sexta-feira, 17 de abril de 2015

Jornal Raizonline Nº 267 de 13 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 267 de 13 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira

25 de Abril


Numa altura em que se aproxima o Dia 25 de Abril, ao qual todos devemos esta coisa tão simples que é escrever livremente, será bom lembrar que para além da liberdade de expressão muito pouco se ganhou em termos sociais, políticos e económicos com isso.

Na verdade, como é costume dizer-se nestas ocasiões, que já foram  repetidas «n» vezes ao longo da nossa história portuguesa e da humanidade em geral, estabilizadas as elites e recompostas as estruturas de autoridade, a mudança (se isso se pode chamar) é apenas uma mudança de tom no baton e organização cosmética geral.

Na verdade continuamos a ser comidos periodicamente ao longo dos séculos, servindo em altura própria como carne para canhão, tipo bucha,  e expelido o projéctil lá vamos nós atrás, por vezes rodando no ar, até que a força da gravidade (a tal recomposição da autoridade) nos faça estampar no solo, algures entre uma pedra e um caule ou mesmo o defecado de um animal qualquer que por ali tenha passado.

Chateiam-se as pessoas, é um facto, e acredito que nunca tenha sido tão lembrada a tal de liberdade de expressão como nas alturas em que as pessoas levantam a sua voz, algures no recôndito dos seus lares, nas chamadas redes sociais ou até mesmo em cafés e esplanadas. 

Que alegria «deitar cá para fora» aquilo que nos vai na alma, utilizar em tão pleno quanto possível essa mesma liberdade de expressão e regressar a penates com o estômago pleno e adormecer no sofá após o término da telenovela, do debate, do discurso. Amanhã será outro dia e a vida recomeça, sempre da mesma forma: livremente livre, alegremente sem peias. Que mais pode desejar o ser humano ?

Talvez o século seguinte que este já começa a chatear.

Daniel Teixeira




quinta-feira, 16 de abril de 2015

Maria Louca - Poema de José Geraldo Martinez


Maria Louca

Poema de José Geraldo Martinez

Por onde andaria Maria Louca?
 Nega pedinte e pinéu...
 Talvez nesta vida pouca,
 já tenha ido para o céu...

Lá, aprontaria com todo mundo!
 Espantaria os passarinhos das mãos de São Francisco...
 Como se não bastasse, nada que lhe faltasse,
 beberia o café de São Benedito!

Maria Louca, nega andarilha, da minha infância,
 era amada e não sabia!
 Com largo sorriso branco na boca,
 candura distribuia...
 Tudo que ganhava dava:
 bolachas, balas, doces...
 Era a festa da molecada!

Pra eles contava longas histórias
 e a gente até acreditava:
 - Fui amiga de Jesus! (por certo era)
 - Tirei a sua coroa na cruz (duvido)
 - Os pregos de suas mãos (duvido)
 - Vi a ressurreição! (duvido)
 - Briguei com Judas e Pilatos,
 arrumei a maior confusão! (não duvido)

Relatava fatos da época!
 O Padre sempre a escomungava...
 Quem garante que não vivera em outras vidas,
 aquilo que tudo falava?

Proibida de entrar na igreja e
 ainda assim confessava...
 Dizia que era com Deus e que ele sempre
 a escutava! (acredito)

Em baixo de uma seringueira,
 começava a rezadeira e a sua sua igreja montava!
 Naquela hora, parece que eu via
 ao seu redor muitos santos...

Jesus com ela sorria e no colo de Maria,
 sobrepunha o seu manto!
 Maria?
 Eu disse, Maria?
 Quem garante que não era?
 Mãe de Jesus? (dúvida)
 Nega pinéu ... (é fato)
 Um minuto para pensar...
 Maria estaria no céu? (Não duvido)
 Ela tinha tempo para amar...


