quinta-feira, 14 de maio de 2015

My Blueberry Nights - Crônicas da madrugada- Por Cynthia Kremer


My Blueberry Nights - Crônicas da madrugada- Por Cynthia Kremer

O nada absoluto

Pelo que tenho lido e assistido em documentários na TV, parece que os cientistas ainda não chegaram a um consenso a respeito do que seria composta a matéria escura e no que, exatamente, ela interfere.

Os paradoxos da mecânica quântica evidenciam a relatividade de tudo; o que para nós chama-se, ou melhor, chamamos de antimatéria, pela nossa incapacidade de decifrá-la, por sabermos apenas que ela é um espelho de todas as partículas de matérias dotadas de massa, só que um espelho inverso dessas mesmas partículas que estão por toda parte.

Se nós somos constituídos de matéria estelar, (partículas) o que seria para nós uma colisão, um esbarrão na antimatéria? Talvez na nossa atual compreensão, uma implosão, a ausência de consciência, o NADA. Quem poderia conceber o conceito do nada?

O nada, a princípio, é a nossa incompreensão, a nossa ignorância a respeito de qualquer coisa: se desconheço um compositor magnífico, nunca ouvi suas obras, até então, ele é para mim inócuo, é nada. Se me falam sobre ele em teoria, ele passará a existir apenas em conceito, como um nome solto no espaço. Ainda não terei a consciência de sua obra. Saberei apenas de sua existência sem grandes vislumbres. Mas isso já não significa que ele não exista, que talvez ele seja brilhante e que muitos o admirem, posso conjecturar. Mais, sobre ele, não saberei.

Não seria esse mesmo processo que se dá no meio científico, que caminha pouco a pouco e vai retirando véus e pondo à luz da consciência conceitos concretos e existenciais?

Eles - os cientistas - estão ainda no "escuro" quanto ao que significa para o universo e para nós, a interação da matéria escura, (não à toa a sua nomenclatura, "escura") ela é percebida escura por ser quase desconhecida, assim como aquele compositor do qual nenhuma obra ouvi em nada me influenciou.

Experimentar a existência de algo dotado de matéria por uma primeira vez, já é um insight. Imagine o que seria (seria?) experimentar a ausência de tudo, até que essa ausência fosse desvendada uma grande presença, que se mostrasse dotada de massa?

Para a consciência do ser humano, essa passagem, a do consistente para o etéreo absoluto, o que chamamos de antimatéria, matéria negativa ou escura, o intangível, o nada, é apenas até onde podemos chegar nesse momento por não termos capacidade de desvendá-lo, traduzi-lo - que somente achamos que assim o é - porque ainda não os colocamos sob a luz da consciência.

É possível que haja o inconcebível no anteriormente, "nada".

É possível que ultrapassada essa linha de percepção, a antimatéria que sabemos hoje, seja muito mais palpável e tenha um papel muitíssimo mais importante e dinâmico no universo e em nós mesmos.

É possível que pelo estreito ponto de vista da ciência, ela, a antimatéria, a matéria escura, seja – ainda - apenas uma nomenclatura que não lhe fará jus num futuro próximo.


Cynthia Kremer




Lendas - Hildebrando


Lendas

Hildebrando

A fama de valente acompanhou toda a vida heróica de Hildebrando.
Emocionando por voltar a sua terra, o velho cavaleiro cavalgava solitário. Sentia o vento frio da primavera a bater no seu rosto austero, curtido pelo sol e pelas marcas adquiridas nas batalhas que lhe fizeram a fama.

Próximo do seu reino, Hildebrando viu, ao longe, a figura de um jovem guerreiro, com um porte da mais alta estirpe. O jovem preparava a armadura e a lança, pronto para conduzir o seu exército. Diante daquela cena que se armava em campo de batalha, Hildebrando correu a lembrança por todos os momentos da sua vida.

Quando novo, dedicara-se à educação de Teodorico, fazendo dele um dos maiores reis dos ostrogodos. Casara-se com a mulher mais bela do seu povo. Do ventre da amada, nascera um filho. Hildebrando, já cavaleiro de Teodorico, tendo a vida marcada por longas batalhas em favor do seu rei, só queria viver a paz de amar a mulher e contemplar o crescimento do filho.

Mas o destino soprou-o na direção contrária à paz. Um dia surgiu o sanguinário Odoacro, que ao pôr fim ao Império Romano do Ocidente, tornara-se o primeiro rei bárbaro em Roma. Para escapar da fúria de Odoacro, Teodorico fugiu, seguido dos seus cavaleiros.

Sempre fiel, Hildebrando acompanhou o seu rei, deixando às costas, a mulher e o filho. Por trinta anos o cavaleiro sofreu com a ausência da família. Seus olhos firmes marejavam ao se lembrar que não acompanhara o crescimento do filho. Sonhava com o dia em que voltaria a abraçá-lo, tê-lo contra o peito, finalmente.

Ao lado de Teodorico, Hildebrando invadiu a península Itálica e, bravamente, derrotaram Odoacro em Verona. O cavaleiro já poderia voltar para a família.Sob o seu cavalo, Hildebrando viu, tão perto, a sua terra amada.

Inesperadamente um exército, comandado por um jovem intrépido, se lhe pôs no caminho. Seria a última batalha que travaria em vida. Após o seu término, voltaria para os braços da mulher e o amor do filho. Decidira depor a lança e a espada. Na sede de encontrar a paz, Hildebrando lançou-se com fúria contra o jovem que liderava o exército que lhe obstruía a passagem.

Minutos depois, Hildebrando estava frente a frente com o jovem guerreiro. Estava pronto para desferir a sua lança, quando uma emoção estranha possuiu-lhe o coração. Mansamente aproximou-se do jovem, perguntando-lhe:

-Quem sois vós, bravo e audacioso guerreiro? De que estirpe herdai tão fervorosa coragem, tão garbo semblante?

-Sou Hadubrand, filho de Hildebrando, o mais valente cavaleiro de todos os tempos, fiel servidor do rei Teodorico de Verona. Dele herdei a coragem que me faz defender o meu povo dos bárbaros e forasteiros como vós. Armai a vossa espada e a vossa lança, que em nome do meu saudoso pai, derramarei o vosso sangue de invasor! Pela honra do sangue que se me escorre nas veias, derramarei o vosso sobre a relva espargida pela primavera.

