segunda-feira, 1 de junho de 2015

Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Coincidências...


Um criador de galinhas vai ao bar local, senta-se ao balcão ao lado de uma mulher e pede uma taça de champanhe.
A mulher comenta:
-Que coincidência! Eu também pedi uma taça de champanhe.

-Hoje é um dia especial para mim - diz o fazendeiro - Estou a festejar.
-Hoje, é também um dia especial para mim! - diz a mulher - E eu também estou a festejar.
-Que coincidência! - diz o fazendeiro.

Enquanto "batem" as taças, ele pergunta:
-E o que é que a senhora está a celebrar?
-Eu e meu marido há uns tempos que andamos a tentar ter um filho e hoje o meu ginecologista disse-me que estou grávida.
-Que coincidência! - diz o homem - Eu sou criador de galinhas e durante muitos anos as minhas galinhas não eram férteis. Mas consegui! Elas hoje começaram a pôr ovos férteis.

-Isso é óptimo - diz a mulher - Como é que conseguiu que as suas galinhas ficassem férteis?
-Usei um galo diferente - diz ele.
A mulher sorri, brinda novamente e diz:
- Que coincidência!!!



O poder de um beijo...


Vinha pela estrada uma caravana de motociclistas fortes, bigodudos em suas poderosas motos, quando de repente eles vêem uma garota a ponto de pular de uma ponte sobre o rio.

Eles param e o líder deles particularmente corpulento e de aspecto rude, salta, e se dirige para ela perguntando:
- Que diabos você está fazendo??
- Vou me suicidar-- Responde suavemente a delicada garota com a voz cadenciada e ameaçando pular.

O motociclista pensa por alguns segundos e finalmente diz:
- Bom, antes de saltar por que não me dá um beijo?

Ela acena com a cabeça, coloca de lado os cabelos compridos encaracolados e dá um beijo longo e apaixonado na boca do motociclista parrudão.

Depois desta intensa experiência, a gangue de motoqueiros aplaude, o líder recupera o fôlego, alisa a barba e admite:
- Este foi o melhor beijo que me deram na vida. É um talento que se perderá caso você se suicide. Por quê quer morrer?

- Meus pais, sâo muito moralistas, não gostam que eu me vista de mulher!!!...


O REFORMADO

As pessoas que ainda trabalham, perguntam-me muitas vezes, o que é que eu faço todos os dias, agora que estou reformado...
Bem, por exemplo, outro dia fui tratar de um assunto no meu banco, não demorei muito, foi uma questão de cinco minutos.

Quando saí, um Polícia estava preenchendo uma multa por mau estacionamento.
Rapidamente aproximei-me dele e disse:
- Vá lá, senhor guarda, eu não demorei mais que cinco minutos...! Deus irá recompensá-lo se tiver um gesto simpático para com um reformado...

Ele ignorou-me completamente e continuou a preencher a multa.

Aí eu passei-me, e disse-lhe que só tinha demorado 1 minuto, blá blá blá...
Ele olhou-me friamente e começou a preencher outra infracção alegando que também não tinha a vinheta comprovativa do seguro.

Então levantei a voz para lhe dizer que já tinha percebido que estava a lidar com um polícia idiota e mal formado, e que nem compreendia como é que ele tinha sido admitido na polícia de trânsito...etc, etc

Ele terminou de autuar pela segunda infracção, colocando-a no para-brisas, e começou com um terceiro preenchimento.
Eu já o estava a chatear há mais de 20 minutos, chamando-o de tudo.

Ele, a cada "mimo", respondia com uma nova infracção e consequente preenchimento da respectiva multa acompanhada de um sorriso que reflectia uma satisfação de vingança...

Depois da décima violação disse-lhe:

- Tenho pena senhor guarda, mas tenho que me ir embora vem ali o meu Autocarro! Desde que me reformei, aproveito todas as oportunidades para me divertir!


Um burro é sempre a melhor solução tecnológica...

Um alentejano do monte vai observar um engenheiro que está a trabalhar na construção de uma estrada ali nos arredores de Mértola, para os lados da Mina. O técnico está a fazer medições do terreno com um teodolito.

- Botardeee! – botou faladura, apoiando-se no cajado – Vomecê é que veio fazer essa estrada?
- Sim. Nós temos a mais alta tecnologia para construção de estradas e estamos aqui para dar uma mãozinha prós alentejanos, pra ver se isto vai prá frente!

- E pra que tá usando essa coisa aí, mais parece uma panela com buracos?
- Estou a medir terreno. – responde o engenheiro.
- Ó ca p****… e vomecê precisa dessa coisa pra fazer uma estradita?

