quinta-feira, 19 de março de 2015

A Páscoa no Algarve

A Páscoa no Algarve

Recolhido em «Marafações de uma Louletana»


Aproxima-se a Páscoa, mais uma festividade que, consoante a região do país, adquire aspectos próprios. No Algarve, algumas das mais interessantes tradições de Páscoa têm, lamentavelmente, sido perdidas. No entanto, nada nos impede de relembrar velhos tempos, reavivar as memórias e quem sabe recuperar algum desse valioso espólio etnográfico.

Comecemos pela chamada procissão de Aleluia, cuja maior expressão na actualidade, no âmbito algarvio, consiste na “Procissão das Tochas” em São Brás de Alportel.

No início do século XX, a procissão de Aleluia estava um pouco espalhada por todo o Algarve. Em alguns lugares revestia-se de grande importância e chamava-lhe “procissão das flores”.

Nesta procissão participavam as irmandades com as suas opas, velas (floridas ou não), estandartes, lanternas e palio. As crianças iam vestidas de branco e espalhando flores pelo caminho. Os jovens e adultos, à frente do palio, envergavam todos uma opa e ostentavam uma tocha. O povo seguia atrás do palio.

Durante a procissão, o grupo de cantores (clérigos ou não) cantavam antífonas e o hino pascal em cinco paragens diferentes. No regresso à Igreja era cantada, sempre em latim, a antífona mariana “Rainha dos céus, alegrai-vos, aleluia”. Após a bênção do Santíssimo Sacramento celebrava-se a “missa de festa” com sermão.

Em Loulé ainda se conserva viva a tradição da Procissão de Aleluia, no entanto, sem o esplendor de outrora. Noutros tempos, normalmente, esta procissão processava-se da seguinte forma: antes da missa, a procissão saia com o Santíssimo Sacramento e nela se incorporavam muitas crianças que levavam uma campainha ou esquila. Num ambiente de festa, com as campainhas a tocar, anunciava-se a Ressurreição do Senhor. A banda de música local, nomeadamente a Banda Filarmónica Artistas de Minerva, por vezes, participava na procissão. Durante o trajecto cantavam-se os cânticos pascais.

O folar é uma das tradições que se conserva e que está intimamente ligada à Páscoa. As famílias fazem folares (podem encontrar a receita aqui no blog) para oferecer aos familiares ou a pessoas amigas. Em diversas zonas algarvias, a tradição dita que na segunda-feira de Páscoa se vá até ao monte ou para junto de uma ribeira comer o folar. Quanto à confecção do folar, não existe conformidade. Uns fazem-nos com canela, outros com muita erva-doce ou mel. Quando se usa mel ou canela fazem-no em camadas e ao cortar-se o bolo surgem rodadas onde sobressaem esses ingredientes. Este tipo de folar é mais vulgar em Olhão e Faro. Os folares podem também ser ornamentados com ovos inteiros, o que comercialmente já não é permitido, mas ainda se encontra nos folares feitos em casa. Na aldeia de Alte, para além dos folares, os bolos folhados são outro dos doces típicos desta quadra.

Também associados à Páscoa, os ovos têm igualmente um sentido simbólico. Cristo venceu a morte saindo do túmulo. O ovo, uma espécie de túmulo, recorda a vida que ressurgiu da morte. Nos nossos dias, continuam a ser utilizados os ovos mas o povo desconhece por completo o seu sentido religioso que se foi perdendo.

Depois dos exageros cometidos durante a época carnavalesca, a Quaresma era vista como um período em que se devia manter o jejum e a abstinência de certos alimentos. A carne era um desses alimentos, sendo que estas restrições alimentares e o hábito de jejuar constituíam um autentico tabu na sociedade tradicional, nomeadamente no mundo rural. Em algumas regiões algarvias é comum a ideia de que na Páscoa não se deve comer ave de pena (não sei bem qual é a ave que não tem penas, mas enfim), porque o galo denunciou, por três vezes, a negação de Pedro. Como normalmente a Páscoa coincide com a época das favas e ervilhas frescas, é vulgar comer favas à algarvia ou ervilhas com ovos durante este período.




