sábado, 28 de fevereiro de 2015

Três Lendas


Três Lendas



Lenda do Manto de Santo António
 
À entrada da vila de Monchique existe uma imagem de Santo António com um manto azul bordado a ouro que lhe foi oferecido por uma jovem em agradecimento por o santo lhe ter arranjado casamento. Mas a verdade é que este casamento não foi tão feliz como a jovem esperava. O marido tratava-a mal apesar da gravidez anunciada da mulher.

Nasceu uma filha que cresceu entre discussões azedas até que aos oito anos a menina decidiu apelar para a bondade de Santo António pôr termo a tamanho martírio.

Ajoelhou-se junto à sua imagem e prometendo-lhe que nunca lhe faltariam flores, a menina sentiu após algumas horas que alguém lhe batia no ombro. Um homem estranho e atraente perguntou-lhe porque estava ali e pediu-lhe algo para comer e um sítio para descansar.

A menina levou-o para sua casa e enquanto que a mãe acolheu o visitante o pai resmungou pelo atrevimento da filha. O visitante dirigiu-lhe frases apaziguadoras, alertando-o para o facto de que estava a desperdiçar uma felicidade que estava perfeitamente ao seu alcance: a de viver em harmonia com a sua mulher e a sua filha.

Como que encantado pelas palavras do visitante, o homem ajudou pela primeira vez a sua mulher a preparar a refeição e sentiu que iniciava nesse instante uma vida nova.

Quando voltaram à sala, o estranho homem tinha desaparecido e no seu lugar estava uma pequena imagem de Santo António, semelhante à que se encontrava no nicho da vila.

A notícia do milagre correu a aldeia e a partir daquele dia aquela casa encheu-se de felicidade e ao santo nunca mais faltaram as flores.




A Moura do Castelo de Tavira

A noite de S. João é, desde tempos imemoriais, a noite das mouras encantadas. A tradição conta que no castelo de Tavira existe uma moura encantada que todos os anos aparece nessa noite para chorar o seu triste destino.

Os mais antigos dizem que essa moura é a filha de Aben-Fabila, o governador mouro da cidade que desapareceu quando Tavira foi conquistada pelos cristãos, depois de encantar a sua filha. A intenção do mouro era voltar a reconquistar a cidade e assim resgatar a infeliz filha, mas nunca o conseguiu.

Existe uma lenda que conta a história de uma grande paixão de um cavaleiro cristão, D. Ramiro, pela moura encantada. Foi precisamente numa noite de S. João que tudo aconteceu. Quando D. Ramiro avistou a moura nas ameias do castelo, impressionou-o tanto a sua extrema beleza como a infelicidade da sua condição.

Perdidamente enamorado, resolveu subir ao castelo para a desencantar. A subida através dos muros da fortaleza não se revelou tarefa fácil e demorou tanto a subir que, entretanto, amanheceu e assim passou a hora de se poder realizar o desencanto.

Diz o povo que a moura, mal rompeu a aurora, entrou em lágrimas para a nuvem que pairava por cima do castelo, enquanto D. Ramiro assistia sem nada poder fazer.

A frustração do jovem cavaleiro foi tão grande que este se empenhou com grande fúria nas batalhas contra os Mouros. Conquistou, ao que dizem, um castelo, mas ficou sem moura para amar...



Lenda das Três Gémeas

No tempo em que Silves pertencia aos Mouros, vinha o rei Mohamed a passear a cavalo quando encontrou um destacamento do seu exército que trazia reféns cristãos.

Entre estes estava uma lindíssima jovem, sumptuosamente vestida, acompanhada da sua aia, filha de um nobre morto durante o saque ao seu castelo. Mohamed ordenou que a nobre dama fosse levada para o seu castelo, onde a rodeou de todas as atenções, e lhe pediu que abraçasse a fé de Maomé para se tornar sua mulher.

