domingo, 12 de julho de 2015

A árvore das palavras de Teolinda Gersão - Por Arlete Deretti Fernandes


A árvore das palavras

De Teolinda Gersão

Por Arlete Deretti Fernandes



Teolinda Gersão nasceu em Coimbra, estudou Germanística e Anglística nas Universidades de Coimbra, Tuebingen e Berlim. Foi leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim, docente da Faculdade de Letras de Lisboa e posteriormente professora catedrática na Universidade Nova de Lisboa, onde lecionou Literatura alemã e Literatura Comparada até 1995.

Doutorou-se em 1976 defendendo uma tese intitulada Alfred Doblin: Indivíduo e Natureza. Teolinda começou a escrever com apenas catorze anos. Influenciada por formas várias de cultura e, dentro destas, pelo contato com diversos mundos (citadino e rural), a sua escrita está marcada pelas viagens e estadas em diferentes lugares, entre os quais se salientam a Africa e o Brasil.
 Autora de nove livros ganhou os principais prêmios literários portugueses. Sua obra foi traduzida para o inglês, francês, alemão, holandês, espanhol e romeno.

Três de seus livros foram adaptados ao teatro e levados à cena, Os teclados e os Anjos, em Lisboa. A Casa da Cabeça de Cavalo, no Teatro Nacional de Bucareste, na Roménia.


 BREVE COMENTARIO SOBRE SUAS OBRAS

Esta autora abriu caminho para o romance contemporâneo em Portugal. Seus livros mostram aspectos da sociedade contemporânea, mesmo quando a ação é transportada para épocas diferentes.

Em quase todas as suas obras aparecem dois mundos diferentes, o do homem e o da mulher. Esta diferença é o resultado da opressão da sociedade que obriga os dois sexos a conformarem-se com papéis convencionados.

Teolinda conheceu Moçambique em 1960 e, mais tarde, durante o processo de escritura do livro Arvore das Palavras, regressou para poder «reconstruir com detalhe uma cidade que ainda não existe», e para recordar a espiritualidade e filosofia de vida de um continente que «me ensinou o respeito pela natureza e que não existem culturas superiores nem inferiores, senão culturas diferentes».

Para a escritora escrever é um jogo, uma maneira de organizar sentimentos, de encontrar uma unidade; confessa que lhe dá imenso trabalho, pois escreve uma primeira versão, depois reescreve e volta a reelaborar, mas este trabalho lhe dá imenso prazer.

A aposta da escritora vai para a qualidade e não para a quantidade, considera um livro acabado quando percebe que não pode fazer mais nada, portanto é bastante perfeccionista, não se importando com o tempo que leva para escrevê-lo.

O livro só é conseguido quando o escritor sente que domina o mundo que construiu, ou seja, é o próprio livro que determina o seu ritmo e tempo de elaboração.

Ela sabe que não é fácil escrever um livro, considera que a experiência faz com que a escrita se torne mais difícil, aumenta a exigência, mas também aumenta o prazer.

Pensa que a condição essencial para se ser um escritor é ter uma perspectiva própria das coisas, uma relação mais estreita com determinados temas e por fim ter a capacidade de dar e não de receber atenção. Escrever é também ser capaz de escutar o mundo.

A Arvore das Palavras é uma narrativa composta de 3 capítulos desprovidos de títulos, cuja variação de tamanho vai de 32,25 e 28 páginas respectivamente. A 1ª edição foi em 1997. Nela retrata a história de uma família, a cultura e a sociedade de Moçambique antes e durante a guerra colonial que precedeu a revolução portuguesa de 1974.

Por quê este livro tem o nome de «A arvore das palavras»?

Na Africa a árvore encarna a sabedoria, lembra Hutin. Sentado à sua sombra, gerações transmitem histórias seculares. O baobá é uma árvore símbolo do continente. O maior é o baobá de Sagole (Província de Limpopo, Africa do Sul), que tem 38 metros de circunferência e cerca de três mil anos de idade.



«Baobá, árvore símbolo da Africa retrata a savana africana, sua flor mede 20 centímetros, tem cheiro de Almíscar e quando seca, seus galhos parecem raízes».