Uma outra tradição ligada a esta quadra festiva eram os “contratos” da Páscoa. Chamava-se a este ritual “Fazer o Contrato” e processava-se o mesmo da seguinte forma: um dos contratantes, crianças, jovens ou adultos, perguntava a um parceiro “queres fazer contrato comigo?” e se o outro aceitasse entre ambos celebrava-se o “contrato”, combinando à partida o número de amêndoas em jogo que seriam pagas no Domingo de Páscoa. O “contrato” era celebrado com o dedo mindinho de cada um dos pares entrelaçados e em movimento enquanto os mesmos diziam “Contrato/Contrato/Contrato faremos/no Sábado de Aleluia /Ofereceremos!”. Depois desta “celebração”, no Sábado de Páscoa, cada uma das partes se escondia da outra, até que um dos contratantes apanhasse o outro desprevino e lhe gritasse “Oferece”! Quando isso acontecia estavam as amêndoas ganhas. Esta tradição, praticamente em desuso, conheceu diversas versões consoante a região em que era celebrada.

E aqui ficam mais alguns apontamentos sobre tradições e costumes ligadas à celebração da Páscoa no Algarve.


Nota:

1. Este texto foi escrito com base nas seguintes fontes:

- JERÓNIMO, Rui; DUARTE, J. Cunha, “Algarve: Tradições musicais –III”, Faro ; São Brás de Alportel, Grupo Musical Santa Maria ; Casa da Cultura António Bentes, 1997.

- FERNANDES, Aurélia, “Gastronomia Tradicional do Concelho de Loulé (1.ª parte do século XX)” in “al-ulyã”, n.º 2, 1993.

- http://alcoutimlivre.blogspot.pt/ (nomeadamente post intitulado “Os ‘Contratos’ da Páscoa” da autoria de Amílcar Felício).




O CHICO ARTUR - Conto /Crónica de Daniel Teixeira


O CHICO ARTUR

Conto /Crónica de Daniel Teixeira

O Chico Artur casou com uma senhora (Inácia) residente e natural de Alcaria Alta. Ouvi falar algumas coisas do pai dela, comerciante de algum relevo proporcionado e vendedor de uma coisa que pelo que me apercebi dava estatuto : o guano, nitrato do Chile, era pago a pronto e vendido em quantidades variáveis ao longo de todo o tempo da lavoura e não havia devolução.

Havia empate de capital, risco, mesmo pequeno, mas numa terra em que não havia praticamente dinheiro «vivo» o facto de ter capital era sempre relevante. O negócio, depois do seu falecimento foi retomado pelos lavradores.

Tinha ainda um armazém pegado à casa onde em alturas próprias se realizavam bailes: com os meus 9/10 anos, tentei entrar num mas alegadamente a festa era para maiores de 18 anos: ouvi no entanto o toque do acordeão nas mãos de um exímio mestre que a minha mãe dizia só saber tocar «fon, fon» e que «quanto ele mais fanfonava mais depressa o pessoal bailava».

Da mãe da Inácia nada ou quase nada sei mas é provável que ela existisse em vida ainda durante o tempo da minha infância só que um e outro (Pai e mãe da Dª Inácia) se me varreram do campo das imagens que a mente recorda.

A Inácia, alguns anos mais nova que a minha mãe foi quem eu sempre conheci a tomar conta da mercearia e taberna do Monte. A organização do balcão era bem parca: a maior parte das coisas que se queriam comprar, e normalmente sabia-se o que havia na Ti Inácia, estavam algures estacionadas em dois quartos / armazém, um com entrada logo atrás do balcão e um outro á direita do fim do balcão em frente de quem entra. Havia uma outra porta, esta para o quarto do casal (logo à direita) e provavelmente ou seguramente havia mais divisões lá para trás.

