domingo, 15 de março de 2015

Adeus Inezita Barroso - Por Antônio Carlos Afonso dos Santos - Acas


Adeus Inezita Barroso

Por Antônio Carlos Afonso dos Santos - Acas

Vinte e sete dias depois de internada no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, morreu ontem, 08/3/2015, aos 90 anos de idade, a cantora, apresentadora de rádio e TV, pesquisadora e atriz, Inezita Barroso. A causa mortis foi “insuficiência respiratória aguda”. Inezita deixou uma filha, Marta Barroso, 3 netos e 5 bisnetos.

Nascida Inez Madalena Aranha de Lima, Inezita desde os quatorze anos de idade pensava em ser mais que uma aluna de canto, violão e declamação, que era ministrado pela professora Mary Buarque.

Ela dava muita importância ao folclore e música regional, contrariando tudo que sua família, herdeira de várias fazendas de café, pretendia. Perseguiu sua vocação, com enorme energia, durante toda sua vida.

Ainda menina, Inezita participava de recitais infantis de emissoras de rádio, tais como a Rádio Cruzeiro do Sul e Rádio Cultura de São Paulo.
Inezita, que nasceu em  04 de março de 1925 (faleceu em 08 de março de 2015), era formada Biblioteconomia pela USP onde lecionou por longo tempo. Foi casada com Adolfo Barroso, de quem adotou o sobrenome no seu nome artístico.



Em 1952 trabalhou na Rádio Clube do Recife, ainda amadora.  Em 1953 foi contratada pela rádio Nacional de São Paulo, deixando se ser amadora. No ano seguinte, mudou-se para a Rádio Record de São Paulo, onde atuou também na TV Record, onde teve um programa exclusivo dedicado à música regional e ao folclore.

Nessa época, gravou seus primeiros discos de 78 rotações, incluindo ali dois clássicos: ”Moda da Pinga”, de autoria de Zica Bergami e “Ronda”, de Paulo Vanzolini (só depois Ronda foi gravada pela Nora Ney e muito tempo depois, pela Maria Bethânia).

Outro grande sucesso de Inezita em disco, foi a música “Lampião de Gás”. Inezita gravou 65 LPs com modinhas, toadas, modas de viola, rasqueados, cateretês e sambas de roda, todos pinçados nas origens, sempre respeitando a legitimidade do autêntico.

Inezita atuou na TV Cultura de São Paulo, no programa “Viola, minha Viola”, desde 1980 (quando substituiu Moraes Sarmento ), até 2015. Foram 35 anos ininterruptos de música de raiz e folclore brasileiro mostrado à população.

Inezita nasceu numa casa da Rua Conselheiro Brotero, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo; segundo ela em entrevista ao jornal “O Estado de São Paulo”, em janeiro de 2012, exatamente quando passava uma escola de samba (Camisa Verde) à porta da casa; escola de samba que hoje se chama “Camisa Verde e Branco”. – Nasci ouvindo marchinha paulista; disse ela na ocasião.


CINEMA

Sua boa estampa (morena bonita, cabelos negros) participou de seis filmes nos anos 50: “Ângela”, “Destino em Apuros”, “O Craque”, “Carnaval em Lá Maior”, “É Proibido Beijar”, além do filme “Mulher de Verdade”; onde ganhou o Prêmio “SACI”, de melhor atriz.

História do Violão Quebrado

Depois de percorrer todo o brasil fazendo pesquisa de folclore, Inezita ficou desiludida, porque nenhuma emissora de rádio ou TV queriam exibir sua pesquisa.

Depois de levar o oitavo não, ela quebrou o violão, fez uma fogueira e jogou nas chamas todo o material recolhido pelo Brasil.Pensando bem, aquela fogueira não queimou nada. Tudo o que Inezita Barroso viu pelo País afora ficou bem guardado, fortalecendo a maior defensora das tradições culturais que o Brasil já teve.

POSTERIDADE

Eu, ACAS, nunca esquecerei o contato que fiz com a Inezita em 2002: fui informado que ela fazia um show beneficente no Hospital das Clínicas, todos os anos. Por sorte, fui informado desse show em tal dia de 2002 e fui lá: foi maravilhoso.

Até aproveitei para presentear Inezita com meu primeiro livro, o “Pequeno Dicionário de Caipirês”, pois eu também participei (convidado) do lanche oferecido à Inezita neste local.

Mas, Inezita será lembrada sempre por uma música: “Moda da Pinga”, que ai vai os primeiros versos:

Co´a marvada pinga é que me atrapaio,
Eu entro na venda e já dô meu taio,
Eu pego no copo e dali num saio,
Ali mêmo eu bebo, ali mêmo eu caio,
Só pra í pra casa é que dô trabaio, oi lá! ... .




