terça-feira, 2 de junho de 2015

Os bolos da Dª Maria Teresa - Texto de Daniel Teixeira


Os bolos da Dª Maria Teresa

Texto de Daniel Teixeira


Por vezes fico com um ar de surpresa em relação a mim mesmo no que se refere a recordações e ao processo de selecção que a minha mente vai buscar como elemento que ela considera relevante e despoletador da recordação de um dado facto ou conjunto de factos.

Acho, usando um pouco do meu raciocínio (nada disto pretende ser  válido em termos científicos e nunca li isto em lado nenhum que me lembre) que a mente usa cábulas, daquelas que se usavam na escola (quem era cábula é claro) que dão início ao desenrolar consequente da mensagem arquivada na nossa mente.

Pois, (nunca cabulei, asseguro) há dias, estava eu em conversa com pessoas do meu bairro e veio à tona da conversa a Dª Maria Teresa. Fiquei surpreso, como já dei a entender acima, pelo que acho preocupante a rapidez da minha resposta no seu conteúdo: «Verdade, era uma excelente senhora...e sabia fazer bolos muito bem.»: acho que deveria ter  referido antes aquilo que mais choca nesta história, é que a Dª Maria Teresa morreu praticamente só e no anonimato mas lembrei-me desde logo que ela fazia muito bem bolos.

Fuga psicológica em frente, inserida na minha mente com o intuíto (se se pode dizer isto) de me poupar à memória imediata uma visão de uma situação pelo menos triste? Francamente acho que estas questões não têm mesmo resposta por mais que se analisem: são assim como mandamentos que surgem não se sabe como nem de onde vêm e no entanto deixam mossa psicológica depois de seguidos, mesmo que involuntariamente seguidos. Resta sempre o remorso para nos fazer à posteriori pensar naquilo que deveríamos ter pensado e não pensámos.

A D. Maria Teresa quase que terá nascido para a doçaria caseira e como tinha pouco ou quase nada que fazer dedicou-se a fundo sendo uma verdadeira e nossa muito solidária expert desde que começámos a conhecê-la: fomos vizinhos, casas lado a lado, e praticamente tinha uma fabricação continuada para consumo próprio e das amigas e vizinhas, o que muito nos alegrava, sobretudo a nós crianças e jovens.

Solteirona, coisa que não se dizia, em princípio deveria ser «Menina Maria Teresa» como é uso, mas foi nominalmente sempre «dona». A história tem aspectos bons e aspectos menos bons: ficou a cuidar da mãe, que enviuvou cedo e a Dona Maria Teresa também não deve ter feito grandes esforços para constituir família mesmo anos depois após o falecimento da mãe. Talvez considerasse que já era tarde, talvez estivesse solidificada na vida a sós, enfim...também ninguém é obrigado a casar e a constituir família.

Beata, tal como se dizia também, passava uma parte substancial do seu tempo na Igreja e em conversas com amigas igualmente «beatas»: um irmão dela, comerciante, apoiou-a sempre financeiramente e embora nunca me tenha preocupado em saber isso, o seu comércio teria sido familiar com o falecido pai, sendo o contributo dele também uma parte daquilo que supostamente seria também propriedade dela.

O irmão faleceu muitos anos depois, teria ela já cerca de 60 anos e a D. Maria Teresa ficou resumida em termos financeiros a uma reforma curta: os bolos começaram a rarear nessa altura.

O processo de queda financeira não acabou só com os bolos, praticamente acabou com tudo, acabou com ela também muito mais que o percurso normal da idade. Afundou-se, mais em termos anímicos do que em termos físicos...

Havia um sistema de comunicação entre as nossas casas: subir até à altura do muro de divisão nos quintais geminados e um outro composto de pancadas na parede, na zona da cozinha e no corredor, em que se procurava saber se ela estava bem ou não: se respondesse aos chamamentos ou ao sistema de toques nas paredes estava tudo certo, quando isso não acontecia tínhamos uma chave da casa dela: primeiro ia a minha mãe, nestes casos; a D. Maria Teresa era extremamente pudica e mesmo quando a encontrava caída sem se conseguir levantar e não tinha forças para o fazer, primeiro compunha-lhe a roupa e só depois vinha buscar ajuda.

Durou talvez cinco anos esta situação: depois acamou e foi para um lar. Fomos informados do seu falecimento por acaso, no dia em que lha íamos fazer a visita semanal já tinham passado vários dias...
 
 Daniel Teixeira




Lendas - O Caldeirão de Clyddno Eiddyn


Lendas

O Caldeirão de Clyddno Eiddyn

Merlin, foi o mais poderoso de todos os magos e profetas da Bretanha. Sua beleza seduzira, durante a juventude, às mulheres que se lhe serviram com ardor. Era filho de uma sacerdotisa com um incubo. Do demônio do pai herdara a inteligência, da mãe o belo físico.

