domingo, 3 de maio de 2015

A maldição da idade e a sua evolução - Coluna Um - Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 268 de 3 de Maio de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira

A maldição da idade e a sua evolução


Hoje em dia vivemos - como sempre temos vivido só que com outras configurações - numa sociedade, por isso mesmo, hoje e sempre, paradoxal no plano das idades. Lembro-me dos tormentos passados para ver por exemplo um filme para maiores de 12 anos quando tinha 10/11 anos, da sensação de frustração ao ser barrado à entrada, de fazer esforços para revender o bilhete tornando-me candongueiro involuntário...enfim, eu queria ser mais crescido, ter mais idade, queria ver um dado filme (que na sua maior parte eram 150% mais inocentes do que os que se vêem hoje para idades menores ) ... mas enfim, isso passou e não estou aqui para saudosismos.

Ora quem me barrava a entrada para entrar no cinema, pedindo-me o B.I. eram pessoas com alguma idade já: eram todos senhores com alguma idade já que faziam de porteiros naquela velha esplanada de Cinema com bancadas em pedra para os pobrezinhos e com cadeiras e algumas mesas de metal para os «ricos» (ou menos pobres, simplesmente) que só funcionava nos 3/4 meses de Verão. No restante do ano era um outro cinema igualmente com os mesmos senhores a fazerem de porteiros e o mesmo drama dependente da maior ou menor atenção (ou disposição) dos «guardas» das idades.

Um destes senhores que referi em grupo acima, o meu certeiro barrador de entrada no cinema, nunca mais me esqueci dele, cheguei a ter-lhe raiva, daquela raiva que resulta da frustração de não poder ver uma caboiada ou mesmo o mais marcante filme de capa e espada do Conde de Monte Cristo e um outro qualquer da centena que o Jean Marais protagonizou.

Hoje encontro-o com alguma frequência e embora tenha mandado embora a raiva continuo a olhá-lo de soslaio apesar da sua seguramente já longa e respeitosa idade. Com os outros, lembro-me bem que era raro a barragem acontecer e por vezes tinha lugar porque estava alguém a supervisiona-los. Este sempre o achei impiedoso. Enfim, chegava a ir-me buscar no meio dos grupos por onde me enfiava para ser atendido por outro porteiro: o homem sumariamente topou-me para todas as vezes que eu ia ao cinema.  

Cresci  e embora não me fosse indiferente (não tinha família - irmã com idade sujeita à barragem porteiral) acabei por começar a achar normal ou rotineiro este tipo de selecção...breve, esqueci-me de que já fora daquela idade, que já fora barrado à entrada do cinema e até sentia algum prazer em exibir o BI quando solicitado. Puxava lesto da carteira «Ora toma!!» e depois ficava até ofendido pela dúvida...do ou dos velhos porteiros. Reparem que eu escrevi «velhos»...

Naquele tempo não se desrespeitavam as pessoas: eu ficava ressentido, achava talvez que aqueles outros «velhos» do cinema não sabiam ver as evidências mas tudo se passava nas calmas: aqueles velhos porteiros entre os 12 e os 15 / 16 anos meus receberam alguns murmúrios da minha revolta...nada mais. Aí quis ter mais de 17 anos...

Depois recomeçaram a sua função desagradável e dolorosa barrando-me a entrada nos filmes para maiores de 17 anos. Só aquele, este que encontro hoje ainda me persegue porque o encontro com uma frequência inusitada e por vezes imagino-o de farda e boné cinzentos, tipo marinha, a tentar agarrar-me um braço. Esta coisa de ter memória por vezes é inconveniente. 

Resumindo, até cerca dos 20 / 25 quis sempre ser mais velho...andar à frente do meu tempo de vida, não olhar para trás. Posteriormente, também e ao mesmo tempo quase, ser muito novo,com vinte ou vinte e cinco anos, em determinados empregos dava pouca credibilidade: o pessoal preferia alguém maduro, casado e com um rancho de filhos, com alguns salpicos de cabelo branco ou um apontar de calvície, mas nessa altura já era tarde para sentir essas exigências com alma: as minhas pretensões estavam já próximas da estabilização.