Hildebrando sentiu o coração saltar-lhe, sendo tomado pela mais forte das emoções. Ali, no último campo de batalha que decidira travar na vida, estava o próprio filho, que deixara de ser a sombra da lembrança, adquirindo o corpo do mais valente de todos os jovens guerreiros. Com a voz embargada, Hildebrando conseguiu dizer as palavras que guardara por todos os anos de exílio:

-Não sofras mais pela saudade, Hadubrand, pois sou eu, Hildebrando, o pai ausente, que tanto te fustiga a saudade. Assim como eu, tu és o mais valente dos bravos. Não me ergas a espada e a lança, mas os braços, pois de ti quero um longo e infinito abraço.

Ao ouvir as palavras do forasteiro, Hadubrand sentiu a cólera invadir o seu coração. Leu em cada palavra proferida, uma blasfêmia à memória do pai.
-Como ousai a passar pelo mais honrado dos homens? Não vos permitirei que me vença com tão grotesco ardil. Fazei uma última prece, porque a minha lança já está pronta para trespassar o vosso coração enganador!

Furioso e incontrolável, o jovem lançou em disparada rumo a Hildebrando. De lança em punho, verteria o sangue do forasteiro, dedicando a vitória à memória do pai distante. Hildebrando viu a fúria do jovem na sua direção. Palavra alguma demoveria o valente do seu propósito.

O que fazer naquele momento, morrer nas mãos do filho? Defender-se diante da sua prole, como quem se defende de um feroz inimigo? Hildebrando sentiu o vento da lança do filho a aproximar-se do seu corpo, em um gesto instintivo, sem que se lhe apercebesse dele, ergueu a sua lança. No ar ecoou um grande grito de dor. Um corpo tombou no chão. O sangue lavou a terra das sementes da primavera. A morte já pairava no horizonte.

O cavaleiro sobrevivente desceu do seu cavalo. Era Hildebrando. Ajoelhou-se diante do corpo do filho, que emitia um último suspiro. Antes que a morte cortasse o cordão da vida, Hadubrand sorriu, reconhecera, no último instante, os olhos lacrimejantes do pai.
Hildebrando abraçou-se ao corpo inerte do jovem. Matara tantos inimigos, e, tragicamente, encerrava a sua epopéia a verter o sangue do próprio filho, como se o céu lhe cobrasse todos os seus mortos.




O mito do Quinto Império - Por Daniel Teixeira


O mito do Quinto Império

Por Daniel Teixeira


O Quinto Império, da forma que ele é entendido como irrompendo na história, é profundamente reaccionário, elitista, hegemonista e sob a capa de uma unificação tende à uniformização das sociedades. Ou seja, de um mito bíblico que tem atravessado um pouco todas as idades com diversas interpretações, retira-se não o seu valor simbólico como mito religioso, a contar com a intervenção de Deus ele mesmo e transforma-se tudo isso num acontecimento a ter lugar por previsão humana, da forma que se entende e quando se entende que deve ter lugar.

Ou seja, terá lugar esse acontecimento um dia destes cuja data o profeta não conhece mas que permanentemente vai sugerindo acontecer porque todos os traços lhe apontam nesse caminho nunca se sabendo quando está e se algum dia exacto estará preenchida a folha da vida. Só quando acontecer...se sabe!

Por outras palavras transforma-se aquilo que faz parte da crença em Deus numa crença em homens ou num homem. Em Portugal esteve o Quinto Império presente no Sebastianismo, que, e como se sabe, tem ele também percorrido os últimos tempos da nossa história com toda a sua carga de «esperança» interpretada na vontade colectiva de uma forma passiva e cuja última «demonstração» durou meio século.

Pois o Sebastianismo é uma espécie de messianismo. (...) O tipo de messianismo a que pertence o sebastianismo português é próprio de uma sociedade ainda não secularizada, digamos (embora o termo se preste a mal - entendidos) uma sociedade «sacral». Não quer dizer que seja uma sociedade eminentemente religiosa, ou que este «sacral» advenha do cristianismo. Trata-se neste caso de uma sociedade psicologicamente crente, uma sociedade que acredita (dá crédito) a uma possível eventualidade…o tal de Quinto Império neste caso.

A sociedade portuguesa, e muitas outras que não a portuguesa, têm ainda uma necessidade forte de misticismo, de esperança personificada ou não, uma forte necessidade de deixar uma larga margem das suas vivências à obra do acaso e da incerteza ou da semi-certeza.

O conhecimento de tudo e de todas as coisas que aconteceram e vão acontecer, o conhecimento absoluto de que falavam Laplace e Kant não é decididamente para nós uma hipótese aceitável ou minimamente desejável. Por outro lado o crescendo das seitas religiosas, dos milagres em directo pela Televisão, dos astrólogos, bruxos e outros que tal que enchem páginas de anúncios demonstram até que ponto esta necessidade de misticismo ultrapassa a capacidade de resposta da Igreja ou das Igrejas há séculos instituídas e com credibilidade adquirida.

Pode até dizer-se sem grande receio de errar que mesmo que hipoteticamente todas as respostas fossem dadas elas seriam sempre insuficientes.

Na verdade o misticismo como consequência aparece mais fortemente implantado em épocas de crise, nomeadamente em épocas de crise de identidade, de desnorte colectivo, de desconfiança perante o futuro. mas a estrutura que à volta dele se cria torna-o elemento interiorizado com valor (ou «vida») própria.

Nela, na sociedade sacral ou na sociedade que sente a necessidade de sagrado, seja ela portuguesa ou outra, todas as áreas da vida individual e colectiva parecem directa e constantemente permeáveis à actuação do mundo sobrenatural, quando as respostas usuais e institucionais correntes não convencem ou não acompanham o ritmo das necessidades em obter respostas convenientes ( ou mesmo que hipoteticamente as dessem como vimos trás elas seriam sempre consideradas insuficientes).

Tal messianismo é inconcebível sem uma fé religiosa, professada pela grande maioria da sociedade.(...) diz van den Besselaar. De facto o seu cimento é uma fé (um believe) e a mais implantada é aquela que mais matéria fornece.  O povo oprimido - porque tem de haver um povo ou uma classe social que se considerem oprimidos de qualquer forma para haver messianismo - pode ser uma nação inteira, ou uma determinada classe social: existe não só um messianismo nacional, como também um messianismo social.

