quinta-feira, 16 de abril de 2015

Natália Correia - à frente do seu tempo... - Por Maria Petronilho


Natália Correia - à frente do seu tempo...

Por Maria Petronilho

 Nasceu a 13 de Setembro de 1913, saiu da ingrata vida a 16 de Março de 1993

«Será preciso passar uma década sobre a minha morte para começarem a compreender o que escrevi. Sei-o porque o sinto. E vai ser a partir dos Açores que isso acontecerá.???

Natália Correia nasceu adiantada no tempo, para o anunciar, antecipar. Poetisa, dramaturga, romancista,, ensaísta, deputada, editora, pintora, tradutora, marcou a vida portuguesa, abalou os pés de barro dos deuses que atabafavam a cultura portuguesa.

Concebia, à semelhança de Teixeira de Pascoaes, «a poesia como uma profecia» e o «poeta como um profeta».
Na sua obra, celebra o ser humano como «andrógino» (recordemos o vocábulo que inventou, «Mátria»); o ser completo; uno e plural. O Desejado, o que contém a esperança e a resistência. Pedro e Inês, símbolos da paixão, da volúpia pela morte. Da Ilha, espaço do sagrado, da esfinge, da iniciação.

 Bate-se pela recuperação do excelso, do politeísmo, do feminismo, do barroco, do diferente. E pelo repúdio da crucificação, da massificação, do descontrolo demográfico... numa terra onde se morria de fome.

«Como atingir a paz com os olhos postos num só deus, se as guerras são fornecidas pela nossa fé na vitória sobre a fé dos outros?», interrogava, interrogava-se.

A participação política foi-lhe, desde muito cedo, uma constante. Introduzida nos círculos da Oposição (fase em que foi jornalista), depressa se destacou na luta contra a Ditadura, apoiando as campanhas de Norton de Matos e de Humberto Delgado. Após a Revolução dos Cravos, aceita ser deputada independente.

«Fui deputada porque me pediram para introduzir o discurso cultural no Parlamento». Utilizando como ninguém a riquíssima tradição cultural de escárnio e maldizer da nossa poesia. As causas, as pessoas do coração e do sonho, da fé, tinham-na do seu lado; as causas, as pessoas da manipulação, do utilitarismo, da serventia, conheciam-lhe a cólera, o chiste, a indignação... que fazia penetrar com mestria e elegância.


«Não me mato
Antes me zango
Até ficar um cato
Quem me tocar, maldito
Que se pique»

Glória te seja dada, Natália Correia, agora e sempre... enfim! 


 
Notas Biográficas de Natália Correia

Natália de Oliveira Correia nasceu em Fajã de Baixo, na ilha de São Miguel nos Açores em 13 de Setembro de 1923, e morreu em Lisboa a 16 de Março de 1993, foi uma intelectual, poetisa e activista social, autora de extensa e variada obra publicada, com predominância para a poesia. Deputada à Assembleia da República de 1980 a 1991, interveio politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. Foi a autora da letra do Hino dos Açores. Juntamente com José Saramago, Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues foi, em 1992, um dos fundadores da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC)

 A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Colaborou com frequência em diversas publicações portuguesas e estrangeiras. Foi uma figura central das tertúlias que reuniam em Lisboa nomes centrais da cultura e da literatura portuguesas nas décadas de 1950 e 1960. Ficou conhecida pela sua personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflecte na sua escrita. A sua obra está traduzida em várias línguas.

 Notabilizou-se através de diversas vertentes da escrita, já que foi poetisa, dramaturga, romancista, ensaísta, tradutora, jornalista, guionista e editora, tornou-se conhecida na imprensa escrita e, sobretudo, na televisão, com o programa Mátria, onde advogou uma forma especial de feminismo – afastado do conceito politicamente correcto do movimento — o matricismo —, identificador da mulher como arquétipo da liberdade erótica e passional e fonte matricial da humanidade; mais tarde, à noção de Pátria e de Mátria acrescenta a de Frátria.

 Dotada de invulgar talento oratório e grande coragem combativa, tomou parte activa nos movimentos de oposição ao Estado Novo, tendo participado no MUD (Movimento de Unidade Democrática, 1945), no apoio às candidaturas para a Presidência da República do general Norton de Matos (1949) e de Humberto Delgado (1958) e na CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, 1969). Foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, considerada ofensiva dos costumes, (1966) e processada pela responsabilidade editorial das Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta. Foi responsável pela coordenação da Editora Arcádia, uma das grandes editoras portuguesas do tempo.

