terça-feira, 28 de abril de 2015

Verão - Conto de Daniel Teixeira


Verão

Conto de Daniel Teixeira

Havia uma chaminé, uma chaminé pequena, branca e também tisnada de um negro não muito escuro. Quase nem se notava, o negro. A chaminé parecia assentar nas telhas, e era mesmo assim como eu digo, assentava, simplesmente, como se tivesse sido ali plantada. Era como se fosse uma árvore de tronco claro num chão de terra castanha.

Por aquilo que eu via era uma casa baixa, ou talvez eu estivesse num ponto mais alto que o seu solo, não vi isso desde logo. Há casas baixas, eu sei que há, mas assim tão baixas mostrando-me o telhado e o enfiamento das telhas logo ali à minha altura, isso não. Teria de ser uma casa muito baixa, demasiado baixa para ter gente.

E tinha gente, tinha que ter. Havia um fumo ligeiro, esbranquiçado que saía do rendilhado da chaminé, assim - e fiz um gesto com as duas mãos - fazendo uma espiral que se diluía logo um metro ou dois depois em direcção ao azulado escuro do céu.

Talvez houvesse ali uma velhota, uma viúva, aquecendo-se à lareira - pensei. Mas nem estava assim tanto frio. Era capaz de não ser uma velhota aquecendo-se à lareira. Talvez estivesse cozinhando, fazendo uma sopa de couve com bocados de abóbora. E batata, uma sopa leva sempre batata.

Para ela chegava, um sopa chegava, se fosse mesmo uma velhota que lá estava cozinhando, mas não devia ser, pensei depois ao olhar melhor as paredes da casa. Estavam muito branquinhas, caiadas. E caiar as paredes de uma casa não é trabalho que possa ser feito por velhotas.

Talvez tivesse alguém que lhe caiasse a casa, um filho, um genro, alguém, também pensei. E podia não ser uma velhota cozinhando, talvez fosse uma pessoa de meia idade, era mais certo. Por ali não havia gente mesmo nova, isso eu sabia.

Os novos, os mesmo novos, tinham todos partido, abalado, tinham ido viver para outros lados, no estrangeiro ou na cidade, tanto fazia, tinham-se ido embora, para um lado ou outro. Os novos vão-se sempre embora, é muito raro ficarem, quase nunca acontece encontrar pessoas novas nas serras, naquelas serras.

Só no verão, lá pelo mês de Agosto ou mesmo no Natal. E é quando os velhotes, como aquela velhota que eu imaginava viver naquela casa vêem gente nova. Os netos, os filhos e filhas. E é bonito ver o corropio pelos caminhos, as correrias, os gritos.

E é quando os velhotes deixam de ser velhotes durante aquele tempo. São velhos, na mesma, mas deixam de ser velhos. É assim como que um acordar de uma vida onde jazem. Acho que não vivem, mesmo, durante esse tempo todo, durante quase todo o ano, os velhotes naquela serra. Respiram e esperam.

Ah, mas aquela casa, aquela casa, parecia bem tratada, estava mesmo bem tratada. Até o telhado que eu via, longo, talvez cobrindo três ou quatro quartos e uma sala, tinha as telhas bem direitas, bem alinhadas.

Não eram novas, as telhas, tinham aquele castanho esbatido, amarelado quase e viam-se algumas manchinhas de verde do musgo, talvez. Devia ser musgo.

A porta, pintada de castanho vinho cerrava a casa do outro lado por onde passei. E havia ainda duas janelas, também cerradas. E afinal a casa não era assim tão baixa. Não era muito alta mas também não era baixa. À volta da porta havia um amarelo ocre, uma tira um pouco larga, talvez com quinze centímetros e em dois canteiros, um de cada lado da porta, haviam umas hastes mortiças que esperavam a floração.

Talvez em Agosto, e se eu por ali passasse nessa altura, devia ver flores, certamente que as haveria. A velhota, se fosse mesmo uma velhota ou uma senhora de meia idade, tinha combinado com a natureza fazer florir aquelas hastes, agora quase secas, no Verão.

Dariam um ar mais bonito à casa - devia ela pensar. O que teria ela plantado ali (?) - perguntei-me. Deviam florir muito, no Verão, aquelas plantas. Ainda bem. Seriam como ela, floririam no mesmo tempo.

As risadas dos netos, o corropio, os choros das quedas no chão pedregoso, as asneiras que as crianças fazem, o ralhar, as pequenas irritações, os miúdos que não chegam a horas para comer, as repreensões dos pais e das mães, a filha ou a nora que diz que a sopa se faz assim e não da maneira que sempre se soube, tudo isso faz parte, velhota, tudo isso faz parte.

Já quando me afastava fui olhando para trás e lá estava ainda o fumo branco correndo da chaminé, as telhas alinhadas, a porta fechada. Tudo estava na mesma e tudo ficaria na mesma.

Eu sabia...isso eu sabia. Só mudava no Verão.

«Deus te guarde, velhota!» - tive vontade de lhe gritar já eu ia bem longe.
Afinal não falta muito para chegar mais um Verão - murmurei.



Lendas - A Mula Sem Cabeça


Lendas

A Mula Sem Cabeça

Longe, bem longe, em um vilarejo situado no interior do nada, vivia a bela Maria. Corriam os anos, e ela exalava pelos campos o seu ardor juvenil, a sua insinuante delicadeza virginal. Maria era desejada pelo mais robustos rapazes, sonhada pelo mais casadoiro dos homens. Mas a nenhum deles ela se rendia. Tanto menosprezou os pretendentes, que um dia foi por um deles amaldiçoada.

A paz da bela Maria fugiu quando, num certo domingo, surgiu na missa um padre a substituir o que morrera semanas antes. Ao contrário do seu antecessor, era jovem, belo e de sorriso sedutor. Tão logo os olhos de Maria cruzaram os do padre, a sua maldição começou. A donzela encheu-se de paixão pelo padre. Dentro dela ascendeu-se todas as luzes do desejo proibido.

