terça-feira, 23 de junho de 2015

Poesia de Cremilde Vieira da Cruz


Poesia de Cremilde Vieira da Cruz

TEU NOME

O sopro do vento,
A paisagem,
Os fenos estendidos que chamam,
Os segredos que se omitem,
A verdade aberta que as marés clamam.

A paisagem vai e vem,
Agita-se
Como se quisesse falar com alguém
Sem corpo,
Ou como se quisesse precipitar-se
Para lá dos montes,
Para lá do além.

Não há vagas entre os dedos das ervas.
Não há fogo nem porta aberta
Onde resvalam as pedras
No rumor de águas escorridas.
Sem braços que procurem,
Soltam-se à deriva sem desejos,
O mar no meio,
Páginas sem teto,
Paisagem irrequieta sem folhagem.

Quantas páginas precisarei
Para escrever teu nome?
Basta um sopro do vento.
Eu sei!
A quietude do peito,
Teu nome...
Não há mais sílabas nem rumor.

Como tu queiras.
Não tenho membros,
Não tenho nada,
Apenas aquele amor,
Fixado pelo sopro do vento,
Na distância do mar.


Cremilde Vieira da Cruz


METAMORFOSE

Doem-me os braços se escrevo,
Doem-me os olhos se leio,
Dói-me a vida
De angústia envolvida,
Dói-me a alma,
Dói-me a boca.

Dou um ai,
Ninguém o ouve,
E quase me sinto louca.
Também o longe me dói.

Dói-me a monotonia do tempo,
Dói-me se me fala o vento.
Às vezes dói-me a presença.
Dói-me quando a noite cai,
Doem-me as horas que espero,
Dói-me tanto desespero.
Dói-me quando abro a porta,
Se a fecho também me dói.

Dói-me o peso do silêncio,
Dói-me tudo quanto penso,
Dói-me a mudez das paredes,
Dói-me o silêncio das pedras,
Dói-me tudo sem reservas,
Dói-me o nevoeiro denso,
A lonjura do horizonte imenso,
Dói-me o mar se grita às vezes,
Ou se me embrulha nas redes
De tudo quanto me dói.

Cremilde Vieira da Cruz




A porta de vidro - Crónica de Abilio Pacheco


A porta de vidro

Crónica de
Abilio Pacheco
 
Semana passada, fui ao chaveiro tirar cópias de umas chaves. O molho tinha três chaves. Segurei duas delas e disse que gostaria de uma cópia de cada. Era uma senhora. Ela recolheu das minhas mãos, sumiu e depois voltou segurando a que não era para copiar e disse: duas cópias, certo? Não, senhora – respondi – uma de cada das outras duas. Ela revirou o chaveiro e fez cara de quem entendeu mas não gostou.

Colocou uma das chaves num suporte. Depois tirou e disse: É de uma porta de vidro. Como não disse nada, ela insistiu: Não é de uma porta de vidro!? Eu lhe disse que não. Ela puxou um huuummmm prolongado. Meditou e quis saber de onde era a chave. Disse-lhe que era da porta do apartamento. De vidro? Não, senhora. De madeira. Aprumou matriz e chave lisa no esmeril, resmungou: porta de vidro. Enquanto tirava a cópia da outra chave, dizia: De vidro. É de uma porta de vidro.

Aparou arestas das duas chaves e voltou-se para mim segurando a chave como brandindo: Esta chave é de uma porta de vidro! Convenci-me que não adiantaria discutir. Em qualquer outra situação, eu iria insistir que estava certo, mas havia rodado mais de 170 km (Capanema-Belém), eram quase 16h e tinha alguma fome. Além do mais, não me parecia haver motivo para insistir. Resolvi não teimar. Conforme ela me estendia a chave, eu confirmava que era. Era de uma porta de vidro. Eu pegaria as chaves, pagaria pela cópia e iria para casa.

Ela puxou de uma vez: Afinal, o senhor não disse que a porta era de madeira!? A mulher me desmontou de vez. Não quisera teimar, mas tergiversar parece que não fora a melhor opção. Estiquei um ééééé… Ela inclinou o rosto para um lado como quem dissesse ‘tô te vendo!’. Respirei calmo e disse, procurando um caminho no meio daquela armadilha. Senhora, a chave (hum!!) é de uma porta de vidro (ãh), mas a minha porta é de madeira (ah!).

Ela parecia ter se desarmado e ia me entregando a chave quando recuou novamente e perguntou onde eu morava. Cruzando minha resposta ela emendou a pergunta se eu estava indo para lá. Naturalmente, sim. Essa sua história está estranha, viu moço! Eu vou lá com o senhor. E foi. No caminho, resmungou outros problemas de clientes como eu. Aquilo não era somente uma cópia de chave errada. Seria caso de polícia. A chave era de uma porta de vidro. Conhecia bem aquelas chaves, seus formatos…

Chegamos à porta e lhe mostrei a madeira. Pegou a chave, ela mesma. Enfiou na fechadura e girou. Olhou-me aborrecida. Cobrou-me pelas cópias e pela visita. Paguei sem reclamar. Ela pegou o dinheiro, fez um rolinho e levantou alto como fosse uma vareta e vibrou o braço bradando. A chave é de uma porta de vidro. E ainda de costas reclamou: de vidro!

Belém/Capanema, 07 de fevereiro de 2013.

Abilio Pacheco

Professor universitário, escritor de prosa e verso, revisor de textos e organizador de antologias. Mestre em Letras (UFPA) e doutorando em Literatura (THL-UNICAMP). Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará, Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça) e faz parte da AVSPE.




segunda-feira, 22 de junho de 2015

Chama devoradora - John Steinbeck - Resenha crítica de Daniel Teixeira


Chama devoradora

John Steinbeck

Resenha crítica de Daniel Teixeira

Com este título, Chama devoradora, aparentemente da autoria da tradutora da Livros do Brasil - Lisboa, Virgínia Motta, em data incerta dos anos 60's, baseado no volume de Steinbeck de 1950 «Burning Bright», relemos recentemente mais uma obra deste nobelizado (1963) autor.

O título em português não é dos mais felizes, na nossa opinião, havendo algumas alternativas possíveis que correspondessem melhor quer a um sentimento literário menos catastrófico quer à própria temática do livro, mas por ora fiquemo-nos por aqui.

Na verdade há todo um conjunto de especificidades neste volume que é preciso desde logo referir, na medida em que se não trata directamente de romance (embora o seja no seu conjunto) mas sim de um conjunto de novelas entrelaçadas que se constituem num trama romanceado.

Mas ninguém melhor que o autor para nos explicar porque escreveu desta forma e não de uma outra:

«Decidi-me por este tipo literário por várias e diferentes razões. A leitura de peças teatrais parece-me difícil e o mesmo pensa muita gente. As peças que se dão à estampa são lidas exclusivamente pelas pessoas que se encontram ligadas ao teatro, pelos estudante ou estudiosos da arte dramática e por um grupo relativamente reduzido de leitores a quem o teatro fascina.

Daí a primeira razão da forma literária que adoptei: o desejo de produzir uma peça capaz de atrair um número substancial de leitores, uma vez que o livro é apresentado como um romance vulgar, ou seja, dentro de um género mais familiar ao grande público» (...)»

Quanto à segunda razão apresentada pelo escritor no seu prefácio iremos resumi-la desta forma: trata-se de fornecer de forma mais acessível um conjunto de informação ao actor, ao director, ao produtor e ainda ao leitor, em diversos aspectos, alargando o leque informativo sobre as personagens, coisa que uma peça de teatro escrita ou declamada não faz desde logo, no entender do autor, permitindo por isso uma liberdade interpretativa ao encenador, aos actores e ao público que pode não corresponder àquela intensidade ou forma que inicialmente era pretendida pelo autor.

Steinbeck divide esta peça novela em quatro actos, cada um deles passado em cenários diferentes, com as mesmas personagens base e um argumento que se entrelaça nos momentos relevantes de cada um dos anteriores.

Assim, o primeiro acto passa-se num circo, o segundo acto numa quinta, o terceiro que se prolonga pelo quarto acto entre o mar (um barco atracado num porto) e um nascimento.

Quem conhece Steinbeck sabe que este autor deu uma importância relevante à relação de família e ao relacionamento familiar e tanto neste romance como noutros a transmissão de sangue ou da continuidade afectiva e memorial está de alguma forma sempre presente: lembra-mo-nos de «A um Deus desconhecido» por exemplo (que curiosamente teve pouco sucesso quando da sua publicação primeira em 1933) ou mesmo «Ratos e Homens» que é considerada a sua obra prima ou ainda «As vinhas da Ira» (1939) entre outros.

Neste romance/peça de teatro o tema basilar trata de um indivíduo que tem um verdadeiro problema sobre a necessidade de deixar descendência, o que se torna de alguma forma obsessivo. Compreender Steinbeck e o tempo em que escreve é também ter a tentação de referir o chavão que se acopla normalmente ainda hoje ao povo americano em geral que é a busca de uma identidade comum americana (USA).

Nascido este país (conjunto de estados) de um caldo (nem, sempre ou poucas vezes misturado) de nacionalidades e culturas é bastante comum encontrarem-se ainda hoje as referências identitárias originais (irlandês, italiano, judeu, latino, polaco, etc.) dos emigrantes que inicialmente povoaram a América, mantendo-se algumas comunidades com muito poucas variantes inter - culturais e relativamente pequena fusão social e familiar efectiva.

Contudo este problema relatado por Steinbeck pode inicialmente ser encarado no plano exclusivamente pessoal. Joe Saul é casado em segundas núpcias com Mordeen dado o falecimento da sua primeira esposa, tem um amigo denominado no romance de Amigo Ed, e um jovem auxiliar de nome Vítor.

Independentemente do cenário desenvolvido por Steinbeck as posições hierárquicas dos personagens mantêm-se. No circo Vítor é companheiro de trapézio do mais experiente Joe Saul, na quinta é trabalhador sob as ordens de Joe Saul e no barco é o imediato de Joe Saul e no quarto acto, interligado com o terceiro, está ausente por razões que esclareceremos mais à frente.

Mordeen ama Joe Saul cuja ânsia por ter descendência se vê constantemente frustrada e o atormenta cada vez mais porque sem o saber Joe Saul é estéril. Sabendo da esterilidade dele e desejosa de fazer cumprir o desejo do companheiro, logo no primeiro acto, em conversa com Amigo Ed, sugere levemente a possibilidade de engravidar através de uma relação secreta com o jovem Vítor que a ama sem ser correspondido por Mordeen, relação essa que vem a acontecer.