«Nenhum tempo há de ser perdido se for gasto
 com amor»


( Martinez )



BRINCANDO COM PAPAI - Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos (ACAS)


BRINCANDO COM PAPAI

Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos (ACAS)



Se um dia papai voltasse, eu tentaria viver com ele tudo aquilo que sempre quis e nunca aconteceu. Ah, se eu pudesse voltar o tempo! Papai iria brincar comigo. Não chegaria cansado, nem estressado, nem nervoso, nem dopado, nem triste. A luta, para seus filhos terem alguma coisa no futuro, não o deixou viver o presente.

Hoje ele é passado. Papai morreu quando eu tinha dezoito anos de idade; ele tinha à época, pouco mais de cinquenta. Ele nunca participou de minha adolescência; menos ainda, por Deus o ter levado tão cedo, da minha chegada à idade adulta.

Ah, se papai me abraçasse, ao menos uma única vez; eu diria a ele que o amava. Quem sabe assim ele e eu perdêssemos nossa timidez?

Se papai me abraçasse, eu lhe daria um presente: uma máquina do tempo!
 Ai então, eu ligaria meu «transformador de gente» e o faria ser menino de novo. Eu próprio entraria na máquina e nós dois, meninos; finalmente brincaríamos como só as crianças sabem brincar.

Cansados, eu o olharia embevecido, enquanto nova transformação ocorreria; eu e ele, aos poucos íamos ficando velhos. Fecharíamos nossos olhos e nos elevaríamos acima das casas, das ruas, das luzes, das cidades, do país e do mundo. Quem sabe finalmente eu veria a Europa, que tanta vontade tenho de conhecer e não pude; nem poderei.

Se um dia papai voltasse e eu pudesse conviver com ele tudo aquilo que quis e que nunca aconteceu, eu o acompanharia até a presença do Pai Eterno.

Reclamaria Dele, a falta de tempo que papai teve e do fato dele não me ver crescer. Ah, se eu pudesse voltar o tempo!

Se eu pudesse voltar o tempo, papai iria brincar comigo até o fim dos tempos. Eu, morto que estou, finalmente brincaria com papai.

Se um dia, você leitor, ouvir cantigas de roda, catiras batidas na mão e nos pés, ouvir sabiás cantando numa praça mal cuidada da cidade grande, ou ver um caipira lavrando a terra, saudado pela natureza, saiba leitor, será eu e meu pai, nos divertindo na eternidade; visto que na vida pouco nos divertimos.

Vocês ainda nos virão nos sorrisos ocultos dos personagens das estátuas que contam a história da terra bandeirante, em cada praça onde quer elas estejam.

Vocês nos ouvirão nos gorjeios dos canários da terra, dos coleirinhas, dos curiós, dos pintassilgos, no farfalhar das folhas dos jequitibás, nas flores dos ipês que os tornam sagrados, nas algazarras das crianças, nos curumins e cunhãs do Mato Grosso, que apreciaram um texto desse velho escrevinhador que, se não deixou filhos, foi abençoado por Deus com o dom de ver e ouvir estrelas, apreciar a natureza e entendê-la e a amar sua querida Dirce, despudoradamente.

Foi uma pena, meu pai, que não houvéssemos brincado mais com a vida, de não ter ouvido mais música caipira, de ter sorrido mais, como os curupiras e sacis que me acordaram hoje, só para que eu pudesse escrever este texto.

Pai, até breve! Não se perca de mim; não me desapareça.

ACAS



João Vaz já tem casaco - Conto / Crónica de João Furtado


João Vaz já tem casaco

Conto / Crónica de João Furtado


Os últimos anos não foram dos piores, mas também não poder-se-iam afirmar que eram cor de rosas. Dava para comer e tinha alguma palha que servia para dar aos animais. Já tinham havido muitos outros anos piores. Os melhores anos serviam para que se pudessem casar, baptizar e crismar os filhos. Quem os pudessem fazer. Os outros contentavam com a esperança de que o próximo ano seria melhor e poderiam realizar os seus mais íntimos sonhos.