- Há quem afirme que, embora os versos de Zica Bergami sejam preservados, continuam sendo acrescentados novos versos à essa música até os dias atuais; tal é a força e o apelo da mesma.

De hoje em diante, uma nova estrela aparecerá nos céus do Brasil: Inezzita estará lá, brilhando como sempre.

fim




 

sábado, 14 de março de 2015

Exercícios para exercitar neurónios


Exercícios para exercitar neurónios

A hora certa

Certo dia, em sua fazenda, Ana percebeu que o único relógio da casa – um enorme relógio de carrilhão – havia parado. Deu-lhe corda e, achando que eram aproximadamente 10 h, colocou os ponteiro marcando 10h. Foi então até a fazenda vizinha descobrir a hora certa. Lá chegou às 11h 20 min e de lá partiu às 11 h e 30 min. 

Se Ana foi e voltou com a mesma velocidade, fazendo o mesmo percurso, e retornou à casa com o carrilhão marcando 10h 30 min, qual a hora certa do retorno a sua casa?


Quantos pastéis

 Três amigos entraram numa pousada, pediram ao proprietário que fritasse alguns pastéis e foram tirar um cochilo. O proprietário levou uma travessa de pastéis para o quarto, colocou sobre a mesa e saiu sem fazer barulho. 

Passado algum tempo, um dos amigos acordou, viu os pastéis e, sem acordar os companheiros, contou quantos havia, comeu um terço e dormiu de novo. Logo depois, o segundo amigo acordou. Sem saber que o primeiro já havia comigo sua parte, contou os pastéis da travessa, comeu um terço e voltou a dormir. Finalmente o terceiro despertou. Contou os pastéis e comeu um terço. 

Nesse momento, os dois primeiros rapazes acordaram e o mal-entendido foi resolvido. Sabendo-se que na travessa ainda restavam 8 pastéis, descubra:

    1- quantos pastéis o proprietário da pousada fritou?
    2- Quantos pastéis cada um dos rapazes comeu?
   3- Quantos pastéis cada um deveria comer a mais para que os três se servissem da mesma quantidade?


A dívida do mercador

Um mercador narrou a seguinte história:
- Emprestei, certa vez, a quantia de 100 dinares, sendo 50 a um cheique e outros 50 a um judeu do Cairo. O cheique pagou a dívida em quatro parcelas do seguinte modo: 20, 15, 10 e 5 sendo assim:
Pagou 20 -------ficou devendo 30
Pagou 15 -------ficou devendo 15
Pagou 10 -------ficou devendo 5
Pagou 5 --------ficou devendo 0
Soma= 50--------soma = 50

O judeu pagou, igualmente, os 50 dinares em quatro prestações, do seguinte modo:
Pagou 20 -------ficou devendo 30
Pagou 18 -------ficou devendo 12
Pagou 3 -------ficou devendo 9
Pagou 9 -------ficou devendo 0
Soma= 50-------soma = 51

Convém observar, agora, que a primeira soma é 50 (como no caso anterior), ao passo que a outra dá um total de 51.
Como justificar o fato de ser a segunda soma igual a 51 e não a 50?

Os 35 camelos

Três irmãos receberam como herança 35 camelos. Segundo a vontade expressa de seu pai, deveriam repartir da seguinte maneira: O filho mais velho deveria receber a metade dos camelos, o filho do meio uma terça parte e o mais novo apenas a nona parte. Porém, sabe-se que a metade de 35 camelos é 17 e meio, a terça parte e nona parte de 35 também não são exatas. 

Eis que um matemático se propôs a resolver de forma justa essa partilha, se permitissem que juntasse aos 35 camelos da herança o animal no qual ele se encontrava montado. Proposta aceita, o matemático resolveu do seguinte modo: o filho mais velho que tinha direito a metade dos camelos e que antes deveria receber 17 e meio, recebeu 18 (metade de 36), o filho que tinha direito a terça parte (11 e pouco dos 35) passou a receber 12 e o outro filho que deveria receber a nona parte (3 e pouco dos 35) recebeu 4 camelos. 

Todos os filhos saíram ganhando nessa partilha, mas vamos rever os resultados: 18 + 12 + 4 = 34. 

Um camelo foi devolvido ao matemático e o outro ficou também com ele como forma de pagamento. Como o matemático sabia do resultado final?

Os 8 pães

Em uma viagem, dois amigos encontraram um mercador que havia sido saqueado e por pouco não morreu. Ele estava faminto e procurou por comida. Dos dois amigos, um trazia consigo 3 pães e o outro cinco. O mercador então propôs uma sociedade, juntando os pães e quando chegasse em sua cidade, pagaria com 8 moedas de ouro o pão que comer. Ao chegar em casa pegou 8 moedas de ouro e entregou-as aos dois amigos, 3 para o primeiro e 5 para o segundo, que prontamente disse ao mercador:
 
- Essa divisão parece simples, mas matematicamente não é correta. Se eu dei 5 pães devo receber 7 moedas. O meu companheiro, que deu 3 pães, deve receber apenas uma moeda.
 
