segunda-feira, 27 de julho de 2015

Poesia de Conceição Tomé - O Mistério da Vida; Dia Outonal ; Paz Para o Mundo


Poesia de Conceição Tomé



 O Mistério da Vida; Dia Outonal ; Paz Para o Mundo  



 O Mistério da Vida

 

 Ninguém conhece se há vida
 Para além daquela que conhecemos
 Porque a vida é um mistério
 Que ainda não desvendamos.
Apenas sabemos,
Que nascemos e morremos.

 Quem somos nós na conjunção
Do Universo infinito
 Se ainda ignoramos
 O seu fim e o seu princípio?
 Talvez daqui a uns quantos milénios
 Se humanos ainda houver
 Esse mistério deixe de o ser.

 São Tomé

 

 Dia Outonal

 

 A manhã soturna e fria
 Deixou-me no coração
 Uma forte nostalgia
 E uma certa crispação.
 Um céu plúmbeo
 Descarregou a sua mágoa
 Que escorreu pelas vidraças
 Em forma de gotas de água.
 E vi as árvores da rua
 Trémulas de medo e de frio
 Uma a uma ficar nua.
As suas exuberantes vestes
 Num tom castanho - acobreado
 Serem arrancadas pelo vento
E rolarem pelo chão molhado
 Num frenético rodopio.
 Era o prenúncio do Inverno
Que se vai aproximando
Frio e intransigente
À espera da Primavera
 Que chegará brevemente
Para vestir de novo as árvores
Com um tom verde - brilhante.

 São Tomé

 

 Paz Para o Mundo

 

 Cessem os gritos
de fome e de terror
 das crianças abandonadas,
desnutridas!
 Sequem os rios
 do pranto e da dor
 e aflorem as puras fontes
de vergonha escondidas!
 Clamem bem alto
as palavras de todos os poetas
 Pela Paz do Mundo e pelo Amor,
 como um bom presságio de profetas!
 Obstrua-se
o curso da destruição
 pelas guerras hediondas,
sem sentido!
 Brote a fraternidade
em cada coração,
 para que o mal seja sempre vencido
 e só o Amor
seja engrandecido
 neste planeta ainda belo
que está a ficar moribundo!
 Haja Paz! Paz para o Mundo!

 São Tomé




Poesia de João Furtado - VAGUEANDO POR AQUI NESTE MUNDO


Poesia de João Furtado



VAGUEANDO POR AQUI NESTE MUNDO

Andei naquele, noutro e neste autocarro
 Ao lado esteve, está e estará um amigo caro
 Que com encontros e desencontro já nem reparo!

Desta vez ia ver minha querida e estimada tia
 O aniversário dela mais uma vez era o dia
 Nada pude eu comer, um dente muito doía...

Enquanto o autocarro violentamente trepidava
 Eu este poema imaginava e escrevê-lo tentava
 Uma menina indiscreta ao lado gargalhada dava!

Perto uma madura mulher casada com o Baco
 Tentava a força dar ao rapaz novo um cavaco
 Ele, o rapaz na jovem força olhava com asco!

Meu pensamento continuava vagueando
 Ao ritmo do autocarro sempre viajando
 Aos homens e ao mundo meditando!

De Quioto à Copenhaga à Cancun há anos
 De reuniões de certezas e de enganos
 No céu o ozono chora com os danos!

Africa de Sul é a próxima esperança
 Nesta caminhada que nada alcança
 Porque o homem quer cheia a pança!

Na China continua recluso o dissidente
 Que recebe o Nobel e fica ausente
 E oferece ao mundo mais um presente!

No Ocidente prega-se a divina liberdade
 E Wekliks pensa que é pura verdade
 E vasculha, vira e revira sem necessidade!

O segredo dos deuses chega aos ouvidos
E muitos no Olimpo sentem-se ofendidos
 E acusam o ladrão de dados perdidos!

Mais o crime não pode ser crime
 Procura outro que só pode ser crime
 Como é livre o polvo do livre Regime…

Entre os cínicos deuses do Ocidente
E o pachorrento e obeso Buda do Oriente
 Situa a virtuosa Terra do Médio Oriente!

Passam os tempos e os costumes permanecem
 E a justiça e os hábitos duros e cegos fazem
 Com pedras mulheres e meninas perecerem!

Não havendo por rectidão dos machos as violações
 Adultérios são para suas fêmeas as acusações
Nobres homens, belas acções e puros corações!

O autocarro parara… era a última paragem do destino
 Ainda tinha tempo para lembrar do menino
 Recém-nascido e abandonado ao seu destino!

