domingo, 26 de julho de 2015

Estudo do Livro «Memórias Póstumas de Brás Cubas», de Machado de Assis.- Arlete Deretti Fernandes


Estudo do Livro «Memórias Póstumas de Brás Cubas», de Machado de Assis.

 

 Arlete Deretti Fernandes



 A forma errática e o olhar de classe.

- Brás Cubas, era filho de uma família que não era nobre, mas se fez de nobre. Voltado às aparências. Tinha a mentalidade da classe aristocrática: - Queria subir e ser deputado.

 Eugênia, significa a sociedade da época.

-E é preciso saltar fora da visão de Brás Cubas personagem, senão ficamos restritos. Necessário é interpretar o que Machado quer dizer e aonde quer chegar. Este livro traz uma extraordinária percepção psicológica e sociológica em relação à sociedade do século XIX.

 Memórias Póstumas de Brás Cubas, é considerado o primeiro grande romance da Literatura Brasileira, e, a primeira Obra Prima do século XIX, segundo Roberto Schwarz.

 Este romance quebra radicalmente com as formas do romance romântico e também naturalista. Quem ousou até então escrever um capítulo como o LV, «O Velho Diálogo de Adão e Eva»?

Machado não é linear neste romance, segue a forma ziguezagueante. Os episódios são difusos e fragmentados. São sub - enredos, várias histórias numa só. Ele diz que seu estilo é ébrio. São capítulos curtos, alguns de resistencias. Quebra com a verosimilhança.

 O texto é todo quebrado, não tem começo nem fim. O primeiro capítulo já é o óbito do personagem. O leitor comum do século XIX muito deve ter estranhado. Machado quer reinventar o mundo e rompe com uma tradição da época.




 A Sátira menipéia é um gênero clássico antigo, mas marginal, as sátiras misturam prosa e verso. Machado leu esta tradição marginal do Ocidente em Satiricon. Esta sátira foi um de seus pontos de apoio.

 Brás Cubas é o narrador, personagem da classe dominante, que espezinha os outros. Machado tem uma grande necessidade de brincar com o leitor, de explicar. Logo no primeiro capítulo quer se distinguir de Moisés, da Bíblia, dizendo que será mais original que o Pentatêuco.

 O narrador vai tendo variações em seu personagem de primeira pessoa, ora é sério, ora é irreverente. Ora é cínico e tem uma intimidade com o leitor, até o desrespeita quando vai alterando o personagem que compunha na frase anterior, como se fosse uma «volubilidade narrativa». Este romance tem vários sub-enredos, na forma de pequenos contos intercalados e unidos pela memória do defunto.

 Em 1814 ocorre o episódio com a empregada de Virgília, dona Plácida. Esta acabou sendo alcoviteira e morreu na miséria. O pai queria que se casasse com Dona Virgília porque esta era da alta sociedade.

 Euzébia era a mãe de Eugênia e conservou sua dignidade até o fim.

 O negro Prudêncio era um escravo que serviu de cavalo para o menino, e mais tarde conta a Brás que a mãe de Eugenia mora ali.

 Prudêncio foi alforriado por Brás. Este, um dia o encontra livre, mas conta a Brás que comprou um escravo para si e o maltrata, descarregando o que fizeram para ele, representando aí a sociedade contaminada pela escravidão.

 No capítulo sobre O Rei dos Tártaros, parece incompreensível, mas significa que o Brasil usou tanto a escravidão que se contaminou.

 Marcela, era uma menina bonita e pobre, que vivia da prostituição. Primeiro explorou Xavier, depois Brás. O sistema fazia com que Marcela se prostituísse.

 Eugênia, começa no capítulo XII, «filha da moita», de família pobre, morre na miséria. Seu defeito social aparece como físico, no romance.

 Há um absoluto cinismo no capítulo das botas, quando Brás se livra de Eugênia.(as botas apertadas); A borboleta era preta, se fosse azul, seria diferente.

 Lobo Neves, Cotrim e Brás representam a camada superior.

 No capítulo XXI, denominado «O Almocreve», Brás Cubas se torna um representante típico da classe dominante brasileira, revelando aí seu caráter: - Qualquer coisa satisfaz a quem está abaixo.

 No capítulo XVII e XVIII, entra Virgília . Ela é comparada a uma borboleta azul. Machado vai intercalando estas histórias. Organiza este romance de forma solta, não sabemos se é cinismo ou brincadeira.