Já na velhice, Merlin tornara-se um grão-druída. Vivia em Avalon, cercado por sacerdotes e sacerdotisas. Fora conselheiro do poderoso Rei Arthur. No seu reino construído sobre os mistérios do mundo, assistiu a invasão dos saxões e, a chegada dos cristãos, que aos poucos, dominou toda a fé das ilhas britânicas.

Ameaçado pelos princípios e tradições cristãs, o velho mago assistiu à perseguição aos costumes dos druidas, e a extinção da sua fé. Merlin aprendeu a odiar os cristãos.

Ignorando os invasores da Bretanha, Merlin continuou a praticar as mais poderosas magias. Conhecia todos os mistérios do céu e da Terra, dos homens e dos deuses, da vida e da morte.

Para combater a ameaça da cristianização do seu povo, Merlin reuniu em Avalon, os maiores cavaleiros dos reinos celtas. Ao lado de tão rudes, valentes e sanguinários homens, partiu em uma busca infindável por todas as terras das ilhas britânicas, numa saga incansável aos Treze Tesouros da Bretanha, dado pelos deuses aos seus antepassados, e que se encontravam dispersos.

Ao reunir os treze objetos sagrados, Merlin tornar-se-ia o mais poderoso de todos os magos, invencível, capaz de derrotar todos os invasores. Ao devolver os objetos aos deuses, eles voltariam com vigor às ilhas e ao seu povo.

Doze dos tesouros foram encontrados e reunidos. Faltava o décimo terceiro, o caldeirão de Clyddno Eiddyn.

O poderoso caldeirão não poderia ser encontrado por um cavaleiro, e sim por uma virgem. Para cumprir a missão, Merlin lançou mão da mais bela das suas sacerdotisas, Nimue, por quem nutria uma grande paixão.

Diante do caldeirão, Merlin confidenciou à amada, que de dentro dele viria a poção da vida eterna. Fascinada pela promessa, Nimue aprisionou Merlin em um carvalho, roubando-lhe tão precioso objeto.

A bela amante do mago desapareceu, levando o caldeirão. Preparou nele todas as porções mágicas que aprendera com o mestre. Na ilusão de que alcançaria a beleza e juventude eterna, atirou-se ao caldeirão, morrendo escaldada.

Ao se libertar da prisão do carvalho, Merlin procurou em vão, pelo caldeirão mágico. Reuniu os mais valentes dos cavaleiros britânicos, mas jamais encontrou tão poderoso talismã.

Perdido o caldeirão de Clyddno Eiddyn, as iniciações dos cultos aos deuses pagãos enfraqueceram. Outra fé tomou conta da Bretanha. Merlin viu a suas tradições perdidas, os seus deuses extintos.




Poesia de Ivone Boechat


Poesia de Ivone Boechat

Mulher

Ivone Boechat

Um aroma suave
exalou das mãos do Criador,
quando seus olhos contemplaram
a solidão do homem no Jardim!

Foi assim:
o Senhor desenhou
o ser gracioso, meigo e forte,
que Sua imaginação perfeita produziu.
Um novo milagre:
fez-se carne,
fez-se bela,
fez-se amor,
fez-se na verdade como Ele quer!

O homem colheu a flor,
beijou-a, com ternura,
chamando-a, simplesmente,
Mulher!


Sou mulher

Ivone Boechat

Sou mulher,
com as aflições e a inspiração do poeta,
o esplendor e a serenidade das mães!

Sou uma canção de ninar,
experimentadora dos sabores do tempo,
estrela da constelação familiar!

Sou letra e música da canção
do mais puro sentimento
que a mulher é capaz de cultivar!

Sou feita síntese do segredo de amar,
tenho fases minguante e cheia,
assim como o luar!

 
Mulher madura

Ivone Boechat

Esse ar puro
oxigenado de maturidade
me dá o aspecto de que já vi tudo na vida,
disposta a rever a própria vida.

Esse jeito felino ou de criança
me dá a certeza de ser forte como nunca,
agarrada nos braços da esperança.

Este sentimento de mulher humana
me dá o direito de viver feliz,
inspirando segurança,
como se já tivesse feito tudo
o que sempre quis.

Essa determinação de chegar faceira,
sem ter que explicar nada
nem dizer porque,
me dá a sensação
e estar no auge da vida,
a vida inteira.



My Blueberry Nights - Crônicas da madrugada - Querer é poder? - Por Cynthia Kremer


My Blueberry Nights - Crônicas da madrugada

Querer é poder?

Coisas que me irritam (muito!)

Por Cynthia Kremer

Frases e livros de auto-ajuda: aqueles bem medíocres que te dizem que "quando você quer muito algo, o universo conspira em seu favor!" Agora me digam: existe raciocínio mais cretino do que este? Porque se não fosse este um sofisma inescrupuloso e sem nenhum embasamento, todos, sem exceção, estaríamos bem, num mundo idílico, teríamos o que quiséssemos e o que pedíssemos, não é verdade?