O mercador ficou espantado e quis saber qual o raciocínio usado por ele para propor essa forma de pagar 8 pães com 8 moedas.
 
Essa foi a justificativa: Durante a viagem, quando tínhamos fome, tirava um pão e repartia-o em três partes, comendo cada um de nós, um desses pedaços. Se eu dei 5 pães, contribui com 15 pedaços e meu amigo, com 3 pães contribuiu com 9 pedaços. Houve dessa forma, um total de 24 pedaços, do qual cada um comeu 8 pedaços. 

Dos 15 pedaços que dei, comi 8, dei então 7 pedaços, meu amigo, com 9 pedaços, comeu 8 e portanto deu apenas 1. Os 7 que dei e o restante que meu amigo deu couberam ao senhor. 

Portanto, é justo que eu receba 7 moedas e o meu amigo apenas uma.
 
Esta divisão, conforme provei, é matematicamente correta, mas não é perfeita aos olhos de Deus. Pegou as moedas e dividiu em duas partes iguais, deu quatro moedas a seu amigo e guardou as outras 4 moedas para si.



A senhora Joaquina - Conto de Daniel Teixeira


A senhora Joaquina - Conto de Daniel Teixeira

Tinha este nome, Joaquina...enfim, eu acho que era assim o seu nome, mesmo que agora isso não seja assim tão importante. Faleceu há bastantes anos, tinha eu talvez uns catorze ou quinze anos. Mas conheci-a a ela praticamente desde que me conheci a mim.

Sempre a vi e ainda hoje a vejo com duas malas que sempre pensei serem muito pesadas. Calcorreava a cidade de Faro vinda de uma aldeia próxima. Estivemos lá uma vez, a visitá-la. Fomos, eu, a minha mãe e o meu irmão que na altura era o mais novo, de camioneta. O outro, o que nasceu alguns anos depois não deve ter conhecido a senhora Joaquina como eu a conheci. Acho mesmo que nenhum deles conheceu da vida dela aquilo que eu conheci.

Vivia numa casa térrea, rodeada por uma cerca e no terreno havia árvores de fruto. Lembro-me bem das ameixas mas havia também laranjeiras, amendoeiras e duas ou três alfarrobeiras e ainda amoras... sempre reparei nestas coisas, nas árvores plantadas.

Nesse tempo não sabia, penso que não sabia como sei hoje porque gostava tanto das árvores mas agora penso que talvez seja porque dão uma ideia de continuidade nas vidas. A senhora Joaquina faleceu e as árvores lá ficaram e ainda lá florescem e dão frutos todos os anos, penso eu. De qualquer forma é assim que eu vejo hoje aquela sua casa e as suas árvores. Já lá estavam quando ela nasceu, isso eu sei porque ela me disse e ficarão para sempre na imagem que tenho da sua casa.

Vendia roupas, a senhora Joaquina. Enviuvara, talvez nos tempos da pneumónica, isso nunca perguntei, não tinha filhos nem propriedade que lhe bastasse e vendia roupas.

Naquele tempo não havia muita coisa que se pudesse vender assim de porta em porta. Era sobretudo roupa interior que ela vendia, meias de lã e algum tecido para costurar, botões, agulhas: do tecido trazia as amostras e na volta seguinte entregava.

Era uma senhora muito alegre, sempre bem disposta e vendia também umas rifas que davam cem escudos da roupa que ela vendia a quem saísse o número premiado. Era muito amiga da minha mãe, talvez porque fossem as duas camponesas, ainda que nascidas e criadas a muitos quilómetros de distância, mas acho que o pessoal do campo é igual em todo o lado e isso sabe-se logo: a amizade e a cumplicidade já lá estão antes das pessoas se conhecerem bem. É assim mesmo.

Talvez por isso a minha mãe foi provavelmente a única a saber que ela nem ligava aos números da lotaria para dar os prémios de cem escudos em roupa. Umas vezes dava a uma senhora, outras vezes dava a outra, outras vezes dava à minha mãe...e outras ficava para ela: quando lhe perguntavam a quem tinha saído respondia que tinha sido a uma senhora do Alto Rodes, outras vezes uma senhora do Pé da Cruz, enfim...para os outros era sempre indeterminada a ganhadora. Ela mesma, muitas vezes.

Como disse era uma pessoa muito alegre, as gargalhadas soavam desde que chegava até que partia de nossa casa carregando as duas malas. Às vezes comia mesmo ali na nossa casa: trazia uma marmita com comida do campo que a minha mãe aquecia e era mesmo uma pena vê-la partir depois...era mesmo uma alegria de pessoa.

