quinta-feira, 2 de abril de 2015

Jornal Raizonline Nº 266 de 2 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 266 de 2 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira


Eleições e Abstenção

As eleições para o Parlamento Europeu são universalmente conhecidas como sendo aquelas que maiores volumes de abstenção proporcionam.

Mas as razões para que tal aconteça são as mesmas que são argumentadas quando se obtêm números baixos de participação noutras eleições e que se resumem mais ou menos assim neste ping - pong : «Para quê ir votar se fica tudo na mesma?» - da parte dos abstencionistas, e:  «A nossa mensagem não chegou a todo o eleitorado!» da parte dos «abstencionados».

O que não deixa de ser curioso, tanto a repetição dos clichés, como a análise «científica» dos dirigentes e outros elementos partidários: porque não se pode dizer que uma coisa que está farta de partir (a tal de mensagem) não chega. Antes de ir apanhar a bola (votar) ela já foi mandada dezenas ou mesmo centenas de vezes para o campo das nossas misérrimas possibilidades de escolha.

Para mais sabe-se que, em termos estratégicos, os mais interessados na ida às urnas são precisamente os concorrentes, os partidos políticos (cada voto vale x €). Por isso com a significação que o voto atinge, é normal a afirmação repetida do «Para quê ir votar se fica tudo na mesma?».

Estamos convencidos que para que a situação se modificasse teria que ser estabelecido um significado real ao acto, porque se assim não for cada vez haverá uma maior abstenção e cada potencial eleitor acabará por tornar mais repetida a solução «moeda ao ar» da cara ou coroa da abstenção.

Ora entende-se que a base da democracia é a participação dos cidadãos e quanto menor for o volume de participação mais a democracia se esfuma e isto é dito de forma que quase toma um valor absoluto.

A base da democracia é ter gente capaz de ser escolhida para governar, em primeiro lugar. Para se participar em algo é preciso ter onde participar: não se joga futebol sozinho, dão-se uns toques na redondinha, nada mais.

As eleições europeias são a base mais expressiva, apresentado especificidades mais claras na rotura, que de uma forma geral se conjugam quase ao extremo: através da maior distância entre eleitorado e candidatos, através do nível de conhecimento e de complexidade dos nossos interesses em jogo. Ou seja, estes, quase nenhuns.

Ora, se hoje, mesmo a nível nacional de todos os países ninguém percebe pévia do que se passa, isso resulta talvez do facto de não haver nada para perceber senão aquilo que já se percebeu.

Aqui em Portugal, por exemplo :

sabe-se - agora bem mas antes (durante muitos anos e até dias mais recentes) pouca gente pensou nisso - onde se foram buscar milhares de milhões de Euros para comprar os passivos dos Bancos falidos,

sabe-se que se tem feito uma frenética corrida à poupança em serviços públicos, muitos deles ficando praticamente inviabilizados,

sabe-se da impossibilidade de resposta à vida de milhões de portugueses que vivem abaixo do nível de pobreza,

sabe-se que o acima falado nível de pobreza está fixado através de fórmulas devidamente abstractas de interdependência que ninguém consegue entender a menos que perca uma vida a tentar destrinçar as escorregadias Leis, Despachos, Esclarecimentos, etc.

sabe-se também que os factores de cálculo sobre este limiar e outros limiares mínimos são burocraticamente alteradas à velocidade do som.

e sabe-se que existe um verdadeiro saque tributário.

Enfim...percorrendo o caminho «exemplar» das Eleições para o Parlamento Europeu e entrando nos seus sub - sectores nacionais (Eleições Presidenciais, Eleições para a Assembleia da República, Eleições Autárquicas, etc.) sabemos que estas (todas elas) servem apenas como factor de diferença quantitativa mínima, diferença essa que é praticamente nula em termos de substância e resultados palpáveis para as populações.

Assim a ausência da possibilidade de entender o que quer que seja sobre a vantagem de votar ou não votar proporciona a repetição do hábito (por isso mesmo se chama de hábito, por ser repetido) e prevê-se, facilmente aquilo que vai progressivamente acontecendo.