E no entanto, não é isso que se vê. 95% da população do mundo vive em estado de certa frustração, cheia de privações, sem conseguir sequer chegar perto de seus sonhos. E garanto a vocês que não é por falta de "querer" com fervor, de pedir "a Deus, aos santos, aos Orixás, ao universo", entre outros. Nestes 5% incluem-se os autores destas obras de esperteza que se auto-ajudam muito bem, pois de tolos, não têm nada.

O que estas frases e livros fazem na verdade, é prestar um desserviço a um número enorme de pessoas, levando os crédulos, incautos e desesperados, a crer que isto é uma verdade absoluta.

E por mais que peçam, não conseguem. E mais ainda se frustram. Estes livros dão falsa esperança, aliás, dão uma vírgula! Vendem! (e muito) a idéia "mágica" de que é tudo fácil. Basta querer muito, junto com alguns rituais imbecis, que você alcançará seus sonhos. O que é péssimo, de extremo mau gosto, além de ser charlatanismo.

Não os acho nem um pouco acima dos que vendem sonhos por R$30,00 lendo a palma da mão, jogando tarô ou com uma bola de cristal, com a promessa de devolver o homem amado em no máximo três dias, ou de que você vai conseguir aquela promoção no trabalho que anseia há tanto tempo: o princípio é o mesmo.

Lucrar em cima da urgência dos que necessitam de alguma coisa. Seria apenas mais uma bobagem com a mesma inutilidade das tantas outras leituras rasteiras, rasas e sem conteúdo, não fossem tão perniciosos.

A minha crítica em relação ao livro e mais precisamente à frase – que é atribuída a diversos escritores, dentre eles um brasileiro – não poderia ser mais profunda porque a tese em si é muito rasa e sem conteúdo suficiente para maiores dissertações. Ela esgota-se nela mesma com a simplória promessa mágica de que “basta querer muito algo que o universo irá conspirar em seu favor”.

Como acho esse tipo de indução a erro com fins lucrativos muito aviltante, escrevi com indignação.

Geralmente os escritores de livros de auto-ajuda vendem fórmulas prontas e muito fáceis, pois os que compram esses livros estão passando por momentos difíceis, desesperados por razões diversas e anseiam por uma solução rápida que dê fim aos seus problemas.

Sabemos que não existem “pensamentos mágicos” que nos tirem de qualquer situação indesejada sem trabalho, sem esforço e sem algum tipo de sacrifício ou sofrimento.E quando eu digo que a frase esgota-se nela mesma, é porque não há nenhum embasamento na sua veracidade, muito pelo contrário.

Hipoteticamente falando, claro, vou dar um exemplo bastante prosaico: num dia de Fla-Flu, um grupo de torcedores dos respectivos times que leram o tal livro, irão torcer e pedir muito ao universo que seu time ganhe e, a não ser que dê empate, um deles sairá vitorioso. Então devemos concluir que o grupo do time que perdeu não pediu com afinco, não quis o suficiente ou com tanto fervor quanto o outro?

Ou ainda: se Pedro, que ama Lia e pede muito ao universo que seu amor seja correspondido, pois leu e acredita na frase, fica muito angustiado ao perceber que Lia não lhe corresponde os sentimentos, pois assim como Pedro, Lia também pede muito ao universo para que João se apaixone por ela, e assim sucessivamente.

Pedro teria perdido o seu amor porque pediu pouco, ou será porque Lia ama mesmo outro homem e nunca irá corresponder ao amor de Pedro, assim como João também não corresponderá a Lia, pois ama outra?

Sairão todos frustrados e, pior ainda, desgastados nessa historinha banal e cruel como é a vida real. Se Pedro e Lia fossem mais realistas e cautelosos, saberiam que o universo - ou qualquer outra metáfora que indique uma força superior - não dá a mínima, talvez sofressem menos e, certamente, não perderiam tanto tempo em vão caso não acreditassem em “pensamentos mágicos” para que seus desejos se realizassem.

A questão é que ao invés do bem, acreditar que basta querer muito alguma coisa sem nada fazer a respeito, é um desserviço e um tremendo engodo para com os incautos, crédulos e desesperados, mas parece ser um ótimo serviço para esses autores que vêm se locupletando com fórmulas mágicas que pipocam a cada dia.




segunda-feira, 1 de junho de 2015

Luiz Forjaz Trigueiros - Texto /Resenha de Daniel Teixeira


Luiz Forjaz Trigueiros

Texto /Resenha de Daniel Teixeira

Boa noite Pai

Tenho-me dedicado nos tempos livres e nos tempos não livres a reler alguns autores que no meu tempo de escola e não só foram referências para mim importantes no desenvolvimento do meu gosto pela literatura.
 
Faço-as, estas releituras, por razões que vão muito além do mero saudosismo: na verdade, na actualidade tenho tido dificuldade em gostar da literatura que se produz actualmente, seja ela nacional ou estrangeira, ainda que pudesse facilmente apontar um número razoável de excepções.