No primeiro acto ficamos com a dúvida sobre se a infidelidade de Mordeen a Joe Saul terá uma componente exclusivamente altruísta, uma vez que Mordeen também deseja ser mãe, não de uma forma tão obsessiva, mas o resultado acabará por ser o mesmo na medida em que o seu relacionamento com Joe Saul melhorará de forma significativa no seu entender cumprido que seja este seu desejo de deixar o «seu sangue» perdurar.

Nos outros actos trata-se sobretudo da gravidez e da luta de Vítor perante Mordeen para que ela assuma que o futuro filho é dele e dela, situação esta que está presente nos três actos.

No último o Amigo Ed acaba por «resolver» a insistência de Vítor jogando-o ao mar e causando a sua morte, ficando desta forma o crime sem castigo, tentando assim poupar tanto Joe Saul como Mordeen.

A parte final trata do nascimento do bebé, já sabendo na altura, através de análises que fez, Joe Saul, que é estéril e que logo o filho que nasce da barriga de Mordeen não é seu.

Joe Saul acaba por aceitar a inevitabilidade, depois de uma luta de recusa consigo mesmo, e após o nascimento do bebé acaba a peça / romanceada com o seguinte trecho:

(...) «Mordeen, gosto da criança - a voz de Joe Saul ganhou volume e foi em tom vigoroso que reforçou a sua declaração - Mordeen, gosto do nosso filho - e erguendo a cabeça, exclamou triunfante - Mordeen, gosto do meu filho.»

Depois do que dissemos acima sobre as intenções de John Steinbeck quanto à forma do seu escrito parece-nos claro que, apesar de estar bem escrito e ter um enredo suspensivo constante entre actos, com os elementos dramáticos, desconhecimento da realidade dos factos da parte de Joe Saul  e posterior conhecimento, insistência e incerteza quanto ao resultado da pressão do verdadeiro pai da criança, desfecho relativamente inesperado pela acção de Amigo Ed e a atitude final de Joe Saul que, dito tudo isto, como romance este vale mais como peça de teatro.

Na verdade pensamos que só na declamação e na actuação as personagens podem ganhar verdadeira força e intensidade dramática e que as coreografias poderão de facto ajudar bastante uma história que não sendo de todo banal, está quanto a nós longe de se constituir como sendo interessante por si só na sua forma escrita.

Daniel Teixeira


 

Luís Forjaz Trigueiros - Aquelas mãos - Por Daniel Teixeira


Luís Forjaz Trigueiros

Aquelas mãos

Por Daniel Teixeira

Conforme fizemos referência no número anterior existem no livro de contos «Ainda há Estrelas no Céu» de Luís Forjaz Trigueiros dois contos que mereceram uma maior atenção da crítica e dos tradutores fazendo desses dois contos aqueles que maior relevo merecem ainda que, e conforme dissemos igualmente quando da análise do conto «Boa noite, Pai!» existam neste pequeno volume algumas outras estórias que consideramos de igual interesse desenvolver, o que faremos noutras oportunidades. Este volume tem oito contos.

Embora e citando a contracapa do volume vejamos que na altura o autor foi referenciado como tendo afinidades narrativas com Maupassant e K. Mansfield e em termos de análise ou ambiência psicológica ele seja situado nesta introdução com Mauriac, certo nos parece ser que existe nele também influência do psicologismo russo e em análise mais detalhada talvez com Camus ou mesmo Gogol.

Na verdade as personagens deste autor são na sua larga parte elementos de uma pequena e média burguesia rotineira, que não vivem o seu tempo mas que antes o deixam passar por elas, desprovidas de objectivos substanciais, desligadas da alegria de viver, fazendo em certo sentido lembrar o Mersault de Camus no romance o Estrangeiro (não na Morte Feliz) ou mesmo na «Peste».

Por seu lado a falta de objectivos definidos na vida dos seus personagens principais fá-los viver num universo estreito: uma grande farra de aniversário é uma noite no Parque Mayer, por exemplo, a ver uma Revista... enfim, são personagens que se não encontram no tempo em que vivem (as notícias da guerra, neste conto que resumimos e procuramos analisar, de 1940, entram-lhe por um ouvido e saem-lhe pelo outro), é fundamentalmente uma desesperança de vida que neste conto encontra a sua alegria num facto sem importância que pode muito bem aceitar-se como a alegoria que é, mas que denuncia a pouca imaginação do personagem.

Bom narrador, Luís Forjaz Trigueiros, consegue uma narrativa inteligente e faz uma descrição tão detalhada quanto possível de um homem que pode considerar-se comum com ambições que vão um pouco além mas não passam do comum plano mental.

Farei algumas citações mais à frente mas noto antes que o autor procurou ele mesmo construir antecipadamente o ambiente que despoletaria o evento :na verdade por uma vez decide seguir um percurso diferente daquele que segue habitualmente de eléctrico e nele encontra duas mãos de uma jovem senhora que o cativam muito para além daquilo que seria normal.

Ora e retrocedendo um pouco na nossa análise não vemos porque razão ele não encontraria umas mãos que o cativassem numa das suas habituais viegens de casa para o emprego e deste para casa e porque as encontrou naquele dia e não num outro.

Claro que temos um alerta logo no início do conto onde ele repete para si mesmo aquilo que a sua mulher lhe diz ao que parece com alguma frequência : «Tu não me enganes! (...) Não arranjes outra.» o que pode funcionar nele como um desejo de ser tão normal quanto os outros seus colegas e amigos, mas não nos parece que o argumento tenha assim tanta força.

Na verdade «Aquelas mãos» apesar de poder considerar-se ser um conto bem escrito está fracamente alicerçado e menos alicerçado fica quando essa sua paixão por aquelas mãos em concreto se distribue na sua imaginação por várias mãos femininas. Contudo as mãos da sua mulher nunca são referidas nem positiva nem negativamente.

O problema maior que esta questão levanta é o seu convencimento de que comete infidelidade, convencimento esse que o leva a um alheamento familiar que depressa contagia os receios sempre infundados da mulher. Assim os condimentos da infidelidade conjugal reúnem-se entre os dois havendo da parte da sua mulher uma atitude de aceitação dos factos que não existem.

(...)« Foi nessa altura que comecei a olhar melhor para a rapariga que ia sentada mesmo defronte de mim. A falar a verdade, ela não tinha nada de extraordinário. Era bonita? Não me recordo bem. Creio, porém, que tinha uns olhos de tal maneira vagos que nem se cruzaram com os meus.Além disso, vestia sem espalhafato. Sem espalhafato e, com certeza, sem água de colónia absorvente da senhora do lado. Pintadinha, sim, mas com recato, sem exageros. Também não me lembro do vestido. Só me lembro- e isso muito bem - que tinha uma carteira castanha e que a segurava, com as maõs rosadas, sobre os joelhos. Mas eu olhei para as mãos da rapariga e não fui capaz de olhar para mais nada!»(...)

(...)«Até ao dia em que meti naquele eléctrico eu tinha uma cortina corrida entre mim e a vida. Tudo quanto eu via era visto apenas por detrás dessa cortina e, logo, correspondia a uma realidade incompleta.»(...)

(...)«Do meu lugar, (...) acompanhava fixamente com os olhos a vida das suas mãos. Já não eram indiferentes. Assim como eu tinha cordado para um mistério, elas tinham entrado também nesse mistério. E riam para mim, riam evidentemente, já sem conseguirem estar à vontade, persegidas pela consciência de que estavam a falar comigo uma linguagem própria, que os meus olhos talvez não vissem, mas escutavam.»(...)

(...)«Desta maneira, à medida que fitava as mãos da minha companheira de eléctrico, sem quer desviar delas esse olhar, instintivamente me lembrava da minha mulher e quase a ouvia numa reprimenda discreta e apagada como todos os seus gestos: "Firmino, não olhes para ela..." Ouvia-a falar-me assim, mas continuava a olhar. Afinal, pela primeira vez, estava a ser infiel à Lucília, infiel com frieza, conscientemente.E não tiva remorsos.»(...)

(...) « Mas assim que me levantei do meu lugar (...) chegara ao final do meu percurso (...) aquelas mãos recuperaram a sua tranquilidade, voltaram a cumprir o seu destino de existirem apenas. (...) As mãos daquel desconhecida, que eu não tornaria a ver, voltaram, de súbito, a ser silenciosas para mim.»(...)

O resto da estória já foi referida em grosso acima. Podemos sempre pensar e acreditar que se trata de ficção, claro que é, mas mesmo pela sua insignificãncia o episódio pretende descrever a eclosão de um sentimento até aí recalcado (e que continua recalcado) mas onde tudo funciona como a grande catarse desejada.

Chamamos no entanto a atenção para a imagem da cortina corrida (sobre uma vida) e o correr dessa cortina (sobre uma outra perspectiva de vida) e dizer, ironicamente, que cada um corre as cortinas que tem e as que pode ter. 


 

 

Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)

Um bombeiro à civil ia passeando

Um bombeiro à civil ia passeando, quando repara que do outro lado da rua, está um menino vestido de bombeiro, sentado em cima de um carrinho de bombeiros, puxado por um Cão e um Gato.
Só que enquanto o Cão tem a coleira ao pescoço, o Gato tem a coleira à volta dos testículos.

Intrigado com tal situação, aproximou-se da criança e começou a falar :

- Olá. Como te chamas?
- João.
- Olá João. Pelos vistos queres ser bombeiro?
- Pois quero.
- Sabes eu também sou bombeiro, só que não estou fardado. Foste tu que fizeste a roupa e o carrinho?
- Fui.

- Está muito bem feito. E como não tens motor, puseste o Cão e o Gato a puxar-te. Muito engenhoso sim senhor. Mas olha, se apertares a coleira do Gato no mesmo sitio onde apertaste a do Cão, vais muito mais depressa.

- Pois é, mas assim não tinha sirene.


Saía o advogado do escritório

Saía o advogado do escritório, no seu carro, quando encontrou a sua secretária, à chuva, na paragem do autocarro. Ele parou e perguntou:
– Quer uma boleia?
– Claro… – respondeu ela, entrando no carro.

Ao chegarem ao edifício onde ela mora, ele parou o carro e ela convidou-o para entrar.
– Não quer tomar um cafezinho, um whisky, ou outra coisa?
– Não, obrigado, tenho que ir para casa…
– Vá lá, o doutor foi tão gentil comigo. Suba um pouquinho…

Ele aceitou e subiu.
No apartamento, ele tomava o seu whisky quando ela foi ao quarto e voltou, em roupa interior e muito sensual.
Quem poderia aguentar? Ele não. Algumas horas de sexo depois, ele acabou por adormecer.

