sábado, 25 de abril de 2015

GRANDES FEITOS-UMA ODISSEIA


GRANDES FEITOS - UMA ODISSEIA


Impelidos pelo espírito aventureiro que os caracteriza, os pescadores olhanenses lançam-se no comércio marítimo pelos portos do Norte África e do Mediterrâneo, a comerciar os produtos da sua safra, com relevância para o peixe e seus derivados. 

Esse comércio trouxe a fortuna a várias famílias que fizeram engrandecer física e historicamente a sua querida Olhão. Poucas memórias encontramos desse período de aventura, em que o caíque de vela latina foi figura principal, juntamente com o pescador pertinaz da Terra, protagonistas de feitos, que, se passados a obra escrita, configuraria uma GRANDE ODISSEIA ou uma GRANDE EPOPEIA MARÍTIMA. 


A colonização olhanense no Sul de Angola abrangendo o séc. XIX e princípios do séc. XX foi outra glória histórica deste povo audaz. Infelizmente desconhecemos qualquerdiário de viagem que comprove sequer uma dessas aventuras cheias de peripécias e perigos. Quais os mares mais rebeldes que poderiam pôr à prova a intrepidez, a audácia desses intérpretes de aventuras, intemeratos e audaciosos? Quantos sonhos e vidas soçobraram nos mares da Serra Leoa onde as águas e os ventos estão em constante revolta? Como puderam contornar as rochas que quase despontam à superfície do mar no arquipélago de Bijagós, Guiné? Como contornaram essa armadilha sob as águas que só uma sonda poderia avaliar? Quantos medos no alto das vagas gigantescas de tempestades medonhas ou nos abismos côncavos dessas vagas? Quanta fome, quanta sede suportaram nossos avós nessas viagens intermináveis? Esse desconhecimento remete-nos irremediavelmente para a história incompleta e esquecida na sua vertente essencial: a Humana.


Cento e quinze anos após o início desses feitos épicos, a história quis devolver à Mãe Pátria Portuguesa os descendentes daqueles valentes pescadores de XIX e XX e todos aqueles que apostaram o seu futuro na emigração e naquele destino no Sul de Angola tomando, alguns, após chegada, outros destinos no território. A guerra civil chegou no decurso do ano de 1975. 

Nada mais havia a fazer senão a saída intempestiva ou organizada quanto possível de uma terra onde a ação do homem europeu e africano, lado a lado, tornou próspera e progressiva. As traineiras procuraram sair, no maior segredo, dos portos de pesca para a viagem da salvação de pessoas e bens. 

Uma nova Odisseia ía-se iniciar, a "ODISSEIA do REGRESSO", não em caíques do séc XIX à vela, que fora passado, mas em prósperas traineiras do séc. XX, na conquista do futuro, odisseia documentada "vaga a vaga", à escala de um diário, por quem a viveu. 

Baldomiro Soares natural da Ilha da Culatra, frente a Olhão, e emigrado em Luanda, depois de ter vivido alguns anos no Bairro da Torre do Tombo em Moçâmedes, hoje Namibe, era bancário e viveu-a, com o seu pai, mestre Sabino, homem de muito saber acumulado ao longo de 50 anos na pesca e com muita navegação costeira, mas sem o conhecimento de navegação de longo curso, seu irmão Sabino, delegado de propaganda médica e sua cunhada Rosa Maria, bancária. O Bala e o Teco os cães da família os acompanhavam. 

Pareciam sentir as angústias dos seus donos nos momentos em que o perigo de soçobrar superava a esperança de sobreviver. Um deles era da raça "Baía dos Tigres" adaptado à convivência humana e por isso manso. (A raça "Baía dos Tigres" é uma raça de cães existente naquele local do sul de Angola em estado selvagem e que se julga terem ido ali parar em consequência de um naufrágio).

Para quem acredita em milagres, foi um milagre de sobrevivência esta aventura iniciada em Luanda até Olhão. Rodeada de vagas gigantescas e a navegar só, sem qualquer apoio à vista, a pequena traineira Sabino I de 14,40 metros, construída em Luanda em 1971, ía resistindo àquele mar sempre furioso, qual Adamastor a assoprar ventos e agitar vagas, apostado em sepultar para sempre aquele minúsculo barco e seus quatro tripulantes nas entranhas do seu mar. Instrumento de bordo para localizar no mapa o "ponto" do mar em que se encontravam não existia. 

Um mapa, uma sonda e uma bússola eram os instrumentos disponíveis mais o saber do velho lobo do mar, mestre Sabino. Este livro é um compacto de 269 páginas, esmiuçado dia a dia no fervor da contenda com o Mar. Cabe-me aqui alertar para esta obra que transcende qualquer ficção por ser real, verdadeira e talvez única naquele cenário atlântico. "ODISSEIA MARÍTIMA-Luanda-Olhão-35 Dias no Regresso em Traineira".


Em Luanda e nos preparativos para a viagem, Baldomiro Soares e seus companheiros jamais pensaram que precisariam de todas as suas forças, toda a fé num Deus todo poderoso e omnisciente para superarem uma natureza hostil e superior. Segundo os cálculos, com o combustível reunido, poderiam atingir as Canárias contando com a solidariedade dos navios que encontrassem ou no acolhimento de um porto de mar amigo. 

Escreve Baldomiro: «Eram duas e meia da manhã do dia 24 de Agosto de 1975, com luar aberto, nada propício a uma fuga, junto ao anúncio da Cuca, na Ilha de Luanda, com o motor a meia força que iniciámos a viagem. A embarcação levava as redes de pesca à vista e a chata a reboque para dar a entender que íamos para a pesca, caso fôssemos detetados por autoridades dos partidos políticos, já que andavam em cima dos pescadores, proibindo a saída de barcos para Portugal». 

«Os dois primeiros dias de navegação foram calmos e pacíficos, o que nos deu a oportunidade de nos organizarmos. Começámos por determinar o tempo de leme que era distribuído entre mim e meu irmão, fazíamos leme de quatro em quatro horas, ficando o nosso pai, com o cuidado de verificar o motor de hora a hora e fazer leme e cozinhar sempre que possível. 

Nas primeiras horas de leme deu para recordar os últimos dias em Luanda, cidade que se encontrava sob o recolher obrigatório devido ao desentendimento entre os partidos políticos que, fortemente armados, se guerreavam constantemente, provocando o caos e a desordem, jamais vistos em território ainda dito nacional». 