Estabilizei nas exigências por um período que situo talvez até aos 30/35 anos e comecei a não querer ser mais velho, ou melhor, deveria ter começado a não querer ser mais velho se a minha filosofia de vida não tivesse encontrado a grande desculpa (a mãe de todas as desculpas) de que ser maduro é bom, óptimo mesmo: o maduro é ponderado, é sabido ou julgam-no como tal.

Agora tenho por vezes a glória das glórias da maturidade: de quando em vez pedem-lhe conselhos (que normalmente pouca gente ou ninguém segue) mas neste caso o gesto (o pedido) acaba por ser tudo.

Breve, estou satisfeito e as potenciais pressões sofridas durante anos entram-me por um ouvido e saem pelo outro...desconto dado ao rebobinado incómodo que sinto quando vejo o tal ex-porteiro do cinema... 





RECORDANDO "AS MÃES DA MINHA VIDA", NESTE DIA DAS MÃES: Por Arlete Piedade Louro


RECORDANDO "AS MÃES DA MINHA VIDA", NESTE DIA DAS MÃES:

Por Arlete Piedade Louro

Há anos fui convidada a escrever um texto sobre o Dia da Mãe, que se comemorará no próximo domingo, dia 3 de Maio em Portugal e que será dirigido a leitores de Portugal, do Brasil e outros países pelo mundo. Deparo-me portanto, com múltiplas escolhas sobre o que escrever e a quem dedicar a minha prosa. Geralmente escrevemos nestes dias, sobre a nossa mãe e também se diz que Mãe há só uma!

Sim, cada um tem a sua mãe, que também foram filhas e tiveram a sua mãe, que foi a nossa avó. Das avós também se diz que são mães duas vezes. Mães dos seus filhos e dos filhos dos seus filhos. Depois temos as nossas sogras, as mães dos nossos cônjuges, aquelas que geralmente têm má fama, mas que muitas vezes é imerecida, pois acabam por ser também mães duas vezes. Mães dos seus filhos ou filhas e mães das pessoas que foram escolhidas para parceiros de vida, através do casamento - ou não - dos seus filhos (as).

As nossas sogras além de serem também um pouco nossas mães, por sermos casadas com seus filhos, são também as outras avós dos nossos filhos, que seguindo o mesmo raciocínio, são mães a dobrar dos nossos filhos, que amamos tanto.

Então segue-se que temos não só as nossas mães, como também as nossas avós e ainda as nossas sogras, todas elas com o papel de nossas mães.
Depois - e aqui falo de outros casos que não o meu - temos as mães adotivas, as mães de acolhimento, as mães afetivas, as mães de criação, as madrastas, enfim, mulheres que em alguma altura das nossas vidas, nos acolhem e nos dão a ternura e a educação que a mãe biológica, não pode dar, seja por morte, afastamento, falta de condições económicas, ou outros motivos.

Mas voltando ao meu caso, as mães da minha vida, com que intitulei esta crónica, terei que falar em primeiro lugar da minha mãe. Nasci numa pequena aldeia no interior centro de Portugal, em finais da década de 50 do século passado.

A vida era difícil, minha mãe vinha de uma família pobre, mas ainda hoje diz que nunca passou fome, ela e as suas quatro irmãs, apesar de no inverno não haver trabalho e viverem só das reservas que a terra dava e do crédito na mercearia. No verão ela e as suas irmãs trabalhavam no campo nos ranchos que vinha para a lezíria de Santarém, trabalhar para os grandes proprietários, nos trabalhos do campo sazonais, como a monda, a vindima, a apanha da azeitona e outros.

O meu avô, seu pai, era pedreiro mas naquela época, as casas eram construídas com adobes, blocos feitos com terra seca ao sol e que portanto só no verão era possível construir. Meu pai, também filho de uma família dedicada aos trabalhos no campo e a pequenos negócios, foi serrador na sua juventude.

Iam em ranchos, os homens para os pinhais da Beira Baixa, distantes mais de 100 a 200 kms, nas suas bicicletas a pedal, carregados com mantimentos, roupas e instrumentos de trabalho para ficarem fora de casa, dois a três meses, e lá ficavam cortando os pinheiros e outras árvores que serravam em tábuas, tudo á mão com trabalho manual, portanto, até poderem regressar a casa.

