quinta-feira, 4 de junho de 2015

O GALOPE LENTO DO TEMPO - Texto de Daniel Teixeira


O GALOPE LENTO DO TEMPO

Texto de Daniel Teixeira

Para começar esta crónica é preciso dizer que é necessário ter vivido com burros para ter memórias sobre burros, como é lógico. Eu tenho-as e muitas e dado aquilo que hoje sei e que outros que conheço não sabem lamento que nem toda a gente tenha passado, pelo menos uma parte da sua vida, com burros, mesmo que de facto tenham passado tempo a viver com «outros» burros.

E é neste aspecto que a coisa se torna paradoxal. Existe alguma vergonha em confessar que se viveu com burros, por pouco tempo que tenha sido, porque existe uma descriminação ridícula, porque é apenas verbal e de uso, contra o nome desses pobres mas sempre aparentemente felizes animais.

De um lado são considerados pouco espertos, o que não é verdade; deve existir de facto dentro da sua mente (se é que pudemos falar assim) uma tranquilidade neuronal muito semelhante à paz que todo o ser humano desejaria ter e uma aceitação da inevitabilidade do seu destino que pode parecer depressiva mas que vive dentro deles de uma forma harmoniosa.
 
Realismo, puro e simples, é o que eu acho que é : nada de ambições para desfiladas incomportáveis nem para liberdades excessivas e uma fidelidade aos parceiros a toda a prova.

Uma vez pedi um burro emprestado ao meu primo que os tinha a pastar num restolho: o que ficou teve de ser segurado na estaca e mesmo assim coitado acabou por cair dado que estava peado: o outro levou-me onde quería, às Eiras Velhas, a nossa hortinha perto do ribeirão, mas mal me distraí saiu em desfilada. Ainda corri um bom bocado sobretudo para ver se ele se encaminhava directo para o ponto de partida e lá ia ele, galopando de regresso certeiro.

Levar os burros a espojar era um dos meus trabalhos preferidos. Arranjava-se um bocado de terreno relativamente limpo de pedras e ervas e eles acabavam sempre por perceber: rebolavam-se pelo chão, coçavam as costas, podiam levar dez minutos nisso, relinchavam com aquele som cavo a que se chama zurrar, sacudiam a terra do pelo como um cão molhado e eu acho que eles acabavam sorrindo por segundos para depois voltarem à sua condição de burros, baixando a cabeça e ficando ali, quietos, sem capacidade de se movimentarem sem que nós puxássemos por eles.

Quando comecei a ir a Alcaria Alta o meu avô já tinha passado definitivamente de cavalo para burro tanto no sentido financeiro como no sentido real. Uma viagem de retorno sem retorno à vista e assim o burro era para ele o animal do presente e o animal do futuro. Cuidava deles com cuidado embora não fosse preciso muito para os manter contentes e felizes.

Tinha dois porque para lavrar é normalmente necessário parelha, sobretudo quando se trata de burros. Lavrar com um só animal só com muares ou cavalos. Estes últimos não se «gastavam» nessa tarefa por principio, mas nem sempre eram eminentemente decorativos e as éguas iam ao cavalo o que era uma garantia relativa de gerarem cavalos.

Pode parecer absurdo e para mim foi durante muito tempo que uma égua tenha um filho burro, por exemplo, ou um muar, mas era assim mesmo. Os muares, híbridos, como se sabe, não geravam, mas tinham a vantagem de serem excelentes animais de trabalho. Uma burra podia ir igualmente ao totoloto cavalar e depois era só esperar o que saía dali. A força dos genes comandava tudo...mas o meu avô só tinha burros, mesmo burros no masculino, e serviam para o dia a dia, para lavrar e gradear.

Gradear era, para quem não sabe, tentar afastar do terreno de cultivo as pedras que durante o resto do ano «nasciam» por força das enxurradas; a terra ia com a água, as pedras ficavam. Trabalho sempre anualmente repetido e agora lembro-me de uma personagem que não me podia lembrar naquele tempo. Sísifo foi condenado pelos Deuses gregos a fazer subir uma rocha até ao topo de um monte e deixá-la depois escorregar e ir buscá-la de novo. Comparativamente era isso que o meu avô e os outros lavradores do Monte faziam. Todos os anos o mesmo, tiravam pedra e esta (outra) voltava no ano seguinte.

Quando apareceram as máquinas, os tractores que tinham alfaias para lavrar e para gradear só interessava e só era possível que eles trabalhassem em espaços grandes. O mini tractor ainda não existia e mesmo que existisse ninguém o compraria senão os lavradores e nem esses os compraram, é claro. Eram por princípio possuidores de muita terra, pouco dinheiro e mão de obra relativamente barata. Hoje já não há senão a muita terra e o pouco dinheiro.