A situação em Luanda era caótica com prisões arbitrárias sob a indiferença dos militares portugueses que deveriam reagir e repor a ordem. O fim trágico de uns e o desaparecimento de outros (portugueses e angolanos) determinou a decisão de fuga não só em Luanda mas em todo o território de Angola, de norte a sul. 


Aquelas horas ao leme com mar manso muitos pensamentos fluíram. Aquela traineira fora conseguida com a venda de bens em Portugal. Tudo fariam para chegarem a Olhão e reatarem uma nova vida. Estavam imbuídos da coragem necessária, da vontade indómita dos homens do mar que tanto labutaram no Mar Mediterrâneo, no Mar de Larache em Marrocos, na costa de África (Angola, Gabão, S. Tomé, Congo Francês). 

Mestre Sabino conhecera algumas dessas viagens. Fizera ao Mar de Larache antes de ir para África e ao Gabão quando estava em Luanda. Foi nessas viagens ao Gabão que fizera o cálculo do combustível para chegar a Olhão, mas não foi possível reunir tal quantidade, ficando em falta 3000 litros, para além da insuficiência de óleo e de alimentos na quantidade desejável, que em Luanda já eram escassos. 

Pensavam na sorte que acompanha os audazes e na fé dos navegadores. Baldomiro fizera uma promessa à Senhora dos Navegantes: quando chegasse a Olhão compraria uma imagem para colocar na capela da Ilha da Culatra, promessa que foi cumprida integralmente depois de vender a chata. Levavam 300 litros de água potável para beber e cozinhar.

 TERCEIRO DIA-O INÍCIO DAS TEMPESTADES


Escreve Baldomiro: «No terceiro dia fomos surpreendidos por forte tempestade que nos desviou da rota arrastando a embarcação para dentro do Golfo da Guiné, o Golfão da Guiné, como era conhecido pelos antigos navegadores. Segundo os nossos cálculos, atravessámos a linha do Equador que passa a norte do Gabão. 

 

O mar, verdadeiramente encrespado, com chuva e vento soprando fortemente de sudoeste, estragou parte da comida fresca que trazíamos dentro de caixotes em cima do convés, ficando, apenas alguns produtos enlatados. Verduras e frutas foram arrastadas pelas águas da chuva e das vagas que entravam pela proa do barco. 

Aproveitámos um queijo açoreano que levámos para dentro da cabine, para secar naturalmente... Por volta das dezasseis horas o vento amainou e o pai verificou que havia muita água dentro da cabine do motor, o que não era normal, e providenciou que a bomba elétrica funcionasse em pleno, voltando tudo à normalidade, admitindo que se tratava de água da chuva que tinha entrado pela porta da cabine».

Assi dizendo, os ventos, que lutavam
Como touros indómitos, bramando,
Mais e mais a tormenta acrescentavam,
Pela miúda enxárcia assoviando.
Relampados medonhos não cessavam,
Feros trovões, que vem representando
Cair o Céu dos eixos sobre a Terra,
Consigo os elementos terem guerra.

(Lusíadas, canto VI-84)

Com o mar calmo e já no quinto dia de navegação avistaram os contornos de terra e cruzaram-se com um arrastão japonês. O comandante do arrastão era um indivíduo simpático, falava inglês e deu a indicação da posição no mapa. Cedeu-lhes sessenta litros de óleo. Aceitaram um balde cheio de peixe fresco que durou dois dias. Cometeram um erro gravíssimo, habituados a não "pedinchar", não pediram gasóleo. Essa falta fez-se sentir dias depois levando a que o barco ficasse no meio do Oceano parado, sem combustível, e longe da costa. Sem rádio não tinham como pedir ajuda nessa emergência.

Foi no décimo-oitavo dia de navegação que o motor parou sem gasóleo, diz-nos Baldomiro. Era uma quarta-feira do dia 10 de Setembro daquele ano fatídico de 1975. A sorte tinha sido madrasta no antigo porto do Congo Francês, hoje Mauritânia, Port-Etienne, hoje Nouadhibou e não puderam arranjar o almejado gasóleo que os fizesse chegar a um porto amigo no Sahára Espanhol. 

Escreve Baldomiro: «Antes de saltar para terra afim de prender as cordas aos cabeços de amarração que ali se encontravam para esse efeito, fomos logo visitados por dois homens fardados, e um indivíduo que parecia ser polícia se dirigiu a nós, falando em francês. Ficámos sem pinga de sangue. Tínhamo-nos enganado. Não estávamos em território espanhol. Aquilo que mais temíamos aconteceu. 

Como não entendíamos o seu falar o polícia foi chamar um espanhol para servir de intérprete. Depois de nos identificarem fomos imediatamente presos e os documentos do barco apreendidos. Presos pelo motivo de não termos hasteado a bandeira do país e por não haver relações diplomáticas com Portugal». «Quando entramos num porto estrangeiro devemos hastear a bandeira desse país».

 
 «Prometemos comprar uma bandeira, no dia seguinte, se nos devolvessem o dinheiro, o que não veio a acontecer». «Depois de muitas explicações, alegando que estávamos desorientados naquela entrada, levaram-nos presos para a Capitania do porto. Como já passava das cinco horas da tarde, por sorte nossa, já estava fechado». 

«O funcionário de serviço devolveu-nos os documentos e mandou-nos para o barco, debaixo de prisão, com um polícia de serviço, exigindo a nossa presença no dia seguinte às 8 horas da manhã». «Acompanhados do cidadão espanhol e a nosso pedido, levou-nos a um escrítório de uma companhia italiana de assistência às pescas, que se encontrava localizada no cais, e à qual solicitámos ajuda com gasóleo e comida até chegarmos a Portugal, que depois mandaríamos o dinheiro...

Fomos bem recebidos mas a resposta foi negativa. Pediram-nos 103 contos na nossa moeda por 6000 litros de gasóleo. O pouco dinheiro que tínhamos ficou na posse do guarda marítimo. Voltámos para o barco desanimados». O espanhol era comandante de um barco espanhol de pesca com contrato para pescar na Mauritânea e não poude dispensar gasóleo porque este era fornecido pelo estado, o que seria preso caso fosse descoberto e denunciado. 

O cidadão espanhol aconselhou sairem de madrugada do porto porque ali não havia maneira de obterem ajuda e porque poderiam ficar retidos meses, e isso se o assunto se resolvesse, pois os mauritanos costumavam ficar com os barcos apreendidos. «O susto foi tão grande que começámos a planear a fuga». 

