sexta-feira, 15 de maio de 2015

O resgate da inocência - por Tom Coelho


O resgate da inocência

por Tom Coelho

“Crianças, ao contrário dos adultos,
sabem aproveitar o presente.”
(Jean de la Bruyère)


Tive o prazer de desfrutar de uma experiência singular: a primeira apresentação de balé de minha filha de quatro anos.

O evento, idealizado e organizado com carinho e competência por Patricia Famá, reuniu mais de 50 alunos de sua escola distribuídos em quatorze performances temáticas. Mas um detalhe em especial levou-me a uma reflexão que gostaria de compartilhar: a diferença entre as apresentações infantis e juvenis.

As exibições das crianças, com faixa etária de quatro a doze anos, mas notadamente daquelas com até sete ou oito anos de idade, foram marcadas por características similares. As pequenas bailarinas entravam no palco com um sorriso contagiante no rosto. Reunidas em grupos de três a sete participantes, era comum observá-las se entreolhando, perguntando umas às outras sobre o enredo esquecido, e buscando guarida na professora, que escondida por detrás da cortina, estava sempre a postos para caprichosamente orientá-las.

Durante o espetáculo, era possível notar o desenvolvimento da técnica e o aprendizado pelo qual cada aluna passou. Entretanto, em virtude da tenra idade, era natural que não houvesse uma sincronia nos movimentos. Para os convidados, isso pouco importava. Claro que ali estavam pais, mães, irmãos e avós prontos para aplaudir a qualquer cena. Mas o fato primordial era a alegria daquelas crianças por estarem ali maquiadas, vestidas com um figurino especial, entre amigas e diante de seus familiares.

Já as exibições dos adolescentes tinham outras nuances. A preocupação primordial era a técnica, a obediência à coreografia, a perfeita sincronia. Era perceptível o preparo, o treinamento, a entrega daqueles jovens. Analogamente, a plateia também assistia com outros olhos, pois o que presenciava eram futuros profissionais da dança.

Todavia, aquele sorriso espontâneo, eventualmente até permeado por um diálogo aberto entre duas pequenas amigas em pleno palco, era substituído por feições mais contidas nos adolescentes. Certamente havia alegria em seus corações, porém os semblantes transmitiam, sobretudo, responsabilidade e até mesmo a dor física do esforço da dança.

Entre as crianças, um erro na coreografia era imediatamente acolhido pelas demais que procuravam ajudar à colega. E o público se divertia, sentindo a leveza daquele tratamento, como que aprendendo uma nova maneira de lidar com as vicissitudes, dando-lhes importância na medida exata de sua adequação. Já entre os adolescentes, um equívoco era recebido com olhar de censura ou pedido de atenção. E novamente o público se identificava, possivelmente reconhecendo ali um padrão de comportamento adotado nos palcos da vida.

Isso nos faz refletir sobre como a vida adulta se torna chata na medida em que nossas pernas crescem. Compromissos, deveres e responsabilidades depositam tamanha carga sobre nossos ombros que substituímos a espontaneidade pela artificialidade, a emoção pela razão, o prazer pela obrigação.

Precisamos resgatar, com brevidade, um pouco da inocência perdida, inspirando-nos na pureza das crianças.


* Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de oito livros. E-mail: tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.






quinta-feira, 14 de maio de 2015

My Blueberry Nights - Crônicas da madrugada- Por Cynthia Kremer


My Blueberry Nights - Crônicas da madrugada- Por Cynthia Kremer

O nada absoluto

Pelo que tenho lido e assistido em documentários na TV, parece que os cientistas ainda não chegaram a um consenso a respeito do que seria composta a matéria escura e no que, exatamente, ela interfere.

Os paradoxos da mecânica quântica evidenciam a relatividade de tudo; o que para nós chama-se, ou melhor, chamamos de antimatéria, pela nossa incapacidade de decifrá-la, por sabermos apenas que ela é um espelho de todas as partículas de matérias dotadas de massa, só que um espelho inverso dessas mesmas partículas que estão por toda parte.

Se nós somos constituídos de matéria estelar, (partículas) o que seria para nós uma colisão, um esbarrão na antimatéria? Talvez na nossa atual compreensão, uma implosão, a ausência de consciência, o NADA. Quem poderia conceber o conceito do nada?

