domingo, 26 de julho de 2015

PINIQUINHOS SEM ASAS - Texto de Antônio Carlos A. dos Santos, Acas


PINIQUINHOS SEM ASAS

 Texto de Antônio Carlos A. dos Santos, Acas


Dona Geralda era uma senhora dos seus sessenta anos e por todos muito querida, por ser amável com todos. Ela veio de longe, aqui para a fazenda São José, veio lá de Minas Gerais, de um lugar cujo nome me pareceu muito bonito: São Sebastião do Paraíso.

Extremamente pobre, poderia se dizer que era mesmo miserável. Não tinha nenhum bem, exceto a aliança e o bem querer da família. Mestre nas artes de quitandeira, dona Geralda era muito requisitada para ajudar em pequenas festas nas casas das comadres, tais como batizados, crismas e casamentos.

Fazia pães de queijo, pau - à - pique, mané - pelado, broa de milho, biscoitos de araruta e de mandioca, e de quebra cozinhava muito bem. A limpeza de sua casa era um primor. Suas roupas, além das de seu marido e filhos, apesar de surradas e rústicas, mostravam bem os dotes de dona Geralda: as camisas, vestidos e calças eram um remendo só, ou melhor, pareciam feitos de retalhos, tantos os remendos, uns sobre os outros, caprichosamente alinhavados (Geralda não possuía máquina de costura) porém fazia a própria roupa e da família, tudo costurado à mão!!, além da limpeza e a brancura de suas roupas, só comparável ao seu sorriso.

Pois bem, sendo eu um menino, me acostumei a comer todos os quitutes da dona Geralda, e muitas vezes consegui convencer minha mãe a convidá-la para fazer alguns pães de queijo ou broa de milho. Devido à generosidade dela, de vez em quando passava por sua casa, quando vinha da escola. Algumas vezes dava certo, e ela me oferecia bolo de fubá, pé de moleque e outras delícias.

Certa feita apareceu em casa um grupo de garotos e garotas, vestindo roupas elegantes e procurando por mim. Um amiguinho da fazenda vizinha, ao ver chegar os filhos do patrão, inventou de ir pescar, para se livrar deles, ao que os garotos e garotas de São Paulo quiseram acompanhá-lo.

Sem saber o que fazer, disse que eu é que sabia onde dava peixe bom, e agora estavam ali, ávidos para pescar. Para se ter ideia, levaram até molinete e carretilha, que eu só conhecia de revistas, para pescar num córrego de, no máximo, dois metros de largura e um metro de profundidade.

Levei-os até um trecho do córrego e os deixei lá pescando. Eu e meu amiguinho caímos fora. Como crianças de cidade não sabem brincar sozinhos no campo, logo se cansaram e passaram a correr atrás dos cavalos, além de espantar o gado que estava sendo recolhido para a ordenha.

- Leve esses diabos daqui, disse o cocheiro e tirador de leite, leve esses diabos daqui, disseram os camaradas, minha mãe e tudo o mais. Procurei pelo amiguinho da fazenda vizinha que havia trazido esses pestes, mas ele já havia ido embora. Que fazer?

Eu os reuni, e prometi que os levaria até a divisa da fazenda, de onde iriam juntos com pessoas da fazenda vizinha que os estariam esperando, conforme tratado telefonicamente pela minha mãe e a mulher do doutor patrão de outra fazenda, já desesperada sem notícias dos filhos.

Para percorrer os seis quilômetros da minha casa até o local da divisa, num trecho de cêrca de arame farpado, conhecido por «passador», (pois permitia que pessoas passassem pela cerca de arame farpado, porém os animais não), tínhamos que atravessar a colônia da minha fazenda; e ao passar pela casa da dona Geralda, ela nos convidou a todos para entrar, mais ou menos oito pessoas.

Serviu um bolo de fubá delicioso e ainda quentinho, e, praxe na minha terra, coou um cafezinho fresco. Dona Geralda pegou uma bandeja redonda e colocou uma série de canequinhas esmaltadas, na cor azul, com florezinhas brancas e passou a servir àquele grupo risonho que já, à esta altura, haviam devorado o bolo, demonstrando uma total falta de educação.

Dona Geralda foi primeiro servir a Marta, uma garota um tanto gordinha e branca como leite (embora estivesse toda vermelha por exposição ao sol demorada). Marta agradeceu, e girou a canequinha, tentando encontrar a asa da mesma, visto que não havia pires; girou a segunda, a terceira, a quarta e nada!!


Penico ou pinico (piniquinho=piniquim)

 Muito sem jeito, olhou para Dona Geralda que calmamente lhe disse:

- Pega na caneca, fia. «Us piniquim tá tudo sem asa, uai».
 


 Canecas de café (aqui com asa)

POESIA DE JOSÉ GERALDO MARTINEZ - Não fosse poesia ...; Preciso tanto...


POESIA DE JOSÉ GERALDO MARTINEZ


 Não fosse poesia ...; Preciso tanto...


 Não fosse poesia ...

Moça, valsar em ti eu queria,
 No amplo salão do corpo teu !
 Não fosse esta ilusão só poesia,
 A bordar este instante nos sonhos meus!

 Moça, como eu queria
 Esquecer do tempo em teu corpo!
 Rodopiando em ti,
 Por teus braços, envolto...

 Moça, se sem pressa, escalar
 Cada palmo de tua pele
E do teu suor então, provar...
 Todos segredos, talvez, reveles .

 Até a exaustão,
 Tombaria em teu chão,
 Dançarino de minha fantasia !
 Ah, moça, não fosse tudo ilusão,
 Não fosse tudo só poesia!



Preciso tanto...

Preciso tanto de você,
 qual as praias o mar sem fim...
 As estrelas ao escurecer,
 a própria alma que trago em mim!

 Preciso tanto...
 Qual moribundo buscando o ar!
 A primavera as flores todas...
 Os lagos tristes, manso luar!

 Quem manda ser o meu ombro?
 Ter esta candura no olhar?
 A mão estendida aos meus muitos tombos...
 O colo para o meu descansar?

 Quem manda sorrir sempre?
 Ainda que o pesadelo me tenha acometido...
 Carregar o fardo quando eu me entrego,
 caído aos seus pés, homem vencido!

 Preciso tanto de você...
 Quem manda me transformar em um menino?
 E quando esquece seu homem feito,
 abrigando, ao peito, meus desatinos!

 Quando se abandona criança
 e me espera alegre no portão...
 No seu olhar brilhante vivo só bonança
 e lhe entrego a alma na palma da mão!

 Preciso tanto de você...
 Qual estrada um destino,
 um pintor o pincel e o poeta
 a poesia...

 Tanto amor de mim...
 Loucamente!
 Que morro todos os dias
 na mais doce agonia...
 Para nascer em você, igualmente!

«A maior felicidade de um homem é nascer
 todos os dias dentro da alma do ser amado.»
( Martinez

«Nenhuma busca é perdida se o amor
 for encontrado.»
( Martinez)




COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO - Que o vento me levante!; Jaz o semeador na seara; O Poeta Palhaço


COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO



 Que o vento me levante!; Jaz o semeador na seara; O Poeta Palhaço



 Que o vento me levante!

 Docemente
 me eleve
 acima de toda a pena
 na sua diáfana
 asa
 proteja
 da dor salgada
 entranhe
 no azul profundo
 leve
 as cinzas magoadas
 na busca
 de nuvens brancas
 onde
 repouse a fronte
 adormeça e acorde
 sossegue
 de onde volte
 renascida
 para cantar a ternura
 e
 saudar a primavera
 na luz que a todos afaga,
 aspergindo amor na Terra!



 Jaz o semeador na seara

 Há gente que
 quando parte
 deixa o mundo tão mais pobre!

 tu, semeaste searas de verde esperança
 nas terras que a guerra devastava.
 tu foste onde não se ousava
 enfrentar a amargura
 onde quer que ela grassava.

 Eras bandeira de esperança,
 semeador de ventura

 Hoje ceifou-te a loucura.
 Jazes no chão, qual papoila
 que os campos iluminava!

 (Homenagem a Sérgio Vieira de Mello, diplomata brasileiro assassinado em Bagdad)

 

 O Poeta Palhaço

 Poeta, conto-te um caso
 Que conheço bem de perto:
 Era uma vez um palhaço
 Pobre e roto, caricato,
 De narizinho redondo
 De um carmesim esfolado.
 Entrava em cena quando
 Nos bastidores do circo
 Se maquilhava um outro
 Que usava fato bordado
 Riso pintado no rosto
 Chapéu como o de Tartufo
 Cantava em voz de contralto...

 O palhaço de que falo
 Voava em cada salto
 Como se o levasse um sonho
 Não se ria no entanto
 E ficava sempre mudo.
 Quando se achava no escuro,
 Ficava vazio o circo,
 Encolhia-se num canto
 Abria a voz de seu pranto
 E sozinho, libertado,
 Tirava um papel do bolso
 E, com o dedo lambuzado,
 No suor do próprio rosto,
 Ia escrevendo, escrevendo
 Em poemas, seu calvário
 De pobre palhaço risonho,
 Enfim assumindo o vulto
 Dessoutro sério, tristonho.

 Encolhido no seu canto,
 Descobria enfim o choro
 Do ai profundo, seu Fado
 Ser poeta alistado
 De peito dilacerado...

 Esquecendo então ser mudo
 Soava o alto carpido
 Estremecido, enfim solto.
 Mau grado tendo o pano
 Da tenda para abafá-lo,
 Soava tão dolorido
 Que alarmava todo o povo
 Perturbando-lhe o sono.