 A sua intervenção política pública levou-a ao parlamento, para onde foi eleita em 1980 nas listas do PPD (Partido Popular Democrático), passando a independente. Foi autora de polémicas intervenções parlamentares, das quais ficou célebre, num debate sobre o aborto, em 1982, a réplica satírica que fez a um deputado do CDS sobre a fertilidade do mesmo.

 Fundou em 1971, com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta, o bar Botequim, onde durante as décadas de 1970 e 1980 se reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa. Foi amiga de António Sérgio (esteve associada ao Movimento da Filosofia Portuguesa), David Mourão - Ferreira («a irmã que nunca tive"), José-Augusto França («a mais linda mulher de Lisboa»), Luiz Pacheco («esta hierofântide do século XX»), Almada Negreiros, Mário Cesariny («era muito mais linda que a mais bela estátua feminina do Miguel Ângelo»), Ary dos Santos («beleza sem costura»), Amália Rodrigues, Fernando Dacosta, entre muitos outros. Foi uma entusiasmada e grande impulsionadora pelo aparecimento do espectáculo de café-concerto em Portugal, na figura do polémico travesti Guida Scarllaty, o actor Carlos Ferreira, na época um jovem arquitecto de quem era grande amiga. Na sua casa, foi anfitriã de escritores famosos como Henry Miller, Graham Greene ou Ionesco.

 Natália Correia recebeu, em 1991, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro Sonetos Românticos. No mesmo ano foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade; era já detentora da Ordem de Santiago.

 Natália Correia casou quatro vezes. Após dois primeiros curtos casamentos, casou em Lisboa a 31 de Julho de 1953 com Alfredo Luiz Machado (1904-1989), a sua grande paixão, bem mais velho do que ela e já viúvo, casamento este que durou até à morte deste, a 17 de Fevereiro de 1989. (São já notáveis as cartas de amor da jovem Natália para Alfredo Luiz Machado.) Em 1990, tinha Natália 67 anos de idade, celebrou um casamento de conveniência com o seu colaborador e amigo Dórdio Guimarães.

 Na madrugada de 16 de Março de 1993, morreu, subitamente, com um ataque cardíaco, em sua casa, depois de regressada do Botequim. A sua morte precoce deixou um vazio na cultura portuguesa muito difícil de preencher. Legou a maioria dos seus bens à Região Autónoma dos Açores, que lhe dedicou uma exposição permanente na nova Biblioteca Pública de Ponta Delgada, instituição que tem à sua guarda parte do seu espólio literário (que partilha com a Biblioteca Nacional de Lisboa), constante de muitos volumes éditos, inéditos, documentos biográficos, iconografia e correspondência, incluindo múltiplas obras de arte e a biblioteca privada.




A evolução da Linguagem e a Gramática - Por: Daniel Teixeira


A evolução da Linguagem e a Gramática



Por: Daniel Teixeira

Os antigos discutiam muito sobre se a gramática seria «empeiria», isto é, experiência em acto, pura e simples, ou técnica (tecnhé), quer dizer, um complexo de regras, de noções, coordenadas por um critério e destinadas a preencher uma finalidade. Todos facilmente concordaram que Gramática era uma técnica e procuraram por conseguinte construir o respectivo sistema.

O carácter normativo que acompanha a prática do ensino linguístico tinha forçosamente de levar a esta definição do conceito de gramática como um complexo de noções destinadas a um fim. Pelo próprio facto de pretender pôr o discente em condições de se servir de um meio expressivo mais cuidado e aperfeiçoado, e portanto diverso em medida maior ou menor do que lhe era fornecido pelo ambiente natural imediato, esse ensino desenvolve-se através de aperfeiçoamentos que vão das particularidades de pronúncia e da propriedade lexical, à esquematização normativa da estrutura da frase e do período em que se desdobra a actividade discursiva.

A intenção didáctica surgiu, sem qualquer espécie de dúvida, da necessidade de compreender os valores semânticos escondidos em tantas fórmulas da poesia homérica, que, com o tempo, se haviam tornado incompreensíveis.

Nunca devemos esquecer que a consciência crítica acorda na Grécia em função da exegese e da compreensão dos dois poemas que se impõem à totalidade do mundo grego como a primeira nascente de todas as verdades ( Ilíada e Odisseia ).

