quinta-feira, 5 de março de 2015

Crónica por Martim Afonso Fernandes


Crónica por Martim Afonso Fernandes

Histórias da Vida Real

A Cadeia Pública

Em minha cidade natal tive vários amigos mais velhos, ou melhor, «com mais tempo de casa neste planeta!». Há amizades que conservo até hoje.

Alguns já mudaram-se para o piso de cima. É muito bom recordar!

A cadeia pública ficava próxima da usina de geração de energia, da lagoa de alimentação e circulação do sistema energético. O acesso à cadeia era pela rua principal, onde localizavam-se estabelecimentos comerciais e residências.

Como os moradores eram ordeiros, se o carcereiro dependesse do dinheiro da carceragem para viver, morreria de fome.

A cadeia já servia de moradia para o policial responsável.

O movimento do Porto era ininterrupto. De vez em quando algum marinheiro tomava umas graspas fora da conta e aparecia fazendo algazarra.

A polícia logo fazia o convite e o levava para curtir o porre e «ver o sol nascer quadrado». A ordem de descanso era de doze horas.

Quando era alguém de Imbituba, conhecido do delegado ou do policial, que desse algum apronto, era recolhido para que servisse de lição.

A cela tinha grade de madeira e era fechada por fora. Só o nome «cadeia» já impunha respeito ou medo.

Geralmente depois do preso completar umas duas horas de estágio, o policial chamava o detento e dizia:

-Vou dar uma volta. Lá naquele canto tem uma taboa solta. Levanta e sai pelo buraco, mas coloca a taboa no lugar. Some, porque se eu te pegar por aí, vais passar uma semana toda dentro do cubículo.

O detento atendia a ordem do policial, e para se ver livre, corria direto para casa. Como a saída da cadeia era pela rua principal, geralmente deduzia-se que aquele tinha sido preso. O pior era no dia seguinte agüentar as piadas e gozações dos amigos.

Porque sempre tinha alguém para perguntar:
 -Fulano, pagaste a diária do hotel do delegado? Que tal, a cama era boa? E o café da manhã?

Velhos e bons tempos, que não voltam mais.

Imbituba era uma cidade tão tranqüila, que quando o delegado queria falar com alguém que cometia algum deslize ou que descumprisse alguma lei, mandava um recado por um amigo ou pelo vizinho, para que o dito cujo comparecesse à delegacia.

Aconselhava-o paternalmente e prometia-lhe que se reincidisse na falta, da próxima vez a pena seria de uma semana no xadrez.

Assim a tranqüila Imbituba ia levando seus dias de paz e ordem.

O progresso veio lentamente, a imigração foi aumentando, a população crescendo.

Felizmente, o índice de criminalidade e o tráfico de drogas é mínimo para a expansão demográfica desta bela cidade de avenidas bem traçadas e de praias, ilhas e lagoas espelhados pelas águas límpidas e azuis do Atlântico.




Coluna Poética de Liliana Josué


Coluna Poética de Liliana Josué 

NA JANELA DA MINHA VIDA

Sentei-me à janela da minha vida
uma procissão de personagens desfilou
o sol desmaiava de vergonha
como tela desbotada, sem imagens.

Fechei os olhos e vi
beijos e bandeiras pejados de esperanças
cantares de primavera
viragens e crenças
mudança iminente.

A certeza na igualdade
foi minha companheira
como verdade certeira.

Corri, sorri, gritei, acreditei...
Ai meu horizonte de cor
meu suspiro tão fraterno.
Tudo nascia em verdade.

Acreditei no que fiz
por momentos fui feliz.


SUSPIRO

Lembro-me de ti
há já muito tempo
talvez do princípio do mundo.

Sei que te vi
como a minha salvação
da solidão que vesti.
Teu olhar deu-me alento
para me olhar bem no fundo.

Caminhei na tua direcção
confiante
num suspiro delirante.

Foste luz, paz, vida...
foste tudo.
Eu do meu recanto mudo
saí
numa onda de paixão
gratidão e confiança.

Mas tropecei no acaso
e sem saber como
caí.

 
VIVÊNCIAS

Por Liliana Josué

Eu penso que está sol...
Sinto que está sol...
tenho calor
estou mole...

E tu aí?
Como vives o calor?
Será que sentes ardor
ou apenas ignorância
dessa tua inconstância?

Eu vejo o mar azul, limpo.
E tu aí?
Vês o mar no seu total
no seu humor desigual
ora doce, ora fatal?