Era uma vida dura, o trabalho era muitas vezes feito debaixo de neve e chuva, e a comida era feita numa fogueira e mantida pendurada nas árvores em sacos, para não ser comida pelos animais e se manter por mais tempo. A única maneira de se aguentar, era o sal com que era acondicionada, nomeadamente a carne que levavam, para cozer e fazer a sopa com feijões ou grãos.

Um dia o meu pai teve uma zanga com os companheiros penso que devido a contas, e jurou que nunca mais iria serrar. Veio para casa, e foi tirar a carta de condução de motorista profissional, o que na década de cinquenta e nas aldeias, era um grande feito.

Portanto quando eu nasci, meu pai já trabalhava como motorista e minha mãe tomava conta das propriedades que cultivavam, além do trabalho da casa, de dar comida aos animais que tinham, e de ir lavar a roupa ao ribeiro, porque nem tanque tinha em casa e era hábito naquele tempo.

Era uma vida trabalhosa, mas feliz. Quando chegou a altura de eu ir para a escola primária, que era numa aldeia vizinha, sede da junta de freguesia, ia a pé com as outras crianças, através dos campos, cerca de três quilómetros, e além dos livros, levava o almoço que a minha mãe me mandava e comia frio.

Como eu era boa aluna e segundo as professoras era inteligente, foi recomendado aos meus pais, para me "colocaram a estudar". Meu pai nessa altura trabalhava numa cerâmica com um camião que ia levar materiais de construção para Lisboa, principalmente tijolos e já ganhava relativamente bem para a época. Foi portanto decidido que eu iria estudar para Alcanena, uma vila que ficava a cerca de 15 Kms, e que tinha uma escola preparatória.

Mas não era fácil. Eu tinha que ficar fora de casa todo o dia e só tinha onze anos. Saía de casa às 7 h da manhã e regressava às 20 h ou mais tarde. Levava mais uma vez o almoço numa lancheira, embrulhada em jornais, para manter o calor, mas quando chegava a hora do almoço, já estava frio.

Minha mãe ainda há dias me dizia que naquela época, levantava-se às 2 h da manhã para fazer o almoço para o meu pai levar para o trabalho, pois ele saía de casa de madrugada, a seguir levantava-se de novo às 6 h da manhã para me preparar para ir para a escola e quando regressava a casa de me ir acompanhar ao autocarro, eram horas de chamar a minha irmã mais nova, para ir para a escola primária a tal que era a 3 kms de casa, através dos campos, e para lhe fazer o almoço também para ela.

Mas chegou nova época, quando eu terminei os dois anos da escola preparatória e tive que enfrentar nova escolha para continuar os estudos. E essa escolha implicou uma mudança radical para a família, em especial a minha mãe, pois foi decidido que eu viria estudar para Santarém, a capital do distrito, onde havia o curso que eu devia seguir, ou seja o Curso Geral de Comércio.

Dada a distância, 30 kms, não era viável eu ir de autocarro e regressar a casa todos os dias. Não havia horários compatíveis e era muito cansativo para mim. Portanto a opção dos meus pais, foi a minha mãe mudar-se para Santarém connosco, eu e a minha irmã para continuarmos os estudos, enquanto meu pai permaneceu na aldeia sozinho, indo só ficar connosco á nova casa alugada na cidade, quando as viagens de trabalho lhe permitiam passar perto de Santarém e fazer uma paragem.

Meus pais venderam os animais - cabras, porcos, uma mula e a carroça que ela puxava - porque não havia quem tratasse deles, e sei como essa mudança foi dolorosa para eles. Especialmente para meu pai e também para minha mãe que estava habituada á vida da aldeia e a ter o seu marido com ela.

Mas havia épocas em que era necessária a sua presença na aldeia, para fazer certos trabalhos do campo - como a apanha da azeitona - e nessas ocasiões, vinha a mãe nº 2, a minha avó materna, para cozinhar e tomar conta de mim e da minha irmã.