Por volta das 4 da madrugada, ele acordou e olhou para o relógio. Grande susto!..Pensou um pouco e disse:
– Empreste-me um pedaço de giz….
Colocou esse pedaço de giz atrás da orelha e foi para casa. Ao chegar, a mulher estava louca de raiva e ele começou a contar:

– Quando saí do trabalho dei boleia à minha secretária.
Depois de chegar a casa dela, ofereceu-me um whisky. Em seguida, foi para o quarto. Voltou para a sala com uma lingerie lindíssima e após vários copos acabámos na cama e fizemos amor. Adormeci e acordei agora há pouco…

A mulher gritou-lhe:
– Seu mentiroso! Desavergonhado! Estiveste no bar a jogar “snooker” com os teus amigos! Nem sabes mentir! Até esqueceste o giz aí atrás da orelha!!…


A professora do 6º ano

A professora do 6º ano perguntou para a sua turma:
- Qual é a parte do corpo humano que aumenta quase dez vezes seu tamanho quando é estimulada?

Ninguém respondeu, até que Natasha levantou-se furiosa e disse:
- Não devia fazer uma pergunta dessas para crianças do 6º ano! Pois eu vou contar aos meus pais e eles vão falar com o director e, este vai demiti-la, com base no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)!! E ainda vai chamar o Conselho Tutelar para te prender.

Para o espanto da Natasha, a professora não apenas a ignorou como fez a pergunta novamente:
- Qual é a parte do corpo que aumenta em dez vezes o seu tamanho quando é estimulada? Alguém sabe?

Finalmente, Rodrigo levantou-se, olhou em redor, e disse:
- A parte do corpo que aumenta dez vezes o seu tamanho quando é estimulada é a pupila.
A professora:
- Muito bem, Rodrigo!!!

Então, voltou-se para a Natasha e continuou:
- E quanto a si, “menina”, tenho três coisas para lhe dizer:
A primeira: é que tem uma mente muito suja para a sua idade.
A segunda: não leu a sua lição de casa: “Os sentidos”…
E a terceira: DEZ VEZES ??? (hahahahahaha)…Um dia a menina vai ficar muito, mas muuuuitooooooo decepcionada, sabia?


O dono de um circo colocou um anúncio

O dono de um circo colocou um anúncio procurando um domador de leão. Apareceram 2 pessoas: um senhor de boa aparência, aposentado, beirando 80 anos, e uma loura espetacular de 25 anos. O dono do circo fala com os 2 candidatos e diz:
- Eu vou directo ao assunto. O meu leão é extremamente feroz e matou os meus dois últimos domadores.
Ou vocês são realmente bons, ou não vão durar 1 minuto! Aqui está o
equipamento - banquinho, chicote e pistola. Quem quer entrar primeiro?

Diz a loura:
- Vou eu!
Ela ignora o banquinho, o chicote e a pistola e entra rapidamente na jaula. O leão ruge e começa a correr na direcção da loura. Quando falta um metro para ser alcançada, a loura abre o vestido e fica toda nua, mostrando todo o esplendor do seu corpo.

O leão pára como se tivesse sido fulminado por um raio! Ele deita-se na frente da loura e começa a lamber-lhe os pés! Pouco a pouco, vai subindo e lambe o corpo inteiro da loura durante longos minutos! O dono do circo, com o queixo caído até ao chão diz:
- Eu nunca vi nada assim na minha vida!

Vira-se para o velhinho e pergunta:
- Você consegue fazer a mesma coisa?
E o velhinho responde:
- Claro! É só tirar de lá o leão...


OPSSSSSSSsss

À porta do céu, um tipo furioso protestava perante o S. Pedro.
– Meu bom santo, o que fiz eu para estar aqui? Tenho 35 anos, estou em plena forma física, não bebo, não fumo, faço uma vida de acordo com as regras dos bons costumes, e agora estou aqui! Certamente houve um engano!

O S.Pedro responde:
– Bom, não é usual nós cometermos erros, mas enfim, vou verificar! Como te chamas?
– Vicente, João Diogo.
– Sim… Profissão?
– Mecânico!

– Ok, cá está a tua ficha. João Diogo Vicente, Mecânico! Tu morreste de velhice!

– De velhice ?! Mas não é possível, eu tenho somente 35 anos…

– Isso eu não sei, mas fazendo as contas a todas as horas de mão-de-obra que facturaste aos clientes, isso perfaz 123 anos!


Num voo internacional

Num voo internacional, como é habitual, o comandante do avião liga o microfone e fala aos passageiros:
- "Bom dia, senhores passageiros, neste exato momento estão a 9 mil metros de altitude, velocidade cruzeiro de 860 Km/hora e estamos a sobrevoar a cidade de...AAAAAAAHHHH.VALHA-ME DEUS."

Os passageiros ouvem um barulho infernal, seguido de um grito pavoroso:
- "NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOO!"
Depois de um silêncio sepulcral, volta a ligar o microfone e, timidamente, diz:

- "Peço imensa desculpa, mas esbarrei na bandeja e uma chávena de café caiu-me no colo. Imaginem lá como é que ficaram as minhas calças à frente!

"Prontamente, um dos passageiros gritou:

- "Filho da p…! Imagina lá como é que ficaram as minhas calças atrás!"


A entrevista da loira

Uma "loira"se candidata ao cargo de auxiliar de delegado:
O delegado pergunta na entrevista:
- Quanto é 1+1?
Onze, diz a loira.

E o delegado segue a entrevista...
- Quais são os 2 meses que começam com M?
Mês que vem e mês passado.
Irritado com o raciocínio da loira , o delegado lança um desafio:
- Quem matou Jhon Lennon ?
E a loira:
- Não sei!

Bom, vá pra casa e tente descobrir! - Diz o delegado.
Chegando em casa, a mãe da loira pergunta:
- Como foi lá na delegacia, minha filha?
A loira responde:

- A entrevista foi otima! Primeiro dia de trabalho e já estou investigando um homicídio!


Quinhentos euros mais o hotel...

Num restaurante, um homem janta só. Na mesa ao lado, uma jovem está também sozinha. A dado momento, ele levanta-se, inclina-se para ela e pede-lhe delicadamente:
- Dá-me licença que leve a mostarda?

- É lamentável o que me está a propor! - Grita a jovem. - O senhor não tem vergonha?
Todo o restaurante se vira para eles. O homem, vermelho como um tomate, balbucia:
- A senhora compreendeu mal. Eu apenas lhe pedi a mostarda...

- Nunca ouvi uma coisa como esta! O senhor é um ordinário!
O homem volta para o lugar, observado severamente por toda a gente. A mulher paga a sua despesa, vai à mesa dele e diz em voz baixa:

- O senhor desculpe a minha atitude. Tenho de lhe dar explicações. Sou socióloga e estou a preparar uma tese sobre as reações dos homens perante uma situação embaraçosa na presença de público. Eu fiz este teste e espero que não fique a pensar mal...

É a altura de o homem gritar:

- O quê? Quinhentos euros mais o hotel?! Você não vale tanto!


Um rapaz de visita a Paris

Um rapaz de visita a Paris comprou umas luvas para a namorada, mas a empregada enganou-se e ao embrulhá-las colocou lá umas cuecas.
A família da rapariga, ainda virgem, era muito conservadora! Imaginem a abertura da embalagem e a leitura da carta que o rapaz enviou...

"Querida, Sabendo que dia 14 é o dia dos namorados, resolvi mandar-te este presentinho.

Embora eu saiba que não costumas usar (pelo menos eu
nunca te vi com umas), acho que vais gostar da cor e do modelo, pois a empregada da loja experimentou, e pelo que vi, ficou óptima.

Apesar de um pouco largas na frente, ela disse que é melhor assim do que muito apertadas, pois a mão entra melhor e os dedos podem movimentar-se bem à vontade.

Depois de usá-las é bom virar do avesso e colocar um pouco de talco para evitar aquele odor desagradável.

Espero que gostes, pois vai cobrir aquilo que um dia te irei pedir, além de proteger o local em que colocarei aquilo que tanto sonhas.
Um beijo (no lugar onde irás usá-las).

PS: Não esperes pelo meu regresso para estreá-las. Quero que todos os meus amigos te vejam com elas. E depois esfrega na cara daquelas tuas amigas invejosas, pois eu nunca vi nenhuma delas com umas!




Poesia de Arlete Piedade Louro - ALDEIA DA SAUDADE


Poesia de Arlete Piedade Louro

ALDEIA DA SAUDADE

Na aldeia da saudade

Os dias são sempre iguais

As noites de nostalgia

As horas passam devagar

A Lua quando se levanta

Triste acena para as estrelas

As almas dos que partiram

Vagueiam entre as oliveiras

Os perfumes da primavera

Esses são sempre iguais

Incendeiam meus sentidos

Acendem mais a saudade

Da tua imagem querida

Perdida entre os pinhais

Revejo teu sorriso terno

Teu cabelo rebelde e sedoso

O encanto e brilho do teu olhar

Cheio de meiguice doce e furtivo

Mirando-me do outro lado da rua!

Aguardo ainda a chegada do carteiro

Portador de mais uma cartinha…

Mas como passou assim o tempo

Sem eu me dar conta dele?

E agora só a saudade habita

Entre as velhas casas desertas

Pelos campos incultos e solitários

Pelos caminhos desertos e áridos

Queimados pelo sol inclemente

Na aldeia da saudade, tudo se desfaz

Nada resta de outrora

Só mesmo os velhos a morrer

As mulheres tristes e desiludidas

E a saudade sempre presente!


Arlete Piedade Louro




sábado, 6 de junho de 2015

Jornal Raizonline Nº 270 de 7 de Junho de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - O efeito borboleta


Jornal Raizonline Nº 270 de 7 de Junho de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - O efeito borboleta


Daniel Teixeira

 
O efeito borboleta, por aquilo que sei, faz parte das teorias do caos, coisas para as quais nunca pendi muito em termos de pesquisa, embora tenha tropeçado em derivadas ou copiadas, várias vezes.

Por princípio o efeito borboleta é composto de uma série de eventos conjugados ou seguidos cronologicamente, intervindo num dado campo ou para um dado campo, levando à progressão aritmética e/ou geométrica do seu desenvolvimento com vista ou convergindo para um dado efeito.

Aqui há anos achei bastante piada (semi trágica, aliás) quando um responsável por uma Divisão de Obras Públicas do Estado, disse que a causa da queda de uma passadeira elevada sobre uma estrada, queda essa da qual resultaram alguns feridos e alguns carros esmagados, que essa tal de causa tinha sido uma borboleta que tinha batido as asas algures na Asia.

