sábado, 28 de fevereiro de 2015

Refugiados da Ucrânia

Refugiados da Ucrânia

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Refugiados afegãos, paquistaneses, palestinianos, congoleses e somalis  num centro de detenção em Chop, no oeste da Ucrânia, em 2009.

Refugiados da Ucrânia

O Guantánamo do Este

Menos mediática que o Mediterrâneo, a Ucrânia é um importante ponto de passagem para a Europa dos refugiados que fogem dos islamitas na África oriental. Mas as condições de acolhimento são indignas, como testemunham os requerentes de asilo.
Por Lorenzo Ferrari

"Hasan Hirsi tem 21 anos e saiu da Somália aos quinze anos, depois de os terroristas de al-Shabab terem atacado a sua aldeia e assassinado o seu pai. Fugiu para Moscovo e, a partir de lá, uma rede de tráfico de humanos levou-o até Kiev. Hirsi demorou cinco anos – e cinco tentativas – para passar da Ucrânia para a União Europeia. Cada vez que tentava, era detido pelos guardas fronteiriços ucranianos, húngaros e eslovacos e passou cerca de três anos em centros de detenção e prisões ucranianas, onde afirma ter sido roubado, espancado e torturado pelas forças de segurança. Hoje em dia, revela ao Spiegel, refere-se à Ucrânia como “o inferno” e continua a ter pesadelos.

Apesar de a atenção dos meios de comunicação social e dos políticos se concentrar sobretudo nas rotas de imigração que passam pelo Mediterrâneo, Maximilian Popp observa, numa longa investigação publicada no site em inglês da revista alemã, que “até agora o interesse era limitado no que diz respeito à rota oriental e à saída de imigrantes como Hasan Hirsi”. Contudo, “no ano passado, com o conflito em curso na Ucrânia, centenas de imigrantes tentaram chegar à UE através da Europa oriental”.

Um dos principais cruzamentos da rota oriental situa-se na cidade ucraniana de Uzhgorod. Os refugiados passam, muitas vezes, meses à espera que as suas famílias lhes enviem o dinheiro necessário para seguirem o seu caminho. Em seguida, “em troca de várias centenas de euros, os traficantes ucranianos conduzem os imigrantes desde Uzhgorod até à Hungria ou à Eslováquia”, escreve Maximilian Popp.

Apesar de os Estados-membros da UE serem responsáveis por examinar os pedidos de asilo, “os países ao longo da sua fronteira oriental, como a Hungria ou a Grécia, ignoram muitas vezes as regras e enviam os refugiados para trás”. Foi assim que Hirsi, que queria apresentar um pedido de asilo, foi enviado várias vezes de volta para a Ucrânia.

Entre 2000 e 2006, a UE concedeu 35 milhões de euros à Ucrânia, para que esta reforçasse o controlo das suas fronteiras. Nos últimos anos, Bruxelas desembolsou 30 milhões de euros adicionais para construir e modernizar os seus centros de detenção e de acolhimento para imigrantes.
Um acordo assinado em 2010, entre a UE e a Ucrânia, estabeleceu que os refugiados que entram na UE através da Ucrânia podem ser reenviados para esta última.

“Ao longo da fronteira oriental da Europa, a externalização da política de asilo da UE é mais avançada do que em qualquer outra região”, escreve Popp, que acrescenta que, “aparentemente, Bruxelas espera que este sistema leve à diminuição do número de requerentes de asilo na Europa – sem chamar demasiado a atenção”.

Mas, já em 2010, a ONG Human Rights Watch tinha criticado a UE “por esta ter investido milhões com o intuito de deslocar o fluxo de imigrantes para longe da Europa e em direcção à Ucrânia, sem garantir que foram tomadas medidas suficientes para assegurar um tratamento humano dos refugiados.

