quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Lenda do Amendoim - Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos - Acas


A Lenda do Amendoim

Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos - Acas

Originário da América do Sul, (controvérsias à parte, alguns especialistas afirmam que o amendoim se originou no Brasil; outros especialistas dizem que o grão surgiu no Gran Chaco, região que abrange parte do Paraguai, o norte da Argentina, parte da Bolívia e o Peru).

Desde a sua descoberta na América, o amendoim conquistou o mundo todo: Europa e, mais tarde, para os Estados Unidos, onde, durante a depressão econômica (fim da década de 20 e início da década de 30) o amendoim, por sua alta qualidade nutricional, foi utilizado como suplemento proteico para a merenda escolar. 


Representação estilizada da planta do amendoim


 O Arachis Hipogeae (seu nome científico) tornou-se, então, o principal ingrediente da famosa Peanut Butter, ou pasta de amendoim, tão consumida como substituta da manteiga nas mesas estrangeiras. No Brasil, o amendoim se concentra na área de confeitos, salgadinhos e doces. O amendoim fincou raízes nos quatro continentes emprestando seu sabor pronunciado a centenas de receitas.

O amendoim está tão integrado às tradições culinárias da Asia e da Africa que seus povos nunca querem acreditar que tenha surgido longe de seus dois continentes, mas sim na América do Sul. Essa, porém é apenas uma das particularidades de um alimento ancestral, cujos primeiros vestígios de cultivo datam de 3 000 a.C., no Peru.

Sua importância na cultura pré-inca era tamanha que os mortos costumavam ser enterrados com grãos de amendoim, para garantir o sustento na vida futura, segundo registra a enciclopédia The Oxford Companion to Food (Alan Davidson, Oxford University Press,).

Por ser chamado em inglês de groundnut (noz subterrânea) é frequentemente confundido com as nozes, embora na verdade seja uma leguminosa aparentada do feijão e da ervilha. Espécie de clima tropical, ele tem um curioso sistema de reprodução: a planta floresce como tantas outras, no solo, porém logo empurra o próprio talo com a flor para baixo da terra, onde cresce o fruto, ou seja, a vagem contendo suas duas ou três sementes.

Depois de maduro é tostado. (Aqui vai uma ressalva do ACAS, que viveu numa fazenda desde seu nascimento até os treze anos de idade: as flores «Não são empurradas» para baixo da terra, mas sim o lavrador é que as recobre com terra; exceto as pontas cimeiras). Então, a flor se transforma na vagem, que se torna dura e adquire cor de palha. As sementes, amareladas e extremamente oleosas, são recobertas por uma finíssima película marrom-avermelhada.

Existe uma hipótese remota de que o amendoim seja brasileiro, como veremos numa das lendas abaixo. Há quem defenda, inclusive, seu nascimento na região atualmente compreendida por Mato Grosso, onde ocorre particularmente variado (muitos tipos de amendoim). O mais provável, porém, é que essa leguminosa tenha se originado entre o sul da Bolívia e o norte da Argentina. Dali se espalhou espontaneamente até alcançar o México e o Caribe, onde foi encontrada pelos espanhóis nas primeiras expedições europeias ao Novo Mundo, no século XV. Então, começou sua saga rumo à cozinha asiática.

Inicialmente, os espanhóis a levaram para o leste da Asia, conforme a publicação Vegetables (Roger Phillips e Martyn Rix, Random House, Nova York, 1994). Mais tarde, eles e os portugueses espalharam o amendoim por outras regiões asiáticas, disseminando-o de forma irreversível. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, em 1522, o amendoim era um dos poucos alimentos cultivados pelos índios, junto com a mandioca, o milho, a batata, o cará e o inhame.

Saboreado cru, assado ou cozido, servia igualmente para a extração do óleo e, por isso, era cobiçadíssimo. Entretanto, não há registro de sua aplicação culinária, como ingrediente, nos tempos do Descobrimento, conforme ressalta Luís Câmara Cascudo in «História da Alimentação no Brasil» (Editora Global, 1967). O grande mestre da cultura nacional ainda registra uma interessante particularidade do ritual de cultivo do amendoim: só podia ser feito por mulheres (vide lenda a seguir) e, além disso, a planta tinha de ser semeada e colhida pela mesma mulher, índia ou mestiça.

Vigorava a crença de que, se o homem tocasse na planta, arruinaria a colheita, como descreve, em seus registros da época, Gabriel Soares de Sousa, um dos primeiros observadores da cultura brasileira.

Os portugueses levaram o amendoim do Brasil para a Africa nos porões dos navios negreiros. Ao mesmo tempo, exportaram a tradição do cultivo feminino. Até ao fim do século XIX, a ativa indústria de óleo de amendoim na República do Congo e no Senegal (Africa) continuava proibindo formalmente a presença masculina em seu ambiente.

A propagação foi tão rápida que em apenas 100 anos, o amendoim já estava nos fundamentos da cozinha africana, condição que persiste até os dias de hoje. Como ingrediente culinário, ou na forma de óleo, integra alguns dos pratos mais populares daquele continente, caso do mafetigâ: um purê feito do amendoim, muito consumido em todo o litoral.

No Senegal e em Moçambique, condimenta carnes, peixes, inhames e bananas e seu óleo é o primeiro substituto do óleo de palma ou dendê. Uma grande «iguaria do Sudão» é o arroz cozido no óleo de amendoim, com cebolas e tomates cortados, várias espécies de crustáceos e peixes, além de couve, mandioca, inhame, okra, pimenta e sal. -Fica «delicioso»; na avaliação de Câmara Cascudo.

O óleo de amendoim também entra no preparo do célebre fou-fou, uma pasta condimentada e temperada que deve ser feita em almofariz e regada com caldo. No preparo dessa iguaria africana não se pode usar nenhum objeto metálico. Uma das receitas favoritas naquele continente é o caldo de galinha combinado com pasta de amendoim.

Da Africa, as variedades brasileiras foram levadas para a América do Norte, hoje um dos maiores produtores mundiais de amendoim, onde surgiram diversas variações. Além de muito apreciado como aperitivo (tostado e salgado, servido com ou sem pele), o amendoim é a estrela de uma das receitas mais populares dos Estados Unidos: a manteiga de amendoim, que na verdade consiste numa pasta feita com seus grãos prensados.

Os americanos adoram usá-la em sanduíches, combinada com geleias. No Estado da Louisiana, onde a presença negra na culinária é determinante, o amendoim proliferou nas fazendas a partir de sementes trazidas pelos escravos. Por toda a região, surgiram pratos feitos com ele, entre os quais a guloseima natalina preferida das crianças, peanut brittle (tijolo de amendoim), um parente do brasileiro pé-de-moleque, que os americanos embrulham em saquinhos para dar de presente à garotada no dia de Natal.