Aquele foi, quase sem excepção, o caso do sebastianismo português (o messianismo da nação inteira ou quase inteira), ao passo que este (o messianismo das classes sociais) marcou os movimentos messiânicos que no Sec. XIX ocorreram no Brasil. Movimentos messiânicos esses que transformaram o «positivismo» de August Comte numa religião e movimentos messiânicos esses que alimentaram por via directa e indirecta a actual chamada Teologia da Libertação existente na América do Sul sem que a Teologia disso tenha alguma culpa no cartório das realidades.

E, finalmente, acrescenta o mesmo autor, o messianismo é um fenómeno tanto apropriado a fomentar a inércia e a inactividade dos indivíduos, como a estimular-lhes iniciativas particulares e actos de heroísmo. A esperada intervenção do Céu (ou do ente esperado ou da coisa esperada) pode paralisar-lhes a actividade, mas pode também incentivá-los a preparar o solo terrestre para a irrupção de Deus (ou do ente esperado ou da coisa esperada) na história. (...).

E a esperança na irrupção de Deus na história é teorizada desta forma por Espinosa na sua Ética:

«A esperança, enquanto alegria instável nascida da ideia duma coisa passada ou futura, do resultado da qual duvidamos numa certa medida, é, afirma Espinosa, indissociável do medo, que é uma tristeza instável nascida da ideia duma coisa passada ou futura, do resultado da qual duvidamos numa certa medida. Aquele que está suspenso pela esperança não possui ainda a certeza, porque imagina sempre que alguma coisa pode ainda vir a opor-se á existência daquilo que se espera vir a acontecer no futuro.

Porque está suspenso, a sua alegria não tem uma base firme e, consequentemente, viverá sempre com medo de que não aconteça o que espera. Viver no medo é não saber que coisas funestas lhe advirão duma coisa que lhe repugna. Mas quem se encontra possuído pelo medo também imagina que alguma coisa poderá vir a acontecer que contrarie tais coisas funestas. O que nos leva a concluir que entre a esperança e o medo não existe verdadeira diferença.» (Neste caso acrescentamos nós, esclarecendo).

Por outras palavras – digo – esperar é viver um estado de angústia e angustiar-se é deprimir-se.

Para fundamentação do Quinto Império os tratadistas alegam frequentemente alguns textos dos profetas Isaías e Ezequiel, que se referem à paz e harmonia universal do reino messiânico, tema por eles, geralmente, combinado com a restauração de Israel. Mais importantes, porém, são os textos apocalípticos da Bíblia.

O género apocalíptico, que floresceu entre 200 A.C. e 200 D.C., descreve em sonhos ou visões o combate decisivo entre Israel e os seus inimigos nos tempos derradeiros, e o triunfo final do povo de Deus. A descrição faz-se por meio de figuras simbólicas (Leão, Águia, Dragão, etc.) cujo significado vem a ser explicado, ou pelo próprio profeta, ou por um Anjo, ou por Deus. Entre esses sonhos cumpre salientarmos os do profeta Daniel (cap.2 e 7), referentes aos quatro grandes Impérios que no Próximo Oriente se sucederam e que a exegese tradicional identificava, respectivamente, com o dos Assírios (I), o dos Persas e Medos (II), o dos Gregos (Alexandre Magno) (III) e o dos Romanos (IV).

O primeiro sonho representava os quatro impérios sucessivos na figura de uma estátua enorme, cuja cabeça era de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de cobre, e as pernas de ferro, sendo de ferro também uma parte dos pés, mas de barro outra parte. Desprendendo-se, de repente, duma montanha uma pedra feriu e despedaçou a estátua, crescendo até se transformar numa grande montanha, que acabou por encher a terra inteira. (Vidé á frente transcrição da Bíblia, D.T.)

Esta pedra que se transformou numa grande montanha e encheu a terra inteira deu, em Portugal, origem ao «Quinto Império» e á Fifth Monarchy entre os metodistas da Inglaterra.

Eis o comentário de António Vieira: «Aquela pedra (...) que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza dos seus metais, significa um novo e Quinto Império, que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos tempos dos outros quatro. Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos, e ele só há-de permanecer para sempre, sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho, sem haver de conquistado ou destruído, como sucedeu (...) aos demais.»

O mesmo Padre António Vieira, na sua «História do futuro» fala do Quinto Império dizendo que este seria o Reino consumado de Cristo na Terra, um reino universal, com todas as raças e todas as culturas, um reino cristão e católico que havia de rematar a conversão dos hereges, maometanos, pagãos e judeus. (...) Um reino regido por Cristo mas não directamente: o governo espiritual seria exercido pelo Papa em Roma e o governo temporal por um rei português.

Convenhamos que, embora não achemos um «rei» português, ou um Presidente da República Portuguesa, menos capaz que qualquer outro rei para governar o mundo, me parece, apesar disso, uma grande peneirisse, e talvez uma notável falta de sentido das realidades andar por aí a proclamá-lo como verdade absoluta a esperar, com...esperança. E é este o famoso Quinto Império.

Mas, e para terminar, eis a base do mito que se fundamenta numa interpretação da Bíblia e que já foi objecto de centenas de interpretações neste campo. Bíblia – Daniel:

2.31: «Tu, ó Rei (Nabucodonosor), estavas vendo, e eis uma enorme estátua, que era grande e cujo esplendor era extraordinário, erguia-se na tua frente e sua aparência era atemorizante.

32:Quanto à estátua, sua cabeça era de ouro bom, seu peito e seus braços eram de prata, seu ventre e suas coxas eram de cobre,

33:suas pernas eram de ferro, seus pés eram parcialmente de ferro e parcialmente argila modelada.

34: Estavas olhando até que se cortou uma pedra, sem mãos, e ela golpeou a estátua nos seus pés de ferro e de argila modelada e os esmiuçou.

35:Nesta ocasião, o ferro, a argila modelada, o cobre, a prata e o ouro foram juntos esmiuçados e tornaram-se como a pragana da eira do verão, e o vento os levou embora, de modo que não se achou nenhum traço deles. E no que se refere á pedra que golpeou a estátua, tornou-se num grande monte e encheu a terra inteira. (...)

36:(...) e nós diremos a sua interpretação (...)