Depois, bem, depois teve um azar, só se pode dizer disso ter sido um azar... Segundo ela estava um fim de semana a fazer a limpeza da casa e tinha lá uma arca com roupas do falecido que foi escolhendo e metendo numa fogueira que fez no quintal da cerca. Aquilo que achava que já não serviria para nada e estava ali a ocupar espaço, a apodrecer e já não lhe trazia recordação nenhuma.

Esqueceu-se, disse depois ela passado mais de um mês sem nos visitar, que tinha guardado todo o seu dinheiro, todas as notas amealhadas no meio dessas roupas. Quando se lembrou já era tarde. Todo o dinheiro acarinhado ao longo de anos, carregando as duas pesadas malas pela cidade de Faro, percorrendo quilómetros e mais quilómetros tinha ardido.

Envenenou-se, teve uma quebra e a alegre senhora Joaquina envenenou-se. Os vizinhos ainda acorreram a tempo depois de terem ouvido os gritos dela e levaram-na ao hospital. Esteve lá cerca de um mês e recomeçou a sua vida e foi só quando ela nos foi visitar que soubemos do sucedido.

Mas já não era a senhora Joaquina que eu tinha conhecido: encolhida numa cadeira na nossa cozinha, pequenina e triste, beberricava uma gemada com cerveja preta que a minha mãe lhe tinha feito: Precisa de ganhar forças, senhora Joaquina, precisa de ganhar forças, dizia-lhe a minha mãe. E por ali ficaram conversando um bom bocado.

Quando se foi embora tive a certeza que nunca mais veria a senhora Joaquina tal como a tinha visto até aquela altura. Há pessoas que morrem antes de morrer e a senhora Joaquina morreu quando perdeu o resultado de todo o seu esforço de tantos anos de trabalho e eu disse-lhe um adeus sem querer mostrar o desgosto que me ia na alma.

Pobre senhora Joaquina: o sobrinho roubou-lhe todas as economias e foi para o Canadá. Ela não quis fazer queixa nem disse a mais ninguém porque ele era do seu sangue e este envenenou-lhe o sangue dela para sempre.

Daniel Teixeira




sexta-feira, 6 de março de 2015

Jornal Raizonline Nº 264 de 5 de Março de 2015 - Coluna Um - Os períodos eleitorais - Por Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 264 de 5 de Março de 2015

Coluna Um - Os períodos eleitorais - Por Daniel Teixeira

Os períodos eleitorais são para mim um verdadeiro paradoxo quando atingem aquela febre que já se vai tornando habitual nas suas pontas finais. Penso, por aquilo que leio e ouço que o fenómeno é geral, que existe em todos os países, mas não deixa de ser curioso que o processo tenha sido adoptado nos mais diversos quadrantes, também um pouco resultado do facto das campanhas terem períodos determinados no tempo, com princípio, meio e fim.

É no fim, quer dizer nos últimos meses antes das ditas eleições e nos últimos dias antes da sua realização que os ânimos aquecem, quer por necessidade de dar resposta aos chamados adversários ou por iniciativa própria que os diversos intervenientes no jogo ajustam o vocabulário, aumentam o volume da sua voz e utilizam os meios que julgam necessários para conquistar pontos aos adversários, baseados em análises resultantes de sondagens, em criteriosos estudos que dividem o eleitorado em faixas etárias, faixas de género, faixas de condição económica, faixas de intenção de voto, de utilidades de voto, enfim, a terminologia daria para encher pelo menos algumas páginas.

Faz-me sempre lembrar os jogos de futebol em que uma equipa, que em 90 minutos de jogo não consegue meter um golo na baliza adversária, protesta, pede cartão amarelo, reclama contra as lesões dos adversários que por princípio são sempre fingidas, nesta perspectiva, nos minutos finais e em que o outro, o adversário, aproveita o tempo para fazer as substituições que não fez porque não achou necessário mas que agora já acha que são necessárias ao cair do pano, faz uma falta ou outra desnecessária, enfim, empatam-se as coisas na perspectiva de um e aceleram-se as coisas nesses tais minutos finais na perspectiva de outros.

Um governo, ou qualquer órgão institucional eleito tem pelo menos 4 anos para mostrar aquilo que vale e se vale alguma coisa, as oposições têm também 4 anos pelo menos para mostrar aquilo que acham que o outro não vale, mas tudo se resume (dizer resumir é excessivo) aos tais minutos finais (que podem ser duas semanas, dois meses, ou um pouco mais).

O matraquear ou metralhar do pobre eleitor é um verdadeiro abuso e tudo se conjuga para que as ideias mais ou menos guardadas durante os tais 4 anos (exemplo) sofram uma reviravolta ou se mantenham sem reviravolta, consoante os interesses e os intervenientes.