No Brasil, os docinhos de amendoim também fazem a festa da criançada, porém bem longe do Natal. Segundo o calendário nacional, a alta temporada do amendoim acontece por ocasião das festas juninas. No interior de São Paulo (região de Ribeirão Preto e Cravinhos), havia o hábito de servirem nas noites de rezas dos festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro, o chamado «café de amendoim», feito a partir de amendoim torrado e moído.

Este néctar brasuca foi ingerido por este autor em inúmeras oportunidades, quando do tempo em que vivia na roça. Já a paçoquinha, o pé-de-moleque e o caju de amendoim são receitas tradicionais.

O uso no preparo de confeitos vem dos tempos da Colônia. No início da década de 30, na falta da farinha de trigo lusitana, a mulher portuguesa teve a ideia de adotar o amendoim moído como substituto (tal como feito nos EUA), segundo Câmara Cascudo.

Já no Brasil, a farinha de trigo que quase inexistia, foi substituída pelo fubá de milho. O óleo de amendoim também teve grande difusão no país até o fim do século XX, quando foi paulatinamente substituído pelo óleo de soja.

Na culinária asiática, o prestígio do óleo de amendoim jamais foi abalado. Constitui ingrediente quase obrigatório em toda a Asia. Além disso, o emprego do amendoim tostado, salgado, inteiro ou moído é frequente em todo o continente. Na China, participa de receitas como o frango picado com pimentão, salsão, cebola e caldo de galinha, que no Brasil se tornou conhecido como «frango xadrez».

O livro Dona Benta - Comer Bem (Companhia Editora Nacional, São Paulo, 2003) recomenda 1 (uma) xícara (chá) de amendoim para 4 filetes de frango cortados em cubos.

Na India, figura em diversas receitas. Na rica culinária da Indonésia, um dos pratos típicos é o camarão com amendoim, cebolinha e alho. Como ingrediente, também se revela essencial no preparo do popular «gadogado», combinação de batatas, broto de feijão, tofu, ovos, pepinos e um molho condimentado à base de pasta de amendoim, leite de coco e tomate. Na Tailândia, o típico «curry panan» leva frango, salada de papaia verde e amendoim.

E, mesmo no Japão, onde não integra tantas receitas, seu óleo é bastante utilizado com fins culinários. O amendoim é muito proteico: em média, à cada 100 gramas do produto são extraídas de 25 a 50 gramas de proteína!!!!!!!!!!!!!! E é fonte natural das vitaminas E, B6, B2, Niacina, Folato e Thiamina, além dos minerais Magnésio, Cobre, Fósforo, Potássio, Zinco, Ferro e Cálcio.

Também é utilizado na dieta mediterrânea, pois auxilia na redução do colesterol LDL, se fazendo presente nas dietas médicas para diabéticos. O consumo mundial de amendoim como alimento, é da ordem de 8 milhões de toneladas e de 15 a18 milhões de toneladas são esmagados para fabricação de óleo comestível.

Os maiores produtores (e consumidores) mundiais de amendoim são: a India, a China e os Estados Unidos. Já o Japão e países europeus como Portugal, a Alemanha, a Holanda, a França, a Espanha e os países do Reino Unido, são países importadores. No Brasil, o consumo de amendoim é da ordem de 100 mil toneladas de grãos, produzidos no próprio país.

 A AFLATOXINA

 Ela é conhecida em todos os países que produzem ou consomem amendoim, e há normas que estabelecem os níveis dessa toxina a partir dos quais o produto é considerado impróprio para consumo. Se o amendoim for contaminado por um fungo conhecido como «Aspergilo Flavus», poderá produzir uma substância chamada aflatoxina; hepatotóxica, causadora de problemas hepáticos (tumores) em humanos e outros animais.

A aflatoxina é considerada substância cancerígena e tem provocado intoxicações que levam à morte animais alimentados com torta de amendoim contaminada. Também pode provocar intoxicação no homem quando consumido na forma de grãos torrados, ou de doces. E é importante observar que no processo de extração de óleo, a contaminação pela aflatoxina é eliminada deste produto. A presença de fungos e bactérias nos alimentos em geral, não é fato raro. A maioria desses microrganismos são comumente encontrados na natureza. Por isso, todo alimento, antes de ser consumido, exige cuidados na sua produção, manuseio e comercialização, para que se previnam efeitos prejudiciais à saúde.

A aflatoxina não afeta só o amendoim, mas também o milho e a soja. Importante é  salientar que em São Paulo, onde se concentra 90% da produção brasileira, já há setores que estão produzindo amendoim com excelente padrão de qualidade. São cooperativas e outros produtores independentes, além de indústrias equipadas com os mais modernos equipamentos e laboratórios para controle de qualidade.

No Brasil, existem normas, assim como todas as orientações necessárias para que o amendoim seja produzido com segurança. Tais medidas visam que o produto chegue ao consumidor com a necessária qualidade. Por isso, são adotadas técnicas adequadas em toda a cadeia de produção: da produção agrícola aos estoques do produto no varejo, passando pelos setores de beneficiamento e industrialização.

Significativos investimentos estão sendo feitos para a produção de amendoim isento de aflatoxina, através da instalação de equipamentos para secagem artificial, prevenindo o aparecimento de fungos produtores da toxina. Outro aspecto preventivo importante refere-se à utilização de variedades mais adaptadas às nossas condições de clima e solo. Uma variedade brasileira, o «AC-Caiapó» por exemplo, apresenta uma série de características que, em conjunto, propiciam significativa redução de contaminações por esses fungos.

 IMPORTANCIA DO AMENDOIM

 O amendoim (do tupi mandu'wi, «enterrado») é a semente comestível da planta, Arachis Hypogaea, da família Fabaceae. Embora confundido com noz, o amendoim é um membro da família da ervilha Fabaceae e a noz não é uma fruta, mas um legume ou vagem. O amendoim é a quarta maior cultura oleaginosa mundial. Os maiores produtores de amendoim são a China, a India e os Estados Unidos.

A partir da década de 1940, o uso da manteiga de amendoim nos EUA foi se expandindo e, hoje consomem 500.000 toneladas de amendoim destinadas exclusivamente à fabricação da pasta de amendoim, que os americanos do norte consomem em substituição à manteiga ou margarina.