- Sim, é necessário. Por quê? O senhor não entenderia… Mas este aparelho é dos mais simples, vocês aqui nunca usaram?
- Homem! Agente nã precisa dessa moenga. Quando a gente quer fazer uma estrada, soltamos um burro e vamos atrás dele. Por onde ele passar, é o caminho mais fácil pra fazer a estrada…

- Muito inteligente esse método – diz o engenheiro em tom de gozo.

Então e como é que fazem se não tiverem um burro?
- Bom, quando é assim, atão a gente chama um enginhero.


Dois amigos encontram-se num bar. Um deles está com um olho negro.

- O que foi que te aconteceu...? - pergunta o outro.
- Eu levei com um frango congelado na cara, só isso! - responde o amigo.
- Um frango...? Mas como é que foi que aconteceu isso...?

- É que ontem a minha mulher estava de mini-saia e baixou-se para dentro do congelador para pegar nalguma coisa. Eu estava atrás dela e não resisti, agarrei-a por trás, ali mesmo...!!!
- Sério...?

- Claro! E ela não queria, remexia-se e eu fiquei com mais vontade ainda, ela começou a gritar e eu ainda continuava mais vidrado...
- Porra!
- Ela debatia-se como uma louca e eu cada vez mais esganado...

- Só estou a imaginar a cena! - diz o outro, excitado.
- E nessa altura, ela conseguiu pegar num frango congelado e espetou com o dito cujo nas minhas ventas...!
- Mas que coisa estranha! A tua mulher não gosta de sexo...?

- Em casa, delira! No SUPERMERCADO é que não...!!!


JURISPRUDÊNCIA

No meio de um julgamento, pergunta o Juiz:
- O senhor chegou a casa mais cedo e encontrou sua mulher na cama com
outro homem, correto???.. ...

- Correto, meritíssimo!!!... - diz o réu, de cabeça baixa..
Continua o juiz:
- Então o senhor pegou sua arma e deu um tiro na sua mulher, matando-a
na hora, correto???.. .

- Correto, meritíssimo!! !... - repete o réu.
- E por que o senhor atirou nela e não no amante dela???...

O réu responde:
- Senhor Juiz....
Pareceu-me mais sensato matar uma mulher uma única vez, do que um
homem diferente todos os dias.

Foi absolvido na hora!!!...Corno, porém sensato!!


Três cegonhas estão voando e uma pergunta a outra:

- Para onde você está indo?
- Vou a casa dum casal que há 10 anos estão tentando ter um filho.

- Que bom! E você?
- Eu vou a casa duma senhora que nunca teve filhos e aqui eu estou levando um lindo garoto.
- Que bom ! Você vai fazê-la muito feliz!

- E você? perguntam as duas, para a terceira cegonha.

- Eu ? Eu vou ao Convento das Freiras. Nunca levo nada, mas sempre dou a elas um susto do carago!


ASAE

Um agente da ASAE vai a uma propriedade e diz ao dono, um velho agricultor:
- "Preciso inspeccionar a sua propriedade. Há uma denúncia de plantação ilegal."

O agricultor diz:
-"Ok, inspeccione o que quiser, mas não vá àquele campo ali."
E aponta para uma determinada área.

O agente da ASAE diz indignado:
- "O senhor sabe que tenho o poder da autoridade comigo?" E tira do
bolso um crachá mostrando ao agricultor:
- "Este crachá dá-me a autoridade de ir onde quero.... e entrar em
qualquer propriedade. Não preciso pedir ou responder a nenhuma
pergunta. Está claro? Fiz-me entender?"

O agricultor, muito educado, pede desculpa e volta para o que estava a fazer.

Poucos minutos depois, ouve uma gritaria e vê o agente de autoridade a
correr para salvar e sua própria vida perseguido pelo Asdrúbal, o
maior touro da quinta.

A cada passo o touro vai chegando mais perto do agente, que parece que
será apanhado antes de conseguir alcançar um lugar seguro. O agente
está apavorado.

O agricultor larga as ferramentas, corre para a cerca e grita com
todas as forças de seus pulmões:

- "O Crachá, mostre-lhe o CRACHÁ!"


Uma velhinha, no Porto,

Uma velhinha, no Porto, subia a "Alameda do Dragão" transportando dois
enormes sacos negros, desses que são usados para o lixo.
Um deles, com um pequeno buraco deixava de quando em quando cair no chão uma nota de 50 Euros.

Um polícia vê-a e interpela-a.
- A senhora tem de ter mais cuidado, disse-lhe o guarda. É que está a deixar cair dinheiro desse enorme saco...

- Muito obrigada senhor guarda, agradeceu ternamente a velhinha. Tenho de voltar atrás e apanhar o dinheiro que me caiu... Muito obrigada!...

