quinta-feira, 5 de março de 2015

Mulher: Verônica - Por Abílio Pacheco


Mulher: Verônica

Por Abílio Pacheco



Para homenagear as mulheres por ocasião do dia oito de março que se aproxima, resolvi retirar das gavetas esta prosa poética que faz parte de um projetinho de livro nascido após a leitura de As cidade invisíveis, de Ítalo Calvino. A ideia: cada texto teria um nome de mulher com letra inicial diferente. Eis a letra “v”.


Verônica

Conheci Verônica numa noite de sábado já passada a meia-noite, portanto domingo eu deveria dizer. Não digo. A magia do sabath para mim só encerra pela manhã, aos raios do sol. E a magia dos encontros com essa mulher nada tem a ver com o dominus diem. Seus cabelos pagãos, seus olhos em brilho de Blimunda, seu rosto serenado em sisudez, seu corpo em talho de telha e em textura de camurça, seus seios suculentos e em formato de minhas mãos enconcheadas, sua língua com gosto de prazer procrastinado… toda ela tinha promessa de me deixar proscrito. Definitivamente Verônica era mulher de outras vias diversas da via sacra. O amor nela, por ela, com ela não combinavam com o domingo.

Não pense que de Verônica tive o retrato dado, compreendido, logo de primeira. Sabia que ela estava no 11º piso da torre, cujos andares tinham pé direito sobrelevado em metade. Só não sabia da rusticidade do prédio. Não bastava o esforço de argumento para convencê-la de me ceder endereço de sua morada. Nem o quanto ainda iria papear para poder conhecê-la mulher. Era preciso demonstrar fôlego. Pé ante pé. Degrau a degrau. Patamar por patamar. A torre tinha os elevadores defeituosos e, naquele dia, quebrados. Suspeito dela me ter chamado justo neste dia propositadamente. Era preciso vencer algumas provas. O controle da ansiedade era já por si a primeira e aqueles 363 degraus eram a segunda. No alto, é certo, estaria a terceira.

Como disse, não espere que dela tenha conhecido mulher já nesta subida. O esforço de subir degraus e três lances de escada por andar resultaram-me em gostosas dores em abdomên e panturrilhas. A porta, dissera-me, estaria apenas encostada. Foi o que lembrei já passando o sexto andar, quando os movimentos do corpo tornam-se de repetição irreflexiva. Subi o último lance de onze degraus no esforço de controlar respiração e caminhei até a porta de olhos fixos num post-it. Entre e esteja à vontade. Era um conjugado, ao primeiro passo era já possível dar conta do apartamento todo. Estava vazio.

* * *

Eu chegaria a ela naquela primeira noite apenas por acordes e melodias. Ainda semi-esbaforido sentei à borda da cama. Apoiei cotovelos em joelhos e depois derreei-me para trás sobre os lençóis aplainados. De olhos fechados, veio-me Verônica por uma voz em melodia a sair de mim mesmo quase como num canto em capela:


Verônica, me sinto tão só…
 Quero sua boca beijar… (*)

(*) são versos da canção intitulada “Verônica”, de Maurício Reis



quarta-feira, 4 de março de 2015

Coluna de Antônio Carlos Affonso dos Santos. - ACAS, o Caipira Urbano. - Ipês


Coluna de Antônio Carlos Affonso dos Santos.
           ACAS, o Caipira Urbano.

Ipês


Ipê Amarelo


Conheci os ipês na minha infância, numa fazenda de café no interior de São Paulo, Brasil. Extasiava-me aquelas árvores soberbas, vestidas de roxo, rosa, amarelo e branco. Conforme aprendi com os mais velhos, aquela era uma árvores sagrada, posto que o Criador havia feito um trato com ela (árvore) para que elas se vestissem de festa para mostrar que, a cada ano, a vida se renova no final do inverno e chegada da primavera. Os ipês roxo e o branco florescem entre julho e agosto; o amarelo e o rosa, no início de agosto e estendem-se até meados de setembro, quando anunciam aos trabalhadores do campo que já é hora de preparar a terra para mais um cultivo de arroz e de milho.

Mês de agosto. Inverno no seu último estágio. Os pastos ressequidos pela ação das geadas abrigava um gado magro e sonolento. Com pouco para comer nas invernadas e piquetes, os animais aguardavam com paciência bovina e eqüina, o pouco de ração de cana picada e milho «silado em trincheira», que o fazendeiro sovina nunca queria fazer na quantidade suficiente. A poeira levantava com os redemoinhos de sacis dos ventos mogianos, nas estradas secas onde os roceiros de pés descalços, rachados pela ação frio e da terra alcalina, caminhavam nos campos onde os ipês solitários, coloriam aquele resto de inverno, com sua melhor e mais bonita roupa floral estampada. O inverno, normalmente uma estação triste e cinzenta, vestia-se de alegria, com os ipês floridos...