Eu dou-lhe a areia a namorar
e ele desfaz-se em espuma
deslumbrado.
E tu aí?
Sentes a areia pelo ar
namoriscando o seu mar
afagando como pluma
esse azul... tule adorado?

Todas as minhas vivências
são experiências
pessoais.
E as tuas?
São segredos tão iguais?
NAO

Eu sinto o meu existir
E tu aí?
Existes no teu sentir?...




Amanhã poderá ser tarde demais - Texto de Sá de Freitas


Amanhã poderá ser tarde demais - Texto de Sá de Freitas



(Texto escrito sem a consoante "Q")

 (O meu maior respeito às idéias não concordantes com a minha.)

 Sem dúvida todos trazemos, nas dobras da consciência, crostas e mais crostas pegajosas e virulentas de remorsos, formadas por erros cometidos voluntária ou involuntariamente, ao longo dessa vida ou de outras passadas.

Nessas crostas, muitas virtudes ficam retidas a espera da desobstrução a fim de se manifestarem no terreno de realizações mais edificantes.

Não há ninguém sem defeitos e ninguém sem virtudes. O nosso íntimo traz um misto de bondade e de maldade; de amor e de ódio; de alegria e de tristeza .

Na verdade, não passamos de frágeis e imperitos navegadores, reunidos no barco dessa existência e expostos ao mar furioso do mundo.

Conhecedores disso, não podemos nos deter nas curvas das lamentações, da autoculpabilidade e das preocupações exageradas, em relação a matéria, perdendo o tempo precioso e disponível à nossa regeneração, em benefício da nossa ascensão em direção a Deus.

O arrependimento, em si, demonstra a nossa vontade de mudança, mas não apaga os erros, pois as sementes plantadas germinarão e a colheita será inevitável, com atenuantes ou não.

Se esperarmos ser perfeitos para depois servirmos, nunca praticaremos a caridade, pois é a caridade o caminho único para buscarmos o nosso aperfeiçoamento. Fora dela, como disse Kardec, «não haverá salvação».

Muitas vezes a porta, a conduzir-nos a elevados ideais, fica emperrada pela ferrugem do egocentrismo, dificultando o nosso avanço em direção ao engrandecimento espiritual, onde há muito para se aprender e praticar. Se não arregaçarmos as mangas e não partirmos dispostos a escalar as montanhas das realizações beneméritas, jamais atingiremos o cume desejado dessa necessária elevação.

 Efeitos nulos terão nossas rezas, orações, preces e as nossas idas às Igrejas, se não cumprirmos o mais valioso de todos os Mandamentos: «Amai a Deus acima de tudo e ao próximo como a vós mesmos», pois religião alguma, sem boas obras, poderá levar alguém a um Plano melhor.

No Universo tudo se encadeia, tudo se completa, tudo se interdepende, no percurso da evolução do nosso mundo e dos seres. Todos os elementos cósmicos e terrestres, com a ação do tempo, se entrelaçam e misturam-se, num só amplexo , para o avanço inexorável do(ao) progresso. Sem essa coesão constante e ininterrupta de seres, elementos, ações e tempo, nada teria saído do seu estado embrionário.

 Contudo, o ser humano apenas vislumbra a sombra de um ideal maior, relacionado à espiritualidade, por estar com os olhos voltados exclusivamente aos interesses do desenvolvimento material, a visar tão somente a casa confortável, o emprego rentável, o veículo importado e a farta mesa, não se falando do conhecido «bem gozar a vida».

Não estamos no mundo para ficar eternamente. Nossas passagens já estão reservadas para a grande viagem, cujos dia e hora ignoramos. Com esse procedimento materialista, passamos a Vida Eterna a segundo plano. «Amanhã- pensam muitos - cuidarei da minha alma. Meu corpo tem prioridades, não estou ainda preparado para prestar a devida caridade. Preciso aumentar o meu capital para ter base sólida e aí então farei grandes obras em socorro aos necessitados.

Por ora a minha família está em primeiro lugar. Além disso preciso ser mais religioso, seguir um caminho certo, ser mais solidário, mais puro em minhas ações e isso farei somente depois de preparar o futuro dos meus filhos, da minha esposa e o meu também.»

Entretanto, nossas passagens estão reservadas, o transporte chegará inesperadamente , não temos bagagem e não há como adiarmos a partida. Tudo deixaremos na Terra, inclusive o nosso corpo. E agora? Tarde demais para o nosso espírito lamentar o tempo perdido e.....