A jovem chorou de desespero porque Mohamed não lhe era indiferente, mas a sua aia encontrou a solução: ambas renegariam a fé cristã apenas exteriormente para agradar ao rei mouro e possibilitar o casamento.
Passado algum tempo, nasceram três gémeas a quem os astrólogos auspiciaram beleza, bondade e ternura, para além de inteligência, mas avisaram o rei que este deveria vigiá-las quando estas chegassem à idade de casar. O rei não as deveria confiar a ninguém.

Passaram alguns anos e a sultana morreu, ficando a aia, que tinha tomado o nome árabe de Cadiga, a tomar conta das jovens. Quando estas eram adolescentes o rei levou-as para um castelo longe de tudo, onde havia apenas o mar por horizonte.

As princesas tornaram-se mulheres, mas embora gémeas tinham personalidades muito diferentes. A mais velha era intrépida, curiosa, porte distinto e de olhar insinuante e profundo. A do meio era a mais bela, de uma singular beleza e apreciava tudo o que era belo, as jóias, as flores e os perfumes caros. A mais nova era a mais sensível. Tímida e doce, passava horas a olhar o mar sob o luar prateado ou o pôr-do-sol ardente.

Um dia, contra todas as indicações do rei aportou perto do castelo uma galera com reféns cristãos, entre os quais se salientavam três jovens belos, altivos e bem vestidos.

Curiosas, as princesas perguntaram a Cadiga quem eram aqueles homens de aspecto tão diferente dos mouros. Cadiga respondeu-lhes que eram cristãos portugueses e contou às princesas tudo sobre o seu passado.
Como as princesas começassem a ficar demasiado interessadas com os jovens cristãos, Cadiga pediu ao rei que levasse as filhas para junto de si, sem lhe explicar a razão. Cavalgavam as princesas com o rei e o seu séquito a caminho de Silves quando se cruzaram com os três cativos cristãos que não respeitaram a ordem de baixarem o olhar.

As princesas quando os avistaram levantaram os véus e o rei, furioso, mandou castigar os cristãos insolentes. As princesas ficaram muito tristes mas conseguiram convencer Cadiga a arranjar maneira de se encontrarem com os jovens cristãos.

A paixão violenta desencadeada por aquele encontro foi alegria de pouca dura. Os três cristãos foram resgatados pelo rei português e iriam embora em breve. As princesas dispuseram-se a segui-los e a converterem-se à fé cristã antes de casarem com os nobres cristãos.

Cadiga rejubilava por conseguir resgatar para a fé que secretamente professava as filhas da sua ama. Foi então que a princesa mais nova se recusou a partir e a abandonar o pai.

Ficou para trás e, conta a lenda, morreu de tristeza pouco tempo depois.
A sua alma ainda hoje se lamenta e chora na torre do castelo nas noites sem lua.





Duo: Arlete Brasil Deretti Fernandes e Hildebrando Menezes


Duo: Arlete Brasil Deretti Fernandes e Hildebrando Menezes

A Criança que vive em mim.
.
Dei-me conta da criança que um dia fui,
Que vive em mim, e à qual sou grata,
Não poderia esquecê-la nem deixá-la morrer.
Foram e são tempos bons e inocentes
Sem as armadilhas perversas doutras idades
Que por vezes nos assaltam sem piedade

Presto-lhe a homenagem de meus sentimentos.
Sua evocação suaviza os difíceis momentos,
Com esta menina aprendo a viver.
E assim me faço intenso a evitar sofrer
Por não deixar o tempo ao espírito desaquecer
Tudo então ganha sentido e bela coloração

Observo através das recordações, nos jogos,
doces gestos, pensamentos e inclinações,
Isto revela-me a doçura da sensibilidade.
Que depois reponho e componho a saudade
Nos versos mais simples nas entonações
Entôo, canto e ouço as mais lindas canções

Ao recordá-la, enlaço-a à minha existência,
Ela me inspira, me alegra e me vêm sensações
Através de palavras e sorrisos inocentes.
Assim tudo ganha graça, sentido interessante