Até para morrer o felizardo era aquele que morresse pelo menos num ano igual ao que era aquele. Tinha a esperança de saber que a sua morte seria chorada e que as inesperadas visitas teriam o mínimo para comer durante as cerimónias fúnebres. Se bem que uma certeza levava. Todos iriam chorar as suas mortes. As mulheres os seus maridos. As filhas as suas mães. As irmãs os seus irmãos. As mães os seus filhos. As comadres os seus compadres. As amantes e rivais iriam aproveitar para se exporem as suas desavenças acumuladas.

Os parentes e familiares também iria aproveitar para se posicionarem e se darem a conhecer todas as pequenas mágoas do dia a dia. Mas o funeral seria digno dos anais da história, embora ele, a figura principal, pouco se destacaria.

A casa era a peça fundamental. Ninguém poderia sair das barras da saia da mãe, sem ter o seu funquinho (1) . Ainda que o mesmo funquinho servisse para cobrir a cabeça e deixar a chuva e vento o corpo. Bem, a chuva… era um bem quase esquecido. Embora os últimos anos não se pudesse afirmar a total ausência dela, mas também não se podia dizer que a bonança tinha enfim visitado as Ilhas. Todos tinham seu funquinho sim, «quem casa quer casa» não era apenas um adágio popular na Ilha, era uma realidade.

Não poder-se-ia afirmar era que as casas eram efectivamente casas. A maior parte delas de casas só tinham nome, mas enfim eram casa. Algumas pedras sobrepostas e cobertas de palhas. A maioria, por dentro, se tanto a sala era calcetada.

Mas para casar. Casar, mesmo casar, com padre e tudo de direito, eram muito poucos. Casar como o João Vaz pretendia oferecer a Isabel Lopes, era preciso o casaco. O casaco não estava ao alcance de qualquer um. Por isso muito casamentos eternos não passavam de arrumação dos trapinhos na esperança de que o próximo anos seria melhor e haveria a cerimónia com tudo de que era o direito da família. A esperança que transitava de ano para ano.

O João Vaz estava a namorar com Isabel Lopes anos e anos. A Isabel Lopes consciente da realidade estava disposta a «fugir» numa noite qualquer e no funquinho feito a pressa formar seu casamento. Sem roupa de princesa a varrer o chão, sem padre, sem padrinhos, sem nada. A Isabel Lopes não esperava ter o pedido de casamento. Ela sabia da realidade da terra.

A Isabel Lopes era namorada do João Vaz, embora ninguém oficialmente podia dizer com certeza. Todos sabiam que eles, ela a Isabel Lopes e ele o João Vaz tinham «suas aguas sujas» (2) mas como ninguém os viu próximos um de outro a mais de dois metros, como mandava a digna tradição dos mais velhos, podia afirmar que namoravam. As «conversas» com os olhos eram os únicos indícios visíveis. E, também eram as únicas recriminações da mãe da Isabel Lopes. No tempo dela havia mais respeito. Muito mais respeito.

A Isabel Lopes sentia-se mulher, não queria continuar nas barras da saia da mãe. Varias vezes fez o João Vaz saber disto por meio da prima, a pombo-correio dos dois. O João Vaz respondia sempre da mesma maneira:
 -Diga a Isabel Lopes que ela é a minha rainha, quero entrar com ela na igreja. Só me falta o casaco. Já tenho algum dinheiro, vou completar e comprar o casaco.

A Isabel Lopes esperava o casaco do João Vaz, esperava e desesperava. Os tempos não permitiam ao João Vaz a compra do casaco, por mais que se esforçasse.

O João Vaz trabalhava desesperadamente para comprar o casaco. A Isabel Lopes desesperava para deixar a casa da mãe e ter seu próprio funquinho. A Isabel Lopes mandou outro recado:
 - Diga ao João Vaz que não estou a aguentar mais, para ele arranjar o casaco o mais rápido que puder!