Segundo o testemunho de Hasan Hirsi, os refugiados na Ucrânia são tratados de forma desumana. Um dos campos de detenção onde esteve detido, em Pavshino, era por exemplo conhecido como “o Guantánamo do este”. Nos campos, os imigrantes “eram mantidos num local escuro e não aquecido e os guardas recusavam-se a deixá-los utilizar as casas de banho.

Muitos refugiados urinavam em garrafas ou no chão e não recebiam nada para comer durante dias. “Estávamos encarcerados como animais”, afirma Hirsi. Durante os interrogatórios, os agentes batiam nos imigrantes e davam-lhes choques eléctricos. Segundo Hirsi, um deles disse: “agora estão na Ucrânia e não na Alemanha ou na Inglaterra. Aqui, não há democracia”.

O relato de Hirsi coincide com o de vários outros relatórios e testemunhos. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a detenção dos imigrantes na Ucrânia viola a Convenção europeia dos Direitos Humanos.

Teme-se que o tratamento dos imigrantes possa piorar devido à actual crise na Ucrânia. Tal como observa o representante do ACNUR, “o Governo de Kiev já se encontra totalmente sobrecarregado com a gestão e a protecção dos refugiados internos, cerca de um milhão de pessoas. […] Na verdade, não tem condições para se ocupar também dos requerentes de asilo”.

Voxeurop, Der Spiegel




Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira


Eclipse


O eclipse chega montado num raio que esgrima o céu vibrante 
Elas seguem-no com o olhar, as carpideiras de rostos taciturnos
O eclipse envolve-lhes o mundo num manto escuro num instante,
Abraçando com ferocidade o Sol com os seus tentáculos nocturnos

E elas olham, desamparadas, sem reter as lágrimas ainda no peito para derramar
Enquanto a escuridão se espalha, como uma sinuosa nuvem de pó negro
E tudo engole, num momento de terror, na senda de tudo apagar
Cada recanto. Cada rua. Cada casa. Cada memória. Cada alma.

As carpideiras ajoelham-se, gritando enlouquecidas um lamento visceral
Ai o Mundo! Todo o seu Mundo! Agora rendido, chamuscado, perdido…
O rio de lágrimas destas carpideiras condoídas abre caminho para o triste funeral … 

O caixão vai pesado de sonhos, de memórias, de risos e de esperanças
E elas, as carpideiras, que carregam com temor esse caixão de um Mundo traído
E lamentam-no, esse cadáver envolto em solidão, despido de todas as crenças…


Peregrina


Fitando a janela chora a cansada peregrina
Encosta desamparada a cabeça no mármore gelado
E murmura baixinho doridas preces, lamentando a sua sina
Sabendo que ainda não encontrou o caminho almejado

Vislumbra o amanhecer lá fora, e o céu a clarear de mansinho,
A noite que se despede preguiçosa com laivos de carmesim e dourado,
A Lua que boceja cansada e parece desaparecer no seu cantinho,
E o Sol que acorda resplandecente no seu lugar honrado

Suspira profundamente, a cigana, e fita cansada o seu bordão
Um último olhar para a neve lá fora, imaculada, ainda sem pegadas
Tão alta que parece envolver todo o mundo numa fofa nuvem de algodão

Campos brancos imensos que gritam a imensidão dessa terra já sem magia
E adiante, lá fora no ar gélido da madrugada, esperam por ela as incontáveis estradas
 Que percorre, sentindo a cada passo uma mais profunda nostalgia…


Prece


Um rio de lágrimas grossas e salgadas
Desce pelo rosto até aos lábios unidos em prece
Uma ladainha demente de almas atormentadas
O rosto marcado pela saudade que não envelhece

Querer é o castigo que carrega no peito
Esta ânsia que acorda e rouba o sono
Este desejo sem fim tão longamente insatisfeito
As saudades que caem como folhas velhas no Outono

Saudades que renascem com cada nova Primavera
Que não queimam ao calor abrasador do Verão
Nem conhecem Invernos que não sejam de espera

Falta de ti que não abranda nem  conhece fim
Corpo e alma sequiosos de ti, cegos de razão
Sonhadores do instante perfeito em que mergulhas em mim... 