 CONTEXTO HISTORICO

 Os portugueses chegam a Moçambique no final do século XV. Pero de Covilhã foi o primeiro português que fez contato com esta região em 1489, recolhendo informações sobre o tráfico e a navegação a mando de D. João II. Os primeiros produtos explorados foram marfim, cobre e escravos.

No século XVII vêm possessões na costa oriental da Africa. Foram atacados ao norte pelos árabes e ao sul pelos holandeses, assim é o fim das feitorias portuguesas. Os portugueses concentraram-se em Moçambique no século seguinte, mas não é fácil, pois há uma disputa entre as potências européias e os indígenas resistem à ocupação.

Em 1752 Moçambique passa a ter estatuto administrativo, «Governo e Capitania Geral de Moçambique Sofala, Rio de Sena», a exploração de escravos toma impulso. E sofre ataques piratas. Na primeira metade do século XIX há um verdadeiro reservatório de mão de obra para a exploração das colônias vizinhas. O centro político de Moçambique desloca-se para o sul começando a relação tipo capitalismo.

Os portos de Maputo (Lourenço Marques) e da Beira eram os portos de entrada e saída dos produtos da Rodésia. Após a 2ª guerra a idéia de descolonização começa e as colónias da Grã Bretanha são as primeiras. Mas, Portugal se opõe ao movimento.

Nos anos cinqüenta surgem os movimentos que defendem a independência de Moçambique e em 1964 começa a Guerra de Libertação conduzida pela Fremlimo, (Frente pela Libertação de Moçambique), que termina nos anos seguintes. A independência foi proclamada em 1975.

ESPACO ONDE SE PASSA O ROMANCE: Moçambique

TEMPO: Outro aspecto central é a atenção dada ao tempo, quer seja na estrutura narrativa ou no tempo histórico onde ocorre.: os anos 50 e 60 do século XX. Os fatos históricos são todavia encarados numa perspectiva que transcende a sua época e os situa em ligação com a atualidade. O tempo não é linear, tanto psicológico como histórico.

A autora utilizou uma das técnicas mais conhecidas utilizadas na narrativa do tempo psicológico, o flashback, que consiste em voltar no tempo. Há uma mistura de acontecimentos presentes e passados – e até futuros -, quebrando a continuidade «natural» dos acontecimentos.

LINGUAGEM – O livro está escrito com uma linguagem «muito criativa e um estilo pessoal», usando um novo tipo de linguagem, que faz sentir o leitor mais próximo da vida: mais oralizante, do cotidiano, com um ritmo poético e metafórico que confere vivacidade às palavras. Por exemplo: Moçambique retratada por Teolinda, metaforicamente, pode ser qualquer país africano colonizado por um país europeu.

O próprio título da obra em várias passagens do livro: «Ou sentava-se debaixo da árvore do quintal e falava com o vento e as folhas. A árvore abanava os ramos e eu pensava: a árvore das palavras.» (p. 32).«Eu sou, dizia a árvore agitando os ramos, a semente abrindo no escuro, a água apodrecendo nas lânguas, a floresta dormindo. Eu sou.» (p. 50).

A característica principal de sua escrita é o fragmentário e o simbólico, no qual a imaginação se sobrepõe à realidade. Foi mantida a grafia vigente em Portugal.

FOCO NARRATIVO- Predomina na escrita os flashes da memória, o fluxo da consciência e uma alternância do foco narrativo. São marcantes as mudanças abruptas do foco narrativo; ela é firmemente conduzida em 1ª pessoa pela personagem Gita. Porém, em outros momentos ela é transmitida por outros personagens da história., como por exemplo: Amélia, a mãe portuguesa; Laurano (pai); Lóia, (a ama-de-leite negra); Rodrigo, o namorado rico.

TEMA – Racismo, diversidade cultural, descoberta do amor, luta pela liberdade.

PERSONAGENS – São seis, quatro mulheres e dois homens.

A Narrativa desenvolve-se através da personagem Gita, protagonista, apresentando as suas reflexões em dois momentos; quando criança, sem reflexões desenvolvidas, simplesmente o olhar infantil sentindo as sensações que a levam a integrar-se ao mundo negro através de sua ama-de-leite que a alimenta com o «sangue negro» e com o cotidiano da «Casa Preta» que Lóia representa.

