quarta-feira, 15 de julho de 2015

Jornal Raizonline Nº 272 de 15 de Julho de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - Gozar as férias mas não muito


Jornal Raizonline Nº 272 de 15 de Julho de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - Gozar as férias mas não muito

É tradicional que os meses de Verão, normalmente Julho e Agosto, sejam os dois meses com maior frequência de veraneantes aqui pelos lados onde habito. Embora não seja já um indefectível frequentador das praias compreendo perfeitamente a alegria daqueles que para o Algarve (ou outras regiões do país) se deslocam com o são intuito de apanhar sol, água do mar por vezes límpida e habitar, de uma forma temporária numa das praias que por esse país de norte a sul abundam, incluindo nas regiões do interior onde o turismo parece ter aparecido como fonte adicional de receita.

Tenho alguma experiência de Praia, em rigor comecei tinha seis anos de idade e por vezes as pessoas com quem falo admiram-se quando eu digo que ter estes anos todos de praia me chegam para considerar a minha vida completa, ou pelo menos quase, neste plano.

Tenho experiências de Praia boas e más mas estas sobrelevam na minha ideia presente. Algumas foram terríveis mesmo. Eu agarrado a um grelhador tinha de dar de comer à filharada (que não é muito numerosa), mais os primos, primas, amigos e uma longa lista de familiares, que talvez esperassem pacientemente a febra, a sardinha ou as salsichas mas cujo olhar mesmo não denotando impaciência eu sentia varar-me de lado a lado, porque uma coisa é aquilo que os outros possam pensar e pode ser outra coisa aquilo que nós sentimos.

Dormi mal, acordei muitas manhãs sem saber se tinha dormido de facto, tomei duches por vezes quase horários, tentei fugir o máximo possível à braza solar, procurei sombras para me acolher e tentar ressonar um pouco, carreguei sacos, caixas, garrafões de água mineral, ouvi vizinhas  discussões que o calor fomentava, ouvi gritos de adultos e crianças, percorri quilômetros para beber uma bica, ouvi altos berros de pimba de manhã à noite, frequentei casas de banho públicas horríveis, urinei na areia ou mesmo no mar onde tantos outros faziam o mesmo e, por último fui feliz, sim, fui muito feliz contando no calendário os dias que faltavam para me pirar.

Cada dia que passava era um a menos para estar ali, na praia, na famosa praia mas o calendário era lento como tudo, cada dia tinha 48 horas pelo menos e um mês ou quinze dias multiplicavam-se no gregoriano e compreendi, nessas alturas, que era absolutamente possível o Moisés ter vivido 400 anos.

Quando chegava a altura da partida, de arranjar as coisas para levar era um frete maior ainda do que aquele que tinha tido para preparar as coisas para levar para esses paraísos que a minha alma tenta agora esquecer. «Então não vai (ou não vais) à Praia? »

Não, não e não. Fica mal dizer isto mas odeio a praia, comecei a odiá-la há uns quantos anos e só me recordo dela com prazer dos tempos em que era criança ou jovem, em que tudo estava bem, a mãe fazia o almoço, ou nem me preocupava com isso levando ou comprando sandes para desenrascar.

Breve, a Praia , para mim, não é para gente crescida a menos que nos sentemos numa esplanada de manhã à noite lendo livros ou jornais e revistas e cada vez que um grão de areia ou uma gota de água salgada se aventure no nosso estanque mundo, consigamos fazer com que isso pareça um acidente esporádico, uma daquelas coisas que acontecem poucas vezes na nossa vida.

Breve, a minha praia, hoje é mexer o mínimo possível o traseiro, aconchegando o corpinho na cadeira quando necessário e manter aquele sorriso gozão que nos mostra a nós e ao mundo que estamos verdadeiramente de férias.





     

terça-feira, 14 de julho de 2015

EU COMIGO - Texto e Poema de Mário Matta e Silva


EU COMIGO

Texto e Poema de Mário Matta e Silva

Só encontro uma forma de vencer pela poesia: escrevê-la! Ficamos bem com o nosso Ego e com o Mundo que nos rodeia, seja ele bonito ou feio. Desse instante faz-se uma eternidade (conforme poema que já publiquei) e de cada sentimento um desejo de viver bem com tudo e com todos, mesmo que não conformado com o mal.

O Bem é a nossa bandeira e o mal o nosso inimigo que tentamos abater com palavras harmonizadas e articuladas de forma a expressarmos os nossos «estados de alma». O espaço, mesmo que pequenino é global. A universalidade da palavra torna-nos universais. Somos a palavra com que comunicamos.