Se era difícil para a minha mãe, para a minha avó, era mesmo um sacrifício, mas ela lá se aguentava, até que uma trombose a apanhou e teve que ficar acamada na sua casa na aldeia.

Novo sacrífico para a minha mãe, já que naqueles tempos, não se falava em por os pais em lares. Quando adoeciam ou ficavam velhos, os filhos revezavam-se á vez, para tomar conta deles, cuidando-os e providenciando o que fosse necessário mesmo com prejuízo da vida familiar.

Assim a minha mãe dividia os dias da semana com as outras três irmãs, que moravam junto á minha avó, sendo a minha mãe a única que morava mais longe, na cidade a trinta quilómetros, e dois a três dias, de duas em duas semanas, ia para casa da mãe, para cuidar das suas necessidades mais básicas, já que estava paralisada na cama, até que ela faleceu.

Eu e a minha irmã, ficávamos sozinhas em casa. No entanto foi a minha irmã a que mais sofreu, pois eu entretanto já tinha casado e ido para a minha casa. E em especial, o meu pai, que mais uma vez ficou sozinho e teve que fazer de pai e mãe, nesses dias de ausência da esposa.

Mas não vou contar toda a vida da minha mãe e os sacrifícios que passou pelas filhas e a família, porque também quero falar um pouco da outra mãe da minha vida, já falecida: a minha sogra.

Contrariamente ao habitual quando se fala de sogras, a minha foi sempre como uma mãe para mim. Acolheu-me na sua casa e na sua família, desde o primeiro momento em que eu apareci como namorada do seu filho, com os meus 19 anos.

Tive desde o primeiro momento, um grande carinho e admiração por essa mulher franzina, sofrendo desde sempre com graves problemas de reumatismo, que se viu viúva quando tinha cerca de quarenta anos, com sete filhos para criar, o mais velho dos quais tinha 18 anos e mais pequena, era ainda bebé.

Nessa altura, eram colonos em Moçambique, ao abrigo dum programa do governo daquela época, que cedia as terras para cultivar às pessoas pobres que quisessem ir para lá.

Como é óbvio só conheço essa história por me ser contada pela família, porque só os conheci mais tarde, mas ao regressar ao continente, com os sete filhos, teve que recomeçar sozinha a vida desde o zero. Trabalhando no campo com os filhos mais velhos, enquanto os do meio, tomavam conta dos mais pequenos, com uma casa que foi sendo construída por eles e que inicialmente, só tinha quatro paredes e um telhado, com piso térreo, num terreno alugado, conseguiu unir a família em torno de si, e todos conseguiram bons trabalhos e boas casas, e uma vida digna.

Era verdadeiramente a matriarca da família, em torno da qual tudo girava e todos se uniam, e agora que se foi, com noventa anos, o seu espírito e os seus ensinamentos e exemplos de vida continuam vivos na família.

Da minha avó paterna, guardo também carinhosamente boas recordações, mas ela faleceu quando eu tinha quinze anos e portanto só a recordo quando eu era criança e ia á noite a sua casa, com o meu pai, e estavam a jantar á luz da candeia. Geralmente eram batatas cozidas com bacalhau, pelo menos é o que recordo e sempre me convidavam para comer com eles.
Muitas vezes era apenas um pouco de pão molhado no molho do bom azeite das suas oliveiras, que ainda estão lá dando os seus frutos, mas que me sabia muito bem.

Quem teve paciência para ler até aqui, eu agradeço por poder partilhar algumas recordações das mães da minha vida, e dedico em especial á minha mãe, única que ainda se mantém viva a meu lado, esta crónica, neste Dia das Mães.