Ao nível que as explicações sobre a utilidade do voto (ou da abstenção) se colocam no povo, acabamos por saber que tudo é  misterioso:

umas vezes resulta tudo, pelo menos verbalmente, em milagres da multiplicação dos pães, outras vezes são o passe de mágica da desaparição do singelo pão prometido.

Eu, espero sem esperança, que algo de inesperado aconteça, porque tem de ser mesmo inesperado: na verdade das cansadas rimas e refrões propagandísticos já se sabe tudo.




Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira

A minha casa sonhada

Casa, palavra tão pequenina no seu tamanho
Casa, palavra tão gigante no seu valor
Casa, tão querido esse meu sonho…
Anos longe e ainda no peito o mesmo fervor

A mesma tristeza, a angústia que oprime o coração 
O coração estrangulado pela ânsia de regressar
A chaga aberta de quem se sente perdida na imensidão
A dor de todos os dias acordar fora do ninho que continuo a recordar

A vontade, a simples vontade de me aninhar no lar tão almejado
O lar que sonhei em menina, o lar que quis construir já crescida
O país onde nasci e cresci e de onde me roubaram, esse país tão despedaçado…  

A sensação de não pertencer aqui nem ali, a sensação de estar perdida
O sonho de, por um momento, para sempre talvez, voltar a sentir-me parte desse país amado
Voltar a sentir-me, por um instante, para sempre talvez, completa!


Alvorada

Tão feia e deserta me pareces nesta noite cruelmente envenenada
A harmonia da tua singular magia já tão maculada pela separação…
Choro baixinho, nesta noite escura e gélida tão tristemente antecipada…
E murmuro uma prece que atrase o clarear baixinho desta tenebrosa escuridão

Como uma criança que de um sonho imenso não quer despertar…
Aguardo silenciosamente pelo clarear do alto da minha torre de cristal
A escutar a ferocidade do mar, que ao longe comigo se parece revoltar
E ao ritmo das marés também eu me abandono a esse anseio visceral…

Envolvo-me cuidadosamente no meu manto carmesim de pura saudade,
Angústia que já me come os ossos como um fado de uma mulher amargurada…
O céu ainda se cobre de negro, mas ao longe espreguiça-se o Sol sem piedade

E eu, uma cigana enraizada, derramo pesadas lágrimas de despedida
Uma por cada tonalidade pintada no céu em largas pinceladas de vida
Enquanto murmuro “Adeus, minha terra tão amada”, ao nascer da alvorada…


Girassóis

Campo imenso de viçosos girassóis dourados 
Flores alegres e tão cheias de vida
Ao longe admirado como os mais belos prados
Ao perto adorado com paixão incontida

Campo imenso de viçosos girassóis dourados 
Arrancados pela raiz pelo inclemente vendaval
Mãos cruéis que rasgam a terra sem nenhuns cuidados
Tempestades que arrancam cada girassol do seu pedestal

Campo imenso de viçosos girassóis dourados 
Onde alguém um dia, quando o vendaval pára de soprar 
Cansado de acreditar no ouro dos campos amargurados

Planta com ternura uma túlipa na terra já seca e salgada
Uma túlipa tão delicada e sincera que parece não poder vingar 
E a flor desperta viçosa e espreguiça-se ao nascer da alvorada…  




Rápida memória - a tragédia do acidente radiológico na rua 57 - Por Se Gyn



Rápida memória - a tragédia do acidente radiológico na rua 57


Por Se Gyn

Uma bomba de aparelho de radiologia irresponsavelmente abandonada num terreno baldio no centro da cidade foi levada por catadores de sucatas e aberta, com a intenção de retirar o chumbo, para ser vendido, em 1987.

Tragédia.

Acharam graça no efeito luminescente do Césio 137 - cujos grânulos guardaram numa vasilha. À noite, eles brilhavam intensamente no escuro e, a linda e pequena Leide, consumiu alguns deles. A contaminação radiológica rapidamente se espalhou entre a vizinhança, que ia até a casa, para ver a novidade. Logo se notaram os efeitos, com gente sofrendo os primeiros efeitos, procurando ajuda médica nos postos de saúde pública da cidade.