Era das treze de hoje o jornal da tarde de sábado
 Do dia depois dos direitos humanos desejados
 E do jornalista reclamando direitos atropelados!

Triste e envergonhado por pertencer a espécie humana
 Descia e via uma vendedeira com uma única banana
 Que me dizia, feliz e dengosa, que se chamava Bela Susana!

João Furtado




 

Haicais e Tankas de Se-Gyn


Haicais e Tankas de Se-Gyn

 

 HAICAIS


nenhum e-mail --
o gato medita um pouco
 e salta no muro

 

 o que ainda procuro
 na velha canção que ouço
 nesta fria manhã?

 

 o cão que fugiu
 arranhando o portão --
chuva matinal

 

 as coisas do bairro:
 outra loja que fecharam
 e o templo que abriram

 

 chuvas de verão --
a luz mortiça da fachada
 onde alguém entrou

 

 isso de manter
 cada macaco no seu galho
 da tanto trabalho!

 

 fila de carros
 daqui até muito longe --
pinta de monge

 

 vendo meu umbigo
 fugi do encontro esperado
 marcado comigo

 

 a briga de ontem
 a caixinha de chocolate --
vamos pro empate?

 

 casal de araras
 no parapeito da casa --
par perfeito

 

 ah, namoradinha
 depois da comemoração
 dormir de conchinha



Tankas


Enfim - Tanka

 sensação do pleno
 aquosa impressão que vem --
do que não se tem

 por agora ou enfim
 o vício livre de mim

 

 quanta maldade --
o fraudulento ENEM
 senhor Haddad

 seu nome está na bica
 Sampa elegeu Tiririca




domingo, 26 de julho de 2015

Estudo do Livro «Memórias Póstumas de Brás Cubas», de Machado de Assis.- Arlete Deretti Fernandes


Estudo do Livro «Memórias Póstumas de Brás Cubas», de Machado de Assis.

 

 Arlete Deretti Fernandes



 A forma errática e o olhar de classe.

- Brás Cubas, era filho de uma família que não era nobre, mas se fez de nobre. Voltado às aparências. Tinha a mentalidade da classe aristocrática: - Queria subir e ser deputado.

 Eugênia, significa a sociedade da época.

-E é preciso saltar fora da visão de Brás Cubas personagem, senão ficamos restritos. Necessário é interpretar o que Machado quer dizer e aonde quer chegar. Este livro traz uma extraordinária percepção psicológica e sociológica em relação à sociedade do século XIX.

 Memórias Póstumas de Brás Cubas, é considerado o primeiro grande romance da Literatura Brasileira, e, a primeira Obra Prima do século XIX, segundo Roberto Schwarz.

 Este romance quebra radicalmente com as formas do romance romântico e também naturalista. Quem ousou até então escrever um capítulo como o LV, «O Velho Diálogo de Adão e Eva»?

Machado não é linear neste romance, segue a forma ziguezagueante. Os episódios são difusos e fragmentados. São sub - enredos, várias histórias numa só. Ele diz que seu estilo é ébrio. São capítulos curtos, alguns de resistencias. Quebra com a verosimilhança.

 O texto é todo quebrado, não tem começo nem fim. O primeiro capítulo já é o óbito do personagem. O leitor comum do século XIX muito deve ter estranhado. Machado quer reinventar o mundo e rompe com uma tradição da época.




 A Sátira menipéia é um gênero clássico antigo, mas marginal, as sátiras misturam prosa e verso. Machado leu esta tradição marginal do Ocidente em Satiricon. Esta sátira foi um de seus pontos de apoio.

 Brás Cubas é o narrador, personagem da classe dominante, que espezinha os outros. Machado tem uma grande necessidade de brincar com o leitor, de explicar. Logo no primeiro capítulo quer se distinguir de Moisés, da Bíblia, dizendo que será mais original que o Pentatêuco.

 O narrador vai tendo variações em seu personagem de primeira pessoa, ora é sério, ora é irreverente. Ora é cínico e tem uma intimidade com o leitor, até o desrespeita quando vai alterando o personagem que compunha na frase anterior, como se fosse uma «volubilidade narrativa». Este romance tem vários sub-enredos, na forma de pequenos contos intercalados e unidos pela memória do defunto.

 Em 1814 ocorre o episódio com a empregada de Virgília, dona Plácida. Esta acabou sendo alcoviteira e morreu na miséria. O pai queria que se casasse com Dona Virgília porque esta era da alta sociedade.

 Euzébia era a mãe de Eugênia e conservou sua dignidade até o fim.

 O negro Prudêncio era um escravo que serviu de cavalo para o menino, e mais tarde conta a Brás que a mãe de Eugenia mora ali.