Arlete Piedade Louro

Crónica publicada no meu livro ERA NO TEMPO DE...CRÓNICAS DE OUTRAS ÉPOCAS






Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira


Narciso bravio


Campo imenso de altivos girassóis amarelos viçosos
Prado dourado repleto de flores que gritam alegria
Girassóis que sonham alcançar o Sol, tão ambiciosos!
Flores viçosas que sobrevivem às estações com mestria

Campo imenso de flores arrancadas pela raiz cruelmente
Prado frio e triste de terra quase estéril,  seca e salgada
Onde alguém, ainda com fé, planta uma túlipa docemente
“Cresce, flor delicada como cristal”, é a prece murmurada

E o jardineiro senta-se no topo da colina a vislumbrar o prado
E espera que a túlipa vingue no vento gélido que sopra forte
Mas a flor enrosca-se na terra fria e espera satisfeita pela morte

O jardineiro, sentado no topo da colina, desvia o olhar marejado
E vislumbra, num canto esquecido, um narciso bravio a despontar
Vida inesperada num campo triste e frio onde já não vale a pena plantar…


Campo singelo


Campo singelo de margaridas bravias e inocentes
Flores viçosas, alegres, criadas por entre o prado verdejante
Plantas felizes que, se pudessem mover-se, saltitavam contentes
Flores modestas, de beleza selvagem, veias de vida palpitante

Não viram o Sol subir, a cada dia mais um pouco, incapaz de adormecer
Astro flamejante que, sem saber conter-se, lhes cuspiu fogo abrasador
E dias passaram,  o verde esmoreceu e as margaridas viram-se escurecer
Até que um dia o Sol olhou para o prado e viu nele semeada bem fundo apenas dor

As estações sopraram vendavais, derramaram chuva furiosa, mas o prado renasceu
Despontaram devagar, um a um, amarelos e cor-de-laranja viçosos, verdes valentes 
Os narcisos estrangularam as raízes das plantas de dor, e cresceram orgulhosos e insolentes

Prontos para cobrir o mundo de cores e alegria, como um prado que a tudo já venceu
Não sabem que o vento os persegue, e que em breve os vendavais tudo vão arrancar,
E os narcisos vão ser soprados pelo mundo afora, e noutros prados vão vingar…


Nevoeiro


Ela pensa que no nevoeiro denso vai encontrar o que procura
Pensa que nas nuvens gordas de irritação se esconde um abrigo
E que ao mergulhar no nevoeiro cinzento vai encontrar uma cura
Acha que as nuvens escuras a podem esconder de todo o perigo

Ela pensa que no mar calmo de nuvens celestiais vai encontrar o que procura tanto
Não percebe que o nevoeiro, gordo de saudade e revolta, carrega apenas profunda tristeza
Ela não sabe a agrura que cobre de fel as nuvens curiosas, como um angustiado manto
Elas que, curiosas e alvas, desceram do Céu para espreitar, em busca de um mundo de beleza

E se viram aprisionadas à lama do mundo desleal, sujas e manchadas de Humanidade
Mas Ela… Ela não sabe, Ela não ouve os lamentos, não cheira a dor que vagueia pelo ar…
Ela, cega de esperança e desespero, abre os braços sem hesitar, e reza por Liberdade

Ela salta sem temer, porque o peito já não tem lugar para o receio nem quer duvidar
E quando se encontra no ventre do nevoeiro, escuro e fétido, sabe que encontrou
Ali, naquele ventre estéril  Ela encontra o Nada que procurava, a paz por que tanto ansiou…





 

ABRE-TE CAMPA SAGRADA - Por José Francisco Colaço Guerreiro


DEPOIS DA CEIFA


ABRE-TE CAMPA SAGRADA - Por José Francisco  Colaço Guerreiro


O estio tinha vindo  temporão  e os trigais aloiraram mais cedo. No ar, o cheiro dos pastos  e das  searas maduras começou a sentir-se , quase um mês antes da época devida,  quando a meio da tarde se  levantava a maré e os ventos  passavam  perfumados pelos aromas  dos campos a ressequir.

Pelos cheiros e pelas vistas, os almocreves  pressentiam o aproximar do tempo das ceifas . Olhavam os céus , miravam o horizonte e  ao por do sol , tiravam sinais. Todos os dias, entravam nas semeadas e  apanhavam uma espiga ao acaso para esbrugarem na palma da mão.  Depois sopravam  deixando  ficar só o grão e  assim  já sabiam a grada da semente, calculavam as fundalhas  , avaliavam  a oportunidade do inicio das colheitas e disso tudo,   davam  conta aos patrões.