O quintal para Gita representa a Africa que ela ia absorvendo com o passar do tempo. A personagem Lóia e sua Orquídea representam o universo e a cultura africana, os colonizados, é a Casa Preta. A protagonista vai consumindo e passando a fazer parte do seu universo de criança.

A protagonista embora tenha digerida a cultura africana sempre conviveu com o outro lado: a Casa Branca sendo representada por sua mãe Amélia, que representa o pensamento do colonizador.

Temos na figura de Amélia e de Lindóia as duas faces da moeda: a do colonizador e a do colonizado, isto é a primeira está inserida em uma família preta e branca. Gita e Laureano, na Casa Preta, pois se identificam com a cultura africana e ela, a branca, «o pensamento colonizador», despreza, nega a cultura e discrimina os negros. Ela não faz parte dos colonizadores, pois é de família pobre que também é discriminada por aqueles que estão no poder em Moçambique.

Amélia discrimina os negros, nega a cultura africana, quer ficar o mais longe possível deles. Mas ela faz parte da família portuguesa pobre que vive em Lourenço Marques e assim como os negros são também desprezados e só servem para prestar serviços aos mais ricos.

Gita, e o pai correspondem à cultura africana. Mas ela sabe das diferenças que existem entre brancos e negros, pois presenciou na sua infância e percebe também que ela está do lado dos brancos, isto é, tem uma posição mais favorável do que os negros e sabe também reconhecer a grandeza africana. Seu pai também a ensinou a questionar o governo português.

Estes questionamentos a levam a pensar mais tarde na guerra colonial que acontece e que ela narra. Ela também tem consciência da discriminação que existe na cultura africana e faz pensar na luta pela independência de Moçambique mesmo quando adolescente.

A personagem ao brigar com o namorado sente a discriminação, pois ao dizer que estava grávida, ele lhe apresenta a idéia de aborto.

Gita resolve continuar seus estudos em Lisboa e tem consciência do que vai enfrentar na casa de seu tio, vivendo de favor. Mas persegue seu objetivo, assim como em Moçambique iria sofrer com as modificações que ocorriam pela luta do poder.

 PALAVRAS FINAIS

 Este romance transparece as adversidades sociais que sofrem os negros nativos, bem como os brancos pobres que foram para a Africa por não terem encontrado em sua própria terra, Portugal, horizontes para uma vida melhor e possibilidades de ser feliz.

A Africa como um lugar para todos os negros foi mais uma invenção do pensamento ocidental, (Appiah, Na casa de meu pai p. 42). Não se levou em consideração a pluralidade cultural dos povos que constituem o continente africano. Segundo a visão européia, todos os negros eram da mesma raça, logo, todos os africanos eram iguais, possuíam uma africanidade compartilhada. Considera-se um grande equívoco este pensamento ao deparar-se com as diversas culturas que constituem o continente africano; culturas diferentes que completam, preenchem e solidificam o continente africano.

A mulher negra africana, diferente das mulheres européias, que possuíam estigmas de como portarem-se e serem alguém dentro da sociedade, possui já uma cultura que a inferioriza e a maltrata por sua condição subjetiva de ser mulher. Sabe-se que é esta mesma mulher que cuida dos filhos, que faz o trabalho braçal e é vista e obrigada a servir o homem negro.

A mulher negra moçambicana já vinha sendo dominada antes mesmo da colonização. Era colonizada duplamente, por uma sociedade patriarcal já instituída e pelo novo colonizador. Muitas vezes, então, largada com os filhos, quando o marido ia tentar a sorte em outras regiões. Um grande número de mulheres da Africa procuram no suicídio a sua libertação, por não suportarem e nem ao menos saberem quais são as suas possibilidades como indivíduos. (RICH, Adriana, Gênero, identidade e desejo).

Elas não pensam ou refletem sobre a vida, procuram sustentar suas crenças e costumes e cultivar suas culturas subordinadas ao destino. E é para elas, como relata o livro, que os homens retornam quando perdem seu norte, sua direção. A mulher negra luta para manter um teto seu, de sua prole e também de seu marido.

Referências:
 APPIAH, Na casa de meu pai
 GERSAO, Teolinda. A árvore das Palavras. Ed. Planeta do Brasil, 2004.
 RICH, Adriana, Gênero,identidade e desejo.
 Wikipédia. 




quinta-feira, 9 de julho de 2015

Poesia de José Manuel Veríssimo


Poesia de José Manuel Veríssimo


Equívocos

Sim!

