terça-feira, 14 de abril de 2015

Valores reais - Daniel Teixeira


Valores reais


Daniel Teixeira


Este titulo e uma parte do texto / argumento é «emprestado» pela nossa amiga e colaboradora do Jornal Raizonline, Renata Rimet, residente na Baía (desculpem lá escrever à portuguesa) e que tem um poema precisamente com este titulo colocado de forma poetizada.

Peço desculpa de não ir agora ver qual a forma exacta utilizada por ela mas esse poema foi publicado no jornal e o que me interessa aqui (para além de plagiar pelo menos parte do título e a ideia de parte do seu conteúdo) é fazer a destrinça que ela faz no seu poema de uma forma mais alongada.

Como sabem não sou poeta nem sintético: poeta gostaria de ser mas ser sintético / sumarizador já é outra coisa e francamente não vou mudar, provavelmente nunca.

O poema da Renata retrata um assalto a um autocarro (não me lembro como se diz no Brasil e estou mesmo atrasado neste texto e não dá para andar a fazer pesquisa - aliás tenho horror ao termo, parece-me que é onibus...

Bem, continuando: no referido assalto o autor do mesmo não leva nada dos valores que quer, mas rouba, segundo a Renata - e com toda a razão - sentimentos às pessoas. Intimidade exposta (quer dizer aquelas coisas que por vezes se levam nas malas ou nas algibeiras ou nas mochilas e que fazem parte da nossa intimidade e que não gostamos que os outros vejam), devassa dos nossos pertences (algumas coisas compradas nos chineses aqui em Portugal, por exemplo e que são conotadas com a penúria pessoal por as termos comprado, o que é paradoxal, mas já veremos isso).

Bem, o que está em causa na descrição poética da Renata é o facto de uma determinada atitude ou comportamento (neste caso um assalto à mão armada ainda por cima) trazer prejuízo a quem o sofre mesmo que não traga, como não traz, vantagem ao outro ou ao criminoso - neste caso.

Pois por mais estranho que lhes possa parecer e tomando a posição do outro (sem crime como é claro) eu posso não obter nada do que quero, retirar (comprando) a outro algo, mas, por uma posição de escala de valores isso não me servir para nada ou para muito pouco.

Se fizerem uma viagem com os olhos - não precisam mexer-se do sofá - verão à vossa volta pelo menos dezenas de coisas que não servem absolutamente de nada e nem sequer já para regalo da vista, como foi o caso daquele pote chinês que se comprou quase compulsivamente num dado dia, que se adorou durante uma semana ou um mês e que acabou por ser arquivado no nosso circuito de atenção.

Pois a sociedade de consumo é assim: as coisas são compradas (e não roubadas (!); a Renata aqui entra de férias neste texto) muitas vezes por impulso. A nossa necessidade natural de novidade, de ver ou fazer diferente, é excessivamente explorada pela nossa envolvência, seja ela comercial ou não.

Depois existe também uma tendência também quase natural para seguir e por vezes perseguir o outro: na minha infância por exemplo lembro-me bem que as coisas desejadas, mesmo de melhor qualidade, se enquadravam quase sempre no necessário: quer dizer, comprar uma mobília ou um colchão melhor, um sofá, uma televisão com um ecrã maior (naquele tempo - agora é com maior fidelidade de imagem), enfim...mesmo que já houvesse uma descolagem do reino do aperfeiçoamento do necessário ameaçando a descambada no supérfluo, ainda havia uma relação com a base que se foi depois afastando progressivamente. Agora andamos constantemente de avião, neste plano...

Perseguir o outro foi a fase seguinte à fase primitiva: começámos a desejar não só o que nos fazia falta como começámos também a desejar o que fazia falta aos outros (vizinhos, familiares, meros conhecidos e os meros desconhecidos que colocavam coisas nas montras - todas elas apetitosas diga-se).