Uma recordação que eu guardo é do tempo da caça, nos dias permitidos, em que os caçadores iam à taberna e se deparavam com cerveja quente: havia uma alternativa que era algumas garrafas que estavam dormindo num balde afundado no poço das traseiras o que pouco alterava a situação. Mais tarde vi por lá o primeiro frigorífico a gás da minha memória.

O sistema de compras no Monte estava escalonado de acordo com o hábito: açúcar, fósforos, petróleo, latas de conserva de peixe e mais algumas coisas assim. Havia uma estante atrás do balcão com tabaco e garrafas de aguardente e vinho. Não era muito variado o stock porque na sua grande parte compravam-se coisas em Giões, tanto no senhor Mateus, como num outro cujo nome me não lembra mas que foi o introdutor da máquina de café na aldeia.

O café era já moído, acalcado na forma com uma colher de sopa, a máquina era pequenina, de dois bicos e a gás e era ligada quando fazia falta e tinha mesmo de se esperar quando calhávamos a aparecer no período de repouso dela (e do gás). Normalmente pedia-se a bica, ia-se ás compras à contra loja, o que era sempre demorado, eu entretinha-me a conversar com o senhor ou ficava por ali e lá ia o pessoal comprar botões e tecidos encomendados ou peças de roupa acabadas de chegar, arroz, café, pouca coisa, afinal. O sistema de compras de mantimentos ou para arranjos caseiros era relativamente fácil porque na sua grande parte havia de quase tudo em casa: feijão, grão, batatas.

O senhor Mateus era outro tipo de negociante: era representante das máquinas de costura Singer na altura e tinha uma colecção de linhas e botões para todos os gostos. Quem vendia era a esposa, ele encarregava-se da parte da taberna quando não estava ausente em vendas fora de portas, levado pelo carro de rodas largas e pela sua bem ajaezada junta de mulas.

Pois bem e entrando agora no Chico Artur, objecto principal desta crónica, este era natural do Pereiro, negociante de gado (ovelhas e porcos) e foi o introdutor do porco branco no Monte de Alcaria Alta e durante muito tempo o único criador. Tinha uma carrinha (talvez Ford Transit) de caixa aberta que por vezes chegava altas horas da noite e quase sempre partia de madrugada.

A geração de porco preto era não só de tradição como vivia em parte de tremoços, de restos de comidas misturadas não cozinhadas (talos de legumes, figos de pita, etc.) com farinha de centeio ou de cevada. Por vezes «ganhava» um tomate esborrachado.

O porco branco, por excelência era animal de ração e comprar ração não estava ainda nem nos meios de uso de dinheiro no Monte nem na mente das pessoas. A circulação de dinheiro era quase nula e o sistema de trocas processava-se em quase tudo: mesmo os vendedores ambulantes que eram poucos levavam ovos em troca ou uma ou duas panelas de barro (que eram as medidas usadas) com figos secos, feijão seco ou grão.

Os porcos brancos cresciam mais depressa, engordavam mais depressa, à base da ração é claro e eram sobretudo porcos para matança fora de períodos anuais, eram carne para revenda. Na minha vida só assisti à matança, não à morte, de dois porcos. Um era ainda criança e fez-me uma verdadeira impressão ver o pobre do animal a estrebuchar (por reflexos condicionados aprendi depois) quando da tostagem do corpo na fogueira de lenha para queimar os pelos e uma outra muito mais tarde em que por convite e simpatia resolvi não fazer a desfeita de recusar.

Foi uma manhã complicada essa, o matador amador/profissional estava mal das costas na véspera e apresentou baixa nessa mesma manhã. Entre os presentes ninguém sabia nem queria matar o porco. «E se sai mal e o animal fica aqui a sofrer uma série de tempo?» dizia-se...