 Prudêncio foi alforriado por Brás. Este, um dia o encontra livre, mas conta a Brás que comprou um escravo para si e o maltrata, descarregando o que fizeram para ele, representando aí a sociedade contaminada pela escravidão.

 No capítulo sobre O Rei dos Tártaros, parece incompreensível, mas significa que o Brasil usou tanto a escravidão que se contaminou.

 Marcela, era uma menina bonita e pobre, que vivia da prostituição. Primeiro explorou Xavier, depois Brás. O sistema fazia com que Marcela se prostituísse.

 Eugênia, começa no capítulo XII, «filha da moita», de família pobre, morre na miséria. Seu defeito social aparece como físico, no romance.

 Há um absoluto cinismo no capítulo das botas, quando Brás se livra de Eugênia.(as botas apertadas); A borboleta era preta, se fosse azul, seria diferente.

 Lobo Neves, Cotrim e Brás representam a camada superior.

 No capítulo XXI, denominado «O Almocreve», Brás Cubas se torna um representante típico da classe dominante brasileira, revelando aí seu caráter: - Qualquer coisa satisfaz a quem está abaixo.

 No capítulo XVII e XVIII, entra Virgília . Ela é comparada a uma borboleta azul. Machado vai intercalando estas histórias. Organiza este romance de forma solta, não sabemos se é cinismo ou brincadeira.

 Este romance é escrito sob a visão dos proprietários, dos opressores, mas com a intenção de mostrar o mal que exercia a classe dominante sobre os dominados. O personagem Brás Cubas faz um uso brutal das pessoas, é uma figura cruel e bárbara. O mundo da dependência e do favor é de todos os momentos, é o dia complicado da população. Segundo Schwarz, «um enredo sem culminação, que caminha em direção ao cansaço».

Não são fatos notáveis, com pouca individualização, o que também é um traço especial na modernidade de Machado de Assis.




Crónica de José Pedreira da Cruz - As Cerejeiras do Japão


Crónica de José Pedreira da Cruz

 As Cerejeiras do Japão

 

 Sou um brasileiro que vergonhosamente nunca viu um Pau Brasil (razão do batismo de meu País), esquecido por todos e quase que exterminado descaradamente pelo ganancioso vandalismo económico no transcorrer de séculos, mas que muito admira a beleza exuberante do Sakura, ou «Sakurá», como se pronuncia em japonês; ou simplesmente cerejeira, como se diz por aqui.

Quando chega o mês de agosto as abelhas abrilhantam com seus zumbidos incessantes a festa das cerejeiras do Parque do Carmo: um dos maiores da cidade de São Paulo localizado na sua zona leste.

 A revoada de beija-flores e de insetos à procura do néctar das flores rosadas é intermitente e uma sensação de se estar envolvido com a natureza faz com que, todos os anos, este espaço ambiental se torne alvo da visitação pública, aonde os olhos se encantam com a beleza ímpar da florada das cerejeiras, sutilmente transformando em róseo tudo que por ali antes era verde.


 Sakurá

 
O quê deveria ser orgulhosamente chamado de festa do Pau Brasil, chama-se de festa do «Sakurá», isto em razão dos imigrantes japoneses terem pacientemente transladado oceanos com mudas de cerejeiras do Japão e presenteado o Brasil com sua árvore símbolo nacional, e que, anualmente, se jubilam com orgulho, cânticos, comilanças, danças, ritmos, respeito, alegria e admiração.

- E assim que se faz no Japão; é assim que matamos a saudade de lá! – foi o que me disse um velho nissei, que parecia voando na felicidade, e sorria prazeroso, ao ver sua neta vestida a rigor e dançando suavemente o Asadoya -Yunta, a dança da celebração do amor, com gestos leves na cadência rítmica da melodia nipónica.

 O colorido das vestimentas se misturava alegremente ao movimento sutil da dança típica embalada pela música suave que aquietava a plateia, e todos os olhares se focavam para o deslumbrante espetáculo de som e flores em meio ao cor-de-rosa das cerejeiras do Japão.

 E eu, como um simples assistente, mas com uma inquietante dúvida, sem resposta silenciosamente me questionava:
- Será que os brasileiros emigrantes no Japão têm por lá a festa do Pau Brasil?

 Pau Brasil

 Melhor seria se Pedro Alvares Cabral tivesse batizado esta terra como antes queria: Terra de Santa Cruz, assim, quem sabe?...