As máquinas que havia eram compradas por profissionais com dinheiro liquido suficiente para investir, normalmente emigrantes, que se deslocavam de monte em monte à hora ou á tarefa. Quando da minha segunda volta pelo Monte, cinco, seis anos depois, havia já bastantes terrenos tratados por máquinas.

Estas, cegas como eram, na ceifa, deixavam muito grão nos solos o que fomentava a visita da passarada: as cotovias, com a sua pequena popa no alto da cabeça eram as mais abundantes. Pardais também havia, toutinegras que eram assim chamadas por terem uma mancha escura no peito branco e outros. Os pardais civilizaram-se muito rapidamente e começaram cedo a conviver com o monte, fazendo ninho no telhado da escola primária.

Esta, não sei exactamente em que data foi construída, acabou por funcionar muito pouco tempo: cedo deixou de haver crianças para irem à escola, os montes dos arredores deixaram também de fornecer criançada e voltou tudo à primeira forma, aquela que a minha mãe tinha conhecido 50 anos antes: ir à escola a Giões para o primário, fazer o secundário em Faro ou Vila Real de Santo António para os poucos que tiveram essa possibilidade, muito poucos mesmo.

Mas as minhas memórias sobre os burros estão muito acima destas questões que apelido de laterais e contêm todo um conjunto de recordações que me levam de monte em monte, de ribanceira em ribanceira, de ribeira a ribeira, de actividade de trabalho a actividade lúdica, atravessando transversalmente a minha vida.

Pode dizer-se que consegui uma parte razoável do meu conhecimento do mundo de burro e por isso lhes estou grato, muito grato mesmo. Em certo sentido posso dizer que muito do que sei do mundo e da natureza aprendi porque os burros me levaram lá, me mostraram tudo o que havia para ver e tudo o que lá havia para aprender. Com eles aprendi também que é possível ser-se feliz com muito pouco, por exemplo.

O burro é o animal quadrúpede agregado às actividades campesinas que maior confiança nos pode merecer. Não a merece toda, a confiança, mas merece muito mais confiança do que um nervoso cavalo, uma temperamental mula, ou mesmo uma chata vaca que embica os cornos na nossa direcção nas estreitas azinhagas, não para nos fazer forçosamente mal mas porque é larga e não nos deixa espaço de passagem nem consegue virar ou recuar (essa sim é mesmo burra, geneticamente, por destino, diga-se) deixando-nos como alternativa a nós, humanos ditos inteligentes, o recuo, a retirada, a vergonhosa fuga por vezes quando a proximidade é demasiado próxima e a idade curta.

Com um burro diz-se «Alto!» alto e com bom som e o animal estaca e ali fica, parado, compreensivamente imóvel, à espera que nós passemos. Mas os meus burros, os burros que conheci, tinham outras qualidades, arrisco mesmo dizer que tinham todas as qualidades exigíveis a um burro e mais algumas que seriam exigíveis a muitos bípedes.

Anunciavam a sua chegada ao monte através de um sonoro zurrar, conheciam os melhores caminhos como ninguém, graças aos arreios só tinham duas velocidades, a primeira e a segunda, facilitando assim a condução e podiam ser cavalgados em pelo, com albarda, com sela até mas mostrando nestes primeiro e último casos todo o seu respeito pela condição do seu montador apesar da ausência dos arreados travões traseiros.

Um burro deixa-se por aqui ou por ali e vai-se buscá-lo quando se precisa que ele está ali mesmo ou um pouco mais além quando algum cardo ou uma erva mais apetitosa o puxou para a desobediente deslocação de poucos metros.

Tenho inúmeras recordações de burros, de momentos em que aprendi algo com os burros, dos momentos em que os burros foram meus mestres. Contarei um dia, ou irei contando, mas devo confessar que quando me lembro disso, do quanto que aprendi com eles, que nessas alturas que não são muito raras, tenho sempre muita pena que nem todos tenham tido a possibilidade de ter burros como mestres. 

Talvez o mundo fosse melhor, quem sabe..?




Poesia de Cremilde Vieira da Cruz


Poesia de Cremilde Vieira da Cruz


TENHO MEDO

Tenho medo de ter medo,
Deste medo que me faz medo.

Tenho medo do medo que tenho.
Tenho medo que tanto medo,
Me faça perder o medo,
De perder o que não tenho.

Tenho medo...

Cremilde Vieira da Cruz


SONHO

Vinhas
Todos
Os dias
E eu
Olhava,
Olhava,
Olhava...
Pr’a ti.

Depois,
Surgiu
Chuva
Miúda,
Molhou
Os sonhos.

Fugi,
Com medo
De te
Amar.

Cremilde Vieira da Cruz


ANOITECER

Espreito quase ininterruptamente à janela,
E para além de vestes abanadas pelo vento,
Rostos desconhecidos,
Não vejo nada.