Descobrem-se» nestes períodos os mais diversos escândalos, sejam eles financeiros sejam eles políticos ou mesmo de outra índole e no final, quer dizer, no dia das eleições, no dia do depósito efectivo do cartãozinho na urna, pelo menos uma percentagem razoável dos eleitores vota, não com a consciência, mas com a percepção algo abstracta de que o seu voto vai no caminho certo ou é «dado» a quem de facto o merece mais ou o desmerece menos.

Afinal será que o eleitorado anda mesmo às aranhas ou que não sabe analisar os comportamentos a longo ou a médio prazo e formar opinião ou será que tem a opinião tão frágil que um único ou vários acontecimentos pontuais faz (em) virar a balança do seu pensamento, será que os últimos minutos são determinantes para a formação e consolidação dessa mesma opinião, ou será simplesmente, o mais provável na minha opinião, que o eleitorado, de uma forma geral, precisa que lhe digam mesmo de uma forma bem explícita em quem deve votar?

O facto de se fazerem grandes obras, de se inaugurarem outras grandes ou pequenas, até por várias vezes a mesma como já tem acontecido, terá de ser assim tão determinante para a formação de uma opinião de voto?

Afinal o resultado do voto, até que as coisas mudem, o que não convém absolutamente nada diga-se (incomoda-me verdadeiramente os países que andam em eleições quase mensais) o resultado desse voto não é para durar os tais exemplares 4 anos e não deveria ser estudado durante os anteriores 4 anos todos e não nos últimos 4 minutos da partida?

É dificil pensar em termos de estabilidade para se fazer alguma coisa quando durante quatro anos, pelo menos,tivemos oportunidade de saber que   por exemplo em Portugal os Presidentes da República são eleitos por mais um mandato, que os governos andam sempre vai não vai sem saber se ficam se vão embora e quando mudam não mudam mesmo, enfim...

As Câmaras Municipais, depois de atravessado um período de longas (e quase eternas) repetições eleitorais, têm ultimamente mudado globalmente a um ritmo acelerado, as administrações dos Institutos Públicos mudam também aceleradamente de acordo com a camisola governamental eleita, e  existem milhares de cargos de nomeação que caem ou não caem depois das eleições, enfim...tudo isto é conhecido em cada um dos períodos em que regem os eleitos, quatro anos nuns casos ou mais noutro caso.

Enfim é um rol quase interminável que leva a esta sensação de inconstância, de fragilidade estrutural, de trabalho de cada um por si (e para si) que os eleitores portugueses vão sufragar neste ano que corre e muitos deles vão fazê-lo instavelmente durante os últimos minutos do jogo como tem sido usual.

O Churchil dizia que a democracia era o pior dos sistemas políticos excluindo todos os outros seguindo a ideia geral deixada por Rosseau no que se refere à representatividade. Ora agora que só localizadamente existem outros sistemas talvez seja bom aperfeiçoar esta mesma coisa a que chamam democracia porque assim é mesmo desesperante.




AS DEBULHAS - Por José Francisco Colaço Guerreiro


AS DEBULHAS - Por José Francisco Colaço Guerreiro

Recolhido em Património

 
Em volta dos montes e de roda das vilas, buscavam-se lugares planos, com o terreno firme, de preferência rochoso ,onde se faziam as eiras. As primeiras eram de planta circular , maiores ou menores ,conforme a abastança e o tamanho da corda que prendia as bestas, forçadas a andar de roda vezes sem fim para pisar o cereal, a fava e o grão por descascabulhar.

 Se as estrumeiras medravam perto das arramadas e das cavalariças, chamadas «casinhas», mesmo juntinho ao casario e para onde desembocavam duas aberturas feitas nas paredes, as eiras, ao contrário, iam-se moldando ,marcando no chão de ano para ano, arredadas da porta .

 Tinham de ficar em sitio descampado por mor de apanharem bem o vento e com a orientação devida , para não encherem as casas de palhuço quando as forquilhas de pau se levantavam ritmadas, oferecendo a colheita à maré.

 Assim, foi durante séculos, mas assim só é ainda, nalgum ponto mais recuado da serra, onde as máquinas se temem a entrar e donde os viventes se recusam a sair.

 Depois das debulhas feitas à custa de braço e pateada, entrou em cena a tecnologia. Surgiram as primeiras máquinas debulhadoras movidas à força do vapor, verdadeiros encantos de potência e desembaraço que pelo modo como aliviaram a faina, ganharam a simpatia das gentes. Eram miradas na passagem e admiradas no desempenho.