Isto é visto com sentido de gozo, porque pior que andar metido a debitar teorias é pensar-se que se as conhece. Pelos vistos o tal de engenheiro arranjou o argumento que só não foi mais gozado porque se tratava de uma questão séria, com gente ferida e bastantes danos materiais.

Pois, a surpresa veio depois : não é que foi feita inspecção, género necrópsia, à dita passadeira arruinada e não se chegou a qualquer conclusão sobre a causa do evento?

Enfim, não vamos aceitar agora a história da borboleta mas vamos dizer que talvez (maybe) as causas da queda da ponte apenas pudessem ser vistas antes dela cair, o que pode parecer absurdo, mas ao fim e ao cabo vai de encontro àquilo que se pretenderia, ou seja, evitar a sua queda. Por outras palavras aqui a própria queda da passadeira «apagou» as causas que originaram essa queda.

Simples...não há nada de sobrenatural aqui nem de borboletas de asear inoportuno.  As coisas, quando vistas numa perspectiva ou numa dada situação podem apresentar, e apresentam pelo menos parcelarmente, resultados diferentes.

Pois bem, eu já tinha quase jurado a mim mesmo que não falava mais na crise financeira mas não posso deixar de dizer que o que disse acima se aplica inteiramente às leituras que se fazem agora dos resultados dos inquéritos e dos julgamentos mais em voga sobre corrupção, fraude, lavagem de dinheiro, etc.

Na verdade, nestes campos atrás referidos, ainda não assisti a um único resultado de um inquérito que apontasse as causas ou as culpas de quem quer que seja sobre factos considerados pelo menos reprováveis.

A minha ideia é simples: tratando-se de dinheiro, seria lógico que uma contabilidade, ainda que ficcionada por normas unificadoras, desse para fazer o percurso inverso para se detectar o ponto crítico onde as coisas começaram a descambar, ou seja, onde a borboleta começou a bater as asas.

Mas não, em quase todos os casos - não quero generalizar - os factos reprovados ao serem realizados (quando o foram) não deixam traços que permitam a sua reconstrução para efeitos penais, pelo que, muito a contragosto, acabo por ter de acreditar na borboleta.




sexta-feira, 5 de junho de 2015

Poesia de José Manuel Veríssimo


Poesia de José Manuel Veríssimo



 Fumos

 Viver em silêncio
 Alguns gestos
 Sopros de claridade
 De esperança
 Entre nuvens carregadas
 Consenso
 De olhares
 Serenos
 Fraternos
 Brisas
Ou fortes ventos
 De lés - a - lés
 Luares
 Enrolam e desenrolam
 Seres
 Corpos……….
Momentos
 Acesos
 Nos encontros
 Entre vagas
 Rochedos
 E o fumo das marés

 Seixal 18.07.2009



Mar dos Sargaços

 Importa descobrir o espaço
 A espera do tempo marcado
 Lágrimas de ampulheta
 Caídas
Sonoras
 Em compasso

 Vento que empurra
 Asas de gaivota
 Rumo ao Mar dos Sargaços
 Reproduzir vida
 Cardumes de espécies
 Em invasão desmedida
 No oceano imenso
 Simples traços
 A exactidão dos momentos
 Naturalmente exactos
 Natureza – medida
 Neste Mar de Sargaços

 Seixal, 18.07.2009



 Não me Basta - ou sobre um passeio tardio por Lisboa á noite

 Não.
 Não me basta olhar
 Tocar ao de leve
 Nos teus cabelos
 Soltos
 Rebeldes
 Macios.

 Despentear-te
 Provocar-te
 Esse pestanejar
 Medroso
 Esquivo…………

Quero enfrentar
 O teu corpo
 E os teus gestos de surpresa
 Sem rostos lívidos
 Incluir-me em ti
 Sem certezas
 Rodopiarmos
 E cansar-me
 Mais do que meia dúzia de vezes

 Olhar de novo para mim
 E para o refúgio
 Em que me escondi
 Poder gritar-te
 Em silêncio
 Amo-te assim

 Seixal, 18.07.2009

José Manuel Veríssimo




«O ESPECTRO DA IDEOLOGIA» DE SLAVOJ ZIZEK - Por Arlete Deretti Fernandes


«O ESPECTRO DA IDEOLOGIA» DE SLAVOJ ZIZEK

Por Arlete Deretti Fernandes


 Slajov Zizek, filósofo e crítico esloveno, em seu artigo «O Espectro da Ideologia», do livro «Um Mapa da Ideologia», organizado por ele e publicado em 1994, faz uma importante análise do conceito de ideologia, desde o pensamento de Marx, (1818-1883) e das reelaborações que este tema recebeu até hoje, na sua avaliação e reconstrução feita pelos intelectuais que refletem sobre estes assuntos.

Em sua tese, o autor cita:

Até uma ou duas décadas atrás, o sistema produção -natureza (a relação produtiva exploratória do homem com a natureza e com seus recursos) era percebido como uma constante, enquanto todos tratavam de imaginar diferentes formas de organização social da produção e do comércio, (o fascismo ou o comunismo como alternativas ao capitalismo liberal), e que hoje, como assinalou Fredric Jameson com muita perspicácia ninguém mais considera seriamente as possíveis alternativas ao capitalismo, enquanto a imaginação popular é assombrada pelas visões do futuro «colapso da natureza», da eliminação de toda a vida sobre a Terra.. (ZIZEK, 1994,p. 7)

Para Zizek, todos imaginam como verdadeiro que o capitalismo liberal seja o «real», que irá sobreviver a qualquer catástrofe.

O autor se move neste meio multifacetado, composto de inúmeras interpretações, buscando esclarecer o sentido do termo «ideologia», em suas diversas manifestações, para dar-lhe uma significação possível ainda de ser pensada na era pós-moderna e do capitalismo tardio.

Ele exemplifica com a dialética do «velho» e do «novo», das rupturas radicais, dos críticos do Marxismo que «apreendem a sociedade capitalista avançada como uma nova formação social não mais dominada pela dinâmica do capitalismo tal como descrita por Marx».

Ao citar muitos rompimentos de estruturas, refere-se a um exemplo no campo da sexualidade, ao sexo virtual como uma ruptura radical com o passado, pois para Lacan o ato sexual «real???»é intrinsecamente fantasmático, o sexo virtual seria então uma estrutura fantasmática subjacente.

A nação, por exemplo, é composta por uma ideologia e por uma realidade, é formada por homens, com suas idéias e interesses, com suas necessidades vitais e suas lutas. Por este motivo, ela é um fenômeno social complicado, e é um espaço de intensa ideologização.

«Um caso exemplar da (des)apreensão inversa é fornecida pela reação dos intelectuais liberais do Ocidente ao surgimento de novas nações oriundas da desintegração do socialismo real no Leste europeu: eles (des)apreenderam esse surgimento como um retorno à tradição oitocentista do Estado nacional, quando aquilo com que estamos lidando é exatamente o inverso – o fenecimento do Estado nacional tradicional, baseado na idéia do cidadão abstrato, identificado com a ordem jurídica constitucional».[...] «O antigo espectro do Leviatã, parasitando o Lebenswelt (mundo da vida) da sociedade, totalizando-a de cima para baixo, é cada vez mais desgastado por duas vertentes. De um lado, existem as novas comunidades étnicas emergentes; embora algumas sejam formalmente constituídas como Estados soberanos, elas já não são propriamente Estados, no sentido europeu da era moderna, uma vez que não cortaram o cordão umbilical entre o Estado e a comunidade étnica. (Paradigmático, nesse aspecto, é o caso da Rússia, onde as máfias locais já funcionam como uma espécie de estrutura paralela de poder.) Por outro lado, existem os múltiplos vínculos transnacionais, desde o capital multinacional até os cartéis da máfia e as comunidades políticas interestatais(a União Européia)».( ZIZEK 1994, p. 8.)

Em meio aos conflitos das Nações, perante um sistema que seja de hegemonia mundial como ideologia e poder, está o pensamento que «a ideologia é o oposto diametral da internalização da contingência externa, residindo na externalização do resultado de uma necessidade interna»( ZIZEK, 1994, p10).

Esta ideologia como externalização resultante de uma necessidade interna, é exemplificada por Zizek pelo modo distinto como a mídia ocidental tratou a guerra da Bósnia e a guerra contra o Iraque, dois fatos da história contemporânea, mesmo sendo diferentes no espaço e no tempo, mas ligados às raizes de uma história passada com suas realidades no presente, mas tratados ideologicamente de maneiras distintas, em função das necessidades internas da potência ou das potências dominantes.


 
Em vez de dar informações sobre as tendências e antagonismos sociais, políticos e religiosos do Iraque, a mídia acabou reduzindo o conflito a uma briga com Saddam Hussein, a personificação do mal, o fora-da-lei que se excluira da comunidade internacional civilizada.

Mais do que a destruição das forças militares do Iraque, o verdadeiro objetivo foi apresentado como sendo psicológico, como a humilhação de Saddam, que tinha que «perder a pose».

Em se tratando da guerra da Bósnia, porém, apesar de alguns casos isolados de demonização do presidente sérvio, Milosevic, a atitude predominante reflete a de um observador quase antropológico. Os meios de comunicação superam uns aos outros no esforço de nos dar aulas sobre os antecedentes étnicos e religiosos do conflito; traumas de mais de cem anos são encenados e reencenados, a tal ponto que para compreender as raizes do conflito, tem-se que conhecer não apenas a história da Jugoslávia, mas também toda a história dos Balcãs, desde os tempos medievais (...)

Na guerra da Bósnia, portanto, não se pode simplesmente tomar um partido, mas apenas tentar apreender os antecedentes daquele espetáculo selvagem, alheio a nosso sistema de valores civilizado. (...) Esse processo inverso implica uma mistificação ideológica ainda mais ardilosa do que a demonização de Saddam Hussein. (ZIZEK, apud RENATA SALECL 1994,p.10).

Para Zizek a ideologia como uma externalização (e não uma internalização do externo, como costuma acontecer com a ideologização da percepção) que resulta de uma necessidade interna, acaba servindo ao engendro de informações por aqueles que manipulam interesses internacionais.

Há nos dias de hoje uma ideologia do internacionalismo econômico e uma ideologia na história das Nações.