 

Poesia de Pedro Du Bois


Poesia de Pedro Du Bois


CALMA

 
na calmaria cede espaço ao cansaço.

Descansa o silêncio e se desentende

em ritos descontinuados. Desavenças

e calçadas ressoam passos. Acalma

o vento. Reclama ao vento a passagem.

Impressiona o sono em ideias aleatórias

de descobertas e conformismos. No

dito recupera da razão o lídimo saber

sobre a calma na alma despossuída.

Em passos atravessa a hora e despede

do gerânio a flor inacabada. Gira o Sol

em retorno: o dia permanece na explosão

sintética da espera. A calma na calúnia

desdita arrebenta os sinos entre torres.

O desafogo na morte: calma arrebatada

ao espírito. Acalma o corpo ao começo.
 
(Pedro Du Bois, inédito)


 SOLO E ÁGUA


 O solo absorve

aqüífera água. O poço

                         cancela

                         o isolamento: corda

                                               caçamba.



Retiro o cesto e guardo a garrafa:

o vinho descansado

sugere o instante da embriaguez



                          o solo absolve

                          a água derramada.
 
(Pedro Du Bois, inédito)


 TER


 Na formação aleatória

                    e responsabilizada

                    acredito na suavidade da música

                    no encontro das esferas: a colisão

                    evitada céus estrelas combinadas

                    em esburacados espaços (negros)



na deformação trazida

aos olhares informes das cobranças

sei do absoluto mistério



nas informações transmitidas

ao menino criado em ordens

reunidas renuncio ao saber

das asperezas e me rendo: músicas

suavizam a finalidade na destruição

conformada das vivências.
 
(Pedro Du Bois, inédito)



http://pedrodubois.blogspot.com






Poesia de Mário Matta e Silva


Poesia de Mário Matta e Silva


NO SONHO DO BEM-ME-QUER

Vou na amplitude da tarde
colher a vastidão das planícies
ofuscar-me nos brilhos do sol
derramar por aí o meu próprio eu
tão insolente e tão irrequieto
no extravasar desse imenso rol
de deusas e de musas que caem do céu
aos trambolhões, em queda-livre
sobre o amontoado de fantasias
que vou construindo sem regras
nem preceitos, nem esquadros
dicionários, guias, mapas ou tratados
mas que guardo para mim ao fim dos dias
que se vêm misturar ao sono perturbado
para que nessas planícies feitas
de libertinagem, tenha por companhia
essa luz uniforme e cálida do dia
com os seus matizes e os seus perfumes
prenhes de papoilas e mal-me-queres
ensopados de ácidos estrumes
com raiva depositados no ventre terra
e a partir dela desabrocha a natureza
tão meiga, tão generosa, tão aveludada
que tanto se deseja e tanto se quer
pelo restolho árido de cada madrugada
febril a mitigar a sede em riacho puro
até que pela noite ribombe o escuro
num sonho morno feito de bem-me-quer.

5 de Agosto de 2014

MÁRIO MATTA E SILVA


BATIAM AS SEIS DA TARDE

Batiam a seis da tarde
Numa recepção à lua
Tarde fria de luz crua
Na despedida do sol
Vem outra noite a rebol
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Ténue tom crepuscular
Vem a noite pra te amar
Tão solene e tão vilã
Mesclado de romã
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
No campanário sombrio
Vai de manso água do rio
Nas sombras do arvoredo
Cresce o pranto, cresce o medo
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Foi-se o dia radioso
Em teu corpo esplendoroso
Chora a criança num pranto
Sofrem velhos sem encanto
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Há um crime, uma traição
Acelera um coração
No amor, na euforia
Da praia vem maresia
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Ouvem-se tiros estridentes
Morrem à fome inocentes
E tudo cega o olhar
Perfumes, peitos a arfar
Batiam as seis da tarde.
 