Lá acabou por aparecer o Manelito Vilão que nunca tinha matado nenhum porco mas que dizia que era só acertar na veia e etc. e acabou por fazer o serviço praticamente sozinho porque o resto do pessoal debandou quase todo só regressando quando tudo estava silenciosamente certo. A minha prima, dona do porco, ficou de cara virada apanhando com uma tigela o sangue que jorrou. O Manelito suou por todos os poros e acabou sentado e derreado num poial jurando que nunca mais...Enfim.

O Chico Artur tinha grande orgulho também numa criação sua, aliás o maior orgulho, por aquilo que me apercebi que era o cruzamento entre porcos e javalis. Francamente nunca acreditei muito nessa treta e durante muito tempo pensei tratar-se de uma forma dele gozar a minha situação de citadino ignorante.

Quando ele falava das vantagens do porco - javali vinha-me à ideia uma história que se contava para desfazer da esperteza dos habitantes de uma povoação vizinha: um deles tinha encontrado uma porca fugida, tomara-a por um javali e vá de ir buscar a espingarda a casa e tiro. Fizera um repasto de javali com convidados e tudo, e todos, entre os presentes, comeram javali nesse dia...até o dono da porca tresmalhada.

No caso do Chico Artur a história era assim: um individuo de um monte das redondezas tinha encontrado um javali arrastando numa pata uma ratoeira de coelhos e lebres. Por artes e ajuda conseguiu laçar o animal, praticamente enrolá-lo em cordas e levá-lo para um pocilgo. O animal ficou coxo mas era uma fêmea e em pouco tempo e com a visita de um marrão acabou por emprenhar. Isto é a história, não garanto nada disto...

Dessa javali saíram depois cerca de uma meia dúzia de animais misturados e o Chico tinha comprado um: tinha-se ficado por um macho porque pensava inverter o processo de procriação e como partia cedo e chegava tarde não dava para espreitar o pocilgo. Ele bem me falava e eu bem dizia que sim...

Mas um dia em que o carro avariou e ele teve de ficar no monte mostrou - me o animal. Bem...os javalis que eu conhecia dos livros tinham sempre grandes presas e aquele tinha uma dentadura normal de porco, caninos grandes que arreganhava, sim, mas isso para mim era normal.

O que o distinguia era sobretudo o pelo: esse era sem dúvida mais abundante que num porco normal. Fiquei indeciso, de facto, nunca tinha visto um animal porcino com tanto pelo e nem sequer para desempate uma dentadura de javali ao vivo.

Nos anos seguintes não tive oportunidade de desenvolver a questão: quase nunca o encontrava e ele estava mais tempo no Pereiro do que em Alcaria Alta. Mais tarde também a mulher abandonou o local indo igualmente viver para o Pereiro.

Mas ainda me fui perguntando sempre se «aquilo» que tinha visto era um javali - porco, um porco javali ou simplesmente um porco cabeludo.




quarta-feira, 18 de março de 2015

Prosa Poética de Ilona Bastos - O Presente e o Futuro


Prosa Poética de Ilona Bastos

 O Presente e o Futuro

 

 Era jovem. Entrou em passo rápido, semblante sisudo, olhar no chão.
Do seu aspecto, tudo diziam as faces cavadas e pálidas, o cabelo à escovinha, a argola na orelha, a camisola larga de capuz caído.

 Sentou-se e pareceu-me então que tremia. O seu discurso era hesitante. Tinha dificuldade em explicar o que o trazia, misturando assuntos, tecendo frases e ideias entrecortadas de pequenos soluços inaudíveis mas perceptíveis.

 Pegámos na ponta da meada, separámos águas, as ideias tornaram-se mais claras, conversámos muito e às tantas confessava: eu falo pouco, não consigo falar.

 E disse-lhe: mas agora está a falar, estamos a falar tão bem. E é bom termos quem nos oiça, e sentirmos que alguém está a seguir, connosco, o nosso percurso. Assim, quando temos menos ânimo – porque todos temos dias de menos ânimo –, há alguém que nos chama e nos volta a colocar no caminho certo.