«O espanhol José, assim como alguns tripulantes espanhóis daquele barco, oferecem-nos, às escondidas dos nativos/tripulantes do seu barco, alguma comida para aquela noite». «Mais tarde, já de madrugada, aparece-nos na nossa traineira com um saco cheio de pão e comida que bem nos valeu para as surpresas que ainda iríamos encontrar, dando preciosas indicações para sair de noite daquele porto de pesca. 

Os espanhóis diziam que tínhamos tido muita sorte em chegar àquele porto, devido aos baixios perigosos no meio da baía o que dificultava muito quem por ali passasse e esta era somente para pessoas muito experientes naquela área marítima». «Seja o que Deus quiser». «Encontrar um bom samaritano no meio do mar que nos desse algum gasóleo para chegar pelo menos a Vila Cisneiros!»

«Por volta das duas horas da manhã, o polícia de vigia ao nosso barco encostou-se a alguns caixotes e deixou-se dormir...Como estávamos alerta para este momento, libertámos a amarração e a embarcação foi arrastada pela correnteza e a leve briza de vento, afastou-nos do cais, durante longos e ansiosos minutos. Quando nos encontrávamos já bem afastados, verificámos que bem perto de nós um arrastão tinha saído do porto e dirigia-se ao alto mar para a faina de pesca. Não perdemos tempo em segui-lo. 

O pai pôs o motor a trabalhar e, imediatamente à força toda, fomos atrás daquele barco, até avistarmos ao longe boias de sinalização. Por razões que desconhecemos o arrastão voltou atrás, regressando ao cais, mas nós seguimos em frente até passarmos bem pertinho das primeiras boias de sinalização... Ainda vimos o polícia acordar de sobressalto e começar a correr até o perdermos de vista...».

«São sete horas da manhã, os primeiros raios de sol surgem no horizonte e as nuvens teimosamente não se querem desvanecer e, já bem afastados de terra, encontrámo-nos no mar alto, direcionando a bússola com rumo ao norte». «Navegámos mais um dia quando encontrámos um enorme barco de pesca chinês "Five Oceans 125". Aproximámo-nos e, por gestos pedimos gasóleo. Tínhamos combustível apenas para mais algumas horas! 

Aquele que nos pareceu ser o comandante veio ao convés com gestos pouco amigáveis para nos afastarmos. Ainda conseguimos navegar ao lado do barco cerca de uma hora, pedindo insistentemente ajuda. Um dos marinheiros ou comandante, ameaçando-nos, pareceu-nos exibir uma arma, pelo que desistimos e acabámos por seguir a nossa viagem, tristes e desanimados».

«Aproximámo-nos mais de terra, que nos pareceu ser um lugar deserto, pois não vimos sinal de vida, quando por volta das oito horas o barco parou por falta de gasóleo.»...«Fundeámos a cerca de dez braças de profundidade e calculámos estar distanciados três ou quatro milhas de terra, esperando que algum bom samaritano nos veja»...«Verificámos que estávamos fundeados em cima de rochedos e que os cabos de amarração não iriam aguentar muito tempo». 

A sonda tinha deixado de funcionar e não existia maneira de saber a altura de mar que poderia pôr em causa a segurança do barco na maré vazia. A solução foi encontrada por mestre Sabino e pelo processo antigo: com uma corda e uma chumbada. O resultado foi tranquilizador: estavam a cinco braças das rochas. Escreve Baldomiro: «Ao longe um navio passa por nós e lançamos um pedido de socorro com sinal luminoso (o único que tínhamos a bordo) mas não deu resultado. 

Nas noites seguintes, mal o sol se punha, começávamos por acender archotes, com roupa embebida em gasóleo que se encontrava no cavername da casa do motor, para chamar a atenção dos barcos que navegavam ao largo da nossa posição. Todo esse esforço foi em vão e acabámos por queimar toda a roupa que tínhamos, ficando apenas com a roupa do corpo. Mais uma noite à nossa frente com o frio incomodativo do deserto do Sahara, esperando por nós. A alimentação estava já muito reduzida e quase no fim, e a água racionada». 

À DERIVA ATÉ AO SALVAMENTO

A manhã do vigésimo terceiro dia (15 de Setembro-2ª. feira) o dia amanheceu límpido, mas o vento soprava fortemente. Baldomiro pressentia que algo de transcendente ia acontecer. Mestre Sabino deu mais folga à amarração para evitar o roçar nos rochedos. Se os cabos rebentassem andariam à deriva e seriam arrastados sem possibilidade de comandar o barco. 

Naquele momento estavam somente fundeados com uma âncora pois as outras os cabos tinham rebentado por roçarem nas rochas. «Tomámos a decisão de apetrechar a chata com o motor de popa, um pequeno mastro com uma vela e dois remos. A intenção era   ir ao encontro dos barcos que diariamente avistava e pedir auxílio. Vamos aguardar pelas três horas da tarde e ver se os barcos de pesca aparecem, como habitualmente». ... «Não sei se terei forças para remar na chata em caso de necessidade». 

 

Uma extrema fraqueza tinha-se apoderado daqueles corpos que mal se alimentavam, e de água só tinham meio galão. «Quinze horas e lá estão eles, os dois barcos navegando para terra. Na mesma direção que diariamente temos registado. Não perdemos mais tempo. Estão a mais de cinco milhas de distância. Embarcámos na chata sob ondulação muito forte e com o motor de borda a funcionar, soltámos a amarra que prendia ao barco. 

O motor apenas funcionou alguns minutos, acabando por se avariar. Estamos a alguns metros do barco e tentamos apanhá-lo novamente, mas não conseguimos lá chegar. A corrente é muito forte e a chata afasta-se rapidamente da embarcação». Um dos remos partiu-se tal o esforço despendido. 

Mestre Sabino que tinha ficado na traineira com Rosa Maria, tentou lançar uma corda, em vão. Fez um gesto para se atirar ao mar o que foi impedido por Rosa Maria. Teria sido um suicídio dado as condições do mar e a extrema fraqueza de todos. Com a chata à deriva viram desaparecer rapidamente a Sabino I de vista. 