Maria tornou-se a mais fiel participante de todas as missas do lugar. Cada hóstia que ingeria, diluía-lhe a sensatez da alma, aflorando-lhe o desejo. Tantas vezes voltou às missas, que não passou despercebida aos olhos e aos sentimentos do padre. No calor de Maria, o padre revelou o homem ardente que escondia debaixo da batina.

Muitas foram as noites de entrega, langor e prazer, que ambos perderam a clareza dos sentimentos, ficando cegos diante do povo do lugarejo, que a tudo assistia.

Numa noite de lua cheia, a população concentrou-se em frente à igreja. Quando Maria surgiu, foi cercada por todos. Ao seu redor foi feito um círculo de fogo. Um ovo enrolado com o seu nome foi atirado às chamas. Uma oração foi invocada. Maria ouvia os murmúrios que lhe chamavam de mulher do padre.

A noite de quinta-feira estava no fim, já chamando pela sexta-feira. No meio do círculo de fogo, quando a lua iluminou o rosto de Maria, uma terrível metamorfose debateu-se sobre ela. Sua pele foi ficando grossa, assumindo uma cor castanha. O corpo foi perdendo a forma ereta, curvando-se como uma besta. Mãos e pés transformaram-se em cascos, trazendo ferraduras de prata. A cabeça desapareceu, em seu lugar surgiu o fogo.

Completada a metamorfose, a bela Maria já não existia, era apenas uma mula sem cabeça, era a burrinha do padre.

No meio da praça, o povo assustado ouviu um relincho tão alto, que ecoou por todo o vilarejo. A mula sem cabeça soltou um soluço medonho, a lembrar a sua antiga forma humana.

Numa velocidade sem fim, a mula sem cabeça saiu em disparada. Corria desenfreadamente, despedaçando com as suas patas homens ou animais que se lhe ficassem no caminho. Somente os que se deitavam de bruços, escondendo unhas e dentes, é que não eram atacados pela besta. O trajeto da mula sem cabeça só encerrava ao terceiro cantar do galo. Exaurida, ela voltava a ter a forma da bela Maria.

Assim, toda noite de quinta para sexta-feira, quando a lua cheia despontava no céu, Maria cumpria a sua maldição. Transformava-se na mula sem cabeça. Seu trajeto só poderia ser interrompido se alguém conseguisse furar-lhe a pele, fazendo-a sangrar, voltando assim, à forma humana. Ou se o padre com quem dividira o calor do seu desejo, a amaldiçoasse sete vezes durante a missa.

O padre, envergonhado pela paixão que se deixara levar, fugira para sempre. Jamais se soube do seu paradeiro. Certamente não conseguiu amaldiçoar a bela Maria, que em noite de lua cheia, voltava a ser sempre a burrinha do padre.




O Saci Pererê - Conto / causo de Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.


O Saci Pererê

Conto / causo de Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.


Prólogo atual: este texto, feito em abril de 1998; faz parte de meu penúltimo livro, uma antologia de contos, crônicas e poesias, cujo título é «Fragmentos»; na verdade um livro quase inédito, posto que não tenho tempo de procurar livreiros e eles não me enxergam, quando os encontro.... .

Devido à tragédia que ocorreu com a cidade de São Luiz de Paraitinga, SP, durante o mês de janeiro de 2010 e sendo esta cidade a sede da Sociedade dos Criadores de Sacis (SOSACI), resolvei torná-lo público. Gostaria que os leitores pudessem ajudar as famílias de lá, da maneira que puderem!

Para os leitores lusófonos terem uma idéia, o desastre ambiental em São Luis de Paraitinga parece ser muito maior do que aquele que ocorreu na Ilha da Madeira, na última sexta feira, 19 de fevereiro de 2010; ainda com a diferença de que São Luis Paraitinga é uma cidade importante sob muitos aspectos, porém pobre... .
Quem quiser conhecer como a cidade era, entrar no site: www.paraitinga.com.br

Toda vez que chegava uma nova família na fazenda de café, onde eu vivia, todos se alegravam. Os adultos, por terem mais um amigo por perto, já para a molecada da fazenda, nem se fala! E, ao ver-mos que na família nova tinha um menino da nossa idade então, ficávamos curiosíssimos: será que o novo amiguinho teria um dote especial? Será que ele sabe jogar bola melhor, brigar melhor, nadar melhor? Será que ele sabe tocar viola ou cavaquinho, fazer gaiola de passarinho e arapuca; será que é bom de estilingue ou bodoque e etc.?

Cada um de nós ficava imaginando qual seria a sua experiência de vida; se ele tinha irmãos e outras coisas. Como era praxe, colono novo almoçava na casa do administrador no dia da chegada: era as «boas vindas». O Administrador, meu pai, pagava a despesa do próprio bolso, pois o fazendeiro sovina jamais o reembolsou; talvez Deus tenha feito isso por ele! Papai tinha muita pena de gente que viajava com filhos pequenos durante muitas horas, às vezes passavam o dia todo sem comer.

- Naquele sábado não foi diferente, quando vi o «panelão» que borbulhava no fogão à lenha, logo imaginei: como não vai haver festa, é colono novo chegando, e de longe.

- Percorri toda a colônia avisando meus amiguinhos que teríamos gente nova na fazenda e que meu pai afirmou que tinha um menino da minha idade. Nesse dia não saímos para pegar frutas, nem caçar, nem jogar bola: passamos o dia todo debaixo da mangueira do quintal da minha casa, brincando com vaquinhas e cavalinhos de bucha, caminhõezinhos de lata de marmelada, aos quais atávamos um «cordoné» para poder puxá-los.