Enquanto a aquisição da língua se desenrola no âmbito da «empeiria» (experiência), e tendo-a por guia a tal ponto que se processa o impulso da imitação instrutiva, desde volitiva a determinado sistema expressivo, surge a necessidade de uma norma na qual o acto linguístico possa encontrar a sua plena justificação.

Neste aspecto cumpre esclarecer um pouco mais aquilo que se pretende afirmar nesta parte do texto: o facto de a aquisição da língua se processar no domínio da experiência (empeiria) não implica que a referida experiência (imitação) não tenha por pano de fundo um processo consciente e racionalizado. Não confundir experiência com costume, embora as fronteiras entre uma e outro nem sempre sejam nítidas.

Aliás, no domínio da experiência (empeiria) podemos encontrar desde o processo coordenador das sensações a que Kant chamou de pensamento até à sensação simples, ou seja, sem qualquer processo de reflexão / comparação / dedução. Que a experiência, entendida neste plano, não é acto de razão, ou seja, acto filtrado pelo intelecto , parece-nos claro.

De reparar que a gramática, pelo menos a formalização da mesma através de regras mais ou menos fixas, é posterior ao começo da escrita e da fala. Em certo sentido pode entender-se que os gramáticos, inicialmente, mais não fizeram do que recolher e ordenar as regras espontâneas já existentes e através das quais se movia já a linguagem.

A assunção da gramática, como facto definido e determinado, não nega a existência de uma gramática espontânea. O mesmo aspecto pode encontrar-se na linguagem gestual: ou seja, ela existe enquanto tal e contém em si já algumas regras que, ainda que não totalmente descritas ou fixadas, acabam por funcionar como parâmetros mínimos sistematizadores da linguagem gestual: a uns parâmetros e aos outros referidos atrás chamam-se parâmetros naturais.

A sistematização gramatical surge, assim, por necessidades didácticas. Não se pode ensinar ou aprender algo que não contenha em si um sistema seguro e a gramática esclarece a funcionalidade do sistema, fixando-o no esquema ideal, e todavia real, da norma.



JORNADA CREPUSCULAR - Por Mário Matta e Silva


JORNADA CREPUSCULAR - Por Mário Matta e Silva

Crónica a Bocage



Só nas memórias te encontro Bocage

Vem de veludo vestido o crepúsculo que desce sobre nós em traços de ouro fino, em ondas de volúpia, e vai escurecendo tão lentamente que o sol se apressa a esconder atrás de uma nuvem mais aveludada ainda e mais macia.

Parado, à porta de um café conhecido de Lisboa, imobilizo ali comigo a memória, que arrasta tempos, datas, pessoas, que o passado devorou, sem comiseração dos nossos semblantes pesados e das rugas insistentes, que se cruzam na pele que o tempo crestou.

Tinha acabado de ver de novo a estátua imponente de Bocage, ali dentro do Nicola, e este imortal poeta de Lisboa desventrada e crua, traça-me caminhos percorridos, com a gravação a ouro velho do seu nome, que em tertúlias poéticas, lança o brilho dos seus cristalinos desabafos, em poesia, e sempre, sempre aquele murro no estômago feito de polémicas, que em sua memória sabem a liberdade.

O vento sopra fino e áspero nas minhas faces enquanto se dá a jornada crepuscular que me leva até a esse poeta de olhos doces, gingão mas altamente arrojado. Muitos dizem que o conhecem, mas vão-lhe buscar apenas a primeira faceta, a de gingão, esquecendo-se que foi dos primeiros, que, arrojadamente, em pleno Despotismo (Absolutismo) arrancou gritos de apelo à liberdade, à igualdade, à fraternidade.

O nosso Vate Sadino, como não se esquece de lembrar a amiga Maria América Miranda, trás em uníssono aqueles que conhecem bem o Bocage dessa estirpe de homens que antes quebrar que torcer…

Ouve-se um trovão, aclara-se o fim de tarde com um relâmpago breve mas respeitável, e chove miudinho, em pleno tombar da bruma crepuscular… então ocorre-me a tertúlia no átrio do Teatro D. Maria II, as discussões que dela saiam, os poemas que se diziam a meio das tardes, sempre na euforia dos enaltecidos rompantes bocageanos.

Rio-me ao puxar pela memória, pois nela registei também os espectáculos, em nome e homenagem a Bocage, e organizados por essa mesma tertúlia, no padrão dos descobrimentos, que traziam o Vate Sadino pelos caminhos da decência, enquanto, pelas livrarias e bibliotecas continuava a ver coisas horrorosas sobre pouco mais do que as anedota do mesmo Poeta (diga-se até que algumas lhe foram convenientemente atribuídas).