 Lemos, em conjunto, algumas frases difíceis de um documento sério. Recordei-lhe que no ler e no escrever, como no futebol ou em qualquer outra coisa, o que era importante era a prática, e ele concordou.

 Preenchemos depois um impresso e falámos de como teria de instruí-lo e onde entregá-lo. Até dava jeito, o local, que já lá tinha uma visita programada para o dia 10.

 Quando levantei a cabeça vi que levava os dedos à cara para limpar as lágrimas, pequenas, límpidas, lineares, que lhe desciam dos olhos de um espantoso e transparente azul.

Não se sentiu incomodado com o meu olhar, como não senti incómodo com as suas lágrimas.

Falou-me da vida que levara, dos erros que cometera. Tudo passado.

O que importava agora era encontrar um emprego e o amor dos filhos.

 Concordei, sorrindo: o importante, em cada momento, é o presente e o futuro!



Ilona Bastos




A porta fechada - Texto de Ivone Boechat


A porta fechada

Texto de Ivone Boechat 


 Conta-se que Dr. Fritz Kaufmann, um dos mais notáveis médicos alemães, reconhecido em toda a Europa, foi convidado pela Sociedade Médica Americana para tomar parte de um Seminário, em Nova York. Quando a imprensa anunciou a sua presença nos Estados Unidos houve grande repercussão. Logo, a Associação Médica de Chicago o convidou para realizar algumas cirurgias de alto risco em doentes desenganados.

 Em Chicago, morava Dona Charlot que sofria de uma enfermidade, cujos recursos já se haviam esgotado. Sua única esperança seria o Dr. Kaufmann. Ela encheu-se de alegria e planejou um meio de encontrar-se com ele. Só pensava nisso, noite e dia.

 Dr. Kaufmann chegou, finalmente, a Chicago e, apesar de seu intenso programa na agenda, após o almoço, deixava o Hotel para fazer uma caminhada. Numa dessas saídas, enquanto andava, foi surpreendido por uma forte chuva. Todo molhado, procurou abrigo sob a marquise de uma casa, cuja dona, percebendo a presença de alguém batendo na sua porta não deu a mínima atenção e ainda foi mal educada.

 No dia seguinte os jornais de Chicago deram a seguinte nota:

«Esteve em Chicago o famoso médico alemão, Dr. Kaufmann que, ontem, enquanto fazia seu cooper, após o almoço, foi surpreendido por uma forte chuva. Todo molhado abrigou-se na marquise de uma casa, cuja dona não lhe deu atenção e ainda bateu-lhe a porta. O famoso cientista acaba de voltar para Alemanha».

Quando Dona Charlot leu a notícia, quase teve um colapso, em pranto confessou: «O famoso médico esteve na minha porta e eu não o reconheci, deixando-o do lado de fora. Agora tudo está perdido».

Para refletir:

 O Brasil tem a maior taxa de «abandono» escolar do ensino médio dentre Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Venezuela: 10%. Ou seja, 1 em cada 10 jovens abandonam a escola nesta etapa, segundo a Síntese de Indicadores Sociais, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

 O Brasil bate um recorde mundial de «evasão» escolar e a gente sabe que o nome disto é porta fechada.

 A missão do educador é também ajudar a abrir portas. Muito cuidado! Analise sempre as batidas e os sinais daquele que suplica para alguém lhe abrir a porta da oportunidade, mas foi empurrado para fora.

Trabalhe para trazer de volta os que «desistiram» de implorar respeito.
Abra a porta, educador!

 Ivone Boechat





MARCIANITA - Crónica de Arlete Brasil Deretti Fernandes


MARCIANITA



Crónica de Arlete Brasil Deretti Fernandes



Há muitos anos, residi com minha família numa cidade interiorana onde havia um grande porto marítimo e pesqueiro. O povo cultivava tradições açorianas, por terem os seus antepassados vindo da Ilha dos Açores.