O nada, a princípio, é a nossa incompreensão, a nossa ignorância a respeito de qualquer coisa: se desconheço um compositor magnífico, nunca ouvi suas obras, até então, ele é para mim inócuo, é nada. Se me falam sobre ele em teoria, ele passará a existir apenas em conceito, como um nome solto no espaço. Ainda não terei a consciência de sua obra. Saberei apenas de sua existência sem grandes vislumbres. Mas isso já não significa que ele não exista, que talvez ele seja brilhante e que muitos o admirem, posso conjecturar. Mais, sobre ele, não saberei.

Não seria esse mesmo processo que se dá no meio científico, que caminha pouco a pouco e vai retirando véus e pondo à luz da consciência conceitos concretos e existenciais?

Eles - os cientistas - estão ainda no "escuro" quanto ao que significa para o universo e para nós, a interação da matéria escura, (não à toa a sua nomenclatura, "escura") ela é percebida escura por ser quase desconhecida, assim como aquele compositor do qual nenhuma obra ouvi em nada me influenciou.

Experimentar a existência de algo dotado de matéria por uma primeira vez, já é um insight. Imagine o que seria (seria?) experimentar a ausência de tudo, até que essa ausência fosse desvendada uma grande presença, que se mostrasse dotada de massa?

Para a consciência do ser humano, essa passagem, a do consistente para o etéreo absoluto, o que chamamos de antimatéria, matéria negativa ou escura, o intangível, o nada, é apenas até onde podemos chegar nesse momento por não termos capacidade de desvendá-lo, traduzi-lo - que somente achamos que assim o é - porque ainda não os colocamos sob a luz da consciência.

É possível que haja o inconcebível no anteriormente, "nada".

É possível que ultrapassada essa linha de percepção, a antimatéria que sabemos hoje, seja muito mais palpável e tenha um papel muitíssimo mais importante e dinâmico no universo e em nós mesmos.

É possível que pelo estreito ponto de vista da ciência, ela, a antimatéria, a matéria escura, seja – ainda - apenas uma nomenclatura que não lhe fará jus num futuro próximo.


Cynthia Kremer




Lendas - Hildebrando


Lendas

Hildebrando

A fama de valente acompanhou toda a vida heróica de Hildebrando.
Emocionando por voltar a sua terra, o velho cavaleiro cavalgava solitário. Sentia o vento frio da primavera a bater no seu rosto austero, curtido pelo sol e pelas marcas adquiridas nas batalhas que lhe fizeram a fama.

Próximo do seu reino, Hildebrando viu, ao longe, a figura de um jovem guerreiro, com um porte da mais alta estirpe. O jovem preparava a armadura e a lança, pronto para conduzir o seu exército. Diante daquela cena que se armava em campo de batalha, Hildebrando correu a lembrança por todos os momentos da sua vida.

Quando novo, dedicara-se à educação de Teodorico, fazendo dele um dos maiores reis dos ostrogodos. Casara-se com a mulher mais bela do seu povo. Do ventre da amada, nascera um filho. Hildebrando, já cavaleiro de Teodorico, tendo a vida marcada por longas batalhas em favor do seu rei, só queria viver a paz de amar a mulher e contemplar o crescimento do filho.

Mas o destino soprou-o na direção contrária à paz. Um dia surgiu o sanguinário Odoacro, que ao pôr fim ao Império Romano do Ocidente, tornara-se o primeiro rei bárbaro em Roma. Para escapar da fúria de Odoacro, Teodorico fugiu, seguido dos seus cavaleiros.

Sempre fiel, Hildebrando acompanhou o seu rei, deixando às costas, a mulher e o filho. Por trinta anos o cavaleiro sofreu com a ausência da família. Seus olhos firmes marejavam ao se lembrar que não acompanhara o crescimento do filho. Sonhava com o dia em que voltaria a abraçá-lo, tê-lo contra o peito, finalmente.

Ao lado de Teodorico, Hildebrando invadiu a península Itálica e, bravamente, derrotaram Odoacro em Verona. O cavaleiro já poderia voltar para a família.Sob o seu cavalo, Hildebrando viu, tão perto, a sua terra amada.