Velhacarias, penso eu, de quem só sabe ver o lado escuro dos sobejados dias que caem, que nem morfeus, nos braços tépidos das diáfanas crepusculares de Setembro (mês em que Barbosa du Bocage nasceu).

Passaram anos, tempos que nos separam ou aproximam, em grupos de debate, tertúlias de poesia, várias e animadas, e voltamos de quando em vez a esse romântico, arremessado à devassa pela maldade, dos que fazem dessa figura delgada e pálida, exaltado e corajoso, metido a ferros, por apelo às liberdades, as piores acusações.

Ainda não há muitos meses uma série televisiva dava, sobre a vida de Bocage, o golpe de misericórdia, não só nesse exemplar poeta, mas até numa sociedade inteira, dos finais do Século XVIII, mostrando só depravação, imoralidade, ruelas de entulho, de bêbados, de prostitutas, de devassos etc… como se fossemos crivados por um certo fado feito de «orgulho» balofo, enfiado na imundice de Lisboa.

Que foi dos primeiros arautos do romantismo e das liberdades não se falou, e nem se enalteceu o motivo mais próximo que esteve na base das acusações que lhe foram feitas por Pina Manique, até o encarcerarem no Limoeiro.

Só nestas memórias te encontro Bocage, num abraço fraterno, orgulhoso de ti! O crepúsculo, esse, visto também pelo seu lado menos risonho, é um manto aveludado mas escuro que nos engole…e a maldição dos homens também!



terça-feira, 14 de abril de 2015

O POLITICAMENTE (IN)CORRECTO - Por Manuel Fragata de Morais


O POLITICAMENTE (IN)CORRECTO

Por Manuel Fragata de Morais



Se alguém te enganar uma vez, a culpa é dele;
 Se te enganar duas vezes, a culpa é dos dois;
 Se te enganar três vezes, és o único culpado.
 (Ditado popular alemão)

O conceito do politicamente correcto ainda é relativamente novo entre nós, para não dizer quase desconhecido. Já corrigimos algumas posições, chegamos aos deficientes físicos em vez de aleijados, já dizemos com deficiência visual e invisuais, em vez dos cegos. E um passo que abre o caminho a novas reflexões, que poderão levar à alteração no nosso uso da linguagem, e não só, em relação ao próximo.

A medida que as sociedades evoluem, assim evoluem os conceitos, as tradições e a visão que fazemos do mundo e do nosso lugar nele. O que em outra hora levou cientistas à fogueira ou à renúncia pública das suas convicções, são hoje leis reconhecidas da física, da astrofísica, da física quântica, da matemática, etc. Todavia hoje, no terceiro milénio e no século XXI, ainda encontramos conceitos, frases soltas, palavras que, de tão banalizadas, não ferem a nossa sensibilidade de humanos, de cristãos, ou puramente de pessoas de fé e da fé, seja ela qual for.

Quero hoje falar-vos de uma dessas aberrações, ligada à cor da maioria das pessoas do nosso continente, ou seja, a negra, e que nos passa despercebida, nestes dias do politicamente correcto. O dicionário que consultei, traz 26 palavras com o radical negro, e delas, uma ou duas únicas não contêm a conotação negativa, o conteúdo pejorativo. Não vou aqui mencionar todas, mas sim algumas daquelas que nos são mais conhecidas e aceitáveis e que, por esse facto, nos tornaram cegos face a nós mesmos, independentemente da coloração da nossa epiderme.

Para começar, quem não tem na família uma ovelha negra? Para nós, aqui em Africa, pela razão epidermicamente inversa, faria muito mais sentido termos uma ovelha branca na família quando o parente não encaixasse, não é?

Quem de nós nunca esteve, ou está, numa lista negra, por aquilo que pensou, que disse, fez ou que escreveu? Acho que, neste caso, a lista deveria ser da cor do papel em que foi elaborada ou, para os mais artísticos, às bolinhas azuis com riscas castanhas.

Quem nunca ouviu falar das famosas caixas pretas dos aviões, mesmo sendo elas de facto amarelas?
 Quando necessitamos de trocar o dinheiro em situações que nos são mais avantajadas, não vamos fazê-lo no mercado negro, quer seja na Mongólia quer na Patagónia?