Porque eu sinto vibrar a força aqui presente
A impulsionar a alavanca que ergue a mente

A segurar atos, habilidades e pensamentos
Não quero cometer este crime simbólico
E por isto evoco a criança com satisfação,
Ela me dá a pedra de toque da emoção
Também não quero deixar morrer a jovem.
Que envelheço rápido a sentir vertigem

Minha existência é um todo, hoje sou do ontem
A continuação, e do amanhã a construção.
Assim minha vida não se perde em blocos.
São alicerces e sustentáculos da satisfação
Por isto admiro a simplicidade nos gestos,
Que formam o mosaico da autenticidade

Nas atitudes onde não tem lugar a maldade.
Vejo-me a colher flores com toda a liberdade.
Do natural ao transcendental das traquinagens
A subir em árvores de variadas espécies, a
Colher frutos e por insetos ser picada,
Chegando em casa com minha roupa rasgada.

Sentar-me ao colo de meus pais com carinho.
Dar e receber os afagos na maior ternura
No cheiro e no cafuné coberto de doçuras
Às vezes, sair disparada, a correr
da avó para não levar uma chinelada.
Tudo isso traz no seu bojo a eternidade

Na parreira colher deliciosas uvas, cultivadas
Com amor pelo meu pai. Sentir alegria de viver,
Sem tristezas, tudo era somente prazer.
E aqui nesse dueto eu revivi ao escrever
O menino, a menina que apesar de crescer
Esta ainda dentro de mim a me enternecer.


 



 


Texto de Liliana Josué - CRÓNICA SOBRE NÓS


Texto de Liliana Josué

CRÓNICA SOBRE NÓS

Sabes, estou no sítio onde eu muitas vezes queria ir, o meu preferido para aquelas circunstâncias , e tu, embora também gostando, preferias inequivocamente o outro, o grande, muito amplo, pejado de gente e vida. Mas tu não eras assim!... o meu, era o tal lugar não muito grande e tranquilo, colorido mas discreto, um nadinha melancólico como eu e que sempre me puxou a vontade de rabiscar qualquer coisa, como agora.

Cá estou eu a ouvir música artificial de piano enquanto penso em ti. Fazes-me falta, mesmo nos desencontros de opinião, de vontades e crenças. E tu, aí onde estás, longe, sentes falta de mim? nem que seja só um pontinho no peito? gostava que sim.

Sabes, já não vou comprar o queijo branco e ácido à mercearia do russo, não me apetece. Esse queijo só fazia sentido comido e disputado por ambos, assim não. Recuso as lojas de roupa barata na rua larga e comprida, sem ti aborrecem-me, tal como o restaurante chinês que também tinha sushi, o qual eu comi pela primeira vez com alguma relutância, mas depois até gostei.

Sabes, fazes-me falta, não tenho a culpa mas é assim. O frio por aqui é muito, tanto no corpo como na alma, creio que onde estás não seja melhor. Sei que nunca deste muita importância ao que escrevo, mas, mesmo assim, no tal lugar onde estou tive de o fazer. Já cá não vinha há bastante tempo, e ao entrar entrei igualmente em mim, acredita que também tinha saudades minhas.

Variávamos pouco os sítios distrativos e relaxantes, talvez por isso mesmo os evite. Parte das nossas vidas permanece muito concentrada nesses locais. Por lá tudo ficou parado à nossa espera. Sinto-te longe, mas acredito que a distância está no tempo em que nos sentimos sós.

Sabes, fazes-me falta, mesmo muita falta.

Liliana Josué






Sortido de Anedotas Recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Sortido de Anedotas Recolhidas na Net (Facebook sobretudo)

Sogra contra o casamento...