«Devido à grande ondulação, tão pouco víamos os barcos de pesca que tanto ansiosamente procurámos descortinar no horizonte e que possivelmente estariam mais a sul. O meu irmão perdeu as forças e não mais conseguiu levantar-se. Eu ia manobrando a chata à vela procurando não atravessar nas ondas, evitando que se voltasse. Quando caíamos na cova da onda, víamos ao lado, acima da chata, na crista da onda, vários tubarões, que gulosamente nos rodeavam». 

«A chata começou a meter água e num esforço inacreditável consegui esgotar a água e manobrar a vela ao mesmo tempo. Não sei como Deus me deu tanta força e coragem». «Tristes e desanimados e com o sol prestes a nos deixar qual monstro sagrado, repentinamente, vimos à nossa frente, o primeiro barco de pesca que já tínhamos identificado enquanto estávamos a bordo do nosso barco. 

Passou bem perto de nós. A alegria que sentimos depressa se desvaneceu. Navegando lentamente cortando a forte ondulação que se fazia sentir, foi passando por nós sem parar. Ficámos desesperados, acenando e gritando para que nos vissem ou ouvissem, mas não vimos marinheiros em cima do convés. 

O contra-mestre ao leme, não deu pela nossa presença. O mar encrespado e o vento forte não permitia uma visualização clara para o homem que vai ao leme. Quase que fomos abalroados....O arrastão passou e com ele a esperança do salvamento foi-se desvanecendo...».

«...Minutos depois, à nossa frente, o segundo barco de pesca quase nos afundou. O meu irmão gritava loucamente. Ninguém ouvia os nossos gritos. Os marinheiros iam todos recolhidos nos camarotes e o homem do leme não prestou atenção à chata. Certamente, como nos disse mais tarde, nunca iria imaginar encontrar aquela "casca de noz" no meio do mar tão revolto. 

O meu irmão caiu de joelhos até encostar a cabeça à amurada da chata, com o rosto sulcado de lágrimas que não procurou ocultar, sem forças de tanto gritar»...«Navegando lentamente o navio vai-se afastando cada vez mais, quando a cerca de 10 metros de distância, de repente, em cima do convés, na popa do barco, estava um marinheiro africano com os olhos esbugalhados pela surpresa, olhando para o nosso desespero. 

O homem perdeu a fala. Não compreendia o que se estava a passar. Em pleno mar alto, uma pequena chata com dois homens a bordo prestes a afundar-se!». «O marinheiro atónito reagiu aos nossos gritos angustiantes, quando, repentinamente, apercebendo-se do perigo que corríamos, correu apressadamente até à cabine do comando, dando o alarme do seu achado em cima da água...Estamos salvos...»

 


«...Em 26 de Setembro chegámos ao farol de Santa Maria».

Escreve Baldomiro: «Por incrível que pareça a nossa odisseia foi recheada de tempestades, desde o terceiro dia até poucas horas antes da chegada a Olhão, parece-nos que Deus dos Oceanos, Neptuno, mais uma vez se sentiu profanado, pelo atrevimento e coragem das gentes olhanenses».

Agora sob as nuvens os subiam
As ondas de Neptuno furibundo;
Agora a ver parece que deciam
As íntimas entranhas do Profundo.
Noto, Austro,Bóreas, Áquilo queriam
Arruinar a máquina do Mundo;
A noite negra e feia se alumia
Cos os raios em que Pólo todo ardia.                                                                                                     

(Lusíadas, canto VI-76)

                                                             
«Hoje com os pés em terra, olhando para trás e para todas as adversidades por que passámos, humildemente só temos uma palavra. Deus. Obrigado meu Deus».

 

Entre trombas de água andamos navegando
Com o irado céu a água já sugando,
E o mar, apavorando, todo enfurecido
A engolir-nos parecia decidido

E o Bala e o Teco porfiados,
Na proa cortadora vigiando,
Eram pilotos a isso elevados
No oceano perigoso navegando.

Por isso foi que Sabino, o Capitão,
Os promoveu a marinheiros,
Por ver tão clara aptidão
Animando os próprios companheiros.

(Autor: Baldomiro Soares)

Em Olhão esperava-o a sua muito dedicada esposa Cristina Estrela, filha de mestre Estrela, e seus filhos. Cristina e Baldomiro conheceram-se em S. Martinho da Baía dos Tigres onde mestre Estrela fixou residência e permaneceu durante vinte anos. Era natural de Santiago de Tavira mas foi para Olhão com oito meses. Considerava-se, por isso, um olhanense de gema.

AGRADECIMENTO E HOMENAGEM

Baldomiro Soares quis com esta obra homenagear e agradecer os seus salvadores. São bem sentidas as suas palavras:

«Esta obra é uma homenagem de eterna gratidão ao nosso salvador, o jovem marinheiro do barco de pesca espanhol "Tela I", bem como ao seu comandante e marinheiros, num dos momentos mais dramáticos da nossa viagem.

Um profundo agradecimento à Marinha de Guerra Espanhola, instalada em Vila Cisneiros, Sahara Espanhol (1975), aos seus Oficiais, Sargento mecânico e Marinheiros da corveta "Centinela W-33"

Um profundo agradecimento ao Patrão de Costa D. Tomaz Suarez Santana e sua ilustríssima esposa, pela recepção que nos dispensaram.

Ao povo de Vila Cisneiros pela calorosa recepção como jamais tive em minha vida.

Os Homens de grandeza Moral é que fazem as grandes nações.

Muito ... e muito Obrigado...»

«Dedico este livro à minha esposa, filhos e netos por todo o apoio e carinho que sempre me dedicaram e ainda ..................ao meu saudoso Pai, meu querido Herói...............»

O produto da venda desta obra é canalizado para instituições de caráter humanitário. Baldomiro Soares divide-se, hoje, pelo País que o acolheu, os Estados Unidos da América e a sua querida e eterna Olhão, Ilha da Culatra, onde nasceu, e Santa Luzia, onde moravam os seus avós.

Os olhanenses da diáspora teem uma forte ligação à sua Terra. Por mais que andem por este mundo jamais se esquecem do lugar onde nasceram, onde formaram o seu caráter aguerrido, patriota e profundamente humano. 



sexta-feira, 17 de abril de 2015

Jornal Raizonline Nº 267 de 13 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 267 de 13 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira

25 de Abril


Numa altura em que se aproxima o Dia 25 de Abril, ao qual todos devemos esta coisa tão simples que é escrever livremente, será bom lembrar que para além da liberdade de expressão muito pouco se ganhou em termos sociais, políticos e económicos com isso.