É um domingo qualquer,
À espera de ti,
E vedam-me a visão,
Persianas envelhecidas,
Paredes intransponíveis,
Nuvens de poeiras esquálidas,
Portas trancadas opacas.

Neste domingo de horas curtas,
Quase no fim,
Ainda espero por ti.
Espero por ti,
Espreito à janela
E apenas se me deparam paisagens mórbidas,
Ou qualquer sonho inatingível.

Apetecia-me o mar,
O longe...
Afaga-me a “Rosa em Botão”
Do poema de Vinicius.
O mar não me chamou,
Partiu não me levou.
O céu não me quis ver,
Partiu sem me dizer.

Havia uma palavra azul
Que me estendia os braços,
Que me levava pela mão,
Que me beijava os dedos,
Mas morreu.
Morreu de sede,
De fome,
E de saudades do mar
Que lhe afagava as raizes.
Costumava falar-me de ti com carinho.
A cada instante,
Embrenhava-me na paisagem tranquila daquelas horas,
E sonhava...

Não sei porque espero por ti.
Não sei porque espero por alguém...
Ainda espreito à janela,
E escorre dos vidros um silêncio negro,
Como o negrume de minha ansiedade.

Escrevo para ti,
Porque não posso falar contigo.
Minhas falas morreram,
E foram com a enchente do rio,
Na hora da tempestade.

Escrevo para ti,
Para estar mais perto de ti,
Nesta hora de crepúsculo
De pensamentos desnudos,
Conscientes da verdade.

Cremilde Vieira da Cruz





Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira

A vida ao redor

O lago vive, com a sua água calma e morna,
Abraçado pela vida que ao seu redor alimenta
Encantado pela vida que a sua margem adorna
Tranquilamente no seio da floresta onde assenta

O vento sopra ao longe mas ali somente uma brisa vai chegar
As árvores enraizadas nas profundezas da terra húmida
Preparam-se para combater o vento que chega a uivar
Protegendo a placidez do lago que lhes dá vida

Do outro lado da colina, o mar bravio começa a vociferar
O vendaval cresce ferozmente e começa a fustigar a areia dourada
O mar vê-o chegar, esse remoinho de destruição, e prepara-se para lutar
Desembainha a espada, guerreiro, para salvar a vida por ele alimentada

O lago de águas mornas e tranquilas ondula devagarinho
Saboreando a brisa doce que as árvores não puderam controlar
Rejubilando na certeza do hoje e do amanhã no seu cantinho

O mar de águas ferozes e revoltas faz nascer ondas gigantes
Que morrem na areia sem tristeza, renascidas em instantes
Revoltado e profundo, sem certezas senão a de vingar!


Estranho Marinheiro

Homem sem beleza usual, estranho marinheiro,
Olhos negros, tenebrosas grutas nesse poderoso olhar,
Marinheiro que traz no corpo o singular cheiro
Á quente canela, pó sensual, e ao mar…

Esse mar que navega, incapaz de ficar,
O mar que o leva sem correntes
Porque há seres que não pertencem a nenhum lugar,
E esse tem uma ânsia pela liberdade que sei que já sentes

E que te aterroriza porque é impossível que já não o sintas…
Quando o fitaste ficaste completamente perdida,
És dele, inteiramente entregue à sede de o seguir…

E esse cárcere vai tomar-te para toda a vida,
Ainda que ainda não o saibas, esse marinheiro errante
Vai (como a mim!) povoar-te o pensamento todo o dia, tão ansiado amante…


Despedaçada

Não sei esconder nem por um instante mais,
Não quero calar mais um segundo que seja,
Vou gritar até me doer a voz enquanto tu vais,
Implorar-te sem pudor que fiques onde quer que eu esteja.

Porque tu és parte de mim mesma, és mais Eu que Eu,
És uma pele que me cobre num abraço de falcão,
A manta que me protege sem a ternura de um véu,
A carne que se despedaça com todos aqueles que se vão,

Com todos os que me abandonam à minha sorte,
Sem compreender que na realidade me deixam à morte,
Lívida e plácida como o espectro que te anseia.

Já fui mulher e quis-te como demente,
Agora sou apenas um resto, um cadáver, uma carcaça feia
E quero-te, a esse Eu que fugiu sem deixar para o mundo, sequer um sonho, uma semente…





Recordar é viver - por Tom Coelho


Recordar é viver

por Tom Coelho


“A vida é uma viagem a três estações:
ação, experiência e recordação.”

(Júlio Camargo)


Tenho por hábito reservar algumas horas nos últimos dias que antecedem minhas férias de final de ano para organizar papéis e arquivos diversos. São práticas triviais como descartar documentos cuja guarda é desnecessária, reunir materiais similares em pastas únicas, selecionar objetos que possam ser doados. É um procedimento que passa por gavetas, armários e até meu computador, e que embora pareça meramente operacional, reserva-me grandes surpresas...