Somos um elo que liga, pela estética e pela semântica das expressões, as sensações de todo o ser racional. Vibramos assim tão simplesmente comunicando como o fizeram, muito recuadamente, Orácio, Catulo, Ovídio, Virgílio ou até Moisés, Job, David, Salomão ou Isaías. O Bem e o Amor tornou-se na religião dos Poetas.


Poesia do meu primeiro livro «NUNCA VOS DIREI TUDO» ed. 2002

EU COMIGO

Cá estou eu de novo.
 Eu comigo.
 Comigo unicamente.
 Ausente inda que presente.
 Um querer sentir que me renovo
 Neste dar-me tão antigo!

Cá estou de novo... noutro apertado nó
 Num diálogo sem inimigo
 Olho-me, sinto-me... e só
 Viajo no tempo e louvo
 O facto de ser eu o meu melhor amigo
 Mesmo quando me torno em meu próprio estorvo

Lá estou eu de novo numa labiríntica encruzilhada
 Penso no que procuro e ainda não encontrei
 Tropeço e avanço neste acidentado caminho!
 Aturo-me, agrido-me, revolto-me... eu sei...
 Há dias em que o mundo é uma grande laranja vazia... sem nada
 E nele me refugio, só, comigo... gemendo em verso mas baixinho..




Considerações sobre o pós romantismo - Por Daniel Teixeira


Considerações sobre o pós romantismo

Por Daniel Teixeira

No ponto de vista literário (e interessa realçar desde logo que não vamos falar da burguesia revolucionária de 1789 mas sim da burguesia imperialista) a razão do império aparece como uma decadência dos ideais igualitários e nobres para se transmitir a uma decadência não só de valores como de expectativas: a desilusão origina entre outras coisas no plano das ideias o sentimento de decadência e consequente gosto pela evasão a que Baudelaire chamava de paraísos artificiais, a entrada nos campos do mistério e do ocultismo.

O saldo da utopia igualitária de 1789 parece largamente negativo, e, mais do que negativo, aparece como irreversível. O real torna-se horrível e apesar dos esforços dos românticos para fazerem a apologia do supra sensível, daquilo que está para além da realidade vivida, entrando na apologia da «alma», (o feio / belo) , do subjectivo, o peso da realidade é por demais carregado de maus augúrios e o processo de fuga aparece como uma inevitabilidade.

A encantação hipnótica ou pretensamente mágica fazem escola entre os decandentistas fim de século, num acoitamento intelectual que origina como que uma dobragem das pessoas sobre si mesmas. Falseados os ideais gerais resta o eu e o culto do eu como tábua de salvação psíquica e intelectual.

Mas não se trata de um eu qualquer que se tem de elevar. Trata-se de um eu que, não fazendo de forma alguma a revolução mental ou intelectual, apareça como um eu substituto dos individualismos perdidos e da utopia relançada. Neste plano Nietzsche é bastante esclarecedor na sua análise que se pode muito bem adaptar à época:

Nietzsche nas suas «Origens da Tragédia» ao analisar a posição do público em face da Tragédia Grega (neste caso concreto mas de possível generalização para outros campos da arte e do pensamento), constata (deduz) que a identificação do público em face da tragédia grega não se verifica pela sua intrusão no campo específico da tragédia (na absorção dela) mas sim pela aquisição de um estado de espírito resultante da observação da tragédia. Ou seja, o que o público  «absorve» não é a tragédia em si mas sim uma ideia sua da tragédia, que guarda enquanto sentimento individual, estado de espírito, componente psico - social.

Entendendo que a tragédia representada não é senão  uma mediação de uma hipotética tragédia real, o efeito resultante da combinação: tragédia real, tragédia representada e tragédia vivida acaba na aceitação de um sumo residual em que a tragédia interiorizada fica como sentimento, como componente de uma psicologia geral, como expectativa ou falta dela.

E este aspecto é importante fazer realçar por razões várias entre as quais esta que vamos descrever de seguida:

Era convicção anterior à constatação de Nietzsche, que o coro grego tinha funcionado como que se de um embrião se tratasse do futuro público e que, a manutenção do coro (agora como público) era ainda um vestígio dessa unidade espectáculo / público, um plano de transição que interessava manter não porque fosse agora absolutamente necessário mas porque era, simbolicamente, uma relíquia da génese do espectáculo.

Ora esta ideia, implicava que houvesse, mesmo no agora público um sentimento de interacção tragédia / público. As implicações desta concepção que Nietzsche combate têm a ver, no plano psicológico, com formas de reconhecer a Arte, e estabelecem uma clivagem importante no combate a algumas concepções do Romantismo e do período romântico.

Com efeito, neste, no Romantismo - sobretudo e para Nietzsche no caso de Schlegeel - enquanto que o coro sendo a génese do público era uma prefiguração do público e a demonstração de uma unidade público / espectáculo, no caso de Nietzsche o problema inverte-se: o coro, não sendo resquício do público mantém a separação entre a Arte representada (neste caso) e o público como auditor.