O polícia, curioso, não a deixou de imediato.
- Esse saco enorme, cheio de dinheiro, de onde vem? Não é dinheiro roubado, não?
- Que ideia, senhor guarda! Não!, disse ela quase indignada. Eu moro ali ao lado do estádio de futebol do FC Porto, ali em baixo, sabe?
O polícia assentiu que sim.

- Tenho lá uma casinha com um jardinzinho, umas roseiras, umas buganvílias...
Os adeptos dos adversários do FC Porto, à entrada e à saída têm o hábito de se encostar aos arbustos e urinar mesmo em cima dos meus canteiros.

De maneira que nos dias de jogo eu escondo-me atrás do muro com a minha tesoura de podar e quando eles estão com o membro de fora eu apareço e digo:
- Ou me dás cinquenta euros ou corto!

O polícia riu-se em gargalhadas francas.
- Não me parece nada má ideia, sabe?

Preparava-se para deixar a velhinha seguir o seu destino quando lhe perguntou:
- Mas e o outro saco, também tem dinheiro?

- Ah! senhor guarda, sabe como é, nem toda a gente paga...


Almeida era um alto funcionário da corte do Rei Faiçal

Há muito tempo, nutria um desejo incontrolável de chupar os voluptuosos seios da Rainha até se fartar.
Todas as vezes que tentou, deu-se mal.

Um dia, ele revelou seu desejo a Gaio, principal advogado da região e pediu que ele fizesse algo para ajudá-lo.
Gaio, depois de muito pensar e estudar o assunto - concordou, sob a condição de Almeida lhe pagar mil moedas de ouro.

Almeida aceitou o acordo, todavia, não formalizado por escrito.

No dia seguinte, Gaio preparou um líquido que causava comichões e derramou-o no soutien da Rainha, enquanto esta tomava banho.
Logo a comichão começou e aumentou de intensidade, deixando o Rei preocupado e a Rainha desesperada.

A corte fazia consultas a médicos, quando Gaio disse que apenas uma saliva especial, se aplicada por quatro horas, curaria o mal.
Gaio também disse que essa saliva só poderia ser encontrada na boca de Almeida.

O Rei Faiçal ficou muito feliz e então chamou Almeida que, pelas quatro horas seguintes, se fartou de gozar, chupando à vontade as suculentas deliciosas mamas da Rainha.
Lambendo, mordendo, apertando e passando a mão, ele fez finalmente o que sempre desejou. Satisfeito, encontrou-se no dia seguinte com o advogado Gaio.

Com o seu desejo plenamente realizado e a sua libido satisfeita,
Almeida recusou-se a pagar ao advogado.
Almeida sabia que, naturalmente, Gaio nunca poderia contar o facto ao Rei.

Mas Almeida subestimou o advogado.
No dia seguinte, Gaio colocou o mesmo líquido nas cuecas do Rei e ....
....O Rei mandou chamar o Almeida

ahahahahah
nunca te metas com advogado


FUTEBOL NO CÉU...

O Joaquim e Manuel eram grandes amigos e igualmente fanáticos por futebol. Certa vez o Joaquim perguntou:
- Oh Manel, será que no céu há futebol?
- Porra, espero quem sim! Vamos fazer o seguinte: o primeiro que morrer volta para avisar o outro....
- Combinado!

Alguns anos depois, o Joaquim bateu as botas e na noite seguinte foi ao quarto do Manuel
- Maneeeeel...
- Ai meu Deus!
- Calma, sou eu, o Joaquim. Tenho uma boa e uma má notícia. A boa, é que há futebol no céu.

- Fixe... e a má?
- É que no domingo já jogas!


Uma jornalista da CNN

Uma jornalista da CNN ouviu falar de um judeu muito velhinho que todos os dias, duas vezes por dia, ia fazer as suas orações ao Muro das Lamentações e decidiu entrevistá-lo.

Pôs-se ao pé do Muro à espera e passado um bocado lá apareceu ele a andar com dificuldade, em direcção ao sítio onde costumava rezar.

Esperou uns 45 minutos que o velhinho acabasse de rezar e quando ele voltava, vagarosamente, apoiado na sua bengala, aproximou-se para a entrevista.
- Desculpe, eu chamo-me Rebecca Smith, sou repórter da CNN e gostava de o entrevistar. Como é que se chama?
- Morris Feldman.

- Senhor Feldman, há quanto tempo vem ao Muro rezar?
- Há uns sessenta anos.

- Sessenta anos! Isso é incrível! E o que é que o senhor pede nas suas orações?
- Peço que os cristãos, os judeus e os muçulmanos vivam em paz. Peço que todas as guerras e todo o ódio terminem. Peço que as crianças cresçam em segurança e se tornem adultos responsáveis. Peço amor entre os homens.