 Tornaram-se vultos de ferro e simpatia , motivos de admiração e de algum afeto, a pontos de serem designadas por um nome próprio . Era a «pintassilga». Era a «caminheira». Eram outras mais que de caldeira acesa percorriam as eiras das freguesias.

 Anos depois, vieram as debulhadoras fixas mais ligeiras, de cor amarela no seu tabuado.

 Ceifado o pão e depois de enroleirado, era carregado para as ditas eiras. Só para as maiores que se enchiam de medas , dispostas conforme a variedade do cereal e segundo a dimensão da labuta.

 Na vila, havia debulhas no largo da feira e na eira da máquina, para onde os seareiros transportavam em carros e carrinhas a pequenez das suas colheitas.

 Mas as debulhas tinham grande encanto. Faziam soltar o sortilégio da abastança mesmo que esta fosse curta. Representavam o momento efetivo da devolução pela terra, em forma de semente, do trabalho nela investido em canseiras múltiplas.

 Contavam-se as fundalhas. Corriam nas conversas as finezas e as desgraças de todas as searas. Este fundiu bem, aquele nem dobrou a semente. Foi por mor da chuva, porque não espigou, pegou-lhe a aforra, não foi bem tratado, faltou-lhe o guano, a sementeira traçou-lhe logo um mau fim.

 E dantes os anos, muitos anos a fio, eram ruins. Feitas as contas, não sobrava nada.

 Mas apesar disso, as debulhas tinham o tal sortilégio de provocar encanto e de desenvolver uma mística de alguma paixão bucólica.

 Esperava-se com frenesim a chegada da máquina e contavam-se os dias que faltavam para a ver aproximar-se , lentamente, bamboleando-se, de tombo em tombo ,pela estrada velha. Lá vinha toda aquela arrearia ,toda aquela gente, todo o movimento que o pessoal da máquina ,durante dias, gerava no monte sempre sossegado.

 Encostavam a debulhadora à primeira meda, descarregavam a torgia, acilhavam, travavam os rodados de ferro, preparavam tudo com o preceito sabido.

 Diante da máquina, à distancia da correia de lona grossa, tomava posição o trator que depois, dias a fio, fazia zunir as engrenagens. Mais afastada ainda, ficava a barraca, melhor dizendo, um toldo, feito de sacas esticadas atadas nas extremidades de quatro paus. O bastante para fazer sombra. Juncava-se o chão para dar fresquidão e por ali ficavam as quartas de água e uns banquinhos. tipo mochos, onde o pessoal vinha desencalmar quando era rendido.

 O tratorista, andava por ali, para observar o maquinismo. O saqueiro, aparava a semente, despejava os alcofões dos desperdícios, contava os sacos e tirava a maquia. Lá em cima, mais perto do sol ,andavam os fiscaleiros e os alimentadores, tentando atafulhar a goela larga da debulhadora. Mas ainda cá em baixo, mais perto do inferno, sofria o homem da munha, coberto de pó, enroupado com sacas, empapado em suor, aparando os restos que o fagulheiro deitava.

 E à sombra do toldo juntavam-se também os cães do monte, um gato ou um galo que o pessoal da máquina gostava de trazer.

 Como eles, os moços procuravam o fresco do verde. Com a junça e na hora do descanso os homens mais habilidosos faziam artes. Tranças, cestinhos e bastões que pareciam ir nascendo de uma magia qualquer.

 De quando em vez, feita certa conta de sacos, o saqueiro tocava um apito para a rendição.

 Enquanto as medas minguavam iam nascendo e crescendo os cavalos e depois, as serras de palha .Eram os trabalhadores da casa, com a de cabeça tapada por um capuz de sapec que iam arrastando a palha com um rodo puxado por uma parelha de muares para o sítio apropriado.

 E à noite, depois da ceia, ia-se dormir à eira, ao relento, embrulhados na palha caso refrescasse.

 Passados dias, o monte voltava a esmorecer, quando era chegada a hora de vermos partir ,bamboleante ,aos tombos ,pela estrada velha, a máquina debulhadora amarela e no pó da estrada, ficava por um tempo, o rasto de uns dias diferentes que irradiavam a magia da abastança, mesmo que aparente.



Rejeição Moçambicana a Albinos - Texto de Dr. Albee


Rejeição Moçambicana a Albinos - Texto de Dr. Albee

 

 Em alguns países os albinos são «caçados» como bichos, sofrem amputações de braços ou pernas para fins supersticiosos, sobretudo porque se acredita que o sangue deles ou o cabelo ajuda a acumular riqueza. Na pior das hipóteses, eles são mortos supostamente porque a sua presença numa família é presságio de grande azar. A sociedade continua a repelir violentamente as pessoas nessa condição de natureza genética.