 Este romance é escrito sob a visão dos proprietários, dos opressores, mas com a intenção de mostrar o mal que exercia a classe dominante sobre os dominados. O personagem Brás Cubas faz um uso brutal das pessoas, é uma figura cruel e bárbara. O mundo da dependência e do favor é de todos os momentos, é o dia complicado da população. Segundo Schwarz, «um enredo sem culminação, que caminha em direção ao cansaço».

Não são fatos notáveis, com pouca individualização, o que também é um traço especial na modernidade de Machado de Assis.




Crónica de José Pedreira da Cruz - As Cerejeiras do Japão


Crónica de José Pedreira da Cruz

 As Cerejeiras do Japão

 

 Sou um brasileiro que vergonhosamente nunca viu um Pau Brasil (razão do batismo de meu País), esquecido por todos e quase que exterminado descaradamente pelo ganancioso vandalismo económico no transcorrer de séculos, mas que muito admira a beleza exuberante do Sakura, ou «Sakurá», como se pronuncia em japonês; ou simplesmente cerejeira, como se diz por aqui.

Quando chega o mês de agosto as abelhas abrilhantam com seus zumbidos incessantes a festa das cerejeiras do Parque do Carmo: um dos maiores da cidade de São Paulo localizado na sua zona leste.

 A revoada de beija-flores e de insetos à procura do néctar das flores rosadas é intermitente e uma sensação de se estar envolvido com a natureza faz com que, todos os anos, este espaço ambiental se torne alvo da visitação pública, aonde os olhos se encantam com a beleza ímpar da florada das cerejeiras, sutilmente transformando em róseo tudo que por ali antes era verde.


 Sakurá

 
O quê deveria ser orgulhosamente chamado de festa do Pau Brasil, chama-se de festa do «Sakurá», isto em razão dos imigrantes japoneses terem pacientemente transladado oceanos com mudas de cerejeiras do Japão e presenteado o Brasil com sua árvore símbolo nacional, e que, anualmente, se jubilam com orgulho, cânticos, comilanças, danças, ritmos, respeito, alegria e admiração.

- E assim que se faz no Japão; é assim que matamos a saudade de lá! – foi o que me disse um velho nissei, que parecia voando na felicidade, e sorria prazeroso, ao ver sua neta vestida a rigor e dançando suavemente o Asadoya -Yunta, a dança da celebração do amor, com gestos leves na cadência rítmica da melodia nipónica.

 O colorido das vestimentas se misturava alegremente ao movimento sutil da dança típica embalada pela música suave que aquietava a plateia, e todos os olhares se focavam para o deslumbrante espetáculo de som e flores em meio ao cor-de-rosa das cerejeiras do Japão.

 E eu, como um simples assistente, mas com uma inquietante dúvida, sem resposta silenciosamente me questionava:
- Será que os brasileiros emigrantes no Japão têm por lá a festa do Pau Brasil?

 Pau Brasil

 Melhor seria se Pedro Alvares Cabral tivesse batizado esta terra como antes queria: Terra de Santa Cruz, assim, quem sabe?...

Esqueceriam nossas florestas e o Pau Brasil estaria a salvo dos assassinos florestais, e eu, assim como os netos e os bisnetos (nisseis e sanseis) dos japoneses fazem, também pudesse festejar alegre e orgulhosamente nossa árvore símbolo nacional, mas, como não a temos, continuarei a festejar o «Sakurá» que agora, também, é brasileiro.

JORNADA CREPUSCULAR - Por Mário Matta e Silva - Multidões


JORNADA CREPUSCULAR

 Por Mário Matta e Silva

 Multidões


«Entrámos no novo século sem bússola. Desde os meses iniciais, ocorrem eventos inquietantes que levam a pensar que o mundo conhece um desregramento considerável e em vários domínios ao mesmo tempo – desregramento intelectual, desregramento financeiro, desregramento climático, desregramento geopolítico, desregramento ético.» - AMIN MAALOUF inicia assim o seu último livro, que acabo de ler: «UM MUNDO SEM REGRAS» cuja leitura aconselho.

 
Nesta minha jornada, iniciada no dia 11 de Setembro, de má memória, olho o crepúsculo de forma crispada, sentindo um arrepio percorrer-me o corpo. Tudo o que gira à minha volta mostra-me este desregramento de que nos fala Maalouf, num mundo egoísta e doente.