- E faz isso há sessenta anos, todos os dias! Como é que o senhor se sente?

- Sinto-me como se estivesse a falar para uma parede...



domingo, 17 de maio de 2015

Jornal Raizonline Nº 269 de 18 de Maio de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - O Bullying


Jornal Raizonline Nº 269 de 18 de Maio de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - O Bullying


Primeiro vamos à definição corrente de forma a evitar qualquer mal entendido naquilo que vou escrever neste texto:

«Bullying é uma situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas. O termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão.»

Só por aqui temos logo matéria para desenvolver: tem de ser «agressão intencional - verbal ou física»; depois tem de ser, a (as) agressões «feitas de forma repetitiva».

O (ou os) actores agressores podem ser um ou mais que um. O (ou os) actores vítimas podem ser um ou mais que um.

O facto de aqui, nesta definição, aparecer o termo colega(s) não deve a meu ver ser levado muito em conta na medida em que uns e outros (agressores ou vítimas) podem não ser colegas.

Ora este tema tem andado infelizmente nas bocas de muita gente e a revolta, sobretudo nos casos em que as notícias difundem os factos, tem-se tornado generalizada.

Ora todos nós ou quase todos nós já andámos na escola, uns mais tempo que outros, e de uma forma geral toda a gente sabe que o bullying é uma prática com muitos anos de vida. Claro que tinha outros contornos, menos violentos, menos sádicos, menos organizados e sistematizados, mas era costume por exemplo o carolo (de punho fechado) na cabeça do caloiro (no meu tempo) e lembro-me de os mais imaginativos (ou mais sádicos) falarem em alfinetes para «picar o traseiro dos caloiros».

A diferença entre os meus tempos e os tempos de muita gente aparece agora como sendo abissal e quero crer que seja pelo menos possível que os processos se tenham desenvolvido progressivamente ao longo dos tempos.

De facto tenho dificuldade em aceitar que de um dia para o outro se passe do carolo na cabeça ao massacre sistematizado por chapada ou pontapé. Tudo se desenvolveu  no tempo e hoje, talvez porque as coisas, segundo o entendimento comum, passam excessivamente as marcas delimitadoras de alguma consciência desperta, o bullying é motivo de uma maior atenção, coisa que não foi sendo nos tempos que anteceram imediatamente estes que vivemos.

Há cerca de 15 anos, sensivelmente, estando eu indirectamente relacionado com uma escola de Faro e tendo os seus alunos (parte deles) feito uma visita de estudo a uma Escola de um outro Concelho verificaram-se durante a estadia destes alunos nesse estabelecimento de ensino cenas de violência bastante fortes que não foram notadas pelos professores acompanhantes nem pelos do próprio estabelecimento não - local.

Só se veio a saber dos factos porque eventualmente algum(a) aluno(a) se terá queixado ao então Conselho Directivo, que lamentou o acontecido e prometeu e terá tomado as providências que julgou úteis e necessárias. As cenas foram de uma extrema violência, desde pontapés na barriga das alunas a socos e  outro tipo de agressões igualmente violentas aos rapazes.Isto há 15 anos mais ou menos.

Ora a questão que se coloca dito isto é saber se as coisas vão continuar assim, ou se passada a relativa febre dos acontecimentos noticiados, alguém ou alguma entidade ou alguma instituição que tenha por função tratar destes assuntos começa a encarar este fenómeno com olhos de ver.

Normalmente a baixa escolaridade é considerada factor amputante das possibilidades de cada um singrar na vida mas começo a ter sérios receios que se comece a encarar as coisas de outra forma: quanto maior a escolaridade tanto pior.




Crónica por Martim Afonso Fernandes - O JOVEM VOADOR


Histórias da Vida Real

Crónica por Martim Afonso Fernandes

O JOVEM VOADOR

Ícaro Passos de Araújo, era o nome de um rapazola de mais ou menos seus treze anos. Gostava muito de aventuras e mais ainda de fazer diabruras.
Não perdia filmes que pudessem lhe sugerir algo de importante e curioso. Certa ocasião sonhou que estava a voar. E resolveu começar um projeto voador!

Em primeiro lugar saltou de cima de uma casa com um guarda-chuva aberto, que deu-lhe alguns segundos de prazer, deslocou-se uns cinqüenta metros, mas a armadura metálica do sombreiro não resistiu e virou ao contrário.

Depois, a continuar suas experiências, pegou um pato, ave caseira, e começou a jogar para cima e a observar os movimentos das asas. A abrir e a fechar.

Com uma cartolina, resolveu desenhar modelos de asas e passou para a construção. Preparou uma armação de bambu e cobriu-a com tecido. Colocou o aparato sobre suas costas e os braços dentro dos suportes para acionar os movimentos de bater as asas.