Não tardaria a haver trabalho, durante quase dois meses, para aqueles que nas empreitadas ou à jorna, tivessem  forças para aguentar  o manusear da foice e as farpas do sol  cravadas nas costas, todo o santo dia.

Os seareiros, as mulheres e os mais idosos ficavam sempre pela aldeia, resignados às pagas fracas dos lavradores dali .

Os mais vigorosos, abalavam estrada fora, manta às costas, balsa ao ombro, direito às terras dos barros onde os suplícios do corpo podiam ter  melhor preço. Despediam-se da família como se fora para sempre, sem dia de regresso marcado, sem contactos possíveis para além de uma notícia ou outra, levada ou trazida por um portador de acaso.

Na véspera da abalada, o Florival, um cantarrista afamado, bebeu e abalou  a moda toda a tarde e noite dentro, na venda do Encarnadinho. Doía-lhe a alma por ter de  deixar a mãe velhota sem o seu amparo, sem ter quem lhe carregasse uma quarta de água, sem ter sequer quem lhe migasse as sopas. Ficava sozinha,   entregue à boa vontade das vizinhas que por ela olhariam como pudessem .

Mas os fiados que tinha eram muitos, à conta das sacas de farinha, do azeite e do petróleo, dos copinhos e das onças de tabaco, consumidos durante meses  a fio, sem ter como os pagar.

E numa madrugada lá foi ele, mais meia dúzia , cantando a moda,  rumo a norte, por caminhos sem nome, sem destino certo. A tristeza fazia-os cantar mais do que as alegrias. Sempre fora assim.

Passado mais de  um  mês de tormentas em mares de trigais e cevadas, naufragado em ondas de calor, com as roupas retesadas pelo suor destilado  nas fornalhas do trabalho, o Florival com mais meia dúzia de ganhões, estavam de volta a casa  . Vinham cantando do rijo,   ele agora satisfeito pelo regresso e  por poder pagar as dívidas com o  que   trazia  na algibeira da  garibalda,  apertada com a  pregadeira que lhe tinha tirado os  bicos dos mil cardos espetados nas mãos ao agarrar o pão para o traçar com a foice.

Mas  mal chegaram aos arrabaldes  da aldeia, a sua voz foi notada e toda a gente estremeceu. As mulheres saíram dos postigos e  vieram para a rua de mãos na cabeça. Na venda, os homens calaram a moda e  juntaram-se em magotes  cá fora.

Dois deles, mais afoitos ou com melhor perna, caminharam ao  encontro dos cantadores  ,  a passos largos, para lhes darem a conhecer a novidade.

O ar grave que levavam , antes que falassem, já tinha revelado que se tratava de uma má nova. Depois dos cumprimentos breves , um ,  disse que a mãe do Florival  tinha morrido e o outro completou a noticia, dizendo que ela se tinha afogado no poço da horta, havia três dias.

O  ganhão, varado pela dor,  sentou-se  numa rocha à beira do caminho e lá quis ficar só.

Mais tarde,   ergueu-se e lançando o olhar em direção ao cemitério da aldeia, como que retomando a moda interrompida  ou como que rezando a seu jeito,  cantou baixinho:

“Abre-te oh  campa sagrada

Que a minha mãe quero ver

Quero-lhe beijar o rosto

Antes de a terra o comer”


(Texto escrito para o ultimo CD do Vitorino e Janita Salomé )





sexta-feira, 1 de maio de 2015

Poesia de Sylvia Beirute


Poesia de Sylvia Beirute

 

Desejo infinitesimal ; Exercícios para os olhos ; Correspondência



 
 Desejo infinitesimal



 {que horas eram quando o tempo acabou?}
{que horas eram quando deixaste de
 poder reproduzir clandestinamente a explicação
 da conclusão do desejo infinitesimal?}
 {que horas eram quando a razão de espírito
 substituiu a de ciência na ocupação do abraço?}
{que horas eram quando te adiantaste à felicidade
 no dia que dilui
 na percepção multiforme da multidão?}
{que horas eram quando a boca simulou
 o silêncio com princípios aleatórios?}
 {que horas eram quando deixaste que a alma
 somasse corpos e subtraísse outros?}
 {que horas eram quando viver era deixar morrer
 e a solidão incomunicável?}
 {que horas eram quando o tempo acabou?
 que horas eram?}