Claro que  sofri!
  Mas  não sofremos todos
O  agora  e aqui ?
  Como  tolos
Num mundo
 que  construimos  assim?
Carpindo a  rodos
Com  maneiras
  modos
 culpas
dardos
 E  afins…………

Claro que  sofri
  Sofro
  Sofremos
  De  cegueiras
  De  fados
  Esfarrapados
  Pobres
 sem  bandeiras
 Sem  iras nem  beiras
 Ensopados
Em  piedades  próprias
E  nas  alheias
Pôdres
 E Vencidos
Como  quem desiste
A  pretexto  de  inclemências.

Antes  mesmo  das  sementeiras
Lamenta
 Sofre
Desespera
Sem  um  esboço de  resistência
Sem  um esforço
 De quem  supera
Os  excessos  de  paciência
De  quem é  manso
Mas  sem potência………………
De  quem  clama
Pela desobediência
 Em  quem
 A  inconsistência
 Se  confunde
 Com o princípio  da  irreverência.
                                                                   
 Seixal , 092.04.2015

José Manuel Veríssimo


No Jardim

 O Sol despontou
Receoso, tímido, volátil
Durou
O instante subtil
Em que o jardim brilhou
De novo o cinzento
Se instalou
Mas, ainda assim, o canto alado
 De um bando versátil
Sucedeu
Coisa que nem o cinzento
Interrompeu
Um forte vento
Se acendeu.
Hábil e persistente
Soprou nuvens
Tortuosos trilhos
Lutas brigas….sarilhos
Finalmente
Mais forte do que nunca
 O Sol voltou

Seixal 27.05.2013

José Manuel Veríssimo




Promoção e poder - Tom Coelho


Promoção e poder

* por Tom Coelho

“Contrate e promova primeiro com base na integridade; segundo, na motivação;terceiro, na capacidade; quarto, na compreensão; quinto, no conhecimento;e, por último, como fator menos importante, na experiência.
Sem integridade, a motivação é perigosa; sem motivação, a capacidade é impotente; sem capacidade, a compreensão é limitada; sem compreensão,
o conhecimento é insignificante; sem conhecimento, a experiência é cega.”
(Dee Hock, fundador da Visa)

“O poder muda as pessoas”.

É muito provável que você já tenha proferido a frase acima para qualificar a mudança no comportamento de um amigo após este ser promovido em seu emprego. A este respeito, permita-lhes contar uma breve história...

Há mais de uma década eu estava como diretor de uma empresa para a qual contratei um representante comercial. Em tal posição, o rapaz não tinha vínculo empregatício, ou seja, não precisava cumprir horários ou mesmo comparecer regularmente à companhia. Cabia-lhe apenas visitar clientes para gerar negócios, estando subordinado a mim e ao gerente comercial.

Entretanto, aquele profissional se destacava em relação aos demais em igual função. Ele fazia questão de ir à fábrica, conhecer em profundidade nossos produtos, processos e sistema de gestão. E, diante deste envolvimento, sempre que possível trazia-nos sugestões diversas para melhoria, de forma realmente despretensiosa.

Após um ou dois meses, notei que estava diante de uma pessoa singular, muito acima da média dos demais funcionários. Alguém que não se reduzia aos limites de seu papel, que apresentava admirável visão sistêmica e nítida capacidade de gerenciamento e inovação. Refleti e tomei a decisão de promovê-lo.

Para encaixá-lo no organograma, criei o cargo, até então inexistente, de gerente administrativo. Era o que melhor se enquadrava em seu perfil, posto que transitava com fluidez do departamento de vendas à produção, passando pelo atendimento e suprimentos. Todavia, algo inusitado aconteceu.

Em menos de uma semana no cargo, sua relação com os colegas mudou diametralmente. Ele passou a tratá-los com soberba, em especial a equipe da área comercial, com a qual interagia anteriormente. Até mesmo sua postura física ao caminhar alterou-se! As reclamações começaram a chegar à minha sala até que, menos de um mês depois, não tive opção, demitindo-o.