Como toda boa cidade portuária, não faltava ali a ZBM, ou zona do baixo meretrício, que uns chamavam de «casa das primas», para outros «zona» ou mesmo outros nomes que prefiro não citar. Dizem que a atividade principal ali realizada é o exercício da profissão mais antiga do mundo.

Também fui informada de que uma zona não é muito diferente da outra. São aglomerados de casas, algumas só vendendo bebidas e cigarros e outras só com quartos para rotatividade. Tinha algumas que eram completas, com lanchonete, cômodos, bar e salão de baile.

O fato que a mim foi relatado aconteceu no mês de agosto, época de safra de enchovas e daquele vento nordeste que geme, grita e assobia como um louco, sem parar, varrendo tudo o que tem pela frente.

Foi numa noite sem estrelas. Tripulantes de pesqueiros chegavam para passar horas de prazer e de orgia nos braços das «flores da noite», deixando ali suas frustrações e seus temores de tempestades quando tinham que invocar a Santa Bárbara e o São Jerônimo.

O ponto de partida para uma noite de orgia e de prazer foi iniciado no salão de danças. E é ali que recomeçava tudo a cada noite. Os sacerdotes e sacerdotisas de Baco bebiam, dançavam, comiam e esqueciam os perigos do mar.

Naquela noite o salão estava lotado. O conjunto musical não dava descanso aos dançadores. O acordeonista ou sanfoneiro, como é mais conhecido, após tomar umas doses pagas pelos apreciadores e dançarinos, se empolgava, e o som que partia do fole era alegre e convidativo.

Todos levantam-se das mesas e escolhem um par para a dança, chamada por alguns de «bate-coxas», «esfrega-saco» ou «roça-peito»!.

Marcianita era a música que estava no auge das paradas de sucesso nas rádios e nos bailes. Ali também se encontrava um apreciador de Marcianita, com o pé que era um leque e de «pé cagado», isto é, com as «guampas» cheias de cuba libre.

Ele tinha perdido sua quenga, aquela ingrata, de vestido vermelho, cabelos pretos e soltos, e os seios empinadinhos que queriam saltar do decote. Outro gajo a carregou e com ela dançava sem parar: nheco-nheco-nheco-nheco.

Num momento o gaiteiro fez uma pausa para dar um descanso, ir ao banheiro e fumar um cigarro. Quando voltou e pegou novamente a sanfona de fole, ouviu de alguém:
 - Gaiteiro, sapeca aí a Marcianita!
 E ele começou: -Marcianita, branca ou negra, gorduchinha, magrinha, gigante serás meu amor...
 O salão estava repleto, a animação era total.

De repente, o descornado passou pelo que dançava com sua dama, e como não tinha nada a perder, arrastou o outro pelo colarinho e a porrada pegou. E a gaita parou.

Foi um corre-corre, e a turma do «deixa pra lá» botou água fria na fogueira e arrastou pelas pernas o brigão, trancando-o num quarto. Tudo normalizado, o gaiteiro sapeca de novo a Marcianita. Quando a dança começou a esquentar, o pau começou a quebrar de novo.

E neste para e toca e toca e pára, não deu outra. Já era a quinta vez que tocava a Marcianita e não tinha jeito de chegar ao final, porque a briga sempre começava.

Foi aí que apareceu um cabra-macho, soltando fogo pelas ventas, portando uma bicuda ou peixeira, faca usada pelos pescadores para limpar o peixe e cortar corda ou rede.

Foi só soarem as primeiras notas da Marcianita, quando o gaiteiro abriu o fole da gaita e saiu um som diferente, rasgante e xoxo: - Froing. O fole foi cortado e a porrada pegou de todo o lado, com cadeirada e garrafada, até chegar a polícia e a calma retornar.

Um policial indagou o valentão que respondeu:

-Cortei e corto de novo se a Marcianita começar e não terminar.




Apesar de você - Por Cristina Ubaldo


Apesar de você



Por Cristina Ubaldo



 Quando falou em partida, achei que não viveria sem você, nada ficaria no lugar, nada seria como antes.