Na verdade, como é costume dizer-se nestas ocasiões, que já foram  repetidas «n» vezes ao longo da nossa história portuguesa e da humanidade em geral, estabilizadas as elites e recompostas as estruturas de autoridade, a mudança (se isso se pode chamar) é apenas uma mudança de tom no baton e organização cosmética geral.

Na verdade continuamos a ser comidos periodicamente ao longo dos séculos, servindo em altura própria como carne para canhão, tipo bucha,  e expelido o projéctil lá vamos nós atrás, por vezes rodando no ar, até que a força da gravidade (a tal recomposição da autoridade) nos faça estampar no solo, algures entre uma pedra e um caule ou mesmo o defecado de um animal qualquer que por ali tenha passado.

Chateiam-se as pessoas, é um facto, e acredito que nunca tenha sido tão lembrada a tal de liberdade de expressão como nas alturas em que as pessoas levantam a sua voz, algures no recôndito dos seus lares, nas chamadas redes sociais ou até mesmo em cafés e esplanadas. 

Que alegria «deitar cá para fora» aquilo que nos vai na alma, utilizar em tão pleno quanto possível essa mesma liberdade de expressão e regressar a penates com o estômago pleno e adormecer no sofá após o término da telenovela, do debate, do discurso. Amanhã será outro dia e a vida recomeça, sempre da mesma forma: livremente livre, alegremente sem peias. Que mais pode desejar o ser humano ?

Talvez o século seguinte que este já começa a chatear.

Daniel Teixeira




quinta-feira, 16 de abril de 2015

Maria Louca - Poema de José Geraldo Martinez


Maria Louca

Poema de José Geraldo Martinez

Por onde andaria Maria Louca?
 Nega pedinte e pinéu...
 Talvez nesta vida pouca,
 já tenha ido para o céu...

Lá, aprontaria com todo mundo!
 Espantaria os passarinhos das mãos de São Francisco...
 Como se não bastasse, nada que lhe faltasse,
 beberia o café de São Benedito!

Maria Louca, nega andarilha, da minha infância,
 era amada e não sabia!
 Com largo sorriso branco na boca,
 candura distribuia...
 Tudo que ganhava dava:
 bolachas, balas, doces...
 Era a festa da molecada!

Pra eles contava longas histórias
 e a gente até acreditava:
 - Fui amiga de Jesus! (por certo era)
 - Tirei a sua coroa na cruz (duvido)
 - Os pregos de suas mãos (duvido)
 - Vi a ressurreição! (duvido)
 - Briguei com Judas e Pilatos,
 arrumei a maior confusão! (não duvido)

Relatava fatos da época!
 O Padre sempre a escomungava...
 Quem garante que não vivera em outras vidas,
 aquilo que tudo falava?

Proibida de entrar na igreja e
 ainda assim confessava...
 Dizia que era com Deus e que ele sempre
 a escutava! (acredito)

Em baixo de uma seringueira,
 começava a rezadeira e a sua sua igreja montava!
 Naquela hora, parece que eu via
 ao seu redor muitos santos...

Jesus com ela sorria e no colo de Maria,
 sobrepunha o seu manto!
 Maria?
 Eu disse, Maria?
 Quem garante que não era?
 Mãe de Jesus? (dúvida)
 Nega pinéu ... (é fato)
 Um minuto para pensar...
 Maria estaria no céu? (Não duvido)
 Ela tinha tempo para amar...


«Nenhum tempo há de ser perdido se for gasto
 com amor»


( Martinez )



BRINCANDO COM PAPAI - Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos (ACAS)


BRINCANDO COM PAPAI

Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos (ACAS)



Se um dia papai voltasse, eu tentaria viver com ele tudo aquilo que sempre quis e nunca aconteceu. Ah, se eu pudesse voltar o tempo! Papai iria brincar comigo. Não chegaria cansado, nem estressado, nem nervoso, nem dopado, nem triste. A luta, para seus filhos terem alguma coisa no futuro, não o deixou viver o presente.

Hoje ele é passado. Papai morreu quando eu tinha dezoito anos de idade; ele tinha à época, pouco mais de cinquenta. Ele nunca participou de minha adolescência; menos ainda, por Deus o ter levado tão cedo, da minha chegada à idade adulta.

Ah, se papai me abraçasse, ao menos uma única vez; eu diria a ele que o amava. Quem sabe assim ele e eu perdêssemos nossa timidez?

Se papai me abraçasse, eu lhe daria um presente: uma máquina do tempo!
 Ai então, eu ligaria meu «transformador de gente» e o faria ser menino de novo. Eu próprio entraria na máquina e nós dois, meninos; finalmente brincaríamos como só as crianças sabem brincar.

Cansados, eu o olharia embevecido, enquanto nova transformação ocorreria; eu e ele, aos poucos íamos ficando velhos. Fecharíamos nossos olhos e nos elevaríamos acima das casas, das ruas, das luzes, das cidades, do país e do mundo. Quem sabe finalmente eu veria a Europa, que tanta vontade tenho de conhecer e não pude; nem poderei.

Se um dia papai voltasse e eu pudesse conviver com ele tudo aquilo que quis e que nunca aconteceu, eu o acompanharia até a presença do Pai Eterno.

Reclamaria Dele, a falta de tempo que papai teve e do fato dele não me ver crescer. Ah, se eu pudesse voltar o tempo!

Se eu pudesse voltar o tempo, papai iria brincar comigo até o fim dos tempos. Eu, morto que estou, finalmente brincaria com papai.

Se um dia, você leitor, ouvir cantigas de roda, catiras batidas na mão e nos pés, ouvir sabiás cantando numa praça mal cuidada da cidade grande, ou ver um caipira lavrando a terra, saudado pela natureza, saiba leitor, será eu e meu pai, nos divertindo na eternidade; visto que na vida pouco nos divertimos.

Vocês ainda nos virão nos sorrisos ocultos dos personagens das estátuas que contam a história da terra bandeirante, em cada praça onde quer elas estejam.

Vocês nos ouvirão nos gorjeios dos canários da terra, dos coleirinhas, dos curiós, dos pintassilgos, no farfalhar das folhas dos jequitibás, nas flores dos ipês que os tornam sagrados, nas algazarras das crianças, nos curumins e cunhãs do Mato Grosso, que apreciaram um texto desse velho escrevinhador que, se não deixou filhos, foi abençoado por Deus com o dom de ver e ouvir estrelas, apreciar a natureza e entendê-la e a amar sua querida Dirce, despudoradamente.