Assim, e trazendo para o espírito da altura, a Arte (ou a tragédia vivenciada) estavam acima do público (povo) e reproduziam em si um sentimento real no artista e um sentimento difuso no público. Logo, a Arte e o artista estão para além do público, como entidades distintas, e o público algures colocado na posição de intérprete passivo de uma parte transfigurada (pela sua própria subjectividade e que pouco ou muito terá a ver com a subjectividade da Arte).

O distanciamento do artista do público é assim acentuado por Nietzsche numa forma e concepção que vem a fundamentar a posição do artista e da Arte como sendo alguém e uma coisa colocadas numa proximidade mais próxima do Demiurgo Platónico que Nietzsche noutros campos combate.

Este aspecto é importante ser realçado porquanto o chamado vitalismo de Nietzsche e outros que podem ser inseridos nesta corrente, como Dhiltey (este em certos sentido um pré-existencialista) e Ortega Y Gassett, por exemplo, faz realçar a capacidade de o homem alterar o estado das coisas e faz o elogio da vida, não daquela que se
vive mas de uma outra transformada, sem que para isso utilize qualquer praxis senão aquela que é própria da mera constatação das fatalidades reais.

O artista e a Arte, longe da realidade «comezinha» precisam de todo um enquadramento substancial que legitime a Arte enquanto Arte não como Arte do real mas sim como Arte do real anunciado. A convicção premonitória e profética da Arte
confere-lhe um estatuto que se estende a toda a intelectualidade e tem, reflexos reflectidos e outros projectados nos diversos campos do pensamento.

Este afastamento propositado da realidade tem consequências que derivam para várias direcções. O existencialismo, sobretudo o de Camus, defende mais uma posição passiva perante os factos da vida, ou mesmo quando ela não é passiva, o ser humano acaba por ser absorvido pela força das coisas e objectiva-se perante elas.

Por outras palavras podemos dizer que o real demonstrado não é assim tão significativo que force ou origine a sua modificação ou uma atitude para que tal aconteça. Até porque na sua grande parte ele é entendido como percorrendo um caminho inalcançável.

O real torna-se pouco significante, em termos de influência sobre o ser e reflecte -se sobretudo sobre o estar, que é entendido como um estádio, uma transição, insuperável como facto acontecendo e incombatível pela praxis mas entendido de pouco significado substancial no devir.

Esta negação / diferenciação do ser está bem mais próxima do espírito da época do que aquela que é trazida por outros correntes e autores, que, mesmo no caso de Jean Paul Sartre acabam por ter de colocar a premissa prática como imperativa mas já fora do campo específico do pensamento sobre este tipo de existência como facto.

O mundo é, de facto trágico, mas existem razões para que ele assim seja e nenhuma delas se encontra no campo do real, é para Nietzsche um problema filosófico cultural. Tudo aquilo que é preciso fazer é modificar essas razões (no caso de Nietzsche a metafísica platónica) sem que se faça o mínimo esforço (para além daqueles que são considerados dentro do processo crítico abstracto). O tempo, o futuro, trará aquilo pelo qual os homens abstractamente agora anseiam mas sem intervenção deles.

Já no caso de Camus, e regressando a este autor, começando pelo seu Avesso e o Direito da juventude é a própria situação (o real) que envolve as pessoas e as leva a procederem de forma quase predestinada (absurda mas irrecusável) mas sempre despida de significado substante. O homem, para este tipo de existencialismo não é aquilo que é mas sim aquilo que será; logo, nada mais lógico do que «deixar» a realidade demonstrar-se certos que estamos de que essa realidade não é, de facto, uma realidade em devir. Ou seja, não é processo, não é causa, é mero efeito sem causa.

Neste autor (Camus), estando o homem condenado a viver o absurdo num mundo absurdo resta-lhe ter consciência dele e semear, de alguma forma, aquilo que as gerações futuras irão recolher. A morte aparece assim como uma passagem de testemunho entre gerações…como algo inevitável e inglório, de certa forma, porque não muda nada enquanto acto, apenas serve como relógio de uma cronologia do devir a manifestar.

A situação que se vive nem sequer é aquela que coloca a necessidade de antecipar a morte para que esse devir se manifeste ou se possa manifestar. Ela não influi pura e simplesmente, tal como um relógio parado ou a trabalhar não influi, no decurso do tempo.