 

Ipê Rosa


Quando somos crianças, «o tempo corre devagar». Naquela época, o tempo era diferente: moroso como as vacas que voltam no fim da tarde, com os úberes murchos, mas com esperança de rever seu filhote e quiçá comer uma iguaria, que tanto pode ser sal ou cana picada, ou silagem. Tudo andava ao ritmo da natureza, nos seus estágios e estações naturais.

E os bosques da Fazenda São José ficavam todos enfeitados por dezenas de ipês floridos. Havia o ipê roxo, o ipê rosa, o ipê branco, o ipê amarelo. Muitos anos depois, já na vida citadina, soube da existência do ipê verde, tão raro quanto bons leitores ou beija-flores vermelhos. Há um consenso no interior do Brasil que o ipê tem sentimentos iguais aos dos humanos: se ficamos concentrando nossa energia, focados na realização de um sonho, de repente tudo muda. E muda para melhor. Este «Ponto de Desequilíbrio», faz com quê até pessoas das quais nada se espera, num momento de superação, façam algo que nos surpreende, que vai além das previsões mais otimistas. 


 Ipê amarelo – Arvore Símbolo do Brasil


O ipê (amarelo) é a árvore símbolo do Brasil. O nome ipê vem da língua tupi, e pronuncia-se «ype», e significa «árvore com casca grossa». A designação científica do ipê é: gênero Tabebuia, da família das Bignoniáceas. A madeira do ipê é muito comercializada, especialmente para revestir pisos, devido à sua alta resistência. A casca do ipê roxo é considerada uma panacéia para muitos males, inclusive para prevenção contra o câncer. Como curiosidade, destaco outros nomes com que os ipês são conhecidos no Brasil: páu-d’arco, peúva, peroba-de-campos, ipê-amarelo, ipê, aipê, ipê-branco, ipê-mamono, ipê-mandioca, ipê-ouro, ipê-pardo, ipê-vacariano, entre outros.

Há uma lenda que conta a origem do ipê. Ela diz o seguinte:


«Naqueles tempos, o inverno estava nos seus últimos dias e todas as árvores da floresta estavam começando a florescer. Somente os ipês continuavam sem flores. Os ipês, cada vez mais se entristeciam com aquela situação. Eles eram os únicos que não tinham nem flores nem frutos.

Então, os amarelos canários da terra, percebendo a tristeza dos ipês, resolveram fazer seus ninhos somente nos galhos de um dos ipês. E ninhais também foram feitos pelas araras vermelhas e azuis e os sanhaços em outro; as garças brancas em outro, as siaciras em outro, e num outro ipê menos imponente, foram os periquitos, jandaias, maritacas e papagaios.

Os ipês ficaram muito felizes e resolveram pedir à Providência Divina que lhes dessem flores, como forma de agradecimento aos canários da terra e a todos os outros pássaros da floresta, pela alegria que tinham levado a eles.

No dia seguinte, dizem; sob o mais belo céu azul que aqueles sertões já conheceram, os ipês floresceram em várias cores. Cada um dos ipês se vestiu nas cores e matizes dos pássaros que os havia adotado. Quando tudo isso aconteceu, dizem, era agosto. E assim, desde então, os ipês têm florescidos em agosto.

Agora, a cada agosto, um vento frio sopra desde os sertões do Brasil: é a Providência Divina anunciando que ainda mais uma vez os ipês florescerão, cumprindo a aliança entre Deus e a Natureza. As cores dos ipês são, portanto, expressão de um milagre do amor de Deus pela natureza e pelos seres que vivem na Terra».
Ipê Branco


Mas eis que, de repente, esta árvore de outros espaços irrompe no meio do asfalto. Interrompe o tempo urbano de correrias, semáforos, buzinas e ultrapassagens. E eu tenho de parar ante esta aparição do outro mundo! Assim como aconteceu com Moisés, que pastoreava os rebanhos do sogro, quando viu um arbusto pegando fogo, sem se consumir. Ao se aproximar para ver melhor, ouviu uma voz que dizia: «Tira as sandálias dos teus pés, pois a terra em que pisas é santa». Acho que não foi sarça ardente. Deve ter sido um ipê florido. De fato, algo arde, sem queimar, não na árvore, mas na alma. E concluo que o Escritor Sagrado estava certo. Também eu acho sacrilégio chegar perto e pisar as milhares de flores caídas, tão lindas, agonizantes, tendo já cumprido sua vocação de amor.