Chegou o dia do teste. Chamou os colegas para ajudá-lo a fixar aquela armação móvel, que estava bem comentada na cidade e na escola onde estudava. Sua residência situava-se numa rua de declive bem acentuado. Tudo pronto. O Icaro sonhador partiu para a realização de seu grande projeto.

Ao se projetar do telhado de sua casa, a euforia e os aplausos dos presentes foram grandes, mas duraram pouco tempo. Faltou energia para que seus braços pudessem deslocar o ar e galgar uma distância e uma altura para completar o percurso de seu desejo. Por proteção de anjos, não chegou a quebrar-se muito, sua aterrissagem fé-lo cair de pé e sair a rolar pelo mato rasteiro que por ali existia.

Ao completar maior idade, Ícaro foi prestar serviço militar na Força Aérea Brasileira, podendo assim realizar uma parte de seu sonho. Não voou com asas próprias, mas com asas metálicas, com aviões a propulsão, motorizados ou turbinados.

Este jovem passou para a história. Dava seus longos passos no ar, cortando os ares que na sua infância tanto sonhara atravessar. Mais uma vez o homem sonhou voar. E realizou seu grande sonho.

Seria seu nome e seus sobrenomes que o incentivaram a querer subir às alturas? Aqui no Brasil chamamos aos tripulantes de navios de marujos, por andarem no mar. E, para completar, não ficaria nada mal chamar de araújo a quem anda pelos ares.

Ícaro, após terminar seu tempo de prestação ao serviço militar, retornou à vida civil. Há muitos anos passados, reencontrei um amigo nosso de infância e ao perguntar-lhe sobre alguns companheiros de nosso tempo, lembramo-nos entre outros das diabruras que fazíamos e do rumo profissional que cada um tomou. O nome do rapazola que acabou voando veio-nos à mente. Daí o nosso papo:

-Que rumo tomou o Ícaro? Meu amigo respondeu:
-Aquele encapetado trabalha numa fábrica de industrialização de carne de siri para exportação, numa cidade vizinha daqui.

Aí interroguei meu colega:
-Ele formou-se em química?

-Não, disse meu colega. Hoje ele é operador de caldeira para geração de vapor do sistema industrial. E o mais engraçado é que foi usada uma locomotiva antiga a vapor servindo para decoração da indústria que ele trabalha.

Ao ouvir esta resposta, dei aquela minha gargalhada que ecoa aos pés da montanha. Meu amigo assustou-se com o troar do barulho e me interrogou: -Por que tamanha gargalhada, homem?

Ao que respondi: - Se Ícaro ainda tiver aquela vontade doida de voar e fechar todas as válvulas de segurança da caldeira, com a pressão alta da mesma, ela explodirá e leva tudo para o espaço sideral!!!





Camões em Macau pelo Padre MANUEL TEIXEIRA ( Recolha e composição de António Cambeta de Macau / Tailândia)


Camões em Macau

pelo Padre MANUEL TEIXEIRA

Recolha e composição de António Cambeta de Macau / Tailândia


Reza a tradição que Camões esteve em Macau e que o seu retiro predilecto era a estância do Patane, para os lados de Sto. António, sítio na verdade aprazível e pitoresco, que foi baptizado com o nome do poeta, chamando-se-lhe, ainda que impropriamente, Gruta de Camões.

Esta tradição pluri - secular foi acatada e respeitada por todos os historiadores e biógrafos do poeta, havendo apenas divergências acidentais da parte de Teófilo Braga, Juromenha e Storck quanto à data da sua vinda e outras minúcias, ficando, porém, de pé o facto principal, a estada do poeta em Macau.

Mas nos primeiros anos do século positivo, em que vivemos, em 1907, houve quem pretendesse contestar este facto e relegar a tradição para os domínios da lenda.

1. Já antes, em 1899, o ilustre orientalista J. F. Marques Pereira, expusera bem fundadas dúvidas sobre a estada de Camões em Macau como Provedor dos defuntos e ausentes 2. Ora, há aqui duas questões que importa não confundir:
l.ª -Esteve Camões em Macau ?
2.ª-Foi Camões Provedor dos defuntos e ausentes em Macau ?

À primeira respondemos afirmativamente com a tradição.

À segunda respondemos negativamente com razões históricas.

Esteve Camões em Macau ?

Responde afirmativamente toda uma plêiade de brilhantes e profundos historiadores dos séculos passados; começou a negá-lo João Frick em 1907, o qual aventou a hipótese de o poeta ter ido morrer, «com a espada na mão, ao lado do seu rei nos campos de Alcácer-Quibir.»