Notícia trombeteada, que se espalhou rapidamente pelo país e, aos poucos, pelo mundo. Pânico em São Paulo - Hebe Camargo dizia que Goiânia e os goianienses deviam ser evitados e segregados. Eu, que morava no Setor Aeroviário e passava pelo centro da cidade todos os dias, voltando da faculdade, ficava espantado com aquele pânico, que me parecia inexplicável, ante às providências tomadas.

O governador Santillo recebeu ajuda imediata do governo federal, através dos técnicos da CNEN - Comissão Nacional de Energia Nuclear, que tomou conta de tudo - isolou parte d acesso ao bairro Popular e interditaram a entrada na rua 57. Mais pânico - e piada dos brasilienses, por exemplo: "sabe como reconhecer um goiano? É só coloca-lo no escuro, para ver se brilha!".

Santillo foi para São Paulo, e procurou a imprensa. Médico e administrador enérgico e bem informado, rebateu o pânico e esclareceu tudo. Era um acidente radiológico e, não nuclear, a radiação não ia se espalhar além do local, não se cansava de repetir. Foi dando certo.
Mais de oitenta contaminados. Leide das Neves, cara de baianinha linda, internada e em coma.

Siron Franco, que havia morado na rua 57, chocado com o fato, deixou São Paulo e ocupou uma casa na rua 54 e fez dela um estúdio. Hipnotizado pela tragédia e pelos fatos, pirou, e enquanto assistia a tudo na quase dezena de televisores espalhados pela casa, produzia uma série lancinante de quadros, retratando o fato.

E dava entrevistas, e fazia o que era possível para denunciar a tragédia e, ao mesmo tempo, afastar o preconceito. - entrementes, um crítico se comprazia em taxa-lo de oportunista, através de um jornal.

E a coisa foi indo, malgrado o sofrimento inexorável dos atingidos, a despeito do apoio do governo estadual. Os técnicos da CNEN e os servidores da Secretaria de Saúde deram conta do recado. O imóvel onde foi o epicentro de tudo foi colocado abaixo e seu chão escavado e concretado.

Mas, entre os atingidos pela contaminação radioativa do césio 137, a coisa se complicava - sofrimento, desespero, amputações de membros, e mortes . Leide se foi. No enterro dela, presenciado por pouco mais de uma dezena de corajosos familiares, chegou o vereador José Nelto e sua trupe, para injuriar a inocente, apredejando seu caixão.

E os goianienses e goianos, vivendo experiências pouco confortáveis, ao cruzar o rio Parnaíba.No setor Aeroviário, região oeste da cidade, sensação de distância e, ausência de perigo, imediato ou próximo.

Atualmente, o depósito de material contaminado da rua 57 é modelo e roteiro obrigatório dos estudantes da rede pública de ensino. E os goianienses parecem preferir não se recordar do fato.

Uma história (que parece uma piada curta e grossa) que ouvi hoje me fez voltar ao tempo e recordar tudo. A história é esta:

Rio de Janeiro. Barreira policial - fiscalização de trânsito - "documentos por favor". "Ué!, em Goiânia não está todo mundo morrendo de Césio?". Mudez. E depois, ríspida resposta: "Olha, sargento, estão morrendo bem menos goianos de Césio do que cariocas de Aids." De fato - meados dos anos 80 e...

O tempo fechou.

Um link para os quadros de Siron Franco sobre a tragédia da rua 57:

http://ardotempo.blogs.sapo.pt/2009/02/17/

Ode ao Quinhentão - Poema de Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS


Ode ao Quinhentão

Poema de Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS

(Esta poesia foi feita em sala de aula, durante Curso Livre de Poesias e Literatura Brasileira, no distante ano de 2000)

I

A bruxa vestida de negro
 Com muitas verrugas e muitos pêlos
No nariz, pilota vassoura
 Já gasta puída, careca
 Que o diabo à guinchar agoura.

II

O que é o Brasil, que ninguém vê?
 -Zunzuns, assovios, vastos gritos
 Permeiam a mata, onde o ipê
 Se destaca, belo altaneiro:
 Onde mora o saci pererê.

III

Montado num porco, o caipóra
 Vigia gnomos brasucas e Yara
 Mãe d’água, que sonha com botos
 Que atraem moças virgens pro rio...
 E o curupira que vigia as matas
 Por cinco e longos séculos à fio
 Pra que não se façam queimadas
 Nem deixar que poluam as cascatas
 Onde se banha Yemanjá.
 O esforço parece que é vão...