Segundo documentação arqueológica de 3800 a 2900 a.C., o amendoim teve sua origem a leste dos Andes e, não se sabe quantos anos ou séculos que o amendoim vem sendo domesticado pelo homem. Segundo Evaristo Eduardo e Miranda, chefe geral da Embrapa Monitoramento por Satélite, o amendoim foi descoberto e explorado muito antes de os atuais índios surgirem. Quando os espanhóis iniciaram sua exploração já se podia encontrar amendoim até no México.

Os colonizadores então levaram a planta para cultivar na Espanha, enquanto que os comerciantes da época a levaram para Africa, Filipinas e por toda Asia. O amendoim levado pelos portugueses à Africa salvou da fome diversos povos do Sahel, no limite do Saara. Por volta de 1560, o amendoim foi introduzido na Africa Ocidental, e no início do século XVII, a planta do amendoim já era comum em toda região tropical oeste do continente africano.

A expansão aconteceu também com a ajuda dos escravos que foram levados a América do Norte e carregaram consigo o amendoim, onde plantaram em todo o sul dos Estados Unidos. Nessa região, o amendoim foi até emblema do Estado da Geórgia.

No século XVIII, o amendoim, chamado na época pelos norte-americanos como nozes da terra ou ervilhas da terra, foi matéria de muitos estudos botânicos, sendo considerado excelente alimento. No fim da primeira década do século XIX, o amendoim já era plantado na Carolina do Sul e usado como alimento e substituto de cacau, devido seu óleo. As primeiras colheitas comerciais apareceram em 1818 na cidade de Wilmington na Carolina do Norte.

A cultura do amendoim já estava presente em todos os estados sulistas e em 1860, com a Guerra de Secessão foi dado o primeiro aumento notável do consumo norte-americano. Na metade do século XIX os amendoins torrados e grelhados passaram a ser vendidos na rua, em jogos de beisebol e circos. Os vendedores ambulantes que gritavam «Hot Roasted Peanuts» foram ouvidos pela primeira vez nas apresentações do Circo Barnum e, assim, o desejo pelo produto se propagou por todos os Estados Unidos junto às viagens da caravana do Circo Barnum.

A produção crescia nessa época e os amendoins continuavam a ser colhidos e processados manualmente, porém a falta de qualidade e uniformidade do produto, e elevados custos de colheita, mantinham a demanda em níveis baixos. Foi o George Washington Carver (1860-1943) quem programou o sistema de rotação de culturas entre as plantações de algodão e amendoim, no Sul dos Estados Unidos.

Nesse momento, apareceram os primeiros equipamentos que permitiam uma maior mecanização das colheitas, com a consequente redução de custo. Carver ainda mostrou que mais de 300 alimentos podiam ser derivados do amendoim. Em 1938, a indústria do amendoim nos Estados Unidos já era um negócio de mais de US$200 milhões.

No Brasil, o cultivo e a produção de amendoim são atividades agrícolas importantes em diversas regiões do Estado de São Paulo, com uma concentração de 80% da produção brasileira. O produto destina-se principalmente à indústria de confeitaria, venda/consumo in-natura, e fabricação de óleo. Hoje, a área estimada de plantio está em torno de 150 mil hectares, distribuídos entre as lavouras conduzidas neste novo padrão tecnológico (São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Bahia) e os pequenos cultivos familiares em diversos Estados, de Norte a Sul do País.



 O AMENDOIM

 A colheita do amendoim é realizada com duas operações: o arranquio e o enleiramento das plantas no campo (onde permanecem por alguns dias para secagem natural ou «cura»). A colheita ou «trilha» é o despendoamento ou retirada das vagens. Em lavouras comerciais, há máquinas que realizam ambos os processos (arrancadores/invertedores; recolhedoras) mecanicamente, com alto rendimento.

O enleiramento (ou inversão das plantas) consiste no posicionamento das plantas em linhas uniformes ao longo do campo, com as vagens voltadas para cima, sem contato com o solo. Atualmente, os amendoins de lavouras que visam alto padrão de qualidade, são transportados, logo após a colheita, para secadores artificiais.

Neste caso, não há necessidade de que as plantas permaneçam enleiradas no campo durante muitos dias. A secagem artificial de amendoim requer equipamentos especialmente desenhados para este fim, e, o seu manuseio, requer conhecimentos necessários para que o produto não perca as suas qualidades alimentícias.

Além de amendoim, a Arachis hypogaea recebe outros nomes regionais como: alcagoita (sul de Portugal), aráquide, caranga, carango (Moçambique), jiguba, jinguba, mandubi, manobi, amendubi, amendo mepinda (Angola), mancarra (Cabo Verde e Guiné-Bissau). Em alemão é conhecido por Erdnuss, em espanhol por cacahuete, em francês por arachide e arachis e em inglês por peanut.

 LENDAS DO AMENDOIM

 1ª LENDA INDIGENA: CATXERÊ, A MULHER- ESTRELA

 Esta é a história de Catxerê, a mulher estrela, que desceu do céu, dormiu com o índio e ensinou os Craós a plantar e preparar o milho, batata, inhame, mandioca e amendoim. Foi assim:

- O último rapaz solteiro da tribo dormia sozinho, sobre a sua esteira, no pátio da aldeia. Uma estrela o viu lá de cima e, condoída, resolveu se casar com ele. Para isso, transformou-se em um sapo e, pula que pula; subiu em seu peito! O dorminhoco acordou assustado e, com um tapa, atirou-o no chão. Mas então, o sapo virou formosa mulher e dormiu com o jovem.

Pela manhã, a cunhantã diminuiu de tamanho. Ficou tão pequenininha que pediu ao noivo que a guardasse no porongo (cabaça), que estava pendurado no fumeiro. Durante o dia, o índio tirou o porongo de lugar, destampou-o e sorriu para a moça que lá estava encerrada.

Quando saiu para caçar, recomendou que ninguém mexesse naquilo, mas a irmã dele, cheia de curiosidade, abriu-o e descobriu lá dentro a minúscula mulher. Ao voltar, examinou o nó tradicional da sua tribo e compreendeu que alguém havia violado seu segredo. Zangado, declarou que viveria com Catxerê, como marido e mulher.
- Não vou mais dormir no pátio, como os solteiros!

A irmã arrumou as suas camas dentro de casa. à noite, ele tirou a moça da cumbuca e Catxerê cresceu, tornando-se alta e bonita. Pela manhã foram banhar-se juntos no rio, e ela viu uma árvore grande, cheia de espigas, que os periquitos beliscavam. Catxerê ensinou então, aos Craós como se planta, colhe e prepara o milho, assim como a mandioca, o inhame e o amendoim, que até então não eram conhecidos, pois os indígenas alimentavam-se de «pau puba». Mandou o rapaz fazer uma roça.