Depois deste, apareceram alguns articulistas a copiar as suas objecções; o mais ilustre defensor da tese negativa foi o Dr. Luiz da Cunha Gonçalves que, no seu livro Camões não esteve em Macau

3 - ampliou a tese que João Frick, com o pseudónimo de Gonçalo da Gama, publicara no Portugal.

Nós somos pela tradição, e, não nos convence nenhum dos argumentos dos que a atacam. Assim, João Frick diz que Camões não esteve em Macau porque, à data, Macau não existia, não passando dum covil de piratas; Cunha Gonçalves diz que «entre 1556 a 1559, não havia chinesas cristãs, como não existia a cidade de Macau»

4. - Ora tudo isto é redondamente falso, pois que nessa época já existia a colónia portuguesa de Macau e já existiam chinesas e chineses cristãos. Para não nos repetirmos, remetemos o leitor para o nosso estudo sobre o Estabelecimento dos Portugueses em Macau, publicado no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Dezembro de 1939, pp. 273-297, pelo qual se pode ver que, imediatamente depois da paz firmada em 1553 ou 1554 pelo Leonel de Sousa, com os chineses, os portugueses se estabeleceram em Macau, donde em 20 de Novembro de 1555  Mendes Pinto escreveu uma carta para Goa.

O sobrenatural escreve:

O poeta Luís de Camões vivia em Macau numa espécie de desterro, provocado por invejas e inimizades em Portugal. As intrigas obrigaram-no também a deixar aquela terra, tendo embarcado como prisioneiro na famosa Nau de Prata, nos finais de 1557.

Luís de Camões despediu-se da famosa gruta de Patane, em Macau, que tinha escutado o eco dos seus sonhos e do seu desespero, e apresentou-se ao capitão da Nau de Prata. Interrogado sobre o papel enrolado que levava na mão,

Camões respondeu que era toda a sua fortuna e que talvez fosse aquela a sua herança para todos os Portugueses. Tratava-se da epopeia Os Lusíadas que contava a história do seu povo e que, segundo a lenda, terá sido escrita naquela gruta.

Escritos com toda a alma e toda a saudade de português, injustamente privado da pátria, aqueles versos eram o maior de todos os seus tesouros e os únicos companheiros do seu infortúnio. Da amurada da nau, estava Camões a despedir-se da gruta, quando ouviu uma voz de mulher que o interrogava sobre a sua tristeza.

Era uma nativa de Patane, que o conhecia, e em quem ele nunca tinha reparado, apesar da sua extrema beleza. Tin-Nam-Men era o nome da nativa que, na sua língua, significava Porta da Terra do Sul - a Porta do Paraíso.

Tin-Nam-Men tinha observado Camões, durante muito tempo, sem nunca se atrever a falar-lhe até àquele dia. Perdidamente apaixonada por Camões, tinha-o seguido até ao barco.

Partindo com o poeta, conta a lenda que, na Nau de Prata, nasceu mais uma relação amorosa na vida já tão romanesca de Luís de Camões, até ao trágico dia em que uma tempestade irrompeu nos mares do Sul.

Como a Nau de Prata estava condenada a afundar-se, embarcaram as mulheres num batel e os homens salvaram-se a nado. Camões, de braço no ar, segurando Os Lusíadas, nadou até terra, mas o barco onde seguia a linda Tin-Nam-Men foi engolido pelas ondas.

Foi à bela Dinamene, como o poeta lhe chamou, que Camões terá dedicado os seus belos sonetos «Alma minha gentil, que te partiste...» e também «Ah! Minha Dinamene! Assim deixaste».






Coragem de optar pela arte - Crónica da Laé de Souza


Coragem de optar pela arte

Crónica da Laé de Souza

Há quem diga que a responsabilidade maior foi do pai, que numa viagem ao nordeste o presenteou com um berimbau. Outros acham que a culpa foi da mãe que, enjoada do din-din-din-don , trocou o instrumento por um violão de plástico e cordas de náilon.

Embora. muitos acreditem que ele já tenha vindo de nascença com um parafuso a menos e que essas coisas não tenham influenciado em nada. O que é certo, e concorde a todos, é que o Gertulino não tem um pingo de juízo.

Os pais, coitados, na verdade a gente sabe que fizeram de tudo para que ele se endireitasse, mas foi perda de tempo. Arrumaram uma vaga num escritório de contabilidade, mas qual nada. Na mala de boy , levava suas revistas de partituras e letras que cantarolava no ônibus e na fila do banco.