Em uma pasta suspensa, por exemplo, deparei-me com uma grande quantidade de trabalhos escolares produzidos há cerca de uma década por meus filhos mais velhos, hoje com 18 e 16 anos. Um material singular que me conduziu a uma viagem no tempo, à época em que estavam sendo alfabetizados. Os primeiros traços e letras, os desenhos coloridos e pueris, os singelos presentes a mim ofertados em datas comemorativas.

Em outro momento, acesso um livro de ata utilizado para colher depoimentos de amigos que compareceram ao lançamento de meu livro “Sete Vidas”, há cinco anos. Palavras generosas como só os verdadeiros amigos sabem redigir. Envio um e-mail para um e telefono para outro, resgatando um pouco da relação distanciada pelo tempo e pelo espaço, porém não arrefecida em ternura.

Mas a grande viagem astral ficou marcada por um arquivo reunindo materiais de uma empresa que construí há exatos vinte anos. Anúncios em jornais e revistas, entrevistas publicadas em jornais, fotos de um tempo em que eu tinha menos barba e mais cabelo. Um jovem idealista, repleto de certezas equivocadas, que viria a se descobrir apenas uma década depois.

Entretanto, nenhum sentimento se compara à emoção de casualmente ter em minhas mãos uma caixa de sapatos contendo algumas dezenas de jogos de futebol de botão. Uma brincadeira que me acompanhou durante a infância, quando eu jogava, ora sozinho, literalmente narrando a partida, ora contra colegas com os quais promovíamos torneios. Contudo, a emoção não estava nos brinquedos, embora as lembranças fossem suficientes para fazer marejar os olhos, mas sim nas poucas palavras escritas na tampa da caixa para identificar seu conteúdo: a caligrafia era de minha falecida mãe.

Naquele momento, sentado com a caixa no colo, eu fitava o contorno daquelas letras e não podia conter as lágrimas. Quantas saudades! Como a perda de uma pessoa amada é dolorosa... Em verdade, é insuperável. Os anos passam e parece que aceitamos o fato, quando em verdade, apenas nos acostumamos e aprendemos a suportar e seguir em frente.

Nossas batalhas cotidianas são muitas e variadas, amplas e cada vez mais intensas. Nosso tempo é curto, embora a vida seja longa, mas o que realmente vale a pena é sutil, volátil e está ao nosso redor. Por isso, resgate seu passado para valorizar o tempo presente, e em lugar de presentes, ofereça sua presença aos seus amigos e familiares. Boas Festas!



* Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de oito livros. E-mail: tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.




quarta-feira, 3 de junho de 2015

O PRIMEIRO DIA - Crónica de Ilona Bastos


O PRIMEIRO DIA

 Crónica de Ilona Bastos


 Graça

 
Um mar de processos cobria as secretárias, donde emergiam, parecendo boiar à deriva, os monitores dos computadores e as cabeças dos funcionários.

Uma vaga de papel branco e cartolina azul suave galgara mesmo o parapeito da janela, através da qual se avistava a cidade, longínqua.

A senhora simpática, de cabelo curto e óculos, levantou-se e avançou, com deferência. Alheia aos sorrisos mal disfarçados dos colegas, guiou-a através do corredor, junto aos guichets, ultrapassou o guarda-vento, atravessou o hall de entrada, penetrou na zona reservada e, finalmente, deteve-se junto à porta de um gabinete, que abriu.

Com um baixar de cabeça agradeceu a delicadeza da senhora simpática, de cabelo curto e óculos, que se inclinava, numa vénia.

«Bem-vinda, Senhora Doutora! Este é o gabinete que lhe foi atribuído. Agora volto para a secretaria... Se desejar alguma coisa...»

«Obrigada. Se precisar, eu aviso.»

Em poucos segundos desvaneceu-se a imagem da funcionária e do corredor, apenas restando, em primeiro plano, a porta de madeira escura, fechada.

Voltando-se, deu alguns passos, progredindo em território estranho, excessivamente ocupado.

Sobre o chão frio, erguiam-se uma secretária, duas cadeiras, um pequeno armário rectangular, uma mesinha de apoio e inúmeras pilhas de processos com capa de cartolina azul celeste.

Também pelos móveis se apinhavam dossiers, livros, um telefone empoeirado e mais montanhas de processos.

Pairava sobre o relevo desordenado do aposento uma pesada camada de ar, que lhe pareceu irrespirável porque também ela impregnada de pó e, se possível, de papel, até ao tecto alto e sujo, até ao candeeiro frio, de lâmpadas fluorescentes, até às janelas subidas, de armazém, encostadas ao tecto, não deixando entrar a luz nem a brisa, mas tão somente a suspeita de uma humidade insidiosa e de uma chuva persistente...