Desse modo transportávamos uma boiada do curral de um até o piquete de outro, e vice-versa. Fazíamos transações comerciais, as quais eram pagas com tampinhas de refrigerantes (o guaraná Paulista valia um conto; guaraná Caçula, destões (um mil réis); Mãe-Preta ou Níger, quinhentos réis).

A tarde já se anunciava mostrando a barra do dia avermelhada e o céu azul, que só a região de Cravinhos tem, quando percebemos um certo alvoroço com o pessoal da casa: a carroça com a mudança do novo colono chegou.

Eu e meus amiguinhos corremos até o portão da frente da casa e deparamos com uma família diferente: o pai, que estava conversando com o meu, era um crioulo alto, forte, com dentes brancos e perfeitos, com as carapinhas já embranquecendo; a mãe parecia bastante jovem, com um bebê no colo, ao mesmo tempo que dava ordens ao menino e sua irmã, um tanto atarantados com minha presença e de meus amiguinhos, e remexia em sacolas, sacos e embornais à procura de não sei o quê.

Meu pai muito gentil, pediu que apeassem e se preparassem para aquele almoço fora de hora. Minha mãe foi chispando reacender o fogo e botar o panelão e a assadeira para aquecer.

- Eu e meus amiguinhos não desgrudávamos os olhos do menino, que agora sabíamos chamar-se Ditinho, que por sua vez parecia muito incomodado com a nossa presença. Toda a família do Ditinho foi até a «vasca» do fundo do quintal, se refrescaram, banharam os braços e o rosto, molharam delicadamente a cabeça e a mãe penteou-os todos, até o marido.

Nesse ínterim minha mãe chamou-os para comer e já estava com a mesa posta: no panelão, risota caipira: uma espécie de sopa de pouco caldo com arroz, batata, frango, cenoura, vagem, cozidos com açafrão recém colhido, coberto de salsinha picada e queijo curado ralado; havia também mandioca frita, feijão, uma farinheira cheia de farinha de mandioca, que eu ajudei a fazer, e uma assadeira com um pernil de tatu «rabo mole» tostadinho, duas jarras de água da bica e uma tigela de arroz-doce com folhas de laranjeiras.

Eu e meus amiguinhos não ficamos ao lado da nova família de colonos, mas ficamos apinhados do lado de fora das duas janelas da sala com a grande mesa, onde freqüentemente comíamos em, no mínimo, nove pessoas.

Enquanto o pai do Ditinho almoçava, os camaradas da fazenda descarregaram a mudança na casa recém caiada da colônia, com chão de terra - batida, dois quartos, sala e cozinha. Na fazenda, os banheiros são feitos do lado de fora, diretamente sobre uma fossa, que a cada ano era coberta de «cal viva» e aterrada, sendo então feita uma outra.

Na verdade era cercada por folhas de zinco, e de zinco era também a cobertura. Eu e meus amiguinhos assistimos a despedida da família do Ditinho, agradecendo a hospitalidade e rumando para sua nova casa. Quando passou por nós, o Ditinho disse amanhã eu quero falar com vocês!

Ficamos bastante ansiosos, e mal podíamos esperar para falarmos com o novo amigo no dia seguinte. De manhã, como de costume, apanhei a caneca de louça, coloquei dois ou três dedos de café, acrescentei quatro colheres de açúcar cristal e fui até o curral, para tomar meu café com leite «direto da fonte».

A «fonte» era uma vaca rústica, toda «chitadinha» de branco e preto, chamada Bela Vista, que era a nossa preferida. O tirador de leite, que começava a ordenha por volta das quatro da manhã, precisava tirar o leite todo antes das sete horas, quando então enviava para minha casa duas latas de vinte litros: uma para os colonos e outra para fazer os queijos dos patrões; pelo menos dois por dia.

Portanto, o tirador de leite sempre deixava a Bela Vista para o final, pois a qualquer momento eu e meus irmãos podíamos querer leite fresco. Ele esperava até sete horas, aí então terminava seu serviço.

Pois bem, após meu desjejum, passei em casa e comi um belo pedaço de pão caseiro com queijo e me dirigi à colônia: pretendia reunir os meus amiguinhos e, juntos, irmos a casa do Ditinho. Mas, ao chegar à colônia, já os vi todos, inclusive o Ditinho, num bate-papo animado, que só parou quando me aproximei e disse: - o que você quer falar com a gente? Antes mesmo de o Ditinho abrir a boca, o Ném, meu amigo disse: ele vê e ouve saci - pererê!!.

Ele vê o que?, disse eu sem entender direito: saci - pererê, disseram todos em coro.

Nesse ponto, o Ditinho começou a contar a sua história: disse que sua mãe verdadeira já havia morrido, e aquela que morava com seu pai, era sua madrasta, e que sua irmã, por parte de mãe sofre de vermes e desmaia quando passa vontade de comer alguma coisa, mas que o bebê é lindo; a madrasta não liga pra ele e seu pai é generoso e trabalhador e que desde que era menino, ele via saci - pererê, só que não sabia o que era: a primeira vez que viu tinha quatro anos, fazia muito tempo, pois agora já tem sete e que qualquer criança pode ver o saci - pererê e que ele não faz mal a ninguém, só faz estripulias, que quando tinha cinco anos ele não quis brincar com o Saci e que o Saci derrubou todas as panelas da madrasta no chão da cozinha, durante a madrugada e que seu pai deu dois tiros de espingarda nele e que agora tem medo do saci se vingar do seu pai.

Eu e meus amiguinhos, inclusive o novo, ficamos ali até que ouvi o sino da sede da fazenda: era o sinal da minha mãe, avisando os filhos e meu pai que o almoço já estava pronto. Durante o almoço com minha família comentei com meu pai do menino novo que via e ouvia saci - pererê e enquanto meus irmãos faziam caçoada de mim, meu pai falou: Pois, agora, toda vez que vocês saírem juntos, você tem que levar uma caixa de fósforos no bolso.