Durante uma das muitas discussões entre marido e mulher.
Diz esta:
- Que pena eu não ter seguido os conselhos da minha falecida mãe e nunca ter casado contigo!
O marido:
- O quê?! A tua mãe tentou evitar que casasses comigo?!
A mulher, lavada em lágrimas, acenou afirmativamente com a cabeça.
Volta o marido:
- Meu Deus! Como eu fui injusto para com aquela mulher…


Proveta alentejano...

Dois alentejanos estavam passeando. Diz um deles:
- Ó compadri, vocemecê sabi dizer alguma coisa da manêra como são fêtos os bebés proveta?
Responde o outro:
- Sê sim sinhori, amigo Chico! Olhi, até foi assim que a minha Maria e eu fizemos o nosso primêro filho!
Pergunta o primeiro muito interessado:
- Ah sim?!!! Antão, diga lá comé que foi?
Explica o segundo:
- Olhe, compadri, ela e eu íamos passeando pelo monti e a certa altura, ela parou à sombra duma olivêra e disse-me: ”Manéli, olha..., aprovêta”


A amante

Marido e mulher estão a jantar num belo restaurante quando entra uma rapariga absolutamente fantástica, que se dirige à mesa deles, dá um beijo apaixonado ao marido, diz "Vemo-nos mais tarde" e vai-se embora.
A mulher fita o marido, e furiosa pergunta:
- Quem diabo era aquela?
- Oh - responde o marido, - é a minha amante.
- Ah é? Pois esta foi a última gota de água! Para mim chega! Quero o divórcio!
- Compreendo - responde o marido, - mas lembra-te, se nos divorciarmos acabam-se as compras em Paris, os Invernos na República Dominicana, os Verões em Itália, os Porsches e Ferraris na garagem e o iate. Mas a decisão é tua.
Nesse momento entra um amigo comum no restaurante com uma loura estonteante pelo braço.
- Quem é aquela mulher que entrou com o Bernardo? -pergunta ela.
- É a amante dele - responde o marido.
- A nossa é mais bonita - responde a mulher.


Gravidez milagrosa

Uma solteirona descobre que uma amiga ficou grávida com apenas uma oração que fez na igreja de uma aldeia próxima.
Dias depois, a solteirona foi a essa igreja e disse ao padre:
- Bom dia, padre.
- Bom dia, minha filha. Em que posso ajudá-la?
- Sabe, padre, eu soube que uma amiga minha veio aqui há umas semanas atrás e ficou grávida só com uma Ave-Maria. É verdade, padre?
- Não, minha filha, não foi com uma Ave-Maria... foi com um padre nosso... mas ele já foi transferido!


Conversa entre beatas

Quatro mães católicas a tomarem chá:
A primeira, querendo impressionar as outras, diz:
- O meu filho é padre. Quando ele entra em qualquer lugar todos se levantam e dizem: «Boa tarde, Padre!»
A segunda não fica para trás e comenta:
- Pois o meu filho é bispo. Quando entra em uma sala, com aquela roupa, todos param o que estão a fazer e dizem: «Sua benção, senhor Bispo"!
A terceira, calmamente, acrescenta:
- Pois o meu é cardeal. Quando entra numa sala todos se levantam, beijam o seu anel e dizem: «Sua benção, Eminência!»
A quarta permanece quieta. Então, a mãe do cardeal, só para provocar, pergunta:
- E o seu filho, não é religioso?
Ela responde:
- O meu filho tem 1.90m, é bronzeado, com olhos verdes, pratica musculação e trabalha como stripper. Quando entra numa sala todo mundo olha e diz:
«MEEEUUU DEEEUS!!!»


"Três velhinhas reunidas para um chá da tarde:

- Bolas, acho que estou a ficar mesmo velha! - comenta uma delas. Ontem dei por mim com a vassoura na mão e não me lembrava se já tinha varrido a casa ou não.
- Isso não é nada - diz a outra. No outro dia eu dei por mim de pé, ao lado da cama, de camisola, e não sabia se tinha acabado de acordar ou se estava a preparar-me para dormir.
- Cruz credo - diz a terceira - Deus me livre ficar assim! E deu três batidinhas na mesa: toc-toc-toc. Olhou para a cara das outras e calmamente disse:
- Esperem um pouco que eu já volto! Estão a bater à porta!"