 Na província de Nampula, o @Verdade encontrou Espírito Costa Amisse, de 18 anos de idade, na rua, onde vive há anos por ter sido rejeitado pelos pais porque é albino. Ele é um jovem igual a tantos outros, porém, devido à ausência completa de pigmento na pele, várias pessoas o olham com desdém e acreditam que não morre, mas sim, desaparece.

 Espírito sente-se um homem que não pertence a nenhuma raça e que é desprezado pelos outros indivíduos, desde que a mãe o renegou por causa do albinismo quando tinha apenas um ano de vida. «Estou sozinho e pensava que mais ninguém é como eu por ter sido rejeitado pela minha mãe». Nessa altura, o nosso interlocutor vivia no distrito de Moma (Nampula), tendo mais tarde passado a residir no distrito de Alto Molocué, na província da Zambézia, até aos 10 anos de idade, com o pai.

 Quando atingiu essa idade, o jovem, que frequentava a 3ª classe, disse aos avós que gostaria de conhecer a progenitora e pretendia morar com ela, em Moma. O seu pedido foi aceite. Contudo, chegado ao local, Espírito não pôde continuar a frequentar a escola e a sua vida mudou drasticamente porque os parentes da sua mãe o rejeitaram alegando que não podiam conviver com um albino dentro de casa. Aliás, para a família materna de Espírito quem convive com um indivíduo com falta de pigmentação na pele traz ao mundo um ser humano igual.

«Quando cheguei ao distrito de Moma, a minha mãe foi avisada de que não receberia nenhuma visita de familiares devido à minha presença», disse o jovem que nos assegurou que durante os cinco meses em que viveu com a mãe não houve visitas, para além de que as crianças eram proibidas de brincar com um albino.

 Contrariamente ao que acontece na Tanzânia, onde existem 170 mil albinos, Moçambique ainda não tem um levantamento estatístico sobre a incidência do albinismo na população e o preconceito prevalece. Há relatos de pais que vendem os seus filhos albinos. Entretanto, refere-se que em Africa a vida tem sido difícil para esse grupo de pessoas, principalmente na Tanzânia, onde as pessoas com falta de pigmentação na pele são em número 15 vezes maior que a média mundial.

 Cientificamente, ainda não se sabe por que razão aquele país possui índices tão elevados de albinos. Todavia, acredita-se que a Tanzânia e a Africa Oriental podem ser o berço da mutação genética responsável pelo albinismo. Refira-se que ainda naquele país já houve uma demanda assustadora por albinos porque se acreditava que a ingestão dos seus órgãos genitais secos elimina a SIDA.

 Por isso, esses cidadãos eram mortos e esquartejados supostamente para servirem de remédio. Lucas Mania, líder comunitário no bairro de Muatala, explicou que os albinos são pessoas diferentes de outras raças. Desde que reside em Nampula tem ouvido dizer que as pessoas com problema de pigmentação na pele nunca morrem, mas simplesmente desaparecem.

 O líder crê que quando uma mulher dá à luz uma criança albina deve, ao sair da maternidade e antes de chegar a casa, ser submetido a um ritual tradicional para que não volte a ter filhos com a mesma «anomalia». Antigamente, as mulheres que nasciam albinos eram mortas porque os seus filhos eram considerados obra de espíritos maus.


Os albinos são seres normais

Joselina Calavete, médica generalista no Hospital Central de Nampula (HCN), disse que a falta de pigmentação na pele é um problema genético sem «correcção» em Moçambique, mas não tem nada a ver com as interpretações que a sociedade tem feito.

 Segundo a médica, o entendimento que as pessoas têm sobre os albinos traz constrangimentos sérios para aquele grupo social, uma vez que se sente discriminado e excluído. O recomendável é que um albino use sempre roupas que o protejam completamente do sol e aplique produtos com o mesmo efeito na pele o tempo todo, resguardando os olhos da radiação solar.

 Refira-se que a agremiação que defende as causas e interesses dos albinos em Moçambique queixa-se do facto de nas províncias este grupo de pessoas continuar a aguardar meses a fio para ser observado por um médico especialista. Entretanto, na cidade de Maputo, o tempo de espera reduziu de dois a três meses para um dia a uma semana.

 O desamparo

 Quando se apercebeu de que era, cada vez mais, vítima de discriminação, preconceito, desprezo e afastado do convívio familiar, Espírito tentou recorrer ao comércio para sobreviver mas não teve sucesso. De Moma partiu para a cidade de Nampula à procura do irmão do pai mas, quando chegou ao destino, o tio já tinha passado a viver no distrito de Malema. Sem alternativa, o jovem sentiu-se desamparado e passou a viver na rua, enquanto procurava pela irmã que também reside naquela urbe. Ele levou um ano para localizar a casa da irmã no bairro de Muhala.