Contudo, e voltando a Nietzsche e à sua Origem da Tragédia, há um outro aspecto a fazer notar. A defesa da equiparação do público como observador e também como actor na tragédia grega (no caso exemplificativo de Nietzsche) implica a identidade deste com a tragédia, como vimos, mas no caso de Nietzsche o que se obtém é antes um
 estado de espírito diferenciado, após a visão da tragédia, mas nunca um estado de espírito trágico no sentido da tragédia vista mas não vivida. No entanto, ela move-se, ou seja, o público recebe influência: não uma influência fiel ou
correspondente mas essa influência existe.

Por outras palavras ainda podemos afirmar que, segundo ainda Nietzsche e as concepções um pouco espalhadas na época, se é um facto que o público é indiferente ao processo e desenrolamento da tragédia (Arte e Pensamento) a inversa já não é verdadeira. Ou seja, o público, esse, mesmo não participando, é influenciado pela tragédia, como vimos. Há assim um percurso de um só sentido, em que o Artista / pensador produz e o público interpreta, digere à sua maneira e age de acordo com a sua maneira.

Em termos pessoais, e extrapolando para a psique, recusa, desta forma, Nietzsche a influência integral do outro sobre o eu e recusa também Nietzsche a perca de identidade do eu em relação ao outro, ou seja, a subsunção deste perante os ditames do outro. Em qualquer dos casos o que está mais presente é, de um lado, a impossibilidade de o «vulgo» público real influir na realidade etérea da tragédia, mas por outro lado (para que não haja identificação) esta também não interage de uma forma portentosa sobre o público e o real.

Os condimentos globais são, pois, que nada há ou nada se pode fazer...

Esta é uma temática que vem desenvolvida em Hegel, sobretudo através da sua famosa dialéctica do senhor e do escravo, e que como anti Hegeliano Nietzsche combate, mas
que não é assim tão passível de adesão imediata. O parcelamento da subsunção (neste caso do público) perante o conteúdo trágico do real é, de alguma forma, uma diferenciação de subjectividades entre o Artista e a Arte e o Público / mundo perante a tragédia.

Ora a tragédia é a própria vivência social e o espírito resultante da observação da tragédia humana é uma visão igualmente trágica, ainda que com registos diferentes.

É importante transcrever agora o texto de Nietzsche que se segue: «Durante a embriaguez estática do estado dionisíaco, (observação da tragédia no plano mediado, neste caso por notícias ou mesmo por via cultural) vão-se abolindo as separações e os limites ordinários da existência, e há efectivamente um momento letárgico, durante o qual se desvanecem todas as lembranças pessoais do passado (do trágico mediado).

Entre o mundo da realidade dionisíaca (aquela que se apresenta mediada) e o mundo da realidade quotidiana cava-se esse abismo do esquecimento que os separa um do outro.

Mas, logo que volta a apresentar-se à consciência a realidade quotidiana, (ou seja, quando existe a fusão de registos diferentes entre o real e o mediado) esta (tragédia, ou vivência trágica) é sentida como tal com aborrecimento, e uma disposição ascética, negadora da vontade, é o resultado daquela impressão.» (…)

Por outras palavras (e de notar que nos servimos das palavras de Nietzsche acrescentando-lhes alguns esclarecimentos para compreensão do texto) a tragédia não é assumida enquanto tal e como facto real, mas que esta sai de uma mediação (a expositiva) para entrar numa outra mediação, desta feita eminentemente interior e subjectiva, com forte componente rebuscado na sensação de impotência e no desejo de evasão, conforme em Baudelaire.

O espectador da tragédia mediada (porque a não vive profundamente ou fisicamente) não se identifica de forma nenhuma com uma posição positiva de fazer reerguer aquilo que o fere ou feriu; antes opta por aquela atitude que considera mais coerente consigo mesmo que é a de fazer uma interiorização exteriorizada (passe o paradoxo) através de atitudes que, de acordo com a sua vivência e formação, considera urgentes até como purga psicológica do seu mal de vivre adquirido.

A Filosofia, seguindo a peugada, envereda pelo quase psicologismo e de certa forma abandona os a priori cosmológicos para se debruçar sobre o homem e o seu destino.

Estas correntes, na sua grande parte são correntes de escola que embora nalguns casos acabem por negar partes da filosofia construída ao longo dos séculos, acabam também por lhes retirar aquilo que consideram que de positivo foi pensado.

E neste ambiente ou num ambiente em que estes valores estão ainda presentes, se desenvolvem, se questionam e se reformulam que surge o pós romantismo como arte do não real ou do real subjectivamente mediado.

 
 



Crónicas do Oriente - Por: António Cambeta - Macau / Tailândia


Crónicas do Oriente -  Por: António Cambeta -  Macau / Tailândia

 SUTHORN PHU - O «Camões» Tailandês


O mais famoso poeta e o mais amado pelo povo tailandês, foi SUTHORN PHU

 No quinto ano do reinado do Rei Rama I, nascia no dia 26 de Junho de 1786, em Bangkok-noi, por detrás do palácio onde hoje se situa a estação de caminhos de ferro, um jovem a quem puseram o nome de PHU.

