domingo, 28 de junho de 2015

My Blueberry Nights - crônicas da madrugada.- Lua, nua, lua...- Por Cynthia Kremer


My Blueberry Nights - crônicas da madrugada.

Lua, nua, lua...

Por Cynthia Kremer

Eu sou mesmo uma mulher lunar.

É impressionante, mas desde bem pequena tenho a sensação de que todos os chatos vão dormir cedo. Assim como os escoteiros, não fumantes, crentes, adeptos da vida saudável e todos os seres aborrecidos da mesma linhagem.
Outro dia estava assistindo um filme que adoro, chamado “Todas as Mulheres do Mundo” – e de repente me dei conta do teor de um diálogo do personagem do ator Paulo José, comentando com o amigo que a mulher dele estava deprimida, que há dias não saía do quarto e como ele dizia, havia dois tipos de mulher: as solares e as lunares; ele temia que sua mulher fosse uma mulher lunar...

Mas eis que de repente ela (Leila Diniz) aparece magnífica e cheia de vida na praia bem ao alcance da vista do marido - que aliviado - desabafa ao amigo: “ela é uma mulher solar!" Aquilo me soou quase como uma crítica, como um desprezo a minha condição de mulher lunar!

Mas a noite é minha amiga fiel. Traz-me aconchego, paz e vontade de fazer as coisas. Este é o problema; pouco do que quero e tenho ânimo, posso fazer à noite. Mudaria o mundo às três da madrugada! Mas aí chega o dia, que implacavelmente, apaga, como o sol a um letreiro de neon, as minhas vontades. Mas não reclamo. Faço o que posso e gosto ao longo das madrugadas.

Ouço minhas músicas, leio jornais, escrevo muito, mando e-mails atrevidos para lugares impensáveis, entro em blogs aleatoriamente, me afilio a ONGs de proteção animal e ambiental, etc. Fico meio pirada depois das três horas da madrugada! Sei que alguns dirão: "coitada, é solidão..."

Pois eu lhes asseguro: é paixão! Paixão pelo desconhecido, por uma sensação de algo suspenso no ar, pela quietude das coisas, das árvores, das ruas e de tudo em volta. É nesta hora que a minha percepção fica mais aguçada e as idéias fluem com mais facilidade.

Há um verso “Nox”, de Antero de Quental, (meu tio-trisavô), que pelos poemas e sonetos, era também um amante da noite.

NOX

Noite vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos...

Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, Inalterável,
Caindo sobre o Mundo, Esquecesses,

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!

Antero de Quantal - in Sonetos





quarta-feira, 24 de junho de 2015

Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira

Saudade

A saudade nunca deixa de latejar
No peito cansado da guerreira
A saudade nunca deixa de angustiar
O coração já gasto da mulher

A saudade nunca deixa de insistir
Nas pernas acorrentadas da prisioneira
A saudade nunca deixa de ferir
Os olhos acostumados com a escuridão da menina

A saudade, sentimento estranho que nunca a chega a abandonar
Deixa-lhe a alma em pedaços, e não lamenta a morte
A saudade que ela abraça como um velho amigo que demorou a chegar

A saudade, que ela esconde porque não quer que a vejam como menos forte
A ânsia tremenda que carrega no peito como que a uma criança lamuriosa meio adormecida
A saudade, que lhe já vinha cravada na alma, de outros tempos, de outra vida…



Décadas

Décadas passadas e ele ainda marca o caminho
Anos de solidão e de espera  sem angústia nem pesar
Minutos que o relógio contou com um tiquetaque baixinho
Saudade que não cessa nem tem olvidar

Saudade da criança que se deitou no leito
Da menina que não conhecia a verdade
Da mulher com um furacão no peito
Que se descobriu naquela noite sem piedade

Pirata dos sonhos da menina que há muito morreu
Pirata negro de olhar profundo que a reconheceu
Saudade da mulher que nessa noite nasceu    

Saudade que não termina e penetra a mais forte couraça
Saudade que veio de outras vidas onde o amor se viveu
Saudade que não mata nem fere, morte que não magoa, vida que se abraça.