 Outra vez rejeitado

 A estadia de Espírito em Muhala durou somente dois dias. O cunhado convidou-o a abandonar o domicílio alegadamente por falta de espaço para acomodação. A opção foi viver na rua novamente.

 Em 2007, o Infantário Provincial de Nampula acolheu o jovem e matriculou-o na 2ª classe, mas a sua permanência naquelas instalações durou seis meses. Antes de terminar o ano lectivo, o nosso interlocutor foi levado de volta para a casa da mãe, no distrito de Moma, sem o seu consentimento. A convivência não foi das melhores, tendo Espírito deixado a residência para passar a habitar na rua mais uma vez.

 Espírito, deixado à sua sorte pelos parentes, disse que deseja voltar a estudar com vista a superar as dificuldades que enfrenta, algumas por causa do desleixo da sua família. Entretanto, ele está ciente de que na rua terá de batalhar bastante para conseguir concretizar os seus sonhos. O nosso entrevistado sobrevive da lavagem de carros na via pública, uma actividade que lhe rende entre 20 e 100 meticais por dia.

 Detido por duas vezes

O jovem a que nos referimos já esteve preso por duas vezes na cidade Nampula. Na primeira ocasião foi indiciado de roubo de um telemóvel numa das viaturas que estavam sob sua vigilância, e na segunda Espírito foi igualmente acusado de roubo de telemóvel e dinheiro num lugar por ele escolhido para passar a noite.




Pacatez - Conto de Daniel Teixeira


Pacatez - Conto de Daniel Teixeira


O suspense, ah, o suspense, aquela certeza incerta ou aquela incerteza certa de que algo vai ter lugar, que alguma coisa vai acontecer, seja como for e da forma que for é seguramente um atributo da mente humana que não tem nem pode ter explicação racional. Mas esteve ali comigo, naquele dia, naquela hora, naquele local.


Segundos antes eu era apenas uma pessoa sentada num banco de jardim, uma pessoa qualquer, alguém que procurava fazer passar o tempo, ou deixá-lo passar por mim, tanto me fazia.


Segundos antes : ouvia os pássaros a chilrear, o ruído das ramagens das árvores bandeando ao vento, as buzinas de carros e comboios lá ao longe, o chapinhar da água de encontro aos muros da doca, os gritos agudos das gaivotas e tudo, mas mesmo tudo,  parecia normal.


Depois veio aquela sensação estranha, aquele incómodo, aquele aperto no estômago, aquele acelerar da pulsação, aquela sensação incerta e mista de medo e de expectativa, e mais nada ficou normal dentro do meu pensamento: ia acontecer alguma coisa, eu sabia, sabia isso. Mas não sabia o que seria.


Contudo não demorou muito até tudo acontecer, poderia dizer felizmente porque para mim foi libertador, ou seja, libertei-me de uma sensação de indefinição para passar a viver uma situação que podia definir mas ainda hoje estou sem saber se na altura senti que uma situação foi melhor que a outra.


Ouvi o grito, um grito longo, um grito de socorro, estridente, talvez a cinquenta metros de mim, para trás de mim e virei-me quase instintivamente. Não vi nada. As ramagens que bordejavam a álea não me deixavam ver, ramagens espessas, recortadas. E era dali que tinha vindo o grito, aquele grito longo. Tentei levantar-me e correr, senti vontade de intervir, tentei, estou absolutamente certo de que tentei, mas as pernas não me deixaram.


Ouvi o grito de socorro de novo, e de novo, e de novo, estridentes, prolongados e depois apercebi-me que enquanto os gritos, aqueles gritos, iam durando o seu volume baixava e se ouvia como que um debater quase silencioso nos silvados e que finalmente quase tudo desaparecia como que num soluço para voltar a aparecer de novo, para voltar a ouvir-se de novo e para voltar a silenciar-se aos poucos.


Confesso, hoje posso confessar, agora que já passou algum tempo que foram as minhas pernas que não me deixaram sair do banco onde estava sentado e correr em direcção ao grito porque era isso que eu queria mas foi isso que eu não consegui.


Desde esse dia, quando me sento naquele banco de jardim lembro-me daqueles gritos de socorro sobre a origem ou a causa dos quais nunca ninguém disse nada. Eu vivo numa cidade pacata, as pessoas são pacatas, se alguma coisa aconteceu ali ninguém iria falar nisso.


Mas nunca mais senti aquela sensação de intranquilidade, aquela sensação estranha, aquele incómodo, aquele aperto no estômago, aquela sensação incerta e mista de medo e de expectativa e isso é bom, para mim é bom.


O que quer que fossem aqueles gritos, viessem donde viessem e fossem pelas razões que fossem, em cada um dos dias que lá me sento, logo que são passados os primeiros minutos sei que nada vai acontecer. Sinto isso.


(Série contos impopulares)