O volume de contos «Ainda há estrelas no Céu» de Luiz Forjaz Trigueiros (1915-2000) é apenas um livro no percurso literário deste autor, cujos caminhos se estendem da ficção ao jornalismo, ao ensaio e à crítica literária e teatral.

Contém este pequeno volume os contos «Boa noite, Pai» (1942) e «Aquelas Mãos» (1940) que tiveram bastante acolhimento na altura da sua publicação e que foram traduzidos em várias línguas. Sobre este último, «Aquelas Mãos» faremos o seu resumo e notas numa outra publicação seguinte.

Há outros contos dentro deste pequeno volume que mereciam igualmente uma referência da minha parte neste pequeno texto ou noutros, mas talvez a eles revenha numa outra altura.

Por ora digamos que estes dois contos tratam quer da infidelidade numa perspectiva latente ou potencial não efectivamente consumada na sua forma mais conhecida, quer do ciúme, ainda que ambos vistos em perspectivas bastante diferentes.

Há várias formas de infidelidade e de ciúme sem que alguma delas possa ser considerada nas acepções correntes: neste conto que vou referir a seguir há uma forma de infidelidade, na medida em que se descrevem percursos lógicos diferentes da base esperada ou desejada e é dessa tensão entre a realidade e aquilo que se esperaria, segundo formas de pensar distintas, que pode existir a ideia de uma infidelidade também ela distinta.

No conto «Boa noite, Pai» trata-se de alguma forma de ciúme ainda que o fulcro do tema se situe no relacionamento entre um pai e uma filha: não se trata pois do ciúme amoroso naquele sentido mais corrente mas sim de um sentimento de afastamento progressivo de uma filha do seu pai, à medida que a mesma cresce, o que acaba por colocar uma segundo questão que será a de se saber se é a filha que cresce afastando-se do pai ou se é o pai que não acompanha a sua evolução e a evolução dos tempos.

Há neste problema que o autor desenvolve também uma forte componente de crise da sua meia idade que está presente e se acentua dado a evolução do seu relacionamento com a sua filha e do relacionamento desta com um período socialmente diferente cujo percurso ele tende a não conseguir psicologicamente acompanhar, preenchendo os espaços vazios da sua mente neste campo com as mais variadas e imaginadas suspeitas sobre o comportamento actual da filha.

O autor é bastante simpático com o desfecho do conto tudo acabando em bem, pelo menos no conto, com um «simples» Boa Noite, Pai.

Quando disse atrás que o autor tinha sido simpático na narrativa não esqueço é claro que os problemas entre ele e a evolução da sua filha única (e dele com a sociedade) não acabam, embora o «Boa noite pai!» sirva de alguma forma como paliativo.

Para o leitor que atentar no escrito notará seguramente que o conflito é apenas adiado porque o personagem mais não faz do que fazer reflexivamente regressar este «Boa noite, Pai» aos tempos passados, aos tempos em que a filha era para ele ainda uma criança, como veremos nestes estractos:

«Vê-a pequenina a chegar da escola primária ao meio-dia, para almoçar, laçarotes cor de rosa, almazinha cor de rosa, futuro cor de rosa.» (...)  «Gabi era ainda Gabriela (o senhor Mota nunca se habituou a chamar-lhe Gabi, e talvez gostasse mais da outra filha, a de ontem, a do nome por extenso), ainda era Gabriela e ainda sorria.

Esteve oito dias entre a vida e a morte (...) durante longas noites de vigília os pais alternaram-se à cabeceira. (...) Aristides acompanhou a longa convalescença de Gabriela, e só se afastava quando a filha dizia meigamente "Boa noite, Pai" e adormecia com a mão dada com a sua, (...).
A verdade é que nunca mais, nunca mais, a filha voltara a tratá-lo tão meigamente e com entoação tão doce.(...).

(...) Oito horas, oito e meia. A chuva abrandou, iluminaram-se mais candeeiros na velha rua deserta (...) Aristides Mota ouve na escada os passos apressados de Gabriela (...). Ouve-a atravessar o corredor, dirigir-se à salinha pequena onde, há duas horas, ansiosamente a espera. Gabriela vem de cabelo revolto, encharcada, a pintura desfeita, escorrendo-lhe ainda na cara a água da chuva.

Pára um momento mesmo à porta, surpreendida com o olhar do pai, que fica em silêncio, pois nem se atreve a dizer-lhe nada. Gabriela dá dois passos em frente, adivinha que qualquer coisa se transformou no pai, mas não pode compreender o quê. Então, enlaça-o instintivamente com mais ternura que de costume, e diz-lhe simplesmente, naturalmente: «Boa noite, pai!»