Zizek, à p. 10 faz questionamentos sobre a mistificação ideológica e uma crítica ao Ocidente pela forma como se coloca diante dos conflitos nos Bálcãs, como um silencioso apoio à purificação étnica.:

«Em que consiste, exatamente, essa mistificação ideológica? Dito de maneira um tanto crua, a evocação da «complexidade da situação» serve para nos livrar da responsabilidade de agir. A cômoda atitude do observador distante e a evocação do contexto supostamente intricado das lutas religiosas e étnicas dos países balcânicos servem para permitir ao Ocidente livrar-se de sua responsabilidade para com os Balcãs – ou seja, para evitar a dura verdade de que, longe de expor um excêntrico conflito étnico, a guerra da Bósnia resulta diretamente da incapacidade do Ocidente de apreender a dinâmica política da desintegração da Iugoslávia, e do silencioso apoio ocidental à purificação étnica».

O que se constata neste ensaio de Zizek é que o conceito de ideologia está caracterizado pelo paradoxo, é um tipo de visão comprometida com a realidade social, com sua transformação ou com a distorção desta realidade.

Zizek, em sua análise do conceito de ideologia, (re)visita o pensamento de Marx, Althusser, Foucault, Adorno, Freud, Lacan, Derrida, Lefort e outros, preparando uma possível direção onde este conceito possa vir a contribuir para a (. re)apreensão da realidade social contraditória vigente nos dias atuais.

Uma visão que mais se aproxima desta meta é a contribuição psicanalítica de Lacan que se distancia da dicotomia realidade verdadeira versus realidade falsa. A realidade é sempre mediada pelo símbolo, ela é uma construção simbólica, dissimulando a pretensão da (re)apreensão do real em si..

O Espectro da Ideologia é uma reconstrução válida e inquietante sobre um conceito jogado fora pelos intelectuais burgueses, mas que se constitui, na verdade, num instrumento valioso para a compreensão das tensões, dos paradoxos, dos antagonismos, das crises, das contradições que permeiam a realidade social nesta época conturbada por problemas ecológicos, sociais, étnicos, econômicos, políticos.

Como aluna do curso de Letras, considero que o autor em sua exaustiva e articulada análise do conceito de ideologia deixou uma lacuna ao não abordar a lógica da ficção enquanto ato criativo ou criação literária, o que se torna compreensível por ser por demais complexo (des)entranhar o viés ideológico na memória, na imaginação e na fonte revolucionária da criação literária, da construção discursiva de um romance.

Outra questão importante é que as ideologias são sempre produzidas em condições propícias e objetivas, por homens e por mulheres que vivenciam situações concretas.

Nestes tempos elas estão vivas, latentes ou manifestas, mas fazendo parte das forças conflitantes do corpo social.

Enfim, Zizek traz para a pos-modernidade, caracterizada hoje pelo Capitalismo tardio, a coragem e a audácia de colocar em novos termos o que é a ideologia.

Porém, este discurso tem o seu revés, é a aparição fantasmática que retorna, é a astúcia da razão, que ao reconstruir também se desconstrói, se desmonta.




 

Sexo - crônica de costumes, na música sertaneja...Por: Se Gyn


Sexo - crônica de costumes, na música sertaneja...

 
 Por: Se Gyn

A música sertaneja, ao contrário da música nordestina, por exemplo, nunca recebeu um tratamento adequado, criterioso e, desarmado da crítica musical, formada majoritariamente por gente que ouve MPB e, música estrangeira. A má vontade, começa na tentativa de separação entre a música do passado e, das décadas mais recentes, criando dois rótulos diferentes: música caipira, para a primeira e, música sertaneja, para a segunda.

No primeiro caso, o rótulo pode ser perfeitamente associado às imagens pintadas por Almeida Jr, onde o crítico enxerga o mundo do campo idílico de gente muito assemelhada ao Jeca Tatú, de Monteiro Lobato.

No segundo caso, uma música cheia de influências estrógenas, das raízes corrompidas, feita para o mercado, feita para o grande consumo - quando não está longe da verdade, pois o que era outrora o homem do campo, agora está morando nas periferias das grandes cidades, o que não significa que rompeu inteiramente com suas raízes. Nem uma coisa nem outra, mas o tema do meu texto não é este.

Quero demonstrar rapidamente aqui, as possibilidades que podem decorrer de uma boa pesquisa desarmada, sobre o acervo gravado de música sertaneja, desde os seus primórdios. Peguemos os costumes e práticas sexuais, como exemplo. Para os cultuadores da idéia de que a verdadeira música do homem do campo é a tal da «música caipira», esse assunto parece provocação, mas vamos lá.

Lá pelos anos cinqüenta - época em que ainda estava cristalizado o machismo e as músicas falavam de relações sexuais ditas normais, Raul Torres fez com pacífico uma música que se transformou num clássico, Cavalo Zaino. A letra é bucólica e, fala da paixão de um homem do meio rural por um cavalo de primeira linha. Mas, no meio da letra, há um verso misterioso, que diz: «...O macho que eu quero bem!». Isso passou desapercebido e, foi tomado de uma forma simbólica, pelos ouvintes de música sertaneja, fixados majoritariamente na zona rural.

No começo dos anos 70, quando os músicos da MPB exploravam a imagem andrógina e letras com vagas sugestões de experiências sexuais alternativas e, começava um impressionante êxodo da população do campo para as cidades, Tião Carreiro e Pardinho - em cujo repertório surgiram as primeiras manifestações sobre preconceito e diferenças raciais no Brasil, gravaram uma música em que um personagem oculto e, moribundo (situação diante da qual, seriam permitidas a ele certas liberdades ou arroubos) narra sua espantosa paixão por duas mulheres, dizendo exatamente o seguinte: «Oh, meu Deus, que mãe bonita/ oh, meu Deus que filha linda/ mulheres iguais a elas/ no mundo não vi ainda»... e, a certa altura, vão mais além, «Se eu me casasse com as duas/ oh, meu Deus, que maravilha/ Vivia num mar de rosas/ nos braços de mãe e filha!»

Já nos anos 80, enquanto no mundo do Rock nacional e da MPB já se fala direta ou indiretamente de relações homossexuais, Chitãozinho e Chororó gravaram uma música que, à parte a melodia modorrenta, fala da surpresa daquele que foi o homem do campo com a rápida mudança dos costumes e práticas sexuais, em «Amor a Três». O estribilho da canção começa meio indeciso: «Não querida, não!/ amor a três/ assim não consigo/ já estou sabendo/ que pensa em outro, estando comigo/ uma mulher e dois homens - é impossível/ adeus, querida...» mas, arremata com firmeza: «...eu vou partir nesta hora fique com ele agora/ viver em três não é vida!».

Dias atrás, ouvi uma música em que Daniel canta, de passagem, sobre gostos sexuais diferentes (se me recordo bem, tem uma parte assim: «...Se você gosta de homem e/ eu gosto de mulher - o que é que tem? O que é que tem?» ), mas, não vale muito a pena escrever sobre ela, porque, convenhamos, depois do atrevimento de Tião Carreiro e Pardinho, que invocaram o amor concomitante de mãe e filha - que envolve o crime da bigamia e, o conseqüente tabu do incesto, isto sob a invocação complacente de Deus, não há muito mais o que falar, há?

O goiano Odair José, com a sua «Pare de tomar a pílula» não passou nem perto em termos de provocação. Os sertanejos escaparam da censura, é claro, justamente por causa daquela visão preconceituosa do censor, o tipo urbano que, igual aos outros, achavam que música sertaneja era coisa de gente atrasada. Algo assim: «- o que podem fazer de mal esses capiaus, que vivem por aí, picando fumo e cantando musiquinha que fala de roça?»...

Se Gyn




quinta-feira, 4 de junho de 2015

Poesia de Maria Álvaro


Poesia de Maria Álvaro


O MAR...

Veleiro ligeiro beija embevecido,
excitado,
de Tétis o seio cheio, acobreado
e cúpido;

E o Adamastor ora adormecido,
prostrado,
esquece seu furor e vira pr'o lado,
estendido.

Nas ondas eu sigo o seu lençol dourado
e persigo
estrelinhas piscando p'ra mim, deslumbrado,
rendido...

...são olhos espreitando por um véu rendilhado
e antigo
de ninfas pintando e bordando comigo
o meu fado...

Maria Álvaro


BURACO NO PEITO

No buraco bem fundo do meu peito
Aquele vácuo sôfrego de ti...
Um estremecer de todo este meu jeito
Que, da nuca ao ventre...leve...senti...

Uma maré que persegue o luar
Escorre subtil neste leito dolente...
E uma lânguida onda do mar
'Spuma queixume da rocha ausente...

Face risonha de um amor-perfeito...
Trêmula, tensa, querendo te amar
Exala suspiro fugaz... urgente,
Frêmito ansioso como eu nunca vi...
No buraco bem fundo do meu peito...

Lampejam dois pólos desta corrente...
Chamas e fogos que em ti acendi
Inflamam meus céus em noite estrelar...
No buraco bem fundo do meu peito
Aquele vácuo sôfrego de ti...

Maria Álvaro


As amendoeiras...

O sorriso mais subtil e breve da Natureza algarvia é o das amendoeiras em flor...

Não é o mar, nem as praias, nem a luminosidade, nem o sol, nem o céu azul.... Esses gargalham de alegria com toda a efusão!...

As amendoeiras são o sorriso de Gioconda desse Algarve das minhas lonjuras...

Lançam-me um olhar pueril e enigmático e um sorriso distante, imperceptível de quem sabe que tudo tem um fim...

Maria Álvaro




Poesia de Jorge Vicente


Poesia de Jorge Vicente

POEMA

procura e encontrarás
o signo do mar nas
vertigens agrestes
de uma carícia. só
os marinheiros amantes
são dignos do vento.

jorge vicente


os cães ladram em são marcos,
sentem o chocalhar da chuva na terra seca.
amanhã, cairá a tempestade sobre a
aldeia. já não existem aldeias completamente
habitadas nem completamente desertas.
o céu é a própria habitação das casas,
as nuvens o silêncio demorado
das mulheres que olham o infinito.

no campo de futebol, jogadores cansam
as pernas dançando ao sabor da chuva.
o esférico rola como uma lua derretida
pelas águas que se movem do interior do
céu. a trovoada ergue-se ao fundo do monte,
como um tambor avassalador. quero correr,
atingir o limiar da aldeia para ver um pouco
de televisão e esquecer o combate inglório dos
elementos. e assim morrem as estrelas, deixadas
ao acaso e remetidas à correria desenfreada dos
homens que brincam com elas como se elas
fossem um esférico de porcelana.

os cães ladram, eu não os ouço,
ouço apenas a trovoada e o silêncio que cai entre
os trovões. é nesse silêncio que eu pressinto
o calor agreste da memória. que memória têm
as árvores? terão as árvores saudade? será
o silêncio o momento em que estamos mais
vulneráveis a essa memória e a essa saudade?
aproximo-me do portão da casa. a chuva. todo
o alentejo que pede lágrimas aos deuses. penso em
ti. és tu a chuva que cai das árvores em silêncio. és tu
que pressentes o silêncio ausente das minhas palavras.