 Mal o amanhecia o dia
 Punha-se a varrer a areia
 E ao papel que escrevera,
 Usando a tinta da cara,
 Em confetes o rasgava;
 Ia enfim lavar a cara
 E de novo, pintalgava
 um semblante de alegria.

 Tomava assento a plateia
 Entrava o palhaço em cena
 ... No brilho da noite, ria! 




quarta-feira, 15 de julho de 2015

Jornal Raizonline Nº 272 de 15 de Julho de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - Gozar as férias mas não muito


Jornal Raizonline Nº 272 de 15 de Julho de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - Gozar as férias mas não muito

É tradicional que os meses de Verão, normalmente Julho e Agosto, sejam os dois meses com maior frequência de veraneantes aqui pelos lados onde habito. Embora não seja já um indefectível frequentador das praias compreendo perfeitamente a alegria daqueles que para o Algarve (ou outras regiões do país) se deslocam com o são intuito de apanhar sol, água do mar por vezes límpida e habitar, de uma forma temporária numa das praias que por esse país de norte a sul abundam, incluindo nas regiões do interior onde o turismo parece ter aparecido como fonte adicional de receita.

Tenho alguma experiência de Praia, em rigor comecei tinha seis anos de idade e por vezes as pessoas com quem falo admiram-se quando eu digo que ter estes anos todos de praia me chegam para considerar a minha vida completa, ou pelo menos quase, neste plano.

Tenho experiências de Praia boas e más mas estas sobrelevam na minha ideia presente. Algumas foram terríveis mesmo. Eu agarrado a um grelhador tinha de dar de comer à filharada (que não é muito numerosa), mais os primos, primas, amigos e uma longa lista de familiares, que talvez esperassem pacientemente a febra, a sardinha ou as salsichas mas cujo olhar mesmo não denotando impaciência eu sentia varar-me de lado a lado, porque uma coisa é aquilo que os outros possam pensar e pode ser outra coisa aquilo que nós sentimos.

Dormi mal, acordei muitas manhãs sem saber se tinha dormido de facto, tomei duches por vezes quase horários, tentei fugir o máximo possível à braza solar, procurei sombras para me acolher e tentar ressonar um pouco, carreguei sacos, caixas, garrafões de água mineral, ouvi vizinhas  discussões que o calor fomentava, ouvi gritos de adultos e crianças, percorri quilômetros para beber uma bica, ouvi altos berros de pimba de manhã à noite, frequentei casas de banho públicas horríveis, urinei na areia ou mesmo no mar onde tantos outros faziam o mesmo e, por último fui feliz, sim, fui muito feliz contando no calendário os dias que faltavam para me pirar.

Cada dia que passava era um a menos para estar ali, na praia, na famosa praia mas o calendário era lento como tudo, cada dia tinha 48 horas pelo menos e um mês ou quinze dias multiplicavam-se no gregoriano e compreendi, nessas alturas, que era absolutamente possível o Moisés ter vivido 400 anos.

Quando chegava a altura da partida, de arranjar as coisas para levar era um frete maior ainda do que aquele que tinha tido para preparar as coisas para levar para esses paraísos que a minha alma tenta agora esquecer. «Então não vai (ou não vais) à Praia? »

Não, não e não. Fica mal dizer isto mas odeio a praia, comecei a odiá-la há uns quantos anos e só me recordo dela com prazer dos tempos em que era criança ou jovem, em que tudo estava bem, a mãe fazia o almoço, ou nem me preocupava com isso levando ou comprando sandes para desenrascar.

Breve, a Praia , para mim, não é para gente crescida a menos que nos sentemos numa esplanada de manhã à noite lendo livros ou jornais e revistas e cada vez que um grão de areia ou uma gota de água salgada se aventure no nosso estanque mundo, consigamos fazer com que isso pareça um acidente esporádico, uma daquelas coisas que acontecem poucas vezes na nossa vida.

Breve, a minha praia, hoje é mexer o mínimo possível o traseiro, aconchegando o corpinho na cadeira quando necessário e manter aquele sorriso gozão que nos mostra a nós e ao mundo que estamos verdadeiramente de férias.





     

terça-feira, 14 de julho de 2015

EU COMIGO - Texto e Poema de Mário Matta e Silva


EU COMIGO

Texto e Poema de Mário Matta e Silva

Só encontro uma forma de vencer pela poesia: escrevê-la! Ficamos bem com o nosso Ego e com o Mundo que nos rodeia, seja ele bonito ou feio. Desse instante faz-se uma eternidade (conforme poema que já publiquei) e de cada sentimento um desejo de viver bem com tudo e com todos, mesmo que não conformado com o mal.

O Bem é a nossa bandeira e o mal o nosso inimigo que tentamos abater com palavras harmonizadas e articuladas de forma a expressarmos os nossos «estados de alma». O espaço, mesmo que pequenino é global. A universalidade da palavra torna-nos universais. Somos a palavra com que comunicamos.

Somos um elo que liga, pela estética e pela semântica das expressões, as sensações de todo o ser racional. Vibramos assim tão simplesmente comunicando como o fizeram, muito recuadamente, Orácio, Catulo, Ovídio, Virgílio ou até Moisés, Job, David, Salomão ou Isaías. O Bem e o Amor tornou-se na religião dos Poetas.


Poesia do meu primeiro livro «NUNCA VOS DIREI TUDO» ed. 2002

EU COMIGO

Cá estou eu de novo.
 Eu comigo.
 Comigo unicamente.
 Ausente inda que presente.
 Um querer sentir que me renovo
 Neste dar-me tão antigo!

Cá estou de novo... noutro apertado nó
 Num diálogo sem inimigo
 Olho-me, sinto-me... e só
 Viajo no tempo e louvo
 O facto de ser eu o meu melhor amigo
 Mesmo quando me torno em meu próprio estorvo

Lá estou eu de novo numa labiríntica encruzilhada
 Penso no que procuro e ainda não encontrei
 Tropeço e avanço neste acidentado caminho!
 Aturo-me, agrido-me, revolto-me... eu sei...
 Há dias em que o mundo é uma grande laranja vazia... sem nada
 E nele me refugio, só, comigo... gemendo em verso mas baixinho..




Considerações sobre o pós romantismo - Por Daniel Teixeira


Considerações sobre o pós romantismo

Por Daniel Teixeira

No ponto de vista literário (e interessa realçar desde logo que não vamos falar da burguesia revolucionária de 1789 mas sim da burguesia imperialista) a razão do império aparece como uma decadência dos ideais igualitários e nobres para se transmitir a uma decadência não só de valores como de expectativas: a desilusão origina entre outras coisas no plano das ideias o sentimento de decadência e consequente gosto pela evasão a que Baudelaire chamava de paraísos artificiais, a entrada nos campos do mistério e do ocultismo.

O saldo da utopia igualitária de 1789 parece largamente negativo, e, mais do que negativo, aparece como irreversível. O real torna-se horrível e apesar dos esforços dos românticos para fazerem a apologia do supra sensível, daquilo que está para além da realidade vivida, entrando na apologia da «alma», (o feio / belo) , do subjectivo, o peso da realidade é por demais carregado de maus augúrios e o processo de fuga aparece como uma inevitabilidade.

A encantação hipnótica ou pretensamente mágica fazem escola entre os decandentistas fim de século, num acoitamento intelectual que origina como que uma dobragem das pessoas sobre si mesmas. Falseados os ideais gerais resta o eu e o culto do eu como tábua de salvação psíquica e intelectual.

Mas não se trata de um eu qualquer que se tem de elevar. Trata-se de um eu que, não fazendo de forma alguma a revolução mental ou intelectual, apareça como um eu substituto dos individualismos perdidos e da utopia relançada. Neste plano Nietzsche é bastante esclarecedor na sua análise que se pode muito bem adaptar à época:

Nietzsche nas suas «Origens da Tragédia» ao analisar a posição do público em face da Tragédia Grega (neste caso concreto mas de possível generalização para outros campos da arte e do pensamento), constata (deduz) que a identificação do público em face da tragédia grega não se verifica pela sua intrusão no campo específico da tragédia (na absorção dela) mas sim pela aquisição de um estado de espírito resultante da observação da tragédia. Ou seja, o que o público  «absorve» não é a tragédia em si mas sim uma ideia sua da tragédia, que guarda enquanto sentimento individual, estado de espírito, componente psico - social.

Entendendo que a tragédia representada não é senão  uma mediação de uma hipotética tragédia real, o efeito resultante da combinação: tragédia real, tragédia representada e tragédia vivida acaba na aceitação de um sumo residual em que a tragédia interiorizada fica como sentimento, como componente de uma psicologia geral, como expectativa ou falta dela.

E este aspecto é importante fazer realçar por razões várias entre as quais esta que vamos descrever de seguida:

Era convicção anterior à constatação de Nietzsche, que o coro grego tinha funcionado como que se de um embrião se tratasse do futuro público e que, a manutenção do coro (agora como público) era ainda um vestígio dessa unidade espectáculo / público, um plano de transição que interessava manter não porque fosse agora absolutamente necessário mas porque era, simbolicamente, uma relíquia da génese do espectáculo.

Ora esta ideia, implicava que houvesse, mesmo no agora público um sentimento de interacção tragédia / público. As implicações desta concepção que Nietzsche combate têm a ver, no plano psicológico, com formas de reconhecer a Arte, e estabelecem uma clivagem importante no combate a algumas concepções do Romantismo e do período romântico.