Acho que é um conto bem escrito, que consegue prender o leitor do princípio ao fim, sobretudo porque na sociedade em que vivemos actualmente e graças aos massacres constantes das ideias verdadeiras e falsas de modernidade, teremos seguramente margem para fazer as extrapolações ideadas que aqui o pai faz sobre a sua filha, o que me leva a uma outra questão, que é a de saber até que ponto este conto terá sido actual na altura em que foi escrito (1942), isto é, numa altura em que esse tipo de preocupações tinham talvez menos variáveis para explorar mas que a avaliar pelo escrito existiam já com a profundidade que alguns de nós por vezes lhes damos hoje.

Mas...retiremos um pouco mais a Luz Forjaz Trigueiros:

(...) Gabriela (...) «Disse-o simplesmente, naturalmente, mas Aristides Mota logo esquece ali mesmo quanto o preocupava e afligia. Responde-lhe sorrindo como numa bênção que nunca soube dar: «Boa noite, filha!», e fica-se muito surpreendido por ter encontrado naquele momento o eco duma voz diferente.

Ele próprio diz "Boa noite, filha" como o dizia sete anos atrás nas longas noites dessa outra angústia tão diferente da que experimentou agora.

Gabizinha vai arranjar-se para o jantar. O senhor Mota ergue-se a custo do maple, vai lá dentro por o casaco, endireitar o laço da gravata. Canta-lhe ao ouvido aquela voz inesperada :«Boa noite, pai», que lhe trouxe, afinal todo o doce sabor da antiga paz.

E senta-se à mesa, sem coragem para fazer qualquer pergunta, muito feliz e sorridente.»





O ALBERTÃO, O FRANCISCÃO E O DOMINGÃO


O ALBERTÃO, O FRANCISCÃO E O DOMINGÃO

Conto Infanto / Juvenil por Avómi

(Cremilde Vieira da Cruz)


Encontrei estes três irmãos num dos meus passeios pela floresta africana. Quando me viram, ao contrário do que esperava, dirigiram-se a mim e olharam-me admirados, como que a dizer que o meu lugar não era ali.

Nunca tinha visto veados tão perto e foi uma sorte acontecer naquele dia, pois nos vastos passeios que dei pela floresta com esperança de encontrar estes animais de que tanto me falavam, apenas os tinha avistado a uma distância enorme.

- O que faz aqui uma avozinha solitária? - perguntou o primeiro.
- Gosto dos teus cabelos brancos! - exclamou o segundo.
- Vieste para nos conheceres? - perguntou o terceiro - Tem cuidado! Não devias andar por aqui sozinha.

Então eu disse:
- Em primeiro lugar, gostaria que me dissessem os vossos nomes, pois gosto de tratar os animais, assim como as pessoas, pelos nomes próprios.

- O meu nome é Albertão, este é o Franciscão e aquele o Domingão. - disse o primeiro.
- Muito bem! Têm nomes muito bonitos! Quem escolheu os vossos nomes?

- O meu nome foi escolhido pelo meu pai. Quando nasci era muito grande e o meu pai entendeu que, em vez de me pôr o nome de Alberto que tinha escolhido antes de eu nascer, chamar-me-ia Albertão.

- O meu nome é Franciscão. Foi o meu avô que escolheu. Apesar de eu ter nascido muito pequenino, ele entendeu que eu iria crescer muito e, por isso, achou que não deveria chamar-me Francisco, mas Franciscão.

- Eu sou o Domingão! Foi a minha mãe que escolheu. Como nasci num domingo de Céu azul e Sol radioso e ela achou que tinha sido o domingo mais belo de toda a sua vida, em vez de me chamar Domingo, chamou-me Domingão.

- Não há dúvida que, qualquer de vós é um exemplar imponente! - acrescentei.

Vou então falar-vos de mim:
Chamo-me Avómi, e quem me pôs o nome foi o meu neto, o Tiago que é um menino muito simpático. É pena que não o possa trazer aqui para vos apresentar, pois ele também gosta muito de animais e tenho a certeza que lhe agradaria conhecer-vos.

Tenho vindo aqui dezenas de vezes, sempre só, porque queria ver-vos de perto e falar convosco. Venho sempre só, porque aqueles que poderiam acompanhar-me não acreditam, quando lhes digo que me encontro com os animais e converso com eles. Dizem que sou maluquinha.

- Malucos são eles! - disse o Albertão, erguendo as hastes de que se orgulhava.
- Agradeço o apreço que demonstraste pelos meus cabelos brancos,
Franciscão. Não é vulgar gostar-se de cabelos brancos, sabes? Até há quem os pinte de castanho, de preto, de louro e de outras cores. - disse eu.
- Cada um usa como gosta, não é? - disse o Franciscão - Também há quem não goste das minhas hastes, mas eu gosto e ando sempre de cabeça bem levantada, para que se vejam bem.
- São lindas! - exclamei - Agora que as vi de perto, ainda gosto mais que antes.

Falta responder ao Domingão, o que passarei a fazer:
Agradeço o teu cuidado, Domingão! Tens razão, pois sou um bocado atrevida e desloco-me na floresta como se da minha casa se tratasse. Nunca penso no perigo que isso acarreta. Contudo, tenho tido muita sorte e todos os animais que tenho encontrado têm sido atenciosos e estimam-me bastante.