Olho os ecrãs de televisão e sou invadido por multidões que se misturam neste ou naquele pedaço de terra por onde circulam bandeiras e partidos em busca dos seus votantes, em plena campanha eleitoral.

Os discursos têm a forma de embrulhos envenenados, nos programas eleitorais e nas promessas que atiram ao ar na esperança de engrossarem as suas plateias. As arruadas ou os comícios em locais fechados animam-se de palmas, de gritos, de slogans, de histerias, de beijos, palmadinhas nas costas, acenos, sorrisos, acusações mutuas… as imagens falam por si de um regime democrático de onde ressalta o aumento do nosso endividamento e do elevado número de desempregados.

Há multidões para todos como se não trabalhássemos em Portugal durante estes dias de campanha eleitoral. Como é possível juntar-se tanta gente à roda das palavras de ordem. Todos os males do mundo ficam pelo caminho como a saúde, a justiça, a educação onde o tal desregramento é bem patente.

Todos sonhámos com uma democracia sã, palpável, humana, abrandando o desregramento geopolítico que também nos sufoca. Em vez disso, os negócios escuros, os malabarismos na banca, os endividamentos, as obras sumptuosas, a desumanização para com os desempregados, a perseguição aos professores, a falta de resposta do Serviço Nacional de Saúde, fazem esquecer esses males maiores que afligem a humanidade no seu plano mundial, como a crise de mentalidades, de culturas, de religiões ou como os de carácter físico – planetário, onde podemos incluir o buraco do ozono, as diferenças climatéricas… tudo isto a ameaçar um futuro mais próximo do que se pensa.

 A jornada vai longa por estes meandros de politica que hoje vivemos em Portugal, acossados por dois actos eleitorais seguidos, tornando o País um palco de artistas, brilhando no seu «votem em mim», numa animação permanente que abrange as alas da esquerda e da direita, nas grandezas e nas fraquezas que cada um dos partidos tem para oferecer.

Tudo no melhor dos aplausos dessas multidões que se deslocam, animadas, volúveis, histéricas, fazendo coro com os seus eleitos, os seus «endeusados», lavados em glória, por becos, ruas, salões, no mais aviltante desprezo pelo que vai por esse mundo, feito de injustiças e de misérias.

Por todos os altos orçamentos gastos nas campanhas eleitorais, que querem americanizadas, assentam as incoerências do que se propaga para o que se pratica. UM autentico crime é o que se gasta nesta euforia sendo todos nós, os contribuintes, a pagar essa onda democrática que se repete de quatro em quatro anos, quando não menos, se a legislatura ficar pelo caminho.

A farsa continua perante a passividade de muitos daqueles que ficam em casa a ver tão desgovernado arraial partidário. Perante as cores diversas que me mostra cada crepúsculo eu gozo de espanto como as sociedades são perversas, quando animadas em tanta falsidade, tanto cinismo, tanta hipocrisia que as campanhas eleitorais nos oferecem… chamando a estes animados espectáculos, pela conquista do poder de «democracia plena».

Vale tudo! Mas valha-nos isso: realmente é preciso atacar o deficit democrático, como o que vivemos recentemente na comunicação social, ou melhor, na tão desejada liberdade de imprensa. Neste caso, infelizmente, também não faltou esse desregramento ao qual as multidões aceitam de forma tão passiva! 




PINIQUINHOS SEM ASAS - Texto de Antônio Carlos A. dos Santos, Acas


PINIQUINHOS SEM ASAS

 Texto de Antônio Carlos A. dos Santos, Acas


Dona Geralda era uma senhora dos seus sessenta anos e por todos muito querida, por ser amável com todos. Ela veio de longe, aqui para a fazenda São José, veio lá de Minas Gerais, de um lugar cujo nome me pareceu muito bonito: São Sebastião do Paraíso.

Extremamente pobre, poderia se dizer que era mesmo miserável. Não tinha nenhum bem, exceto a aliança e o bem querer da família. Mestre nas artes de quitandeira, dona Geralda era muito requisitada para ajudar em pequenas festas nas casas das comadres, tais como batizados, crismas e casamentos.