Ficámos assim despojados dos valores reais, dos reais valores, com os quais ainda temos alguma ligação que muitas vezes falseamos oportunistamente: uma coisa não nos faz falta mas dentro das caves do nosso raciocínio encontramos presto para ela uma «utilidade». Esta estante ficava mesmo a matar ao lado da outra que temos naquela  nossa cave onde só vamos duas vezes por ano para borrifar o insecticida.

Breve...temos, de uma forma geral, e descrita de forma exagerada como se requer, uma necessidade grande de «comprar», de ter novo ou diferente...

Ora, sem que isto se aplique senão de forma abstracta, porque razão não direccionamos nós esta forma de desejar para aquilo que mesmo sendo considerado por vezes supérfluo, faz de facto também falta, como a cultura (?) ...

Porque aceitamos (generalizo de novo) melhor um novo modelo de automóvel do que um filme bom? (que até sai bem mais barato...).

Bem, no fundo todos sabemos porquê: é mais fácil encontrar um plasma numa casa relativamente degradada do que uma estante de livros: um é um símbolo de poder o outro é um símbolo do saber e o saber já não se usa. Usa-se a esperteza e essa compra plasmas, carros ultimo modelo e tudo o resto.

Por isso (mas não só por isso) estamos como estamos um pouco por todos os lados deste nosso planeta. A esperteza no entanto é um «bem» de carreira curta, sempre o foi e os espertos nunca acreditaram nisso e ainda não acreditam.

Daniel Teixeira






sábado, 11 de abril de 2015

O Fantasma Caminhante (Conto) - Por Arlete Piedade Louro


O Fantasma Caminhante (Conto)

Por Arlete Piedade Louro

Numa terra muito distante, bem ao norte da velha Escócia, no pico mais alto de uma montanha gasta pelo tempo e erodida pelos temporais que chegavam do mar do Norte, erguia-se um castelo sombrio de torres altaneiras e espectrais.

Não se sabia se o castelo era habitado, nas montanhas em redor não havia ninguém que o pudesse saber, mas velhas lendas passadas por tradição oral de pais para filhos, relatavam que era assombrado por fantasmas como aliás todo o castelo escocês que se preze.

Constava que há centenas de anos, quem sabe até milénios, o castelo era habitado por um orgulhoso conde, senhor de todas as terras em redor, até ao mar a norte, a ocidente e oriente, e até á grande cidade a sul.
 
Dizia-se que ele era rebelde e de cabelos vermelhos, e que os seus antepassados tinham chegado pelo mar, da terra dos Vikings.
Um dia uma princesa infeliz chegou àquelas paragens, para curar seus males de amor e esquecer um casamento imposto por conveniências da corte real e o seu séquito ficou alojado no castelo do nobre senhor.

Seguiram-se passeios e cavalgadas, pelas terras selvagens e cobertas de urzes até ao mar, em que a infeliz princesa era acompanhada pelo Senhor do Castelo, com um pequeno séquito que os seguia até que um dia, o conde dispensou o séquito, alegando que não havia qualquer perigo naquelas paragens solitárias.

Oito meses depois de a princesa ter regressado á corte a chamado do seu marido, o príncipe, nasceu um principezinho, que foi nomeado herdeiro da coroa e a seu tempo foi aclamado rei de todas aquelas nações. O velho senhor do castelo diz-se que desesperado e solitário, cavalgou até ao mar e partiu no seu barco viking para Norte, em direção á terra dos seus antepassados, e nunca mais foi visto.

O rei que alguns diziam muito em segredo, ser filho bastardo do senhor do castelo, um dia passados muitos anos, depois da morte de sua mãe, veio em peregrinação conhecer os locais onde a sua mãe reencontrou a felicidade, mas o castelo estava deserto e só em noites em que a neblina vinda do mar, cobria os vales, se dizia que um fantasma era visto caminhando sobre as névoas em direção ao castelo.

O rei ainda subiu á mais alta penedia, no pico a sul do castelo, numa noite enovoada, o seu cabelo vermelho resplandecendo na escuridão, molhado pelo nevoeiro, mas o fantasma não apareceu.