E quando a vida nos cria situações que só são o resultado da iniquidade ou da falta de sorte, não corremos lestos para o mestre kimbanda as eliminar recorrendo à magia negra? E se o técnico mestre falha, não ficamos frustrados numa danada de maré negra?

Por fim, o diabo, o demo, o belzebu, o satanás, embora a tradição cristã o apresente como um chifrudinho vermelho vermelhinho até ao enroscado rabo, é geralmente tido como negro. E o pecado, sua mais vistosa arma, assim o sendo de igual modo.

Foram pois estas, a nível do pensar e da expressão, parte das mensagens subliminares que determinada civilização criou para impor durante largos séculos sobre outras mais beneficiadas com melanina, seus vários ditames.

Estamos na era do politicamente correcto, para além da própria tomada de consciência, para se começar na família, nas escolas, nas igrejas sobretudo, enfim, em todo o lugar, a irradiar esses conceitos e atitudes, sem receios.

As únicas situações que conheço, e não digo que não haja mais, em que radical negro é usado positivamente, são a negritude, como corrente ideológica e cultural surgida modernamente entre os povos negros africanos, de luta contra a opressão colonialista e de valorização da civilização africana, enfim, do mundo negro em geral.

Os que trabalham com números e contas sabem que contabilisticamente estar no preto é óptimo (to be on the black), já que quando há insolvência está-se no vermelho, pois esta é(ra) a cor da tinta que se usa(va) para o efeito.

E, finalmente, como estou a fazê-lo aqui, pôr o preto no branco sobre o que penso desta questão, negritando-a a fim de que sobressaia.



 Publicada por FRAGATA DE MORAIS


Do livro de Crónicas Memórias da Ilha




Prosa poética de Joaquim Nogueira


Prosa poética de Joaquim Nogueira



 ... A MEDIDA DO AMOR; … o tempo demasiadamente lento; …Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto 



... A MEDIDA DO AMOR



...um dia, há milénios passados, perguntei se amar tinha medida, ou peso, ou tamanho; nessa altura, a minha caminhada ainda era prematura e ainda muito «verde» nos caminhos da vida… e nunca ninguém me soube responder e eu, ainda que repetindo a pergunta muitas vezes, nunca sabia «como» amar; se amar deste tamanho, se amar com este peso, se amar de determinada forma ou feitio… se amar tivesse medida eu queria amar com o máximo que ela tivesse...

um dia, há milénios passados, deixei de me preocupar com a forma, com a medida do Amor; pela simples razão de que, durante toda a minha demanda, jamais houvera encontrado essa mesma bitola, essa fita métrica ou essa balança... e foi nesse momento, quando deixei de procurar como é que deveria Amar, de que forma é que deveria «usar» o Amor (como que fosse um componente para se fazer um bolo), que eu descobri que o Amor não tem medida...

o Amor jamais se pode medir, o Amor apenas, é... é amando, é dando-nos completamente numa entrega absoluta, que se consegue amar... e quem o conseguir fazer, para além de tudo o que possa transmitir aos outros, será ele mesmo, uma pessoa inteiramente feliz... não, não amo muito... não, não amo com todas as forças da minha alma... não, não enlouqueço...
 ...amo, apenas...

 

 … o tempo demasiadamente lento

 … o tempo demasiadamente lento… as horas e os dias demoram eternidades… sente-se a pressa e as saudades… é preciso que as horas voem… é preciso que a manhã do dia seguinte surja rápida com a certeza de mais um dia que passou… é menos um dia na contagem voraz de quem sente desejo de um novo encontro para sentir a tal paz…

a serenidade do abraço que nada tem de sereno mas de forte, de pura ternura e ao mesmo tempo de paixão… rege-se então a dádiva da presença… gostosa… imensa… e os corpos se abraçam num rodopiar sem fim, num beijo prolongado, doce, com sabor a jasmim… e a ternura e o amor não termina ali… prolonga-se na alma do sentir que se ama… perde-se então a noção do tempo que se ganhou na espera…

é um momento mágico aquele em que enlaçados, deixamos de ser o que somos para passarmos a ser o beijo de um tão doce e eterno desejo…

 

 …Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto

 ...Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto, sentada num banquinho forrado a tecido de cortinado vermelho, penteavas os teus cabelos, num ritual que funciona mesmo sem dares por isso… a escova passava ora uma, ora duas vezes, de cima para baixo e alisava os teus cabelos sedosos, cor de mel e de marfim… brilhavam no espelho e te revias momento a momento numa expectativa de mudança, o que não acontecia pois não podias ficar mais bela do que aquilo que já eras… a beleza em ti não residia nem morava … era!…