Jorge Vicente

(são marcos da ataboeira, 2002)


alguém escreveu que a trovoada
é um lugar à volta do corpo:
a pele ou um círculo de som
abrindo o espaço entre os dedos.
alguém pensou:
abriremos o nosso corpo ao rio
e escreveremos palavras de desejo claro:
a luz e o amor não fazem
sentido fora do poema.

alguém morreu e nasceu
no preciso juntar das sílabas.

escrevo o anjo como escrevo
o tempo mau - todos os gestos
morrem e sufocam na giesta.

Jorge Vicente




O fofoqueiro - Texto de Ivone Boechat


O fofoqueiro

Texto de Ivone Boechat

O fofoqueiro é um tecelão juramentado in delivery à procura de meias verdades ou mentiras escancaradas que possa sair anunciando por aí pra derrubar alguém. Fofoqueiro que se preze mesmo não gosta de ver nenhuma vítima de pé, fazendo sucesso.

O fofoqueiro é invejoso, mas tem outros antipredicados bem mais inexpressivos no currículo. Para cumprir a meta diária de fofoca, ele é capaz de fazer o sacrifício de parecer bonzinho. E há quem acredite e se dispõe a fazer um pacto de paz, até a decepção dar-lhe uma rasteira.

O fofoqueiro não tem pressa: fofoca hoje, fofoca amanhã, ele sabe que o importante é não perder a oportunidade. Assim sequestra a vítima com as redes da dúvida e a faz refém do disse me disse.

O fofoqueiro tem duas grandes vantagens a seu favor: a vítima não tem defesa porque ele se esconde e rói as cordas pelas costas, na penumbra. O fofoqueiro finge-se simpático, por isso é bem aceito por um bom tempo.

O fofoqueiro se faz de vítima, de ingênuo, vive travestido de coitado e consegue enganar porque é persistente: Água mole em pedra dura...

O fofoqueiro vive de plantão à procura das brechas e ninguém, como ele, sabe aproveitar as oportunidades para desestabilizar a vítima; é mascarado, logo, pode passar despercebido por algum tempo no meio das pessoas corretas.

O fofoqueiro não suporta as palavras união, paz, harmonia. Se pudesse riscaria do dicionário dos outros, porque no dele não existem. Ele não tem luz própria e usa óculos escuros para se proteger do brilho dos outros...

Toda família tem o fofoqueiro que merece. É nela que ele engorda e tem prestígio; alguns são promovidos a conselheiros; outros recebem o troféu da confiabilidade: conseguem enganar até que a verdade e a justiça cheguem de mãos dadas e acabem com a farra.

“Há alguns cujas palavras são como pontas de espada”...Pv 12:18


Ivone Boechat 




O GALOPE LENTO DO TEMPO - Texto de Daniel Teixeira


O GALOPE LENTO DO TEMPO

Texto de Daniel Teixeira

Para começar esta crónica é preciso dizer que é necessário ter vivido com burros para ter memórias sobre burros, como é lógico. Eu tenho-as e muitas e dado aquilo que hoje sei e que outros que conheço não sabem lamento que nem toda a gente tenha passado, pelo menos uma parte da sua vida, com burros, mesmo que de facto tenham passado tempo a viver com «outros» burros.

E é neste aspecto que a coisa se torna paradoxal. Existe alguma vergonha em confessar que se viveu com burros, por pouco tempo que tenha sido, porque existe uma descriminação ridícula, porque é apenas verbal e de uso, contra o nome desses pobres mas sempre aparentemente felizes animais.

De um lado são considerados pouco espertos, o que não é verdade; deve existir de facto dentro da sua mente (se é que pudemos falar assim) uma tranquilidade neuronal muito semelhante à paz que todo o ser humano desejaria ter e uma aceitação da inevitabilidade do seu destino que pode parecer depressiva mas que vive dentro deles de uma forma harmoniosa.
 
Realismo, puro e simples, é o que eu acho que é : nada de ambições para desfiladas incomportáveis nem para liberdades excessivas e uma fidelidade aos parceiros a toda a prova.

Uma vez pedi um burro emprestado ao meu primo que os tinha a pastar num restolho: o que ficou teve de ser segurado na estaca e mesmo assim coitado acabou por cair dado que estava peado: o outro levou-me onde quería, às Eiras Velhas, a nossa hortinha perto do ribeirão, mas mal me distraí saiu em desfilada. Ainda corri um bom bocado sobretudo para ver se ele se encaminhava directo para o ponto de partida e lá ia ele, galopando de regresso certeiro.

Levar os burros a espojar era um dos meus trabalhos preferidos. Arranjava-se um bocado de terreno relativamente limpo de pedras e ervas e eles acabavam sempre por perceber: rebolavam-se pelo chão, coçavam as costas, podiam levar dez minutos nisso, relinchavam com aquele som cavo a que se chama zurrar, sacudiam a terra do pelo como um cão molhado e eu acho que eles acabavam sorrindo por segundos para depois voltarem à sua condição de burros, baixando a cabeça e ficando ali, quietos, sem capacidade de se movimentarem sem que nós puxássemos por eles.

Quando comecei a ir a Alcaria Alta o meu avô já tinha passado definitivamente de cavalo para burro tanto no sentido financeiro como no sentido real. Uma viagem de retorno sem retorno à vista e assim o burro era para ele o animal do presente e o animal do futuro. Cuidava deles com cuidado embora não fosse preciso muito para os manter contentes e felizes.

Tinha dois porque para lavrar é normalmente necessário parelha, sobretudo quando se trata de burros. Lavrar com um só animal só com muares ou cavalos. Estes últimos não se «gastavam» nessa tarefa por principio, mas nem sempre eram eminentemente decorativos e as éguas iam ao cavalo o que era uma garantia relativa de gerarem cavalos.

Pode parecer absurdo e para mim foi durante muito tempo que uma égua tenha um filho burro, por exemplo, ou um muar, mas era assim mesmo. Os muares, híbridos, como se sabe, não geravam, mas tinham a vantagem de serem excelentes animais de trabalho. Uma burra podia ir igualmente ao totoloto cavalar e depois era só esperar o que saía dali. A força dos genes comandava tudo...mas o meu avô só tinha burros, mesmo burros no masculino, e serviam para o dia a dia, para lavrar e gradear.

Gradear era, para quem não sabe, tentar afastar do terreno de cultivo as pedras que durante o resto do ano «nasciam» por força das enxurradas; a terra ia com a água, as pedras ficavam. Trabalho sempre anualmente repetido e agora lembro-me de uma personagem que não me podia lembrar naquele tempo. Sísifo foi condenado pelos Deuses gregos a fazer subir uma rocha até ao topo de um monte e deixá-la depois escorregar e ir buscá-la de novo. Comparativamente era isso que o meu avô e os outros lavradores do Monte faziam. Todos os anos o mesmo, tiravam pedra e esta (outra) voltava no ano seguinte.

Quando apareceram as máquinas, os tractores que tinham alfaias para lavrar e para gradear só interessava e só era possível que eles trabalhassem em espaços grandes. O mini tractor ainda não existia e mesmo que existisse ninguém o compraria senão os lavradores e nem esses os compraram, é claro. Eram por princípio possuidores de muita terra, pouco dinheiro e mão de obra relativamente barata. Hoje já não há senão a muita terra e o pouco dinheiro.

As máquinas que havia eram compradas por profissionais com dinheiro liquido suficiente para investir, normalmente emigrantes, que se deslocavam de monte em monte à hora ou á tarefa. Quando da minha segunda volta pelo Monte, cinco, seis anos depois, havia já bastantes terrenos tratados por máquinas.

Estas, cegas como eram, na ceifa, deixavam muito grão nos solos o que fomentava a visita da passarada: as cotovias, com a sua pequena popa no alto da cabeça eram as mais abundantes. Pardais também havia, toutinegras que eram assim chamadas por terem uma mancha escura no peito branco e outros. Os pardais civilizaram-se muito rapidamente e começaram cedo a conviver com o monte, fazendo ninho no telhado da escola primária.

Esta, não sei exactamente em que data foi construída, acabou por funcionar muito pouco tempo: cedo deixou de haver crianças para irem à escola, os montes dos arredores deixaram também de fornecer criançada e voltou tudo à primeira forma, aquela que a minha mãe tinha conhecido 50 anos antes: ir à escola a Giões para o primário, fazer o secundário em Faro ou Vila Real de Santo António para os poucos que tiveram essa possibilidade, muito poucos mesmo.

Mas as minhas memórias sobre os burros estão muito acima destas questões que apelido de laterais e contêm todo um conjunto de recordações que me levam de monte em monte, de ribanceira em ribanceira, de ribeira a ribeira, de actividade de trabalho a actividade lúdica, atravessando transversalmente a minha vida.

Pode dizer-se que consegui uma parte razoável do meu conhecimento do mundo de burro e por isso lhes estou grato, muito grato mesmo. Em certo sentido posso dizer que muito do que sei do mundo e da natureza aprendi porque os burros me levaram lá, me mostraram tudo o que havia para ver e tudo o que lá havia para aprender. Com eles aprendi também que é possível ser-se feliz com muito pouco, por exemplo.

O burro é o animal quadrúpede agregado às actividades campesinas que maior confiança nos pode merecer. Não a merece toda, a confiança, mas merece muito mais confiança do que um nervoso cavalo, uma temperamental mula, ou mesmo uma chata vaca que embica os cornos na nossa direcção nas estreitas azinhagas, não para nos fazer forçosamente mal mas porque é larga e não nos deixa espaço de passagem nem consegue virar ou recuar (essa sim é mesmo burra, geneticamente, por destino, diga-se) deixando-nos como alternativa a nós, humanos ditos inteligentes, o recuo, a retirada, a vergonhosa fuga por vezes quando a proximidade é demasiado próxima e a idade curta.

Com um burro diz-se «Alto!» alto e com bom som e o animal estaca e ali fica, parado, compreensivamente imóvel, à espera que nós passemos. Mas os meus burros, os burros que conheci, tinham outras qualidades, arrisco mesmo dizer que tinham todas as qualidades exigíveis a um burro e mais algumas que seriam exigíveis a muitos bípedes.