Ensinou-lhe a derrubar com o facão, a carpir, a plantar. Depois disse:
- Agora volto ao céu, onde vivem meus parentes, e trarei mudas de batata, inhame, mandioca e amendoim, para plantar na roça.
Logo depois voltou. Tudo foi plantado e os índios adotaram para sempre as plantas ali cultivadas. Uma noite, porém, quando o índio andava a caça, apareceram em sua casa cinco homens que, sabendo de sua ausência, violentaram a mulher -estrela. Depois se deitaram para dormir. Ela aproveitou o sono deles e cuspiu na boca de todos eles; matando-os! Os Craós davam grande importância mágica ao cuspe.

Quando o marido voltou, contou-lhe tudo e subiu para o céu.
- E nunca mais voltou!!!!!!!!!!!!!!!!....

2ª LENDA: A ORIGEM DO AMENDOIM, SEGUNDO OS INDIOS MACURAP

 Doinmã era um menino pequeno. Ele fazia cocô de amendoim. Não saía bosta, saía amendoim mesmo. Ele gritava para sua mãe: «Mãe, estou com vontade de fazer cocô». Aí a mãe lhe dava uma panela de barro, Doinmã sentava e enchia de amendoim. A mãe cozinhava aquele amendoim para todos. Um dia a mãe saiu e deixou o menino com seu tio. O menino gritou: -«Tio, quero fazer cocô»
 - «Vá lá fora» - disse o tio!

Mas o menino pegou a panela e fez seu amendoim ali mesmo. O tio ficou com raiva ao descobrir de onde vinha o amendoim e bateu no menino. Bateu tanto que a criança morreu. Mas depois acabou pegando de novo a criança e mandou-a ressuscitar, para aumentar o número de pessoas... .

 3ª LENDA: A ORIGEM DO AMENDOIM ENTERRADO (adaptação livre do ACAS)

 Doinmã era um menino pequeno. Ele fazia cocô de amendoim. Não saía bosta, saía amendoim mesmo. Ele gritava para sua mãe: «Mãe, estou com vontade de fazer cocô». Aí a mãe lhe dava uma panela de barro, Doinmã sentava e enchia de amendoim. A mãe cozinhava aquele amendoim para todos. Um dia a mãe saiu e deixou o menino com seu tio. O menino gritou: -«Tio, quero fazer cocô»
 - «Vá lá fora» - disse o tio!

Mas o menino pegou a panela e fez seu amendoim ali mesmo. O tio ficou com raiva ao descobrir de onde vinha o amendoim e bateu no menino. Bateu tanto que a criança morreu. O tio, com medo da mãe de Doinmã, enterrou o menino perto do rio. Todos choraram o sumiço de Doinmã; até o tio! Depois de um tempo, surgiu uma planta na beira do rio, justamente perto de onde a mãe de Doinmã se banhava.

Quando ela estava se secando ao sol, ouviu um choro igual ao de Doinmã! Ela viu que o choro vinha daquela planta de flores amarelas que estava enterrada.
-Ela arrancou a planta; nas raízes estavam os amendoins de Doinmã!!!!

 BIBLIOGRAFIA e DADOS NA INTERNET (SEM MAIORES DEFINIÇÕES DE AUTORIAS OU COM AUSÊNCIA DELAS):

 . Ignácio J. Godoy - Pesquisador Instituto Agronômico
 . Livro Terra Grávida; de Betty Mindlin e narradores indígenas macurap
 . Catxerê, a mulher estrela- Professora Marlene (sem mais definições)
. Fonte: www.unitins.br  ; www.proamendoim.com.br
. Programa da ABICAB (Associação Brasileira da Indústria de Chocolate, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados).
 . Conceição Trucom - Fonte: www.docelimao.com.br
. Matéria publicada na edição 153 da Revista Gula - Julho/2005
 . Revista Vida & Saúde.
 . Adaptação livre do autor na 3ª lenda do amendoim.




domingo, 3 de maio de 2015

A maldição da idade e a sua evolução - Coluna Um - Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 268 de 3 de Maio de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira

A maldição da idade e a sua evolução


Hoje em dia vivemos - como sempre temos vivido só que com outras configurações - numa sociedade, por isso mesmo, hoje e sempre, paradoxal no plano das idades. Lembro-me dos tormentos passados para ver por exemplo um filme para maiores de 12 anos quando tinha 10/11 anos, da sensação de frustração ao ser barrado à entrada, de fazer esforços para revender o bilhete tornando-me candongueiro involuntário...enfim, eu queria ser mais crescido, ter mais idade, queria ver um dado filme (que na sua maior parte eram 150% mais inocentes do que os que se vêem hoje para idades menores ) ... mas enfim, isso passou e não estou aqui para saudosismos.

Ora quem me barrava a entrada para entrar no cinema, pedindo-me o B.I. eram pessoas com alguma idade já: eram todos senhores com alguma idade já que faziam de porteiros naquela velha esplanada de Cinema com bancadas em pedra para os pobrezinhos e com cadeiras e algumas mesas de metal para os «ricos» (ou menos pobres, simplesmente) que só funcionava nos 3/4 meses de Verão. No restante do ano era um outro cinema igualmente com os mesmos senhores a fazerem de porteiros e o mesmo drama dependente da maior ou menor atenção (ou disposição) dos «guardas» das idades.

Um destes senhores que referi em grupo acima, o meu certeiro barrador de entrada no cinema, nunca mais me esqueci dele, cheguei a ter-lhe raiva, daquela raiva que resulta da frustração de não poder ver uma caboiada ou mesmo o mais marcante filme de capa e espada do Conde de Monte Cristo e um outro qualquer da centena que o Jean Marais protagonizou.

Hoje encontro-o com alguma frequência e embora tenha mandado embora a raiva continuo a olhá-lo de soslaio apesar da sua seguramente já longa e respeitosa idade. Com os outros, lembro-me bem que era raro a barragem acontecer e por vezes tinha lugar porque estava alguém a supervisiona-los. Este sempre o achei impiedoso. Enfim, chegava a ir-me buscar no meio dos grupos por onde me enfiava para ser atendido por outro porteiro: o homem sumariamente topou-me para todas as vezes que eu ia ao cinema.  

Cresci  e embora não me fosse indiferente (não tinha família - irmã com idade sujeita à barragem porteiral) acabei por começar a achar normal ou rotineiro este tipo de selecção...breve, esqueci-me de que já fora daquela idade, que já fora barrado à entrada do cinema e até sentia algum prazer em exibir o BI quando solicitado. Puxava lesto da carteira «Ora toma!!» e depois ficava até ofendido pela dúvida...do ou dos velhos porteiros. Reparem que eu escrevi «velhos»...