Foi uma pena, meu pai, que não houvéssemos brincado mais com a vida, de não ter ouvido mais música caipira, de ter sorrido mais, como os curupiras e sacis que me acordaram hoje, só para que eu pudesse escrever este texto.

Pai, até breve! Não se perca de mim; não me desapareça.

ACAS



João Vaz já tem casaco - Conto / Crónica de João Furtado


João Vaz já tem casaco

Conto / Crónica de João Furtado


Os últimos anos não foram dos piores, mas também não poder-se-iam afirmar que eram cor de rosas. Dava para comer e tinha alguma palha que servia para dar aos animais. Já tinham havido muitos outros anos piores. Os melhores anos serviam para que se pudessem casar, baptizar e crismar os filhos. Quem os pudessem fazer. Os outros contentavam com a esperança de que o próximo ano seria melhor e poderiam realizar os seus mais íntimos sonhos.

Até para morrer o felizardo era aquele que morresse pelo menos num ano igual ao que era aquele. Tinha a esperança de saber que a sua morte seria chorada e que as inesperadas visitas teriam o mínimo para comer durante as cerimónias fúnebres. Se bem que uma certeza levava. Todos iriam chorar as suas mortes. As mulheres os seus maridos. As filhas as suas mães. As irmãs os seus irmãos. As mães os seus filhos. As comadres os seus compadres. As amantes e rivais iriam aproveitar para se exporem as suas desavenças acumuladas.

Os parentes e familiares também iria aproveitar para se posicionarem e se darem a conhecer todas as pequenas mágoas do dia a dia. Mas o funeral seria digno dos anais da história, embora ele, a figura principal, pouco se destacaria.

A casa era a peça fundamental. Ninguém poderia sair das barras da saia da mãe, sem ter o seu funquinho (1) . Ainda que o mesmo funquinho servisse para cobrir a cabeça e deixar a chuva e vento o corpo. Bem, a chuva… era um bem quase esquecido. Embora os últimos anos não se pudesse afirmar a total ausência dela, mas também não se podia dizer que a bonança tinha enfim visitado as Ilhas. Todos tinham seu funquinho sim, «quem casa quer casa» não era apenas um adágio popular na Ilha, era uma realidade.

Não poder-se-ia afirmar era que as casas eram efectivamente casas. A maior parte delas de casas só tinham nome, mas enfim eram casa. Algumas pedras sobrepostas e cobertas de palhas. A maioria, por dentro, se tanto a sala era calcetada.

Mas para casar. Casar, mesmo casar, com padre e tudo de direito, eram muito poucos. Casar como o João Vaz pretendia oferecer a Isabel Lopes, era preciso o casaco. O casaco não estava ao alcance de qualquer um. Por isso muito casamentos eternos não passavam de arrumação dos trapinhos na esperança de que o próximo anos seria melhor e haveria a cerimónia com tudo de que era o direito da família. A esperança que transitava de ano para ano.

O João Vaz estava a namorar com Isabel Lopes anos e anos. A Isabel Lopes consciente da realidade estava disposta a «fugir» numa noite qualquer e no funquinho feito a pressa formar seu casamento. Sem roupa de princesa a varrer o chão, sem padre, sem padrinhos, sem nada. A Isabel Lopes não esperava ter o pedido de casamento. Ela sabia da realidade da terra.

A Isabel Lopes era namorada do João Vaz, embora ninguém oficialmente podia dizer com certeza. Todos sabiam que eles, ela a Isabel Lopes e ele o João Vaz tinham «suas aguas sujas» (2) mas como ninguém os viu próximos um de outro a mais de dois metros, como mandava a digna tradição dos mais velhos, podia afirmar que namoravam. As «conversas» com os olhos eram os únicos indícios visíveis. E, também eram as únicas recriminações da mãe da Isabel Lopes. No tempo dela havia mais respeito. Muito mais respeito.

A Isabel Lopes sentia-se mulher, não queria continuar nas barras da saia da mãe. Varias vezes fez o João Vaz saber disto por meio da prima, a pombo-correio dos dois. O João Vaz respondia sempre da mesma maneira:
 -Diga a Isabel Lopes que ela é a minha rainha, quero entrar com ela na igreja. Só me falta o casaco. Já tenho algum dinheiro, vou completar e comprar o casaco.

A Isabel Lopes esperava o casaco do João Vaz, esperava e desesperava. Os tempos não permitiam ao João Vaz a compra do casaco, por mais que se esforçasse.

O João Vaz trabalhava desesperadamente para comprar o casaco. A Isabel Lopes desesperava para deixar a casa da mãe e ter seu próprio funquinho. A Isabel Lopes mandou outro recado:
 - Diga ao João Vaz que não estou a aguentar mais, para ele arranjar o casaco o mais rápido que puder!

O João pouco podia fazer. O dinheiro não havia maneira de crescer, ia sempre para um remédio aqui, um grogue ali, dava emprestado ali e nunca mais recebia. Estavam nisto. Todos juntavam seus trapinhos. O João Vaz queria entrar na igreja com a sua rainha.

O José de Almeida tinha uma vida mais abastada. Não era muito melhor que os outros. Era menos pobre. Tinha pelo menos dois casacos. O João Vaz sabia disto, foi procurar o José de Almeida e propôs a comprar de um dos casacos. O José de Almeida mostrou os casacos. Dois ao todo. Eram apenas dois casacos. O João Vaz escolheu o castanho. O José de Almeida perguntou-lhe a cor das calças e dos sapatos. O João Vaz disse que as calças eram pretas e os sapatos… bem, não haviam sapatos! Era normal, os sapatos não eram importantes. O casaco sim. O José de Almeida disse que o preto era melhor. Descalço, com calças pretas e casaco castanho não deveria ser grande ideia. Depois chegou a hora de falarem de pagamento.

O José de Almeida queria dinheiro. O João Vaz só podia pagar com trabalho. O José de Almeida disse: -Esta bem, pode ser com trabalho, mas só levas o casaco depois de estar tudo pago. Não havia problemas, até porque o João Vaz não tinha onde guardar o casaco. Trabalhou, trabalhou e trabalhou. Fez de tudo. Não havia como acabar de pagar o casaco. Ia de manha e só regressava a noite morto de cansado a casa, mas não havia forma de acabar com a divida e levar para a casa o casaco.