Inesperadamente um exército, comandado por um jovem intrépido, se lhe pôs no caminho. Seria a última batalha que travaria em vida. Após o seu término, voltaria para os braços da mulher e o amor do filho. Decidira depor a lança e a espada. Na sede de encontrar a paz, Hildebrando lançou-se com fúria contra o jovem que liderava o exército que lhe obstruía a passagem.

Minutos depois, Hildebrando estava frente a frente com o jovem guerreiro. Estava pronto para desferir a sua lança, quando uma emoção estranha possuiu-lhe o coração. Mansamente aproximou-se do jovem, perguntando-lhe:

-Quem sois vós, bravo e audacioso guerreiro? De que estirpe herdai tão fervorosa coragem, tão garbo semblante?

-Sou Hadubrand, filho de Hildebrando, o mais valente cavaleiro de todos os tempos, fiel servidor do rei Teodorico de Verona. Dele herdei a coragem que me faz defender o meu povo dos bárbaros e forasteiros como vós. Armai a vossa espada e a vossa lança, que em nome do meu saudoso pai, derramarei o vosso sangue de invasor! Pela honra do sangue que se me escorre nas veias, derramarei o vosso sobre a relva espargida pela primavera.

Hildebrando sentiu o coração saltar-lhe, sendo tomado pela mais forte das emoções. Ali, no último campo de batalha que decidira travar na vida, estava o próprio filho, que deixara de ser a sombra da lembrança, adquirindo o corpo do mais valente de todos os jovens guerreiros. Com a voz embargada, Hildebrando conseguiu dizer as palavras que guardara por todos os anos de exílio:

-Não sofras mais pela saudade, Hadubrand, pois sou eu, Hildebrando, o pai ausente, que tanto te fustiga a saudade. Assim como eu, tu és o mais valente dos bravos. Não me ergas a espada e a lança, mas os braços, pois de ti quero um longo e infinito abraço.

Ao ouvir as palavras do forasteiro, Hadubrand sentiu a cólera invadir o seu coração. Leu em cada palavra proferida, uma blasfêmia à memória do pai.
-Como ousai a passar pelo mais honrado dos homens? Não vos permitirei que me vença com tão grotesco ardil. Fazei uma última prece, porque a minha lança já está pronta para trespassar o vosso coração enganador!

Furioso e incontrolável, o jovem lançou em disparada rumo a Hildebrando. De lança em punho, verteria o sangue do forasteiro, dedicando a vitória à memória do pai distante. Hildebrando viu a fúria do jovem na sua direção. Palavra alguma demoveria o valente do seu propósito.

O que fazer naquele momento, morrer nas mãos do filho? Defender-se diante da sua prole, como quem se defende de um feroz inimigo? Hildebrando sentiu o vento da lança do filho a aproximar-se do seu corpo, em um gesto instintivo, sem que se lhe apercebesse dele, ergueu a sua lança. No ar ecoou um grande grito de dor. Um corpo tombou no chão. O sangue lavou a terra das sementes da primavera. A morte já pairava no horizonte.

O cavaleiro sobrevivente desceu do seu cavalo. Era Hildebrando. Ajoelhou-se diante do corpo do filho, que emitia um último suspiro. Antes que a morte cortasse o cordão da vida, Hadubrand sorriu, reconhecera, no último instante, os olhos lacrimejantes do pai.
Hildebrando abraçou-se ao corpo inerte do jovem. Matara tantos inimigos, e, tragicamente, encerrava a sua epopéia a verter o sangue do próprio filho, como se o céu lhe cobrasse todos os seus mortos.




O mito do Quinto Império - Por Daniel Teixeira


O mito do Quinto Império

Por Daniel Teixeira


O Quinto Império, da forma que ele é entendido como irrompendo na história, é profundamente reaccionário, elitista, hegemonista e sob a capa de uma unificação tende à uniformização das sociedades. Ou seja, de um mito bíblico que tem atravessado um pouco todas as idades com diversas interpretações, retira-se não o seu valor simbólico como mito religioso, a contar com a intervenção de Deus ele mesmo e transforma-se tudo isso num acontecimento a ter lugar por previsão humana, da forma que se entende e quando se entende que deve ter lugar.

Ou seja, terá lugar esse acontecimento um dia destes cuja data o profeta não conhece mas que permanentemente vai sugerindo acontecer porque todos os traços lhe apontam nesse caminho nunca se sabendo quando está e se algum dia exacto estará preenchida a folha da vida. Só quando acontecer...se sabe!