Naquele tempo não se desrespeitavam as pessoas: eu ficava ressentido, achava talvez que aqueles outros «velhos» do cinema não sabiam ver as evidências mas tudo se passava nas calmas: aqueles velhos porteiros entre os 12 e os 15 / 16 anos meus receberam alguns murmúrios da minha revolta...nada mais. Aí quis ter mais de 17 anos...

Depois recomeçaram a sua função desagradável e dolorosa barrando-me a entrada nos filmes para maiores de 17 anos. Só aquele, este que encontro hoje ainda me persegue porque o encontro com uma frequência inusitada e por vezes imagino-o de farda e boné cinzentos, tipo marinha, a tentar agarrar-me um braço. Esta coisa de ter memória por vezes é inconveniente. 

Resumindo, até cerca dos 20 / 25 quis sempre ser mais velho...andar à frente do meu tempo de vida, não olhar para trás. Posteriormente, também e ao mesmo tempo quase, ser muito novo,com vinte ou vinte e cinco anos, em determinados empregos dava pouca credibilidade: o pessoal preferia alguém maduro, casado e com um rancho de filhos, com alguns salpicos de cabelo branco ou um apontar de calvície, mas nessa altura já era tarde para sentir essas exigências com alma: as minhas pretensões estavam já próximas da estabilização.

Estabilizei nas exigências por um período que situo talvez até aos 30/35 anos e comecei a não querer ser mais velho, ou melhor, deveria ter começado a não querer ser mais velho se a minha filosofia de vida não tivesse encontrado a grande desculpa (a mãe de todas as desculpas) de que ser maduro é bom, óptimo mesmo: o maduro é ponderado, é sabido ou julgam-no como tal.

Agora tenho por vezes a glória das glórias da maturidade: de quando em vez pedem-lhe conselhos (que normalmente pouca gente ou ninguém segue) mas neste caso o gesto (o pedido) acaba por ser tudo.

Breve, estou satisfeito e as potenciais pressões sofridas durante anos entram-me por um ouvido e saem pelo outro...desconto dado ao rebobinado incómodo que sinto quando vejo o tal ex-porteiro do cinema... 





RECORDANDO "AS MÃES DA MINHA VIDA", NESTE DIA DAS MÃES: Por Arlete Piedade Louro


RECORDANDO "AS MÃES DA MINHA VIDA", NESTE DIA DAS MÃES:

Por Arlete Piedade Louro

Há anos fui convidada a escrever um texto sobre o Dia da Mãe, que se comemorará no próximo domingo, dia 3 de Maio em Portugal e que será dirigido a leitores de Portugal, do Brasil e outros países pelo mundo. Deparo-me portanto, com múltiplas escolhas sobre o que escrever e a quem dedicar a minha prosa. Geralmente escrevemos nestes dias, sobre a nossa mãe e também se diz que Mãe há só uma!

Sim, cada um tem a sua mãe, que também foram filhas e tiveram a sua mãe, que foi a nossa avó. Das avós também se diz que são mães duas vezes. Mães dos seus filhos e dos filhos dos seus filhos. Depois temos as nossas sogras, as mães dos nossos cônjuges, aquelas que geralmente têm má fama, mas que muitas vezes é imerecida, pois acabam por ser também mães duas vezes. Mães dos seus filhos ou filhas e mães das pessoas que foram escolhidas para parceiros de vida, através do casamento - ou não - dos seus filhos (as).

As nossas sogras além de serem também um pouco nossas mães, por sermos casadas com seus filhos, são também as outras avós dos nossos filhos, que seguindo o mesmo raciocínio, são mães a dobrar dos nossos filhos, que amamos tanto.

Então segue-se que temos não só as nossas mães, como também as nossas avós e ainda as nossas sogras, todas elas com o papel de nossas mães.
Depois - e aqui falo de outros casos que não o meu - temos as mães adotivas, as mães de acolhimento, as mães afetivas, as mães de criação, as madrastas, enfim, mulheres que em alguma altura das nossas vidas, nos acolhem e nos dão a ternura e a educação que a mãe biológica, não pode dar, seja por morte, afastamento, falta de condições económicas, ou outros motivos.

Mas voltando ao meu caso, as mães da minha vida, com que intitulei esta crónica, terei que falar em primeiro lugar da minha mãe. Nasci numa pequena aldeia no interior centro de Portugal, em finais da década de 50 do século passado.

A vida era difícil, minha mãe vinha de uma família pobre, mas ainda hoje diz que nunca passou fome, ela e as suas quatro irmãs, apesar de no inverno não haver trabalho e viverem só das reservas que a terra dava e do crédito na mercearia. No verão ela e as suas irmãs trabalhavam no campo nos ranchos que vinha para a lezíria de Santarém, trabalhar para os grandes proprietários, nos trabalhos do campo sazonais, como a monda, a vindima, a apanha da azeitona e outros.

O meu avô, seu pai, era pedreiro mas naquela época, as casas eram construídas com adobes, blocos feitos com terra seca ao sol e que portanto só no verão era possível construir. Meu pai, também filho de uma família dedicada aos trabalhos no campo e a pequenos negócios, foi serrador na sua juventude.

Iam em ranchos, os homens para os pinhais da Beira Baixa, distantes mais de 100 a 200 kms, nas suas bicicletas a pedal, carregados com mantimentos, roupas e instrumentos de trabalho para ficarem fora de casa, dois a três meses, e lá ficavam cortando os pinheiros e outras árvores que serravam em tábuas, tudo á mão com trabalho manual, portanto, até poderem regressar a casa.

Era uma vida dura, o trabalho era muitas vezes feito debaixo de neve e chuva, e a comida era feita numa fogueira e mantida pendurada nas árvores em sacos, para não ser comida pelos animais e se manter por mais tempo. A única maneira de se aguentar, era o sal com que era acondicionada, nomeadamente a carne que levavam, para cozer e fazer a sopa com feijões ou grãos.

Um dia o meu pai teve uma zanga com os companheiros penso que devido a contas, e jurou que nunca mais iria serrar. Veio para casa, e foi tirar a carta de condução de motorista profissional, o que na década de cinquenta e nas aldeias, era um grande feito.

Portanto quando eu nasci, meu pai já trabalhava como motorista e minha mãe tomava conta das propriedades que cultivavam, além do trabalho da casa, de dar comida aos animais que tinham, e de ir lavar a roupa ao ribeiro, porque nem tanque tinha em casa e era hábito naquele tempo.