Meus irmãos todos se calaram e meu pai não disse mais uma palavra, continuou calmamente a almoçar, com o olhar cúmplice de minha mãe: No mesmo instante eu percebi que meu pai também acreditava, ou já tinha visto um saci - pererê.

Durante os próximos dias e durante todo o ano, até a colheita do café, após a qual todos os contratos dos colonos venciam e discutia-se, quem vai ficar na fazenda e quem vai sair, discutíamos os casos dos sacis - pererês.

Certo dia o tirador do leite não encontrava os baldes para a ordenha, num outro dia os rabos dos cavalos apareciam amarrados uns aos outros, noutra ocasião esvaziaram o lavador de café, inundando todo o terreiro de secagem e atrasando o beneficiamento por mais de uma semana, enfim de vez em quando alguma traquinagem acontecia na fazenda: e eu sempre com a caixa de fósforos no bolso.

No final da colheita do café daquele ano, a família do Ditinho resolveu ir embora para São Paulo e eu e meus amiguinhos ficamos muito tristes, pois embora o Ditinho não pudesse jogar bola e tivesse dificuldade de nadar ou caçar de estilingue suas estórias eram muito excitantes.

No dia da sua partida, marcamos com ele para nos despedirmos junto à porteira da fazenda, uns dois quilômetros longe de casa, em meio a uma mata fechada. Quando a carroça com a mudança chegou, não vimos o Ditinho. Perguntamos por ele, e seu pai disse: ele vem vindo a pé pelo meio do mato - e foi embora. Estranhamos muito, mas ficamos ali esperando.

Após algum tempo, ouvimos um assovio longo e forte e nos voltamos para uma «picada» no mato e vimos o Ditinho com um boné vermelho na cabeça, cachimbo na boca, pulando sobre sua perna aleijada, completamente pelado e gritando:- me dá o fogo senão morre ou fica bobo!

Todo amedrontado, retirei a caixa de fósforos do bolso e entreguei ao Ditinho, que saiu rindo alto e assoviando, pulando atrás da carroça de mudança.

O Ditinho era o próprio saci-pererê!




segunda-feira, 27 de abril de 2015

O MEU ÚLTIMO CIGARRO FOI HÁ 27 ANOS - Por Joaquim Nogueira


O MEU ÚLTIMO CIGARRO FOI HÁ 27 ANOS

Por Joaquim Nogueira

“… tudo aconteceu num ápice, num momento normal da vida… era cerca do meio dia e meia hora do dia 18 de Abril do ano de 1988 e encontrava-me de pé encostado ao balcão do café do Luís a comer uma tosta mista e a beber uma cerveja… de repente, a minha vista esquerda deixou de ver… tapei o olho direito com a mão e apenas via um cinzento prateado e uma mancha escura para o lado esquerdo…

calmamente, continuei a comer, comi mais um bolito e bebi o meu café… saí normalmente, segui para o meu escritório e fui lavar a cara e deitar água para a vista… mas nada aconteceu, tudo se manteve na mesma…

a pé, dirigi-me para a Clínica Santo António, ali perto, entrei, segui até ao balcão e com uma calma tremenda disse à funcionária: - Desculpe, estou a perder a visão, estou a sentir-me mal e a entrar em pânico… por favor, vá transmitir isto ao Médico (por acaso, havia Oftalmologia e havia um em serviço àquela hora)…

a moça, muito atónita a olhar para mim, lá se levantou da sua cadeira e seguiu em direcção ao gabinete clínico… quando regressou, um minuto depois, disse-me: - venha se faz favor que o senhor doutor atende-o já…
 
depois de agradecer lá segui para a sala de espera… de dentro do gabinete saiu um doente e eu entrei de imediato… contei o que se estava a passar, fui bem examinado e o diagnóstico foi-me dado logo ali: - o senhor acaba de ter um AVC e precisa de ir imediatamente para a Neurologia. Aguarde um momento que eu vou ver se o meu colega está de serviço…

ali fiquei a aguardar… a calma aparente obrigou-me a acender um cigarro, o último que fumei, seriam cerca das 15 horas desse dia… quando o oftalmologista regressou levou-me para o gabinete da neurologia onde o especialista me examinou e confirmou o diagnóstico anterior… passou-me um relatório e disse-me para ir ao Delegado de Saúde carimbar o chamado P1 para poder ir fazer de imediato um TAC…

assim fiz… no dia seguinte, de manhã, obtido o documento segui para o Porto onde fiz o dito exame… deitei-me na bela marquesa do túnel do terror e surge um enfermeiro de seringa na mão… aí eu disse: - Um momento por favor: o que vai fazer?... ao que ele me explicou ir injectar-me o iodo para contraste e que iria sentir um ardor na cara que desceria pelo peito até às pernas e que desapareceria nos pés…

(assim, na verdade, aconteceu) mais descansado, fiquei estático com a cabeça presa por uma fita e disseram-me para não me mover e olhar para uma luzinha vermelhinha que estava por cima da minha testa… e, pronto, ao fim de uns minutos, saí do túnel e mandaram-me esperar para ver o resultado…

havia, na verdade, sofrido um pequeno acidente vascular cerebral provocado por arteriosclerose tabágica (durante 27 anos havia fumado 2 maços diários)…

mandaram-me embora com a famosa receita da Aspirina 100 e que deveria ser seguido pela especialidade e fazer uns campos visuais de quando em vez… entretanto, a cegueira foi abrandando apesar de ter durado 33 horas…

segui os conselhos e, nunca mais fumei…

faço assim, hoje, 27 anos sem tabaco… creio que foi uma vitória apesar de a ter conseguido por ter apanhado um dos maiores sustos da minha vida…

e aqui acabei de contar a minha odisseia de como parei de fumar…”

Joaquim Nogueira




Poesia de Euclides Cavaco


Poesia de Euclides Cavaco
 
DIA DOS MONUMENTOS, aqui deixo uma versão das nossas:

SETE MARAVILHAS DE PORTUGAL

Poema de Euclides Cavaco.