Mas sei que no espaço urbano as coisas fluem de maneira diferente. O milagre da floração dos ipês é visto por muitos moradores dos centros urbanos como canseira para a vassoura. 

Ipê Rosa e Chão Sagrado

-Melhor o cimento limpo que a copa colorida, dizia uma minha conhecida.

Não raro sei de casos de pessoas que, por se cansarem de varrer as flores do ipê caídas no piso do quintal ou na frente das casas; atacam os ipês. Outras árvores são também castigadas pela ignorância dos humanos. Lembro-me de uma araucária numa rua ao lado do escritório no qual eu trabalhava; indefeso, com sua casca cortada a toda volta, e furos de broca. Meses depois, estava morto, seco. Restaram somente dois ninhos de bem-te-vis; um com filhotes e outro com ovos.

Numa manhã qualquer, passei sob o grande pinheiro seco e os dois ninhos estavam no chão, talvez arrancados por uma ventania, talvez derrubados pela mesma mão assassina que matou o pinheiro. Num dos ninhos estavam os fetos de dois filhotes, no outro as cascas de dois ovos quebrados. 



 Ipê Roxo


Mas no final, o que importa é o ritual de amor que o Criador faz manifestar-se no inverno. Ele espalhará sementes pela terra e a vida triunfará sobre a morte, o verde arrebentará o asfalto, e as flores nas cores em tons roxo, rosa, amarela e branca, enfeitarão nossas cidades, ano após ano. Alguns poucos ainda verão os ipês de flores verdes, que tanto procuro e nunca vi.

Espero, ansioso e esperançoso, que um dia o ser humano respeite a natureza. A despeito de toda a nossa loucura, os ipês continuam fiéis à sua vocação de beleza, e nos esperarão tranqüilos, todos os meses de agosto de nossa curta vida, por toda a eternidade. Todo ano temos um encontro marcado: no mês de agosto, devemos nos preparar para ver e sentir a floração dos ipês, pois ainda haverá de vir um tempo em que os homens e a natureza conviverão em harmonia e os ipês serão os ícones desse «Novo tempo».



 Ipê Amarelo em Rua da Cidade de São Paulo - Brasil

 
PS: em setembro de 2008, recebi de uma escritora de um site no qual participo; imagens com as fotos de flores do ipê verde, as quais por pura imperícia as perdi. Também fui homenageado pelos curumins e cunhãs da Escola Primária de uma aldeia indígena da região de Dourados, MT.

Nota: O Raizonline conseguiu encontrar o Ipê verde que o autor refere acima. Ei-lo



Os pequenos brasileiros fizeram desenhos dos ipês floridos e repassaram aos seus pais, na aldeia, a lenda do ipê. Só isso me bastaria para que ficasse orgulhoso, mas a cada mês recebo algum tipo de manifestação sobre este texto. Agradeço a Deus por tê-lo feito, mostrado e contado.




domingo, 1 de março de 2015

Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio


Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio


Sobre o autor:

João Antônio (1937 – 1996), além de jornalista, foi um escritor do submundo, retratando nas suas obras os marginalizados – prostitutas, cafetões, porteiros, malandros – aos quais empresta a profundidade da filosofia e da teoria literária. Abandonadas pela vida, estas personagens periféricas surgem assim enaltecidas por uma linguagem de registo, simultaneamente contista e de reportagem, com frases curtas e estilo conciso. Malagueta, Perus e Bacanaço, o seu primeiro livro, que conta a história de três malandros paulistas, ganhou dois Prémios Jabuti e foi traduzido para oito idiomas.
 

«Há algum tempo que venho  afinando certa mania. Nos começos chutava tudo o que achava. A vontade era chutar. Um pedaço de papel, uma ponta de cigarro, outro pedaço de papel. Qualquer mancha na calçada me fazia vir trabalhando o arremesso com os pés. Depois não eram mais papéis, rolhas, caixas de fósforos. Não sei quando começou em mim o gosto sutil. Somente sei que começou. E vou tratando de trabalhá-lo, valorizando a simplicidade dos movimentos, beleza que procuro tirar dos pormenores mais corriqueiros da minha arte se afinando.