Era uma vida trabalhosa, mas feliz. Quando chegou a altura de eu ir para a escola primária, que era numa aldeia vizinha, sede da junta de freguesia, ia a pé com as outras crianças, através dos campos, cerca de três quilómetros, e além dos livros, levava o almoço que a minha mãe me mandava e comia frio.

Como eu era boa aluna e segundo as professoras era inteligente, foi recomendado aos meus pais, para me "colocaram a estudar". Meu pai nessa altura trabalhava numa cerâmica com um camião que ia levar materiais de construção para Lisboa, principalmente tijolos e já ganhava relativamente bem para a época. Foi portanto decidido que eu iria estudar para Alcanena, uma vila que ficava a cerca de 15 Kms, e que tinha uma escola preparatória.

Mas não era fácil. Eu tinha que ficar fora de casa todo o dia e só tinha onze anos. Saía de casa às 7 h da manhã e regressava às 20 h ou mais tarde. Levava mais uma vez o almoço numa lancheira, embrulhada em jornais, para manter o calor, mas quando chegava a hora do almoço, já estava frio.

Minha mãe ainda há dias me dizia que naquela época, levantava-se às 2 h da manhã para fazer o almoço para o meu pai levar para o trabalho, pois ele saía de casa de madrugada, a seguir levantava-se de novo às 6 h da manhã para me preparar para ir para a escola e quando regressava a casa de me ir acompanhar ao autocarro, eram horas de chamar a minha irmã mais nova, para ir para a escola primária a tal que era a 3 kms de casa, através dos campos, e para lhe fazer o almoço também para ela.

Mas chegou nova época, quando eu terminei os dois anos da escola preparatória e tive que enfrentar nova escolha para continuar os estudos. E essa escolha implicou uma mudança radical para a família, em especial a minha mãe, pois foi decidido que eu viria estudar para Santarém, a capital do distrito, onde havia o curso que eu devia seguir, ou seja o Curso Geral de Comércio.

Dada a distância, 30 kms, não era viável eu ir de autocarro e regressar a casa todos os dias. Não havia horários compatíveis e era muito cansativo para mim. Portanto a opção dos meus pais, foi a minha mãe mudar-se para Santarém connosco, eu e a minha irmã para continuarmos os estudos, enquanto meu pai permaneceu na aldeia sozinho, indo só ficar connosco á nova casa alugada na cidade, quando as viagens de trabalho lhe permitiam passar perto de Santarém e fazer uma paragem.

Meus pais venderam os animais - cabras, porcos, uma mula e a carroça que ela puxava - porque não havia quem tratasse deles, e sei como essa mudança foi dolorosa para eles. Especialmente para meu pai e também para minha mãe que estava habituada á vida da aldeia e a ter o seu marido com ela.

Mas havia épocas em que era necessária a sua presença na aldeia, para fazer certos trabalhos do campo - como a apanha da azeitona - e nessas ocasiões, vinha a mãe nº 2, a minha avó materna, para cozinhar e tomar conta de mim e da minha irmã.

Se era difícil para a minha mãe, para a minha avó, era mesmo um sacrifício, mas ela lá se aguentava, até que uma trombose a apanhou e teve que ficar acamada na sua casa na aldeia.

Novo sacrífico para a minha mãe, já que naqueles tempos, não se falava em por os pais em lares. Quando adoeciam ou ficavam velhos, os filhos revezavam-se á vez, para tomar conta deles, cuidando-os e providenciando o que fosse necessário mesmo com prejuízo da vida familiar.

Assim a minha mãe dividia os dias da semana com as outras três irmãs, que moravam junto á minha avó, sendo a minha mãe a única que morava mais longe, na cidade a trinta quilómetros, e dois a três dias, de duas em duas semanas, ia para casa da mãe, para cuidar das suas necessidades mais básicas, já que estava paralisada na cama, até que ela faleceu.

Eu e a minha irmã, ficávamos sozinhas em casa. No entanto foi a minha irmã a que mais sofreu, pois eu entretanto já tinha casado e ido para a minha casa. E em especial, o meu pai, que mais uma vez ficou sozinho e teve que fazer de pai e mãe, nesses dias de ausência da esposa.

Mas não vou contar toda a vida da minha mãe e os sacrifícios que passou pelas filhas e a família, porque também quero falar um pouco da outra mãe da minha vida, já falecida: a minha sogra.

Contrariamente ao habitual quando se fala de sogras, a minha foi sempre como uma mãe para mim. Acolheu-me na sua casa e na sua família, desde o primeiro momento em que eu apareci como namorada do seu filho, com os meus 19 anos.

Tive desde o primeiro momento, um grande carinho e admiração por essa mulher franzina, sofrendo desde sempre com graves problemas de reumatismo, que se viu viúva quando tinha cerca de quarenta anos, com sete filhos para criar, o mais velho dos quais tinha 18 anos e mais pequena, era ainda bebé.

Nessa altura, eram colonos em Moçambique, ao abrigo dum programa do governo daquela época, que cedia as terras para cultivar às pessoas pobres que quisessem ir para lá.

Como é óbvio só conheço essa história por me ser contada pela família, porque só os conheci mais tarde, mas ao regressar ao continente, com os sete filhos, teve que recomeçar sozinha a vida desde o zero. Trabalhando no campo com os filhos mais velhos, enquanto os do meio, tomavam conta dos mais pequenos, com uma casa que foi sendo construída por eles e que inicialmente, só tinha quatro paredes e um telhado, com piso térreo, num terreno alugado, conseguiu unir a família em torno de si, e todos conseguiram bons trabalhos e boas casas, e uma vida digna.

Era verdadeiramente a matriarca da família, em torno da qual tudo girava e todos se uniam, e agora que se foi, com noventa anos, o seu espírito e os seus ensinamentos e exemplos de vida continuam vivos na família.

Da minha avó paterna, guardo também carinhosamente boas recordações, mas ela faleceu quando eu tinha quinze anos e portanto só a recordo quando eu era criança e ia á noite a sua casa, com o meu pai, e estavam a jantar á luz da candeia. Geralmente eram batatas cozidas com bacalhau, pelo menos é o que recordo e sempre me convidavam para comer com eles.
Muitas vezes era apenas um pouco de pão molhado no molho do bom azeite das suas oliveiras, que ainda estão lá dando os seus frutos, mas que me sabia muito bem.

Quem teve paciência para ler até aqui, eu agradeço por poder partilhar algumas recordações das mães da minha vida, e dedico em especial á minha mãe, única que ainda se mantém viva a meu lado, esta crónica, neste Dia das Mães.