No guichê, enquanto o caixa autenticava, ele tamborilava com uma bic no vidro do balcão. Não reclamava do salário, mas chiava quando tinha de catar milho na Olivetti para preencher de uma guia e também não queria nem saber de débito/crédito. O contador lhe apontava exemplos de quem entrou pequeno e agora era chefe de departamentos e ele, nem aí. Já bem crescido foi despedido por faltas. Trabalhava um, faltava dois dias.
 
Arrumaram-lhe um emprego numa metalúrgica . Na prensa, com o pé livre batia duas vezes no chão e no do pedal batia uma, em ritmo de valsa. Puseram-no para rebitar , e o chefe o dispensou por não agüentar mais o bater compassado e a quarta batida mais forte, sempre.

Daí para a frente só fez bicos. Na maioria das vezes era encontrado em casa, fechado no quarto com seu violão, repetindo várias vezes a mesma música e descobrindo as notas de um solo. Começou tocar nuns barzinhos e até recebia acanhados aplausos. Quando perguntado pelo filho, seu Agildo, respondia que ele estava trabalhando. Mas quem ouvia os acordes vindos do quarto, dava uma risadinha e dizia que o Gertulino não tinha jeito mesmo.

Seu Agildo também achava que não era certo o proceder do filho, mas saiu a investigar se era só ele quem tinha filho doido.

O filho do padeiro era encafifado com negócio de pegar pedaços de pau e ficava horas e horas esculpindo. Às vezes até que fazia alguma coisa bonita, da qual o pai ignorava a beleza para não estimular a loucura. O filho do açougueiro era metido com coisas de teatro e vivia correndo atrás de roupas velhas.

Perdia horas e horas em ensaios inúteis, fazendo cenários de papelão, perucas, narizes e, de vez em quando, junto com outros doidos dava um show na praça. O filho de um seu Geraldo ficava horas e horas como que fora do mundo, pintando um quadro. O filho da professora , era poeta e não fazia outra coisa senão rabiscar um caderno espiral de capa gasta. Assim, seu Agildo viu tantos malucos pelas noites que chegou a duvidar se era mesmo loucura.

Ele descobriu que existiam outros doidos e tentou adivinhar que espécie de doença é essa que ataca a mente, fazendo abandonar futuros planejados, por caminhos incertos. E nós, até com certa inveja, perguntamos de onde nasce essa força tão grande que faz com que alguns tenham coragem de optar pela arte.




Poesia de Jorge Vicente


Poesia de Jorge Vicente

POEMA XI

o destino nunca se constrói
nem gilgamesh pode encerrar
o seu futuro numa única flor
talvez aquele que suba possa
viver outra vez. com uma nova
luminosidade, uma nova utopia,
um novo modo de pressentir
aquilo que só cabe aos pássaros
gilgamesh só existe em si próprio,
e não nos deuses
nem na árvore,
que é apenas um caule murcho
calcetado pelo som do deserto.

jorge vicente


ACORDANDO OS AMANTES

duas folhas
são apenas uma
ao raiar da manhã
dois amantes
são apenas um
deitados à sombra da árvore
o mundo é apenas um
só o amor se multiplica
pelas folhas, pelos amantes
e pela manhã que se anuncia.

jorge vicente


POEMA IV

deixa crescer a manhã
e lança-te ao abandono
das águas.
iemanjá molhará os lábios
na saliva da areia e fará
do teu corpo um
receptáculo de flores.

jorge vicente



A PENSÃO EM MARTINLONGO


A PENSÃO EM MARTINLONGO

Conto / Crónica de Daniel Teixeira


Ao longo destas minhas crónicas tenho falado já algumas vezes sobre o sacrifício que era para nós deslocarmo-nos de Faro a Alcaria Alta devido às muito más condições das estradas e ao deplorável estado dos arcaicos e desprezados pelas companhias, transportes públicos. Entre as diversas variantes para tentar adocicar o suplício do enjoo tínhamos uma que era ir até Martinlongo numa linha de transporte, passar lá a noite e seguir no dia seguinte na camioneta que partia de Martinlongo para Vila Real de Sto António logo manhã cedo. Ou seja, chegávamos por volta das 22 horas, dormíamos e partíamos de novo cerca das 8 da manhã.

Ficávamos então na Pensão da Dª Letícia que era a esposa do «ferrardorzinho» como lhe chamávamos porque era baixote e era ferrador entre outras coisas como aguadeiro nos períodos mais fracos e trabalhador de jorna noutras alturas. Era a única pessoa que conheci por aqueles lados com o chamado cabelo «cor de cenoura»: um dos filhos dele o H. também tinha essa cor de cabelo. Havia mais filhos e não me lembro quantos mas o casal era conhecido também pela sua grande contribuição para a natalidade do lugar. Um outro anda aqui por Faro também, o G. mas temos pouca lidação. O H. esse conhecemos bastante bem mas na altura era com eles todos que brincávamos quando lá íamos dormir à Pensão.