Todos os anos o rei regressava nas noites de neblina, mas os negócios do reino, eram mais urgentes até que desistiu de encontrar o velho fantasma, que no entanto, dizem os raros habitantes, ainda pode ser visto em certas noites caminhando sobre as névoas.

Arlete Piedade Louro

Portugal.



O dono do "Bazar do Waldomiro" e a duplinha sertaneja iniciante...


O dono do "Bazar do Waldomiro" e a duplinha sertaneja iniciante...

Por Se Gyn

É lugar comum, dizer que Waldomiro Bariani Ortêncio, paulista de nascimento e, goiano por afetividade, é hoje uma das sumidades intelectuais do estado de Goiás.

Em sua interessante biografia, encontram-se a adolescência no setor de campinas (onde o pai se estabeleceu e, tinha uma serraria), a passagem pelo time do Atlético Esporte Clebe, a carreira de empresário, que começou com uma loja que acabou virando uma cadeia de loja de discos - o famoso Bazar Paulistinha - espalhada, por Goiânia e, Brasília, a experiência de radialista na Rádio Clube de Goiânia, a experiência como compositor e, depois, a consagração como uma figura proeminente, dedicada à literatura, como escritor, filólogo, e pesquisador.


A importância dele no mercado regional de gravações, pode ser medida pela sua citação, em gravações de músicas do homem do campo. Conheço pelo menos duas músicas sertanejas que fazem referência à sua figura: "Pagode em Brasília", cantada pela dupla Tião Carreiro e Pardinho - e, talvez uma das peças mais famosas e, divulgadas de seu repertório e, "Saudades de Goiás", cantadas pela dupla Belmonte e Amaraí.

Na primeira, da autoria de Teddy Vieira e Lourival dos Santos, os versos de referência são estes": "No estado de Goiás meu pagode está mandando/ O bazar do Vardomiro em Brasília é o soberano/ No repique da viola balancei o chão goiano/Vou fazer a retirada e despedir dos paulistano/ Adeus que eu já vou me embora que Goiás tá me chamando.", referência explícita à pioneira abertura de uma filial do "Bazar Paulistina" na capital federal.

Na outra referência, dizem as duas primeiras estrofes da belíssima canção composta por Goiá e Zilo: "Goiás é saudade em tudo que falo/ Às vezes me calo por essa razão/ Mas o Valdomiro Bariani Ortêncio/
Rompeu o silêncio do meu coração/ Porque em seu livro “Sertão Sem Fim”/ Mandou para mim recordação. Em seus personagens eu vi os goianos/ Que há quase dez anos não posso mais ver/ A grande saudade bateu em meu peito/ Não tive outro jeito se não escrever/ Humilde mensagem á terra querida/ Que nunca na vida irei esquecer."

A referência da segunda peça musical, não carece de muitos comentários, pois se refere já ao tempo em que ele mergulhou com êxito no mundo da literatura, falando de um romance publicado pela editora UFG, que o consagrou.

A primeira referência talvez seja interessante, pelo fato de que fala do período anterior, quando era um empresário que se dedicava ao comércio de discos, na região do centro-oeste do Brasil (do que decorria o profundo respeito e relacionamento com a turma da música sertaneja).

Eu, por exemplo, só soube da verdadeira importância e influência de Waldomiro Bariani Ortêncio no ramo, depois de ouvir umas histórias contadas pelo Dalmi, remanescente da dupla Sinval e Dalmi e, que é um membro da Orquestra de Violeiros do Estado de Goiás, atestando o quanto a formação do mercado de música sertaneja regional deve-se à atuação dele no mercado e, na sua vontade de colaborar com os músicos iniciantes.

Disse ele, que bastava uma dupla levar um cartão de recomendação do" Waldomiro" para São Paulo, que as gravadoras, confiando no seu tino e faro, chamavam as duplas sertanejas para gravação.

E aí me contou uma história muito engraçada, sobre o começo da carreira da sua dupla.