 Sylvia Beirute

 

 Exercícios para os olhos



 quem manda aqui é a biologia,
mas o sentimento incontrolável é aquele que se masturba.
 eu apenas comecei o palco, síntese da arte, um
 contra}actor contra o corpo.
 cada corpo tem um deus, a sua estrutura de exibição
 não encontra muita importância no texto inevitável.
 {quem escreveu este texto? quem escreveu este texto
sem seios, ânus ou um pudor que os cubra?}
 a estética de tal esconderijo, vejamos, é, eu diria, circunstancial,
 circunstancial, aliás, como o esconderijo dos
 olhos circuncidados do público atento aos
 actores que tapam os espaços mas sobretudo aos
 que tapam os tempos com os es}paços de partes
 inexibidas e por isso, imaginadamente, universais.
 {a lágrima final é uma morte fetal}, poderia {eu} per-
feitamente dizer nesta fala depois de uma deixa redundante,
mas fugiria ao texto e nunca devemos fugir ao texto, a menos
 que tenhamos um outro. { } mas, de repente penso: {se tivesse
 um bisturi e me matasse, quem duvidaria
 de que tal não viesse no texto?}

 Sylvia Beirute

 

 Correspondência

{aos poetas contemporâneos do algarve}

 

 para dizer {intemporal} digo {o infinito do tempo} ,
 para dizer que {existe espaço} digo {vazio} ,
 para dizer {passado} digo {o esqueleto do presente} ou
 uso a sinédoque, estranhamente
 mais exacta e rigorosa, {os seus ossos frágeis} ,
 para dizer {cegueira} digo {a mera visão interior
 com passos de tigre ao escuro} ,
 para dizer {sacar verdades} digo {emitir um
 certificado de existência poética}
para dizer que {sou} digo que {estou, ou estou por vezes},
 para sentir {o anonimato contemporâneo dos outros poetas
 que no jardim da alagoa passeiam os cães e fingem
 não me ver} faço {assim com os ombros}.
 para permanecer preciso de {usar as mãos}
 e {estender todo o corpo nos lábios, ou entre sinónimos
 e correspondências}.

 Sylvia Beirute




Poesia de Xavier Zarco


Poesia de Xavier Zarco

 A Zeca Afonso; à Graça Soares; hoje sérgio bebi a certeza


 A Zeca Afonso

 

 os que comem tudo andam por aqui
 zeca voam nas noites e nos dias
 do poema concreto que é a vida
 no poema em que o belo se reduz
 ao horário a cumprir pelos que não
 têm nada por vezes penso o como
 se esquecem do poema da cantiga
 que não dizem nem cantam têm medo
 que a migalha de pão que o seu suor
 amassou se enamore pelo bico
 dos que voam nas noites e nos dias
 e não habite a mesa que os aguarda
 por vezes zeca sinto que perderam
 a semente que espártaco deixou
 sentindo-se felizes no sofá
 vendo o que só aos outros acontece
 sequer sentem que os próximos são eles
 e como riem riem zeca escuto
 os que andam por aqui e tudo comem

 Xavier Zarco

 

 Para a Graça Soares, minha esposa, no dia do seu aniversário: é um poema já com algum tempo, mas que se mantém bem actual.

 à Graça Soares

 

 meu amor não me esperes quando a noite
 acordar em meu olhar
 não me esperes
 de nada vale o tempo que gastares
 à janela da vida
 que só a ti pertence
 não te iludas
 com as coisas da moral
 que os vizinhos costuram nas ombreiras
 com as manhãs que dizem que hão-de vir
 nevoeiro algum diz do meu regresso
 todo o nevoeiro
 pronuncia somente o meu partir
 nada mais que a minha ausência
 por isso parte todas as molduras
 todas
 rasga as fotografias
 apaga os risos
 as lágrimas
 diz aos filhos que a via é sempre em frente
 onde o sol é bandeira desfraldada
 com as suas próprias cores
 e que rumem rumo ao sonho
 porque antes vivê-lo um segundo
 que chorá-lo toda a vida
 bem sabes que a minha morte
 só a mim pertence
 e a mais ninguém