Marinheiro de águas revoltas

Oh marinheiro de águas revoltas sem porto onde atracar
Décadas de saudade me acompanham neste caminho da vida
Instantes de ânsia sem pesar, desejo sempre a sufocar
Recordando eternamente o momento da despedida

Oh marinheiro de águas revoltas que um dia visitaste o meu porto
Beijos de sal e canela que num sopro me enfeitiçaram
Deixando a tua marca na minha alma e no meu corpo
Mãos calejadas que me percorreram e a fogo me marcaram

Oh marinheiro de águas revoltas que partiste sem lamentar
Sem um adeus, ou a promessa de um dia regressar
Esquecido de cortar a amarra que a ti me aprisionou

Oh marinheiro de águas revoltas que foste sem me libertar
E deixaste esta ânsia, este desejo insatisfeito que trago no corpo a palpitar
Sou tua, pertence-te toda a minha alma, que por tantas vidas já te procurou...



Comportamento seguro - por Tom Coelho


Comportamento seguro

por Tom Coelho


“Aprendemos pela amarga experiência que a segurança

somente para alguns é a insegurança para todos.”

(Nelson Mandela)



Seja em trânsito, no trabalho, em casa ou em um espaço público, a segurança é um fator rotineiramente negligenciado. Assim, dirigir dez quilômetros acima da velocidade permitida em uma via é tido como normal e até aceitável, afinal, está inclusive dentro da tolerância dos radares eletrônicos para caracterização de multa. Subir em uma banqueta para trocar uma lâmpada, sem usar luvas ou óculos de proteção e sem desligar a alimentação de energia elétrica, é praxe em qualquer residência.


Segundo o Ministério da Previdência Social, por meio de seu Anuário Estatístico, os acidentes laborais notificados no Brasil ultrapassam a marca de 710 mil, com mais de três mil óbitos todos os anos. Isso significa cerca de duas mil ocorrências por dia, ou seja, enquanto você lê este artigo, ao menos três pessoas se acidentaram em algum lugar de nosso país. E os números certamente são ainda maiores, pois muitos eventos simplesmente não são registrados.


O principal fator é o desrespeito com relação ao risco. As pessoas acham que nada de ruim lhes acontecerá, afinal, o mal está sempre ocupado com outrem. Por isso, as empresas precisam tanto insistir na obediência a regras, normas, procedimentos, sinalização e uso de equipamentos de proteção, combatendo permanentemente a famosa “gambiarra”. Esta é a retórica constante durante as SIPATs (Semana Interna de Prevenção de Acidentes no trabalho) organizadas pelas empresas em cumprimento à legislação.


A atenção deve ser permanente, seja no exercício da atividade profissional, sobretudo em tarefas operacionais e naturalmente com caráter repetitivo, seja ao subir e descer escadas, ou transitando com crianças em centros de compras, onde recorrentemente menores se acidentam e até perdem a vida em escadas rolantes.


Outro aspecto é a responsabilidade pessoal. No acidente mencionado no início do texto, o próprio motorista consentiu ter ciência de que trafegava em horário não permitido, acima do limite de velocidade e falando ao celular. Lamento por ele e por seus familiares, mas o fato é que isso não poderia ser tratado como crime culposo, quando não há a intenção de matar, mas sim doloso, pois ao infringir todas as regras acima o condutor estava conscientemente praticando delitos. Aliás, foi esta conjunção de fatores que o impediu de observar que a caçamba estava levantada.


Precisamos urgentemente colocar a segurança como uma prioridade. Ela precisa ser inserida na carta de valores das empresas, nas políticas de treinamento, nas aulas no ensino fundamental. Desenvolver uma cultura de prevenção não é algo que se alcança de um dia para outro. É um processo, árduo, lento e trabalhoso que, como tal, precisa de um primeiro passo. Afinal, na atitude de cada um está a segurança de todos.



* Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de oito livros. E-mail: tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.