Arlete Piedade Louro

Crónica publicada no meu livro ERA NO TEMPO DE...CRÓNICAS DE OUTRAS ÉPOCAS






Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira


Narciso bravio


Campo imenso de altivos girassóis amarelos viçosos
Prado dourado repleto de flores que gritam alegria
Girassóis que sonham alcançar o Sol, tão ambiciosos!
Flores viçosas que sobrevivem às estações com mestria

Campo imenso de flores arrancadas pela raiz cruelmente
Prado frio e triste de terra quase estéril,  seca e salgada
Onde alguém, ainda com fé, planta uma túlipa docemente
“Cresce, flor delicada como cristal”, é a prece murmurada

E o jardineiro senta-se no topo da colina a vislumbrar o prado
E espera que a túlipa vingue no vento gélido que sopra forte
Mas a flor enrosca-se na terra fria e espera satisfeita pela morte

O jardineiro, sentado no topo da colina, desvia o olhar marejado
E vislumbra, num canto esquecido, um narciso bravio a despontar
Vida inesperada num campo triste e frio onde já não vale a pena plantar…


Campo singelo


Campo singelo de margaridas bravias e inocentes
Flores viçosas, alegres, criadas por entre o prado verdejante
Plantas felizes que, se pudessem mover-se, saltitavam contentes
Flores modestas, de beleza selvagem, veias de vida palpitante

Não viram o Sol subir, a cada dia mais um pouco, incapaz de adormecer
Astro flamejante que, sem saber conter-se, lhes cuspiu fogo abrasador
E dias passaram,  o verde esmoreceu e as margaridas viram-se escurecer
Até que um dia o Sol olhou para o prado e viu nele semeada bem fundo apenas dor

As estações sopraram vendavais, derramaram chuva furiosa, mas o prado renasceu
Despontaram devagar, um a um, amarelos e cor-de-laranja viçosos, verdes valentes 
Os narcisos estrangularam as raízes das plantas de dor, e cresceram orgulhosos e insolentes

Prontos para cobrir o mundo de cores e alegria, como um prado que a tudo já venceu
Não sabem que o vento os persegue, e que em breve os vendavais tudo vão arrancar,
E os narcisos vão ser soprados pelo mundo afora, e noutros prados vão vingar…


Nevoeiro


Ela pensa que no nevoeiro denso vai encontrar o que procura
Pensa que nas nuvens gordas de irritação se esconde um abrigo
E que ao mergulhar no nevoeiro cinzento vai encontrar uma cura
Acha que as nuvens escuras a podem esconder de todo o perigo

Ela pensa que no mar calmo de nuvens celestiais vai encontrar o que procura tanto
Não percebe que o nevoeiro, gordo de saudade e revolta, carrega apenas profunda tristeza
Ela não sabe a agrura que cobre de fel as nuvens curiosas, como um angustiado manto
Elas que, curiosas e alvas, desceram do Céu para espreitar, em busca de um mundo de beleza

E se viram aprisionadas à lama do mundo desleal, sujas e manchadas de Humanidade
Mas Ela… Ela não sabe, Ela não ouve os lamentos, não cheira a dor que vagueia pelo ar…
Ela, cega de esperança e desespero, abre os braços sem hesitar, e reza por Liberdade

Ela salta sem temer, porque o peito já não tem lugar para o receio nem quer duvidar
E quando se encontra no ventre do nevoeiro, escuro e fétido, sabe que encontrou
Ali, naquele ventre estéril  Ela encontra o Nada que procurava, a paz por que tanto ansiou…





 

ABRE-TE CAMPA SAGRADA - Por José Francisco Colaço Guerreiro


DEPOIS DA CEIFA


ABRE-TE CAMPA SAGRADA - Por José Francisco  Colaço Guerreiro


O estio tinha vindo  temporão  e os trigais aloiraram mais cedo. No ar, o cheiro dos pastos  e das  searas maduras começou a sentir-se , quase um mês antes da época devida,  quando a meio da tarde se  levantava a maré e os ventos  passavam  perfumados pelos aromas  dos campos a ressequir.

Pelos cheiros e pelas vistas, os almocreves  pressentiam o aproximar do tempo das ceifas . Olhavam os céus , miravam o horizonte e  ao por do sol , tiravam sinais. Todos os dias, entravam nas semeadas e  apanhavam uma espiga ao acaso para esbrugarem na palma da mão.  Depois sopravam  deixando  ficar só o grão e  assim  já sabiam a grada da semente, calculavam as fundalhas  , avaliavam  a oportunidade do inicio das colheitas e disso tudo,   davam  conta aos patrões.

Não tardaria a haver trabalho, durante quase dois meses, para aqueles que nas empreitadas ou à jorna, tivessem  forças para aguentar  o manusear da foice e as farpas do sol  cravadas nas costas, todo o santo dia.

Os seareiros, as mulheres e os mais idosos ficavam sempre pela aldeia, resignados às pagas fracas dos lavradores dali .

Os mais vigorosos, abalavam estrada fora, manta às costas, balsa ao ombro, direito às terras dos barros onde os suplícios do corpo podiam ter  melhor preço. Despediam-se da família como se fora para sempre, sem dia de regresso marcado, sem contactos possíveis para além de uma notícia ou outra, levada ou trazida por um portador de acaso.

Na véspera da abalada, o Florival, um cantarrista afamado, bebeu e abalou  a moda toda a tarde e noite dentro, na venda do Encarnadinho. Doía-lhe a alma por ter de  deixar a mãe velhota sem o seu amparo, sem ter quem lhe carregasse uma quarta de água, sem ter sequer quem lhe migasse as sopas. Ficava sozinha,   entregue à boa vontade das vizinhas que por ela olhariam como pudessem .

Mas os fiados que tinha eram muitos, à conta das sacas de farinha, do azeite e do petróleo, dos copinhos e das onças de tabaco, consumidos durante meses  a fio, sem ter como os pagar.

E numa madrugada lá foi ele, mais meia dúzia , cantando a moda,  rumo a norte, por caminhos sem nome, sem destino certo. A tristeza fazia-os cantar mais do que as alegrias. Sempre fora assim.

Passado mais de  um  mês de tormentas em mares de trigais e cevadas, naufragado em ondas de calor, com as roupas retesadas pelo suor destilado  nas fornalhas do trabalho, o Florival com mais meia dúzia de ganhões, estavam de volta a casa  . Vinham cantando do rijo,   ele agora satisfeito pelo regresso e  por poder pagar as dívidas com o  que   trazia  na algibeira da  garibalda,  apertada com a  pregadeira que lhe tinha tirado os  bicos dos mil cardos espetados nas mãos ao agarrar o pão para o traçar com a foice.