 Xavier Zarco

 

 hoje sérgio bebi a certeza

 

 hoje sérgio bebi a certeza
 num copo de vinho entre amigos
 na solidão da casa as cadeiras
 vazias mas repletas de memória
 hoje recordas é o primeiro
 dia dos dias que sobram
 como sobra sobre a mesa
 esse copo vazio de onde se bebe
 a coragem estrume para o dia
 que teima lá fora em nascer

 Xavier Zarco




As Jóias da terra - Texto de José Francisco Colaço Guerreiro


As Jóias da terra

Texto de José Francisco Colaço Guerreiro

 
As jóias da terra são os recantos onde os meninos brincam agachados, empurrando carrinhos, imaginando estradas infindas, seguindo com o olhar uma folha levada num regato como se fora uma embarcação num rio caudaloso. São as esquinas, as calçadas que se pisam amiúde e já se lhes adivinha os rebaixos e os encalhos, são os poiais que diariamente se sobem e no verão servem de assento para se apanhar o fresco depois da ceia enquanto se cavaqueia e o calor do dia se vai despegando do corpo.

 São as ruas, feitas de mil passos, das gentes que nelas andaram percorrendo a vida, andares todos diferentes que gravamos na retina e depois mais tarde, continuamos a visualizar em cenários de saudade. Ruas caiadas, de barrinhas feitas com craveiro á porta que o povo baptizava com nomes seus, por motivos relevantes, mas que as placas toponímicas chamam agora com a graça deste ou daquele que nunca sequer as pisou mas por ser de fora, por ser figura nacional, passou a ser a nossa direcção.

 Jóias da terra são os jardins onde as pessoas descansam e convivem , onde se sentem bem como em casa e por isso fazem entrar nos seus hábitos de lazer. São os largos, cheios de abraços, cumprimentos, falas e afectos, onde se faz uma pausa, se pousa o saco das compras, se dão e recebem novidades. Onde se espraia o sentimento de estarmos num lugar nosso e por isso nos demoramos sem cuidados.

 São as vendas e as mercearias, onde se compram só as precisões e ao balcão também se despacham palavras de amizade, embrulhadas em gestos carinhosos de um sentir verdadeiro, se necessário solidário, desprendido da ganância pura dos neons onde não se vende fiado.

 Jóias da terra são as rádios locais que manhã cedo nos acordam falando do que temos e daquilo que nos falta, seguem dia fora tocando as músicas de cá, afugentando tanta solidão, dando tanta companhia, e até à deita, persistem elogiando os nossos valores, enaltecendo as nossas obras, fazendo eco dos nossos sonhos.

 São os clubes e as associações, as comissões de festas, que engendram maneiras de ocupar, dinamizar, recrear e valorizar as gentes, envolvendo-as, responsabilizando-as, fazendo delas artífices do seu bem estar e não meros consumidores da animação.

 Jóias da terra são os poetas populares, os artesãos, os tocadores e os cantadores que ainda inventam brio nesta vida cinzenta para continuarem a levar por diante os testemunhos da tradição.

 Gente sem pelouros nem obrigações mas que não regateiam tempo do seu tempo para dar e dedicar às coisas que outros pensam ser já de outro tempo.

 Lembramo-nos do Antero que em Amoreiras Gare estrebucha por paixão à terra. Não tem horário nem mau jeito, nem há contrariedade que lhe trave o passo na sua caminhada para fazer valer os trunfos da cultura. Por devoção, todos os dias acende a vela da esperança de ver melhorar o pensamento que agora nos arreda daquilo que é nosso, das nossas raízes e dos nossos costumes.

 Pacientemente insiste em não se deixar ofuscar pela modernidade reinante que do passado pretende fazer terra queimada e acredita também que num futuro, não importa quando, os valores culturais locais possam vir a ser uma jóia comum e os nossos meninos já com os olhos despregados da televisão, possam imaginar grandes veleiros ao ver passar uma folha arrastada num regato.