IV

Matas tantas, quantas, imensas
 Manacás, mandaquis, jabotis
 Mangabas, goiabas, sapotis
 Que o fogo aos poucos consome...
 Fechemos nossos olhos à dor
 Joguemos sal por sobre os ombros
 -Que vá de retro, lobisomem.

V

São os entes imaginários
 Que povoam nossas cabeças
 Antropofagia de mários
 Provocando muitos enleios
 Bois-mamão, bumbá e as mulas
 Sem cabeça, são os cavalos
Marinhos, reizados, catiras
 E o negrinho do pastoreio
 Cabeça urbana, pés caipiras.

VI

Justifica-se o meu Brasil
 Tão caboclo, caipira, gentil
 Tão audaz, sereno, dolente
 Esse mulato insoneiro
 Ainda moço, só quinhentão
 Que crê: para ser brasileiro
 E preciso amansar barbatão
 E com meia braça de corda
 Chegar um touro ao mourão
 E preciso calçar esporas
 E cair muitos, muitos tombos
 E sentir o ardor das chibatas
 E fugir para poucos quilombos
 E ter na cabeça um mote
 Paciência, a mais não poder
 E muito peso no cangote
 Fazer verso de pé quebrado
 E sofrer, viver o agora
 Ser índio, ou mulato indolente
 Contar «causos», onde se gabe
 Que o Brasil é terra da gente!

Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS





quarta-feira, 1 de abril de 2015

O livro de Ocimar - Conto por JOSE GERALDO MARTINEZ


O livro de Ocimar - Conto por JOSE GERALDO MARTINEZ 


Lá estava ele, meu amigo Ocimar lançando um livro de auto-ajuda. Nos seus setenta anos de idade, muitos deles dedicados a educação.

Professor nível três, conhecido pela seriedade e dureza com as chamadas «turminhas do fundo» (Aquelas no fundo da classe, normalmente organizando o churrasquinho ou a festinha na república das meninas). Ocimar não perdoava!

Os mais sortudos conseguiam ficar de recuperação, quando não, eram reprovados incondicionalmente! Conhecido pelo mal humor e não poderia ser diferente para um homem de setenta anos que na infância conheceu a palmatória, além de ser filho do senhor Donato, calabrês de poucos amigos!

Prestigiando o lançamento do tal livro de auto-ajuda de Ocimar e pensando na pergunta que ele havia me feito: - Martinez, você gosta de escrever, nunca pensou num livro de auto-ajuda? Cheguei a algumas conclusões: Eu deveria mesmo escrever um livro de auto-ajuda...Afinal, virou moda!

Além do que, tenho experiências terríveis de vida no meu meio século de existência: passadas de mão, quatro casamentos, idas e vindas... sociedades desarrumadas, negócios mal feitos, troca de igrejas e algumas tentativas de religião, adoção de filho, ajuntamentos, paixões tórridas, desilusões...

Mas, percebo que ainda me faltam alguns anos de experiência...Nos setenta anos a gente começa realmente a filosofar ou estou mentindo? Perdemos aos poucos a nossa condição física e começam a falhar algumas coisas: audição, olfato, intestino, estômago, libido...

Chega a tal ponto que apenas o cérebro permanece em perfeito estado! É ele que começa a comandar a nossa vida de certa forma ociosa, à sombra de grandes varandas e arbustos, no joguinho de baralho, nas pequenas caminhadas com os netos ou até a padaria. Hábito de anos a fio trazidos do velho pai. 

Começamos a filosofar e coitado dos netos! Não paramos por aí ! Inconformados começamos pelos vizinhos e depois amigos incomuns! Sem contar a pobre da esposa que convive connosco o dia inteiro! Esquecemos a poesia! Lotamos os nossos arquivos com textos filosóficos...

Pobre daquele que ficou só com o cérebro e este ainda tem problemas! Alguns voltam à infância, outros caducam completamente! Não é incomum vermos alguns desfilarem pelas ruas se dizendo a reencarnação de Cristo, Buda, Dalai Lama, Hitler...Aí meus amigos, é um Deus nos acuda! Outro dia não é que apareceu um Saddam Husseim? Como se não bastasse, gritava por Bush com todo pulmão! 