Mas  mal chegaram aos arrabaldes  da aldeia, a sua voz foi notada e toda a gente estremeceu. As mulheres saíram dos postigos e  vieram para a rua de mãos na cabeça. Na venda, os homens calaram a moda e  juntaram-se em magotes  cá fora.

Dois deles, mais afoitos ou com melhor perna, caminharam ao  encontro dos cantadores  ,  a passos largos, para lhes darem a conhecer a novidade.

O ar grave que levavam , antes que falassem, já tinha revelado que se tratava de uma má nova. Depois dos cumprimentos breves , um ,  disse que a mãe do Florival  tinha morrido e o outro completou a noticia, dizendo que ela se tinha afogado no poço da horta, havia três dias.

O  ganhão, varado pela dor,  sentou-se  numa rocha à beira do caminho e lá quis ficar só.

Mais tarde,   ergueu-se e lançando o olhar em direção ao cemitério da aldeia, como que retomando a moda interrompida  ou como que rezando a seu jeito,  cantou baixinho:

“Abre-te oh  campa sagrada

Que a minha mãe quero ver

Quero-lhe beijar o rosto

Antes de a terra o comer”


(Texto escrito para o ultimo CD do Vitorino e Janita Salomé )





sexta-feira, 1 de maio de 2015

Poesia de Sylvia Beirute


Poesia de Sylvia Beirute

 

Desejo infinitesimal ; Exercícios para os olhos ; Correspondência



 
 Desejo infinitesimal



 {que horas eram quando o tempo acabou?}
{que horas eram quando deixaste de
 poder reproduzir clandestinamente a explicação
 da conclusão do desejo infinitesimal?}
 {que horas eram quando a razão de espírito
 substituiu a de ciência na ocupação do abraço?}
{que horas eram quando te adiantaste à felicidade
 no dia que dilui
 na percepção multiforme da multidão?}
{que horas eram quando a boca simulou
 o silêncio com princípios aleatórios?}
 {que horas eram quando deixaste que a alma
 somasse corpos e subtraísse outros?}
 {que horas eram quando viver era deixar morrer
 e a solidão incomunicável?}
 {que horas eram quando o tempo acabou?
 que horas eram?}

 Sylvia Beirute

 

 Exercícios para os olhos



 quem manda aqui é a biologia,
mas o sentimento incontrolável é aquele que se masturba.
 eu apenas comecei o palco, síntese da arte, um
 contra}actor contra o corpo.
 cada corpo tem um deus, a sua estrutura de exibição
 não encontra muita importância no texto inevitável.
 {quem escreveu este texto? quem escreveu este texto
sem seios, ânus ou um pudor que os cubra?}
 a estética de tal esconderijo, vejamos, é, eu diria, circunstancial,
 circunstancial, aliás, como o esconderijo dos
 olhos circuncidados do público atento aos
 actores que tapam os espaços mas sobretudo aos
 que tapam os tempos com os es}paços de partes
 inexibidas e por isso, imaginadamente, universais.
 {a lágrima final é uma morte fetal}, poderia {eu} per-
feitamente dizer nesta fala depois de uma deixa redundante,
mas fugiria ao texto e nunca devemos fugir ao texto, a menos
 que tenhamos um outro. { } mas, de repente penso: {se tivesse
 um bisturi e me matasse, quem duvidaria
 de que tal não viesse no texto?}

 Sylvia Beirute

 

 Correspondência

{aos poetas contemporâneos do algarve}

 

 para dizer {intemporal} digo {o infinito do tempo} ,
 para dizer que {existe espaço} digo {vazio} ,
 para dizer {passado} digo {o esqueleto do presente} ou
 uso a sinédoque, estranhamente
 mais exacta e rigorosa, {os seus ossos frágeis} ,
 para dizer {cegueira} digo {a mera visão interior
 com passos de tigre ao escuro} ,
 para dizer {sacar verdades} digo {emitir um
 certificado de existência poética}
para dizer que {sou} digo que {estou, ou estou por vezes},
 para sentir {o anonimato contemporâneo dos outros poetas
 que no jardim da alagoa passeiam os cães e fingem
 não me ver} faço {assim com os ombros}.
 para permanecer preciso de {usar as mãos}
 e {estender todo o corpo nos lábios, ou entre sinónimos
 e correspondências}.

 Sylvia Beirute




Poesia de Xavier Zarco


Poesia de Xavier Zarco

 A Zeca Afonso; à Graça Soares; hoje sérgio bebi a certeza


 A Zeca Afonso

 

 os que comem tudo andam por aqui
 zeca voam nas noites e nos dias
 do poema concreto que é a vida
 no poema em que o belo se reduz
 ao horário a cumprir pelos que não
 têm nada por vezes penso o como
 se esquecem do poema da cantiga
 que não dizem nem cantam têm medo
 que a migalha de pão que o seu suor
 amassou se enamore pelo bico
 dos que voam nas noites e nos dias
 e não habite a mesa que os aguarda
 por vezes zeca sinto que perderam
 a semente que espártaco deixou
 sentindo-se felizes no sofá
 vendo o que só aos outros acontece
 sequer sentem que os próximos são eles
 e como riem riem zeca escuto
 os que andam por aqui e tudo comem

 Xavier Zarco

 

 Para a Graça Soares, minha esposa, no dia do seu aniversário: é um poema já com algum tempo, mas que se mantém bem actual.

 à Graça Soares

 

 meu amor não me esperes quando a noite
 acordar em meu olhar
 não me esperes
 de nada vale o tempo que gastares
 à janela da vida
 que só a ti pertence
 não te iludas
 com as coisas da moral
 que os vizinhos costuram nas ombreiras
 com as manhãs que dizem que hão-de vir
 nevoeiro algum diz do meu regresso
 todo o nevoeiro
 pronuncia somente o meu partir
 nada mais que a minha ausência
 por isso parte todas as molduras
 todas
 rasga as fotografias
 apaga os risos
 as lágrimas
 diz aos filhos que a via é sempre em frente
 onde o sol é bandeira desfraldada
 com as suas próprias cores
 e que rumem rumo ao sonho
 porque antes vivê-lo um segundo
 que chorá-lo toda a vida
 bem sabes que a minha morte
 só a mim pertence
 e a mais ninguém

 Xavier Zarco

 

 hoje sérgio bebi a certeza

 

 hoje sérgio bebi a certeza
 num copo de vinho entre amigos
 na solidão da casa as cadeiras
 vazias mas repletas de memória
 hoje recordas é o primeiro
 dia dos dias que sobram
 como sobra sobre a mesa
 esse copo vazio de onde se bebe
 a coragem estrume para o dia
 que teima lá fora em nascer

 Xavier Zarco