Depois de mudar-se para Goiânia, encontrar o parceiro ideal, afinar as vozes e execução dos instrumentos (sanfona e violão) e, prepapar um repertório para gravação do primeiro disco, Dalmi foi até o Bazar Paulistinha da Avenida 24 de Outubro pedir ao influente empresário que desse uma força, recomendando os dois, para a gravação do primeiro e sonhado disco - o Sinval, segundo ele me disse, era meio tímido para essas coisas, só indo mesmo ao Bazar para flertar com a  bonita e simpática gerente.

Depois de alguma exitação, Bariani deu um cartão a Dalmi, que tinha o seguinte e, breve texto, no verso: "Ao fulano da gravadora tal: ouça a dupla e, se puder, grave".

Pegaram o cartão e, se mandaram para São Paulo, levando na mala o repertório de músicas de "dor de cotovelo - muito em moda, na época", para exibir e, acabaram voltando com a notícia do disco gravado.

Chegando em Goiânia, Dalmi caprichou no penteado e no visual e, bateu para o Bazar Paulistinha com uma "prova" do disco debaixo do braço, onde pediu pra colocar para tocar. Daí, abordou o Bariani, inquirindo-o, com o seu sotaque interiano: "Hein?, Wardumiro, quantos discos da nossa dupla cê vai pedir pra gravadora, pra  ajudar?"

Bariani, não devia estar num bom dia, e só respondeu: "Eu? Esse disco aí? Não vou pedir cópia nenhuma..."

Que situação aquela. Depois de lutar para gravar o disco sonhado, a dupla não teria como vender o disco gravado, nem ter a divulgação da principal loja de discos de região centro-oeste.

Mas, passandos uns dias, Dalmi descobriu que um outro empresário estava abrindo uma loja de discos bem em frente ao mercadinho central da campininha, levou a "prova (uma cópia rudimentar, do disco)" para tocar e, logo, algumas pessoas pararam na porta, perguntando de quem era a música que tocava. E o tal empresário pediu uma remessa de 50 discos da gravadora - mas, o disco de "prova" teve que ficar, para a promoção.

Quando a encomenda chegou na loja, os discos foram vendidos em uma semana. E uma nova encomenda de mais 200 unidades foi feita.

Logo, uma das faixas já estava sendo executado pelas rádios de Goiânia, nos programas sertanejos.

Dias depois, Sinval e Dalmi, satisfeitos da vida, foram até o Bazar Paulistinha, que era um lugar onde o pessoal do mundo da música ia, para saber das novidades e, bater um papo. Na chegada, Sinval já bateu o umbigo no balcão, para prosear com a gerente e, ela virou-se imediatamente para o dono do estabelecimento, dizendo:

" - Ô seu Waldomiro, como é que faz? O povo não para de procurar o disco dos meninos aqui e, uma das músicas "tal não para de tocar nas rádios..."

E ele, respondeu, ríspido: "Ah, tá bom, tá bom! pede duzentas cópias desse disco aí!" E, encerrou o assunto.

Mais de quarenta anos depois de acontecido o fato, me contou o Dalmi que havia encontrado o amigo Bariani Ortêncio e, ele o havia convidado para a festa de seus 70 anos, exigindo, entretanto, que ele e outro levasse o acordeon, para animação da festa.

No meio de uma conversa, falando da vida, das coisas passadas e do tempo que transcorreu, Dalmi recordou essa história para Bariani, que, diz ele, ficou meio sem jeito e, respondeu:

"- Não Dalmi! Eu não fiz isso com sua dupla, não..."

E Dalmi, rindo, confiando na cumplicidade de quem se tornara admirador e amigo, confirmou:

"- Fez. Fez, sim!..."
............................
Depois de ouvir essa história, fiquei aqui pensando quantas histórias e informações interessantes devem haver resultantes dos relacionamentos e amizades deste grande escritor com o mundo da música sertaneja, e com os seus bandeirantes...