O João pouco podia fazer. O dinheiro não havia maneira de crescer, ia sempre para um remédio aqui, um grogue ali, dava emprestado ali e nunca mais recebia. Estavam nisto. Todos juntavam seus trapinhos. O João Vaz queria entrar na igreja com a sua rainha.

O José de Almeida tinha uma vida mais abastada. Não era muito melhor que os outros. Era menos pobre. Tinha pelo menos dois casacos. O João Vaz sabia disto, foi procurar o José de Almeida e propôs a comprar de um dos casacos. O José de Almeida mostrou os casacos. Dois ao todo. Eram apenas dois casacos. O João Vaz escolheu o castanho. O José de Almeida perguntou-lhe a cor das calças e dos sapatos. O João Vaz disse que as calças eram pretas e os sapatos… bem, não haviam sapatos! Era normal, os sapatos não eram importantes. O casaco sim. O José de Almeida disse que o preto era melhor. Descalço, com calças pretas e casaco castanho não deveria ser grande ideia. Depois chegou a hora de falarem de pagamento.

O José de Almeida queria dinheiro. O João Vaz só podia pagar com trabalho. O José de Almeida disse: -Esta bem, pode ser com trabalho, mas só levas o casaco depois de estar tudo pago. Não havia problemas, até porque o João Vaz não tinha onde guardar o casaco. Trabalhou, trabalhou e trabalhou. Fez de tudo. Não havia como acabar de pagar o casaco. Ia de manha e só regressava a noite morto de cansado a casa, mas não havia forma de acabar com a divida e levar para a casa o casaco.

Propôs trabalhar também de guarda. Passou a dormir lá. Trabalhava de dia, guardava de noite. Só assim poderia um dia levar o casaco para a casa.

A Isabel Lopes deixou de ver o João Vaz. Os olhos deixaram de se conversarem. Os sorrisos disfarçados e comprometedores deixaram de ser feitos. Os sonhos começaram a esfumarem-se. A pombo-correio da prima bem se esforçou, mas nada de João Vaz.

O assédio do Manuel Ferreira que nunca foi tomado em conta começou a ter resultado. As mesmas acções começaram a aparecer de novo. A pombo-correio da prima retomou as idas e vindas por algum tempo, mas o destino passou a ser outro.

Numa manha normal, como outra qualquer, ouve-se choros e gritos na casa da mãe da Isabel Lopes. Todos pensaram no pior e correram para ajudarem e aproveitarem para chorarem os seus mortos. Graças a Deus não era o pior. Foi um alívio e uma decepção. Mais alívio que decepção. Os mortos podem esperar mais alguns dias para serem chorados. A Isabel Lopes havia «fugido».

Todos pensaram que ela estava na casa do João Vaz, mas não estava. Passados os prazos da praxe que a situação exigia ela apareceu, toda envergonhada acompanhada da família do Manuel Ferreira.

Esta, a família do Manuel Ferreira, toda contrita com a situação delicada, colocada pelo doidivanas do filho que não havia pensado nas consequências do acto:
 -Agora somos uma família – dizia a mãe do Manuel Ferreira e sogra da Isabel Lopes – eles já fizeram o que não deviam. Agora temos que os deixar organizarem. Dou a minha palavra de honra que irão casar na próxima «as aguas» (3)!

Houve choro. Era o fim do nojo inesperado e curto. Depois veio a festa. Houve matança de porcos. A mandioca e o cuscus (4) não faltaram. Estavam preparados. Ninguém sabia. Mas o recado recebido uma semana antes «no próximo sábado iremos ai!» era esclarecedor, Já estavam a espera. A festa durou toda a noite.

Enfim o João Vaz conseguiu pagar o casaco. Tomou a casaco. Fez questão de vestir e ir passar mesmo a frente da casa da mãe da Isabel Lopes. Queria que a Isabel ou a prima o visse vestido de casaco. Iria arranjar uma delegação de pedido da noiva.