Por outras palavras transforma-se aquilo que faz parte da crença em Deus numa crença em homens ou num homem. Em Portugal esteve o Quinto Império presente no Sebastianismo, que, e como se sabe, tem ele também percorrido os últimos tempos da nossa história com toda a sua carga de «esperança» interpretada na vontade colectiva de uma forma passiva e cuja última «demonstração» durou meio século.

Pois o Sebastianismo é uma espécie de messianismo. (...) O tipo de messianismo a que pertence o sebastianismo português é próprio de uma sociedade ainda não secularizada, digamos (embora o termo se preste a mal - entendidos) uma sociedade «sacral». Não quer dizer que seja uma sociedade eminentemente religiosa, ou que este «sacral» advenha do cristianismo. Trata-se neste caso de uma sociedade psicologicamente crente, uma sociedade que acredita (dá crédito) a uma possível eventualidade…o tal de Quinto Império neste caso.

A sociedade portuguesa, e muitas outras que não a portuguesa, têm ainda uma necessidade forte de misticismo, de esperança personificada ou não, uma forte necessidade de deixar uma larga margem das suas vivências à obra do acaso e da incerteza ou da semi-certeza.

O conhecimento de tudo e de todas as coisas que aconteceram e vão acontecer, o conhecimento absoluto de que falavam Laplace e Kant não é decididamente para nós uma hipótese aceitável ou minimamente desejável. Por outro lado o crescendo das seitas religiosas, dos milagres em directo pela Televisão, dos astrólogos, bruxos e outros que tal que enchem páginas de anúncios demonstram até que ponto esta necessidade de misticismo ultrapassa a capacidade de resposta da Igreja ou das Igrejas há séculos instituídas e com credibilidade adquirida.

Pode até dizer-se sem grande receio de errar que mesmo que hipoteticamente todas as respostas fossem dadas elas seriam sempre insuficientes.

Na verdade o misticismo como consequência aparece mais fortemente implantado em épocas de crise, nomeadamente em épocas de crise de identidade, de desnorte colectivo, de desconfiança perante o futuro. mas a estrutura que à volta dele se cria torna-o elemento interiorizado com valor (ou «vida») própria.

Nela, na sociedade sacral ou na sociedade que sente a necessidade de sagrado, seja ela portuguesa ou outra, todas as áreas da vida individual e colectiva parecem directa e constantemente permeáveis à actuação do mundo sobrenatural, quando as respostas usuais e institucionais correntes não convencem ou não acompanham o ritmo das necessidades em obter respostas convenientes ( ou mesmo que hipoteticamente as dessem como vimos trás elas seriam sempre consideradas insuficientes).

Tal messianismo é inconcebível sem uma fé religiosa, professada pela grande maioria da sociedade.(...) diz van den Besselaar. De facto o seu cimento é uma fé (um believe) e a mais implantada é aquela que mais matéria fornece.  O povo oprimido - porque tem de haver um povo ou uma classe social que se considerem oprimidos de qualquer forma para haver messianismo - pode ser uma nação inteira, ou uma determinada classe social: existe não só um messianismo nacional, como também um messianismo social.

Aquele foi, quase sem excepção, o caso do sebastianismo português (o messianismo da nação inteira ou quase inteira), ao passo que este (o messianismo das classes sociais) marcou os movimentos messiânicos que no Sec. XIX ocorreram no Brasil. Movimentos messiânicos esses que transformaram o «positivismo» de August Comte numa religião e movimentos messiânicos esses que alimentaram por via directa e indirecta a actual chamada Teologia da Libertação existente na América do Sul sem que a Teologia disso tenha alguma culpa no cartório das realidades.

E, finalmente, acrescenta o mesmo autor, o messianismo é um fenómeno tanto apropriado a fomentar a inércia e a inactividade dos indivíduos, como a estimular-lhes iniciativas particulares e actos de heroísmo. A esperada intervenção do Céu (ou do ente esperado ou da coisa esperada) pode paralisar-lhes a actividade, mas pode também incentivá-los a preparar o solo terrestre para a irrupção de Deus (ou do ente esperado ou da coisa esperada) na história. (...).