Se Gyn



Poesia de Euclides Cavaco


Poesia de Euclides Cavaco

 
NAU FEITA DE SONHOS

por Euclides Cavaco.

Minha nau feita de sonhos
Parece às vezes perdida
Quando os ventos são medonhos
Neste oceano da vida.

Ai quantas vezes os ventos
Sem saber porquê se agitam
Causando à nau tais tormentos
Que o seu curso debilitam.

Eu procuro navegar
Ser da nau um bom arrais
E luto prà controlar
Ao encontrar vendavais.

Quando amaina a tempestade
Fico feliz não o nego
Ao sentir tranquilidade
Nesta nau onde navego !...

Euclides Cavaco

 
ALVORADA DE ABRIL

por Euclides Cavaco

Mais um Abril a brotar
Que nos apraz celebrar
Em cada ano que passa
P’lo grande significado
Dum Povo que amordaçado
Pôs fim à vil ameaça.

Abril, é toda a bravura
Que derruba a ditadura
Dum poder ultrapassado
Com toda a intrepidez
Traz ao Povo Português
O que em lei lhe foi roubado.

Abril dum povo unido
Que se afirmou destemido
Sem qualquer excesso hostil
Com civismo e com respeito
Restaurou o seu direito
Nesta ALVORADA DE ABRIL.

No seu sentido maior
Infunde o fim opressor
Da déspota austeridade
Abril é data de glória
E proeza peremptória
Que instaurou a liberdade !...

Euclides Cavaco




quinta-feira, 9 de abril de 2015

O VERBO ESCREVER - Por Miriam de Sales Oliveira


O VERBO ESCREVER

Por Miriam de Sales Oliveira

http://miriamdesalesoliveira.blogspot.pt/2015/04/o-blog-de-marcoabril2015-um-blog.html?spref=fb

Olha a página em branco e fico pensando o que escrever sobre o verbo escrever; sei que vem do infinitivo scribere,latim, é um verbo transitivo,irregular –para o dicionário,já que para mim é mais que regular,pois,regula minha vida e me põe aqui sentada neste computador todas as manhãs,religiosamente,tentando tirar ideias da memória e passá-las adiante,sem ao menos saber se alguém se interessará por elas –

Escreve-se muita  coisa ou grafa ,ou redige-se ,tudo sinônimo do mesmo verbo,intransitivo e intransigente; no tempo presente,digita-se,já que datilografar ,como era no meu tempo,é como eu mesma,coisa do passado.
Podemos escrever a nota do mercado, que alimentará a família,ou notas sobre alguém - favoráveis ou não - elevando ou destruindo reputações ou escrever versos com a maestria dos grandes poetas ou livros que marcaram a humanidade e influenciaram gerações.

Para alguns,escrever é uma necessidade; para outros,compulsão.Digo isso porque vejo o desespero de algumas pessoas que se entocam,perdem os bons momentos da vida,rebuscando textos,modificando suas próprias ideias,ouvindo opiniões críticas,preocupando-se com sinais ortográficos,como se o ato de escrever fosse uma prisão em vez de uma alegria ou expressão de si mesmo.Para mim,isso se parece com prisão de ventre:dolorosa e incomodativa,além de anti – natural,claro.Não creio que escrevam por prazer,mas,como disse uma certa mocinha a um grande escritor meu amigo,ele mesmo ,um mestre na arte da escrita:
-Escrevo preocupada com o mercado,perco noites pensando se o livro vai vender,quero ficar rica e famosa.

Meu amigo que,como eu ,nunca se preocupou com essas firulas e escreve por prazer,ficou um pouco chocado,com as opiniões dessa” cultural climber”,alpinista social,que,jamais chegará onde quer, porque,o ato de escrever é místico,tem que fluir,é como fazer xixi,como dizia outro mestre ,Lobato,que sabia que livro muitas vezes mexido e consertado,desanda como doce de leite e não consegue passar emoção,pois,o autor está preso a regras e convenções,além de falsas esperanças.