Já ouvi vários nomes...mas nozes não!

"O caçador e os esquilos
Dois caçadores, um experiente e outro novato, vão à caça em África.
Quando chegam ao local da caçada, o mais experiente diz para o outro:
- Ficas aqui e não fazes barulho nenhum.
O mais novato ficou quieto debaixo de uma árvore, enquanto o outro foi andando. Passados alguns minutos, ouve-se um grande grito. O mais experiente vem a correr, chega ao pé do outro e pergunta:
- Eu não te disse para não fazeres barulho?
- Eu sei e tentei. Até passou aqui um leão, olhou para mim e eu não disse nada. Uma cobra enorme chegou ao pé de mim, subiu por mim acima e eu não disse nada. Só que chegaram dois esquilos que subiram por dentro das minhas calças e começaram a conversar:
-Comemos aqui as nozes ou levamos para casa?"


Empregada Angolana

Fofoca de empregada Angolana
Aproveitando a ausência dos patrões, "Craudete", a empregada africana, fofoca com uma amiga de Luanda ao telefone:
- Maria, aqui nesta mansão é tudo fachada, nêga!
- Porquê, Craudete?, pergunta a amiga.
- Nada é dos patrão! Tudo é imprestado!
- Como assim?, pergunta a outra, curiosa.
- A roupa dos patrão não és deles, as dele é de um tal de
Armani, a gravata de um tal Pierre Cardin, os vistido dela és de uma tal Fatima Lopes e os carro é da Mercedes... Nada é deles, minina!
- Nossa, Craudete... Qui pobreza!
- O pió di tudo cê inda num sabe...
Outro dia o patrão tava no telefone falando com amigo dizendo que tinha um grande Picasso...
Pura mentira, Mana... É piquinininho, que dá dó.


E o Balde?

Sempre tive um tremendo tesão pela vizinha do apartamento ao lado.
Vivia pensando num jeito para traçá-la.
Um dia, conversando com o marido dela, ouvi dele:
- Preciso pintar meu apartamento, mas trabalho o dia inteiro e chego cansado.
Tentei contratar um pintor, mas o cara pediu os "olhos da cara" ...
Aí, tive a ideia:
- Não seja por isso. Estou de férias e pintar paredes é o meu hobby.
Posso fazer o serviço pra você, com prazer ....
O marido aceitou feliz, a oferta.
Bom papo que eu sou, mal comecei a pintar o apartamento e consegui levar a mulher prá cama.
Só não esperava que o marido fosse esquecer os documentos em casa e voltar, justamente nesse dia.
A mulher, ouvindo o marido abrir a porta da sala, correu para o banheiro e o marido me encontrou peladão, no quarto, em cima da escada, dando umas pinceladas na parede ....
Aos berros, perguntou:
- O que é isso, cara? ! ... Começou pelo quarto,... e nu ? !
- Ora, estou pintando de graça, começo por onde quiser.
- Mas nu ?
- Queria que eu manchasse a minha roupa com tinta ? ...
- Mas de «pinto» duro ? ! ? ! ....
- E onde é que eu vou pendurar o balde ?


Um Lisboeta, de passagem pelo Alentejo,

foi surpreendido com a notícia de que um amigo tinha falecido e seria enterrado naquela tarde..
Chateado com a situação, a perda de um amigo do peito, procurou saber onde seria o velório e foi para lá.
Ao chegar, viu que no caixão estava o morto inteiramente nu e ao lado um grande pote cheio de creme, no qual cada um dos presentes metia a mão e após apanhar um pouco, passava sobre o defunto.
Surpreendido pela cena, coisa inusitada para ele, aproximou-se da esposa e perguntou:
- Desculpe-me a ignorância, mas o que lhe estão a fazer, é tradição por aqui ?
A esposa respondeu:
- Não! É inédito! Nunca o fizemos. Ele é que pediu para ser cremado...