Em Terras da Nossa Terra
Faço destas redondilhas
Um poema que descerra
Nossas sete maravilhas.

Entre muitos monumentos
Considerados perfeitos
Após os discernimentos
Só sete foram eleitos.

Em GUIMARÃES O CASTELO
E JERÓNIMOS também
O monumento modelo
Que é a TORRE DE BELÉM.

ÓBIDOS p’la sua graça
Com seu CASTELO altaneiro
O MOSTEIRO DE ALCOBAÇA
Do turismo qual roteiro.

O MOSTEIRO DA BATALHA
Moldado em pedra morena
E bem digno de medalha
É o PALÁCIO DA PENA.

Cada um é maravilha
De dimensão cultural
Que com tanto fulgor brilha
Em terras de Portugal !...

Euclides Cavaco


DIA internacional do LIVRO

O LIVRO

Poema de Euclides Cavaco

Um LIVRO é como um tesouro
Muitas vezes escondido
Mas que vale mais que o ouro
Ou fortuna quando é lido.

Qualquer LIVRO é para nós
Um amigo e confidente
Porque mesmo sem ter voz
Diz-nos tudo abertamente.

Um bom LIVRO é mais valia
Na cultura é soberano
Por dar a sabedoria
Que enriquece o ser humano.

Quem lê um livro usufrui
Conhecimento e saber
Da riqueza que ele possui
Sem dela se desfazer !...

Euclides Cavaco



domingo, 26 de abril de 2015

Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)

 
Negócio Alentejano...

Um velho alentejano agricultor, com sérios problemas financeiros, comprou uma mula de outro agricultor por 100 Euros.

Concordaram que a entrega da mula seria no dia seguinte.
Entretanto, no dia seguinte, o agricultor chegou e disse:
- Desculpe, mas tenho más notícias. A mula morreu.
- Bom, então devolva-me o dinheiro.
- Não posso. Já gastei tudo.
- Tudo bem. Mas, entregue-ma na mesma.
- E o que e que vai fazer com uma mula morta?
- Vou rifa-la!
- Você não pode rifar uma mula morta!
- Claro que posso! Só que não vou dizer a ninguém que o bicho está morto...

Um mês depois, os dois agricultores encontram-se e o que vendeu a mula perguntou:
- Então, o quê que aconteceu à mula morta?
- Rifei-a como lhe tinha dito. Vendi 500 números a 2 Euros cada e tive um lucro de 998 Euros.
- E ninguém reclamou?
- Só o fulano que a ganhou na rifa. Devolvi-lhe os 2 Euros...


A CULPA É DA CHUVA....

Um homem entra na igreja e vai ao confessionário.
"Perdoa-me, padre, porque eu pequei", diz ele.

"Qual é o seu pecado, meu filho?", pergunta o padre.
"Bem, um mês atrás, eu estava na biblioteca até à hora de fechar, e quando quis ir embora, começou a chover muito, sem parar. Depois de algum tempo, a bibliotecária e eu fomos ficando mais confortáveis e... bem... fizemos festa a noite inteira, se é que o senhor me entende."

"Não foi correto mas também não foi horrível, meu filho", disse o padre. "Se foi apenas um único deslize, Deus vai perdoá-lo."

"Aí é que está", disse o homem, "mais ou menos uma semana atrás, eu dei uma ajuda à minha vizinha e consertei as persianas dela, e quando ia pra casa, começou a chover muito, muito, sem parar, e... bem... o senhor sabe, foi festa a noite inteira."

O padre ficou em silêncio por alguns segundos.

O homem cobriu o rosto com as mãos e, em soluços, perguntou: "O que eu devo fazer agora, padre?"

"O que você deve fazer?", berrou o padre, "Você deve sair já daqui antes que comece a chover!"


Dois alentejanos vão à feira de Beja

Há dois alentejanos que vão à feira de Beja e compram dois porcos, um para cada um. Então, chegam à aldeia e metem os dois porcos na mesma pocilga. Entretanto, anoitece e um dos compadres começa-se a lembrar: - "
-Os dois porcos estão na pocilga. Temos que fazer um sinal aos porcos para saber qual é o porco de um e o porco do outro."

No outro dia, diz um compadre para o outro: -
-Compadre, temos que fazer um sinal aos porcos para saber qual é o porco de um e o porco do outro! - Tá bem! No outro dia encontram-se, e diz um para o outro: -
-Então compadre, já fez o sinal ao porco? -
Já sim senhor! Cortei-lhe metade do rabo. -

-Ó compadre, você não quer lá ver que eu fiz o mesmo ao meu?! - Não há problema compadre! A gente faz outro sinal. No outro dia: -

-Então compadre, qual foi o sinal que fez desta vez ao porco? - Olhe compadre, cortei-lhe metade da orelha direita! -
-Ó compadre, você não quer lá ver que eu fiz o mesmo ao meu?! -
-Mas olhe! Deixe lá isso, você fica com o branco que eu fico com o preto!...

Mas que parvalhões!...


Um rapaz de 16 anos chega em casa com um Porsche

Um rapaz de 16 anos chega em casa com um Porsche e os pais gritam:
-Onde conseguiu isto ?
Ele calmamente responde:
-Acabei de comprar.
- Com que dinheiro? perguntam.
Sabemos quanto custa um Porsche !

- Bem, ele disse, este custou 15 dólares.
E os pais esbracejaram ainda mais:
- Quem venderia um carro destes por 15 dólares ???
- A senhora logo acima na rua.