Anunciavam a sua chegada ao monte através de um sonoro zurrar, conheciam os melhores caminhos como ninguém, graças aos arreios só tinham duas velocidades, a primeira e a segunda, facilitando assim a condução e podiam ser cavalgados em pelo, com albarda, com sela até mas mostrando nestes primeiro e último casos todo o seu respeito pela condição do seu montador apesar da ausência dos arreados travões traseiros.

Um burro deixa-se por aqui ou por ali e vai-se buscá-lo quando se precisa que ele está ali mesmo ou um pouco mais além quando algum cardo ou uma erva mais apetitosa o puxou para a desobediente deslocação de poucos metros.

Tenho inúmeras recordações de burros, de momentos em que aprendi algo com os burros, dos momentos em que os burros foram meus mestres. Contarei um dia, ou irei contando, mas devo confessar que quando me lembro disso, do quanto que aprendi com eles, que nessas alturas que não são muito raras, tenho sempre muita pena que nem todos tenham tido a possibilidade de ter burros como mestres. 

Talvez o mundo fosse melhor, quem sabe..?




Poesia de Cremilde Vieira da Cruz


Poesia de Cremilde Vieira da Cruz


TENHO MEDO

Tenho medo de ter medo,
Deste medo que me faz medo.

Tenho medo do medo que tenho.
Tenho medo que tanto medo,
Me faça perder o medo,
De perder o que não tenho.

Tenho medo...

Cremilde Vieira da Cruz


SONHO

Vinhas
Todos
Os dias
E eu
Olhava,
Olhava,
Olhava...
Pr’a ti.

Depois,
Surgiu
Chuva
Miúda,
Molhou
Os sonhos.

Fugi,
Com medo
De te
Amar.

Cremilde Vieira da Cruz


ANOITECER

Espreito quase ininterruptamente à janela,
E para além de vestes abanadas pelo vento,
Rostos desconhecidos,
Não vejo nada.

É um domingo qualquer,
À espera de ti,
E vedam-me a visão,
Persianas envelhecidas,
Paredes intransponíveis,
Nuvens de poeiras esquálidas,
Portas trancadas opacas.

Neste domingo de horas curtas,
Quase no fim,
Ainda espero por ti.
Espero por ti,
Espreito à janela
E apenas se me deparam paisagens mórbidas,
Ou qualquer sonho inatingível.

Apetecia-me o mar,
O longe...
Afaga-me a “Rosa em Botão”
Do poema de Vinicius.
O mar não me chamou,
Partiu não me levou.
O céu não me quis ver,
Partiu sem me dizer.

Havia uma palavra azul
Que me estendia os braços,
Que me levava pela mão,
Que me beijava os dedos,
Mas morreu.
Morreu de sede,
De fome,
E de saudades do mar
Que lhe afagava as raizes.
Costumava falar-me de ti com carinho.
A cada instante,
Embrenhava-me na paisagem tranquila daquelas horas,
E sonhava...

Não sei porque espero por ti.
Não sei porque espero por alguém...
Ainda espreito à janela,
E escorre dos vidros um silêncio negro,
Como o negrume de minha ansiedade.

Escrevo para ti,
Porque não posso falar contigo.
Minhas falas morreram,
E foram com a enchente do rio,
Na hora da tempestade.

Escrevo para ti,
Para estar mais perto de ti,
Nesta hora de crepúsculo
De pensamentos desnudos,
Conscientes da verdade.

Cremilde Vieira da Cruz





Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira

A vida ao redor

O lago vive, com a sua água calma e morna,
Abraçado pela vida que ao seu redor alimenta
Encantado pela vida que a sua margem adorna
Tranquilamente no seio da floresta onde assenta

O vento sopra ao longe mas ali somente uma brisa vai chegar
As árvores enraizadas nas profundezas da terra húmida
Preparam-se para combater o vento que chega a uivar
Protegendo a placidez do lago que lhes dá vida

Do outro lado da colina, o mar bravio começa a vociferar
O vendaval cresce ferozmente e começa a fustigar a areia dourada
O mar vê-o chegar, esse remoinho de destruição, e prepara-se para lutar
Desembainha a espada, guerreiro, para salvar a vida por ele alimentada

O lago de águas mornas e tranquilas ondula devagarinho
Saboreando a brisa doce que as árvores não puderam controlar
Rejubilando na certeza do hoje e do amanhã no seu cantinho

O mar de águas ferozes e revoltas faz nascer ondas gigantes
Que morrem na areia sem tristeza, renascidas em instantes
Revoltado e profundo, sem certezas senão a de vingar!


Estranho Marinheiro

Homem sem beleza usual, estranho marinheiro,
Olhos negros, tenebrosas grutas nesse poderoso olhar,
Marinheiro que traz no corpo o singular cheiro
Á quente canela, pó sensual, e ao mar…

Esse mar que navega, incapaz de ficar,
O mar que o leva sem correntes
Porque há seres que não pertencem a nenhum lugar,
E esse tem uma ânsia pela liberdade que sei que já sentes

E que te aterroriza porque é impossível que já não o sintas…
Quando o fitaste ficaste completamente perdida,
És dele, inteiramente entregue à sede de o seguir…

E esse cárcere vai tomar-te para toda a vida,
Ainda que ainda não o saibas, esse marinheiro errante
Vai (como a mim!) povoar-te o pensamento todo o dia, tão ansiado amante…


Despedaçada

Não sei esconder nem por um instante mais,
Não quero calar mais um segundo que seja,
Vou gritar até me doer a voz enquanto tu vais,
Implorar-te sem pudor que fiques onde quer que eu esteja.

Porque tu és parte de mim mesma, és mais Eu que Eu,
És uma pele que me cobre num abraço de falcão,
A manta que me protege sem a ternura de um véu,
A carne que se despedaça com todos aqueles que se vão,

Com todos os que me abandonam à minha sorte,
Sem compreender que na realidade me deixam à morte,
Lívida e plácida como o espectro que te anseia.

Já fui mulher e quis-te como demente,
Agora sou apenas um resto, um cadáver, uma carcaça feia
E quero-te, a esse Eu que fugiu sem deixar para o mundo, sequer um sonho, uma semente…





Recordar é viver - por Tom Coelho


Recordar é viver

por Tom Coelho


“A vida é uma viagem a três estações:
ação, experiência e recordação.”

(Júlio Camargo)


Tenho por hábito reservar algumas horas nos últimos dias que antecedem minhas férias de final de ano para organizar papéis e arquivos diversos. São práticas triviais como descartar documentos cuja guarda é desnecessária, reunir materiais similares em pastas únicas, selecionar objetos que possam ser doados. É um procedimento que passa por gavetas, armários e até meu computador, e que embora pareça meramente operacional, reserva-me grandes surpresas...

Em uma pasta suspensa, por exemplo, deparei-me com uma grande quantidade de trabalhos escolares produzidos há cerca de uma década por meus filhos mais velhos, hoje com 18 e 16 anos. Um material singular que me conduziu a uma viagem no tempo, à época em que estavam sendo alfabetizados. Os primeiros traços e letras, os desenhos coloridos e pueris, os singelos presentes a mim ofertados em datas comemorativas.

Em outro momento, acesso um livro de ata utilizado para colher depoimentos de amigos que compareceram ao lançamento de meu livro “Sete Vidas”, há cinco anos. Palavras generosas como só os verdadeiros amigos sabem redigir. Envio um e-mail para um e telefono para outro, resgatando um pouco da relação distanciada pelo tempo e pelo espaço, porém não arrefecida em ternura.

Mas a grande viagem astral ficou marcada por um arquivo reunindo materiais de uma empresa que construí há exatos vinte anos. Anúncios em jornais e revistas, entrevistas publicadas em jornais, fotos de um tempo em que eu tinha menos barba e mais cabelo. Um jovem idealista, repleto de certezas equivocadas, que viria a se descobrir apenas uma década depois.

Entretanto, nenhum sentimento se compara à emoção de casualmente ter em minhas mãos uma caixa de sapatos contendo algumas dezenas de jogos de futebol de botão. Uma brincadeira que me acompanhou durante a infância, quando eu jogava, ora sozinho, literalmente narrando a partida, ora contra colegas com os quais promovíamos torneios. Contudo, a emoção não estava nos brinquedos, embora as lembranças fossem suficientes para fazer marejar os olhos, mas sim nas poucas palavras escritas na tampa da caixa para identificar seu conteúdo: a caligrafia era de minha falecida mãe.

Naquele momento, sentado com a caixa no colo, eu fitava o contorno daquelas letras e não podia conter as lágrimas. Quantas saudades! Como a perda de uma pessoa amada é dolorosa... Em verdade, é insuperável. Os anos passam e parece que aceitamos o fato, quando em verdade, apenas nos acostumamos e aprendemos a suportar e seguir em frente.

Nossas batalhas cotidianas são muitas e variadas, amplas e cada vez mais intensas. Nosso tempo é curto, embora a vida seja longa, mas o que realmente vale a pena é sutil, volátil e está ao nosso redor. Por isso, resgate seu passado para valorizar o tempo presente, e em lugar de presentes, ofereça sua presença aos seus amigos e familiares. Boas Festas!



* Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de oito livros. E-mail: tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.




quarta-feira, 3 de junho de 2015

O PRIMEIRO DIA - Crónica de Ilona Bastos


O PRIMEIRO DIA

 Crónica de Ilona Bastos


 Graça

 
Um mar de processos cobria as secretárias, donde emergiam, parecendo boiar à deriva, os monitores dos computadores e as cabeças dos funcionários.

Uma vaga de papel branco e cartolina azul suave galgara mesmo o parapeito da janela, através da qual se avistava a cidade, longínqua.

A senhora simpática, de cabelo curto e óculos, levantou-se e avançou, com deferência. Alheia aos sorrisos mal disfarçados dos colegas, guiou-a através do corredor, junto aos guichets, ultrapassou o guarda-vento, atravessou o hall de entrada, penetrou na zona reservada e, finalmente, deteve-se junto à porta de um gabinete, que abriu.

Com um baixar de cabeça agradeceu a delicadeza da senhora simpática, de cabelo curto e óculos, que se inclinava, numa vénia.

«Bem-vinda, Senhora Doutora! Este é o gabinete que lhe foi atribuído. Agora volto para a secretaria... Se desejar alguma coisa...»

«Obrigada. Se precisar, eu aviso.»

Em poucos segundos desvaneceu-se a imagem da funcionária e do corredor, apenas restando, em primeiro plano, a porta de madeira escura, fechada.

Voltando-se, deu alguns passos, progredindo em território estranho, excessivamente ocupado.