A Liberdade - Texto de Maria Álvaro


A Liberdade

Texto de Maria Álvaro

A Liberdade nunca é absoluta porque a própria natureza humana a condiciona, mas ela será tanto maior quanto mais educado, no sentido pleno, for o cidadão e quanto mais adequadas e dignas forem as suas condições de vida.

Liberdade não é a simples permissão para se dizer o que se pensa. E Educação não é a simples absorção do conhecimento. Ambas incluem também, e talvez principalmente, o desenvolvimento do espírito crítico, da criatividade e da cidadania, isto é o respeito pelos outros.

O exercício da Liberdade implica em Responsabilidade, que nos vem com a Educação.

Infelizmente, nas sociedades pouco educadas, e num mundo de individualismo extremado, em que os bens materiais são divinizados e os Governantes detêm, não apenas o poder político e administrativo, mas também o poder econômico, atrelado ao poder legislativo e ao executivo (adaptados estes aos seus próprios interesses), então a prática da Liberdade fica, assim, muito comprometida, pois as regalias são exclusividade dessas minorias e a restante população fica entregue a carências porque sofre os efeitos desses verdadeiros golpes sociais.

Além disso, ainda se regista a dramática existência de verdadeiros guetos étnicos e migratórios em muitos países, gente que, por sua vez, é também cruelmente marginalizada e explorada pelos preconceitos e interesses das restantes camadas das populações...

Na realidade não se detém uma verdadeira Democracia porque a maioria dos cidadãos não tem acesso a uma vida tranquila, não foi devidamente educada e está presa nos nós de uma rede gigantesca de interesses. Lutam, desesperada e ingloriamente, pela continuidade do pão nosso de cada dia. Poucos são os independentes, aqueles que tenham o privilégio de poder viver fora dessas malhas...

Como se poderá afirmar, então, que se vive, hoje, uma plena Democracia e como se pode defender a absoluta Liberdade de Expressão nestas precárias condições de Educação, Vida e Respeito pelo outro, quer seja numa boa parte dos países da Europa quer na África, na Ásia, na América ou na Oceania ?! O mundo precisa de mudança e o quanto antes!

Maria Álvaro





Lendas - Rolando e a Durindana


Lendas

Rolando e a Durindana

Rolando, sobrinho preferido do imperador Carlos Magno, era o mais valente de todos os cavaleiros do seu tempo. Sem temer os inimigos, combatia bravamente em nome da fé cristã. Trazia sempre consigo a Durindana, espada inquebrável, originalmente pertencente a Heitor, bravo guerreiro de Tróia, sendo-lhe presenteada por Carlos Magno, quando completara dezessete anos.

No punho de ouro da espada, encontrava-se um dente de São Pedro, gotas do sangue de São Basílio, um fio do cabelo de São Denis e um fio do manto da virgem Maria. Sob o fio da lâmina da Durindana, muitos infiéis sarracenos tombaram.

Por sua valentia, Rolando foi designado por Carlos Magno a combater os sarracenos que se instalavam por toda a península Ibérica. Assim, com a Durindana em punho, montado em seu valente e veloz cavalo Vigilante, o jovem vassalo partiu para a Ibéria, em nome da sua fé e do seu imperador.

Na empreitada, foi acompanhado pelos também vassalos do rei, Ganelão e Oliveiros. Sob os seu comando estava o mais poderoso dos exércitos, formado pelos paladinos conhecidos como os Doze Pares da França.

De Saragoça a Pamplona, Rolando venceu os invasores sarracenos. Por onde passava, adquiria fama, temor e respeito. Mas quis o destino que o valente vassalo de Carlos Magno fosse traído por Ganelão. O traidor fez um pacto com o rei Marsílio, de Saragoça, para acossar o exército de Rolando e, conseqüentemente, ceifar-lhe a vida.

A grande emboscada aconteceu nos Pirineus, na passagem de Roncesvales. Ali, foram surpreendidos pelos sarracenos. Aos poucos, Rolando viu cair sob a espada inimiga, os seus fiéis soldados. No meio de tão sangrenta batalha, o bom amigo Oliveiros, prometido de Auda, irmã de Rolando, pediu para que ele soasse o olifonte, alertando assim, o exército maior de Carlos Magno, fazendo com que viessem socorrê-los.