Batiam as seis da tarde
Numa luta de emoções
Canalhas, agiotas, aldrabões
Declarações apaixonadas
Na espera das alvoradas
Batiam as seis da tarde.

22 de Janeiro de 2015

Mário Matta e Silva





 

Três Lendas


Três Lendas



Lenda do Manto de Santo António
 
À entrada da vila de Monchique existe uma imagem de Santo António com um manto azul bordado a ouro que lhe foi oferecido por uma jovem em agradecimento por o santo lhe ter arranjado casamento. Mas a verdade é que este casamento não foi tão feliz como a jovem esperava. O marido tratava-a mal apesar da gravidez anunciada da mulher.

Nasceu uma filha que cresceu entre discussões azedas até que aos oito anos a menina decidiu apelar para a bondade de Santo António pôr termo a tamanho martírio.

Ajoelhou-se junto à sua imagem e prometendo-lhe que nunca lhe faltariam flores, a menina sentiu após algumas horas que alguém lhe batia no ombro. Um homem estranho e atraente perguntou-lhe porque estava ali e pediu-lhe algo para comer e um sítio para descansar.

A menina levou-o para sua casa e enquanto que a mãe acolheu o visitante o pai resmungou pelo atrevimento da filha. O visitante dirigiu-lhe frases apaziguadoras, alertando-o para o facto de que estava a desperdiçar uma felicidade que estava perfeitamente ao seu alcance: a de viver em harmonia com a sua mulher e a sua filha.

Como que encantado pelas palavras do visitante, o homem ajudou pela primeira vez a sua mulher a preparar a refeição e sentiu que iniciava nesse instante uma vida nova.

Quando voltaram à sala, o estranho homem tinha desaparecido e no seu lugar estava uma pequena imagem de Santo António, semelhante à que se encontrava no nicho da vila.

A notícia do milagre correu a aldeia e a partir daquele dia aquela casa encheu-se de felicidade e ao santo nunca mais faltaram as flores.




A Moura do Castelo de Tavira

A noite de S. João é, desde tempos imemoriais, a noite das mouras encantadas. A tradição conta que no castelo de Tavira existe uma moura encantada que todos os anos aparece nessa noite para chorar o seu triste destino.

Os mais antigos dizem que essa moura é a filha de Aben-Fabila, o governador mouro da cidade que desapareceu quando Tavira foi conquistada pelos cristãos, depois de encantar a sua filha. A intenção do mouro era voltar a reconquistar a cidade e assim resgatar a infeliz filha, mas nunca o conseguiu.

Existe uma lenda que conta a história de uma grande paixão de um cavaleiro cristão, D. Ramiro, pela moura encantada. Foi precisamente numa noite de S. João que tudo aconteceu. Quando D. Ramiro avistou a moura nas ameias do castelo, impressionou-o tanto a sua extrema beleza como a infelicidade da sua condição.

Perdidamente enamorado, resolveu subir ao castelo para a desencantar. A subida através dos muros da fortaleza não se revelou tarefa fácil e demorou tanto a subir que, entretanto, amanheceu e assim passou a hora de se poder realizar o desencanto.

Diz o povo que a moura, mal rompeu a aurora, entrou em lágrimas para a nuvem que pairava por cima do castelo, enquanto D. Ramiro assistia sem nada poder fazer.

A frustração do jovem cavaleiro foi tão grande que este se empenhou com grande fúria nas batalhas contra os Mouros. Conquistou, ao que dizem, um castelo, mas ficou sem moura para amar...



Lenda das Três Gémeas

No tempo em que Silves pertencia aos Mouros, vinha o rei Mohamed a passear a cavalo quando encontrou um destacamento do seu exército que trazia reféns cristãos.