E a esperança na irrupção de Deus na história é teorizada desta forma por Espinosa na sua Ética:

«A esperança, enquanto alegria instável nascida da ideia duma coisa passada ou futura, do resultado da qual duvidamos numa certa medida, é, afirma Espinosa, indissociável do medo, que é uma tristeza instável nascida da ideia duma coisa passada ou futura, do resultado da qual duvidamos numa certa medida. Aquele que está suspenso pela esperança não possui ainda a certeza, porque imagina sempre que alguma coisa pode ainda vir a opor-se á existência daquilo que se espera vir a acontecer no futuro.

Porque está suspenso, a sua alegria não tem uma base firme e, consequentemente, viverá sempre com medo de que não aconteça o que espera. Viver no medo é não saber que coisas funestas lhe advirão duma coisa que lhe repugna. Mas quem se encontra possuído pelo medo também imagina que alguma coisa poderá vir a acontecer que contrarie tais coisas funestas. O que nos leva a concluir que entre a esperança e o medo não existe verdadeira diferença.» (Neste caso acrescentamos nós, esclarecendo).

Por outras palavras – digo – esperar é viver um estado de angústia e angustiar-se é deprimir-se.

Para fundamentação do Quinto Império os tratadistas alegam frequentemente alguns textos dos profetas Isaías e Ezequiel, que se referem à paz e harmonia universal do reino messiânico, tema por eles, geralmente, combinado com a restauração de Israel. Mais importantes, porém, são os textos apocalípticos da Bíblia.

O género apocalíptico, que floresceu entre 200 A.C. e 200 D.C., descreve em sonhos ou visões o combate decisivo entre Israel e os seus inimigos nos tempos derradeiros, e o triunfo final do povo de Deus. A descrição faz-se por meio de figuras simbólicas (Leão, Águia, Dragão, etc.) cujo significado vem a ser explicado, ou pelo próprio profeta, ou por um Anjo, ou por Deus. Entre esses sonhos cumpre salientarmos os do profeta Daniel (cap.2 e 7), referentes aos quatro grandes Impérios que no Próximo Oriente se sucederam e que a exegese tradicional identificava, respectivamente, com o dos Assírios (I), o dos Persas e Medos (II), o dos Gregos (Alexandre Magno) (III) e o dos Romanos (IV).

O primeiro sonho representava os quatro impérios sucessivos na figura de uma estátua enorme, cuja cabeça era de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de cobre, e as pernas de ferro, sendo de ferro também uma parte dos pés, mas de barro outra parte. Desprendendo-se, de repente, duma montanha uma pedra feriu e despedaçou a estátua, crescendo até se transformar numa grande montanha, que acabou por encher a terra inteira. (Vidé á frente transcrição da Bíblia, D.T.)

Esta pedra que se transformou numa grande montanha e encheu a terra inteira deu, em Portugal, origem ao «Quinto Império» e á Fifth Monarchy entre os metodistas da Inglaterra.

Eis o comentário de António Vieira: «Aquela pedra (...) que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza dos seus metais, significa um novo e Quinto Império, que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos tempos dos outros quatro. Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos, e ele só há-de permanecer para sempre, sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho, sem haver de conquistado ou destruído, como sucedeu (...) aos demais.»

O mesmo Padre António Vieira, na sua «História do futuro» fala do Quinto Império dizendo que este seria o Reino consumado de Cristo na Terra, um reino universal, com todas as raças e todas as culturas, um reino cristão e católico que havia de rematar a conversão dos hereges, maometanos, pagãos e judeus. (...) Um reino regido por Cristo mas não directamente: o governo espiritual seria exercido pelo Papa em Roma e o governo temporal por um rei português.

Convenhamos que, embora não achemos um «rei» português, ou um Presidente da República Portuguesa, menos capaz que qualquer outro rei para governar o mundo, me parece, apesar disso, uma grande peneirisse, e talvez uma notável falta de sentido das realidades andar por aí a proclamá-lo como verdade absoluta a esperar, com...esperança. E é este o famoso Quinto Império.

Mas, e para terminar, eis a base do mito que se fundamenta numa interpretação da Bíblia e que já foi objecto de centenas de interpretações neste campo. Bíblia – Daniel:

2.31: «Tu, ó Rei (Nabucodonosor), estavas vendo, e eis uma enorme estátua, que era grande e cujo esplendor era extraordinário, erguia-se na tua frente e sua aparência era atemorizante.