A tua camisa de noite, acetinada bege, de rendas sobre o peito alvo de seios firmes e redondos, deixava transparecer a cor da tua pele suave e doce ao olhar sem ser preciso tocar… a tua cama de lençóis de prata, aguardava o teu corpo numa ânsia sensual de quem à noite, só, te espera num desespero de intocabilidade… e tu, demoravas…

da cómoda tiraste um frasquinho de perfume e te ungiste com ele o que provocou um agradável respirar a todos os móveis que te rodeavam… e a tua cama, ansiava pela tua presença… e o teu corpo demorava a conceder-lhe esse desejo… levantaste-te de frente do espelho e te miraste novamente de corpo inteiro e gostaste da tua imagem alva e bela naquele quarto iluminado pela tua presença… olhaste de soslaio e sorriste… sentaste-te na beira da cama e esta suspirou docemente perante a antevisão de que breve te possuiria…

Tiraste os teus pezinhos leves de dentro dos chinelos de cetim vermelho, levantaste um pouco o lençol e te entregaste total e lentamente ao prazer de estender do teu corpo e da entrega final ao teu leito… a tua cama nem sequer se moveu… aquietou-se para não te perturbar, para que não te arrependesses daquilo que acabaras de fazer, com medo que te levantasses e ela te voltasse a perder… a tua cama inspirou baixinho a fragrância do cheiro da tua pele e deixou-se ficar aguardando o teu próximo movimento… deitada de bruços te deixaste finalmente ficar e tua cabeça leve pousada de mansinho na almofada, arfava lentamente o teu respirar de prazer por mais uma noite de descanso e de sonhos…

Teus olhos semicerrados viram a lâmpada acesa e teu braço se estendeu ao interruptor da mesinha de cabeceira para a desligares... os teus movimentos eram propositadamente lentos para que o tempo demorasse ainda mais do que aquele que já existia… e a tua cama sentia… na obscuridade do teu quarto, teus olhos semicerrados olharam o tecto e se fixaram na sua alva cor que permitia uma réstia de luz no meio da escuridão… olhaste a janela e pelas frinchas da persiana, divisaste a luz cinzenta duma lua crescente… avizinhava-se uma noite de lua cheia e teu corpo descansou por um momento…

a tua cama então suspirou e te abraçou fortemente… em suas mãos te acabavas de entregar… e o sono chegou…. adormeceste… não sei mais o que se passou… a noite decorreu, teu corpo diversas vezes se moveu… a tua cama não se movia, com receio de te acordar... abraçava-te sempre para não te deixar fugir… sentia-te sua e possuía-te num sonho imenso de impossibilidade, de impotência, de raiva, por não te conseguir ter tendo-te ali… tua mente adormecida, movia-se e sabia-se que sonhavas… a tua cama te tinha ali, indefesa, sozinha… sonhavas e eu aqui, nada mais te pedia… nada mais desejava… queria apenas ser o teu sonho…




Estudo do Livro «Memórias Póstumas de Brás Cubas», de Machado de Assis.


Estudo do Livro «Memórias Póstumas de Brás Cubas», de Machado de Assis.

 

 Arlete Deretti Fernandes



 A forma errática e o olhar de classe.

- Brás Cubas, era filho de uma família que não era nobre, mas se fez de nobre. Voltado às aparências. Tinha a mentalidade da classe aristocrática: - Queria subir e ser deputado.

 Eugênia, significa a sociedade da época.

-E é preciso saltar fora da visão de Brás Cubas personagem, senão ficamos restritos. Necessário é interpretar o que Machado quer dizer e aonde quer chegar. Este livro traz uma extraordinária percepção psicológica e sociológica em relação à sociedade do século XIX.

 Memórias Póstumas de Brás Cubas, é considerado o primeiro grande romance da Literatura Brasileira, e, a primeira Obra Prima do século XIX, segundo Roberto Schwarz.

 Este romance quebra radicalmente com as formas do romance romântico e também naturalista. Quem ousou até então escrever um capítulo como o LV, «O Velho Diálogo de Adão e Eva»?

Machado não é linear neste romance, segue a forma ziguezagueante. Os episódios são difusos e fragmentados. São sub - enredos, várias histórias numa só. Ele diz que seu estilo é ébrio. São capítulos curtos, alguns de resistencias. Quebra com a verosimilhança.