Joguei-me aos seus pés numa desvairada e ridícula tentativa de impedir sua saída. Rasguei minhas roupas, jurei que morreria.

Joguei pedras em seu caminho para que tropeçasse e voltasse para mim. Prometi deixar a porta aberta, mas tranquei as janelas da minha alma.

Chorei na escuridão maldizendo meu destino. Sem você não saberia caminhar me perderia no tempo das lembranças.

Hoje acordei achando tudo tão igual! Um dia atrás do outros e tantos dias se passaram sem que eu percebesse.

Hoje acordei e não te procurei ao meu lado e nem chorei ao tomar café sozinho, não senti tua ausência.

Abri as janelas e deixei o sol banhar meu rosto. Não te vi no brilho da manhã e nem ouvi sua voz ao vento.

Hoje acordei mais tarde e vi então que apesar de você já outro tempo e a vida continuou sem você, não morri!

Estranhamente sinto-me como se tivesse dormindo por um longo inverno e hoje despertei para o novo verão.

Estava tudo no mesmo lugar, mas a vida andou e levou você dos meus pensamentos. Não sinto aquele nó apertar minha garganta...até cantei uma nova canção!

Hoje acordei e não senti falta de você, não pedi a porta aberta, não olhei para trás.

Hoje descobri que vivi sem você e apesar de você...

Sorri. Porque não? é possível sem você!

Hoje me libertei das amarras que me prendiam a você, saí da escuridão, já posso andar sem você sem me precipitar e nem perder a hora.

Hoje estou pronta para ser feliz, apesar de você.

Cris (Krica)




A ESCOLA - Por José Francisco Colaço Guerreiro


A ESCOLA

Por José Francisco Colaço Guerreiro

Recolhido em Património



 A escola era a primeira grande contrariedade da nossa vida. Se calhar, foi assim desde sempre e até há bem pouco tempo, quando a moçada inverteu as regras e passou a dominar, exigindo com gritos e prantos, tiranizando com rebeldia e desassossego.

Mas dantes, a escola era o verdadeiro desmame, o largar as saias, o caminhar sozinho, balsa às costas, para aprender a ser homem, numa caminhada que se completava mais tarde, depois das sortes, a marchar em pelotão, espingarda às costas.

 Os primeiros gatafunhos eram feitos numa pedra de ardósia encaixilhada a madeira de cor natural que depois ia escurecendo e ganhando lustro com passar do tempo e dos dedos, às vezes besuntados de agarrarem o pão com banha salpicada de açúcar. Os lápis eram da mesma pedra , muito redondinhos e afilados, do tamanho de um palmo, forrados a papel numa das pontas, num axadrezado verde, vermelho ou azul, de tons desbotados, talvez pela cola.

 Quando se acabavam os compradiços, faziam-se de talisca, raspados à faca e rolados no chão para os adelgaçar e lhes arredondar a forma. Usava – se como acessório um frasquinho de remédio vazio, para encher com água e depois molhar num farrapo com que se limpava a escrita. Era esse o bom proceder, mas muitas vezes acontecia usar-se o cuspinho e a manga da blusa para o mesmo efeito.

 Com as brincadeiras, empurrão de um moço, chulipa de outro, rasteira ou escorregadela do cardado das botas nas calçadas polidas, vinha a balsa ao chão e a pedra partia-se. Um pranto até casa, baba e ranho com fartura, queixas e mais queixas para comover, depois, tareia, perdão ou castigo e com muita sorte, lá se arranjavam dez tostões para comprar outra, novazinha, para no outro dia mostrar: ao professor os trabalhos; aos colegas a brancura da moldura, ainda sem dedadas nem borrões de tinta.