Com efeito, neste, no Romantismo - sobretudo e para Nietzsche no caso de Schlegeel - enquanto que o coro sendo a génese do público era uma prefiguração do público e a demonstração de uma unidade público / espectáculo, no caso de Nietzsche o problema inverte-se: o coro, não sendo resquício do público mantém a separação entre a Arte representada (neste caso) e o público como auditor.

Assim, e trazendo para o espírito da altura, a Arte (ou a tragédia vivenciada) estavam acima do público (povo) e reproduziam em si um sentimento real no artista e um sentimento difuso no público. Logo, a Arte e o artista estão para além do público, como entidades distintas, e o público algures colocado na posição de intérprete passivo de uma parte transfigurada (pela sua própria subjectividade e que pouco ou muito terá a ver com a subjectividade da Arte).

O distanciamento do artista do público é assim acentuado por Nietzsche numa forma e concepção que vem a fundamentar a posição do artista e da Arte como sendo alguém e uma coisa colocadas numa proximidade mais próxima do Demiurgo Platónico que Nietzsche noutros campos combate.

Este aspecto é importante ser realçado porquanto o chamado vitalismo de Nietzsche e outros que podem ser inseridos nesta corrente, como Dhiltey (este em certos sentido um pré-existencialista) e Ortega Y Gassett, por exemplo, faz realçar a capacidade de o homem alterar o estado das coisas e faz o elogio da vida, não daquela que se
vive mas de uma outra transformada, sem que para isso utilize qualquer praxis senão aquela que é própria da mera constatação das fatalidades reais.

O artista e a Arte, longe da realidade «comezinha» precisam de todo um enquadramento substancial que legitime a Arte enquanto Arte não como Arte do real mas sim como Arte do real anunciado. A convicção premonitória e profética da Arte
confere-lhe um estatuto que se estende a toda a intelectualidade e tem, reflexos reflectidos e outros projectados nos diversos campos do pensamento.

Este afastamento propositado da realidade tem consequências que derivam para várias direcções. O existencialismo, sobretudo o de Camus, defende mais uma posição passiva perante os factos da vida, ou mesmo quando ela não é passiva, o ser humano acaba por ser absorvido pela força das coisas e objectiva-se perante elas.

Por outras palavras podemos dizer que o real demonstrado não é assim tão significativo que force ou origine a sua modificação ou uma atitude para que tal aconteça. Até porque na sua grande parte ele é entendido como percorrendo um caminho inalcançável.

O real torna-se pouco significante, em termos de influência sobre o ser e reflecte -se sobretudo sobre o estar, que é entendido como um estádio, uma transição, insuperável como facto acontecendo e incombatível pela praxis mas entendido de pouco significado substancial no devir.

Esta negação / diferenciação do ser está bem mais próxima do espírito da época do que aquela que é trazida por outros correntes e autores, que, mesmo no caso de Jean Paul Sartre acabam por ter de colocar a premissa prática como imperativa mas já fora do campo específico do pensamento sobre este tipo de existência como facto.

O mundo é, de facto trágico, mas existem razões para que ele assim seja e nenhuma delas se encontra no campo do real, é para Nietzsche um problema filosófico cultural. Tudo aquilo que é preciso fazer é modificar essas razões (no caso de Nietzsche a metafísica platónica) sem que se faça o mínimo esforço (para além daqueles que são considerados dentro do processo crítico abstracto). O tempo, o futuro, trará aquilo pelo qual os homens abstractamente agora anseiam mas sem intervenção deles.

Já no caso de Camus, e regressando a este autor, começando pelo seu Avesso e o Direito da juventude é a própria situação (o real) que envolve as pessoas e as leva a procederem de forma quase predestinada (absurda mas irrecusável) mas sempre despida de significado substante. O homem, para este tipo de existencialismo não é aquilo que é mas sim aquilo que será; logo, nada mais lógico do que «deixar» a realidade demonstrar-se certos que estamos de que essa realidade não é, de facto, uma realidade em devir. Ou seja, não é processo, não é causa, é mero efeito sem causa.

Neste autor (Camus), estando o homem condenado a viver o absurdo num mundo absurdo resta-lhe ter consciência dele e semear, de alguma forma, aquilo que as gerações futuras irão recolher. A morte aparece assim como uma passagem de testemunho entre gerações…como algo inevitável e inglório, de certa forma, porque não muda nada enquanto acto, apenas serve como relógio de uma cronologia do devir a manifestar.

A situação que se vive nem sequer é aquela que coloca a necessidade de antecipar a morte para que esse devir se manifeste ou se possa manifestar. Ela não influi pura e simplesmente, tal como um relógio parado ou a trabalhar não influi, no decurso do tempo.

Contudo, e voltando a Nietzsche e à sua Origem da Tragédia, há um outro aspecto a fazer notar. A defesa da equiparação do público como observador e também como actor na tragédia grega (no caso exemplificativo de Nietzsche) implica a identidade deste com a tragédia, como vimos, mas no caso de Nietzsche o que se obtém é antes um
 estado de espírito diferenciado, após a visão da tragédia, mas nunca um estado de espírito trágico no sentido da tragédia vista mas não vivida. No entanto, ela move-se, ou seja, o público recebe influência: não uma influência fiel ou
correspondente mas essa influência existe.

Por outras palavras ainda podemos afirmar que, segundo ainda Nietzsche e as concepções um pouco espalhadas na época, se é um facto que o público é indiferente ao processo e desenrolamento da tragédia (Arte e Pensamento) a inversa já não é verdadeira. Ou seja, o público, esse, mesmo não participando, é influenciado pela tragédia, como vimos. Há assim um percurso de um só sentido, em que o Artista / pensador produz e o público interpreta, digere à sua maneira e age de acordo com a sua maneira.

Em termos pessoais, e extrapolando para a psique, recusa, desta forma, Nietzsche a influência integral do outro sobre o eu e recusa também Nietzsche a perca de identidade do eu em relação ao outro, ou seja, a subsunção deste perante os ditames do outro. Em qualquer dos casos o que está mais presente é, de um lado, a impossibilidade de o «vulgo» público real influir na realidade etérea da tragédia, mas por outro lado (para que não haja identificação) esta também não interage de uma forma portentosa sobre o público e o real.

Os condimentos globais são, pois, que nada há ou nada se pode fazer...

Esta é uma temática que vem desenvolvida em Hegel, sobretudo através da sua famosa dialéctica do senhor e do escravo, e que como anti Hegeliano Nietzsche combate, mas
que não é assim tão passível de adesão imediata. O parcelamento da subsunção (neste caso do público) perante o conteúdo trágico do real é, de alguma forma, uma diferenciação de subjectividades entre o Artista e a Arte e o Público / mundo perante a tragédia.

Ora a tragédia é a própria vivência social e o espírito resultante da observação da tragédia humana é uma visão igualmente trágica, ainda que com registos diferentes.

É importante transcrever agora o texto de Nietzsche que se segue: «Durante a embriaguez estática do estado dionisíaco, (observação da tragédia no plano mediado, neste caso por notícias ou mesmo por via cultural) vão-se abolindo as separações e os limites ordinários da existência, e há efectivamente um momento letárgico, durante o qual se desvanecem todas as lembranças pessoais do passado (do trágico mediado).

Entre o mundo da realidade dionisíaca (aquela que se apresenta mediada) e o mundo da realidade quotidiana cava-se esse abismo do esquecimento que os separa um do outro.

Mas, logo que volta a apresentar-se à consciência a realidade quotidiana, (ou seja, quando existe a fusão de registos diferentes entre o real e o mediado) esta (tragédia, ou vivência trágica) é sentida como tal com aborrecimento, e uma disposição ascética, negadora da vontade, é o resultado daquela impressão.» (…)

Por outras palavras (e de notar que nos servimos das palavras de Nietzsche acrescentando-lhes alguns esclarecimentos para compreensão do texto) a tragédia não é assumida enquanto tal e como facto real, mas que esta sai de uma mediação (a expositiva) para entrar numa outra mediação, desta feita eminentemente interior e subjectiva, com forte componente rebuscado na sensação de impotência e no desejo de evasão, conforme em Baudelaire.

O espectador da tragédia mediada (porque a não vive profundamente ou fisicamente) não se identifica de forma nenhuma com uma posição positiva de fazer reerguer aquilo que o fere ou feriu; antes opta por aquela atitude que considera mais coerente consigo mesmo que é a de fazer uma interiorização exteriorizada (passe o paradoxo) através de atitudes que, de acordo com a sua vivência e formação, considera urgentes até como purga psicológica do seu mal de vivre adquirido.

A Filosofia, seguindo a peugada, envereda pelo quase psicologismo e de certa forma abandona os a priori cosmológicos para se debruçar sobre o homem e o seu destino.

Estas correntes, na sua grande parte são correntes de escola que embora nalguns casos acabem por negar partes da filosofia construída ao longo dos séculos, acabam também por lhes retirar aquilo que consideram que de positivo foi pensado.

E neste ambiente ou num ambiente em que estes valores estão ainda presentes, se desenvolvem, se questionam e se reformulam que surge o pós romantismo como arte do não real ou do real subjectivamente mediado.