Fazia pães de queijo, pau - à - pique, mané - pelado, broa de milho, biscoitos de araruta e de mandioca, e de quebra cozinhava muito bem. A limpeza de sua casa era um primor. Suas roupas, além das de seu marido e filhos, apesar de surradas e rústicas, mostravam bem os dotes de dona Geralda: as camisas, vestidos e calças eram um remendo só, ou melhor, pareciam feitos de retalhos, tantos os remendos, uns sobre os outros, caprichosamente alinhavados (Geralda não possuía máquina de costura) porém fazia a própria roupa e da família, tudo costurado à mão!!, além da limpeza e a brancura de suas roupas, só comparável ao seu sorriso.

Pois bem, sendo eu um menino, me acostumei a comer todos os quitutes da dona Geralda, e muitas vezes consegui convencer minha mãe a convidá-la para fazer alguns pães de queijo ou broa de milho. Devido à generosidade dela, de vez em quando passava por sua casa, quando vinha da escola. Algumas vezes dava certo, e ela me oferecia bolo de fubá, pé de moleque e outras delícias.

Certa feita apareceu em casa um grupo de garotos e garotas, vestindo roupas elegantes e procurando por mim. Um amiguinho da fazenda vizinha, ao ver chegar os filhos do patrão, inventou de ir pescar, para se livrar deles, ao que os garotos e garotas de São Paulo quiseram acompanhá-lo.

Sem saber o que fazer, disse que eu é que sabia onde dava peixe bom, e agora estavam ali, ávidos para pescar. Para se ter ideia, levaram até molinete e carretilha, que eu só conhecia de revistas, para pescar num córrego de, no máximo, dois metros de largura e um metro de profundidade.

Levei-os até um trecho do córrego e os deixei lá pescando. Eu e meu amiguinho caímos fora. Como crianças de cidade não sabem brincar sozinhos no campo, logo se cansaram e passaram a correr atrás dos cavalos, além de espantar o gado que estava sendo recolhido para a ordenha.

- Leve esses diabos daqui, disse o cocheiro e tirador de leite, leve esses diabos daqui, disseram os camaradas, minha mãe e tudo o mais. Procurei pelo amiguinho da fazenda vizinha que havia trazido esses pestes, mas ele já havia ido embora. Que fazer?

Eu os reuni, e prometi que os levaria até a divisa da fazenda, de onde iriam juntos com pessoas da fazenda vizinha que os estariam esperando, conforme tratado telefonicamente pela minha mãe e a mulher do doutor patrão de outra fazenda, já desesperada sem notícias dos filhos.

Para percorrer os seis quilômetros da minha casa até o local da divisa, num trecho de cêrca de arame farpado, conhecido por «passador», (pois permitia que pessoas passassem pela cerca de arame farpado, porém os animais não), tínhamos que atravessar a colônia da minha fazenda; e ao passar pela casa da dona Geralda, ela nos convidou a todos para entrar, mais ou menos oito pessoas.

Serviu um bolo de fubá delicioso e ainda quentinho, e, praxe na minha terra, coou um cafezinho fresco. Dona Geralda pegou uma bandeja redonda e colocou uma série de canequinhas esmaltadas, na cor azul, com florezinhas brancas e passou a servir àquele grupo risonho que já, à esta altura, haviam devorado o bolo, demonstrando uma total falta de educação.

Dona Geralda foi primeiro servir a Marta, uma garota um tanto gordinha e branca como leite (embora estivesse toda vermelha por exposição ao sol demorada). Marta agradeceu, e girou a canequinha, tentando encontrar a asa da mesma, visto que não havia pires; girou a segunda, a terceira, a quarta e nada!!


Penico ou pinico (piniquinho=piniquim)

 Muito sem jeito, olhou para Dona Geralda que calmamente lhe disse:

- Pega na caneca, fia. «Us piniquim tá tudo sem asa, uai».
 


 Canecas de café (aqui com asa)

POESIA DE JOSÉ GERALDO MARTINEZ - Não fosse poesia ...; Preciso tanto...


POESIA DE JOSÉ GERALDO MARTINEZ


 Não fosse poesia ...; Preciso tanto...


 Não fosse poesia ...

Moça, valsar em ti eu queria,
 No amplo salão do corpo teu !
 Não fosse esta ilusão só poesia,
 A bordar este instante nos sonhos meus!