Mas as súplicas de Oliveiros foram inúteis, pois Rolando, garboso e destemido cavaleiro, não poderia manchar a sua honra mostrando medo, e recorrendo à ajuda do real do tio.

Em reposta, atirou-se ferozmente aos inimigos, matando dezenas deles. Entre os seus mortos estava o filho do rei Marsílio. O próprio monarca teria a mão decepada pela Durindana. Ferido, o rei partiu com parte dos seus soldados. Morreria mais tarde, devido à hemorragia que sofrera. Antes de cerrar os olhos na morte, o rei ordenou que os seus homens vingassem o seu martírio e o do seu filho.

Sob a paisagem dos Pirineus, a batalha entre os sarracenos e o exército de Rolando enchia os campos de sangue. Um a um, Rolando viu tombar os seus valentes soldados. Por fim, assistiu à morte do cavalo Vigilante. Já no final da luta, Rolando decidiu soar o olifonte. Vendo que a morte estava próxima, ele ainda tentou quebrar, em vão, a Durindana, para que não caísse nas mãos dos infiéis. Em um último ato, cravou a espada mágica em uma rocha.

Ao ouvir o olifante soar, Carlos Magno saiu em socorro do sobrinho. Chegara tarde demais, Rolando jazia inerte no chão de Roncesvales. O rei ajoelhou-se diante do corpo do cavaleiro, cobrindo o seu rosto com as suas lágrimas. Jurou ao morto que vingaria a sua morte.

Assim, Carlos Magno venceu os líderes sarracenos, executou o traidor Ganelão e conquistou Saragoça. Em silêncio absoluto, moveu o corpo de Rolando até Blaye, enterrando o maior dos heróis dos Doze Pares de França.

A Durindana ficou cravada, para sempre, numa rocha no meio do nada, à espera de um novo cavaleiro digno de usá-la.




terça-feira, 23 de junho de 2015

Poesia de Jorge Vicente


Poesia de Jorge Vicente

entre as montanhas do velebit
e os lagos de plitvice,
os maravilhosos lagos de água
silenciosa e pura
que tornam famosa toda a região
nordeste da croácia,
entre essas cordilheiras brancas,
que protegem a costa do vento,
e os lagos: imensos socalcos de
árvores e jardins, turistas e
jovens homens de negócios,
entre o cume do mundo
e o ar da chuva que consome plantas,
animais, seres do interior da terra
e dos livros de fantasmas de toda
a região norte,
entre esse mundo e o outro
mais perfeito,
muitas campas rasas escolhem
o seu lugar junto à estrada.

dizem: não houve dinheiro para fazer
um jazigo que pudesse celebrar
a vida daqueles que, em tempos,
trabalhavam de solo a solo e que
amavam, dançavam, riam e comiam
no ajuntamento das estrelas,
entre as montanhas do mundo mais
à frente e dos lagos que tocavam os
seus dedos,

dizem: não houve tempo para
celebrar e para regressar à
verdadeira génese das plantas
e dos solos. apenas
se amontoam crianças, velhos
e os homens que amavam e riam
e dormiam no colo dos pais.

entre as montanhas do velebit e as
águas de plitvice, não há mais
lugares de memória.

Jorge Vicente


NETZACH

a roda no momento calado da primavera
é o caminho que leva ao deus do fogo
os teus dedos entrelaçados na janela –
a vitória do espírito sobre o corpo, sem
a matéria doce o saborear da árvore
o rio em frente mais a casa. não descubro
no teu pranto o aproximar da verdade.

sei apenas de um riso breve e da conquista
de uma palavra mais suave – a subtileza do
teu lento murmurar. em setembro arde a
primavera.