Escrever é uma necessidade que,nem sempre supre nossas necessidades  básicas,pois,uma carreira literária constrói-se ao longo de vinte anos ou mais,alguns como Melville,morrem sem ter alcançado a fama,mulherzinha venal e caprichosa ,que anda sempre rondando a “Deusa Cadela”,como D. H. Lawrence,se referia á Literatura.

Está claro ,para mim,uma coisa: escreva claro e ponha emoção no que faz,esse é o segredo da escrita.E,acima de tudo,não escreva para os outros; para mim,escrever é um diálogo  do escritor consigo mesmo,pois trás para o presente  a sabedoria que se aprendeu durante a vida.
Se Deus escreve certo por linhas tortas,porque devemos nos preocupar tanto com acentos,ortografias, porque ter medo de neologismos,brilhantemente criados por Guimarães Rosa,se a língua é móvel,como as mulheres,aliás é a língua,notou, e o povo é seu único dono e senhor?

Do latim castrense, falado errado nos quartéis,nasceu o português,nossa língua ,última flor do Lácio,inculta e bela ,como disse Bilac.





Lendas


Lendas


Martim Moniz

O nome de Martim Moniz está ligado à conquista de Lisboa aos Mouros e figura na memória da cidade através de uma praça com o seu nome. A lenda conta que D. Afonso Henriques tinha posto cerco à cidade, ajudado pelos muitos cruzados que por aqui passaram a caminho da Terra Santa.

O cerco durou ainda algum tempo, durante o qual se travavam pequenas investidas por parte dos cristãos. Numa dessas tentativas de assalto a uma das portas da cidade, Martim Moniz enfrentou os mouros que saíam para repelir os cristãos e conseguiu manter a porta aberta mesmo a custo da sua própria vida.

O seu corpo ficou atravessado entre os dois batentes e permitiu que os cristãos liderados por D. Afonso Henriques entrassem na cidade. Ferido gravemente, Martim Moniz entrou com os seus companheiros e fez ainda algumas vítimas entre os seus inimigos, antes de cair morto.

D. Afonso Henriques quis honrar a sua valentia e o sacrifício da sua vida ordenando que aquela entrada passasse a ter o nome de Martim Moniz.
O povo diz que foi D. Afonso Henriques que mandou colocar o busto do herói num nicho de pedra, onde ainda hoje se encontra, junto à Praça de Martim Moniz.


A Mula da Rainha Santa

A Rainha Santa a que se refere esta lenda é D. Mafalda, a filha preferida de D. Sancho I e a irmã favorita de D. Afonso II.

A jovem princesa era bela e perfeita como poucas e senhora de uma esmerada educação. Naquele tempo, subiu ao trono de Castela D. Henrique, uma criança de doze anos apenas, facilmente manobrada pelo seu tutor, Álvaro de Lara, que queria governar através do jovem rei.

Querendo-lhe dar como esposa uma mulher que o dominasse quando fosse adulto, escolheu D. Mafalda e o casamento celebrou-se.

D. Berengária, a mãe de D. Henrique, invocou ao Papa a consanguinidade dos jovens e o divórcio teve lugar antes da súbita morte do rei aos 14 anos.

D. Mafalda regressou a Portugal virgem e assim se manteve até ao fim da sua vida, passando desde então a ser tratada por "rainha". Viveu os últimos anos da sua vida no Mosteiro de Arouca, onde recebeu o hábito de monja.

Morreu aos 90 anos durante uma cobrança de foros e rendas em Rio Tinto, cujos habitantes queriam que D. Mafalda fosse sepultada nessa mesma terra.

Mas em Arouca discordavam, porque era no Mosteiro que ela vivia e na sua igreja deveria repousar o seu corpo para sempre.

Estava a discórdia instalada quando alguém se lembrou de dizer que se pusesse o caixão em cima da mula em que a Infanta costuma viajar e para onde o animal se dirigisse seria o local onde seria sepultada.