Entre estes estava uma lindíssima jovem, sumptuosamente vestida, acompanhada da sua aia, filha de um nobre morto durante o saque ao seu castelo. Mohamed ordenou que a nobre dama fosse levada para o seu castelo, onde a rodeou de todas as atenções, e lhe pediu que abraçasse a fé de Maomé para se tornar sua mulher.

A jovem chorou de desespero porque Mohamed não lhe era indiferente, mas a sua aia encontrou a solução: ambas renegariam a fé cristã apenas exteriormente para agradar ao rei mouro e possibilitar o casamento.
Passado algum tempo, nasceram três gémeas a quem os astrólogos auspiciaram beleza, bondade e ternura, para além de inteligência, mas avisaram o rei que este deveria vigiá-las quando estas chegassem à idade de casar. O rei não as deveria confiar a ninguém.

Passaram alguns anos e a sultana morreu, ficando a aia, que tinha tomado o nome árabe de Cadiga, a tomar conta das jovens. Quando estas eram adolescentes o rei levou-as para um castelo longe de tudo, onde havia apenas o mar por horizonte.

As princesas tornaram-se mulheres, mas embora gémeas tinham personalidades muito diferentes. A mais velha era intrépida, curiosa, porte distinto e de olhar insinuante e profundo. A do meio era a mais bela, de uma singular beleza e apreciava tudo o que era belo, as jóias, as flores e os perfumes caros. A mais nova era a mais sensível. Tímida e doce, passava horas a olhar o mar sob o luar prateado ou o pôr-do-sol ardente.

Um dia, contra todas as indicações do rei aportou perto do castelo uma galera com reféns cristãos, entre os quais se salientavam três jovens belos, altivos e bem vestidos.

Curiosas, as princesas perguntaram a Cadiga quem eram aqueles homens de aspecto tão diferente dos mouros. Cadiga respondeu-lhes que eram cristãos portugueses e contou às princesas tudo sobre o seu passado.
Como as princesas começassem a ficar demasiado interessadas com os jovens cristãos, Cadiga pediu ao rei que levasse as filhas para junto de si, sem lhe explicar a razão. Cavalgavam as princesas com o rei e o seu séquito a caminho de Silves quando se cruzaram com os três cativos cristãos que não respeitaram a ordem de baixarem o olhar.

As princesas quando os avistaram levantaram os véus e o rei, furioso, mandou castigar os cristãos insolentes. As princesas ficaram muito tristes mas conseguiram convencer Cadiga a arranjar maneira de se encontrarem com os jovens cristãos.

A paixão violenta desencadeada por aquele encontro foi alegria de pouca dura. Os três cristãos foram resgatados pelo rei português e iriam embora em breve. As princesas dispuseram-se a segui-los e a converterem-se à fé cristã antes de casarem com os nobres cristãos.

Cadiga rejubilava por conseguir resgatar para a fé que secretamente professava as filhas da sua ama. Foi então que a princesa mais nova se recusou a partir e a abandonar o pai.

Ficou para trás e, conta a lenda, morreu de tristeza pouco tempo depois.
A sua alma ainda hoje se lamenta e chora na torre do castelo nas noites sem lua.





Duo: Arlete Brasil Deretti Fernandes e Hildebrando Menezes


Duo: Arlete Brasil Deretti Fernandes e Hildebrando Menezes

A Criança que vive em mim.
.
Dei-me conta da criança que um dia fui,
Que vive em mim, e à qual sou grata,
Não poderia esquecê-la nem deixá-la morrer.
Foram e são tempos bons e inocentes
Sem as armadilhas perversas doutras idades
Que por vezes nos assaltam sem piedade

Presto-lhe a homenagem de meus sentimentos.
Sua evocação suaviza os difíceis momentos,
Com esta menina aprendo a viver.
E assim me faço intenso a evitar sofrer
Por não deixar o tempo ao espírito desaquecer
Tudo então ganha sentido e bela coloração