Quando aproximou-se ouvi o barulho das batucadeiras (5) . Havia festa na casa da mãe da Isabel Lopes. Perguntou o que estava a passar. Todos sabiam do namoro de João Vaz com a Isabel Lopes. Não tiveram pena dele, deram a noticia o mais cruel possível:
 -Isabel Lopes saiu de casa com Manuel Ferreira e foi apresentada a casa dos pais ontem.
 O João Vaz caiu estatelado no chão. Desmaiou. Mas ainda pode dizer:
 - Eu já tenho o casaco!

O João Vaz nunca mais tirou o casaco. Nem de dia, nem de noite. Dizem que passou a dormir com casaco. A frase dita no momento de desespero tornou-se popular.

Ainda hoje diz-se sempre que alguém tenha algo que muito desejou e não havia conseguido antes – DJON BAZ DJA TEN KASAKU – o que quer dizer, João Vaz já tem casaco.

Sim João Vaz conseguiu casaco, mesmo que lhe tenha custado a perda da sua rainha, Isabel Lopes.



(1)- Funquinho – cubata de pedras, normalmente em forma circular, coberto de palha.
 (2) - aguas sujas – segredos, gostavam um do outro
(3) - As Aguas - Época das chuvas. Época produtiva
 (4) - Cuscus – Pão de farinha de milho cozido a vapor.
 (5) - Batucadeiras- Mulheres que tocam batuco. Colocam pano dobrado sobre a perna, onde com as mãos, no ritmo cadenciado do batuco, batem sobre o pano.

João Furtado



Assédio Sexual - Por Laé de Souza


Assédio Sexual - Por Laé de Souza

Nos tempos atuais, corre-se grande risco em uma simples paquera, que pode ser interpretada como assédio sexual, com direito à vítima de ação de indenização por danos morais. O problema maior é que geralmente a coisa toma uma dimensão com publicidade, fazendo a vítima ser mais vítima e o incriminado ser mais vilão ainda, e recriminado com veracidade mesmo pelos homens que, quer queira ou não, já deram uma paqueradinha , mesmo que descompromissada .

O Mike Tyson que cumpriu pena pelo crime, e viu-se acusado novamente de assédio. Certamente deixará de freqüentar boites e casas noturnas.

O Luxemburgo está sendo acusado de assédio, se bem que para mim, do jeito que foi contado pela distinta senhora, o ato se apresenta mais como tentativa de estupro do que assédio, pois segundo ela, o treinador após insinuar-se, tentou agarrá-la. Chamar uma manicura para fazer o trabalho em seu quarto, sem dúvida é expor-se a risco. Por isto, Casa de Massagem, só freqüento com uma pessoa do lado como testemunha de que a mulher praticou seu oficio sem ser molestada.

Dias atrás um médico foi filmado, quando no exercício de suas funções de ortopedista, para examinar o joelho de uma paciente-repórter, mandou que ela se despisse. Ficando a paciente só de calcinhas e com um avental aberto às costas, ele por trás, em cena constrangedora, foi acusado de boliná-la. Questionar que a moça insinuou-se e estimulou a ação é problema da defesa e não nos compete, principalmente pelo excesso, mas deve ser considerado.

Recordo-me com saudade das várias cantadas na Ritinha , para que conseguisse grandes noitadas, e que não me arriscaria hoje. E certamente com uma só ela não iria; Das flores enviadas para a Claudine, com discreto cartão; Dos olhares meloso para Dirce; Dos cumprimentos com beijos longos na Carol ; Dos constantes elogios aos cabelos da Marlene. E outras e outras que deram certo. Coisas do passado. É preferível ser chamado de bobo por não perceber "bolas" de uma mulher a responder um processo e ser apontado como desavergonhado. Esta proliferação, cria inibição e se solteiro fosse, não teria coragem de convidar minha própria mulher para um início de namoro.