 O texto é todo quebrado, não tem começo nem fim. O primeiro capítulo já é o óbito do personagem. O leitor comum do século XIX muito deve ter estranhado. Machado quer reinventar o mundo e rompe com uma tradição da época.

 A Sátira menipéia é um gênero clássico antigo, mas marginal, as sátiras misturam prosa e verso. Machado leu esta tradição marginal do Ocidente em Satiricon. Esta sátira foi um de seus pontos de apoio.

 Brás Cubas é o narrador, personagem da classe dominante, que espezinha os outros. Machado tem uma grande necessidade de brincar com o leitor, de explicar. Logo no primeiro capítulo quer se distinguir de Moisés, da Bíblia, dizendo que será mais original que o Pentatêuco.

 O narrador vai tendo variações em seu personagem de primeira pessoa, ora é sério, ora é irreverente. Ora é cínico e tem uma intimidade com o leitor, até o desrespeita quando vai alterando o personagem que compunha na frase anterior, como se fosse uma «volubilidade narrativa». Este romance tem vários sub-enredos, na forma de pequenos contos intercalados e unidos pela memória do defunto.

 Em 1814 ocorre o episódio com a empregada de Virgília, dona Plácida. Esta acabou sendo alcoviteira e morreu na miséria. O pai queria que se casasse com Dona Virgília porque esta era da alta sociedade.

 Euzébia era a mãe de Eugênia e conservou sua dignidade até o fim.

 O negro Prudêncio era um escravo que serviu de cavalo para o menino, e mais tarde conta a Brás que a mãe de Eugenia mora ali.

 Prudêncio foi alforriado por Brás. Este, um dia o encontra livre, mas conta a Brás que comprou um escravo para si e o maltrata, descarregando o que fizeram para ele, representando aí a sociedade contaminada pela escravidão.

 No capítulo sobre O Rei dos Tártaros, parece incompreensível, mas significa que o Brasil usou tanto a escravidão que se contaminou.

 Marcela, era uma menina bonita e pobre, que vivia da prostituição. Primeiro explorou Xavier, depois Brás. O sistema fazia com que Marcela se prostituísse.

 Eugênia, começa no capítulo XII, «filha da moita», de família pobre, morre na miséria. Seu defeito social aparece como físico, no romance.

 Há um absoluto cinismo no capítulo das botas, quando Brás se livra de Eugênia.(as botas apertadas); A borboleta era preta, se fosse azul, seria diferente.

 Lobo Neves, Cotrim e Brás representam a camada superior.

 No capítulo XXI, denominado «O Almocreve», Brás Cubas se torna um representante típico da classe dominante brasileira, revelando aí seu caráter: - Qualquer coisa satisfaz a quem está abaixo.

 No capítulo XVII e XVIII, entra Virgília . Ela é comparada a uma borboleta azul. Machado vai intercalando estas histórias. Organiza este romance de forma solta, não sabemos se é cinismo ou brincadeira.

 Este romance é escrito sob a visão dos proprietários, dos opressores, mas com a intenção de mostrar o mal que exercia a classe dominante sobre os dominados. O personagem Brás Cubas faz um uso brutal das pessoas, é uma figura cruel e bárbara. O mundo da dependência e do favor é de todos os momentos, é o dia complicado da população. Segundo Schwarz, «um enredo sem culminação, que caminha em direção ao cansaço».

Não são fatos notáveis, com pouca individualização, o que também é um traço especial na modernidade de Machado de Assis.






Valores reais - Daniel Teixeira


Valores reais


Daniel Teixeira


Este titulo e uma parte do texto / argumento é «emprestado» pela nossa amiga e colaboradora do Jornal Raizonline, Renata Rimet, residente na Baía (desculpem lá escrever à portuguesa) e que tem um poema precisamente com este titulo colocado de forma poetizada.

Peço desculpa de não ir agora ver qual a forma exacta utilizada por ela mas esse poema foi publicado no jornal e o que me interessa aqui (para além de plagiar pelo menos parte do título e a ideia de parte do seu conteúdo) é fazer a destrinça que ela faz no seu poema de uma forma mais alongada.

Como sabem não sou poeta nem sintético: poeta gostaria de ser mas ser sintético / sumarizador já é outra coisa e francamente não vou mudar, provavelmente nunca.