Propôs trabalhar também de guarda. Passou a dormir lá. Trabalhava de dia, guardava de noite. Só assim poderia um dia levar o casaco para a casa.

A Isabel Lopes deixou de ver o João Vaz. Os olhos deixaram de se conversarem. Os sorrisos disfarçados e comprometedores deixaram de ser feitos. Os sonhos começaram a esfumarem-se. A pombo-correio da prima bem se esforçou, mas nada de João Vaz.

O assédio do Manuel Ferreira que nunca foi tomado em conta começou a ter resultado. As mesmas acções começaram a aparecer de novo. A pombo-correio da prima retomou as idas e vindas por algum tempo, mas o destino passou a ser outro.

Numa manha normal, como outra qualquer, ouve-se choros e gritos na casa da mãe da Isabel Lopes. Todos pensaram no pior e correram para ajudarem e aproveitarem para chorarem os seus mortos. Graças a Deus não era o pior. Foi um alívio e uma decepção. Mais alívio que decepção. Os mortos podem esperar mais alguns dias para serem chorados. A Isabel Lopes havia «fugido».

Todos pensaram que ela estava na casa do João Vaz, mas não estava. Passados os prazos da praxe que a situação exigia ela apareceu, toda envergonhada acompanhada da família do Manuel Ferreira.

Esta, a família do Manuel Ferreira, toda contrita com a situação delicada, colocada pelo doidivanas do filho que não havia pensado nas consequências do acto:
 -Agora somos uma família – dizia a mãe do Manuel Ferreira e sogra da Isabel Lopes – eles já fizeram o que não deviam. Agora temos que os deixar organizarem. Dou a minha palavra de honra que irão casar na próxima «as aguas» (3)!

Houve choro. Era o fim do nojo inesperado e curto. Depois veio a festa. Houve matança de porcos. A mandioca e o cuscus (4) não faltaram. Estavam preparados. Ninguém sabia. Mas o recado recebido uma semana antes «no próximo sábado iremos ai!» era esclarecedor, Já estavam a espera. A festa durou toda a noite.

Enfim o João Vaz conseguiu pagar o casaco. Tomou a casaco. Fez questão de vestir e ir passar mesmo a frente da casa da mãe da Isabel Lopes. Queria que a Isabel ou a prima o visse vestido de casaco. Iria arranjar uma delegação de pedido da noiva.

Quando aproximou-se ouvi o barulho das batucadeiras (5) . Havia festa na casa da mãe da Isabel Lopes. Perguntou o que estava a passar. Todos sabiam do namoro de João Vaz com a Isabel Lopes. Não tiveram pena dele, deram a noticia o mais cruel possível:
 -Isabel Lopes saiu de casa com Manuel Ferreira e foi apresentada a casa dos pais ontem.
 O João Vaz caiu estatelado no chão. Desmaiou. Mas ainda pode dizer:
 - Eu já tenho o casaco!

O João Vaz nunca mais tirou o casaco. Nem de dia, nem de noite. Dizem que passou a dormir com casaco. A frase dita no momento de desespero tornou-se popular.

Ainda hoje diz-se sempre que alguém tenha algo que muito desejou e não havia conseguido antes – DJON BAZ DJA TEN KASAKU – o que quer dizer, João Vaz já tem casaco.

Sim João Vaz conseguiu casaco, mesmo que lhe tenha custado a perda da sua rainha, Isabel Lopes.



(1)- Funquinho – cubata de pedras, normalmente em forma circular, coberto de palha.
 (2) - aguas sujas – segredos, gostavam um do outro
(3) - As Aguas - Época das chuvas. Época produtiva
 (4) - Cuscus – Pão de farinha de milho cozido a vapor.
 (5) - Batucadeiras- Mulheres que tocam batuco. Colocam pano dobrado sobre a perna, onde com as mãos, no ritmo cadenciado do batuco, batem sobre o pano.

João Furtado



Assédio Sexual - Por Laé de Souza


Assédio Sexual - Por Laé de Souza

Nos tempos atuais, corre-se grande risco em uma simples paquera, que pode ser interpretada como assédio sexual, com direito à vítima de ação de indenização por danos morais. O problema maior é que geralmente a coisa toma uma dimensão com publicidade, fazendo a vítima ser mais vítima e o incriminado ser mais vilão ainda, e recriminado com veracidade mesmo pelos homens que, quer queira ou não, já deram uma paqueradinha , mesmo que descompromissada .

O Mike Tyson que cumpriu pena pelo crime, e viu-se acusado novamente de assédio. Certamente deixará de freqüentar boites e casas noturnas.

O Luxemburgo está sendo acusado de assédio, se bem que para mim, do jeito que foi contado pela distinta senhora, o ato se apresenta mais como tentativa de estupro do que assédio, pois segundo ela, o treinador após insinuar-se, tentou agarrá-la. Chamar uma manicura para fazer o trabalho em seu quarto, sem dúvida é expor-se a risco. Por isto, Casa de Massagem, só freqüento com uma pessoa do lado como testemunha de que a mulher praticou seu oficio sem ser molestada.

Dias atrás um médico foi filmado, quando no exercício de suas funções de ortopedista, para examinar o joelho de uma paciente-repórter, mandou que ela se despisse. Ficando a paciente só de calcinhas e com um avental aberto às costas, ele por trás, em cena constrangedora, foi acusado de boliná-la. Questionar que a moça insinuou-se e estimulou a ação é problema da defesa e não nos compete, principalmente pelo excesso, mas deve ser considerado.

Recordo-me com saudade das várias cantadas na Ritinha , para que conseguisse grandes noitadas, e que não me arriscaria hoje. E certamente com uma só ela não iria; Das flores enviadas para a Claudine, com discreto cartão; Dos olhares meloso para Dirce; Dos cumprimentos com beijos longos na Carol ; Dos constantes elogios aos cabelos da Marlene. E outras e outras que deram certo. Coisas do passado. É preferível ser chamado de bobo por não perceber "bolas" de uma mulher a responder um processo e ser apontado como desavergonhado. Esta proliferação, cria inibição e se solteiro fosse, não teria coragem de convidar minha própria mulher para um início de namoro.