 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A esfinge de Édipo - Por Daniel Teixeira


A esfinge de Édipo

Por Daniel Teixeira


Todos nós sabemos que a famosa esfinge colocou a Édipo uma pergunta à qual ele respondeu correctamente. Sabemos que a Esfinge é um monstro, temos uma ideia daquilo que deverá ser a figura de um monstro mas pouco sabemos, em geral, sobre a Esfinge. Na verdade sempre nos interessou mais saber da correcção da resposta de Édipo do que da Esfinge.

Reza a história (das esfinges) que ela é fruto dos amores incestuosos da temível Equina e de seu filho Ortros, o cão de Gérion. Contudo, reza também a lenda que Hera (mulher de Zeus) a colocou às portas de Tebas a fim de punir esta cidade e o seu rei, Laios - pai de Édipo - culpado de amores contra a natureza com o efebo Críssipos.

Ou seja, a Esfinge, nascida do pecado, como se viu acima, é colocada  à entrada de uma cidade para punir um outro pecado, que, por acaso se passa com o pai de Édipo (este último pecado que será a famosa homossexualidade).

Como se fosse por acaso, e não se vá criticar de falta de imaginação os lendadores, a colocação da esfinge é feita no lado ocidental (não no lado oriental, não no lado norte, não no lado sul) e apresenta um enigma a cada viajante que se não lembre de entrar pelos restantes três lados da cidade, ou que se não lembre simplesmente de entrar pelo lado Ocidental mais ao lado Norte ou ao lado Sul do que o local onde está colocada a Esfinge. Aqueles que se não mostram capazes de resolver o enigma apresentado pela esfinge são devorados pelo monstro sanguinário.



Mas, apresentemos o monstro himself: A esfinge parece usar uma estranha máscara, de tal modo a sua face é impassível e já enigmática, daí que o termo esfíngico seja aplicado à falta de mobilidade expressiva.

Os seus olhos, imutavelmente vazios, parecem esconder alguma coisa de feroz e implacável, isto no seu desenho inicial, segundo se diz, desenho este (imaginado claro) que vem do tempo anterior aos deuses gregos, do tempo dos Titãs.

Aquela esfinge do Édipo, recriada pelos gregos já no tempo dos deuses, é, no entanto, feminina, sem dúvida, uma vez que a dúvida ficava em aberto na anterior descrição, não havendo definição de parecenças de género.

O seu corpo adelgaça-se (típico da definição feminina) ao ponto de se tornar o de uma leoa (também tipicamente feminina a descrição embora no plano temperamental) e o peito aparece, tal como a face, totalmente feminino.

Um pormenor andrógino, para aligeirar, e talvez como concessão envergonhada à anterior imagem - a original titânica - é o nascimento de asas no dorso, que mais tarde vem a funcionar como ideia antecipatória da conhecida figura do anjo que conhecemos hoje e sabemos que não tem género (nem masculino nem feminino) mas que aparenta ter sexo masculino.

O volume de personagens nestas lendas, gregas e posteriores, incluindo as romanas, embora enverede um pouco pela dispersão nalguns casos, bifurcando-se seguindo intervenções de vários deuses, acaba por se restringir neste plano quando se trata de descrever factos que relevem.

Parece haver da parte dos lendadores, provavelmente não os iniciais mas aqueles que deram seguimento ao contado uma intenção de simplificar de forma a facilitar a transmissão oral. Neste caso, e conforme veremos  mais à frente, a história de Édipo e da Esfinge aparece mesmo amputada de uma parte na sua versão mais conhecida.

Na verdade foram feitas pela Esfinge duas perguntas a Édipo e todos nós conhecemos largamente uma, mas não conhecemos pelo menos tão largamente a segunda.