Esqueceriam nossas florestas e o Pau Brasil estaria a salvo dos assassinos florestais, e eu, assim como os netos e os bisnetos (nisseis e sanseis) dos japoneses fazem, também pudesse festejar alegre e orgulhosamente nossa árvore símbolo nacional, mas, como não a temos, continuarei a festejar o «Sakurá» que agora, também, é brasileiro.

JORNADA CREPUSCULAR - Por Mário Matta e Silva - Multidões


JORNADA CREPUSCULAR

 Por Mário Matta e Silva

 Multidões


«Entrámos no novo século sem bússola. Desde os meses iniciais, ocorrem eventos inquietantes que levam a pensar que o mundo conhece um desregramento considerável e em vários domínios ao mesmo tempo – desregramento intelectual, desregramento financeiro, desregramento climático, desregramento geopolítico, desregramento ético.» - AMIN MAALOUF inicia assim o seu último livro, que acabo de ler: «UM MUNDO SEM REGRAS» cuja leitura aconselho.

 
Nesta minha jornada, iniciada no dia 11 de Setembro, de má memória, olho o crepúsculo de forma crispada, sentindo um arrepio percorrer-me o corpo. Tudo o que gira à minha volta mostra-me este desregramento de que nos fala Maalouf, num mundo egoísta e doente.

Olho os ecrãs de televisão e sou invadido por multidões que se misturam neste ou naquele pedaço de terra por onde circulam bandeiras e partidos em busca dos seus votantes, em plena campanha eleitoral.

Os discursos têm a forma de embrulhos envenenados, nos programas eleitorais e nas promessas que atiram ao ar na esperança de engrossarem as suas plateias. As arruadas ou os comícios em locais fechados animam-se de palmas, de gritos, de slogans, de histerias, de beijos, palmadinhas nas costas, acenos, sorrisos, acusações mutuas… as imagens falam por si de um regime democrático de onde ressalta o aumento do nosso endividamento e do elevado número de desempregados.

Há multidões para todos como se não trabalhássemos em Portugal durante estes dias de campanha eleitoral. Como é possível juntar-se tanta gente à roda das palavras de ordem. Todos os males do mundo ficam pelo caminho como a saúde, a justiça, a educação onde o tal desregramento é bem patente.

Todos sonhámos com uma democracia sã, palpável, humana, abrandando o desregramento geopolítico que também nos sufoca. Em vez disso, os negócios escuros, os malabarismos na banca, os endividamentos, as obras sumptuosas, a desumanização para com os desempregados, a perseguição aos professores, a falta de resposta do Serviço Nacional de Saúde, fazem esquecer esses males maiores que afligem a humanidade no seu plano mundial, como a crise de mentalidades, de culturas, de religiões ou como os de carácter físico – planetário, onde podemos incluir o buraco do ozono, as diferenças climatéricas… tudo isto a ameaçar um futuro mais próximo do que se pensa.

 A jornada vai longa por estes meandros de politica que hoje vivemos em Portugal, acossados por dois actos eleitorais seguidos, tornando o País um palco de artistas, brilhando no seu «votem em mim», numa animação permanente que abrange as alas da esquerda e da direita, nas grandezas e nas fraquezas que cada um dos partidos tem para oferecer.

Tudo no melhor dos aplausos dessas multidões que se deslocam, animadas, volúveis, histéricas, fazendo coro com os seus eleitos, os seus «endeusados», lavados em glória, por becos, ruas, salões, no mais aviltante desprezo pelo que vai por esse mundo, feito de injustiças e de misérias.

Por todos os altos orçamentos gastos nas campanhas eleitorais, que querem americanizadas, assentam as incoerências do que se propaga para o que se pratica. UM autentico crime é o que se gasta nesta euforia sendo todos nós, os contribuintes, a pagar essa onda democrática que se repete de quatro em quatro anos, quando não menos, se a legislatura ficar pelo caminho.

A farsa continua perante a passividade de muitos daqueles que ficam em casa a ver tão desgovernado arraial partidário. Perante as cores diversas que me mostra cada crepúsculo eu gozo de espanto como as sociedades são perversas, quando animadas em tanta falsidade, tanto cinismo, tanta hipocrisia que as campanhas eleitorais nos oferecem… chamando a estes animados espectáculos, pela conquista do poder de «democracia plena».

Vale tudo! Mas valha-nos isso: realmente é preciso atacar o deficit democrático, como o que vivemos recentemente na comunicação social, ou melhor, na tão desejada liberdade de imprensa. Neste caso, infelizmente, também não faltou esse desregramento ao qual as multidões aceitam de forma tão passiva! 