Observo através das recordações, nos jogos,
doces gestos, pensamentos e inclinações,
Isto revela-me a doçura da sensibilidade.
Que depois reponho e componho a saudade
Nos versos mais simples nas entonações
Entôo, canto e ouço as mais lindas canções

Ao recordá-la, enlaço-a à minha existência,
Ela me inspira, me alegra e me vêm sensações
Através de palavras e sorrisos inocentes.
Assim tudo ganha graça, sentido interessante

Porque eu sinto vibrar a força aqui presente
A impulsionar a alavanca que ergue a mente

A segurar atos, habilidades e pensamentos
Não quero cometer este crime simbólico
E por isto evoco a criança com satisfação,
Ela me dá a pedra de toque da emoção
Também não quero deixar morrer a jovem.
Que envelheço rápido a sentir vertigem

Minha existência é um todo, hoje sou do ontem
A continuação, e do amanhã a construção.
Assim minha vida não se perde em blocos.
São alicerces e sustentáculos da satisfação
Por isto admiro a simplicidade nos gestos,
Que formam o mosaico da autenticidade

Nas atitudes onde não tem lugar a maldade.
Vejo-me a colher flores com toda a liberdade.
Do natural ao transcendental das traquinagens
A subir em árvores de variadas espécies, a
Colher frutos e por insetos ser picada,
Chegando em casa com minha roupa rasgada.

Sentar-me ao colo de meus pais com carinho.
Dar e receber os afagos na maior ternura
No cheiro e no cafuné coberto de doçuras
Às vezes, sair disparada, a correr
da avó para não levar uma chinelada.
Tudo isso traz no seu bojo a eternidade

Na parreira colher deliciosas uvas, cultivadas
Com amor pelo meu pai. Sentir alegria de viver,
Sem tristezas, tudo era somente prazer.
E aqui nesse dueto eu revivi ao escrever
O menino, a menina que apesar de crescer
Esta ainda dentro de mim a me enternecer.


 



 


Texto de Liliana Josué - CRÓNICA SOBRE NÓS


Texto de Liliana Josué

CRÓNICA SOBRE NÓS

Sabes, estou no sítio onde eu muitas vezes queria ir, o meu preferido para aquelas circunstâncias , e tu, embora também gostando, preferias inequivocamente o outro, o grande, muito amplo, pejado de gente e vida. Mas tu não eras assim!... o meu, era o tal lugar não muito grande e tranquilo, colorido mas discreto, um nadinha melancólico como eu e que sempre me puxou a vontade de rabiscar qualquer coisa, como agora.

Cá estou eu a ouvir música artificial de piano enquanto penso em ti. Fazes-me falta, mesmo nos desencontros de opinião, de vontades e crenças. E tu, aí onde estás, longe, sentes falta de mim? nem que seja só um pontinho no peito? gostava que sim.

Sabes, já não vou comprar o queijo branco e ácido à mercearia do russo, não me apetece. Esse queijo só fazia sentido comido e disputado por ambos, assim não. Recuso as lojas de roupa barata na rua larga e comprida, sem ti aborrecem-me, tal como o restaurante chinês que também tinha sushi, o qual eu comi pela primeira vez com alguma relutância, mas depois até gostei.

Sabes, fazes-me falta, não tenho a culpa mas é assim. O frio por aqui é muito, tanto no corpo como na alma, creio que onde estás não seja melhor. Sei que nunca deste muita importância ao que escrevo, mas, mesmo assim, no tal lugar onde estou tive de o fazer. Já cá não vinha há bastante tempo, e ao entrar entrei igualmente em mim, acredita que também tinha saudades minhas.

Variávamos pouco os sítios distrativos e relaxantes, talvez por isso mesmo os evite. Parte das nossas vidas permanece muito concentrada nesses locais. Por lá tudo ficou parado à nossa espera. Sinto-te longe, mas acredito que a distância está no tempo em que nos sentimos sós.

Sabes, fazes-me falta, mesmo muita falta.

Liliana Josué