 
 



Crónicas do Oriente - Por: António Cambeta - Macau / Tailândia


Crónicas do Oriente -  Por: António Cambeta -  Macau / Tailândia

 SUTHORN PHU - O «Camões» Tailandês


O mais famoso poeta e o mais amado pelo povo tailandês, foi SUTHORN PHU

 No quinto ano do reinado do Rei Rama I, nascia no dia 26 de Junho de 1786, em Bangkok-noi, por detrás do palácio onde hoje se situa a estação de caminhos de ferro, um jovem a quem puseram o nome de PHU.

 Seu pai era natural da província de Rayong. Sua mãe era de outra província. Sunthorn Phu nasceu pouco depois de ter sido estabelecida a cidade de Bangkok (1782), volvido pouco tempo seus pais se divorciaram, tendo seu pai regressado à sua terra de origem, Muang Klaeng, Rayong, onde entrou para um mosteiro tornando-se monje budista.

 A sua mãe voltou a casar-se, passando a servir no Palácio Real. O jovem Phu foi educado no Wat (mosteiro) Sri Sudaram que se situava em Klong, Bangkok-noi, tendo abandonado os estudos para exercer o cargo de escriturário do governo, no palácio real, porém o que lhe agradava mais fazer era escrever poemas, tendo composto um longo poema baseado na história de Khobutra, o qual não chegou a completar.

Sendo uma pessoa muito independente e com um espírito muito curioso, criou uma série de conflitos, entre eles e o mais grave foi ter-se apaixonado por uma dama, ligada à realeza, de apelido Chan (ou Jun), dama essa que exerceu uma enorme influência no trabalho poético que Phu realizou. Phu foi punido e preso, por desrespeitar e violar a tradição monárquica.

 Após o indulto, e já com 21 anos de idade Sunthorn Phu, resolveu sair de Bangkok, indo visitar seu pai, que vivia na província de Rayong. Durante a longa viagem que durou um mês, o poético rapaz escreveu o seu primeiro poema chamado «Nirat Muang Laeng» poema esse que descreve a viagem com grande detalhe e sua grande paixão e saudade pela dama Chan, isto no ano de 1807.


 Regressado a Bangkok com ela contraiu matrimónio, desse enlace nasceu um filho chamado «Pat» que na idade adulta foi nomeado Juiz. O Phu entretanto tornou-se um alcoólatra, arranjando sempre conflitos com sua esposa, por esta foi abandonado. No ano de 1821, foi preso por se ter envolvido numa briga.

 O casal Phu estava casado ainda há pouco tempo, e foi por essa altura que Phu se envolveu em amores com outra senhora, o que levou a ter que se divorciar. Este foi o primeiro de muitos casamentos que contraiu e que terminaram em divórcio. Porém, a mulher que ele mais amou foi a Jun. No ano de 1809 morre o Rei Rama I, sucedendo-lhe no trono o Rei Rama II, este um poeta de génio, tendo visto Sunthorn Phu chamou-o para junto de si .

 O Rei quando escreveu o seu livro Ramakien, muitas vezes consultou o poeta Phu, tendo encontrado nele sempre uma metrificação, tendo sempre uma resposta sábia para os assuntos que o Rei indagava. Tão satisfeito ficou que lhe concedeu o título de Khun (Sir) Sunthorn Voharn.

 O poeta continuava a beber e a arranjar atritos, e um dia entrou em vias de facto com um tio de sua majestade, sendo por isso preso.

 A prisão serviu para o poeta como uma bênção , visto que foi durante a sua estadia na prisão, que concebeu a ideia de escrever um longo romance, onde narrava as aventuras vividas por dois irmãos, num mundo cheio de magia e encantos. Foi esta escrita imaginativa, uma das maiores obras literárias que se tornou famosa sendo seu título Phra Abhai Mani.

 Esta obra só foi concluída quando o poeta atingiu a meia idade, tendo-a publicado em capítulos e ganho algum dinheiro com isso, e tendo-se tornado famoso. Não ficou muitos anos preso, visto sua majestade lhe ter concedido perdão e lhe dar o posto de professor régio, tendo ensinados os príncipes e sendo conselheiro literário do Rei.

 Foi nesta qualidade de conselheiro literário do Rei que ele incorreu na ira do filho mais velho do Rei, Príncipe Jesdabodindra, também um ilustre poeta, que Phu se aventurou a fazer criticas públicas de algumas linhas escritas pelo Príncipe, ao ponto de corrigir e alterar a sua escrita. O Príncipe tomou isso como uma ofensa pessoal e, infelizmente para o poeta ele nunca mais o esqueceu e jamais o perdoou por isso.

 Em 1824, o grande patrono do poeta , o Rei Rama II, faleceu, tendo subido ao trono o Príncipe Jesdabodindra, tendo retirado ao poeta o título de Kun (Sir) , perdendo este igualmente o seu posto no palácio, saiu da capital e se dedicou à agricultura, porém por pouco tempo tendo se refugiado num mosteiro, onde permaneceu 18 anos tendo escrito vários poemas, o mais notável Nirat Suphan e Nirat Wat Chao Fa, obras estas escritas durante as suas viagens e em lugares diferentes, tendo saído do mosteiro para se tornar comerciante.

 No ano de 1832, o Príncipe Lakhananukhun, filho do Rei Rama III, teve o prazer de ler os poemas de Phu, adorou a sua escrita, tendo-o chamado para junto de si, tendo Phu escrito para o seu patrono alguns poemas.

Mas o poeta obstinado e criando sempre problemas, quando o seu patrono morre no ano de 1835, tornou a ser expulso do palácio, tendo passado a vaguear de lugar para lugar usando um barco que lhe servia de habitação e vendendo seus poemas, sempre que podia.

 Porém um grande poeta como era o Phu não podia continuar vivendo na obscuridade, foi então que o Príncipe Isaresrangsan, outro filho do Rei Rama II, o mandou chamar ficando o poeta aos seu serviço.

 Este Príncipe era o irmão querido do Príncipe Mongkut, assim que seu irmão subiu ao trono como Rei Rama IV, concedeu ao poeta o título de Phra Sunthorn Voharn, tendo passado o restos de seus dias vivendo em paz até que faleceu em 1885.

 Ele deixou para trás um legado de poemas que se tornaram famosos ao longo do tempo, porque eles descrevem a história da Tailândia.

 Os seus poemas são ensinados nas escolas tailandesas, tal como o Lusíadas em Portugal, ficando assim a saber - se a história de seu Tailândia.

 As suas obras poéticas foram homenageadas pela UNESCO. Ele começou o poema épico, Phra Aphai Mani na prisão, e publicou-o em parcelas ao longo de 20 anos. Durante o período de 1824 a 1851, sendo Rei Rama III, o poeta por ter sido por ele criticado pela forma forma como escrevia e por ter por ele sido punido, pouco mais escreveu.

 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A solidão dos idosos - Por Maria José Vieira de Sousa


A solidão dos idosos

O Lugar

 Por Maria José Vieira de Sousa

Recolhido em Livres Pensantes

 Quando voltou ao salão de convívio teve pela primeira vez consciência plena da segregação etária que as novas gerações estavam a impor. O convívio e a coabitação intergeracionais estavam, efectivamente, em processo de regressão, senão mesmo em declarada extinção.

 O quadro com que deparou nessa manhã, naquele salão, impôs-lhe abruptamente a dolorosa assunção dessa realidade chocante que nunca se dispusera sequer a formalizar.

 O Lugar era a morada de uma só geração: a geração dos velhos.

 Apesar do conforto discreto que a decoração emprestava ao salão, sentia-se no ar o silêncio frio e mudo da tristeza que enferma a solidão.

 Estariam aí cerca de quinze pessoas. Algumas estavam confortavelmente sentadas em cadeirões reclináveis junto a uma grande televisão que estava ligada com o som no mínimo, quase inaudível. Outras, que teriam problemas locomotores, estavam acomodadas em cadeiras de rodas perto das grandes portas envidraçadas que davam para o terraço. Entre elas, distribuíam-se mesas intercaladas com jornais e revistas. No canto direito, oposto ao da televisão, havia duas mesas de jogo: uma com um tabuleiro de xadrez e a outra com baralhos de cartas. Ambas estavam vazias.

 Dois grandes sofás de cabedal castanho completavam o «decors» do salão , onde dormitavam ostensivamente duas senhoras com os cabelos brancos muito alisados. Pelas semelhanças do porte pareciam irmãs gémeas, já que era impossível ver os rostos que estavam pendidos sobre o peito .

 No terraço, existiam algumas cadeiras de madeira forradas com grossas almofadas amarelas e foi lá que conheceu o único casal do Lugar: os Lacerda.

 Estavam sentados em frente de uma pequena mesa, onde havia sido colocado um tabuleiro com duas chávenas de chá. Falavam um com o outro olhando para o jardim. Assim que deram pela sua presença, o Dr. Lacerda levantou-se e convidou-a a sentar-se numa cadeira vaga da mesa.

- Tenha a bondade de nos fazer companhia neste dia em que se estreia nesta casa. Esta é a minha mulher, Sofia Lacerda e eu sou Carlos Lacerda. Somos hóspedes antigos do Lugar.

 Uns grandes olhos pretos sorriam para ela num rosto sulcado pelas marcas do tempo ( forma eufémica e costumeira de designar as rugas), mas que irradiava simpatia. A mulher continuava sentada, indicando-lhe com gentileza a cadeira. Tinha também um rosto agradável .

 Sentou-se. Uma empregada surgiu repentinamente, trazendo outra chávena de chá , desaparecendo quase tão misteriosamente como tinha aparecido.