O poema da Renata retrata um assalto a um autocarro (não me lembro como se diz no Brasil e estou mesmo atrasado neste texto e não dá para andar a fazer pesquisa - aliás tenho horror ao termo, parece-me que é onibus...

Bem, continuando: no referido assalto o autor do mesmo não leva nada dos valores que quer, mas rouba, segundo a Renata - e com toda a razão - sentimentos às pessoas. Intimidade exposta (quer dizer aquelas coisas que por vezes se levam nas malas ou nas algibeiras ou nas mochilas e que fazem parte da nossa intimidade e que não gostamos que os outros vejam), devassa dos nossos pertences (algumas coisas compradas nos chineses aqui em Portugal, por exemplo e que são conotadas com a penúria pessoal por as termos comprado, o que é paradoxal, mas já veremos isso).

Bem, o que está em causa na descrição poética da Renata é o facto de uma determinada atitude ou comportamento (neste caso um assalto à mão armada ainda por cima) trazer prejuízo a quem o sofre mesmo que não traga, como não traz, vantagem ao outro ou ao criminoso - neste caso.

Pois por mais estranho que lhes possa parecer e tomando a posição do outro (sem crime como é claro) eu posso não obter nada do que quero, retirar (comprando) a outro algo, mas, por uma posição de escala de valores isso não me servir para nada ou para muito pouco.

Se fizerem uma viagem com os olhos - não precisam mexer-se do sofá - verão à vossa volta pelo menos dezenas de coisas que não servem absolutamente de nada e nem sequer já para regalo da vista, como foi o caso daquele pote chinês que se comprou quase compulsivamente num dado dia, que se adorou durante uma semana ou um mês e que acabou por ser arquivado no nosso circuito de atenção.

Pois a sociedade de consumo é assim: as coisas são compradas (e não roubadas (!); a Renata aqui entra de férias neste texto) muitas vezes por impulso. A nossa necessidade natural de novidade, de ver ou fazer diferente, é excessivamente explorada pela nossa envolvência, seja ela comercial ou não.

Depois existe também uma tendência também quase natural para seguir e por vezes perseguir o outro: na minha infância por exemplo lembro-me bem que as coisas desejadas, mesmo de melhor qualidade, se enquadravam quase sempre no necessário: quer dizer, comprar uma mobília ou um colchão melhor, um sofá, uma televisão com um ecrã maior (naquele tempo - agora é com maior fidelidade de imagem), enfim...mesmo que já houvesse uma descolagem do reino do aperfeiçoamento do necessário ameaçando a descambada no supérfluo, ainda havia uma relação com a base que se foi depois afastando progressivamente. Agora andamos constantemente de avião, neste plano...

Perseguir o outro foi a fase seguinte à fase primitiva: começámos a desejar não só o que nos fazia falta como começámos também a desejar o que fazia falta aos outros (vizinhos, familiares, meros conhecidos e os meros desconhecidos que colocavam coisas nas montras - todas elas apetitosas diga-se).

Ficámos assim despojados dos valores reais, dos reais valores, com os quais ainda temos alguma ligação que muitas vezes falseamos oportunistamente: uma coisa não nos faz falta mas dentro das caves do nosso raciocínio encontramos presto para ela uma «utilidade». Esta estante ficava mesmo a matar ao lado da outra que temos naquela  nossa cave onde só vamos duas vezes por ano para borrifar o insecticida.

Breve...temos, de uma forma geral, e descrita de forma exagerada como se requer, uma necessidade grande de «comprar», de ter novo ou diferente...

Ora, sem que isto se aplique senão de forma abstracta, porque razão não direccionamos nós esta forma de desejar para aquilo que mesmo sendo considerado por vezes supérfluo, faz de facto também falta, como a cultura (?) ...

Porque aceitamos (generalizo de novo) melhor um novo modelo de automóvel do que um filme bom? (que até sai bem mais barato...).

Bem, no fundo todos sabemos porquê: é mais fácil encontrar um plasma numa casa relativamente degradada do que uma estante de livros: um é um símbolo de poder o outro é um símbolo do saber e o saber já não se usa. Usa-se a esperteza e essa compra plasmas, carros ultimo modelo e tudo o resto.

Por isso (mas não só por isso) estamos como estamos um pouco por todos os lados deste nosso planeta. A esperteza no entanto é um «bem» de carreira curta, sempre o foi e os espertos nunca acreditaram nisso e ainda não acreditam.

Daniel Teixeira