China continua recluso o dissidente
 Que recebe o Nobel e fica ausente
 E oferece ao mundo mais um presente!

No Ocidente prega-se a divina liberdade
 E Wekliks pensa que é pura verdade
 E vasculha, vira e revira sem necessidade!

O segredo dos deuses chega aos ouvidos
E muitos no Olimpo sentem-se ofendidos
 E acusam o ladrão de dados perdidos!

Mais o crime não pode ser crime
 Procura outro que só pode ser crime
 Como é livre o polvo do livre Regime…

Entre os cínicos deuses do Ocidente
E o pachorrento e obeso Buda do Oriente
 Situa a virtuosa Terra do Médio Oriente!

Passam os tempos e os costumes permanecem
 E a justiça e os hábitos duros e cegos fazem
 Com pedras mulheres e meninas perecerem!

Não havendo por rectidão dos machos as violações
 Adultérios são para suas fêmeas as acusações
Nobres homens, belas acções e puros corações!

O autocarro parara… era a última paragem do destino
 Ainda tinha tempo para lembrar do menino
 Recém-nascido e abandonado ao seu destino!

Era das treze de hoje o jornal da tarde de sábado
 Do dia depois dos direitos humanos desejados
 E do jornalista reclamando direitos atropelados!

Triste e envergonhado por pertencer a espécie humana
 Descia e via uma vendedeira com uma única banana
 Que me dizia, feliz e dengosa, que se chamava Bela Susana!

João Furtado




 

Haicais e Tankas de Se-Gyn


Haicais e Tankas de Se-Gyn

 

 HAICAIS


nenhum e-mail --
o gato medita um pouco
 e salta no muro

 

 o que ainda procuro
 na velha canção que ouço
 nesta fria manhã?

 

 o cão que fugiu
 arranhando o portão --
chuva matinal

 

 as coisas do bairro:
 outra loja que fecharam
 e o templo que abriram

 

 chuvas de verão --
a luz mortiça da fachada
 onde alguém entrou

 

 isso de manter
 cada macaco no seu galho
 da tanto trabalho!

 

 fila de carros
 daqui até muito longe --
pinta de monge

 

 vendo meu umbigo
 fugi do encontro esperado
 marcado comigo

 

 a briga de ontem
 a caixinha de chocolate --
vamos pro empate?

 

 casal de araras
 no parapeito da casa --
par perfeito

 

 ah, namoradinha
 depois da comemoração
 dormir de conchinha



Tankas


Enfim - Tanka

 sensação do pleno
 aquosa impressão que vem --
do que não se tem

 por agora ou enfim
 o vício livre de mim

 

 quanta maldade --
o fraudulento ENEM
 senhor Haddad

 seu nome está na bica
 Sampa elegeu Tiririca