SEM DUVIDA, VOLTAREMOS PARA NOVAS LUTAS, PARA OUTROS SOFRIMENTOS E APRENDIZADOS.




Se o Mundo Acabasse por Laé de Souza


Se o Mundo Acabasse por Laé de Souza


Aquele dia foi de alvoroço. Cruzei com um amigo acostumado a prosa, numa correria e recusou-se a conversa, alegando que não podia perder tempo, pois tinha algumas coisas a concluir antes de começar a escurecer. Espantou-se com a minha ignorância de que o mundo estava prestes a acabar. (Preciso encontrá-lo para ver o que tanto não podia ficar sem fazer.) Por preguiça não escrevi no momento. Se acabasse mesmo, seria desperdício de tempo. Mas entre a dúvida de ficar no meu canto a rezar e sair a indagar e a observar, venceu a curiosidade.

Uma mulher que tinha um caso antigo com um vizinho, convenceu-o a se levantar bem cedo e sem dar satisfação aos cônjuges se dirigiram a um jardim e com olhos fixos no firmamento, de mãos dadas, esperavam a chegada do Senhor.

Uns doaram bens numa atitude desesperada da busca do paraíso. Juliano vendeu esperanças e garantiu lugar privilegiado a quem tinha posses. Aos de menos recurso, por preço camarada um lugar mais na frente da fila. E faturou um troco legal.

Mães de santo cobraram fortuna para prorrogar o fim. O Pastor Queixada me garantiu que o mundo só não acabou como previsto, por sua intercessão e para que desse tempo a alguns irmãos se arrependerem. Mas me avisou que não vai dar para segurar por muito tempo, portanto, desapeguem-se dos seus bens.

Muitos rezaram, confessaram e se arrependeram.

Minha filha me fez perguntas que nunca ousou. Minha mulher me questionou umas coisas esquisitas, que prometi responder assim que escutasse a primeira trombeta tocar e visse os anjos descendo do céu.

Gumercindo não despregava os olhos do relógio e de nada resolveram os calmantes. Chorava que dava dó e pedia perdão à mulher por falhas e contou coisas que só se conta na hora da morte e morte certa mesmo.

Chiquinho abriu as gaiolas, soltou todos os pássaros e se escondeu debaixo da cama.

Roberval, devedor contumaz, fez mais compras e mandou que todos os credores viessem no dia seguinte.
 
MAS NÃO ACABOU.

Assim, por culpa de um tal de Nostradamus, o que ia até mais ou menos se encrencou. A mulher do Gumercindo retirou o perdão e foi para a casa da mãe com as crianças, não sem antes dar uma bofetada no sujeito e ameaçá-lo de proibir visitas aos filhos.

Chiquinho chora a falta dos pássaros e Roberval se esconde dos cobradores. A mulher com o vizinho tiveram que juntar as trouxas e fugir. Eu ando me esquivando da mulher, mas sinto que a qualquer hora ela vai me pegar de jeito e vou ter que responder àquela pergunta, e aí, não sei não.

Por tudo isso, Manelão se interrogou: "Ele erra na profecia e nós é que se ferra?
"


 



Mulher: Verônica - Por Abílio Pacheco


Mulher: Verônica

Por Abílio Pacheco



Para homenagear as mulheres por ocasião do dia oito de março que se aproxima, resolvi retirar das gavetas esta prosa poética que faz parte de um projetinho de livro nascido após a leitura de As cidade invisíveis, de Ítalo Calvino. A ideia: cada texto teria um nome de mulher com letra inicial diferente. Eis a letra “v”.


Verônica

Conheci Verônica numa noite de sábado já passada a meia-noite, portanto domingo eu deveria dizer. Não digo. A magia do sabath para mim só encerra pela manhã, aos raios do sol. E a magia dos encontros com essa mulher nada tem a ver com o dominus diem. Seus cabelos pagãos, seus olhos em brilho de Blimunda, seu rosto serenado em sisudez, seu corpo em talho de telha e em textura de camurça, seus seios suculentos e em formato de minhas mãos enconcheadas, sua língua com gosto de prazer procrastinado… toda ela tinha promessa de me deixar proscrito. Definitivamente Verônica era mulher de outras vias diversas da via sacra. O amor nela, por ela, com ela não combinavam com o domingo.