Enquanto nosso cérebro mantém a saúde e certa coerência, acho salutar filosofar! Ainda mais na cabeça dos outros! Ocupa nosso tempo e nos deixa com a sensação de poder, perdida em nossas fracassadas experiências. Compensa as nossas debilidades físicas e melhora nossa auto-estima.

Escrever um livro de auto-ajuda, estamos nos ajudando e, com sorte, ainda pegamos alguns desavisados, sugestionáveis e melhoramos a vida dele. Mal não faz! Com mais sorte ainda, conseguimos vender toda tiragem e de repente virarmos um bestseller, que o diga Paulo Coelho com « O Alquimista», pai de tantos outros ainda mais filosóficos! Nada contra «O Mago», ainda acredito que as respostas estão dentro de nós mesmos...Todas as soluções de nossos problemas! 

A nossa mente é capaz de proezas intermináveis e usamos muito pouco de nosso cérebro...Por enquanto ainda filosofamos no tempo das pedras, com um cigarrinho dependurado no canto da boca e os neurônios dormindo por algum asilo ou à sombra de nosso guarda chuva em tarde quente de verão. Após os setenta anos, o que nos resta senão seguir a moda do «filosofar», rindo de nosso libido, sem que a patroa saiba ou os amigos...

Mil mentiras ditas como verdadeiras, tornam-se verdadeiras! 
Afinal, nesta fase de filósofo e mentiroso, todo mundo tem um pouco. 
Está certo Ocimar! Logo estarei escrevendo meu livro de auto-ajuda!




A poesia de Cornélio Pires em “Musa Caipira” - por Cecílio Elias Netto


A poesia de Cornélio Pires em “Musa Caipira”

A poética de Cornélio Pires é reveladora da simplicidade do universo caipira




As obras de Cornélio Pires, um dos ícones da chamada literatura caipira, têm sido recuperadas por estudiosos e editoras brasileiras. São parte de  um tesouro linguístico e folclórico de uma cultura que, entre os paulistas e mineiros, começa a ser valorizada. Jornais, revistas,  livros, teses acadêmicas abrem espaços e cuidados para um estilo de vida, o caipira, que continua vivo em muitas das pequenas cidades interioranas, e nos subúrbios de cidades médias, conhecidos como “rurbanos”, comunhão do rural e do urbano.

Cornélio Pires foi um mestre no recolhimento, em prosa e verso e também através da música – em recolher a simplicidade das conversas caipiras, as tais patacoadas, misto de anedotas, tiradas maliciosas,  simplicidades e astúcias, contos e “causos”. 

Poucos conhecidas, no entanto, são algumas de suas poesias, tidas, hoje, como documentos imprescindíveis para se conhecer essa “alma caipira”. Aliás, o primeiro livro de Cornélio Pires intitulou-se exatamente “Musa Caipira”, dedicado a outro mestre do folclore brasileiro, Amadeu Amaral. 



A turma caipira de Cornélio Pires.Foto histórica de 1929, vendo-se da esquerda para a direita, em pé: Ferrinho, empunhando a “puíta”, Sebastião Ortiz de Camargo (Sebastiãozinho), Caçula, Arlindo Santana; sentados: Mariano, Cornélio Pires e Zico Dias.

A seguir, alguns de seus versos.

“A origem do homem” 

Esse soneto foi publicado, pela primeira vez, no jornal “O Tietê”, na cidade do mesmo homem, em 1909:

O senhor por acaso não descende
 Dos bugres que moravam por aqui?
 – Homéu num sei dizê, vancê compreende
 Que essa gente inté hoje nunca vi.

Mais porém o Bernardo diz que intende
 Que os moradô antigo do Brasi
 Gerava de macaco!… Inté me ofende
 Vê um véio cumo ele, ansim, minti.

D´outra feita um cabrocro – ai um caiçara –
 Diz que nasci um de dois e inté de trêis,
 Quando estralava um gomo de taquara!