 Pior do que tudo, ainda pior do que disciplina do erguer bem cedo, do estar comportado horas a fio sentado numa carteira, dos trabalhos de casa, da falta de tempo para a brinca, eram os maus tratos que os professores davam.
Empinar a tabuada numa cantarolada colectiva, saber conjugar os verbos num recitar decorado, desfiar os nomes dos rios, das serras e das estações dos caminhos-de-ferro, daqui e dalém mar em Africa, era empresa pequena face à afronta da sujeição de se estar uma manhã inteirinha à janela da escola com as orelhas de burro enfiadas na cabeça. Mas mais custoso ainda, eram as ponteiradas fazedoras de galos que nos arrepiavam mesmo quando estoiravam nas cabeças dos outros.

 E as meninas de cinco olhinhos, palmatórias concebidas para extrair uma dor máxima de quem as experimentava, com o esforço mínimo de quem as manobrava, eram verdadeiros objectos de tortura que o próprio sistema acabou por proibir.

 Mas sucederam-lhes as réguas, de pau-santo ou madeira rosa, bem grossas e pesadas que era para fazer arder. Os professores tiravam as malditas, de um castanho avermelhado, da gaveta da secretária no princípio do dia e estendiam-nas ao seu lado, em cima do tampo, bem à vista de todos.

 Eram os problemas mal resolvidos, os erros dos ditados, as falhas de memória, o azar de se ser criança em tempo cinzento que davam azo a tanta reguada. Havia tabela. Tantas por cada erro e tantas por cada conta mal feita. Tantas por isto e outras tantas ou ainda mais por aquilo. O bater fazia parte das regras, como agora faz parte não contrariar os miúdos e deixá-los ter o protagonismo todo.

 Mesmo os pais, numa atitude de alguma inferioridade, subserviência ou temor reverencial face ao professor, não raro diziam ou mandavam o recado: chegue-lhe! As que caem no chão são as que se perdem! Desde que não lhe parta braço nem perna…chegue-lhe!...

 A escola só era suportável uma ou duas vezes no ano quando o professor Abílio cá vinha dar, trazendo de Beja uma maquineta para passar filmes com desenhos animados de coelhos a comer cenouras e mosquitos que picavam e depois davam febrões.

 Nesse dia havia tréguas. As réguas malditas de um acastanho avermelhado não saíam da gaveta. Corriam-se os estores e penduravam-se panos de flanela preta nas janelas para fazer escuro. Era um alívio.

 Mas logo voltava o fadário dos ditados, das contas, das idas ao quadro e depois…das reguadas. Cinco numa mão. Cinco na outra. Quando anteviam a zurzidela, os miúdos iam à cerca do Virgílio Lagartinho à busca de cebola albarrã e untavam as mãos muito bem untadas. Havia a crença de que com tal fricção a carne não doía e se a mezinha fosse bem feita, até podiam fazer estalar a régua. Que se saiba não passou de crença.

 Mas quando eram apanhados desprevenidos, sem preparação prévia, as pernas tremiam, os braços esticavam-se devagarinho, alternadamente, a muito custo e apetecia tirar a mão na hora certa, para sair em falso a palmatoada e verem o professor atingir-se. Mas ninguém o fazia, porque eles iravam-se e ainda se entornava o caldo. Aguentava-se como se podia, menos as lágrimas porque essas escorriam imparáveis.

Passo largo para o lugar. As mãos inchavam de dor. Sem saber o que lhes fazer, metiam-se entre os braços num gesto instintivo como que para esconder. Logo a seguir cuspiam nelas e agarravam os ferros da estrutura das carteiras. Ouviam-se chiar. Se havia força para pedir para vir cá fora ou se a zirga acontecia pouco antes do intervalo, a custo tiravam a gaita e lavavam-nas na urina nem sempre contida. Também era mezinha. Aos outros, mais tarde, dizia-se que era remédio santo.

 Nas memórias de um tempo cinzento talvez existam escolas coloridas, com rodas e risos de meninos, mas a nossa só ganhava alguma cor quando os panos de flanela preta tapavam a luz das janelas e por uns momentos, víamos os bonecos que o professor Abílio trazia de Beja.