Diante dos acontecimentos, criei certas precauções, que embora contra a minha natureza procuro seguir: Não convido uma mulher para dançar por mais de uma vez; não olho para uma mulher nos olhos ou nas pernas; evito estar sozinho e entrar em elevador cheio; se der carona, ela tem que sentar no banco de trás; não me dou a gentilezas que prenuncie exageradas; não convido nenhuma para tomar um sorvete ou um chope e recuso convites. Claro que por conta disto, deixaram de ocorrer romances e histórias de amor. Mas também, tem uma: Se levar cantada de alguma, deixo de lado meus princípios, faço alarde e denuncio por assédio, por que daqui para frente os direitos são iguais.




SUBTILEZAS - Conto / Crónica de Liliana Josué


SUBTILEZAS

Conto / Crónica de Liliana Josué

O dia era ainda uma criança, com poucas horas de vida. Excepcionalmente eu tinha chegado depois de todos. Não porque me atrasasse mas, aquela gente, tinha por hábito adiantar-se à hora prevista da partida. Quando tal sucedia e vislumbrava, ao fundo da rua, a camioneta de esgar piscante, sem ninguém à porta: cerrava os dentes e atirava-me em correria desenfreada até penetrar, de rompante, na sua boca de hálito zombeteiro. Aplaudiam-me da proeza e tranquilizavam a minha alma informando-me,( como se eu não soubesse) não me encontrar atrasada. Um pouco nervosa comentava mentalmente: «Esta gente deve ter palhas na cama!» .

Eram todos mais velhos que eu, talvez por isso mesmo a pressa fosse maior, pois o tempo era menor. Ainda arquejante semeava beijinhos para um lado, apertos de mão para o outro e um nunca acabar de sorrisos. Depois da maratona concluída, sentava-me discretamente num dos últimos bancos, respirava fundo, encostava a cabeça para trás e semicerrava os olhos numa atitude de abandono.

 Totalmente recomposta, dava comigo a observar atentamente os ocupantes do enorme veiculo. A alguns enxergava apenas o cocuruto da cabeça, a outros conseguia contemplar as faces: De sono nem vislumbre. Deparava com expressões calmas e felizes, de quem já muito fizera e, se sentia no seu pleno direito de desfrutar um resto de vida agradável e compensador.

 Por cada cabelo branco haveria, certamente, uma história não contada; por cada ruga um desgosto quantas vezes dissimulado ; por cada sorriso o triunfo de tantas barreiras ultrapassadas. Tudo isso me enternecia guardando, religiosamente, aquelas expressões bem dentro de mim. Absorvida por tais especulações, espraiava o meu olhar através da janela, encharcando-me da plana e verdejante paisagem alentejana, tornando-a cúmplice dos meus pensamentos.

 Também eu já era detentora de alguns cabelos brancos, rugas na cara e sorrisos esperançosos. No meio de toda esta gente fantástica impunha-se um personagem encantador: Estatura média, magro, cabelo farto e bigodinho maroto. Nos seus olhos podia ler-se a devoção por tudo o que fosse arte. Desde a antiga igreja românica, ao espectacular quadro impressionista, sem jamais esquecer a poesia.

 Só de pronunciar essa palavra mágica, o seu rosto alterava-se surgindo-nos pleno de êxtase e adoração. Sem dúvida será alguém que hei-de lembrar e admirar para todo o sempre. A sua tertúlia poética era singela em «número» mas imponente em «género».

Subitamente acordei do torpor dos meus pensamentos. A camioneta parou. Chegara a costumada pausa para o café da manhã. Enquanto que para muitos, essa milagrosa bebida matinal se revestia de importância capital, para mim, tornava-se perniciosa. Um café antes do almoço transformava-se num barril de pólvora. A pulsação poderia atingir os cento e vinte, e as minhas mãos agiriam autonomamente, sempre pelo oposto à minha vontade. Por isso limitava-me a folhear algumas revistas na tabacaria do estabelecimento.

 Findo o tempo estipulado para a recuperação de forças, regressávamos ao monstro que nos observava pachorrentamente, com orelhas quebradiças de cão atento, e introduzíamo-nos no seu interior através da sua boca plácida e um tanto desdenhosa.

A viagem continuava em conversa animada com o companheiro do lado ou o vizinho da frente. Chegados ao destino eram áhs! e óhs! de contentamento e deleite. Tanta coisa linda. Contemplei igrejas faustosas e conventos de admiráveis azulejos, fui bafejada pela sorte de poder admirar apaixonantes desenhos de Siza Vieira, traço breve e expressivo.

 A medida que a visita prosseguia o agrado tornava-se maior.
 Foi-nos sugerido observar as cisternas de determinado convento. Assim o fizemos. Não continham água, era um local subterrâneo, escuro, frio e um tanto assustador. A minha sensação, dentro daquele buraco negro, era como o de alguém tentando penetrar o insondável e misterioso mundo do Além. Inesperadamente um arrepio traiçoeiro percorreu-me a espinha, seguido de um bater forte de coração.

 A minha volta pressentia murmúrios tímidos e sombras deslizantes. Uma das senhoras pertencente ao grupo, expulsou os meus receios ao aproximar – se entabulando conversa. Apurando a vista o mais que pôde, fez-me notar a existência dum estranho objecto colocado junto a uma das paredes da cisterna, por baixo da única abertura que deixava penetrar uma efémera claridade. Foi-se chegando lentamente ao estranho corpo, eu imitei-a.

 Era um objecto esguio e comprido, com cerca de metro e meio de altura. A senhora muito compenetrada da sua missão exclamou triunfante: «Nem mais, isto é um medidor de água». Eu acenei afirmativamente a cabeça, admirando tamanha perspicácia.

 Satisfeita a nossa curiosidade demos por concluída aquela sapiente descoberta. Eis que, inesperadamente, a senhora apercebeu-se duma pequena placa onde se encontrava algo escrito. Assestou afincadamente o olhar e conseguiu ler os dizeres. Intrigada perguntei-lhe o que se encontrava ali escrito.

 A ingénua senhora, meio embaraçada, balbuciou: «Afinal isto não é nenhum medidor de água, é uma obra de arte duma escultura... uma Leonor qualquer coisa». Senti uma enorme vontade de rir.

Tínhamos sido mordazmente enganadas. A tudo hoje se chama arte. Talvez com razão. Só o facto de sabermos viver em tranquilidade é já uma obra de grande mestria artística.

 Mas quanto ao ferro comprido e ferrugento ... , francamente!.