Há dias, quando vos procurava, dei comigo diante de um leão tão grande, tão grande, que pensei:
Desta vez acontecer-me-á como à Avozinha do "Capuchinho Vermelho". Mas não! O leão foi tão simpático que foi ele próprio a dizer-me que se quisesse encontrar-vos, teria que vir a esta hora.

Acreditei nele e aqui estou, muito contente por estar frente a frente com os veados mais elegantes e agradáveis que jamais tinha imaginado.

1991/10/06

Avómi

(Cremilde Vieira da Cruz)




Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Coincidências...


Um criador de galinhas vai ao bar local, senta-se ao balcão ao lado de uma mulher e pede uma taça de champanhe.
A mulher comenta:
-Que coincidência! Eu também pedi uma taça de champanhe.

-Hoje é um dia especial para mim - diz o fazendeiro - Estou a festejar.
-Hoje, é também um dia especial para mim! - diz a mulher - E eu também estou a festejar.
-Que coincidência! - diz o fazendeiro.

Enquanto "batem" as taças, ele pergunta:
-E o que é que a senhora está a celebrar?
-Eu e meu marido há uns tempos que andamos a tentar ter um filho e hoje o meu ginecologista disse-me que estou grávida.
-Que coincidência! - diz o homem - Eu sou criador de galinhas e durante muitos anos as minhas galinhas não eram férteis. Mas consegui! Elas hoje começaram a pôr ovos férteis.

-Isso é óptimo - diz a mulher - Como é que conseguiu que as suas galinhas ficassem férteis?
-Usei um galo diferente - diz ele.
A mulher sorri, brinda novamente e diz:
- Que coincidência!!!



O poder de um beijo...


Vinha pela estrada uma caravana de motociclistas fortes, bigodudos em suas poderosas motos, quando de repente eles vêem uma garota a ponto de pular de uma ponte sobre o rio.

Eles param e o líder deles particularmente corpulento e de aspecto rude, salta, e se dirige para ela perguntando:
- Que diabos você está fazendo??
- Vou me suicidar-- Responde suavemente a delicada garota com a voz cadenciada e ameaçando pular.

O motociclista pensa por alguns segundos e finalmente diz:
- Bom, antes de saltar por que não me dá um beijo?

Ela acena com a cabeça, coloca de lado os cabelos compridos encaracolados e dá um beijo longo e apaixonado na boca do motociclista parrudão.

Depois desta intensa experiência, a gangue de motoqueiros aplaude, o líder recupera o fôlego, alisa a barba e admite:
- Este foi o melhor beijo que me deram na vida. É um talento que se perderá caso você se suicide. Por quê quer morrer?

- Meus pais, sâo muito moralistas, não gostam que eu me vista de mulher!!!...


O REFORMADO

As pessoas que ainda trabalham, perguntam-me muitas vezes, o que é que eu faço todos os dias, agora que estou reformado...
Bem, por exemplo, outro dia fui tratar de um assunto no meu banco, não demorei muito, foi uma questão de cinco minutos.

Quando saí, um Polícia estava preenchendo uma multa por mau estacionamento.
Rapidamente aproximei-me dele e disse:
- Vá lá, senhor guarda, eu não demorei mais que cinco minutos...! Deus irá recompensá-lo se tiver um gesto simpático para com um reformado...

Ele ignorou-me completamente e continuou a preencher a multa.

Aí eu passei-me, e disse-lhe que só tinha demorado 1 minuto, blá blá blá...
Ele olhou-me friamente e começou a preencher outra infracção alegando que também não tinha a vinheta comprovativa do seguro.

Então levantei a voz para lhe dizer que já tinha percebido que estava a lidar com um polícia idiota e mal formado, e que nem compreendia como é que ele tinha sido admitido na polícia de trânsito...etc, etc

Ele terminou de autuar pela segunda infracção, colocando-a no para-brisas, e começou com um terceiro preenchimento.
Eu já o estava a chatear há mais de 20 minutos, chamando-o de tudo.

Ele, a cada "mimo", respondia com uma nova infracção e consequente preenchimento da respectiva multa acompanhada de um sorriso que reflectia uma satisfação de vingança...

Depois da décima violação disse-lhe:

- Tenho pena senhor guarda, mas tenho que me ir embora vem ali o meu Autocarro! Desde que me reformei, aproveito todas as oportunidades para me divertir!


Um burro é sempre a melhor solução tecnológica...

Um alentejano do monte vai observar um engenheiro que está a trabalhar na construção de uma estrada ali nos arredores de Mértola, para os lados da Mina. O técnico está a fazer medições do terreno com um teodolito.

- Botardeee! – botou faladura, apoiando-se no cajado – Vomecê é que veio fazer essa estrada?
- Sim. Nós temos a mais alta tecnologia para construção de estradas e estamos aqui para dar uma mãozinha prós alentejanos, pra ver se isto vai prá frente!