A grande lição que extraí deste episódio foi de que, em muitos casos, subir na hierarquia faz o poder subir à cabeça. E isso ocorre porque o poder, tal qual o dinheiro, são excepcionais matérias-primas para a vaidade. Porém, diferentemente do que se possa parecer, eles não mudam as pessoas, mas apenas as desmascaram, porque se a arrogância e a prepotência as visitam, é porque sempre estiveram ali presentes, na essência.

Assim, para evitar um infortúnio similar ao que vivenciei, considere três aspectos essenciais antes de promover alguém em sua organização.

Primeiro, conheça o profissional. A rigor, este cuidado deve ser tomado já por ocasião da admissão. Ou, como gosto de dizer, contrate devagar, mas demita rápido. Analise criteriosamente o perfil do executivo, considerando sua personalidade, comportamentos, motivadores e competências. Há instrumentos poderosos para este tipo de avaliação que, quando bem utilizados, permitem colocar a pessoa certa no lugar certo.

Segundo, explicite suas expectativas. Antes mesmo de formalizar a promoção, tornando-a pública, convide o profissional antecipadamente para uma conversa com portas fechadas. Neste momento, informe-o dos motivos que levaram você ou sua equipe a escolhê-lo, elencando os desafios e responsabilidades do cargo, as metas que se espera atingir e qual a autonomia, infraestrutura e equipe que lhe serão disponibilizadas. Apresente também o plano de remuneração e os benefícios inerentes à função.

Por fim, pare e escute. Após o passo anterior, deixe que o profissional relate suas próprias expectativas acerca da nova colocação e se a mesma está alinhada aos seus propósitos pessoais. É neste momento que a promoção pode ser recusada em virtude de uma decisão consciente.

A experiência que relatei confirma a tese de que nem todas as pessoas são indicadas para cargos de liderança. Embora esta seja uma competência possível de ser desenvolvida, há aqueles que não de adequam ao papel de líder. E isso pode ocorrer por dois motivos.

Há profissionais que se sentem deslocados em seu ambiente de trabalho por ter seus pares, antes meros colegas, agora como seus subordinados diretos, impactando o relacionamento interpessoal e gerando uma sensação de desconforto e angústia. Isso é muito recorrente em funções operacionais, em especial com líderes oriundos do chão de fábrica.

Porém, o mais comum são aqueles que, a exemplo do meu antigo representante comercial, não enxergam que liderança é uma posição transitória que não se impõe, mas se conquista, e que precisa ser respaldada por competência, legitimidade, sensibilidade, carisma, persuasão e outros fatores. Contudo, assumem a alcunha de “chefes”, com presunção e orgulho, menosprezando colegas e fornecedores, e desperdiçando uma grande oportunidade.


* Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de oito livros. E-mail: tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.





Tabuí e seus Causos



Tabuí e seus Causos

A MENINA E AS CABRAS

Numa manhã tranquila numa cidadezinha do sul das Minas Gerais, o padre estava em frente à igreja quando viu passar uma garotinha de uns nove ou dez anos, pés descalços, franzina, meio subnutrida, ar angelical, conduzindo umas seis ou sete cabras.

Era com esforço que a garotinha conseguia reunir as cabras e fazê-las caminhar.

O padre observava a cena. Começou a imaginar se aquilo não era um caso de exploração de trabalho infantil e foi conversar com a menina.
– Olá, minha jovem. Como é o seu nome?
– Rosineide, seu padre.
– O que é que você está fazendo com essas cabras, Rosineide?
– É pro bode cobrir elas, seu padre. Tô levando elas lá pro sítio de seu João.

– Me diga uma coisa, Rosineide, seu pai ou seu irmão não podiam fazer isso?
– Pode não, seu padre! Já fizeram… Mas num dá cria… Tem que ser um bode mesmo!



ACARMÔ?!…

Numa estradinha, o mineirim, dono de um alambique, vem dirigindo seu carrim véio e “entra com tudo” na traseira de uma BMW novinha em folha.
O dono da BMW sai que é uma fera pra cima do mineirim, que diz:
– Carma moço, tudo se resorve…
– Resolve nada, seu mineirim duma figa!

– Carma, moço! Toma uma aqui da minha fazenda, é da boa… o sinhô vai si acarmá logo.
O cara toma uma.
– Acarmô?
– Acalmei nada!

– Então toma mais uma…
E assim foi. Depois de uma meia dúzia, o mineirim pergunta:
– Acarmô?
– Sim, agora sim!