Não pense que de Verônica tive o retrato dado, compreendido, logo de primeira. Sabia que ela estava no 11º piso da torre, cujos andares tinham pé direito sobrelevado em metade. Só não sabia da rusticidade do prédio. Não bastava o esforço de argumento para convencê-la de me ceder endereço de sua morada. Nem o quanto ainda iria papear para poder conhecê-la mulher. Era preciso demonstrar fôlego. Pé ante pé. Degrau a degrau. Patamar por patamar. A torre tinha os elevadores defeituosos e, naquele dia, quebrados. Suspeito dela me ter chamado justo neste dia propositadamente. Era preciso vencer algumas provas. O controle da ansiedade era já por si a primeira e aqueles 363 degraus eram a segunda. No alto, é certo, estaria a terceira.

Como disse, não espere que dela tenha conhecido mulher já nesta subida. O esforço de subir degraus e três lances de escada por andar resultaram-me em gostosas dores em abdomên e panturrilhas. A porta, dissera-me, estaria apenas encostada. Foi o que lembrei já passando o sexto andar, quando os movimentos do corpo tornam-se de repetição irreflexiva. Subi o último lance de onze degraus no esforço de controlar respiração e caminhei até a porta de olhos fixos num post-it. Entre e esteja à vontade. Era um conjugado, ao primeiro passo era já possível dar conta do apartamento todo. Estava vazio.

* * *

Eu chegaria a ela naquela primeira noite apenas por acordes e melodias. Ainda semi-esbaforido sentei à borda da cama. Apoiei cotovelos em joelhos e depois derreei-me para trás sobre os lençóis aplainados. De olhos fechados, veio-me Verônica por uma voz em melodia a sair de mim mesmo quase como num canto em capela:


Verônica, me sinto tão só…
 Quero sua boca beijar… (*)

(*) são versos da canção intitulada “Verônica”, de Maurício Reis



quarta-feira, 4 de março de 2015

Coluna de Antônio Carlos Affonso dos Santos. - ACAS, o Caipira Urbano. - Ipês


Coluna de Antônio Carlos Affonso dos Santos.
           ACAS, o Caipira Urbano.

Ipês


Ipê Amarelo


Conheci os ipês na minha infância, numa fazenda de café no interior de São Paulo, Brasil. Extasiava-me aquelas árvores soberbas, vestidas de roxo, rosa, amarelo e branco. Conforme aprendi com os mais velhos, aquela era uma árvores sagrada, posto que o Criador havia feito um trato com ela (árvore) para que elas se vestissem de festa para mostrar que, a cada ano, a vida se renova no final do inverno e chegada da primavera. Os ipês roxo e o branco florescem entre julho e agosto; o amarelo e o rosa, no início de agosto e estendem-se até meados de setembro, quando anunciam aos trabalhadores do campo que já é hora de preparar a terra para mais um cultivo de arroz e de milho.

Mês de agosto. Inverno no seu último estágio. Os pastos ressequidos pela ação das geadas abrigava um gado magro e sonolento. Com pouco para comer nas invernadas e piquetes, os animais aguardavam com paciência bovina e eqüina, o pouco de ração de cana picada e milho «silado em trincheira», que o fazendeiro sovina nunca queria fazer na quantidade suficiente. A poeira levantava com os redemoinhos de sacis dos ventos mogianos, nas estradas secas onde os roceiros de pés descalços, rachados pela ação frio e da terra alcalina, caminhavam nos campos onde os ipês solitários, coloriam aquele resto de inverno, com sua melhor e mais bonita roupa floral estampada. O inverno, normalmente uma estação triste e cinzenta, vestia-se de alegria, com os ipês floridos...

 

Ipê Rosa


Quando somos crianças, «o tempo corre devagar». Naquela época, o tempo era diferente: moroso como as vacas que voltam no fim da tarde, com os úberes murchos, mas com esperança de rever seu filhote e quiçá comer uma iguaria, que tanto pode ser sal ou cana picada, ou silagem. Tudo andava ao ritmo da natureza, nos seus estágios e estações naturais.

E os bosques da Fazenda São José ficavam todos enfeitados por dezenas de ipês floridos. Havia o ipê roxo, o ipê rosa, o ipê branco, o ipê amarelo. Muitos anos depois, já na vida citadina, soube da existência do ipê verde, tão raro quanto bons leitores ou beija-flores vermelhos. Há um consenso no interior do Brasil que o ipê tem sentimentos iguais aos dos humanos: se ficamos concentrando nossa energia, focados na realização de um sonho, de repente tudo muda. E muda para melhor. Este «Ponto de Desequilíbrio», faz com quê até pessoas das quais nada se espera, num momento de superação, façam algo que nos surpreende, que vai além das previsões mais otimistas. 