32:Quanto à estátua, sua cabeça era de ouro bom, seu peito e seus braços eram de prata, seu ventre e suas coxas eram de cobre,

33:suas pernas eram de ferro, seus pés eram parcialmente de ferro e parcialmente argila modelada.

34: Estavas olhando até que se cortou uma pedra, sem mãos, e ela golpeou a estátua nos seus pés de ferro e de argila modelada e os esmiuçou.

35:Nesta ocasião, o ferro, a argila modelada, o cobre, a prata e o ouro foram juntos esmiuçados e tornaram-se como a pragana da eira do verão, e o vento os levou embora, de modo que não se achou nenhum traço deles. E no que se refere á pedra que golpeou a estátua, tornou-se num grande monte e encheu a terra inteira. (...)

36:(...) e nós diremos a sua interpretação (...)

37: (...) tu mesmo (Nabucodonosor) és a cabeça de ouro.

39 E depois de ti surgirá outro reino inferior a ti; e outro reino, um terceiro, de cobre, que dominará sobre a terra inteira.

40:E no que se refere ao quarto reino, mostar-se-á forte como o ferro. Visto que o ferro esmiúça e tritura tudo o mais, assim, qual ferro que quebranta, esmiuçará e quebrantará todos estes.(...)

44: E nos dias daqueles reis o Deus do céu estabelecerá um reino que jamais será arruinado. E o próprio reino não passará a qualquer outro povo. Esmiuçará e porá termo a todos estes reinos, e ele mesmo ficará estabelecido por tempos indefinidos;

45 pois viste que se cortou do monte uma pedra, sem mãos, e que ela esmiuçou o ferro, o cobre, a argila modelada, a prata e o ouro. (...).

É só meter em Daniel (como o fez António Vieira) um Papa que já existia na altura e existe hoje e um Rei português que ainda existe.




Haicais e Tankas de Se Gyn


Haicais e Tankas de Se-Gyn

 

 HAICAIS

 nenhum e-mail --
o gato medita um pouco
 e salta no muro

 

 o que ainda procuro
 na velha canção que ouço
 nesta fria manhã?

 

 o cão que fugiu
 arranhando o portão --
chuva matinal

 

 as coisas do bairro:
 outra loja que fecharam
 e o templo que abriram

 

 chuvas de verão --
a luz mortiça da fachada
 onde alguém entrou

 

 isso de manter
 cada macaco no seu galho
 da tanto trabalho!

 

 fila de carros
 daqui até muito longe --
pinta de monge

 

 vendo meu umbigo
 fugi do encontro esperado
 marcado comigo

 

 a briga de ontem
 a caixinha de chocolate --
vamos pro empate?

 

 casal de araras
 no parapeito da casa --
par perfeito

 

 ah, namoradinha
 depois da comemoração
 dormir de conchinha



Tankas


Enfim - Tanka

 sensação do pleno
 aquosa impressão que vem --
do que não se tem

 por agora ou enfim
 o vício livre de mim

 

 quanta maldade --
o fraudulento ENEM
 senhor Haddad

 seu nome está na bica
 Sampa elegeu Tiririca





Os 500 anos da Conquista de Azamor, no Algarve Dalém Mar. - Texto de Fernando Pessanha


Os 500 anos da Conquista de Azamor, no Algarve Dalém Mar.

 Texto de Fernando Pessanha

 

 O presente mês de Setembro de 2013 assinala um dos maiores feitos militares da história da expansão ultramarina portuguesa: a conquista de Azamor (em árabe أزمور‎), em Marrocos.

Segundo cronistas como Rui de Pina ou Garcia de Resende, Azamor, temendo ser tomada pela força das armas portuguesas, tornou-se tributária de D. João II, em 1486. D. Manuel I ainda confirmou os termos do contrato com Azamor, em 1497, porém, a fidelidade dos seus habitantes à Coroa portuguesa foi muito irregular depois de 1502, revoltando-se contra a soberania portuguesa e deixando de pagar os tributos acordados.

Em 1508, Rodrigues Bérrio, um armador de Tavira que costumava ir pescar sáveis a Azamor, deu conhecimento a D. Manuel I das grandes divisões entre os seus habitantes e do desejo que alguns manifestavam em se tornar súbditos de Portugal.