Aproximando-se da cadeira da secretária, observou as paredes, recobertas de azulejos verdes e brancos, semelhantes aos das casas - de - banho. Estacando, de repente, escutou os ruídos exteriores e pressentiu (mais do que ouviu) o aclarar da garganta de um colega vizinho, o circular dos automóveis no alcatrão molhado e o tamborilar da chuva na calçada.

Na mesa de apoio, afastou uma resma de papel, unida em maços heterogéneos por um cordel branco. Pousou a pasta. Cuidadosamente, experimentou a cadeira, desconfiada da sua robustez, pendurou a bolsa no encosto, e sentou-se. Estendendo as mãos, pegou num processo, e noutro, e num terceiro, e nos que corriam a seus braços como crianças carentes. Soerguendo-se, colocou-os de lado, deixando à vista o tampo riscado e corroído da secretária.

Com súbito entusiasmo, rodou a cadeira, ávida da pasta e da caneta nela contida. Mas o choque com uma montanha de processos fê-los tombar, precipitando-os em estrondosa cascata que deslizou pelo chão.

Baixou-se para recolocar os processos na pilha, ao mesmo tempo que fazia balançar outros morros, de equilíbrio evidentemente instável, existentes sobre a secretária

Limpou, nas calças novas, propositadamente compradas para estrear nesse dia, as mãos já sujas de pó, levantou-se com vigor, deu dois passos e tropeçou, arrastando papel, cartolina e cordel branco pelos mosaicos pouco limpos do gabinete.

Confusamente, ouviu o telefone tocar. Com esforço, alcançou o auscultador, que aproximou do ouvido, bruscamente. Depressa, porém, a expressão do seu rosto se suavizou.

«Então, querida, está a correr tudo bem?»

Imprimiu à voz o máximo de optimismo que conseguiu reunir dentro de si:

«Ah, sim. Tudo bem!»

«E o pessoal?»

«Ah, fui muito bem recebida. Há uma funcionária especialmente amável, que se mostrou muito prestável e me trouxe ao gabinete...»

«Optimo! Viva o luxo!»

«é...»

«Tenho uma reunião agora. E depois outra, às cinco horas. Vais buscar a Clara?»

«Claro!!!»

Riu-se, aliviada com o eco de gargalhada vindo do outro lado do telefone. Era o seu (deles) trocadilho de serviço. Apto a aliviar todas as tensões (mesmo as não assumidas - especialmente as não assumidas).

«Então, até logo. E a continuação de um óptimo primeiro dia de trabalho!»

«Obrigada. Um dia feliz para ti, também. Beijos.»

Desligou, mais animada. Resolutamente, arregaçou as mangas. De olhar semi-cerrado calculou, em primeiro lugar, como arrumar os processos de forma a poder caminhar livremente pelo gabinete.

Recordou-se, com inveja, das amplas janelas da secretaria. Aí, pelo menos, os parapeitos constituíam excelentes prateleiras. No seu caso, nem dessa solução podia socorrer-se, encontrando-se, como se encontrava, num gabinete improvisado, que fora até há bem pouco tempo a sala das testemunhas.

E para quê janelas tão altas? - perguntou-se - Para as testemunhas não fugirem, aterrorizadas com as vestes negras e solenes dos magistrados, dos advogados e dos escrivães? Ou, antes, para não se escapulirem ardilosamente pela sanca exterior ao edifício e, em equilibrismos Hollywoodescos, caminharem até às vizinhas janelas da sala de audiências e, aí, através de leitura labial, tomarem conhecimento do depoimento das outras pessoas (testemunhas, peritos, partes), o que lhes era absolutamente vedado?

Metodicamente, começou a abraçar molhos de processos que carregava, toda curvada, até junto das paredes, agrupando-os, rente aos azulejos brancos e verdes, verticalmente, em torres e arranha-céus oscilantes. Os livros, alinhou-os ordenadamente em cima do armário.

Este sistema permitiu-lhe conquistar uma área considerável de território. Agora, sim, podia deslocar-se entre a secretária e as cadeiras, entre o armário e a porta e a mesa do telefone, com certa ligeireza de movimentos!

Pensou que um pano do pó e uma planta tornariam o ambiente mais agradável, e recordou-se da secretaria, onde havia luz com abundância e uma tal profusão de vasos com fetos, plantas da borracha e troncos da felicidade, que mais parecia uma estufa ou um parque tropical.

Considerou que as janelas também ajudavam - as plantas necessitam de luz e de ar - e lamentou que as suas fossem tão altas e inúteis.