– Intão agora nóis vamu sentá aqui, chamá a pulícia pra fazê o tar di bafômetro, pramodi vê quem tá errado, tá bão?


MARIDO MADRUGADOR

O Euzébio era danado pra chegar em casa tarde da noite, depois de ter tomado umas no Copo Sujo e ficado na esbórnia. Chegava, tirava os sapatos e ia bem devagarzinho pra cama, pois que a sua mulher, a Fadalarete era famosa por ter o sono pesado.

Mas naquela madrugada, assim que o Euzébio tropeçou no penico esmaltado, Fadalarete virou-se na cama, exatamente quando ele desabotoava a camisa pra se deitar. Confundindo tudo, ela perguntou:

- Onquiocê tá ino tão cedo, meu bem?
- Ah, amô... Pensano bem, cê sabe quiocê tem razão? Vô é durmi mais um tiquim, né?


CALENDÁRIO DE CONFISSÕES

Padre Anacleto tava cansado de todas as manhãs ter que ouvir os pecados das suas ovelhas. Idoso, saúde precária, barriga grande, pernas inchadas...

Era sacrifício demais ouvir os mesmos pecados e dar os mesmos conselhos pras mesmas ovelhas, algumas de todos os dias.

Depois de muito craniar, teve uma ideia. Organizou um roteiro para as confissões e já no domingo seguinte comunicou à comunidade em forma de cartaz, pregado pelo sacristão na porta de saída da igreja.

“A partir de agora as confissões devem obedecer ao seguinte calendário, de acordo com o pecado:

Segunda-feira – fofoqueiras e mentirosas

Terça-feira – preguiçosas e ladras

Quarta-feira – quem fala mal da vida alheia

Quinta-feira – infiéis ao marido e portadoras de maus pensamentos

Sexta-feira – bêbadas e comilonas

Sábado – hipócritas e outros pecados

Domingo – descanso do padre”

Desse dia em diante a turma do confessionário diminuiu drasticamente, sobrando mais tempo para o padre Anacleto descansar e curtir as suas doenças.

©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos
 




Poesia de Pedro Du Bois


Poesia de Pedro Du Bois


ESCOLHER


 Escolho ser da geração o estigma

               e da terra o magma

                  na oração do devoto



         o coração se despedaça

         ao solo. Beijo o solo

         em homenagem.



Anos passados representam

a hora da jornada. O que falta

ao espírito. O que se deduz

em luz. A escolha.


(Pedro Du Bois, inédito)


SEMPRE


Na voracidade feito tempo

multiplico necessidades.

Não deixo a imagem perdurar.

Substituo feitos anteriores:

o produto recondicionado

transcende ao mito desprotegido.

A fome permanece como sempre.
 

(Pedro Du Bois, inédito)


VIVER



Vivo na ilusão

da água infinita

e da sede

saciada em goles.



vivo como intruso

destruindo o que não me pertence.



Alcanço o fruto e o desfruto.

Deixo o sumo escorrer pelas mãos.



Vivo na desilusão

de me intrometer

como abuso.
 

(Pedro Du Bois, inédito)
 

http://pedrodubois.blogspot.com 



 


 

Lendas- Mani


Lendas

Mani

Numa aldeia no meio da Amazônia, vivia uma tribo de índios que se dedicavam à caça e à pesca. A vida era tranqüila e pacífica, longe das disputas e das guerras entre tribos vizinhas.

Um dia a paz da aldeia foi abalada por uma novidade, a bela filha do cacique apareceu grávida. O chefe da aldeia soltou um grande grito diante da sua desonra. Era preciso saber quem era o autor do ultraje e puni-lo com a rigidez que exigia a honra.

Furioso, ele interrogou a filha, tentando saber a identidade do infame. Passivamente, ela respondeu que não tinha tido relação alguma com os índios da aldeia e da vizinhança. Quanto mais a jovem negava revelar com quem se deitara, mais enfurecido ficava o chefe da aldeia.

Enlouquecido, espancou a filha, confinou-a em uma caverna escura, deixou-a sem comer por dias... Nenhum castigo ou ameaça surtia efeito, a jovem continuava a afiançar a sua inocência de que jamais conhecera um homem na intimidade do amor.