Chutar tampinhas que encontro no caminho. É só ver tampinha. Posso diferenciar ao longe que tampinha é aquela ou aquela outra.  Qual a marca (se estiver de cortiça para baixo) e qual a força que devo empregar no chute. Dou uma gingada, e quase já controlei tudo. Vou me chegando, a vontade crescendo, os pés crescendo para a tampinha, não quero chute vagabundo. Errei muitos, ainda erro. É plenamente aceitável a ideia de que para acertar, necessário pequenas erradas. Mas é muito desagradável, o entusiasmo desaparecer antes do chute. Sem graça.

Meu irmão, tipo sério, responsabilidades. Ele, a camisa; eu, o avesso. Meio burguês, metido a sensato. Noivo...

– Você é um largado. Onde se viu essa, agora!

É que eu, às vezes, interrompo conversas na calçada para os meus chutes.

Só um sujeito como eu, homem se atilando naquilo que faz, pode avaliar um chute digno para determinadas tampinhas. Porque como as coisas, as tampinhas são desiguais. Para algumas que vêm nas garrafas de água mineral, reservo carinho. Cuidado particular, jeito. É doce chutá-las bem baixo, para subirem e demorarem no ar. Ou de lado, quase com o peito do pé, atingindo de chapa. Sobem. Não demoram muito, que ainda não sou um grande chutador. Mas capricho, porque elas merecem.

Minhas tampinhas... Umas belezas.»




sábado, 28 de fevereiro de 2015

Refugiados da Ucrânia

Refugiados da Ucrânia

Recolhido no Bloguer Livres Pensantes
 
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Refugiados afegãos, paquistaneses, palestinianos, congoleses e somalis  num centro de detenção em Chop, no oeste da Ucrânia, em 2009.

Refugiados da Ucrânia

O Guantánamo do Este

Menos mediática que o Mediterrâneo, a Ucrânia é um importante ponto de passagem para a Europa dos refugiados que fogem dos islamitas na África oriental. Mas as condições de acolhimento são indignas, como testemunham os requerentes de asilo.
Por Lorenzo Ferrari

"Hasan Hirsi tem 21 anos e saiu da Somália aos quinze anos, depois de os terroristas de al-Shabab terem atacado a sua aldeia e assassinado o seu pai. Fugiu para Moscovo e, a partir de lá, uma rede de tráfico de humanos levou-o até Kiev. Hirsi demorou cinco anos – e cinco tentativas – para passar da Ucrânia para a União Europeia. Cada vez que tentava, era detido pelos guardas fronteiriços ucranianos, húngaros e eslovacos e passou cerca de três anos em centros de detenção e prisões ucranianas, onde afirma ter sido roubado, espancado e torturado pelas forças de segurança. Hoje em dia, revela ao Spiegel, refere-se à Ucrânia como “o inferno” e continua a ter pesadelos.

Apesar de a atenção dos meios de comunicação social e dos políticos se concentrar sobretudo nas rotas de imigração que passam pelo Mediterrâneo, Maximilian Popp observa, numa longa investigação publicada no site em inglês da revista alemã, que “até agora o interesse era limitado no que diz respeito à rota oriental e à saída de imigrantes como Hasan Hirsi”. Contudo, “no ano passado, com o conflito em curso na Ucrânia, centenas de imigrantes tentaram chegar à UE através da Europa oriental”.

Um dos principais cruzamentos da rota oriental situa-se na cidade ucraniana de Uzhgorod. Os refugiados passam, muitas vezes, meses à espera que as suas famílias lhes enviem o dinheiro necessário para seguirem o seu caminho. Em seguida, “em troca de várias centenas de euros, os traficantes ucranianos conduzem os imigrantes desde Uzhgorod até à Hungria ou à Eslováquia”, escreve Maximilian Popp.

Apesar de os Estados-membros da UE serem responsáveis por examinar os pedidos de asilo, “os países ao longo da sua fronteira oriental, como a Hungria ou a Grécia, ignoram muitas vezes as regras e enviam os refugiados para trás”. Foi assim que Hirsi, que queria apresentar um pedido de asilo, foi enviado várias vezes de volta para a Ucrânia.

Entre 2000 e 2006, a UE concedeu 35 milhões de euros à Ucrânia, para que esta reforçasse o controlo das suas fronteiras. Nos últimos anos, Bruxelas desembolsou 30 milhões de euros adicionais para construir e modernizar os seus centros de detenção e de acolhimento para imigrantes.
Um acordo assinado em 2010, entre a UE e a Ucrânia, estabeleceu que os refugiados que entram na UE através da Ucrânia podem ser reenviados para esta última.