 (...) - Já sabemos que chegou ontem à noite e que está no quarto 12. Nós estamos no quarto 10, logo no mesmo corredor. Somos o único casal deste Lugar. Havia outro, os Pereira Gonçalves, mas infelizmente já cá não estão.

- O meu marido é um grande conversador. Prepare-se que ele vai saturá-la com tanta verbosidade, não lhe dando oportunidade de responder. O que vale é que neste sítio ninguém quer falar quanto mais conversar. - ia avisando Sofia Lacerda.

 (...) - Já estão avisando que vai ser servido o almoço . Ver-nos-emos mais tarde. Bom apetite. - rematou a mulher, Sofia.

 Carlos levantou-se e gentilmente puxou a cadeira onde estava sentada. Em seguida, dando a mão à mulher foi carinhosamente amparando-a até que ela acabasse de se erguer e dando-lhe o braço dirigiram-se para a sala de refeições.

 Quando entrou, viu-os sentados no fundo da sala em frente de uma mesa rectangular que se distinguia das outras não só pelo formato, mas também pelo tamanho. Era, ostensivamente, bastante maior que todas as restantes mesas. Estavam sozinhos, embora houvesse lugares para mais pessoas.

 Algumas mesas já estavam completas , mas o silêncio continuava imperando apesar da esplendorosa luminosidade natural que invadia aquela sala magnifica, realçando a beleza sóbria das paredes e o minucioso trabalho em relevo que preenchia o tecto.

 Sentou-se na mesa que lhe fora atribuída e foi analisando o que a rodeava. Verificou que as mesas tinham lugares para quatro pessoas e que as empregadas, com fardas cor-de-rosa e touca da mesma cor, iam trazendo os hóspedes com deficiência locomotora, empurrando as respectivas cadeiras de rodas ou auxiliando aqueles que se moviam com alguma dificuldade, muitos deles apoiados em bengalas.

A maioria apresentava um olhar vago e perdido como se o corpo fosse apenas a matéria visível de uma ausência voluntária. 

Maria José Vieira de Sousa, in «O Lugar, memórias de um romance», Junho de 2008




Prosa poética de Ilona Bastos


Prosa poética de Ilona Bastos

 

 A escrita em mim; Pinturas fotográficas; Escrever ou não escrever; A Observação dos Pássaros




A escrita em mim


 

 Poderia não ter dito o que disse, nem escrito o que escrevi. Mas como discernir, em cada momento, o que deve ser dito ou escrito, quando é esta voz (pelos outros inaudível) que se expressa, que inicia, sem avisos, o seu discurso interior?
 Também eu sou apanhada de surpresa, por vezes. Também eu me espanto com estas afirmações equívocas, ou dúvidas descabidas.
 Mas, que fazer? E é assim mesmo que a escrita surge em mim - inesperada, imperativa, incompreensível quiçá...
 Tanto tempo emudecida, vou deixar agora que se exprima. Não vou censurá-la, nem dizer-lhe: hoje, fala do assunto do dia, não me venhas com esses monólogos desvairados, que nem eu mesma entendo.
 Não, hoje vou deixá-la expressar-se como melhor entender, e vou simplesmente anotar as suas ideias.

 

 Pinturas fotográficas

 

 Estas pinturas fotográficas não me deixam. Obsessivamente me atraem com novos tons, novas texturas, novas formas.
 Pela rua caminhando, cada folha descida de uma árvore, cada flor silvestre acenando da borda de um canteiro ou nascida nos interstícios da muralha de pedra, me atraem. Sinto serem muito mais que a minúscula mancha esverdeada, que a acenante corola recortada. Diante da lente investigadora e provocatória da câmara, ganham dimensão monumental, complexidade fabulosa, detalhes extraordinários, textura belíssima, cor arrojada. Que mistérios, que tesouros descubro através desta visão inconveniente da câmara fotográfica!
 No ecrã, as imagens deixam-me muitas vezes sem fôlego. Que beleza, que espantosa perfeição!
 E sucedem-se estas pinturas fotográficas que me apaixonam.

 

 Escrever ou não escrever

 

 Ontem à noite, já muito tarde, pouco antes de me deitar, decidi: amanhã vou recomeçar a escrever.
 Uma voz mais fraca, ainda que gentil, sussurrou: mas é precisa inspiração, ou escreverás textos sem qualquer valor.
 E fui para a cama a ponderar, a discorrer sobre o valor de escrever textos desinspirados.
 Pouco antes de adormecer, confiadamente, lembrei-me de que o acto da escrita precede, muitas vezes, o do pensamento. E senti-me encorajada pela decisão que me consentira tomar.

 

 A Observação dos Pássaros

 

 Na imobilidade que impõe, a observação dos pássaros é uma actividade surpreendentemente viva. Os pássaros são espertos, desenvoltos, ladinos, simultaneamente nervosos e precisos nos súbitos movimentos de cabeça, no saltitar astuto, no debicar rápido e sagaz!

Seguia eu de automóvel, numa dessas manhãs modorrentas em que o céu nublado condiz com o nosso cérebro confuso, e, diante de um semáforo cuja luz vermelha parecia ter parado no tempo, pousei o meu olhar apático sobre o branco acinzentado da calçada.
 Movimentos breves, ligeiros, múltiplos, chamaram a minha atenção: pardalitos encantadores saltitavam pelo passeio.

Do canteiro, onde se encontravam, avançavam para o empedrado em pequenos saltos e graciosos meneios de cabeça, ora para vigiar em redor, ora para debicar algo no chão. Saltitando, espalhavam-se, corajosos. E logo atrás, superior, majestoso, um melro seguia o mesmo percurso. Plumagem preta, bico amarelo, pose distinta, não ameaçava nem protegia os pardais, mínimas e perfeitas criaturas de cor parda, pompons de penas, que pela manhã se moviam.

E, enquanto observava os pássaros, na imobilidade que tal tarefa implica, senti-me subitamente desperta, lúcida, viva, contagiada pelo vigor dos pardais!




domingo, 12 de julho de 2015

A hora e vez do Romi-Isetta - Texto de Cecílio Elias Netto


A hora e vez do Romi-Isetta

 Texto de Cecílio Elias Netto

 
 Em 1955, a indústria Romi (barbarense) construiu o carro mais inteligente que podia existir. Mas foi esmagada pela estúpida indústria de carrões.

 Foi em 1956 que surgiu, no Brasil – e fabricado pelas Indústrias Romi, barbarenses – o revolucionário carro Romi-Isetta. Era o primeiro veículo produzido nacionalmente. O visionário Emílio Romi conseguiu, em 1955 – da empresa italiana Isso, que o idealizara – o direito de construção no Brasil. Tratava-se de um veículo de praticidade espetacular, mais ainda do que o já minúsculo Fusca. O automóvel de Emílio Romi era para duas pessoas, com portas que se abriam pela frente, atingindo velocidade de até 85km/h, com consumo de combustível de 25 km. por litro.

 Seus idealizadores, ainda no pós-guerra, haviam imaginado um veículo pequeno, seguro, barato, que atendesse as necessidades de famílias pequenas, de estudantes, de operários. Tratava-se de um carro mais para circulação urbana, digamos que para uso individual. E o sucesso foi imediato na Europa. Foi como se a Isso italiana – e o barbarense Emílio Romi – tivessem previsto o que haveria de acontecer, com a desvairada fabricação de carrões imensos e pouco inteligentes. Aliás, o próprio Henry Ford – há 90 anos – advertiu e reconheceu: «A cidade está condenada».


O Romi-Isetta durou muito pouco tempo. Acho que até 1961. Foi esmagado pelo poderio das bilionárias empresas automobilísticas que se instalavam no Brasil após a abertura dada por Juscelino Kubitschek. O preço daquele desenvolvimento alucinado foi a morte da razão em favor da ambição. A realidade foi construída para um crescimento desordenado no qual a pessoa humana não foi levada em conta. Como o próprio Marx previra, o capitalismo – depois de conseguir o máximo de onde se instalou – iria em busca de novas oportunidades, novos povos, novas terras. Nos 1960, a América do Sul tornou-se cobiça internacional. Em relação à mobilidade urbana e interurbana, as grandes vítimas foram: os trens, os bondes e o Romi Isetta.

 Atualmente, os carros pequenos – adequados aos graves problemas atuais – começam a ser, inteligentemente, construídos e usados especialmente na Europa. Aqui mesmo em Piracicaba, já circulam alguns. O Japão está em vias de lançar – se já não o fez – o pequeno automóvel dobrável, que se fecha, para estacionar, como duas páginas de caderno. Ou seja: há, sim, vida inteligente no mundo. Preocupações legítimas. E buscas de soluções racionais, de ordem prática, imaginativas, criativas.

 Estamos diante, novamente, da vez e da hora do Romi-Isetta. Piracicaba jamais teria a imaginação de participar dessa experiência inteligente de redescobrir que «menos pode ser mais». Pelo contrário. A vocação política dos últimos tempos parece ser a favor da burrice. Vai daí, passamos a produzir, orgulhosamente, grandes, imensos carrões. E quase ninguém percebeu estarmos próximos da hora em que exibi-los nas ruas, ostentá-los será humilhante e vergonhoso. Que se há de fazer? Bom dia.


 
O Romi-Isetta foi o primeiro automóvel produzido no Brasil, entre 1956 e 1961, pelas Indústrias Romi S.A., com sede em Santa Bárbara d'Oeste, interior de São Paulo.
 