 Seu pai era natural da província de Rayong. Sua mãe era de outra província. Sunthorn Phu nasceu pouco depois de ter sido estabelecida a cidade de Bangkok (1782), volvido pouco tempo seus pais se divorciaram, tendo seu pai regressado à sua terra de origem, Muang Klaeng, Rayong, onde entrou para um mosteiro tornando-se monje budista.

 A sua mãe voltou a casar-se, passando a servir no Palácio Real. O jovem Phu foi educado no Wat (mosteiro) Sri Sudaram que se situava em Klong, Bangkok-noi, tendo abandonado os estudos para exercer o cargo de escriturário do governo, no palácio real, porém o que lhe agradava mais fazer era escrever poemas, tendo composto um longo poema baseado na história de Khobutra, o qual não chegou a completar.

Sendo uma pessoa muito independente e com um espírito muito curioso, criou uma série de conflitos, entre eles e o mais grave foi ter-se apaixonado por uma dama, ligada à realeza, de apelido Chan (ou Jun), dama essa que exerceu uma enorme influência no trabalho poético que Phu realizou. Phu foi punido e preso, por desrespeitar e violar a tradição monárquica.

 Após o indulto, e já com 21 anos de idade Sunthorn Phu, resolveu sair de Bangkok, indo visitar seu pai, que vivia na província de Rayong. Durante a longa viagem que durou um mês, o poético rapaz escreveu o seu primeiro poema chamado «Nirat Muang Laeng» poema esse que descreve a viagem com grande detalhe e sua grande paixão e saudade pela dama Chan, isto no ano de 1807.


 Regressado a Bangkok com ela contraiu matrimónio, desse enlace nasceu um filho chamado «Pat» que na idade adulta foi nomeado Juiz. O Phu entretanto tornou-se um alcoólatra, arranjando sempre conflitos com sua esposa, por esta foi abandonado. No ano de 1821, foi preso por se ter envolvido numa briga.

 O casal Phu estava casado ainda há pouco tempo, e foi por essa altura que Phu se envolveu em amores com outra senhora, o que levou a ter que se divorciar. Este foi o primeiro de muitos casamentos que contraiu e que terminaram em divórcio. Porém, a mulher que ele mais amou foi a Jun. No ano de 1809 morre o Rei Rama I, sucedendo-lhe no trono o Rei Rama II, este um poeta de génio, tendo visto Sunthorn Phu chamou-o para junto de si .

 O Rei quando escreveu o seu livro Ramakien, muitas vezes consultou o poeta Phu, tendo encontrado nele sempre uma metrificação, tendo sempre uma resposta sábia para os assuntos que o Rei indagava. Tão satisfeito ficou que lhe concedeu o título de Khun (Sir) Sunthorn Voharn.

 O poeta continuava a beber e a arranjar atritos, e um dia entrou em vias de facto com um tio de sua majestade, sendo por isso preso.

 A prisão serviu para o poeta como uma bênção , visto que foi durante a sua estadia na prisão, que concebeu a ideia de escrever um longo romance, onde narrava as aventuras vividas por dois irmãos, num mundo cheio de magia e encantos. Foi esta escrita imaginativa, uma das maiores obras literárias que se tornou famosa sendo seu título Phra Abhai Mani.

 Esta obra só foi concluída quando o poeta atingiu a meia idade, tendo-a publicado em capítulos e ganho algum dinheiro com isso, e tendo-se tornado famoso. Não ficou muitos anos preso, visto sua majestade lhe ter concedido perdão e lhe dar o posto de professor régio, tendo ensinados os príncipes e sendo conselheiro literário do Rei.

 Foi nesta qualidade de conselheiro literário do Rei que ele incorreu na ira do filho mais velho do Rei, Príncipe Jesdabodindra, também um ilustre poeta, que Phu se aventurou a fazer criticas públicas de algumas linhas escritas pelo Príncipe, ao ponto de corrigir e alterar a sua escrita. O Príncipe tomou isso como uma ofensa pessoal e, infelizmente para o poeta ele nunca mais o esqueceu e jamais o perdoou por isso.

 Em 1824, o grande patrono do poeta , o Rei Rama II, faleceu, tendo subido ao trono o Príncipe Jesdabodindra, tendo retirado ao poeta o título de Kun (Sir) , perdendo este igualmente o seu posto no palácio, saiu da capital e se dedicou à agricultura, porém por pouco tempo tendo se refugiado num mosteiro, onde permaneceu 18 anos tendo escrito vários poemas, o mais notável Nirat Suphan e Nirat Wat Chao Fa, obras estas escritas durante as suas viagens e em lugares diferentes, tendo saído do mosteiro para se tornar comerciante.