- E pra que tá usando essa coisa aí, mais parece uma panela com buracos?
- Estou a medir terreno. – responde o engenheiro.
- Ó ca p****… e vomecê precisa dessa coisa pra fazer uma estradita?

- Sim, é necessário. Por quê? O senhor não entenderia… Mas este aparelho é dos mais simples, vocês aqui nunca usaram?
- Homem! Agente nã precisa dessa moenga. Quando a gente quer fazer uma estrada, soltamos um burro e vamos atrás dele. Por onde ele passar, é o caminho mais fácil pra fazer a estrada…

- Muito inteligente esse método – diz o engenheiro em tom de gozo.

Então e como é que fazem se não tiverem um burro?
- Bom, quando é assim, atão a gente chama um enginhero.


Dois amigos encontram-se num bar. Um deles está com um olho negro.

- O que foi que te aconteceu...? - pergunta o outro.
- Eu levei com um frango congelado na cara, só isso! - responde o amigo.
- Um frango...? Mas como é que foi que aconteceu isso...?

- É que ontem a minha mulher estava de mini-saia e baixou-se para dentro do congelador para pegar nalguma coisa. Eu estava atrás dela e não resisti, agarrei-a por trás, ali mesmo...!!!
- Sério...?

- Claro! E ela não queria, remexia-se e eu fiquei com mais vontade ainda, ela começou a gritar e eu ainda continuava mais vidrado...
- Porra!
- Ela debatia-se como uma louca e eu cada vez mais esganado...

- Só estou a imaginar a cena! - diz o outro, excitado.
- E nessa altura, ela conseguiu pegar num frango congelado e espetou com o dito cujo nas minhas ventas...!
- Mas que coisa estranha! A tua mulher não gosta de sexo...?

- Em casa, delira! No SUPERMERCADO é que não...!!!


JURISPRUDÊNCIA

No meio de um julgamento, pergunta o Juiz:
- O senhor chegou a casa mais cedo e encontrou sua mulher na cama com
outro homem, correto???.. ...

- Correto, meritíssimo!!!... - diz o réu, de cabeça baixa..
Continua o juiz:
- Então o senhor pegou sua arma e deu um tiro na sua mulher, matando-a
na hora, correto???.. .

- Correto, meritíssimo!! !... - repete o réu.
- E por que o senhor atirou nela e não no amante dela???...

O réu responde:
- Senhor Juiz....
Pareceu-me mais sensato matar uma mulher uma única vez, do que um
homem diferente todos os dias.

Foi absolvido na hora!!!...Corno, porém sensato!!


Três cegonhas estão voando e uma pergunta a outra:

- Para onde você está indo?
- Vou a casa dum casal que há 10 anos estão tentando ter um filho.

- Que bom! E você?
- Eu vou a casa duma senhora que nunca teve filhos e aqui eu estou levando um lindo garoto.
- Que bom ! Você vai fazê-la muito feliz!

- E você? perguntam as duas, para a terceira cegonha.

- Eu ? Eu vou ao Convento das Freiras. Nunca levo nada, mas sempre dou a elas um susto do carago!


ASAE

Um agente da ASAE vai a uma propriedade e diz ao dono, um velho agricultor:
- "Preciso inspeccionar a sua propriedade. Há uma denúncia de plantação ilegal."

O agricultor diz:
-"Ok, inspeccione o que quiser, mas não vá àquele campo ali."
E aponta para uma determinada área.

O agente da ASAE diz indignado:
- "O senhor sabe que tenho o poder da autoridade comigo?" E tira do
bolso um crachá mostrando ao agricultor:
- "Este crachá dá-me a autoridade de ir onde quero.... e entrar em
qualquer propriedade. Não preciso pedir ou responder a nenhuma
pergunta. Está claro? Fiz-me entender?"

O agricultor, muito educado, pede desculpa e volta para o que estava a fazer.

Poucos minutos depois, ouve uma gritaria e vê o agente de autoridade a
correr para salvar e sua própria vida perseguido pelo Asdrúbal, o
maior touro da quinta.

A cada passo o touro vai chegando mais perto do agente, que parece que
será apanhado antes de conseguir alcançar um lugar seguro. O agente
está apavorado.

O agricultor larga as ferramentas, corre para a cerca e grita com
todas as forças de seus pulmões:

- "O Crachá, mostre-lhe o CRACHÁ!"


Uma velhinha, no Porto,

Uma velhinha, no Porto, subia a "Alameda do Dragão" transportando dois
enormes sacos negros, desses que são usados para o lixo.
Um deles, com um pequeno buraco deixava de quando em quando cair no chão uma nota de 50 Euros.

Um polícia vê-a e interpela-a.
- A senhora tem de ter mais cuidado, disse-lhe o guarda. É que está a deixar cair dinheiro desse enorme saco...

- Muito obrigada senhor guarda, agradeceu ternamente a velhinha. Tenho de voltar atrás e apanhar o dinheiro que me caiu... Muito obrigada!...