37: (...) tu mesmo (Nabucodonosor) és a cabeça de ouro.

39 E depois de ti surgirá outro reino inferior a ti; e outro reino, um terceiro, de cobre, que dominará sobre a terra inteira.

40:E no que se refere ao quarto reino, mostar-se-á forte como o ferro. Visto que o ferro esmiúça e tritura tudo o mais, assim, qual ferro que quebranta, esmiuçará e quebrantará todos estes.(...)

44: E nos dias daqueles reis o Deus do céu estabelecerá um reino que jamais será arruinado. E o próprio reino não passará a qualquer outro povo. Esmiuçará e porá termo a todos estes reinos, e ele mesmo ficará estabelecido por tempos indefinidos;

45 pois viste que se cortou do monte uma pedra, sem mãos, e que ela esmiuçou o ferro, o cobre, a argila modelada, a prata e o ouro. (...).

É só meter em Daniel (como o fez António Vieira) um Papa que já existia na altura e existe hoje e um Rei português que ainda existe.




Haicais e Tankas de Se Gyn


Haicais e Tankas de Se-Gyn

 

 HAICAIS

 nenhum e-mail --
o gato medita um pouco
 e salta no muro

 

 o que ainda procuro
 na velha canção que ouço
 nesta fria manhã?

 

 o cão que fugiu
 arranhando o portão --
chuva matinal

 

 as coisas do bairro:
 outra loja que fecharam
 e o templo que abriram

 

 chuvas de verão --
a luz mortiça da fachada
 onde alguém entrou

 

 isso de manter
 cada macaco no seu galho
 da tanto trabalho!

 

 fila de carros
 daqui até muito longe --
pinta de monge

 

 vendo meu umbigo
 fugi do encontro esperado
 marcado comigo

 

 a briga de ontem
 a caixinha de chocolate --
vamos pro empate?

 

 casal de araras
 no parapeito da casa --
par perfeito

 

 ah, namoradinha
 depois da comemoração
 dormir de conchinha



Tankas


Enfim - Tanka

 sensação do pleno
 aquosa impressão que vem --
do que não se tem

 por agora ou enfim
 o vício livre de mim

 

 quanta maldade --
o fraudulento ENEM
 senhor Haddad

 seu nome está na bica
 Sampa elegeu Tiririca





Os 500 anos da Conquista de Azamor, no Algarve Dalém Mar. - Texto de Fernando Pessanha


Os 500 anos da Conquista de Azamor, no Algarve Dalém Mar.

 Texto de Fernando Pessanha

 

 O presente mês de Setembro de 2013 assinala um dos maiores feitos militares da história da expansão ultramarina portuguesa: a conquista de Azamor (em árabe أزمور‎), em Marrocos.

Segundo cronistas como Rui de Pina ou Garcia de Resende, Azamor, temendo ser tomada pela força das armas portuguesas, tornou-se tributária de D. João II, em 1486. D. Manuel I ainda confirmou os termos do contrato com Azamor, em 1497, porém, a fidelidade dos seus habitantes à Coroa portuguesa foi muito irregular depois de 1502, revoltando-se contra a soberania portuguesa e deixando de pagar os tributos acordados.

Em 1508, Rodrigues Bérrio, um armador de Tavira que costumava ir pescar sáveis a Azamor, deu conhecimento a D. Manuel I das grandes divisões entre os seus habitantes e do desejo que alguns manifestavam em se tornar súbditos de Portugal.

Atendendo a esses motivos, foi enviada uma armada (50 navios e 2.500 homens) sob o comando de D. João de Menezes, com o apoio de um príncipe oatácida que já estivera em Portugal, Muley Zião. Porém, a expedição fracassou, não só porque o aliado mudara de posição, mas também porque os meios envolvidos se revelaram insuficientes para tomar a praça.

As intenções em tomar Azamor mantiveram-se até que, em 1513, deu-se um levantamento geral em Portugal, num ambiente de vibração patriótica registado por Gil Vicente, no seu Auto da Exortação da Guerra.

De acordo com Damião de Góis, (Chronica do Serenissimo Senhor Rei D. Manoel, III, Capítulo XLVI) os preparativos resultaram na maior armada organizada no reinado do venturoso; mais de 400 navios e cerca de 25000 homens, entre soldados, cavaleiros e infantes, comandados por D. Jaime, o duque de Bragança.

Quando a armada partiu de Lisboa, «foi lançar ancora na baia do Faram, no regno do Algarue», onde se lhe juntaram mais navios com combatentes algarvios. Muitos membros da grande fidalguia do reino participaram nesta expedição, entre os quais Rui Barreto, alcaide-mor de Faro e vedor da fazenda do Reino do Algarve, que ia investido como capitão de Azamor, e D. João de Menezes, que ia investido como capitão de campo.

Com o desembarque do grosso das tropas na baia de Mazagão, em 28 de Agosto, os portugueses atacaram por terra e pelo rio no primeiro dia de Setembro. Os defensores de Azamor, impressionados com o poderio do exército português, acabaram por abandonar a cidade, procurando refúgio nas regiões vizinhas.

A notícia da tomada da cidade correu rapidamente por toda a Enxovia e Duquela, pelo que as povoações de Almedina e Tide acabaram por ser abandonadas. Muitos mouros pediram então a paz, alegando quererem ser vassalos e pagar tributo a el-rei de Portugal.

Finalmente, a 3 de Setembro, o duque de Bragança entrava na cidade e D. Manuel I acrescentava mais uma praça marroquina ao império português.





POESIA DE JOSÉ GERALDO MARTINEZ


POESIA DE JOSÉ GERALDO MARTINEZ



 Não fosse poesia ...; Preciso tanto...


 Não fosse poesia ...

Moça, valsar em ti eu queria,
 No amplo salão do corpo teu !
 Não fosse esta ilusão só poesia,
 A bordar este instante nos sonhos meus!

 Moça, como eu queria
 Esquecer do tempo em teu corpo!
 Rodopiando em ti,
 Por teus braços, envolto...

 Moça, se sem pressa, escalar
 Cada palmo de tua pele
E do teu suor então, provar...
 Todos segredos, talvez, reveles .

 Até a exaustão,
 Tombaria em teu chão,
 Dançarino de minha fantasia !
 Ah, moça, não fosse tudo ilusão,
 Não fosse tudo só poesia!