Nóis num temo parente portuguêis,
 Nem mico, nem quati, nem capivara…
 Semo fio de Deus cumo vanceis

“Ideal do Caboclo”

Tido como um soneto clássico da literatura regionalista, “Ideal Caboclo” foi publicado em 1910, no livro “Musa Caipira”:

Ai, seu moço, eu só quiria
 Pra minha filicidade,
 Um bão fandango por dia,
 E um pala de qualidade
 Pórva, espingarda e cutia,
 Um facão fala-verdade
 E uma viola de harmonia
 Pra chorá minha sódade
 Um rancho na bêra d´água,
 Vará de anzó, pôca mágoa,
 Pinga boa e bão café…
 Fumo forte de sobejo…
 Pra compretá meu desejo,
 Cavalo bão – e muié!

 Poesia do final de vida 

No final de sua vida, Cornélio Pires tornou-se homem religioso, espírita convicto, dedicando-se à caridade. Em sua cidade natal, Tietê, onde quis morrer, manteve um orfanato infantil. Sobre essa sua fé religiosa, deixou a seguinte quadrinha:

“Mas caridade sem ação
 é qual a fumaça no forno,
 que espalha mais fome em torno,
 em vez de espalhar pão.”

Doente, sabendo estar próximo de morrer, cantou a sua “Terra amada” neste poema:

Tietê!Querida terra e muito amada
 De ti distante, esplêndida cidade,
 Sinto invadir minh´alma hoje sozinha
 Uma profunda e acríssima saudade.

Terra dos meus amores! Não definha
 O amor que te dedico; que me invade…
 E foi-se tudo que sonhado eu tinha,
 Tão ridente e feliz, na mocidade.

No mar grosso da luta pela vida,
 Eu não te esqueço, não, terra querida,
 E o teu nome defendo em toda parte.

Tu me viste perder as ilusões
 Porém nunca verás nos repelões,
 Da peleja sem fim, deixar de amar-te.

As espertezas de Joaquim Bentinho, personagem que caracteriza o caipira típico, superam as tolices e malandragens com que o personagem de Monteiro Lobato, “Jeca Tatu”, marcou, por tanto tempo, a imagem do caipira paulista. Mas não só Joaquim Bentinho. 

Em todos os seus escritos, como que em retalhos,  Cornélio Pires registrou essa alma caipira, tão rica em sua simplicidade que é universal.




Uma grande coragem inútil - Recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»


Uma grande coragem inútil



Com a idade, aprendi a gerir as minhas admirações literárias com parcimónia. Em 2009, viajei para Nova Iorque para estudar com uma pessoa cuja escrita e teoria me encantavam, relacionada com as minhas inquietações e convicções mais íntimas. Parti alegre, entusiasta, sibilando baixinho «é desta que encontro a minha comunidade, a comunidade dos que não têm comunidade». 

Regressei desiludida, atónita e mais do que nunca recordada das lições da minha adolescência nietzschana: se não queres ficar com as mãos ensanguentadas de barro, cuida de tocar o mínimo possível em ídolos.

Em Berlim, em Lisboa, o mesmo desencantamento. Por detrás das poesias mais etílicas e anárquicas, descobri poetas ora tímidos, ora pretensiosos, que em pouco honravam as palavras escritas. “Escrevem porque não viveram”, disse-me uma vez alguém a quem eu manifestei o meu desencanto relativamente aos poetas vivos e andantes. Talvez eu seja uma romântica ingénua, prezando muito palavras de honra e acreditando que tudo o que escrevemos deve ser lavrado com saliva, muco e sangue, se preciso for.

E tenho a certeza que a minha mania da honestidade não me acrescenta nem saúde nem charme. Ainda assim, passei a fugir dos poetas como um diabo foge da cruz. Um dia, alguém descobriu a minha enorme loucura pelo Herberto Hélder e prometeu apresentar-me o senhor. Não sei se a pessoa era bem-intencionada, nem se tal encontro seria viável, mas recuei de imediato, arreganhando o cenho, ciosa do meu encantamento precioso.