O polícia, curioso, não a deixou de imediato.
- Esse saco enorme, cheio de dinheiro, de onde vem? Não é dinheiro roubado, não?
- Que ideia, senhor guarda! Não!, disse ela quase indignada. Eu moro ali ao lado do estádio de futebol do FC Porto, ali em baixo, sabe?
O polícia assentiu que sim.

- Tenho lá uma casinha com um jardinzinho, umas roseiras, umas buganvílias...
Os adeptos dos adversários do FC Porto, à entrada e à saída têm o hábito de se encostar aos arbustos e urinar mesmo em cima dos meus canteiros.

De maneira que nos dias de jogo eu escondo-me atrás do muro com a minha tesoura de podar e quando eles estão com o membro de fora eu apareço e digo:
- Ou me dás cinquenta euros ou corto!

O polícia riu-se em gargalhadas francas.
- Não me parece nada má ideia, sabe?

Preparava-se para deixar a velhinha seguir o seu destino quando lhe perguntou:
- Mas e o outro saco, também tem dinheiro?

- Ah! senhor guarda, sabe como é, nem toda a gente paga...


Almeida era um alto funcionário da corte do Rei Faiçal

Há muito tempo, nutria um desejo incontrolável de chupar os voluptuosos seios da Rainha até se fartar.
Todas as vezes que tentou, deu-se mal.

Um dia, ele revelou seu desejo a Gaio, principal advogado da região e pediu que ele fizesse algo para ajudá-lo.
Gaio, depois de muito pensar e estudar o assunto - concordou, sob a condição de Almeida lhe pagar mil moedas de ouro.

Almeida aceitou o acordo, todavia, não formalizado por escrito.

No dia seguinte, Gaio preparou um líquido que causava comichões e derramou-o no soutien da Rainha, enquanto esta tomava banho.
Logo a comichão começou e aumentou de intensidade, deixando o Rei preocupado e a Rainha desesperada.

A corte fazia consultas a médicos, quando Gaio disse que apenas uma saliva especial, se aplicada por quatro horas, curaria o mal.
Gaio também disse que essa saliva só poderia ser encontrada na boca de Almeida.

O Rei Faiçal ficou muito feliz e então chamou Almeida que, pelas quatro horas seguintes, se fartou de gozar, chupando à vontade as suculentas deliciosas mamas da Rainha.
Lambendo, mordendo, apertando e passando a mão, ele fez finalmente o que sempre desejou. Satisfeito, encontrou-se no dia seguinte com o advogado Gaio.

Com o seu desejo plenamente realizado e a sua libido satisfeita,
Almeida recusou-se a pagar ao advogado.
Almeida sabia que, naturalmente, Gaio nunca poderia contar o facto ao Rei.

Mas Almeida subestimou o advogado.
No dia seguinte, Gaio colocou o mesmo líquido nas cuecas do Rei e ....
....O Rei mandou chamar o Almeida

ahahahahah
nunca te metas com advogado


FUTEBOL NO CÉU...

O Joaquim e Manuel eram grandes amigos e igualmente fanáticos por futebol. Certa vez o Joaquim perguntou:
- Oh Manel, será que no céu há futebol?
- Porra, espero quem sim! Vamos fazer o seguinte: o primeiro que morrer volta para avisar o outro....
- Combinado!

Alguns anos depois, o Joaquim bateu as botas e na noite seguinte foi ao quarto do Manuel
- Maneeeeel...
- Ai meu Deus!
- Calma, sou eu, o Joaquim. Tenho uma boa e uma má notícia. A boa, é que há futebol no céu.

- Fixe... e a má?
- É que no domingo já jogas!


Uma jornalista da CNN

Uma jornalista da CNN ouviu falar de um judeu muito velhinho que todos os dias, duas vezes por dia, ia fazer as suas orações ao Muro das Lamentações e decidiu entrevistá-lo.

Pôs-se ao pé do Muro à espera e passado um bocado lá apareceu ele a andar com dificuldade, em direcção ao sítio onde costumava rezar.

Esperou uns 45 minutos que o velhinho acabasse de rezar e quando ele voltava, vagarosamente, apoiado na sua bengala, aproximou-se para a entrevista.
- Desculpe, eu chamo-me Rebecca Smith, sou repórter da CNN e gostava de o entrevistar. Como é que se chama?
- Morris Feldman.

- Senhor Feldman, há quanto tempo vem ao Muro rezar?
- Há uns sessenta anos.

- Sessenta anos! Isso é incrível! E o que é que o senhor pede nas suas orações?
- Peço que os cristãos, os judeus e os muçulmanos vivam em paz. Peço que todas as guerras e todo o ódio terminem. Peço que as crianças cresçam em segurança e se tornem adultos responsáveis. Peço amor entre os homens.

- E faz isso há sessenta anos, todos os dias! Como é que o senhor se sente?

- Sinto-me como se estivesse a falar para uma parede...