 Preciso tanto...

Preciso tanto de você,
 qual as praias o mar sem fim...
 As estrelas ao escurecer,
 a própria alma que trago em mim!

 Preciso tanto...
 Qual moribundo buscando o ar!
 A primavera as flores todas...
 Os lagos tristes, manso luar!

 Quem manda ser o meu ombro?
 Ter esta candura no olhar?
 A mão estendida aos meus muitos tombos...
 O colo para o meu descansar?

 Quem manda sorrir sempre?
 Ainda que o pesadelo me tenha acometido...
 Carregar o fardo quando eu me entrego,
 caído aos seus pés, homem vencido!

 Preciso tanto de você...
 Quem manda me transformar em um menino?
 E quando esquece seu homem feito,
 abrigando, ao peito, meus desatinos!

 Quando se abandona criança
 e me espera alegre no portão...
 No seu olhar brilhante vivo só bonança
 e lhe entrego a alma na palma da mão!

 Preciso tanto de você...
 Qual estrada um destino,
 um pintor o pincel e o poeta
 a poesia...

 Tanto amor de mim...
 Loucamente!
 Que morro todos os dias
 na mais doce agonia...
 Para nascer em você, igualmente!

«A maior felicidade de um homem é nascer
 todos os dias dentro da alma do ser amado.»
( Martinez

«Nenhuma busca é perdida se o amor
 for encontrado.»
( Martinez)





A Lenda do Amendoim - Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos - Acas


A Lenda do Amendoim

Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos - Acas

Originário da América do Sul, (controvérsias à parte, alguns especialistas afirmam que o amendoim se originou no Brasil; outros especialistas dizem que o grão surgiu no Gran Chaco, região que abrange parte do Paraguai, o norte da Argentina, parte da Bolívia e o Peru).

Desde a sua descoberta na América, o amendoim conquistou o mundo todo: Europa e, mais tarde, para os Estados Unidos, onde, durante a depressão econômica (fim da década de 20 e início da década de 30) o amendoim, por sua alta qualidade nutricional, foi utilizado como suplemento proteico para a merenda escolar. 


Representação estilizada da planta do amendoim


 O Arachis Hipogeae (seu nome científico) tornou-se, então, o principal ingrediente da famosa Peanut Butter, ou pasta de amendoim, tão consumida como substituta da manteiga nas mesas estrangeiras. No Brasil, o amendoim se concentra na área de confeitos, salgadinhos e doces. O amendoim fincou raízes nos quatro continentes emprestando seu sabor pronunciado a centenas de receitas.

O amendoim está tão integrado às tradições culinárias da Asia e da Africa que seus povos nunca querem acreditar que tenha surgido longe de seus dois continentes, mas sim na América do Sul. Essa, porém é apenas uma das particularidades de um alimento ancestral, cujos primeiros vestígios de cultivo datam de 3 000 a.C., no Peru.

Sua importância na cultura pré-inca era tamanha que os mortos costumavam ser enterrados com grãos de amendoim, para garantir o sustento na vida futura, segundo registra a enciclopédia The Oxford Companion to Food (Alan Davidson, Oxford University Press,).

Por ser chamado em inglês de groundnut (noz subterrânea) é frequentemente confundido com as nozes, embora na verdade seja uma leguminosa aparentada do feijão e da ervilha. Espécie de clima tropical, ele tem um curioso sistema de reprodução: a planta floresce como tantas outras, no solo, porém logo empurra o próprio talo com a flor para baixo da terra, onde cresce o fruto, ou seja, a vagem contendo suas duas ou três sementes.

Depois de maduro é tostado. (Aqui vai uma ressalva do ACAS, que viveu numa fazenda desde seu nascimento até os treze anos de idade: as flores «Não são empurradas» para baixo da terra, mas sim o lavrador é que as recobre com terra; exceto as pontas cimeiras). Então, a flor se transforma na vagem, que se torna dura e adquire cor de palha. As sementes, amareladas e extremamente oleosas, são recobertas por uma finíssima película marrom-avermelhada.

Existe uma hipótese remota de que o amendoim seja brasileiro, como veremos numa das lendas abaixo. Há quem defenda, inclusive, seu nascimento na região atualmente compreendida por Mato Grosso, onde ocorre particularmente variado (muitos tipos de amendoim). O mais provável, porém, é que essa leguminosa tenha se originado entre o sul da Bolívia e o norte da Argentina. Dali se espalhou espontaneamente até alcançar o México e o Caribe, onde foi encontrada pelos espanhóis nas primeiras expedições europeias ao Novo Mundo, no século XV. Então, começou sua saga rumo à cozinha asiática.

Inicialmente, os espanhóis a levaram para o leste da Asia, conforme a publicação Vegetables (Roger Phillips e Martyn Rix, Random House, Nova York, 1994). Mais tarde, eles e os portugueses espalharam o amendoim por outras regiões asiáticas, disseminando-o de forma irreversível. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, em 1522, o amendoim era um dos poucos alimentos cultivados pelos índios, junto com a mandioca, o milho, a batata, o cará e o inhame.

Saboreado cru, assado ou cozido, servia igualmente para a extração do óleo e, por isso, era cobiçadíssimo. Entretanto, não há registro de sua aplicação culinária, como ingrediente, nos tempos do Descobrimento, conforme ressalta Luís Câmara Cascudo in «História da Alimentação no Brasil» (Editora Global, 1967). O grande mestre da cultura nacional ainda registra uma interessante particularidade do ritual de cultivo do amendoim: só podia ser feito por mulheres (vide lenda a seguir) e, além disso, a planta tinha de ser semeada e colhida pela mesma mulher, índia ou mestiça.

Vigorava a crença de que, se o homem tocasse na planta, arruinaria a colheita, como descreve, em seus registros da época, Gabriel Soares de Sousa, um dos primeiros observadores da cultura brasileira.

Os portugueses levaram o amendoim do Brasil para a Africa nos porões dos navios negreiros. Ao mesmo tempo, exportaram a tradição do cultivo feminino. Até ao fim do século XIX, a ativa indústria de óleo de amendoim na República do Congo e no Senegal (Africa) continuava proibindo formalmente a presença masculina em seu ambiente.