 Ipê amarelo – Arvore Símbolo do Brasil


O ipê (amarelo) é a árvore símbolo do Brasil. O nome ipê vem da língua tupi, e pronuncia-se «ype», e significa «árvore com casca grossa». A designação científica do ipê é: gênero Tabebuia, da família das Bignoniáceas. A madeira do ipê é muito comercializada, especialmente para revestir pisos, devido à sua alta resistência. A casca do ipê roxo é considerada uma panacéia para muitos males, inclusive para prevenção contra o câncer. Como curiosidade, destaco outros nomes com que os ipês são conhecidos no Brasil: páu-d’arco, peúva, peroba-de-campos, ipê-amarelo, ipê, aipê, ipê-branco, ipê-mamono, ipê-mandioca, ipê-ouro, ipê-pardo, ipê-vacariano, entre outros.

Há uma lenda que conta a origem do ipê. Ela diz o seguinte:


«Naqueles tempos, o inverno estava nos seus últimos dias e todas as árvores da floresta estavam começando a florescer. Somente os ipês continuavam sem flores. Os ipês, cada vez mais se entristeciam com aquela situação. Eles eram os únicos que não tinham nem flores nem frutos.

Então, os amarelos canários da terra, percebendo a tristeza dos ipês, resolveram fazer seus ninhos somente nos galhos de um dos ipês. E ninhais também foram feitos pelas araras vermelhas e azuis e os sanhaços em outro; as garças brancas em outro, as siaciras em outro, e num outro ipê menos imponente, foram os periquitos, jandaias, maritacas e papagaios.

Os ipês ficaram muito felizes e resolveram pedir à Providência Divina que lhes dessem flores, como forma de agradecimento aos canários da terra e a todos os outros pássaros da floresta, pela alegria que tinham levado a eles.

No dia seguinte, dizem; sob o mais belo céu azul que aqueles sertões já conheceram, os ipês floresceram em várias cores. Cada um dos ipês se vestiu nas cores e matizes dos pássaros que os havia adotado. Quando tudo isso aconteceu, dizem, era agosto. E assim, desde então, os ipês têm florescidos em agosto.

Agora, a cada agosto, um vento frio sopra desde os sertões do Brasil: é a Providência Divina anunciando que ainda mais uma vez os ipês florescerão, cumprindo a aliança entre Deus e a Natureza. As cores dos ipês são, portanto, expressão de um milagre do amor de Deus pela natureza e pelos seres que vivem na Terra».
Ipê Branco


Mas eis que, de repente, esta árvore de outros espaços irrompe no meio do asfalto. Interrompe o tempo urbano de correrias, semáforos, buzinas e ultrapassagens. E eu tenho de parar ante esta aparição do outro mundo! Assim como aconteceu com Moisés, que pastoreava os rebanhos do sogro, quando viu um arbusto pegando fogo, sem se consumir. Ao se aproximar para ver melhor, ouviu uma voz que dizia: «Tira as sandálias dos teus pés, pois a terra em que pisas é santa». Acho que não foi sarça ardente. Deve ter sido um ipê florido. De fato, algo arde, sem queimar, não na árvore, mas na alma. E concluo que o Escritor Sagrado estava certo. Também eu acho sacrilégio chegar perto e pisar as milhares de flores caídas, tão lindas, agonizantes, tendo já cumprido sua vocação de amor.

Mas sei que no espaço urbano as coisas fluem de maneira diferente. O milagre da floração dos ipês é visto por muitos moradores dos centros urbanos como canseira para a vassoura. 

Ipê Rosa e Chão Sagrado

-Melhor o cimento limpo que a copa colorida, dizia uma minha conhecida.

Não raro sei de casos de pessoas que, por se cansarem de varrer as flores do ipê caídas no piso do quintal ou na frente das casas; atacam os ipês. Outras árvores são também castigadas pela ignorância dos humanos. Lembro-me de uma araucária numa rua ao lado do escritório no qual eu trabalhava; indefeso, com sua casca cortada a toda volta, e furos de broca. Meses depois, estava morto, seco. Restaram somente dois ninhos de bem-te-vis; um com filhotes e outro com ovos.

Numa manhã qualquer, passei sob o grande pinheiro seco e os dois ninhos estavam no chão, talvez arrancados por uma ventania, talvez derrubados pela mesma mão assassina que matou o pinheiro. Num dos ninhos estavam os fetos de dois filhotes, no outro as cascas de dois ovos quebrados. 