“Ao longo da fronteira oriental da Europa, a externalização da política de asilo da UE é mais avançada do que em qualquer outra região”, escreve Popp, que acrescenta que, “aparentemente, Bruxelas espera que este sistema leve à diminuição do número de requerentes de asilo na Europa – sem chamar demasiado a atenção”.

Mas, já em 2010, a ONG Human Rights Watch tinha criticado a UE “por esta ter investido milhões com o intuito de deslocar o fluxo de imigrantes para longe da Europa e em direcção à Ucrânia, sem garantir que foram tomadas medidas suficientes para assegurar um tratamento humano dos refugiados.

Segundo o testemunho de Hasan Hirsi, os refugiados na Ucrânia são tratados de forma desumana. Um dos campos de detenção onde esteve detido, em Pavshino, era por exemplo conhecido como “o Guantánamo do este”. Nos campos, os imigrantes “eram mantidos num local escuro e não aquecido e os guardas recusavam-se a deixá-los utilizar as casas de banho.

Muitos refugiados urinavam em garrafas ou no chão e não recebiam nada para comer durante dias. “Estávamos encarcerados como animais”, afirma Hirsi. Durante os interrogatórios, os agentes batiam nos imigrantes e davam-lhes choques eléctricos. Segundo Hirsi, um deles disse: “agora estão na Ucrânia e não na Alemanha ou na Inglaterra. Aqui, não há democracia”.

O relato de Hirsi coincide com o de vários outros relatórios e testemunhos. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a detenção dos imigrantes na Ucrânia viola a Convenção europeia dos Direitos Humanos.

Teme-se que o tratamento dos imigrantes possa piorar devido à actual crise na Ucrânia. Tal como observa o representante do ACNUR, “o Governo de Kiev já se encontra totalmente sobrecarregado com a gestão e a protecção dos refugiados internos, cerca de um milhão de pessoas. […] Na verdade, não tem condições para se ocupar também dos requerentes de asilo”.

Voxeurop, Der Spiegel




Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira


Eclipse


O eclipse chega montado num raio que esgrima o céu vibrante 
Elas seguem-no com o olhar, as carpideiras de rostos taciturnos
O eclipse envolve-lhes o mundo num manto escuro num instante,
Abraçando com ferocidade o Sol com os seus tentáculos nocturnos

E elas olham, desamparadas, sem reter as lágrimas ainda no peito para derramar
Enquanto a escuridão se espalha, como uma sinuosa nuvem de pó negro
E tudo engole, num momento de terror, na senda de tudo apagar
Cada recanto. Cada rua. Cada casa. Cada memória. Cada alma.

As carpideiras ajoelham-se, gritando enlouquecidas um lamento visceral
Ai o Mundo! Todo o seu Mundo! Agora rendido, chamuscado, perdido…
O rio de lágrimas destas carpideiras condoídas abre caminho para o triste funeral … 

O caixão vai pesado de sonhos, de memórias, de risos e de esperanças
E elas, as carpideiras, que carregam com temor esse caixão de um Mundo traído
E lamentam-no, esse cadáver envolto em solidão, despido de todas as crenças…


Peregrina


Fitando a janela chora a cansada peregrina
Encosta desamparada a cabeça no mármore gelado
E murmura baixinho doridas preces, lamentando a sua sina
Sabendo que ainda não encontrou o caminho almejado

Vislumbra o amanhecer lá fora, e o céu a clarear de mansinho,
A noite que se despede preguiçosa com laivos de carmesim e dourado,
A Lua que boceja cansada e parece desaparecer no seu cantinho,
E o Sol que acorda resplandecente no seu lugar honrado

Suspira profundamente, a cigana, e fita cansada o seu bordão
Um último olhar para a neve lá fora, imaculada, ainda sem pegadas
Tão alta que parece envolver todo o mundo numa fofa nuvem de algodão

Campos brancos imensos que gritam a imensidão dessa terra já sem magia
E adiante, lá fora no ar gélido da madrugada, esperam por ela as incontáveis estradas
 Que percorre, sentindo a cada passo uma mais profunda nostalgia…


Prece


Um rio de lágrimas grossas e salgadas
Desce pelo rosto até aos lábios unidos em prece
Uma ladainha demente de almas atormentadas
O rosto marcado pela saudade que não envelhece

Querer é o castigo que carrega no peito
Esta ânsia que acorda e rouba o sono
Este desejo sem fim tão longamente insatisfeito
As saudades que caem como folhas velhas no Outono

Saudades que renascem com cada nova Primavera
Que não queimam ao calor abrasador do Verão
Nem conhecem Invernos que não sejam de espera

Falta de ti que não abranda nem  conhece fim
Corpo e alma sequiosos de ti, cegos de razão
Sonhadores do instante perfeito em que mergulhas em mim... 