Jorge Vicente


TIPARETH

não negues a beleza da sacerdotisa branca,
aquela que do mar se revelou encapelada.
não a submetas ao teu olhar indiscreto,
como se do teu corpo saísse uma rocha,
invasora e tenebrosa. o rosto do abismo
na lenta aspiração do mar.

esconde os teus olhos para que se possa
cumprir o amor – o ritual na pedra,
o desejo no lado errado da História.

as vestes voam enquanto tu te escondes,
os seios molhados na iniciação carnal
da religião.

Jorge Vicente




O ESPAÇO, O TEMPO E O SILÊNCIO.- Texto de João Brito Sousa


CRÓNICAS PREMIADAS QUE EU ESCREVI...

O ESPAÇO, O TEMPO E O SILÊNCIO.

Texto de João Brito Sousa

É por esta via que podemos chegar à felicidade. Pelo menos depreendi isso, num texto que li no Jornal Expresso, quando o articulista se mete a explicar o binómio caçador/ caça, e, lá para às tantas, depois daquelas reuniões de amigos, tanto do seu agrado, onde não se fala de mulheres, nem de política, nem de cinema, nem de literatura mas apenas de caça e de caçadores, surge esse momento mágico no encanto da noite.
Depois de terminada a refeição com os amigos, um copo inofensivo na mão esquerda, um puro na mão direita, uma soleira de porta alentejana para se sentar, o espaço, o tempo e o silêncio, fazem desse, o momento magnânimo e único que apetece viver.

O espaço, esse local onde não se passeiem as multidões e que nos permite olhar e respirar, onde nos possamos encontrar a nós próprios, sem medo e com total confiança, que nos pode até conceder a patente de donos do mundo. Naquele momento tudo é nosso. O espaço é fundamental para a nossa afirmação, para a concretização dos sonhos no silêncio das noites.

O tempo, no sentido intrínseco do termo, é o local onde a vida se vive, onde os nossos sonhos se manifestam, onde nos reputamos presentes, é aí o domicílio da nossa vida. O tempo, essa dádiva que nos é concedida e é imprescindível, sem ele não há nada, nada de nada, nem sequer a esperança. O tempo vive-se melhor no silêncio. E às vezes vive-se sem tempo porque não temos tempo para ter tempo.

È bom viver. Em qualquer circunstância, mesmo naquelas condições do caçador que na hora da deita se lembrou que no dia seguinte tinha uma letra no banco a pagamento. Lembrou-se e gemeu. O colega da caçada, perguntou-lhe, o que é isso ó Fernando, o que é que tens? E ele, amanhã…

Ou aquela cena, em que o bancário visitou o cliente que dormia a sesta, lá para as catorze e tal e a esposa foi-lhe dizer, está aí o homem do banco. E o cliente interrompeu a sesta e veio dizer ao bancário que estava a descansar e que ele, bancário, não tinha o direito de o vir acordar. E ainda lhe perguntou: ouviu o que eu disse?

O espaço, o tempo e o silêncio, funcionam como irmãos na família da vida e às vezes constituem o que há de melhor na nossa existência. O espaço é liberdade, o tempo é liberdade e o silêncio é liberdade. Nessa trilogia espaço, tempo e silêncio o homem encontra-se consigo próprio, estabelece padrões de vida, pensa e age, perspectiva situações, analisa e admite que pode ser feliz. Ou que um dia será. E às vezes até se julga poeta. E escreve umas palavras num papel e chama-lhe poesia. Nesse momento tudo lhe é permitido.

Um dia virá em que não haverá mais espaço nem mais tempo nem mais silêncio. Mas tudo continua, igual ou talvez não, num outro local, que pode ser na porta ao lado. Com uma mão vazia e outra cheia de nada, como disse a poetiza Irene Lisboa. Os poetas dizem cada coisa. Tinha que ser um poeta a dizer. E tinha que ser um poeta a escrever. Descobri agora que sou poeta, que tenho essa qualidade de ver as coisas por um lado diferente.

Gostava de ir à caça amanhã e usufruir desse tal momento mágico onde o espaço, o tempo e o silêncio fossem de minha propriedade. Única.

Nunca se sabe o que nos pode acontecer. Por enquanto o palco é aqui, neste espaço, neste tempo e neste silêncio.

João Brito Sousa