Diante dos acontecimentos, criei certas precauções, que embora contra a minha natureza procuro seguir: Não convido uma mulher para dançar por mais de uma vez; não olho para uma mulher nos olhos ou nas pernas; evito estar sozinho e entrar em elevador cheio; se der carona, ela tem que sentar no banco de trás; não me dou a gentilezas que prenuncie exageradas; não convido nenhuma para tomar um sorvete ou um chope e recuso convites. Claro que por conta disto, deixaram de ocorrer romances e histórias de amor. Mas também, tem uma: Se levar cantada de alguma, deixo de lado meus princípios, faço alarde e denuncio por assédio, por que daqui para frente os direitos são iguais.




SUBTILEZAS - Conto / Crónica de Liliana Josué


SUBTILEZAS

Conto / Crónica de Liliana Josué

O dia era ainda uma criança, com poucas horas de vida. Excepcionalmente eu tinha chegado depois de todos. Não porque me atrasasse mas, aquela gente, tinha por hábito adiantar-se à hora prevista da partida. Quando tal sucedia e vislumbrava, ao fundo da rua, a camioneta de esgar piscante, sem ninguém à porta: cerrava os dentes e atirava-me em correria desenfreada até penetrar, de rompante, na sua boca de hálito zombeteiro. Aplaudiam-me da proeza e tranquilizavam a minha alma informando-me,( como se eu não soubesse) não me encontrar atrasada. Um pouco nervosa comentava mentalmente: «Esta gente deve ter palhas na cama!» .

Eram todos mais velhos que eu, talvez por isso mesmo a pressa fosse maior, pois o tempo era menor. Ainda arquejante semeava beijinhos para um lado, apertos de mão para o outro e um nunca acabar de sorrisos. Depois da maratona concluída, sentava-me discretamente num dos últimos bancos, respirava fundo, encostava a cabeça para trás e semicerrava os olhos numa atitude de abandono.

 Totalmente recomposta, dava comigo a observar atentamente os ocupantes do enorme veiculo. A alguns enxergava apenas o cocuruto da cabeça, a outros conseguia contemplar as faces: De sono nem vislumbre. Deparava com expressões calmas e felizes, de quem já muito fizera e, se sentia no seu pleno direito de desfrutar um resto de vida agradável e compensador.

 Por cada cabelo branco haveria, certamente, uma história não contada; por cada ruga um desgosto quantas vezes dissimulado ; por cada sorriso o triunfo de tantas barreiras ultrapassadas. Tudo isso me enternecia guardando, religiosamente, aquelas expressões bem dentro de mim. Absorvida por tais especulações, espraiava o meu olhar através da janela, encharcando-me da plana e verdejante paisagem alentejana, tornando-a cúmplice dos meus pensamentos.

 Também eu já era detentora de alguns cabelos brancos, rugas na cara e sorrisos esperançosos. No meio de toda esta gente fantástica impunha-se um personagem encantador: Estatura média, magro, cabelo farto e bigodinho maroto. Nos seus olhos podia ler-se a devoção por tudo o que fosse arte. Desde a antiga igreja românica, ao espectacular quadro impressionista, sem jamais esquecer a poesia.

 Só de pronunciar essa palavra mágica, o seu rosto alterava-se surgindo-nos pleno de êxtase e adoração. Sem dúvida será alguém que hei-de lembrar e admirar para todo o sempre. A sua tertúlia poética era singela em «número» mas imponente em «género».

Subitamente acordei do torpor dos meus pensamentos. A camioneta parou. Chegara a costumada pausa para o café da manhã. Enquanto que para muitos, essa milagrosa bebida matinal se revestia de importância capital, para mim, tornava-se perniciosa. Um café antes do almoço transformava-se num barril de pólvora. A pulsação poderia atingir os cento e vinte, e as minhas mãos agiriam autonomamente, sempre pelo oposto à minha vontade. Por isso limitava-me a folhear algumas revistas na tabacaria do estabelecimento.