 
 

TENHO FRIO - Prosa poética de Joaquim Nogueira


TENHO FRIO

 Prosa poética de Joaquim Nogueira

 

«…tenho frio, tenho mesmo muito frio… sinto um arrepio dentro de mim que me faz encolher a alma… dobro-me sobre mim mesmo e procuro a razão do frio que sinto… sinto-me cheio de um vazio que se instala no meu cérebro e deste passa para o meu ser... sinto-me entorpecer e as pernas dobram-se e enregelam... o frio que sinto faz-me tremer… não vejo sol dentro de mim e a lua passou já muito ao largo e não deixou rastos... as estrelas estão longe e não me iluminam o suficiente para aquecer o meu coração...

é tudo em vão... todo o esforço que faço para me manter à superfície ainda me magoa mais porque as forças me abandonam e o corpo rejeita energias que gasto nesta viagem... e é apenas a minha imagem... mas olho para lá e não vejo nada que me faça regressar... e desejo cada vez mais sair, fugir mesmo sem saber para onde ir… não é dilema não saber o que aí vem… sabe-se que se está a ir nessa direcção e deixamo-nos ir como folha perdida nas águas turbulentas de uma sarjeta suja de pó e vazia também de tudo...

deito-me dentro de mim e adormeço no meu sonho sem dormir… é um sonho acordado de tão cansado que nem o sono sossega e não me dá trégua… tenho frio, tenho muito frio… sinto um arrepio de novo e mais uma vez me encolho e olho para dentro do copo que tenho na mão… é um copo vazio como eu e também está frio… peço a alguém que o encha de novo e dizem-me que não, que já bebi demasiado… mas eu sei que não, ainda consigo entender o que me é dito e porque razão ouço este imenso grito…

tenho frio, tenho muito frio… saio num tropeço dum trôpego andar... passo pelo espelho e alguém do lado de lá olha para mim e sorri… é alguém que eu já conheci, alguém que já esteve aqui comigo, dentro de mim… nunca mais o vi… por onde andará?... no entanto, foi simpático, acompanhou-me até à saída… não o vi mais… não havia mais espelhos naquela sala daquele bar...

abri a porta de par em par... respirei o ar frio da noite ainda mais quente do que o frio que eu sentia dentro de mim... olhei o mar que se estendia para lá daquelas escadas que desciam para ele, ele que me esperava depois do abismo… olhei-o e ele riu-se numa risada tremenda que me fez encolher e de novo ver que já nada estava ali a fazer... preciso de dormir, mas um sono que jamais termine…

preciso de dormir e afinal o carro está ainda ali… é aquele preto… tem aros prateados nos faróis mas não tem luz, estão apagados como eu... a chave está na minha mão e abrir a porta não custa… já nada me assusta porque o frio me tira a percepção da realidade… tenho apenas uma vontade, dormir, deixar-me ir e não saber nem como nem para onde... tenho frio, tenho muito frio...»

Joaquim Nogueira




COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO


COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO



 Preciso a vela de um barco; Em busca de uma centelha; Envelhecendo 

 

 Preciso a vela de um barco

 Uma vela larga e branca

 Habituada à salmoura

 Preciso secar o pranto

 Levar para longe a tristeza

 Vagueio só à deriva

 Sou a naufraga da vida

 Nada vislumbro no céu

 Tragam-me a vela de um barco

 Aonde sufoque o pranto

 E me leve para longe

 Do rasto deste momento

 Que me traz em desalento

 ... Preciso as asas de um anjo!

 



 Em busca de uma centelha

Mariposa que se lança

 Desvairada contra a chama

 Que o sentido lhe alucina

 Pássaro que o surto olvida

 Ao magnetismo da cobra

 Sem cuidar que perde a vida

 Assim tomba a minha alma

 Qual nuvem na trovoada

 Que pelo chão se derrama

 De si mesma compungida

 Procurando na negrura

 Sobras da própria centelha


 
 Envelhecendo


 Envelheço, sim, com orgulho!

 Que quererias?!

 Que pedisse emprestadas horas

 às gerações vindouras,

 Eu, que findo?!

 Cabe-me olhar amplo,

 Que já vi tanto

 E resisti de sobejo.

 Cabe-me ser tronco,

 Que não ramo prometendo

 Florir sem fruto.

 Cabe-me ser esteio

 Aos que no vento se arrojam.

 Serenamente aguardo o sagrado limbo

 De onde emergi e onde mergulharei

 Atavicamente

 De novo.





A árvore das palavras de Teolinda Gersão - Por Arlete Deretti Fernandes


A árvore das palavras

De Teolinda Gersão

Por Arlete Deretti Fernandes



Teolinda Gersão nasceu em Coimbra, estudou Germanística e Anglística nas Universidades de Coimbra, Tuebingen e Berlim. Foi leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim, docente da Faculdade de Letras de Lisboa e posteriormente professora catedrática na Universidade Nova de Lisboa, onde lecionou Literatura alemã e Literatura Comparada até 1995.

Doutorou-se em 1976 defendendo uma tese intitulada Alfred Doblin: Indivíduo e Natureza. Teolinda começou a escrever com apenas catorze anos. Influenciada por formas várias de cultura e, dentro destas, pelo contato com diversos mundos (citadino e rural), a sua escrita está marcada pelas viagens e estadas em diferentes lugares, entre os quais se salientam a Africa e o Brasil.
 Autora de nove livros ganhou os principais prêmios literários portugueses. Sua obra foi traduzida para o inglês, francês, alemão, holandês, espanhol e romeno.

Três de seus livros foram adaptados ao teatro e levados à cena, Os teclados e os Anjos, em Lisboa. A Casa da Cabeça de Cavalo, no Teatro Nacional de Bucareste, na Roménia.


 BREVE COMENTARIO SOBRE SUAS OBRAS

Esta autora abriu caminho para o romance contemporâneo em Portugal. Seus livros mostram aspectos da sociedade contemporânea, mesmo quando a ação é transportada para épocas diferentes.

Em quase todas as suas obras aparecem dois mundos diferentes, o do homem e o da mulher. Esta diferença é o resultado da opressão da sociedade que obriga os dois sexos a conformarem-se com papéis convencionados.

Teolinda conheceu Moçambique em 1960 e, mais tarde, durante o processo de escritura do livro Arvore das Palavras, regressou para poder «reconstruir com detalhe uma cidade que ainda não existe», e para recordar a espiritualidade e filosofia de vida de um continente que «me ensinou o respeito pela natureza e que não existem culturas superiores nem inferiores, senão culturas diferentes».

Para a escritora escrever é um jogo, uma maneira de organizar sentimentos, de encontrar uma unidade; confessa que lhe dá imenso trabalho, pois escreve uma primeira versão, depois reescreve e volta a reelaborar, mas este trabalho lhe dá imenso prazer.

A aposta da escritora vai para a qualidade e não para a quantidade, considera um livro acabado quando percebe que não pode fazer mais nada, portanto é bastante perfeccionista, não se importando com o tempo que leva para escrevê-lo.

O livro só é conseguido quando o escritor sente que domina o mundo que construiu, ou seja, é o próprio livro que determina o seu ritmo e tempo de elaboração.

Ela sabe que não é fácil escrever um livro, considera que a experiência faz com que a escrita se torne mais difícil, aumenta a exigência, mas também aumenta o prazer.

Pensa que a condição essencial para se ser um escritor é ter uma perspectiva própria das coisas, uma relação mais estreita com determinados temas e por fim ter a capacidade de dar e não de receber atenção. Escrever é também ser capaz de escutar o mundo.

A Arvore das Palavras é uma narrativa composta de 3 capítulos desprovidos de títulos, cuja variação de tamanho vai de 32,25 e 28 páginas respectivamente. A 1ª edição foi em 1997. Nela retrata a história de uma família, a cultura e a sociedade de Moçambique antes e durante a guerra colonial que precedeu a revolução portuguesa de 1974.

Por quê este livro tem o nome de «A arvore das palavras»?

Na Africa a árvore encarna a sabedoria, lembra Hutin. Sentado à sua sombra, gerações transmitem histórias seculares. O baobá é uma árvore símbolo do continente. O maior é o baobá de Sagole (Província de Limpopo, Africa do Sul), que tem 38 metros de circunferência e cerca de três mil anos de idade.



«Baobá, árvore símbolo da Africa retrata a savana africana, sua flor mede 20 centímetros, tem cheiro de Almíscar e quando seca, seus galhos parecem raízes».

 CONTEXTO HISTORICO

 Os portugueses chegam a Moçambique no final do século XV. Pero de Covilhã foi o primeiro português que fez contato com esta região em 1489, recolhendo informações sobre o tráfico e a navegação a mando de D. João II. Os primeiros produtos explorados foram marfim, cobre e escravos.

No século XVII vêm possessões na costa oriental da Africa. Foram atacados ao norte pelos árabes e ao sul pelos holandeses, assim é o fim das feitorias portuguesas. Os portugueses concentraram-se em Moçambique no século seguinte, mas não é fácil, pois há uma disputa entre as potências européias e os indígenas resistem à ocupação.

Em 1752 Moçambique passa a ter estatuto administrativo, «Governo e Capitania Geral de Moçambique Sofala, Rio de Sena», a exploração de escravos toma impulso. E sofre ataques piratas. Na primeira metade do século XIX há um verdadeiro reservatório de mão de obra para a exploração das colônias vizinhas. O centro político de Moçambique desloca-se para o sul começando a relação tipo capitalismo.