 Ipê Roxo


Mas no final, o que importa é o ritual de amor que o Criador faz manifestar-se no inverno. Ele espalhará sementes pela terra e a vida triunfará sobre a morte, o verde arrebentará o asfalto, e as flores nas cores em tons roxo, rosa, amarela e branca, enfeitarão nossas cidades, ano após ano. Alguns poucos ainda verão os ipês de flores verdes, que tanto procuro e nunca vi.

Espero, ansioso e esperançoso, que um dia o ser humano respeite a natureza. A despeito de toda a nossa loucura, os ipês continuam fiéis à sua vocação de beleza, e nos esperarão tranqüilos, todos os meses de agosto de nossa curta vida, por toda a eternidade. Todo ano temos um encontro marcado: no mês de agosto, devemos nos preparar para ver e sentir a floração dos ipês, pois ainda haverá de vir um tempo em que os homens e a natureza conviverão em harmonia e os ipês serão os ícones desse «Novo tempo».



 Ipê Amarelo em Rua da Cidade de São Paulo - Brasil

 
PS: em setembro de 2008, recebi de uma escritora de um site no qual participo; imagens com as fotos de flores do ipê verde, as quais por pura imperícia as perdi. Também fui homenageado pelos curumins e cunhãs da Escola Primária de uma aldeia indígena da região de Dourados, MT.

Nota: O Raizonline conseguiu encontrar o Ipê verde que o autor refere acima. Ei-lo



Os pequenos brasileiros fizeram desenhos dos ipês floridos e repassaram aos seus pais, na aldeia, a lenda do ipê. Só isso me bastaria para que ficasse orgulhoso, mas a cada mês recebo algum tipo de manifestação sobre este texto. Agradeço a Deus por tê-lo feito, mostrado e contado.




domingo, 1 de março de 2015

Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio


Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio


Sobre o autor:

João Antônio (1937 – 1996), além de jornalista, foi um escritor do submundo, retratando nas suas obras os marginalizados – prostitutas, cafetões, porteiros, malandros – aos quais empresta a profundidade da filosofia e da teoria literária. Abandonadas pela vida, estas personagens periféricas surgem assim enaltecidas por uma linguagem de registo, simultaneamente contista e de reportagem, com frases curtas e estilo conciso. Malagueta, Perus e Bacanaço, o seu primeiro livro, que conta a história de três malandros paulistas, ganhou dois Prémios Jabuti e foi traduzido para oito idiomas.
 

«Há algum tempo que venho  afinando certa mania. Nos começos chutava tudo o que achava. A vontade era chutar. Um pedaço de papel, uma ponta de cigarro, outro pedaço de papel. Qualquer mancha na calçada me fazia vir trabalhando o arremesso com os pés. Depois não eram mais papéis, rolhas, caixas de fósforos. Não sei quando começou em mim o gosto sutil. Somente sei que começou. E vou tratando de trabalhá-lo, valorizando a simplicidade dos movimentos, beleza que procuro tirar dos pormenores mais corriqueiros da minha arte se afinando.

Chutar tampinhas que encontro no caminho. É só ver tampinha. Posso diferenciar ao longe que tampinha é aquela ou aquela outra.  Qual a marca (se estiver de cortiça para baixo) e qual a força que devo empregar no chute. Dou uma gingada, e quase já controlei tudo. Vou me chegando, a vontade crescendo, os pés crescendo para a tampinha, não quero chute vagabundo. Errei muitos, ainda erro. É plenamente aceitável a ideia de que para acertar, necessário pequenas erradas. Mas é muito desagradável, o entusiasmo desaparecer antes do chute. Sem graça.

Meu irmão, tipo sério, responsabilidades. Ele, a camisa; eu, o avesso. Meio burguês, metido a sensato. Noivo...

– Você é um largado. Onde se viu essa, agora!

É que eu, às vezes, interrompo conversas na calçada para os meus chutes.

Só um sujeito como eu, homem se atilando naquilo que faz, pode avaliar um chute digno para determinadas tampinhas. Porque como as coisas, as tampinhas são desiguais. Para algumas que vêm nas garrafas de água mineral, reservo carinho. Cuidado particular, jeito. É doce chutá-las bem baixo, para subirem e demorarem no ar. Ou de lado, quase com o peito do pé, atingindo de chapa. Sobem. Não demoram muito, que ainda não sou um grande chutador. Mas capricho, porque elas merecem.

Minhas tampinhas... Umas belezas.»