A propagação foi tão rápida que em apenas 100 anos, o amendoim já estava nos fundamentos da cozinha africana, condição que persiste até os dias de hoje. Como ingrediente culinário, ou na forma de óleo, integra alguns dos pratos mais populares daquele continente, caso do mafetigâ: um purê feito do amendoim, muito consumido em todo o litoral.

No Senegal e em Moçambique, condimenta carnes, peixes, inhames e bananas e seu óleo é o primeiro substituto do óleo de palma ou dendê. Uma grande «iguaria do Sudão» é o arroz cozido no óleo de amendoim, com cebolas e tomates cortados, várias espécies de crustáceos e peixes, além de couve, mandioca, inhame, okra, pimenta e sal. -Fica «delicioso»; na avaliação de Câmara Cascudo.

O óleo de amendoim também entra no preparo do célebre fou-fou, uma pasta condimentada e temperada que deve ser feita em almofariz e regada com caldo. No preparo dessa iguaria africana não se pode usar nenhum objeto metálico. Uma das receitas favoritas naquele continente é o caldo de galinha combinado com pasta de amendoim.

Da Africa, as variedades brasileiras foram levadas para a América do Norte, hoje um dos maiores produtores mundiais de amendoim, onde surgiram diversas variações. Além de muito apreciado como aperitivo (tostado e salgado, servido com ou sem pele), o amendoim é a estrela de uma das receitas mais populares dos Estados Unidos: a manteiga de amendoim, que na verdade consiste numa pasta feita com seus grãos prensados.

Os americanos adoram usá-la em sanduíches, combinada com geleias. No Estado da Louisiana, onde a presença negra na culinária é determinante, o amendoim proliferou nas fazendas a partir de sementes trazidas pelos escravos. Por toda a região, surgiram pratos feitos com ele, entre os quais a guloseima natalina preferida das crianças, peanut brittle (tijolo de amendoim), um parente do brasileiro pé-de-moleque, que os americanos embrulham em saquinhos para dar de presente à garotada no dia de Natal.

No Brasil, os docinhos de amendoim também fazem a festa da criançada, porém bem longe do Natal. Segundo o calendário nacional, a alta temporada do amendoim acontece por ocasião das festas juninas. No interior de São Paulo (região de Ribeirão Preto e Cravinhos), havia o hábito de servirem nas noites de rezas dos festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro, o chamado «café de amendoim», feito a partir de amendoim torrado e moído.

Este néctar brasuca foi ingerido por este autor em inúmeras oportunidades, quando do tempo em que vivia na roça. Já a paçoquinha, o pé-de-moleque e o caju de amendoim são receitas tradicionais.

O uso no preparo de confeitos vem dos tempos da Colônia. No início da década de 30, na falta da farinha de trigo lusitana, a mulher portuguesa teve a ideia de adotar o amendoim moído como substituto (tal como feito nos EUA), segundo Câmara Cascudo.

Já no Brasil, a farinha de trigo que quase inexistia, foi substituída pelo fubá de milho. O óleo de amendoim também teve grande difusão no país até o fim do século XX, quando foi paulatinamente substituído pelo óleo de soja.

Na culinária asiática, o prestígio do óleo de amendoim jamais foi abalado. Constitui ingrediente quase obrigatório em toda a Asia. Além disso, o emprego do amendoim tostado, salgado, inteiro ou moído é frequente em todo o continente. Na China, participa de receitas como o frango picado com pimentão, salsão, cebola e caldo de galinha, que no Brasil se tornou conhecido como «frango xadrez».

O livro Dona Benta - Comer Bem (Companhia Editora Nacional, São Paulo, 2003) recomenda 1 (uma) xícara (chá) de amendoim para 4 filetes de frango cortados em cubos.

Na India, figura em diversas receitas. Na rica culinária da Indonésia, um dos pratos típicos é o camarão com amendoim, cebolinha e alho. Como ingrediente, também se revela essencial no preparo do popular «gadogado», combinação de batatas, broto de feijão, tofu, ovos, pepinos e um molho condimentado à base de pasta de amendoim, leite de coco e tomate. Na Tailândia, o típico «curry panan» leva frango, salada de papaia verde e amendoim.

E, mesmo no Japão, onde não integra tantas receitas, seu óleo é bastante utilizado com fins culinários. O amendoim é muito proteico: em média, à cada 100 gramas do produto são extraídas de 25 a 50 gramas de proteína!!!!!!!!!!!!!! E é fonte natural das vitaminas E, B6, B2, Niacina, Folato e Thiamina, além dos minerais Magnésio, Cobre, Fósforo, Potássio, Zinco, Ferro e Cálcio.

Também é utilizado na dieta mediterrânea, pois auxilia na redução do colesterol LDL, se fazendo presente nas dietas médicas para diabéticos. O consumo mundial de amendoim como alimento, é da ordem de 8 milhões de toneladas e de 15 a18 milhões de toneladas são esmagados para fabricação de óleo comestível.

Os maiores produtores (e consumidores) mundiais de amendoim são: a India, a China e os Estados Unidos. Já o Japão e países europeus como Portugal, a Alemanha, a Holanda, a França, a Espanha e os países do Reino Unido, são países importadores. No Brasil, o consumo de amendoim é da ordem de 100 mil toneladas de grãos, produzidos no próprio país.

 A AFLATOXINA

 Ela é conhecida em todos os países que produzem ou consomem amendoim, e há normas que estabelecem os níveis dessa toxina a partir dos quais o produto é considerado impróprio para consumo. Se o amendoim for contaminado por um fungo conhecido como «Aspergilo Flavus», poderá produzir uma substância chamada aflatoxina; hepatotóxica, causadora de problemas hepáticos (tumores) em humanos e outros animais.

A aflatoxina é considerada substância cancerígena e tem provocado intoxicações que levam à morte animais alimentados com torta de amendoim contaminada. Também pode provocar intoxicação no homem quando consumido na forma de grãos torrados, ou de doces. E é importante observar que no processo de extração de óleo, a contaminação pela aflatoxina é eliminada deste produto. A presença de fungos e bactérias nos alimentos em geral, não é fato raro. A maioria desses microrganismos são comumente encontrados na natureza. Por isso, todo alimento, antes de ser consumido, exige cuidados na sua produção, manuseio e comercialização, para que se previnam efeitos prejudiciais à saúde.