Apesar de tudo isto, descubro de vez em quando (e que alegria quando isso acontece!), alguém que muito me agrada admirar de longe. A última figura nesta lista reduzida chama-se Aníbal Fernandes. Já tinha reparado no nome, omnipresente na maioria dos livros publicados pela deliciosa Sistema Solar, mas as minhas últimas três leituras, escolhidas por apelos diferentes, partilhavam todas traduções e textos introdutórios do senhor, coincidência que veio sedimentar a fascinação nascente.

Curiosamente também, dois desses escritos pertencem a marginais – Nossa Senhora das Flores, de Jean Genet, e A Felicidade dos Tristes, de Luc Dietrich. Sempre tive um fraquinho por marginais escreventes e estes dois têm frases verdadeiramente deliciosas.

E em honra de crimes assim é que vou escrever o meu livro.
(…)
Mortos agora, na altura vieram ter comigo estes assassinos, e sempre que um astro de luto como eles me cai na cela bate com força o meu coração, o meu coração fica rendido, se é ficar rendido o rufo de tambor que anuncia a capitulação da cidade.

Nossa Senhora das Flores, Jean Genet

Em ambas as leituras, o furor começou sobretudo pelos textos (também) marginais ao texto traduzido, nomeadamente as badanas e as apresentações introdutórias, da autoria de Aníbal Fernandes. No caso do Genet, traduzido numa edição esgotadíssima da Difel, impressionaram sobretudo as poéticas badanas e ai! que saudades dos tempos em que a cultura do livro não tinha ainda sido conquistada pela indústria do entretenimento e pelas suas manobras marketeiras.

Senão vejamos: “Que palavra assustadora – génio – pode acudir-nos para se não explicar de todo que aprendizagem foi capaz de chegar a esta escrita sumptuosa cheia de vertigem e fascinação. Em 1944, Jean Genet riscava na prosa francesa um sulco – a mostrar sangue de subversão autêntica – entregava ao público Nossa Senhora das Flores. E afinal… o que se jogava naquela faca de vidro e de todos os cristais só era um banal filho de pai incógnito, só era a memória de uma infância magoada por Assistências Públicas e casas de correcção, a ponta de uma trajectória fortalecida em delinquências vagabundas por inconfessáveis marselhas e barcelonas”. E assim por aí adiante.

Já A Felicidade dos Tristes é precedida por um umbral encantatório, cujas palavras eloquentes revelam um conhecimento em profundidade desse mistério que foi Luc Dietrich. Quanto à autobiografia em si, não sendo aquilo que eu costumo chamar “um livro do caralho” (ou seja, daqueles que entram naquela lista reservada apenas aos abalos sísmicos), foi do melhor que li este ano. O tom deste improvável assassino é verdadeiramente singular, porque simultaneamente ingénuo e sofrido, e algumas passagens atingem picos de beleza muito próximos do sublime. Um exemplo ao acaso:

Mas nem estes que trabalham nas minas são homens verdadeiramente tristes. Tristes são os que não trabalham e pensam.

É bonito sermos um homem triste, porque é raro encontrar-se um que o seja.

Os homens tristes fizeram as igrejas, as pontes. As pessoas alegres fizeram cinemas, estações de caminhos-de-ferro, lojas. Vemo-las passar aos bandos, dentro de automóveis que riem, e todas se riem. E eu parava na estrada a olhar para elas de frente, e para sentirem vergonha fazia o mais triste dos meus ares.

Porque as melhores pessoas são tristes. A minha mãe é pálida, e mesmo quando se ri treme-lhe uma tristeza no riso como gotas de água num ramo ao sol. Nunca vemos Jesus dar cotoveladas aos seus discípulos e torcerem-se a rir. Judas, esse, queria armar-se em esperto e afastava-se deles para se rir sozinho. Nunca se viu ninguém pensar numa coisa difícil, nos rebentos de uma árvore, no sol, como é que ele sobe e desce na água do céu, e desatar a rir-se. Aliás, só há felicidade nos tristes.


Não podia estar mais de acordo. Há muito que venho meditando nesta estranha álgebra em que os mais alegres são simultaneamente os mais tristes. De resto, o livro está cheio de perturbadores flores e frases incandescentes. Em particular, esta: O amor é isto: uma grande coragem inútil. Ainda que enlouquecesse, jamais a esqueceria, de tão bela e fatal que é.