 Findo o tempo estipulado para a recuperação de forças, regressávamos ao monstro que nos observava pachorrentamente, com orelhas quebradiças de cão atento, e introduzíamo-nos no seu interior através da sua boca plácida e um tanto desdenhosa.

A viagem continuava em conversa animada com o companheiro do lado ou o vizinho da frente. Chegados ao destino eram áhs! e óhs! de contentamento e deleite. Tanta coisa linda. Contemplei igrejas faustosas e conventos de admiráveis azulejos, fui bafejada pela sorte de poder admirar apaixonantes desenhos de Siza Vieira, traço breve e expressivo.

 A medida que a visita prosseguia o agrado tornava-se maior.
 Foi-nos sugerido observar as cisternas de determinado convento. Assim o fizemos. Não continham água, era um local subterrâneo, escuro, frio e um tanto assustador. A minha sensação, dentro daquele buraco negro, era como o de alguém tentando penetrar o insondável e misterioso mundo do Além. Inesperadamente um arrepio traiçoeiro percorreu-me a espinha, seguido de um bater forte de coração.

 A minha volta pressentia murmúrios tímidos e sombras deslizantes. Uma das senhoras pertencente ao grupo, expulsou os meus receios ao aproximar – se entabulando conversa. Apurando a vista o mais que pôde, fez-me notar a existência dum estranho objecto colocado junto a uma das paredes da cisterna, por baixo da única abertura que deixava penetrar uma efémera claridade. Foi-se chegando lentamente ao estranho corpo, eu imitei-a.

 Era um objecto esguio e comprido, com cerca de metro e meio de altura. A senhora muito compenetrada da sua missão exclamou triunfante: «Nem mais, isto é um medidor de água». Eu acenei afirmativamente a cabeça, admirando tamanha perspicácia.

 Satisfeita a nossa curiosidade demos por concluída aquela sapiente descoberta. Eis que, inesperadamente, a senhora apercebeu-se duma pequena placa onde se encontrava algo escrito. Assestou afincadamente o olhar e conseguiu ler os dizeres. Intrigada perguntei-lhe o que se encontrava ali escrito.

 A ingénua senhora, meio embaraçada, balbuciou: «Afinal isto não é nenhum medidor de água, é uma obra de arte duma escultura... uma Leonor qualquer coisa». Senti uma enorme vontade de rir.

Tínhamos sido mordazmente enganadas. A tudo hoje se chama arte. Talvez com razão. Só o facto de sabermos viver em tranquilidade é já uma obra de grande mestria artística.

 Mas quanto ao ferro comprido e ferrugento ... , francamente!.




O último voo do Flamingo - Por Arlete Deretti Fernandes


O último voo do Flamingo

Por Arlete Deretti Fernandes

Antônio Emílio Leite Couto, mais conhecido por Mia Couto, nasceu na Beira, Moçambique, em 1955. Foi diretor da Agência de Informação de Moçambique, da Revista Tempo e do Jornal de Notícias de Maputo.

Tornou-se nestes últimos anos um dos ficcionistas mais conhecidos das literaturas de Língua portuguesa. O seu trabalho sobre a língua permite-lhe obter uma grande expressividade, por meio da qual comunica aos leitores todo o drama da vida em Moçambique após a independência. Os seus livros estão traduzidos para o francês, inglês, alemão, italiano e espanhol. Publicou: Poesia, Contos, Crônicas e Romances.

Sobre o Texto de «O Ultimo Vôo do Flamingo»

Tizagara, nos primeiros anos após guerra. Nesta vila parece que tudo corre bem.

Os capacetes azuis chegaram para vigiar o processo de paz, e a vida da população transcorre numa aparente normalidade. Porém, devido a razões que todos desconhecem, os capacetes azuis começaram subitamente a explodir.