A mula não teve dúvidas e quando chegou à igreja do Mosteiro de Arouca, acercou-se do altar de S. Pedro e aí morreu.

O sepulcro de D. Mafalda foi duas vezes aberto no século XVII e tanto o seu corpo como as suas vestes estavam incorruptos. Em 1793, o Papa Pio VI confirmou-lhe o culto com o título de beata.


Lenda de Santa Joana Princesa

A princesa D. Joana, filha do rei Afonso V, revelou desde muito tenra idade uma grande vocação religiosa. Esta filha primogénita, apesar de ser obrigada a viver na Corte pela sua posição, afastava-se o mais possível de festas e convívios e passava grande parte do seu tempo a rezar e a meditar.

A princesa era, dizia-se, muito bela e teve muitos pretendentes, entre estes muitas cabeças coroadas, mas a todos recusou alegando a sua intenção de se tornar freira.

Com a autorização real, entrou D. Joana para Odivelas, mudando-se mais tarde para o Convento de Santa Clara de Coimbra, mas acabando por resolver professar no Convento de Jesus, em Aveiro.

Esta última decisão foi contestada tanto pelo rei como pelo povo, dado que o Convento de Jesus era muito pobre e, na opinião geral, indigno de uma princesa.

Por outro lado, o povo discordava da vocação da princesa e não queriam que ela professasse. Perante tanta discórdia D. Joana decidiu não professar, mas declarou que usaria o véu de noviça para sempre e insistiu em ingressar no Convento de Jesus, vivendo na humildade e na pobreza e aplicando as rendas que possuía no socorro dos pobres.

A sua caridade era tão grande que depressa ficou conhecida como santa.
Mas a bela princesa adoeceu de peste e morreu em grande sofrimento.
Quando o seu enterro passou pelos jardins do convento deu-se um facto insólito: as flores que ela havia tratado em vida caiam sobre o seu caixão prestando-lhe uma última homenagem.

Após este primeiro milagre, muitos outros foram atribuídos a Santa Joana Princesa, levando a que, duzentos anos depois, o Papa Inocêncio XII concedesse a beatificação a esta infanta de Portugal.





 

Poesia de Marcos Loures


 
 
Poesia de Marcos Loures

O CUSTO DA ESPERANÇA

O custo da esperança é a tristeza,
Do nada conseguir após a luta,
Ao ter a solidão por sobremesa,
Eu sinto quanto a vida se faz bruta.

Uma alma necessita ser astuta,
Vencendo qualquer forte correnteza,
Porém quando insegura, ela reluta,
Naufraga sem mostrar qualquer destreza.

Versando sobre o quanto que te quis,
Riscando o quadro negro, apago o giz,
E deixo este vazio na parede.

Percebo quanto estúpido é sonhar
E volto a realidade devagar,
Do mar que imaginei sobre a sede...

CAMINHEIRO

Da vida um caminheiro sem paragem,
Adormecendo, lembro-me de ti,
Relembro cada cena que vivi,
Como se fosse agora, vã miragem...

Reconstruir meus sonhos e seguir
Sorvendo cada gole de esperança.
E quando maltratar-me tal lembrança,
Olhar para o futuro, e no porvir

Saber que este andarilho coração,
Terá algum descanso, finalmente,
Nos braços de outro alguém, ir plenamente
Buscando novo rumo e direção,

Até poder dizer que estou em paz,
Diverso do que fui tempos atrás...

NAS ÁGUAS DESTE AMOR

Amor enche barriga? Mas esvazia
E quando isso acontece, outro guri,
Ou pode ser também uma guria,
É lá no Ceará ou bem aqui.

A fome vem chegando pela porta,
Amor pula depressa uma janela,
Quem disse que com isso não se importa,
Um belo mentiroso se revela...

Amor numa casinha de sapê,
Na beira do riacho... isto é poético
Mas quando o trem aperta, ninguém crê
Que ainda exista algum espírito ético.

Mas deixa de conversa e venha logo,
Nas águas deste amor, quero e me afogo.