A primeira é a tradicional pergunta sobre qual é o animal que tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à noite. É o homem, que na sua infância caminha sobre pés e mãos, que na idade adulta (meio-dia) se ergue sobre os dois pés e na velhice (noite) se apoia no cajado para caminhar.

Mas a outra, é assim: "Quais são as duas irmãs uma das quais dá nascimento à outra que por sua vez faz nascer a primeira?!"

A esta circular pergunta, respondeu Édipo: "Trata-se do Dia e da Noite!" (Aqui interessa dizer que Dia é feminino em grego o que nos faria esbarrar a nós que utilizamos o masculino para definir Dia).

Tendo assim acertado Édipo, a esfinge soltou um rugido terrível e acabou por se precipitar do alto da penedia, matando-se.

Por isso, e como conclusão, não nos esqueçamos nunca que a Édipo foram colocadas duas questões, uma que tem a ver com o homem e outra que tem a ver com o Universo. 

Seria contudo curioso analisar porque razão ambas as perguntas são basilarmente contraditórias porque a primeira fala de animal para definir o homem e a segunda fala do ser humano (duas irmãs) para apontar para o Universo. 


  

Romance acabado - Conto de Daniel Teixeira

Romance acabado
Conto de Daniel Teixeira


Eu tinha os condimentos todos na minha história, ou pensava que tinha, mas talvez eu tivesse exagerado na complexidade de dar volta ao romance e construir as páginas necessárias para que a obra ficasse satisfatoriamente aceitável.

Havia várias fontes de inspiração mas eram fontes ao nível superficial porque é praticamente impossível fugir às nossas referências literárias e o processo da minha personagem era bem diferente de tudo aquilo que seria pensável coadunando-se bastante com a minha anterior experiência de crítico literário.

Tratava este meu romance que acabou por não o ser do relacionamento entre o escritor e o público e a crítica também, embora esta última fosse referida de uma forma mais subtil.

O meu personagem era suficientemente inteligente para saber que podia dispensar alguns leitores, ou mesmo muitos, mas que estaria liquidado como escritor caso afrontasse a crítica de uma forma demasiado directa, de nada lhe valendo os numerosos prémios até ali acumulados. Seria irremediavelmente votado ao olvido, ostracizado.

A crítica que o tinha elogiado e continuava a elogiá-lo nunca o deitaria abaixo senão pelo olvido depois de o ter subido, isso sabe-se, eu sei como as coisas funcionam : poderiam aqueles que se tinham mantido mais discretos no seu apoio começar por meter uma ou outra opinião menos favorável, progressivamente, mas esse processo levaria muito tempo ou não seria nunca mesmo completado. Ele nunca seria reduzido a zero.

Para além disso, deste cuidadoso aspecto do seu relacionamento com a crítica e no outro campo onde se sentia sem peias, nas conferências, notava ele pela leitura das expressões das pessoas que uma parte grande do seu público então presente considerava que aqueles mitos, os mitos que ele criara, aqueles que ele pretendia desfazer mais não eram que manifestações da sua excentricidade.

Na verdade que coisa mais fácil de apreender pela grande massa, mesmo aquela que era muito, mas mesmo muito culta que todo ele era excentricidade?

Vestia-se quase como um mendigo, o cabelo encrespado parecia não ter sido regado havia dias ou mesmo semanas, o blusão surrado acumulava gordura no colarinho e nas mangas, a barba crescia-lhe desordenada e a sua forma de se expressar era extremamente difícil de ser entendida: entrava num caminho de discurso para logo se perder nas encruzilhadas e depois nas curvas e mais tarde regressava, passado tempo ao ponto de partida. Mas era bom a escrever, confuso, mas bom.

Assim, havia alguns planos que podiam muito bem ser considerados quase paranóicos no comportamento do meu personagem sobretudo quando se entendia - quando se entendia - o fio daquilo que ele dizia e que afinal era claro e simples para ele e para muita gente que o quisesse entender.