Os portos de Maputo (Lourenço Marques) e da Beira eram os portos de entrada e saída dos produtos da Rodésia. Após a 2ª guerra a idéia de descolonização começa e as colónias da Grã Bretanha são as primeiras. Mas, Portugal se opõe ao movimento.

Nos anos cinqüenta surgem os movimentos que defendem a independência de Moçambique e em 1964 começa a Guerra de Libertação conduzida pela Fremlimo, (Frente pela Libertação de Moçambique), que termina nos anos seguintes. A independência foi proclamada em 1975.

ESPACO ONDE SE PASSA O ROMANCE: Moçambique

TEMPO: Outro aspecto central é a atenção dada ao tempo, quer seja na estrutura narrativa ou no tempo histórico onde ocorre.: os anos 50 e 60 do século XX. Os fatos históricos são todavia encarados numa perspectiva que transcende a sua época e os situa em ligação com a atualidade. O tempo não é linear, tanto psicológico como histórico.

A autora utilizou uma das técnicas mais conhecidas utilizadas na narrativa do tempo psicológico, o flashback, que consiste em voltar no tempo. Há uma mistura de acontecimentos presentes e passados – e até futuros -, quebrando a continuidade «natural» dos acontecimentos.

LINGUAGEM – O livro está escrito com uma linguagem «muito criativa e um estilo pessoal», usando um novo tipo de linguagem, que faz sentir o leitor mais próximo da vida: mais oralizante, do cotidiano, com um ritmo poético e metafórico que confere vivacidade às palavras. Por exemplo: Moçambique retratada por Teolinda, metaforicamente, pode ser qualquer país africano colonizado por um país europeu.

O próprio título da obra em várias passagens do livro: «Ou sentava-se debaixo da árvore do quintal e falava com o vento e as folhas. A árvore abanava os ramos e eu pensava: a árvore das palavras.» (p. 32).«Eu sou, dizia a árvore agitando os ramos, a semente abrindo no escuro, a água apodrecendo nas lânguas, a floresta dormindo. Eu sou.» (p. 50).

A característica principal de sua escrita é o fragmentário e o simbólico, no qual a imaginação se sobrepõe à realidade. Foi mantida a grafia vigente em Portugal.

FOCO NARRATIVO- Predomina na escrita os flashes da memória, o fluxo da consciência e uma alternância do foco narrativo. São marcantes as mudanças abruptas do foco narrativo; ela é firmemente conduzida em 1ª pessoa pela personagem Gita. Porém, em outros momentos ela é transmitida por outros personagens da história., como por exemplo: Amélia, a mãe portuguesa; Laurano (pai); Lóia, (a ama-de-leite negra); Rodrigo, o namorado rico.

TEMA – Racismo, diversidade cultural, descoberta do amor, luta pela liberdade.

PERSONAGENS – São seis, quatro mulheres e dois homens.

A Narrativa desenvolve-se através da personagem Gita, protagonista, apresentando as suas reflexões em dois momentos; quando criança, sem reflexões desenvolvidas, simplesmente o olhar infantil sentindo as sensações que a levam a integrar-se ao mundo negro através de sua ama-de-leite que a alimenta com o «sangue negro» e com o cotidiano da «Casa Preta» que Lóia representa.

O quintal para Gita representa a Africa que ela ia absorvendo com o passar do tempo. A personagem Lóia e sua Orquídea representam o universo e a cultura africana, os colonizados, é a Casa Preta. A protagonista vai consumindo e passando a fazer parte do seu universo de criança.

A protagonista embora tenha digerida a cultura africana sempre conviveu com o outro lado: a Casa Branca sendo representada por sua mãe Amélia, que representa o pensamento do colonizador.

Temos na figura de Amélia e de Lindóia as duas faces da moeda: a do colonizador e a do colonizado, isto é a primeira está inserida em uma família preta e branca. Gita e Laureano, na Casa Preta, pois se identificam com a cultura africana e ela, a branca, «o pensamento colonizador», despreza, nega a cultura e discrimina os negros. Ela não faz parte dos colonizadores, pois é de família pobre que também é discriminada por aqueles que estão no poder em Moçambique.

Amélia discrimina os negros, nega a cultura africana, quer ficar o mais longe possível deles. Mas ela faz parte da família portuguesa pobre que vive em Lourenço Marques e assim como os negros são também desprezados e só servem para prestar serviços aos mais ricos.

Gita, e o pai correspondem à cultura africana. Mas ela sabe das diferenças que existem entre brancos e negros, pois presenciou na sua infância e percebe também que ela está do lado dos brancos, isto é, tem uma posição mais favorável do que os negros e sabe também reconhecer a grandeza africana. Seu pai também a ensinou a questionar o governo português.

Estes questionamentos a levam a pensar mais tarde na guerra colonial que acontece e que ela narra. Ela também tem consciência da discriminação que existe na cultura africana e faz pensar na luta pela independência de Moçambique mesmo quando adolescente.

A personagem ao brigar com o namorado sente a discriminação, pois ao dizer que estava grávida, ele lhe apresenta a idéia de aborto.

Gita resolve continuar seus estudos em Lisboa e tem consciência do que vai enfrentar na casa de seu tio, vivendo de favor. Mas persegue seu objetivo, assim como em Moçambique iria sofrer com as modificações que ocorriam pela luta do poder.

 PALAVRAS FINAIS

 Este romance transparece as adversidades sociais que sofrem os negros nativos, bem como os brancos pobres que foram para a Africa por não terem encontrado em sua própria terra, Portugal, horizontes para uma vida melhor e possibilidades de ser feliz.

A Africa como um lugar para todos os negros foi mais uma invenção do pensamento ocidental, (Appiah, Na casa de meu pai p. 42). Não se levou em consideração a pluralidade cultural dos povos que constituem o continente africano. Segundo a visão européia, todos os negros eram da mesma raça, logo, todos os africanos eram iguais, possuíam uma africanidade compartilhada. Considera-se um grande equívoco este pensamento ao deparar-se com as diversas culturas que constituem o continente africano; culturas diferentes que completam, preenchem e solidificam o continente africano.

A mulher negra africana, diferente das mulheres européias, que possuíam estigmas de como portarem-se e serem alguém dentro da sociedade, possui já uma cultura que a inferioriza e a maltrata por sua condição subjetiva de ser mulher. Sabe-se que é esta mesma mulher que cuida dos filhos, que faz o trabalho braçal e é vista e obrigada a servir o homem negro.

A mulher negra moçambicana já vinha sendo dominada antes mesmo da colonização. Era colonizada duplamente, por uma sociedade patriarcal já instituída e pelo novo colonizador. Muitas vezes, então, largada com os filhos, quando o marido ia tentar a sorte em outras regiões. Um grande número de mulheres da Africa procuram no suicídio a sua libertação, por não suportarem e nem ao menos saberem quais são as suas possibilidades como indivíduos. (RICH, Adriana, Gênero, identidade e desejo).

Elas não pensam ou refletem sobre a vida, procuram sustentar suas crenças e costumes e cultivar suas culturas subordinadas ao destino. E é para elas, como relata o livro, que os homens retornam quando perdem seu norte, sua direção. A mulher negra luta para manter um teto seu, de sua prole e também de seu marido.

Referências:
 APPIAH, Na casa de meu pai
 GERSAO, Teolinda. A árvore das Palavras. Ed. Planeta do Brasil, 2004.
 RICH, Adriana, Gênero,identidade e desejo.
 Wikipédia. 




quinta-feira, 9 de julho de 2015

Poesia de José Manuel Veríssimo


Poesia de José Manuel Veríssimo


Equívocos

Sim!

Claro que  sofri!
  Mas  não sofremos todos
O  agora  e aqui ?
  Como  tolos
Num mundo
 que  construimos  assim?
Carpindo a  rodos
Com  maneiras
  modos
 culpas
dardos
 E  afins…………

Claro que  sofri
  Sofro
  Sofremos
  De  cegueiras
  De  fados
  Esfarrapados
  Pobres
 sem  bandeiras
 Sem  iras nem  beiras
 Ensopados
Em  piedades  próprias
E  nas  alheias
Pôdres
 E Vencidos
Como  quem desiste
A  pretexto  de  inclemências.

Antes  mesmo  das  sementeiras
Lamenta
 Sofre
Desespera
Sem  um  esboço de  resistência
Sem  um esforço
 De quem  supera
Os  excessos  de  paciência
De  quem é  manso
Mas  sem potência………………
De  quem  clama
Pela desobediência
 Em  quem
 A  inconsistência
 Se  confunde
 Com o princípio  da  irreverência.
                                                                   
 Seixal , 092.04.2015

José Manuel Veríssimo


No Jardim

 O Sol despontou
Receoso, tímido, volátil
Durou
O instante subtil
Em que o jardim brilhou
De novo o cinzento
Se instalou
Mas, ainda assim, o canto alado
 De um bando versátil
Sucedeu
Coisa que nem o cinzento
Interrompeu
Um forte vento
Se acendeu.
Hábil e persistente
Soprou nuvens
Tortuosos trilhos
Lutas brigas….sarilhos
Finalmente
Mais forte do que nunca
 O Sol voltou

Seixal 27.05.2013

José Manuel Veríssimo




Promoção e poder - Tom Coelho


Promoção e poder

* por Tom Coelho

“Contrate e promova primeiro com base na integridade; segundo, na motivação;terceiro, na capacidade; quarto, na compreensão; quinto, no conhecimento;e, por último, como fator menos importante, na experiência.
Sem integridade, a motivação é perigosa; sem motivação, a capacidade é impotente; sem capacidade, a compreensão é limitada; sem compreensão,
o conhecimento é insignificante; sem conhecimento, a experiência é cega.”
(Dee Hock, fundador da Visa)

“O poder muda as pessoas”.