Massimo Risi, o soldado italiano das Nações Unidas destinado para investigar as estranhas explosões, chega em Tizangara. É-lhe colocado um tradutor à disposição, e através do relato deste tomamos conhecimento dos fatos.

Entra-se num mundo de vivos e mortos, de realidade e de ficção, de feitiçarias e de sobrenatural, que passam por nós em personagens densamente construídos, do qual o feiticeiro Andorinho, a prostituta Ana Deusqueira, o padre Munhando, o administrador Estevão Jonas e a sua mulher Ermelinda, a velha - moça Temporina, o velho Sulplício, são apenas alguns exemplos...

O mistério torna-se maior. Os soldados da paz, morreram ou foram mortos? Com toda a sabedoria da Velha ??frica, Mia Couto mostra-nos, uma vez mais na ironia, no humor, no espírito crítico, na palavra cáustica, no recurso à metáfora e no simbolismo das frases, o seu absoluto domínio da escrita e da língua portuguesa, o conhecimento e o amor profundo que tem e dedica a esse belíssimo e atormentado continente, no magnífico romance, O Último Vôo do Flamingo.

PERSONAGENS:

Massimo Risi – Funcionário das Nações Unidas, italiano que veio a Tizagara investigar por qual razão os soldados da ONU estavam explodindo, ficando-lhes intatos somente o pênis.

Estevão Jonas - Administrador da vila de Tizangara, suas ações corruptas o levaram ao enriquecimento.

Narrador de Tizangara - tradutor de Massimo Risi e filho do velho Sulplício a serviço da administração de Estevão Jonas.

Chupanga – o adjunto do administrador.

Sulplício – velho pai do narrador de Tizangara.

Andorinho – o feiticeiro da Vila.

Ana Deusqueira – a prostituta da vila, que tinha uma sabedoria invejável.

Munhando – O padre de Tizangara.

Ermelinda – A mulher do administrador da Vila, amante do supérfluo, gostava de exibir suas jóias.

Temporina – era uma mulher de corpo belíssimo, mas com o rosto de velha. Ela tenta passar para Massimo as crenças africanas, segundo as quais os antepassados continuam vivos após a morte e interferem no mundo dos vivos.

Mãe do Narrador – A mulher que criou o mito do vôo do flamingo.

Momento histórico do Romance

O romance acontece no período pós guerra civil em Moçambique. Os soldados da ONU vão até lá para investigar o processo de paz e desmontar os dois milhões de minas terrestres colocadas em Moçambique durante a guerra civil de 1977 a 1992. Nesta época, que chega até o momento presente, antigos ativistas de esquerda que estão a comandar o governo, empreendem um jogo de poder, na maior parte baseado no favorecimento e na indiferença à cultura e ao povo de Moçambique.

A Linguagem do romance

Mia Couto apresenta um estilo de escrita que procura trazer as diferentes línguas do povo de Moçambique. O autor hibridiza ao máximo a língua portuguesa de Moçambique, pelo uso das palavras das múltiplas etnias do povo de Moçambique, (chanfuta, árvore – kufa mbalame, mata o pássaro; machamba, terreno agrícola, etc.)

O autor também cria vários neologismos.

Ao hibridizar, Mia Couto realiza o movimento de não desconectar as políticas lingüísticas das culturas que constituem as identidades de um país e rompe com a visão moderna em que o saber e a razão pressupõem a pureza e a gramática de uma língua.

O Foco Narrativo

O narrador de Tizangara diz: «Fui eu que transcrevi, em português visível, as falas que daqui se seguem. Hoje são vozes que não escuto senão no sangue, como se a suja lembrança me surgisse não na memória, mas no fundo do corpo. [...] Assisti a tudo o que aqui se divulga, ouvi confissões, li depoimentos. [...] Agora vos conto tudo por ordem de minha única vontade.» (p.9)

O romance aborda questões políticas, culturais, questões de raça e identidade, questões de colonialismo, questões lingüísticas, questões de ironia e questões feministas.