A aflatoxina não afeta só o amendoim, mas também o milho e a soja. Importante é  salientar que em São Paulo, onde se concentra 90% da produção brasileira, já há setores que estão produzindo amendoim com excelente padrão de qualidade. São cooperativas e outros produtores independentes, além de indústrias equipadas com os mais modernos equipamentos e laboratórios para controle de qualidade.

No Brasil, existem normas, assim como todas as orientações necessárias para que o amendoim seja produzido com segurança. Tais medidas visam que o produto chegue ao consumidor com a necessária qualidade. Por isso, são adotadas técnicas adequadas em toda a cadeia de produção: da produção agrícola aos estoques do produto no varejo, passando pelos setores de beneficiamento e industrialização.

Significativos investimentos estão sendo feitos para a produção de amendoim isento de aflatoxina, através da instalação de equipamentos para secagem artificial, prevenindo o aparecimento de fungos produtores da toxina. Outro aspecto preventivo importante refere-se à utilização de variedades mais adaptadas às nossas condições de clima e solo. Uma variedade brasileira, o «AC-Caiapó» por exemplo, apresenta uma série de características que, em conjunto, propiciam significativa redução de contaminações por esses fungos.

 IMPORTANCIA DO AMENDOIM

 O amendoim (do tupi mandu'wi, «enterrado») é a semente comestível da planta, Arachis Hypogaea, da família Fabaceae. Embora confundido com noz, o amendoim é um membro da família da ervilha Fabaceae e a noz não é uma fruta, mas um legume ou vagem. O amendoim é a quarta maior cultura oleaginosa mundial. Os maiores produtores de amendoim são a China, a India e os Estados Unidos.

A partir da década de 1940, o uso da manteiga de amendoim nos EUA foi se expandindo e, hoje consomem 500.000 toneladas de amendoim destinadas exclusivamente à fabricação da pasta de amendoim, que os americanos do norte consomem em substituição à manteiga ou margarina.

Segundo documentação arqueológica de 3800 a 2900 a.C., o amendoim teve sua origem a leste dos Andes e, não se sabe quantos anos ou séculos que o amendoim vem sendo domesticado pelo homem. Segundo Evaristo Eduardo e Miranda, chefe geral da Embrapa Monitoramento por Satélite, o amendoim foi descoberto e explorado muito antes de os atuais índios surgirem. Quando os espanhóis iniciaram sua exploração já se podia encontrar amendoim até no México.

Os colonizadores então levaram a planta para cultivar na Espanha, enquanto que os comerciantes da época a levaram para Africa, Filipinas e por toda Asia. O amendoim levado pelos portugueses à Africa salvou da fome diversos povos do Sahel, no limite do Saara. Por volta de 1560, o amendoim foi introduzido na Africa Ocidental, e no início do século XVII, a planta do amendoim já era comum em toda região tropical oeste do continente africano.

A expansão aconteceu também com a ajuda dos escravos que foram levados a América do Norte e carregaram consigo o amendoim, onde plantaram em todo o sul dos Estados Unidos. Nessa região, o amendoim foi até emblema do Estado da Geórgia.

No século XVIII, o amendoim, chamado na época pelos norte-americanos como nozes da terra ou ervilhas da terra, foi matéria de muitos estudos botânicos, sendo considerado excelente alimento. No fim da primeira década do século XIX, o amendoim já era plantado na Carolina do Sul e usado como alimento e substituto de cacau, devido seu óleo. As primeiras colheitas comerciais apareceram em 1818 na cidade de Wilmington na Carolina do Norte.

A cultura do amendoim já estava presente em todos os estados sulistas e em 1860, com a Guerra de Secessão foi dado o primeiro aumento notável do consumo norte-americano. Na metade do século XIX os amendoins torrados e grelhados passaram a ser vendidos na rua, em jogos de beisebol e circos. Os vendedores ambulantes que gritavam «Hot Roasted Peanuts» foram ouvidos pela primeira vez nas apresentações do Circo Barnum e, assim, o desejo pelo produto se propagou por todos os Estados Unidos junto às viagens da caravana do Circo Barnum.

A produção crescia nessa época e os amendoins continuavam a ser colhidos e processados manualmente, porém a falta de qualidade e uniformidade do produto, e elevados custos de colheita, mantinham a demanda em níveis baixos. Foi o George Washington Carver (1860-1943) quem programou o sistema de rotação de culturas entre as plantações de algodão e amendoim, no Sul dos Estados Unidos.

Nesse momento, apareceram os primeiros equipamentos que permitiam uma maior mecanização das colheitas, com a consequente redução de custo. Carver ainda mostrou que mais de 300 alimentos podiam ser derivados do amendoim. Em 1938, a indústria do amendoim nos Estados Unidos já era um negócio de mais de US$200 milhões.

No Brasil, o cultivo e a produção de amendoim são atividades agrícolas importantes em diversas regiões do Estado de São Paulo, com uma concentração de 80% da produção brasileira. O produto destina-se principalmente à indústria de confeitaria, venda/consumo in-natura, e fabricação de óleo. Hoje, a área estimada de plantio está em torno de 150 mil hectares, distribuídos entre as lavouras conduzidas neste novo padrão tecnológico (São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Bahia) e os pequenos cultivos familiares em diversos Estados, de Norte a Sul do País.



 O AMENDOIM

 A colheita do amendoim é realizada com duas operações: o arranquio e o enleiramento das plantas no campo (onde permanecem por alguns dias para secagem natural ou «cura»). A colheita ou «trilha» é o despendoamento ou retirada das vagens. Em lavouras comerciais, há máquinas que realizam ambos os processos (arrancadores/invertedores; recolhedoras) mecanicamente, com alto rendimento.

O enleiramento (ou inversão das plantas) consiste no posicionamento das plantas em linhas uniformes ao longo do campo, com as vagens voltadas para cima, sem contato com o solo. Atualmente, os amendoins de lavouras que visam alto padrão de qualidade, são transportados, logo após a colheita, para secadores artificiais.

Neste caso, não há necessidade de que as plantas permaneçam enleiradas no campo durante muitos dias. A secagem artificial de amendoim requer equipamentos especialmente desenhados para este fim, e, o seu manuseio, requer conhecimentos necessários para que o produto não perca as suas qualidades alimentícias.