 Moça, como eu queria
 Esquecer do tempo em teu corpo!
 Rodopiando em ti,
 Por teus braços, envolto...

 Moça, se sem pressa, escalar
 Cada palmo de tua pele
E do teu suor então, provar...
 Todos segredos, talvez, reveles .

 Até a exaustão,
 Tombaria em teu chão,
 Dançarino de minha fantasia !
 Ah, moça, não fosse tudo ilusão,
 Não fosse tudo só poesia!



Preciso tanto...

Preciso tanto de você,
 qual as praias o mar sem fim...
 As estrelas ao escurecer,
 a própria alma que trago em mim!

 Preciso tanto...
 Qual moribundo buscando o ar!
 A primavera as flores todas...
 Os lagos tristes, manso luar!

 Quem manda ser o meu ombro?
 Ter esta candura no olhar?
 A mão estendida aos meus muitos tombos...
 O colo para o meu descansar?

 Quem manda sorrir sempre?
 Ainda que o pesadelo me tenha acometido...
 Carregar o fardo quando eu me entrego,
 caído aos seus pés, homem vencido!

 Preciso tanto de você...
 Quem manda me transformar em um menino?
 E quando esquece seu homem feito,
 abrigando, ao peito, meus desatinos!

 Quando se abandona criança
 e me espera alegre no portão...
 No seu olhar brilhante vivo só bonança
 e lhe entrego a alma na palma da mão!

 Preciso tanto de você...
 Qual estrada um destino,
 um pintor o pincel e o poeta
 a poesia...

 Tanto amor de mim...
 Loucamente!
 Que morro todos os dias
 na mais doce agonia...
 Para nascer em você, igualmente!

«A maior felicidade de um homem é nascer
 todos os dias dentro da alma do ser amado.»
( Martinez

«Nenhuma busca é perdida se o amor
 for encontrado.»
( Martinez)




COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO - Que o vento me levante!; Jaz o semeador na seara; O Poeta Palhaço


COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO



 Que o vento me levante!; Jaz o semeador na seara; O Poeta Palhaço



 Que o vento me levante!

 Docemente
 me eleve
 acima de toda a pena
 na sua diáfana
 asa
 proteja
 da dor salgada
 entranhe
 no azul profundo
 leve
 as cinzas magoadas
 na busca
 de nuvens brancas
 onde
 repouse a fronte
 adormeça e acorde
 sossegue
 de onde volte
 renascida
 para cantar a ternura
 e
 saudar a primavera
 na luz que a todos afaga,
 aspergindo amor na Terra!



 Jaz o semeador na seara

 Há gente que
 quando parte
 deixa o mundo tão mais pobre!

 tu, semeaste searas de verde esperança
 nas terras que a guerra devastava.
 tu foste onde não se ousava
 enfrentar a amargura
 onde quer que ela grassava.

 Eras bandeira de esperança,
 semeador de ventura

 Hoje ceifou-te a loucura.
 Jazes no chão, qual papoila
 que os campos iluminava!

 (Homenagem a Sérgio Vieira de Mello, diplomata brasileiro assassinado em Bagdad)

 

 O Poeta Palhaço

 Poeta, conto-te um caso
 Que conheço bem de perto:
 Era uma vez um palhaço
 Pobre e roto, caricato,
 De narizinho redondo
 De um carmesim esfolado.
 Entrava em cena quando
 Nos bastidores do circo
 Se maquilhava um outro
 Que usava fato bordado
 Riso pintado no rosto
 Chapéu como o de Tartufo
 Cantava em voz de contralto...

 O palhaço de que falo
 Voava em cada salto
 Como se o levasse um sonho
 Não se ria no entanto
 E ficava sempre mudo.
 Quando se achava no escuro,
 Ficava vazio o circo,
 Encolhia-se num canto
 Abria a voz de seu pranto
 E sozinho, libertado,
 Tirava um papel do bolso
 E, com o dedo lambuzado,
 No suor do próprio rosto,
 Ia escrevendo, escrevendo
 Em poemas, seu calvário
 De pobre palhaço risonho,
 Enfim assumindo o vulto
 Dessoutro sério, tristonho.

 Encolhido no seu canto,
 Descobria enfim o choro
 Do ai profundo, seu Fado
 Ser poeta alistado
 De peito dilacerado...