Não sei seu nome, mudou-se recentemente para cá. Ela me viu passando de bicicleta e perguntou se queria comprar o Porsche por 15 dólares.
- Santo Deus! gemeu a mãe, deve abusar de crianças.
Quem sabe o que fará depois?

José, vá lá imediatamente, para ver o que está acontecendo.
O pai foi até à casa da senhora e ela calmamente plantava petúnias no jardim.

Ele se apresentou como pai do rapaz a quem ela vendeu o Porsche e perguntou por que ela havia feito aquilo.
- Bem, disse ela, pensei que meu marido estivesse viajando em serviço, mas descobri que ele fugiu para o Havai com a secretária e não pretende voltar...
Esta manhã ele me ligou e pediu que vendesse o Porsche e lhe enviasse o dinheiro...

Então eu vendi...

As mulheres são ou não são maravilhosas?!


Quatro homens católicos

Quatro homens católicos e uma mulher católica tomam café na Praça de
São Pedro, em Roma
O primeiro homem católico diz aos seus amigos:
- O meu filho é padre. Quando ele entra numa sala, toda a gente diz:
"Reverendo!"

O segundo sussurra:
- O meu filho é bispo. Quando ele entra numa sala, as pessoas dizem "Excelência Reverendíssima!"

O terceiro disse:
- O meu filho é cardeal. Quando ele entra numa sala, toda a gente diz:
"Eminência!"

O quarto homem disse orgulhosamente:
- O meu filho é o Papa. Quando ele entra numa sala, as pessoas dizem
"Santidade!"

Uma mulher católica estava a tomar o seu café em silêncio. Os quatro homens perguntaram-lhe então ironicamente:
"E você?"

Ela respondeu com orgulho:
- Eu tenho uma filha, elegante, alta, 95 de peito, 60 de cintura, 90
de anca e, quando entra em qualquer sítio, as pessoas dizem: "Meu Deus!"


Um lisboeta e um alentejano...

Um lisboeta e um alentejano foram parar à mesma barbearia, no tempo em que ainda lá se fazia a barba.
Lá sentados, com um barbeiro a atender cada um deles, não se falou uma palavra.

Os barbeiros temiam iniciar qualquer conversa, pois poderia descambar em discussão.
Terminaram a barba dos seus clientes mais ou menos ao mesmo tempo.

O barbeiro que tinha o lisboeta na sua cadeira estendeu o braço para pegar o after-shave, no que foi interrompido rapidamente pelo seu cliente:
- Não obrigado, a minha esposa vai sentir esse cheiro e pensar que eu estive numa casa de p**** disse o lisboeta.

O segundo barbeiro virou-se para o alentejano:
- E o senhor? - indagou.
E o alentejano respondeu:
- Ponha bastante! A minha mulher nunca lá esteve e não sabe como é o cheiro de uma casa de p****...


Pois, e as mulheres sempre a queixarem-se dos homens...

Um grupo de mulheres reuniu-se num seminário sobre como melhorar a sua vida conjugal.
Em fase introdutória, foi-lhes questionado: "Quais de vós ainda amam os seus maridos?”
– Todas levantaram a mão!

De seguida foram inquiridas sobre qual a última vez que teriam dito aos seus maridos que o amavam.
– Algumas responderam "Hoje”, outras ;"Ontem” a maioria não se recordava!

Por fim fizeram um teste e pediram-lhes que todas agarrassem no respectivo telemóvel e enviassem um sms aos seus maridos dizendo "Amo-te muito Querido.”

Depois foi-lhes pedido que mostrassem as respostas dos respectivos Maridos.

Estas foram algumas das respostas:

– Mãe dos meus filhos! Tu estás bem?

– Que foi? Bateste com o carro outra vez?

– Que fizeste agora? Desta vez não te perdoo!

– Que queres dizer?

– Não andes com rodeios, diz-me só de quanto precisas.

– Estarei a sonhar?

– Se não me dizes para quem era este sms, juro que te mato!

E a melhor de todas:
– Quem és?


No Bar...há limites para tudo...

Um homem sem os dois braços chegou ao balcão do bar e pediu:
- Sirva-me uma cerveja.
- Perfeitamente - disse o barman, e encheu um copo de cerveja ao freguês.

- Queira desculpar - falou o aleijadinho -, mas não tenho os dois braços. Quer ter a gentileza de segurar o copo para que eu possa beber?
- Com todo o prazer - e o barman segurou o copo na posição adequada.

- Agora, será que pode tirar o lenço do bolso das minhas calças e limpar a espuma dos meus lábios?

Novamente, o barman atendeu-o.

- E do bolso esquerdo das calças pode pegar no dinheiro para pagar a cerveja?

O barman tirou o dinheiro, registou na caixa e colocou o troco no bolso das calças do aleijadinho, que logo desabafou:

- É duro ser assim aleijado. Fico sempre encabulado por ter de pedir às pessoas para fazerem as coisas para mim. Por falar nisso, onde fica a casa de banho?

- Não temos - apressou-se a dizer o barman.


Não sei que horas são...

Um tipo sai bêbado de uma discoteca às 7 da manhã e mete-se no carro. No entanto, tem um momento de lucidez e decide dormir no carro antes de se meter ao caminho. Estaciona então ao lado de um jardim e adormece.

Minutos depois um tipo em fato de treino que anda a correr bate à janela do carro, acorda-o e pergunta-lhe que horas são.
- Sete e cinco - resmunga ele.

Cinco minutos mais tarde outro desportista volta a bater-lhe à janela do carro para perguntar as horas.
- Sete e dez - responde ele.

Nessa altura saca de um papel e de uma caneta e escreve em letras grandes:
"Não sei que horas são!"», e pendura o letreiro na janela do carro.

Cinco minutos mais tarde um tipo que vai a passar bate-lhe à janela do carro e diz-lhe:
- São sete e um quarto!