 

Poesia de Pedro Du Bois


Poesia de Pedro Du Bois


CALMA

 
na calmaria cede espaço ao cansaço.

Descansa o silêncio e se desentende

em ritos descontinuados. Desavenças

e calçadas ressoam passos. Acalma

o vento. Reclama ao vento a passagem.

Impressiona o sono em ideias aleatórias

de descobertas e conformismos. No

dito recupera da razão o lídimo saber

sobre a calma na alma despossuída.

Em passos atravessa a hora e despede

do gerânio a flor inacabada. Gira o Sol

em retorno: o dia permanece na explosão

sintética da espera. A calma na calúnia

desdita arrebenta os sinos entre torres.

O desafogo na morte: calma arrebatada

ao espírito. Acalma o corpo ao começo.
 
(Pedro Du Bois, inédito)


 SOLO E ÁGUA


 O solo absorve

aqüífera água. O poço

                         cancela

                         o isolamento: corda

                                               caçamba.



Retiro o cesto e guardo a garrafa:

o vinho descansado

sugere o instante da embriaguez



                          o solo absolve

                          a água derramada.
 
(Pedro Du Bois, inédito)


 TER


 Na formação aleatória

                    e responsabilizada

                    acredito na suavidade da música

                    no encontro das esferas: a colisão

                    evitada céus estrelas combinadas

                    em esburacados espaços (negros)



na deformação trazida

aos olhares informes das cobranças

sei do absoluto mistério



nas informações transmitidas

ao menino criado em ordens

reunidas renuncio ao saber

das asperezas e me rendo: músicas

suavizam a finalidade na destruição

conformada das vivências.
 
(Pedro Du Bois, inédito)



http://pedrodubois.blogspot.com






Poesia de Mário Matta e Silva


Poesia de Mário Matta e Silva


NO SONHO DO BEM-ME-QUER

Vou na amplitude da tarde
colher a vastidão das planícies
ofuscar-me nos brilhos do sol
derramar por aí o meu próprio eu
tão insolente e tão irrequieto
no extravasar desse imenso rol
de deusas e de musas que caem do céu
aos trambolhões, em queda-livre
sobre o amontoado de fantasias
que vou construindo sem regras
nem preceitos, nem esquadros
dicionários, guias, mapas ou tratados
mas que guardo para mim ao fim dos dias
que se vêm misturar ao sono perturbado
para que nessas planícies feitas
de libertinagem, tenha por companhia
essa luz uniforme e cálida do dia
com os seus matizes e os seus perfumes
prenhes de papoilas e mal-me-queres
ensopados de ácidos estrumes
com raiva depositados no ventre terra
e a partir dela desabrocha a natureza
tão meiga, tão generosa, tão aveludada
que tanto se deseja e tanto se quer
pelo restolho árido de cada madrugada
febril a mitigar a sede em riacho puro
até que pela noite ribombe o escuro
num sonho morno feito de bem-me-quer.

5 de Agosto de 2014

MÁRIO MATTA E SILVA


BATIAM AS SEIS DA TARDE

Batiam a seis da tarde
Numa recepção à lua
Tarde fria de luz crua
Na despedida do sol
Vem outra noite a rebol
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Ténue tom crepuscular
Vem a noite pra te amar
Tão solene e tão vilã
Mesclado de romã
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
No campanário sombrio
Vai de manso água do rio
Nas sombras do arvoredo
Cresce o pranto, cresce o medo
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Foi-se o dia radioso
Em teu corpo esplendoroso
Chora a criança num pranto
Sofrem velhos sem encanto
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Há um crime, uma traição
Acelera um coração
No amor, na euforia
Da praia vem maresia
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Ouvem-se tiros estridentes
Morrem à fome inocentes
E tudo cega o olhar
Perfumes, peitos a arfar
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Numa luta de emoções
Canalhas, agiotas, aldrabões
Declarações apaixonadas
Na espera das alvoradas
Batiam as seis da tarde.

22 de Janeiro de 2015

Mário Matta e Silva