 No ano de 1832, o Príncipe Lakhananukhun, filho do Rei Rama III, teve o prazer de ler os poemas de Phu, adorou a sua escrita, tendo-o chamado para junto de si, tendo Phu escrito para o seu patrono alguns poemas.

Mas o poeta obstinado e criando sempre problemas, quando o seu patrono morre no ano de 1835, tornou a ser expulso do palácio, tendo passado a vaguear de lugar para lugar usando um barco que lhe servia de habitação e vendendo seus poemas, sempre que podia.

 Porém um grande poeta como era o Phu não podia continuar vivendo na obscuridade, foi então que o Príncipe Isaresrangsan, outro filho do Rei Rama II, o mandou chamar ficando o poeta aos seu serviço.

 Este Príncipe era o irmão querido do Príncipe Mongkut, assim que seu irmão subiu ao trono como Rei Rama IV, concedeu ao poeta o título de Phra Sunthorn Voharn, tendo passado o restos de seus dias vivendo em paz até que faleceu em 1885.

 Ele deixou para trás um legado de poemas que se tornaram famosos ao longo do tempo, porque eles descrevem a história da Tailândia.

 Os seus poemas são ensinados nas escolas tailandesas, tal como o Lusíadas em Portugal, ficando assim a saber - se a história de seu Tailândia.

 As suas obras poéticas foram homenageadas pela UNESCO. Ele começou o poema épico, Phra Aphai Mani na prisão, e publicou-o em parcelas ao longo de 20 anos. Durante o período de 1824 a 1851, sendo Rei Rama III, o poeta por ter sido por ele criticado pela forma forma como escrevia e por ter por ele sido punido, pouco mais escreveu.

 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A solidão dos idosos - Por Maria José Vieira de Sousa


A solidão dos idosos

O Lugar

 Por Maria José Vieira de Sousa

Recolhido em Livres Pensantes

 Quando voltou ao salão de convívio teve pela primeira vez consciência plena da segregação etária que as novas gerações estavam a impor. O convívio e a coabitação intergeracionais estavam, efectivamente, em processo de regressão, senão mesmo em declarada extinção.

 O quadro com que deparou nessa manhã, naquele salão, impôs-lhe abruptamente a dolorosa assunção dessa realidade chocante que nunca se dispusera sequer a formalizar.

 O Lugar era a morada de uma só geração: a geração dos velhos.

 Apesar do conforto discreto que a decoração emprestava ao salão, sentia-se no ar o silêncio frio e mudo da tristeza que enferma a solidão.

 Estariam aí cerca de quinze pessoas. Algumas estavam confortavelmente sentadas em cadeirões reclináveis junto a uma grande televisão que estava ligada com o som no mínimo, quase inaudível. Outras, que teriam problemas locomotores, estavam acomodadas em cadeiras de rodas perto das grandes portas envidraçadas que davam para o terraço. Entre elas, distribuíam-se mesas intercaladas com jornais e revistas. No canto direito, oposto ao da televisão, havia duas mesas de jogo: uma com um tabuleiro de xadrez e a outra com baralhos de cartas. Ambas estavam vazias.

 Dois grandes sofás de cabedal castanho completavam o «decors» do salão , onde dormitavam ostensivamente duas senhoras com os cabelos brancos muito alisados. Pelas semelhanças do porte pareciam irmãs gémeas, já que era impossível ver os rostos que estavam pendidos sobre o peito .

 No terraço, existiam algumas cadeiras de madeira forradas com grossas almofadas amarelas e foi lá que conheceu o único casal do Lugar: os Lacerda.

 Estavam sentados em frente de uma pequena mesa, onde havia sido colocado um tabuleiro com duas chávenas de chá. Falavam um com o outro olhando para o jardim. Assim que deram pela sua presença, o Dr. Lacerda levantou-se e convidou-a a sentar-se numa cadeira vaga da mesa.

- Tenha a bondade de nos fazer companhia neste dia em que se estreia nesta casa. Esta é a minha mulher, Sofia Lacerda e eu sou Carlos Lacerda. Somos hóspedes antigos do Lugar.

 Uns grandes olhos pretos sorriam para ela num rosto sulcado pelas marcas do tempo ( forma eufémica e costumeira de designar as rugas), mas que irradiava simpatia. A mulher continuava sentada, indicando-lhe com gentileza a cadeira. Tinha também um rosto agradável .

 Sentou-se. Uma empregada surgiu repentinamente, trazendo outra chávena de chá , desaparecendo quase tão misteriosamente como tinha aparecido.