PINIQUINHOS SEM ASAS - Texto de Antônio Carlos A. dos Santos, Acas


PINIQUINHOS SEM ASAS

 Texto de Antônio Carlos A. dos Santos, Acas


Dona Geralda era uma senhora dos seus sessenta anos e por todos muito querida, por ser amável com todos. Ela veio de longe, aqui para a fazenda São José, veio lá de Minas Gerais, de um lugar cujo nome me pareceu muito bonito: São Sebastião do Paraíso.

Extremamente pobre, poderia se dizer que era mesmo miserável. Não tinha nenhum bem, exceto a aliança e o bem querer da família. Mestre nas artes de quitandeira, dona Geralda era muito requisitada para ajudar em pequenas festas nas casas das comadres, tais como batizados, crismas e casamentos.

Fazia pães de queijo, pau - à - pique, mané - pelado, broa de milho, biscoitos de araruta e de mandioca, e de quebra cozinhava muito bem. A limpeza de sua casa era um primor. Suas roupas, além das de seu marido e filhos, apesar de surradas e rústicas, mostravam bem os dotes de dona Geralda: as camisas, vestidos e calças eram um remendo só, ou melhor, pareciam feitos de retalhos, tantos os remendos, uns sobre os outros, caprichosamente alinhavados (Geralda não possuía máquina de costura) porém fazia a própria roupa e da família, tudo costurado à mão!!, além da limpeza e a brancura de suas roupas, só comparável ao seu sorriso.

Pois bem, sendo eu um menino, me acostumei a comer todos os quitutes da dona Geralda, e muitas vezes consegui convencer minha mãe a convidá-la para fazer alguns pães de queijo ou broa de milho. Devido à generosidade dela, de vez em quando passava por sua casa, quando vinha da escola. Algumas vezes dava certo, e ela me oferecia bolo de fubá, pé de moleque e outras delícias.

Certa feita apareceu em casa um grupo de garotos e garotas, vestindo roupas elegantes e procurando por mim. Um amiguinho da fazenda vizinha, ao ver chegar os filhos do patrão, inventou de ir pescar, para se livrar deles, ao que os garotos e garotas de São Paulo quiseram acompanhá-lo.

Sem saber o que fazer, disse que eu é que sabia onde dava peixe bom, e agora estavam ali, ávidos para pescar. Para se ter ideia, levaram até molinete e carretilha, que eu só conhecia de revistas, para pescar num córrego de, no máximo, dois metros de largura e um metro de profundidade.

Levei-os até um trecho do córrego e os deixei lá pescando. Eu e meu amiguinho caímos fora. Como crianças de cidade não sabem brincar sozinhos no campo, logo se cansaram e passaram a correr atrás dos cavalos, além de espantar o gado que estava sendo recolhido para a ordenha.

- Leve esses diabos daqui, disse o cocheiro e tirador de leite, leve esses diabos daqui, disseram os camaradas, minha mãe e tudo o mais. Procurei pelo amiguinho da fazenda vizinha que havia trazido esses pestes, mas ele já havia ido embora. Que fazer?

Eu os reuni, e prometi que os levaria até a divisa da fazenda, de onde iriam juntos com pessoas da fazenda vizinha que os estariam esperando, conforme tratado telefonicamente pela minha mãe e a mulher do doutor patrão de outra fazenda, já desesperada sem notícias dos filhos.

Para percorrer os seis quilômetros da minha casa até o local da divisa, num trecho de cêrca de arame farpado, conhecido por «passador», (pois permitia que pessoas passassem pela cerca de arame farpado, porém os animais não), tínhamos que atravessar a colônia da minha fazenda; e ao passar pela casa da dona Geralda, ela nos convidou a todos para entrar, mais ou menos oito pessoas.

Serviu um bolo de fubá delicioso e ainda quentinho, e, praxe na minha terra, coou um cafezinho fresco. Dona Geralda pegou uma bandeja redonda e colocou uma série de canequinhas esmaltadas, na cor azul, com florezinhas brancas e passou a servir àquele grupo risonho que já, à esta altura, haviam devorado o bolo, demonstrando uma total falta de educação.

Dona Geralda foi primeiro servir a Marta, uma garota um tanto gordinha e branca como leite (embora estivesse toda vermelha por exposição ao sol demorada). Marta agradeceu, e girou a canequinha, tentando encontrar a asa da mesma, visto que não havia pires; girou a segunda, a terceira, a quarta e nada!!


Penico ou pinico (piniquinho=piniquim)

 Muito sem jeito, olhou para Dona Geralda que calmamente lhe disse:

- Pega na caneca, fia. «Us piniquim tá tudo sem asa, uai».
 


 Canecas de café (aqui com asa)