Sobre o chão frio, erguiam-se uma secretária, duas cadeiras, um pequeno armário rectangular, uma mesinha de apoio e inúmeras pilhas de processos com capa de cartolina azul celeste.

Também pelos móveis se apinhavam dossiers, livros, um telefone empoeirado e mais montanhas de processos.

Pairava sobre o relevo desordenado do aposento uma pesada camada de ar, que lhe pareceu irrespirável porque também ela impregnada de pó e, se possível, de papel, até ao tecto alto e sujo, até ao candeeiro frio, de lâmpadas fluorescentes, até às janelas subidas, de armazém, encostadas ao tecto, não deixando entrar a luz nem a brisa, mas tão somente a suspeita de uma humidade insidiosa e de uma chuva persistente...

Aproximando-se da cadeira da secretária, observou as paredes, recobertas de azulejos verdes e brancos, semelhantes aos das casas - de - banho. Estacando, de repente, escutou os ruídos exteriores e pressentiu (mais do que ouviu) o aclarar da garganta de um colega vizinho, o circular dos automóveis no alcatrão molhado e o tamborilar da chuva na calçada.

Na mesa de apoio, afastou uma resma de papel, unida em maços heterogéneos por um cordel branco. Pousou a pasta. Cuidadosamente, experimentou a cadeira, desconfiada da sua robustez, pendurou a bolsa no encosto, e sentou-se. Estendendo as mãos, pegou num processo, e noutro, e num terceiro, e nos que corriam a seus braços como crianças carentes. Soerguendo-se, colocou-os de lado, deixando à vista o tampo riscado e corroído da secretária.

Com súbito entusiasmo, rodou a cadeira, ávida da pasta e da caneta nela contida. Mas o choque com uma montanha de processos fê-los tombar, precipitando-os em estrondosa cascata que deslizou pelo chão.

Baixou-se para recolocar os processos na pilha, ao mesmo tempo que fazia balançar outros morros, de equilíbrio evidentemente instável, existentes sobre a secretária

Limpou, nas calças novas, propositadamente compradas para estrear nesse dia, as mãos já sujas de pó, levantou-se com vigor, deu dois passos e tropeçou, arrastando papel, cartolina e cordel branco pelos mosaicos pouco limpos do gabinete.

Confusamente, ouviu o telefone tocar. Com esforço, alcançou o auscultador, que aproximou do ouvido, bruscamente. Depressa, porém, a expressão do seu rosto se suavizou.

«Então, querida, está a correr tudo bem?»

Imprimiu à voz o máximo de optimismo que conseguiu reunir dentro de si:

«Ah, sim. Tudo bem!»

«E o pessoal?»

«Ah, fui muito bem recebida. Há uma funcionária especialmente amável, que se mostrou muito prestável e me trouxe ao gabinete...»

«Optimo! Viva o luxo!»

«é...»

«Tenho uma reunião agora. E depois outra, às cinco horas. Vais buscar a Clara?»

«Claro!!!»

Riu-se, aliviada com o eco de gargalhada vindo do outro lado do telefone. Era o seu (deles) trocadilho de serviço. Apto a aliviar todas as tensões (mesmo as não assumidas - especialmente as não assumidas).

«Então, até logo. E a continuação de um óptimo primeiro dia de trabalho!»

«Obrigada. Um dia feliz para ti, também. Beijos.»

Desligou, mais animada. Resolutamente, arregaçou as mangas. De olhar semi-cerrado calculou, em primeiro lugar, como arrumar os processos de forma a poder caminhar livremente pelo gabinete.

Recordou-se, com inveja, das amplas janelas da secretaria. Aí, pelo menos, os parapeitos constituíam excelentes prateleiras. No seu caso, nem dessa solução podia socorrer-se, encontrando-se, como se encontrava, num gabinete improvisado, que fora até há bem pouco tempo a sala das testemunhas.

E para quê janelas tão altas? - perguntou-se - Para as testemunhas não fugirem, aterrorizadas com as vestes negras e solenes dos magistrados, dos advogados e dos escrivães? Ou, antes, para não se escapulirem ardilosamente pela sanca exterior ao edifício e, em equilibrismos Hollywoodescos, caminharem até às vizinhas janelas da sala de audiências e, aí, através de leitura labial, tomarem conhecimento do depoimento das outras pessoas (testemunhas, peritos, partes), o que lhes era absolutamente vedado?

Metodicamente, começou a abraçar molhos de processos que carregava, toda curvada, até junto das paredes, agrupando-os, rente aos azulejos brancos e verdes, verticalmente, em torres e arranha-céus oscilantes. Os livros, alinhou-os ordenadamente em cima do armário.

Este sistema permitiu-lhe conquistar uma área considerável de território. Agora, sim, podia deslocar-se entre a secretária e as cadeiras, entre o armário e a porta e a mesa do telefone, com certa ligeireza de movimentos!

Pensou que um pano do pó e uma planta tornariam o ambiente mais agradável, e recordou-se da secretaria, onde havia luz com abundância e uma tal profusão de vasos com fetos, plantas da borracha e troncos da felicidade, que mais parecia uma estufa ou um parque tropical.

Considerou que as janelas também ajudavam - as plantas necessitam de luz e de ar - e lamentou que as suas fossem tão altas e inúteis.

Se as paredes não estivessem recobertas de azulejos poderia trazer uns quadros e decorar o gabinete. Sim, tinha lá em casa uma reprodução de um Renoir que trouxera da última viagem a Paris. Era magnífica, evidentemente... mas não lhe parecia que condissesse com os azulejos brancos e verdes!

Tomou, desta vez, a iniciativa de ligar o telefone.

Atendeu imediatamente a funcionária simpática, da secretaria

«Importa-se de cá chegar, se faz favor?»

«Com certeza, é só um momento.»

Meia - hora depois, quando, já impaciente, se preparava para tornar a telefonar, apareceu a escrivã, balbuciando da entrada:

«Peço desculpa, senhora doutora, mas estou sozinha na secretaria, apareceu um advogado para consultar um processo e tive de o procurar...

«Sim, tudo bem.»

Mudou de tom de voz, procurando ser imperativa:

«Diga-me uma coisa: para organizar melhor o trabalho quero que me indique quais destes processos aguardam despacho e quais são os que podem ser imediatamente arquivados na secretaria.»

A resposta foi imediata:

«Estão todos a aguardar despacho, senhora doutora.»

«Todos! Bom, então quero que me diga quais são os mais urgentes, para os classificar por ordem de prioridades.»

A informação não poderia ser mais precisa:

«Todos estes processos estão para despacho urgente, senhora doutora.»

«Mas os mais urgentes...»

«São todos muitíssimo urgentes!»

A funcionária simpática, de cabelo curto e óculos quedou-se junto à porta, semi-aberta, em que se apoiava. O seu rosto permanecia expectante, e mantinha-se impassível, como anteriormente. Não se vislumbrava, agora, a sombra de um sorriso. Mas também não se detectava ironia ou sarcasmo na sua atitude. Informara, simplesmente, como devia informar. Competentemente.

Por momentos, aquela figura esguia e impávida tornou-se desfocada, ténue, trémula, na visão da sua interlocutora, sentada na cadeira, do lado de cá da secretária.

Uma vertigem ensombrou-lhe o cenário de paredes de azulejo de casa - de - banho e processos, dezenas de processos, centenas de processos, às pilhas, em torres e arranha-céus, aos montes e vales, em planaltos que a cercavam, ameaçadores, de todos os lados.

Gradualmente, tudo escureceu, e assim se manteve por escassos segundos.

Depois, a paisagem foi-se recompondo, readquirindo cor, e o azul das capas de cartolina uma vez mais lhe recordou o mar, ondeante mas suave, quase tranquilo, a acariciar as margens esverdeadas, em cerâmica.

Quando voltou a observar a funcionária, já os seus contornos apareciam perfeitamente definidos, e as palavras, emanadas da sua boca, revelavam-se espantosamente claras:

«Se a senhora doutora o desejar, amanhã coloco-lhe sobre a secretária os processos para despacho de mero expediente, que são os mais rápidos», propôs. «Hoje não, que está na hora da saída. Mas amanhã a senhora doutora despacha uns dez processos. Depois de amanhã mais dez...»

«E os outros...»

A funcionária permitiu-se sorrir, com genuína simpatia.

«Os outros estão cá há muito! São decisões difíceis e resolvem-se com o tempo.»

«Sim...»

Sentia empatia no outro extremo do aposento, junto à entrada.

«Se a senhora doutora não precisar de mais nada, então, saio.»

«Obrigada, não preciso, não. Até amanhã.»

«Até amanhã, senhora doutora.»

Ao olhar para o relógio percebeu que estava na hora de, também ela, sair. Precisava de ir buscar a Clara, que acabava as aulas às seis e meia, nesse dia.

Apanhou a bolsa e a pasta, dirigiu-se à porta e, antes de apagar a luz, ainda lançou um olhar sobre o minúsculo gabinete que lhe fora atribuído. Sentia-se um pouco atordoada, mas recuperava com surpreendente rapidez.

Já no corredor, apercebeu-se de que, sem que o tivesse notado (provavelmente o caso dera-se quando, afanosamente, carregava processos de um lado para o outro do gabinete) haviam colocado uma placa na sua porta.

Um colega, que passava nesse momento, cumprimentou-a delicadamente, e do outro extremo, além guarda-vento, a funcionária simpática, levando no braço um enorme guarda-chuva vermelho, saudou-a com respeito e estima.

Ainda teve tempo de reler as palavras escritas na pequena placa de cobre, antes de alcançar o elevador:

«Juíza de Direito».

Ao impacto inicial, seguiu-se uma sensação estranha, indefinível: Seria orgulho? Felicidade? Medo? Horror?

Pelo espírito passou-lhe, fugaz, o traçado lúgubre das janelas estreitas, rentes ao tecto manchado de humidade, e visualizou os estranhos esforços de equilíbrio de um vulto absurdo que fugia pela sanca exterior do edifício...

Mas afastou o pensamento. Correu, sob a chuva forte, até ao automóvel. Abriu a porta, sentou-se, atirou a pasta e a bolsa para o banco traseiro, e apertou o cinto. Não importava mais nada, agora. Tinha de se apressar. A Clara estava à sua espera, sem guarda-chuva, e com a pesada mochila às costas, junto ao portão da escola.

Nessa noite, já estava combinado com o João, iriam todos, incluindo os pais e os irmãos, jantar fora, num restaurante de luxo, para festejar a sua promoção e o primeiro dia no exercício de funções.

Hip! Hip! Hurra!