 Esquecendo então ser mudo
 Soava o alto carpido
 Estremecido, enfim solto.
 Mau grado tendo o pano
 Da tenda para abafá-lo,
 Soava tão dolorido
 Que alarmava todo o povo
 Perturbando-lhe o sono.

 Mal o amanhecia o dia
 Punha-se a varrer a areia
 E ao papel que escrevera,
 Usando a tinta da cara,
 Em confetes o rasgava;
 Ia enfim lavar a cara
 E de novo, pintalgava
 um semblante de alegria.

 Tomava assento a plateia
 Entrava o palhaço em cena
 ... No brilho da noite, ria! 




quarta-feira, 15 de julho de 2015

Jornal Raizonline Nº 272 de 15 de Julho de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - Gozar as férias mas não muito


Jornal Raizonline Nº 272 de 15 de Julho de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - Gozar as férias mas não muito

É tradicional que os meses de Verão, normalmente Julho e Agosto, sejam os dois meses com maior frequência de veraneantes aqui pelos lados onde habito. Embora não seja já um indefectível frequentador das praias compreendo perfeitamente a alegria daqueles que para o Algarve (ou outras regiões do país) se deslocam com o são intuito de apanhar sol, água do mar por vezes límpida e habitar, de uma forma temporária numa das praias que por esse país de norte a sul abundam, incluindo nas regiões do interior onde o turismo parece ter aparecido como fonte adicional de receita.

Tenho alguma experiência de Praia, em rigor comecei tinha seis anos de idade e por vezes as pessoas com quem falo admiram-se quando eu digo que ter estes anos todos de praia me chegam para considerar a minha vida completa, ou pelo menos quase, neste plano.

Tenho experiências de Praia boas e más mas estas sobrelevam na minha ideia presente. Algumas foram terríveis mesmo. Eu agarrado a um grelhador tinha de dar de comer à filharada (que não é muito numerosa), mais os primos, primas, amigos e uma longa lista de familiares, que talvez esperassem pacientemente a febra, a sardinha ou as salsichas mas cujo olhar mesmo não denotando impaciência eu sentia varar-me de lado a lado, porque uma coisa é aquilo que os outros possam pensar e pode ser outra coisa aquilo que nós sentimos.

Dormi mal, acordei muitas manhãs sem saber se tinha dormido de facto, tomei duches por vezes quase horários, tentei fugir o máximo possível à braza solar, procurei sombras para me acolher e tentar ressonar um pouco, carreguei sacos, caixas, garrafões de água mineral, ouvi vizinhas  discussões que o calor fomentava, ouvi gritos de adultos e crianças, percorri quilômetros para beber uma bica, ouvi altos berros de pimba de manhã à noite, frequentei casas de banho públicas horríveis, urinei na areia ou mesmo no mar onde tantos outros faziam o mesmo e, por último fui feliz, sim, fui muito feliz contando no calendário os dias que faltavam para me pirar.

Cada dia que passava era um a menos para estar ali, na praia, na famosa praia mas o calendário era lento como tudo, cada dia tinha 48 horas pelo menos e um mês ou quinze dias multiplicavam-se no gregoriano e compreendi, nessas alturas, que era absolutamente possível o Moisés ter vivido 400 anos.

Quando chegava a altura da partida, de arranjar as coisas para levar era um frete maior ainda do que aquele que tinha tido para preparar as coisas para levar para esses paraísos que a minha alma tenta agora esquecer. «Então não vai (ou não vais) à Praia? »

Não, não e não. Fica mal dizer isto mas odeio a praia, comecei a odiá-la há uns quantos anos e só me recordo dela com prazer dos tempos em que era criança ou jovem, em que tudo estava bem, a mãe fazia o almoço, ou nem me preocupava com isso levando ou comprando sandes para desenrascar.

Breve, a Praia , para mim, não é para gente crescida a menos que nos sentemos numa esplanada de manhã à noite lendo livros ou jornais e revistas e cada vez que um grão de areia ou uma gota de água salgada se aventure no nosso estanque mundo, consigamos fazer com que isso pareça um acidente esporádico, uma daquelas coisas que acontecem poucas vezes na nossa vida.

Breve, a minha praia, hoje é mexer o mínimo possível o traseiro, aconchegando o corpinho na cadeira quando necessário e manter aquele sorriso gozão que nos mostra a nós e ao mundo que estamos verdadeiramente de férias.