Sem vontade de comer nada acabávamos sempre com uma açorda com ovos escalfados, com umas migas de alho, uma canja quando havia galinha e conseguíamos brincar um bocado enquanto a minha mãe (ela também uma vítima do enjoo como nós) conseguia por a conversa em dia. A minha mãe levava sempre umas latas de leite condensado, um quilo ou dois de arroz e rebuçados para os miúdos.

Interessante como me lembro de coisas e como elas ficam gravadas em desfavor de outras, seguramente: os miúdos (como nós) embora fazendo parte de uma larga família onde claramente os meios não abundavam eram simplesmente impecáveis no trato, prestáveis ao ponto de irem connosco até à camioneta no dia seguinte ajudando na bagagem, corriam atrás da camioneta fazendo adeus e respeitavam a mãe de forma exemplar embora esta em muitos períodos do ano fosse sozinha em casa dadas as ausências para «ferrar» pelos Montes do marido.

No dia seguinte tínhamos pois de novo camioneta : eram só 10 Kms sensivelmente de Martinlongo à placa de Alcaria Alta mas o terror faria o seu efeito nem que fossem só 500 metros: o efeito psicológico era enorme e bastava aproximarmo-nos da garagem que era estação de chegada e de partida para o estômago começar às voltas. Como a estrada era direita já no planalto normalmente não havia problema de maior neste segundo troço mas o stress era bem pesado e só abrandava cá fora.

Ora, nestas condições porque íamos todos os anos a Alcaria Alta? Por um lado era bom estar por lá mas havia sempre a esperança de que «nesse ano se não vomitasse». Tínhamos quase uma escola com direito a Licenciatura sobre o enjoo. Um primo meu foi o teórico da na prática inaplicável teoria do estômago/copo cheio de água, os comprimidos mais diversos alegadamente contra o enjoo tinham marcas e composições renovadas todos os anos garantia-nos o farmacêutico, a estrada era melhorada também todos os anos sabia-se em boato, e havia um condutor, o Zé Mário, que sabia fazer muito bem as curvas: certo ou não isso nunca produziu efeito real visível e ele mesmo tinha o seu baldinho ao pé do assento não fosse o diabo tecê-las. Mas todos os anos havia uma renovada esperança...

O H. esteve uns quantos anos na Alemanha e penso que o G. também e outro cujo nome não fixo tem uma barbearia. Todos acabaram por se estabelecer, cada um em seu ramo: dos restantes não sei nada mas também não tenho perguntado e penso que havia também uma menina, talvez a mais velha, que já ajudava a mãe nas lides da casa.

O pai deles, o ferradorzinho, corria de Monte em Monte no seu labor de calçar os animais: gostava de ver quando ele estava em Alcaria Alta, normalmente um dia inteiro outras vezes mais. O posto de ferragem era encostado à taberna da Ti Inácia (e depois do Chico Artur também). Depois acabou por ser levantado naquele recanto um galinheiro rudimentar onde foram colocadas entre outras aves as exóticas galinhas de angola.

Para ferrar era preciso ter alguma prática e alguma experiência e, arrisco dizer, algum conhecimento da psicologia animal. Era preciso fazer um inventário dos tiques das bestas e do seu significado e era sobretudo preciso ganhar a confiança dos animais, aproveitar para fazer um estudo sumário do seu comportamento e regular-se muito pelo arquivo mental construído com muitos episódios já vivenciados.

Por vezes o ferrador passava a outro animal esperando que aquele acalmasse a sua estranheza, mudava-o de lugar de espera, alterava-lhe a orientação cardeal, enfim...eu acho que aquilo era uma verdadeira ciência.

Era também preciso saber quando se devia interromper a tarefa de descascar os cascos para que o animal pousasse a pata para descansar e escapar lesto quando de costas com uma pata traseira do animal entre as suas pernas sentia algum estremeção mais forte. Nas patas dianteiras os trabalhos eram menores e de menor risco, mas era sempre arriscado.

Não sei como as coisas são agora mas tenho um primo que foi fazer um desses cursos da CEE (como ainda se diz) para tratar das unhas das vacas: como toda a gente deve saber chegou-se á conclusão que vaca bem manicurada produz mais leite.

Ora ele descreveu-me que se mete o animal numa espécie de gaiola que se inclina com manivela a jeito em noventa graus e que depois se trabalha nas calmas...sentadinho.

Não sei até que ponto isso é aplicável a bestas mas na altura o sistema teria feito muito jeito ao ferradorzinho que contou ao que soube com pelo menos meia dúzia de coices, felizmente para ele e para a sua família nas partes «almofadadas» do corpo.