 (...) - Já sabemos que chegou ontem à noite e que está no quarto 12. Nós estamos no quarto 10, logo no mesmo corredor. Somos o único casal deste Lugar. Havia outro, os Pereira Gonçalves, mas infelizmente já cá não estão.

- O meu marido é um grande conversador. Prepare-se que ele vai saturá-la com tanta verbosidade, não lhe dando oportunidade de responder. O que vale é que neste sítio ninguém quer falar quanto mais conversar. - ia avisando Sofia Lacerda.

 (...) - Já estão avisando que vai ser servido o almoço . Ver-nos-emos mais tarde. Bom apetite. - rematou a mulher, Sofia.

 Carlos levantou-se e gentilmente puxou a cadeira onde estava sentada. Em seguida, dando a mão à mulher foi carinhosamente amparando-a até que ela acabasse de se erguer e dando-lhe o braço dirigiram-se para a sala de refeições.

 Quando entrou, viu-os sentados no fundo da sala em frente de uma mesa rectangular que se distinguia das outras não só pelo formato, mas também pelo tamanho. Era, ostensivamente, bastante maior que todas as restantes mesas. Estavam sozinhos, embora houvesse lugares para mais pessoas.

 Algumas mesas já estavam completas , mas o silêncio continuava imperando apesar da esplendorosa luminosidade natural que invadia aquela sala magnifica, realçando a beleza sóbria das paredes e o minucioso trabalho em relevo que preenchia o tecto.

 Sentou-se na mesa que lhe fora atribuída e foi analisando o que a rodeava. Verificou que as mesas tinham lugares para quatro pessoas e que as empregadas, com fardas cor-de-rosa e touca da mesma cor, iam trazendo os hóspedes com deficiência locomotora, empurrando as respectivas cadeiras de rodas ou auxiliando aqueles que se moviam com alguma dificuldade, muitos deles apoiados em bengalas.

A maioria apresentava um olhar vago e perdido como se o corpo fosse apenas a matéria visível de uma ausência voluntária. 

Maria José Vieira de Sousa, in «O Lugar, memórias de um romance», Junho de 2008




Prosa poética de Ilona Bastos


Prosa poética de Ilona Bastos

 

 A escrita em mim; Pinturas fotográficas; Escrever ou não escrever; A Observação dos Pássaros




A escrita em mim


 

 Poderia não ter dito o que disse, nem escrito o que escrevi. Mas como discernir, em cada momento, o que deve ser dito ou escrito, quando é esta voz (pelos outros inaudível) que se expressa, que inicia, sem avisos, o seu discurso interior?
 Também eu sou apanhada de surpresa, por vezes. Também eu me espanto com estas afirmações equívocas, ou dúvidas descabidas.
 Mas, que fazer? E é assim mesmo que a escrita surge em mim - inesperada, imperativa, incompreensível quiçá...
 Tanto tempo emudecida, vou deixar agora que se exprima. Não vou censurá-la, nem dizer-lhe: hoje, fala do assunto do dia, não me venhas com esses monólogos desvairados, que nem eu mesma entendo.
 Não, hoje vou deixá-la expressar-se como melhor entender, e vou simplesmente anotar as suas ideias.

 

 Pinturas fotográficas

 

 Estas pinturas fotográficas não me deixam. Obsessivamente me atraem com novos tons, novas texturas, novas formas.
 Pela rua caminhando, cada folha descida de uma árvore, cada flor silvestre acenando da borda de um canteiro ou nascida nos interstícios da muralha de pedra, me atraem. Sinto serem muito mais que a minúscula mancha esverdeada, que a acenante corola recortada. Diante da lente investigadora e provocatória da câmara, ganham dimensão monumental, complexidade fabulosa, detalhes extraordinários, textura belíssima, cor arrojada. Que mistérios, que tesouros descubro através desta visão inconveniente da câmara fotográfica!
 No ecrã, as imagens deixam-me muitas vezes sem fôlego. Que beleza, que espantosa perfeição!
 E sucedem-se estas pinturas fotográficas que me apaixonam.

 

 Escrever ou não escrever

 

 Ontem à noite, já muito tarde, pouco antes de me deitar, decidi: amanhã vou recomeçar a escrever.
 Uma voz mais fraca, ainda que gentil, sussurrou: mas é precisa inspiração, ou escreverás textos sem qualquer valor.
 E fui para a cama a ponderar, a discorrer sobre o valor de escrever textos desinspirados.
 Pouco antes de adormecer, confiadamente, lembrei-me de que o acto da escrita precede, muitas vezes, o do pensamento. E senti-me encorajada pela decisão que me consentira tomar.

 

 A Observação dos Pássaros

 

 Na imobilidade que impõe, a observação dos pássaros é uma actividade surpreendentemente viva. Os pássaros são espertos, desenvoltos, ladinos, simultaneamente nervosos e precisos nos súbitos movimentos de cabeça, no saltitar astuto, no debicar rápido e sagaz!