Se as paredes não estivessem recobertas de azulejos poderia trazer uns quadros e decorar o gabinete. Sim, tinha lá em casa uma reprodução de um Renoir que trouxera da última viagem a Paris. Era magnífica, evidentemente... mas não lhe parecia que condissesse com os azulejos brancos e verdes!

Tomou, desta vez, a iniciativa de ligar o telefone.

Atendeu imediatamente a funcionária simpática, da secretaria

«Importa-se de cá chegar, se faz favor?»

«Com certeza, é só um momento.»

Meia - hora depois, quando, já impaciente, se preparava para tornar a telefonar, apareceu a escrivã, balbuciando da entrada:

«Peço desculpa, senhora doutora, mas estou sozinha na secretaria, apareceu um advogado para consultar um processo e tive de o procurar...

«Sim, tudo bem.»

Mudou de tom de voz, procurando ser imperativa:

«Diga-me uma coisa: para organizar melhor o trabalho quero que me indique quais destes processos aguardam despacho e quais são os que podem ser imediatamente arquivados na secretaria.»

A resposta foi imediata:

«Estão todos a aguardar despacho, senhora doutora.»

«Todos! Bom, então quero que me diga quais são os mais urgentes, para os classificar por ordem de prioridades.»

A informação não poderia ser mais precisa:

«Todos estes processos estão para despacho urgente, senhora doutora.»

«Mas os mais urgentes...»

«São todos muitíssimo urgentes!»

A funcionária simpática, de cabelo curto e óculos quedou-se junto à porta, semi-aberta, em que se apoiava. O seu rosto permanecia expectante, e mantinha-se impassível, como anteriormente. Não se vislumbrava, agora, a sombra de um sorriso. Mas também não se detectava ironia ou sarcasmo na sua atitude. Informara, simplesmente, como devia informar. Competentemente.

Por momentos, aquela figura esguia e impávida tornou-se desfocada, ténue, trémula, na visão da sua interlocutora, sentada na cadeira, do lado de cá da secretária.

Uma vertigem ensombrou-lhe o cenário de paredes de azulejo de casa - de - banho e processos, dezenas de processos, centenas de processos, às pilhas, em torres e arranha-céus, aos montes e vales, em planaltos que a cercavam, ameaçadores, de todos os lados.

Gradualmente, tudo escureceu, e assim se manteve por escassos segundos.

Depois, a paisagem foi-se recompondo, readquirindo cor, e o azul das capas de cartolina uma vez mais lhe recordou o mar, ondeante mas suave, quase tranquilo, a acariciar as margens esverdeadas, em cerâmica.

Quando voltou a observar a funcionária, já os seus contornos apareciam perfeitamente definidos, e as palavras, emanadas da sua boca, revelavam-se espantosamente claras:

«Se a senhora doutora o desejar, amanhã coloco-lhe sobre a secretária os processos para despacho de mero expediente, que são os mais rápidos», propôs. «Hoje não, que está na hora da saída. Mas amanhã a senhora doutora despacha uns dez processos. Depois de amanhã mais dez...»

«E os outros...»

A funcionária permitiu-se sorrir, com genuína simpatia.

«Os outros estão cá há muito! São decisões difíceis e resolvem-se com o tempo.»

«Sim...»

Sentia empatia no outro extremo do aposento, junto à entrada.

«Se a senhora doutora não precisar de mais nada, então, saio.»

«Obrigada, não preciso, não. Até amanhã.»

«Até amanhã, senhora doutora.»

Ao olhar para o relógio percebeu que estava na hora de, também ela, sair. Precisava de ir buscar a Clara, que acabava as aulas às seis e meia, nesse dia.

Apanhou a bolsa e a pasta, dirigiu-se à porta e, antes de apagar a luz, ainda lançou um olhar sobre o minúsculo gabinete que lhe fora atribuído. Sentia-se um pouco atordoada, mas recuperava com surpreendente rapidez.

Já no corredor, apercebeu-se de que, sem que o tivesse notado (provavelmente o caso dera-se quando, afanosamente, carregava processos de um lado para o outro do gabinete) haviam colocado uma placa na sua porta.

Um colega, que passava nesse momento, cumprimentou-a delicadamente, e do outro extremo, além guarda-vento, a funcionária simpática, levando no braço um enorme guarda-chuva vermelho, saudou-a com respeito e estima.

Ainda teve tempo de reler as palavras escritas na pequena placa de cobre, antes de alcançar o elevador:

«Juíza de Direito».

Ao impacto inicial, seguiu-se uma sensação estranha, indefinível: Seria orgulho? Felicidade? Medo? Horror?

Pelo espírito passou-lhe, fugaz, o traçado lúgubre das janelas estreitas, rentes ao tecto manchado de humidade, e visualizou os estranhos esforços de equilíbrio de um vulto absurdo que fugia pela sanca exterior do edifício...