Atendendo a esses motivos, foi enviada uma armada (50 navios e 2.500 homens) sob o comando de D. João de Menezes, com o apoio de um príncipe oatácida que já estivera em Portugal, Muley Zião. Porém, a expedição fracassou, não só porque o aliado mudara de posição, mas também porque os meios envolvidos se revelaram insuficientes para tomar a praça.

As intenções em tomar Azamor mantiveram-se até que, em 1513, deu-se um levantamento geral em Portugal, num ambiente de vibração patriótica registado por Gil Vicente, no seu Auto da Exortação da Guerra.

De acordo com Damião de Góis, (Chronica do Serenissimo Senhor Rei D. Manoel, III, Capítulo XLVI) os preparativos resultaram na maior armada organizada no reinado do venturoso; mais de 400 navios e cerca de 25000 homens, entre soldados, cavaleiros e infantes, comandados por D. Jaime, o duque de Bragança.

Quando a armada partiu de Lisboa, «foi lançar ancora na baia do Faram, no regno do Algarue», onde se lhe juntaram mais navios com combatentes algarvios. Muitos membros da grande fidalguia do reino participaram nesta expedição, entre os quais Rui Barreto, alcaide-mor de Faro e vedor da fazenda do Reino do Algarve, que ia investido como capitão de Azamor, e D. João de Menezes, que ia investido como capitão de campo.

Com o desembarque do grosso das tropas na baia de Mazagão, em 28 de Agosto, os portugueses atacaram por terra e pelo rio no primeiro dia de Setembro. Os defensores de Azamor, impressionados com o poderio do exército português, acabaram por abandonar a cidade, procurando refúgio nas regiões vizinhas.

A notícia da tomada da cidade correu rapidamente por toda a Enxovia e Duquela, pelo que as povoações de Almedina e Tide acabaram por ser abandonadas. Muitos mouros pediram então a paz, alegando quererem ser vassalos e pagar tributo a el-rei de Portugal.

Finalmente, a 3 de Setembro, o duque de Bragança entrava na cidade e D. Manuel I acrescentava mais uma praça marroquina ao império português.





POESIA DE JOSÉ GERALDO MARTINEZ


POESIA DE JOSÉ GERALDO MARTINEZ



 Não fosse poesia ...; Preciso tanto...


 Não fosse poesia ...

Moça, valsar em ti eu queria,
 No amplo salão do corpo teu !
 Não fosse esta ilusão só poesia,
 A bordar este instante nos sonhos meus!

 Moça, como eu queria
 Esquecer do tempo em teu corpo!
 Rodopiando em ti,
 Por teus braços, envolto...

 Moça, se sem pressa, escalar
 Cada palmo de tua pele
E do teu suor então, provar...
 Todos segredos, talvez, reveles .

 Até a exaustão,
 Tombaria em teu chão,
 Dançarino de minha fantasia !
 Ah, moça, não fosse tudo ilusão,
 Não fosse tudo só poesia!


 Preciso tanto...

Preciso tanto de você,
 qual as praias o mar sem fim...
 As estrelas ao escurecer,
 a própria alma que trago em mim!

 Preciso tanto...
 Qual moribundo buscando o ar!
 A primavera as flores todas...
 Os lagos tristes, manso luar!

 Quem manda ser o meu ombro?
 Ter esta candura no olhar?
 A mão estendida aos meus muitos tombos...
 O colo para o meu descansar?

 Quem manda sorrir sempre?
 Ainda que o pesadelo me tenha acometido...
 Carregar o fardo quando eu me entrego,
 caído aos seus pés, homem vencido!

 Preciso tanto de você...
 Quem manda me transformar em um menino?
 E quando esquece seu homem feito,
 abrigando, ao peito, meus desatinos!

 Quando se abandona criança
 e me espera alegre no portão...
 No seu olhar brilhante vivo só bonança
 e lhe entrego a alma na palma da mão!

 Preciso tanto de você...
 Qual estrada um destino,
 um pintor o pincel e o poeta
 a poesia...

 Tanto amor de mim...
 Loucamente!
 Que morro todos os dias
 na mais doce agonia...
 Para nascer em você, igualmente!

«A maior felicidade de um homem é nascer
 todos os dias dentro da alma do ser amado.»
( Martinez

«Nenhuma busca é perdida se o amor
 for encontrado.»
( Martinez)