Amargurado, o cacique chegou ao fim do dia com uma certeza, era preciso punir a sua desonra. Se a filha continuava a recusar a delatar o índio que lhe engravidara, então era preciso matá-la. Ao recolher-se na oca, deitou-se sobre a rede, com a decisão de no dia seguinte lavar a honra com o sangue da filha.

Ao adormecer, o chefe teve o sono invadido por Tupã, que tomando a forma de um homem branco, revelou-lhe a verdade, a filha era inocente, jamais se deitara com índio algum. Quando despertou, o cacique tinha o coração aliviado, toda a amargura e ódio tinham sido dissipados pelo sonho.

Assim, o ventre da jovem cresceu, como se dele fosse sair mais de uma vida. Ao fim do nono mês, após todos os sofrimentos sofridos, a bela índia deu à luz a uma menina de uma beleza rara, trazia uma tez branca que jamais fora vista naquela aldeia ou em qualquer lugar da Amazônia.

Ao saber do nascimento de tão diferente criança, todos os índios da aldeia vieram vê-la e admirá-la. A notícia espalhou-se por todas as nações indígenas da floresta amazônica, motivando uma peregrinação sem fim à aldeia. Todos queriam ver a bela criança de raça desconhecida e nova à humanidade.

A menina foi chamada de Mani. Mostrou-se uma criança com estranhos poderes, pois falou e andou precocemente. Quando completou um ano, parecia ter cinco. Um ano depois, quando a Lua completou todos os ciclos, Mani deitou-se sobre a rede, cerrou os olhos e calou-se para sempre. Faleceu sem apresentar qualquer doença ou sentir dor. Simplesmente adormeceu no manto da morte.

Com grande tristeza, os índios enterraram Mani dentro da oca onde vivia com a mãe. Seguindo os costumes da aldeia, todos os dias a sepultura de Mani era descoberta e regada pelos índios. Passados alguns dias, começou a brotar da cova uma estranha planta, desconhecida de todas as nações indígenas das ribeiras amazônicas. Diante de planta tão rara, os índios decidiram não arrancá-la da sepultura de Mani.

O tempo passou, a planta cresceu, floresceu e deu frutos. Os pássaros foram os primeiros a comer os frutos da planta desconhecida. As aves mostraram-se tontas e embriagadas, o que despertou a atenção dos índios, aumentando o suspense e mistério que ladeavam a planta.

Um dia a terra em redor da planta fendeu-se. Os índios cavaram o local e debateram-se com uma raiz branca, como era a bela Mani. A misteriosa criança índia tinha se transformado na raiz. Ao comê-la, o povo descobriu aquela que se tornaria a sua principal alimentação.

Aprenderam a extrair da planta o cauim, bebida que servia para as iniciações místicas e religiosas. Do tubérculo, um saboroso alimento nutria todos os índios.

Passaram a chamar a planta de mandioca, que significava Mani-Óca, oca de Mani.


 

Poesia de Jorge Vicente


Poesia de Jorge Vicente

YESOD

assim como em baixo, também em cima,
o fundamento de sermos apenas homens,
e não seres votados à magia.
deixemos os anjos murmurar as nossas
preces e vivamos incólumes ao medo:
se vacilarmos, apenas resta o desconsolo
de quem viveu acima da praia, na vertigem
das arcadas, pedaços de pedra transparentes,
sem pele.

sou inteiro em baixo como o sou em cima,
revejo-me no silencioso embaraço que tudo
esconde sem nada demonstrar.

para quê o cosmos se tenho em mim o
fundamento de toda a existência? a
roda do meu destino.

Jorge Vicente


MALKUTH

o rei desperta. sem as silvas a silenciar
a fonte apenas um olhar sorrateiro ao
redor das águas. caminha comigo por entre
os corpos que te envolvem e traz a taça
dourada. olha-me nos olhos e inventa-te no
gesto.

sê pescador de almas e escreve-me um poema
de rochas.

não há genocídio no interior da pedra.
apenas a voz do cego e do louco que
sabe tudo sem se ver.

Jorge Vicente


GEBURAH

a cidade procura-me
no atrito dos corpos caídos
aspiro às ruínas das pedras velhas
à calçada gasta pelas olheiras dos
lábios

são dois os corpos que se encontram
em mim não existe dualidade
senão no julgamento infinito do
teu rosto.

Jorge Vicente