Mas afastou o pensamento. Correu, sob a chuva forte, até ao automóvel. Abriu a porta, sentou-se, atirou a pasta e a bolsa para o banco traseiro, e apertou o cinto. Não importava mais nada, agora. Tinha de se apressar. A Clara estava à sua espera, sem guarda-chuva, e com a pesada mochila às costas, junto ao portão da escola.

Nessa noite, já estava combinado com o João, iriam todos, incluindo os pais e os irmãos, jantar fora, num restaurante de luxo, para festejar a sua promoção e o primeiro dia no exercício de funções.

Hip! Hip! Hurra!




Poesia de Conceição Tomé


Poesia de Conceição Tomé


O Mistério da Vida; Dia Outonal; Paz Para o Mundo  


O Mistério da Vida

 
 Ninguém conhece se há vida
 Para além daquela que conhecemos
 Porque a vida é um mistério
 Que ainda não desvendamos.
Apenas sabemos,
Que nascemos e morremos.

 Quem somos nós na conjunção
Do Universo infinito
 Se ainda ignoramos
 O seu fim e o seu princípio?
 Talvez daqui a uns quantos milénios
 Se humanos ainda houver
 Esse mistério deixe de o ser.

 São Tomé

 
 Dia Outonal

 
 A manhã soturna e fria
 Deixou-me no coração
 Uma forte nostalgia
 E uma certa crispação.
 Um céu plúmbeo
 Descarregou a sua mágoa
 Que escorreu pelas vidraças
 Em forma de gotas de água.
 E vi as árvores da rua
 Trémulas de medo e de frio
 Uma a uma ficar nua.
As suas exuberantes vestes
 Num tom castanho - acobreado
 Serem arrancadas pelo vento
E rolarem pelo chão molhado
 Num frenético rodopio.
 Era o prenúncio do Inverno
Que se vai aproximando
Frio e intransigente
À espera da Primavera
 Que chegará brevemente
Para vestir de novo as árvores
Com um tom verde - brilhante.

 São Tomé

 
 Paz Para o Mundo

 
 Cessem os gritos
de fome e de terror
 das crianças abandonadas,
desnutridas!
 Sequem os rios
 do pranto e da dor
 e aflorem as puras fontes
de vergonha escondidas!
 Clamem bem alto
as palavras de todos os poetas
 Pela Paz do Mundo e pelo Amor,
 como um bom presságio de profetas!
 Obstrua-se
o curso da destruição
 pelas guerras hediondas,
sem sentido!
 Brote a fraternidade
em cada coração,
 para que o mal seja sempre vencido
 e só o Amor
seja engrandecido
 neste planeta ainda belo
que está a ficar moribundo!
 Haja Paz! Paz para o Mundo!

 São Tomé




ANTERO DE QUENTAL – Inovador de Ideias


ANTERO DE QUENTAL – Inovador de Ideias

Por PEDRO LUSO DE CARVALHO (Blogue Panorama)


ANTERO DE QUENTAL, que foi registrado no Cartório Civil como Antero  Tarquínio de Quental, nasceu a 18 de abril de 1842,  em Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores, onde passou sua infância. Era filho de Fernando de Quental e D. Ana Guilhermina da Maia, ele açoriano, ela natural de Setúbal.

Em São Miguel, fez seus primeiros estudos até ser matriculado no Colégio do Pórtico, dirigido por António Feliciano de Castilho, no Continente. Aprendeu desde tenra idade as línguas francesa e inglesa. Na intimidade que viveu com a família Castilho, recebeu as primeiras luzes de latim, em curso por este ministrado.

Estudou em Coimbra, onde se fez notar pelas atitudes revolucionárias e pelo arrojo inovador das ideias. Foi o provocador e líder da célebre “Questão Coimbrã”, a qual, mais que um combate a Castilho, representou um golpe contra o romantismo e a afirmação de um espírito novo: o da chamada Geração de 1865.

Vida agitada e dramática, sua figura humana ainda se distingue mais do que a figura intelectual. Teve ímpetos para a ação, e chegou a fundar sociedades revolucionárias (movimentos políticos filiados à doutrina socialista); esses ímpetos sucediam, porém, crises de solidão e pessimismo. Então, refugiava-se em Ponta Delgada, e por muito tempo ninguém tinha notícia de sua existência.

Estudou filosofia e problemas sociais, chegando a elaborar um sistema pessoal de ideias, do qual só publicou fragmentos. Essa tendência filosófica está refletida na sua poesia, das mais altas e originais da língua portuguesa. É de se lhe notar a predileção pelo soneto, forma que havia sido desdenhada pelos românticos.