É muito provável que você já tenha proferido a frase acima para qualificar a mudança no comportamento de um amigo após este ser promovido em seu emprego. A este respeito, permita-lhes contar uma breve história...

Há mais de uma década eu estava como diretor de uma empresa para a qual contratei um representante comercial. Em tal posição, o rapaz não tinha vínculo empregatício, ou seja, não precisava cumprir horários ou mesmo comparecer regularmente à companhia. Cabia-lhe apenas visitar clientes para gerar negócios, estando subordinado a mim e ao gerente comercial.

Entretanto, aquele profissional se destacava em relação aos demais em igual função. Ele fazia questão de ir à fábrica, conhecer em profundidade nossos produtos, processos e sistema de gestão. E, diante deste envolvimento, sempre que possível trazia-nos sugestões diversas para melhoria, de forma realmente despretensiosa.

Após um ou dois meses, notei que estava diante de uma pessoa singular, muito acima da média dos demais funcionários. Alguém que não se reduzia aos limites de seu papel, que apresentava admirável visão sistêmica e nítida capacidade de gerenciamento e inovação. Refleti e tomei a decisão de promovê-lo.

Para encaixá-lo no organograma, criei o cargo, até então inexistente, de gerente administrativo. Era o que melhor se enquadrava em seu perfil, posto que transitava com fluidez do departamento de vendas à produção, passando pelo atendimento e suprimentos. Todavia, algo inusitado aconteceu.

Em menos de uma semana no cargo, sua relação com os colegas mudou diametralmente. Ele passou a tratá-los com soberba, em especial a equipe da área comercial, com a qual interagia anteriormente. Até mesmo sua postura física ao caminhar alterou-se! As reclamações começaram a chegar à minha sala até que, menos de um mês depois, não tive opção, demitindo-o.

A grande lição que extraí deste episódio foi de que, em muitos casos, subir na hierarquia faz o poder subir à cabeça. E isso ocorre porque o poder, tal qual o dinheiro, são excepcionais matérias-primas para a vaidade. Porém, diferentemente do que se possa parecer, eles não mudam as pessoas, mas apenas as desmascaram, porque se a arrogância e a prepotência as visitam, é porque sempre estiveram ali presentes, na essência.

Assim, para evitar um infortúnio similar ao que vivenciei, considere três aspectos essenciais antes de promover alguém em sua organização.

Primeiro, conheça o profissional. A rigor, este cuidado deve ser tomado já por ocasião da admissão. Ou, como gosto de dizer, contrate devagar, mas demita rápido. Analise criteriosamente o perfil do executivo, considerando sua personalidade, comportamentos, motivadores e competências. Há instrumentos poderosos para este tipo de avaliação que, quando bem utilizados, permitem colocar a pessoa certa no lugar certo.

Segundo, explicite suas expectativas. Antes mesmo de formalizar a promoção, tornando-a pública, convide o profissional antecipadamente para uma conversa com portas fechadas. Neste momento, informe-o dos motivos que levaram você ou sua equipe a escolhê-lo, elencando os desafios e responsabilidades do cargo, as metas que se espera atingir e qual a autonomia, infraestrutura e equipe que lhe serão disponibilizadas. Apresente também o plano de remuneração e os benefícios inerentes à função.

Por fim, pare e escute. Após o passo anterior, deixe que o profissional relate suas próprias expectativas acerca da nova colocação e se a mesma está alinhada aos seus propósitos pessoais. É neste momento que a promoção pode ser recusada em virtude de uma decisão consciente.

A experiência que relatei confirma a tese de que nem todas as pessoas são indicadas para cargos de liderança. Embora esta seja uma competência possível de ser desenvolvida, há aqueles que não de adequam ao papel de líder. E isso pode ocorrer por dois motivos.

Há profissionais que se sentem deslocados em seu ambiente de trabalho por ter seus pares, antes meros colegas, agora como seus subordinados diretos, impactando o relacionamento interpessoal e gerando uma sensação de desconforto e angústia. Isso é muito recorrente em funções operacionais, em especial com líderes oriundos do chão de fábrica.

Porém, o mais comum são aqueles que, a exemplo do meu antigo representante comercial, não enxergam que liderança é uma posição transitória que não se impõe, mas se conquista, e que precisa ser respaldada por competência, legitimidade, sensibilidade, carisma, persuasão e outros fatores. Contudo, assumem a alcunha de “chefes”, com presunção e orgulho, menosprezando colegas e fornecedores, e desperdiçando uma grande oportunidade.


* Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de oito livros. E-mail: tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.





Tabuí e seus Causos



Tabuí e seus Causos

A MENINA E AS CABRAS

Numa manhã tranquila numa cidadezinha do sul das Minas Gerais, o padre estava em frente à igreja quando viu passar uma garotinha de uns nove ou dez anos, pés descalços, franzina, meio subnutrida, ar angelical, conduzindo umas seis ou sete cabras.

Era com esforço que a garotinha conseguia reunir as cabras e fazê-las caminhar.

O padre observava a cena. Começou a imaginar se aquilo não era um caso de exploração de trabalho infantil e foi conversar com a menina.
– Olá, minha jovem. Como é o seu nome?
– Rosineide, seu padre.
– O que é que você está fazendo com essas cabras, Rosineide?
– É pro bode cobrir elas, seu padre. Tô levando elas lá pro sítio de seu João.

– Me diga uma coisa, Rosineide, seu pai ou seu irmão não podiam fazer isso?
– Pode não, seu padre! Já fizeram… Mas num dá cria… Tem que ser um bode mesmo!



ACARMÔ?!…

Numa estradinha, o mineirim, dono de um alambique, vem dirigindo seu carrim véio e “entra com tudo” na traseira de uma BMW novinha em folha.
O dono da BMW sai que é uma fera pra cima do mineirim, que diz:
– Carma moço, tudo se resorve…
– Resolve nada, seu mineirim duma figa!

– Carma, moço! Toma uma aqui da minha fazenda, é da boa… o sinhô vai si acarmá logo.
O cara toma uma.
– Acarmô?
– Acalmei nada!

– Então toma mais uma…
E assim foi. Depois de uma meia dúzia, o mineirim pergunta:
– Acarmô?
– Sim, agora sim!

– Intão agora nóis vamu sentá aqui, chamá a pulícia pra fazê o tar di bafômetro, pramodi vê quem tá errado, tá bão?


MARIDO MADRUGADOR

O Euzébio era danado pra chegar em casa tarde da noite, depois de ter tomado umas no Copo Sujo e ficado na esbórnia. Chegava, tirava os sapatos e ia bem devagarzinho pra cama, pois que a sua mulher, a Fadalarete era famosa por ter o sono pesado.

Mas naquela madrugada, assim que o Euzébio tropeçou no penico esmaltado, Fadalarete virou-se na cama, exatamente quando ele desabotoava a camisa pra se deitar. Confundindo tudo, ela perguntou:

- Onquiocê tá ino tão cedo, meu bem?
- Ah, amô... Pensano bem, cê sabe quiocê tem razão? Vô é durmi mais um tiquim, né?


CALENDÁRIO DE CONFISSÕES

Padre Anacleto tava cansado de todas as manhãs ter que ouvir os pecados das suas ovelhas. Idoso, saúde precária, barriga grande, pernas inchadas...

Era sacrifício demais ouvir os mesmos pecados e dar os mesmos conselhos pras mesmas ovelhas, algumas de todos os dias.

Depois de muito craniar, teve uma ideia. Organizou um roteiro para as confissões e já no domingo seguinte comunicou à comunidade em forma de cartaz, pregado pelo sacristão na porta de saída da igreja.

“A partir de agora as confissões devem obedecer ao seguinte calendário, de acordo com o pecado:

Segunda-feira – fofoqueiras e mentirosas

Terça-feira – preguiçosas e ladras

Quarta-feira – quem fala mal da vida alheia

Quinta-feira – infiéis ao marido e portadoras de maus pensamentos

Sexta-feira – bêbadas e comilonas

Sábado – hipócritas e outros pecados

Domingo – descanso do padre”

Desse dia em diante a turma do confessionário diminuiu drasticamente, sobrando mais tempo para o padre Anacleto descansar e curtir as suas doenças.

©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos
 




Poesia de Pedro Du Bois


Poesia de Pedro Du Bois


ESCOLHER


 Escolho ser da geração o estigma

               e da terra o magma

                  na oração do devoto



         o coração se despedaça

         ao solo. Beijo o solo

         em homenagem.



Anos passados representam

a hora da jornada. O que falta

ao espírito. O que se deduz

em luz. A escolha.


(Pedro Du Bois, inédito)


SEMPRE


Na voracidade feito tempo

multiplico necessidades.

Não deixo a imagem perdurar.

Substituo feitos anteriores:

o produto recondicionado

transcende ao mito desprotegido.

A fome permanece como sempre.
 

(Pedro Du Bois, inédito)


VIVER



Vivo na ilusão

da água infinita

e da sede

saciada em goles.



vivo como intruso

destruindo o que não me pertence.



Alcanço o fruto e o desfruto.

Deixo o sumo escorrer pelas mãos.



Vivo na desilusão

de me intrometer

como abuso.
 

(Pedro Du Bois, inédito)
 

http://pedrodubois.blogspot.com