 
O cão inteligente


Um indivíduo vai com o seu cão ao cinema. O sujeito da cadeira ao lado, começa a ficar espantado ao ver que o cão ria e batia palmas, como se estivesse realmente a compreender o filme. Diz o sujeito para o dono do cão:

- Estou admirado, o seu cão percebe o filme todo.

- Ai está admirado?! Mais admirado estou eu!

- Então... mas porquê?

- É que ele... leu o livro e não gostou!...


A MOTO E A MULHER


O inventor da moto Harley-Davidson, Arthur Davidson, morreu e foi para o céu. Ao chegar lá, São Pedro disse-lhe:
- Meu filho, foste um bom homem e as tuas motos mudaram o mundo, podes fazer um pedido:
Arthur pensou um pouco e disse:
- Quero encontrar-me com Deus!

São Pedro levou Artur até a sala do trono e apresentou-o a Deus.
Deus reconheceu Arthur e disse-lhe:
- Então inventaste a Harley-Davidson? Arthur respondeu:
- É verdade, fui eu ..

Deus comentou:
- Não foi uma boa invenção... É um veículo instável, barulhento e poluidor. Manutenção complicada, alto consumo...

Arthur ficou aborrecido com o comentário e retrucou:
- Desculpe-me, mas não foi o senhor que inventou a mulher?
- Sim, fui eu! - Responde Deus.

- Bem, aqui entre nós, de profissional para profissional, você também não foi nada feliz na sua invenção! Há muita inconsistência na suspensão dianteira; É muito barulhenta e tagarela em altas velocidades; Na maioria dos casos, a suspensão traseira é muito macia e vibra demais; A área de lazer está localizada perto demais da área de reciclagem; Os custos de manutenção são exorbitantes.

Deus reflectiu e respondeu:

- Sim, é verdade que o meu invento tem defeitos, mas de acordo com os dados que levantei, há muito mais homens montados na minha invenção do que na tua...


Logo no começo

Depois de uns dias, o Senhor chamou Adão e disse:
— É tempo de você e Eva começarem o processo de povoar a Terra. Portanto, quero que você a beije.
— Sim, Senhor — concorda Adão — Mas o que é um beijo?

Então o Senhor deu a Adão uma breve descrição do que é um beijo. E Adão tomou a mão de Eva e a levou atrás de um arbusto.
Alguns minutos depois, Adão voltou e disse:
— Obrigado, Senhor. É muito bom!

E o Senhor respondeu:
— Eu sei, Adão. Eu imaginei que você iria gostar. Agora eu quero que você faça umas carícias em Eva.
— Mas o que é uma carícia, Senhor? — perguntou Adão.

O Senhor deu a Adão uma breve descrição do que é uma carícia e Adão voltou atrás do arbusto com Eva. Alguns minutos depois, Adão voltou com um sorriso nos lábios e disse:
— Senhor, isso é muito melhor que beijo.

— Você está indo muito bem, Adão — respondeu o Senhor — Agora eu quero que você faça amor com Eva.
— O que é fazer amor, Senhor?

Então o Senhor deu a Adão uma breve descrição do que é fazer amor e Adão levou de novo Eva para atrás do arbusto. Só que desta vez ele voltou depois de poucos segundos.

— Senhor, o que é dor de cabeça?


Milagre!

Pela primeira vez na minha vida, na semana passada fui a uma reunião da tão criticada Igreja Universal e partilhei as práticas e orações dos presentes.

De repente, o Pastor se aproximou do lugar onde estava. Olhou-me fixamente e apontou-me o dedo.
Piedosamente, ajoelhei-me e ele colocou as suas mãos na minha cabeça e clamou em voz alta: -Você vai caminhar.

Eu respondi-lhe baixo: -Mas não tenho nenhum problema de locomoção.

Ele ignorou minha resposta e quase gritando, voltou a exclamar: -Irmão, você vai caminhar!

Toda a Assembleia, com as mãos ao alto, começou a chorar: -Você vai caminhar!

Mais uma vez, tentei explicar que não tinha nenhum problema com meus membros inferiores, mas foi em vão.

Cada vez mais forte e com mais energia, ele repetiu: -Você vai caminhar!!! enquanto a Assembleia em transe gritava ainda mais forte: -Irmão, você vai caminhar!!!!

Optei por me calar e não dizer mais nada.

Quando o acto acabou deixei a Assembleia e, acredite ou não, o maldito pastor tinha razão:

Tinham-me fanado o carro!!!




A importância na observação - Por Daniel Teixeira


A importância na observação

Por Daniel Teixeira

O termo voyeur é uma expressão normalmente vista numa perspectiva crítica ou depreciativa e é utilizado para definir, ou simplesmente episodicamente referir quem gosta de ver ou quem dá alguma primazia ou valor ao acto de observar outras pessoas ou coisas, entendendo-se aqui que essa observação do outro ou da coisa deverá ter implícita pelo menos alguma ligação com o observado.

Eu explico melhor esta última parte que pode aparecer como sujeita a confusão: em princípio não se observa apenas para observar; um astrónomo amador observa as estrelas, por exemplo, porque pretende compor a sua ideia sobre aquilo que é uma estrela, a sua forma, o seu brilho, a constelação onde se encontra, etc. Isto quer dizer que o observador deve ter um fim em vista e mesmo quando o faz por mera curiosidade diletante tal acto acaba por fazer suscitar em si um desejo por uma ou mais particularidades do ou dos objectos observados.

Claro que aqui interessa referir que deve haver alguma constância no acto de observar, até porque através da ocasionalidade será impossível detectar-se uma qualquer simpatia ou empatia para com o outro ou com a coisa observada. Jean Paul Sartre, nalguns desenvolvimentos que faz para definição do grupo pode dar-nos aqui uma pista comparativa até porque mais à frente voltaremos a falar dele.