Além de amendoim, a Arachis hypogaea recebe outros nomes regionais como: alcagoita (sul de Portugal), aráquide, caranga, carango (Moçambique), jiguba, jinguba, mandubi, manobi, amendubi, amendo mepinda (Angola), mancarra (Cabo Verde e Guiné-Bissau). Em alemão é conhecido por Erdnuss, em espanhol por cacahuete, em francês por arachide e arachis e em inglês por peanut.

 LENDAS DO AMENDOIM

 1ª LENDA INDIGENA: CATXERÊ, A MULHER- ESTRELA

 Esta é a história de Catxerê, a mulher estrela, que desceu do céu, dormiu com o índio e ensinou os Craós a plantar e preparar o milho, batata, inhame, mandioca e amendoim. Foi assim:

- O último rapaz solteiro da tribo dormia sozinho, sobre a sua esteira, no pátio da aldeia. Uma estrela o viu lá de cima e, condoída, resolveu se casar com ele. Para isso, transformou-se em um sapo e, pula que pula; subiu em seu peito! O dorminhoco acordou assustado e, com um tapa, atirou-o no chão. Mas então, o sapo virou formosa mulher e dormiu com o jovem.

Pela manhã, a cunhantã diminuiu de tamanho. Ficou tão pequenininha que pediu ao noivo que a guardasse no porongo (cabaça), que estava pendurado no fumeiro. Durante o dia, o índio tirou o porongo de lugar, destampou-o e sorriu para a moça que lá estava encerrada.

Quando saiu para caçar, recomendou que ninguém mexesse naquilo, mas a irmã dele, cheia de curiosidade, abriu-o e descobriu lá dentro a minúscula mulher. Ao voltar, examinou o nó tradicional da sua tribo e compreendeu que alguém havia violado seu segredo. Zangado, declarou que viveria com Catxerê, como marido e mulher.
- Não vou mais dormir no pátio, como os solteiros!

A irmã arrumou as suas camas dentro de casa. à noite, ele tirou a moça da cumbuca e Catxerê cresceu, tornando-se alta e bonita. Pela manhã foram banhar-se juntos no rio, e ela viu uma árvore grande, cheia de espigas, que os periquitos beliscavam. Catxerê ensinou então, aos Craós como se planta, colhe e prepara o milho, assim como a mandioca, o inhame e o amendoim, que até então não eram conhecidos, pois os indígenas alimentavam-se de «pau puba». Mandou o rapaz fazer uma roça.

Ensinou-lhe a derrubar com o facão, a carpir, a plantar. Depois disse:
- Agora volto ao céu, onde vivem meus parentes, e trarei mudas de batata, inhame, mandioca e amendoim, para plantar na roça.
Logo depois voltou. Tudo foi plantado e os índios adotaram para sempre as plantas ali cultivadas. Uma noite, porém, quando o índio andava a caça, apareceram em sua casa cinco homens que, sabendo de sua ausência, violentaram a mulher -estrela. Depois se deitaram para dormir. Ela aproveitou o sono deles e cuspiu na boca de todos eles; matando-os! Os Craós davam grande importância mágica ao cuspe.

Quando o marido voltou, contou-lhe tudo e subiu para o céu.
- E nunca mais voltou!!!!!!!!!!!!!!!!....

2ª LENDA: A ORIGEM DO AMENDOIM, SEGUNDO OS INDIOS MACURAP

 Doinmã era um menino pequeno. Ele fazia cocô de amendoim. Não saía bosta, saía amendoim mesmo. Ele gritava para sua mãe: «Mãe, estou com vontade de fazer cocô». Aí a mãe lhe dava uma panela de barro, Doinmã sentava e enchia de amendoim. A mãe cozinhava aquele amendoim para todos. Um dia a mãe saiu e deixou o menino com seu tio. O menino gritou: -«Tio, quero fazer cocô»
 - «Vá lá fora» - disse o tio!

Mas o menino pegou a panela e fez seu amendoim ali mesmo. O tio ficou com raiva ao descobrir de onde vinha o amendoim e bateu no menino. Bateu tanto que a criança morreu. Mas depois acabou pegando de novo a criança e mandou-a ressuscitar, para aumentar o número de pessoas... .

 3ª LENDA: A ORIGEM DO AMENDOIM ENTERRADO (adaptação livre do ACAS)

 Doinmã era um menino pequeno. Ele fazia cocô de amendoim. Não saía bosta, saía amendoim mesmo. Ele gritava para sua mãe: «Mãe, estou com vontade de fazer cocô». Aí a mãe lhe dava uma panela de barro, Doinmã sentava e enchia de amendoim. A mãe cozinhava aquele amendoim para todos. Um dia a mãe saiu e deixou o menino com seu tio. O menino gritou: -«Tio, quero fazer cocô»
 - «Vá lá fora» - disse o tio!

Mas o menino pegou a panela e fez seu amendoim ali mesmo. O tio ficou com raiva ao descobrir de onde vinha o amendoim e bateu no menino. Bateu tanto que a criança morreu. O tio, com medo da mãe de Doinmã, enterrou o menino perto do rio. Todos choraram o sumiço de Doinmã; até o tio! Depois de um tempo, surgiu uma planta na beira do rio, justamente perto de onde a mãe de Doinmã se banhava.

Quando ela estava se secando ao sol, ouviu um choro igual ao de Doinmã! Ela viu que o choro vinha daquela planta de flores amarelas que estava enterrada.
-Ela arrancou a planta; nas raízes estavam os amendoins de Doinmã!!!!

 BIBLIOGRAFIA e DADOS NA INTERNET (SEM MAIORES DEFINIÇÕES DE AUTORIAS OU COM AUSÊNCIA DELAS):

 . Ignácio J. Godoy - Pesquisador Instituto Agronômico
 . Livro Terra Grávida; de Betty Mindlin e narradores indígenas macurap
 . Catxerê, a mulher estrela- Professora Marlene (sem mais definições)
. Fonte: www.unitins.br  ; www.proamendoim.com.br
. Programa da ABICAB (Associação Brasileira da Indústria de Chocolate, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados).
 . Conceição Trucom - Fonte: www.docelimao.com.br
. Matéria publicada na edição 153 da Revista Gula - Julho/2005
 . Revista Vida & Saúde.
 . Adaptação livre do autor na 3ª lenda do amendoim.