Em data de 28 de setembro de 1858, matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra. Estava então, com dezessete anos. Eça de Queirós dirá, na sua evocação da mocidade de Antero de Quental:

Coimbra vivia então uma grande atividade, ou antes num grande tumulto mental. Pelos Caminhos de Ferro, que tinham aberto a Península, rompiam cada dia, descendo da França e da Alemanha (através da França) torrentes de coisas novas, ideias, sistemas, estéticas, formas, sentimentos, interesses humanitários... Cada manhã trazia a sua revelação, como um sol que fosse novo. Era Michelet que surgia, e Hegel, e Vico, e Proudhon; e Hugo tornado profeta e justiceiro dos reis; e Balzac com o seu mundo perverso e lânguido; e Goethe, vasto como o Universo; e Poe; e Heine, e creio que já Darwin, e quantos outros!

No período que compreende os anos de 1858 a 1860, época em que Antero termina o segundo ano da faculdade, publicou os seus primeiros versos no jornal O Acadêmico, que não passou de três números, Estreava nas colunas dos Prelúdios Literários em 1859, com o poema Quero-te muito, assinando apenas as iniciais de seu nome A. T. Q.

Na época de sua estreia, 1859, que não foi brilhante, a poesia portuguesa sofria o baque com a perda de nomes representativos do romantismo; cinco anos antes, morria Garret, Herculano faria uma nova edição suas Poesias em 1860 – fazia dez anos que não as reeditava. O ano de 1863 marca o início da prosa de Antero, quando começa a afastar-se do romantismo.

Concluiu o curso de Direito em julho de 1864. Nos últimos anos do curso, eram seus companheiros preferidos os cientistas: matemáticos e naturalistas. Mudara com determinação a forma de encarar a sua atividade literária. A fase sentimental de Antero de Quental – o poeta das Primaveras românticas – estava finda.

Antero de Quental chegara aos quarenta e nove anos, depois de ter trilhado um caminho com êxito no plano intelectual, mas sem ter tido tempo para realizar todos os seus sonhos dos vinte anos de idade, quer no campo do pensamento e da mentalidade, quer no território da política e da organização social.

A neurose que acometera  Antero foi responsável pelo seu abatimento físico e mental, que cerceou seus planos em várias áreas de sua atuação, quer como crítico e moralista, quer como filósofo e poeta.

 O poeta retorna de a S. Miguel para escolher uma família que pudesse cuidar de suas duas filhas adotivas, mediante uma mesada. Sua intenção, depois disso, era voltar com sua irmã para Lisboa, mas é na ilha que vive os seus últimos dias.

Depois de comprar um revolver numa loja de quinquilharias da parte baixa da cidade, o caixeiro a embrulha em três folhas de papel; como diz João Gaspar Simões, pretendia Antero dirigir-se ao Campo de São Francisco, mas antes resolveu passara pela casa onde deixara suas filhas adotivas.

O Campo de São Francisco está deserto. Antero de Quental senta-se num dos bancos, junto ao Convento da Esperança, desfaz o embrulho, retira o revólver e leva o cano à boca e detona a arma; muito ferido, puxa novamente o gatilho, e desta vez o tiro atinge-lhe o cérebro.

Isso ocorreu às oito horas da noite. O poeta teria ainda que suportar grande sofrimento, pois somente às nove horas, assistido por médicos chamados de emergência, numa cama da enfermaria do hospital da Misericórdia, dá o seu último suspiro. (Antero de Quental falece no dia 11 de novembro de 1891, em Ponta Delgada, Açores, aos 49 anos de idade.)

No Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse, sob a direção de Antônio Houaiss, o verbete sobre Antero de Quental está assim redigido:

Poeta e prosador português, Ponta Delgada, Açores (1842-1891), espírito angustiado pela dúvida metafísica e religiosa, e, ao mesmo tempo, homem de ação voltado para as ações revolucionárias da época, foi líder de sua geração literária e de movimentos políticos filiados à doutrina socialista. Atacado de grave neurastenia acabou por suicidar-se. O timbre filosófico de sua poesia, trabalhada com lavor, é reflexo de pungentes conflitos interiores, que lhe marcaram a vida. Antero forma com Camões e Bocage, a trindade dos grandes sonetistas portugueses, Obras principais: Odes modernas (1865), Sonetos (1890).

Obras principais de Antero de Quental: Sonetos de Antero, 1861; Odes modernas, 1865; Primaveras românticas, 1871; Os sonetos completos de Antero de Quental, 1886; Raios de extinta luz, 1892; Bom senso e bom gosto, 1865; A dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, 1865; Sonetos (1890), Prosas (3 vols.), 1923, 1926 e 1931.


 



REFERÊNCIAS:

SIMÕES, João Gaspar. Antero de Quental. Lisboa: Editora Presença, 1962.

LINS, Álvaro. HOLLANDA, Aurélio Buarque de. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Vol. I. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966.

LAROUSSE, Koogan. Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse. Direção de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Larrousse do Brasil, p. 1476.