Resumidamente, um conjunto de pessoas que apanha um autocarro no mesmo local com o mesmo destino não constitui um grupo, mas um conjunto de pessoas que participa numa deslocação programada, de autocarro, por exemplo, com partida e chegada ao mesmo local, embora se disperse de novo depois, antes durante e logo depois do decorrer da viagem é um grupo. Ora uma observação para o ser tem de equivaler a esta ideia acima referida: ser constante ou continuada.

As conotações dadas ao termo «observar» parecem esquecer o platonismo, ou o vulgarmente chamado amor platónico presente no diálogo Simpósio (Banquete). Embora a temática desenvolvida neste diálogo possa ser entendida como menos própria, trata este velho filósofo de destrinçar entre amor e (um pouco forçado) amor sem amor, sem apego, sem afeição.

Platão parece simpatizar com a segunda fórmula, até porque esta não distrai o observador dos verdadeiros interesses do saber e do conhecimento aos quais dá a primazia, que são do domínio do cérebro (pensamento) e não do domínio do corpo ou da paixão amputadora da racionalidade, como o primeiro. No seu entender é claro.

Assim, e voltando a Sartre acima, teremos que de forma grosseira Platão tenderia para a ocasionalidade e não para o grupo (ou agrupamento) definido acima. Assim, platonicamente, sem querermos ser muito rigorosos, observar (de forma correta, para ele) seria não se envolver com o observado. Refiro que se trata de analogias lógicas e não propriamente de análises consubstanciadas caso a caso.

Ora, observar, todos gostamos, penso eu. Aliás penso até que é uma das actividades à qual nos dedicamos por uma maior fracção do nosso tempo de vida. Na verdade, com excepção dos invisuais, somos dotados de visão e seria pouco compreensível que não exercêssemos essa actividade. O mundo à nossa volta está pleno de movimento, de seres e não-seres, de cores, de luz e sombra, breve, acho que é impossível escapar ao acto de observar.

Observar é um fenómeno que tem sido referido ao longo da literatura e mesmo na filosofia: Jean Paul Sartre por exemplo utilizou o termo para dizer que não se pode ser espectador e actor ao mesmo tempo, questão que eu acho discutível mas que não vou aqui discutir, porque na realidade o actor observa ainda que o faça de acordo com o interesse que tem na pessoa ou nos objectos com os quais interage.

Na verdade, Sartre distingue quase o mesmo que Platão acima: o envolvimento torna-nos actores e não podemos observar, pelo menos de forma «limpa / imparcial» aquilo em que estamos envolvidos. Vamos passar à frente a questão da subjectividade empregue ou não no envolvimento para lembrar o ditado de que não se pode ser juiz / julgar em causa própria.

Por sua vez e num outro paradigma de pensamento, um escritor americano (salvo erro Erskine Caldwell) relata num dos seus romances a luta entre dois indivíduos pela «posse» de um buraco na parede de um armazém naqueles ambientes um pouco surrealistas do campesinato americano dos anos 20 ou 30, com homens de calças de presilhas à jardineiro e ausência de banho anual.

Pois o dito buraco dava para a apreciação não de qualquer coisa extremamente escandalosa, não para a visão intromissora em algo de íntimo e pessoal, para algo em movimento que despertasse um desejo de seguir a sua continuidade, mas sim para uma extensa pradaria, vazia e sem qualquer significado se fosse vista da porta do dito armazém.

O importante era, pois, o buraco, a visão que era proporcionada pelo filtro do buraco, o facto de haver algo a separar o espectador da paisagem, a sensação diferente que era ter de mexer o corpo, e o olho, para olhar para a esquerda ou para a direita, enfim...se seguíssemos o raciocínio tratava-se de ver através daquele buraco na parede do armazém ... nada diferente, em sentido rigoroso. Mas o que interessou ao escritor foi descrever que é possível ver diferente vendo a mesma coisa de duas maneiras: através da porta e através do buraco na parede.

Quando se trata de obras, sobretudo as públicas, é frequente ver-se nos taipais pequenos furos, apenas suficientemente largos para que uma ou mais pessoas possam espreitar e não sei se por piada se por filosofia empresarial aparecem por vezes os dizeres, acompanhados de seta a feltro :«Espreite por aqui.»

Ora, estes elementos todos e mais alguns que fui recolhendo ao longo dos anos, de forma desinteressada e sem objectivo desde logo definido, levam-me hoje a fazer a reflexão que se impõe sobre a «magia» do buraco.
 
Há de facto algo de solene espreitar pelo buraco mesmo que aquilo que se vê seja precisamente aquilo que se pode ver de forma «livre» e aberta.
 
O buraco soleniza as coisas, faz aquela separação que Nietzsche chama de separação entre actor e público, nas suas Origens da Tragédia. Aquela sensação de não estar por dentro soleniza aquilo que está por fora e a prova está nas referências literárias que fiz acima.

Mas, mais que isso, o pessoal que trabalha numa obra, e isto é importante, mesmo muito importante, não é objecto de crítica se por acaso estiver encostado à bananeira a deixar passar o tempo até ao apito de saída. Se perguntarmos a um «espreitante» usual ou não o que acha disso ele dirá que não tem nada com isso, está ali para espreitar e nada mais, o andamento da obra não lhe interessa: basta que do outro lado haja gente em movimento, máquinas, paredes e valas abertas.

Ora, e como vimos isso acontece a quem ou à coisa que está para além do buraco. Acontece com aquele que tem uma separação nítida e impeditiva de marchar à sua frente, aquele que não se pode fundir com o observado, aquele que não faz parte do mesmo «ambiente» funcional. Opta então essa pessoa pela ausência da crítica.

Não sendo esta uma questão transcendente é quanto a mim no entanto significativa sobretudo porque se aplica em diversos domínios da nossa forma de pensar e ver as coisas embora nem sempre lhe demos a devida importância, nomeadamente e como exemplo quando frequentamos redes sociais.