Seguia eu de automóvel, numa dessas manhãs modorrentas em que o céu nublado condiz com o nosso cérebro confuso, e, diante de um semáforo cuja luz vermelha parecia ter parado no tempo, pousei o meu olhar apático sobre o branco acinzentado da calçada.
 Movimentos breves, ligeiros, múltiplos, chamaram a minha atenção: pardalitos encantadores saltitavam pelo passeio.

Do canteiro, onde se encontravam, avançavam para o empedrado em pequenos saltos e graciosos meneios de cabeça, ora para vigiar em redor, ora para debicar algo no chão. Saltitando, espalhavam-se, corajosos. E logo atrás, superior, majestoso, um melro seguia o mesmo percurso. Plumagem preta, bico amarelo, pose distinta, não ameaçava nem protegia os pardais, mínimas e perfeitas criaturas de cor parda, pompons de penas, que pela manhã se moviam.

E, enquanto observava os pássaros, na imobilidade que tal tarefa implica, senti-me subitamente desperta, lúcida, viva, contagiada pelo vigor dos pardais!




domingo, 12 de julho de 2015

A hora e vez do Romi-Isetta - Texto de Cecílio Elias Netto


A hora e vez do Romi-Isetta

 Texto de Cecílio Elias Netto

 
 Em 1955, a indústria Romi (barbarense) construiu o carro mais inteligente que podia existir. Mas foi esmagada pela estúpida indústria de carrões.

 Foi em 1956 que surgiu, no Brasil – e fabricado pelas Indústrias Romi, barbarenses – o revolucionário carro Romi-Isetta. Era o primeiro veículo produzido nacionalmente. O visionário Emílio Romi conseguiu, em 1955 – da empresa italiana Isso, que o idealizara – o direito de construção no Brasil. Tratava-se de um veículo de praticidade espetacular, mais ainda do que o já minúsculo Fusca. O automóvel de Emílio Romi era para duas pessoas, com portas que se abriam pela frente, atingindo velocidade de até 85km/h, com consumo de combustível de 25 km. por litro.

 Seus idealizadores, ainda no pós-guerra, haviam imaginado um veículo pequeno, seguro, barato, que atendesse as necessidades de famílias pequenas, de estudantes, de operários. Tratava-se de um carro mais para circulação urbana, digamos que para uso individual. E o sucesso foi imediato na Europa. Foi como se a Isso italiana – e o barbarense Emílio Romi – tivessem previsto o que haveria de acontecer, com a desvairada fabricação de carrões imensos e pouco inteligentes. Aliás, o próprio Henry Ford – há 90 anos – advertiu e reconheceu: «A cidade está condenada».


O Romi-Isetta durou muito pouco tempo. Acho que até 1961. Foi esmagado pelo poderio das bilionárias empresas automobilísticas que se instalavam no Brasil após a abertura dada por Juscelino Kubitschek. O preço daquele desenvolvimento alucinado foi a morte da razão em favor da ambição. A realidade foi construída para um crescimento desordenado no qual a pessoa humana não foi levada em conta. Como o próprio Marx previra, o capitalismo – depois de conseguir o máximo de onde se instalou – iria em busca de novas oportunidades, novos povos, novas terras. Nos 1960, a América do Sul tornou-se cobiça internacional. Em relação à mobilidade urbana e interurbana, as grandes vítimas foram: os trens, os bondes e o Romi Isetta.

 Atualmente, os carros pequenos – adequados aos graves problemas atuais – começam a ser, inteligentemente, construídos e usados especialmente na Europa. Aqui mesmo em Piracicaba, já circulam alguns. O Japão está em vias de lançar – se já não o fez – o pequeno automóvel dobrável, que se fecha, para estacionar, como duas páginas de caderno. Ou seja: há, sim, vida inteligente no mundo. Preocupações legítimas. E buscas de soluções racionais, de ordem prática, imaginativas, criativas.

 Estamos diante, novamente, da vez e da hora do Romi-Isetta. Piracicaba jamais teria a imaginação de participar dessa experiência inteligente de redescobrir que «menos pode ser mais». Pelo contrário. A vocação política dos últimos tempos parece ser a favor da burrice. Vai daí, passamos a produzir, orgulhosamente, grandes, imensos carrões. E quase ninguém percebeu estarmos próximos da hora em que exibi-los nas ruas, ostentá-los será humilhante e vergonhoso. Que se há de fazer? Bom dia.


 
O Romi-Isetta foi o primeiro automóvel produzido no Brasil, entre 1956 e 1961, pelas Indústrias Romi S.A., com sede em Santa Bárbara d'Oeste, interior de São Paulo.