Mas, acho que as pessoas não o queriam mesmo entender quando ele falava: tinham criado dele uma imagem, tinham incorporado aquilo que ele escrevia na sua imagem dele e a razão da sua grande frustração devia-se não a ele mas sim aos outros que tinham de alguma forma feito daquilo que ele era aquilo que sempre pensaram e iam pensando dele sempre na mesma linha de construção.

Não havia mesmo nada a fazer, dizia eu mesmo ao meu personagem, porque eu dialogava com ele, procurava encontrar-lhe uma saída que lhe fosse satisfatória, que o levasse a permitir-me ao fim de umas duas centenas de páginas escrever finalmente a palavra «fim».

Ele chegara à conclusão que as pessoas não o liam tal como ele escrevia, quer dizer, que as pessoas davam um sentido diferente quer às suas palavras quer aos seus temas e ao percorrer quase o mundo em conferências tentou sempre explicar que não era aquilo que as pessoas pensavam o que ele queria dizer, porque essas mesmas pessoas faziam a identificação dos seus textos com ele mesmo e faziam as suas palavras, entendidas nesta perspectiva, como se fossem guias ou referenciais do seu comportamento real e ao tomá-lo como ídolo pensavam que a sua ligação comportamental pessoal era a ideal, aquela que deviam seguir.

Ora, de nada disso se tratava, repetia ele, uma vez e dezenas ou mesmo centenas de vezes quer em conversas particulares, quer em escritos, quer nas inúmeras conferências para as quais era convidado. A sua ideia - dizia ele - era a de criar nos seus leitores uma repulsa tão forte àquilo que os seus personagens representavam ou faziam que fizesse surgir neles, leitores, o desejo de uma moral e de um comportamento inverso.

E era dramática a situação dele, tentando combater moinhos que existiam de facto mas que não eram susceptíveis de lhe proporcionar nem sequer uma ilusória vitória.Tentei convencê-lo a suicidar-se, coisa que teria parecido uma coisa assim quase normal para quem trabalha na escrita a tal nível de complexidade e abstracção e que tem grande tradição na literatura e nas artes mas ele não aceitou a ideia o que me alegrou ao fim e ao cabo.

Para mim nada mais eficaz, nestes casos do que uma morte acidental, uma coisa que possa acontecer a qualquer um, uma doença em limite, enfim, uma morte normal se é que a morte é alguma vez uma coisa normal.

Mas tanto ele como eu tivemos receio que isso acabasse por funcionar como um incentivo maior à sua leitura, porque escritor morto tem mais sucesso. Havia a possibilidade, sempre tão seguida na literatura de o mandar para um sítio qualquer inopinado, uma reclusão num desconhecido local mas isso não resolvia nem o meu nem o problema dele.

Continuariam, os seus leitores à espera que ele voltasse e eu não conseguiria gerir a sua ausência de forma a meter o tão desejado termo «fim» no meu romance.

Que posso eu dizer mais? Nada mais tenho a acrescentar senão pedir desculpas por não ter escrito este romance. E daí, desculpa porquê ? Talvez este meu romance nem fosse lido senão por mim...bem talvez também o lesse a pessoa que fizesse a correcção e o ordenamento na editora, mas essa não conta.








A NOITE CAIRÁ de André Singer, Reino Unido, 2014


A NOITE CAIRÁ

de André Singer, Reino Unido, 2014, 75’, M/14

Recolhido em Cineclube de Faro



FICHA TÉCNICA
Realização: André Singer
Argumento: Lynette Singer
Fotografia: Richard Blanshard
Montagem: Arik Lahav, Steve Miller
Som: Aviv Aldema
Compositor: Nicholas Singer
Origem: Reino Unido
Ano: 2014
Duração: 75’



A 15 de Abril de 1945, as tropas britânicas libertaram o campo de concentração de Bergen-Belsen. Uma equipa de filmagens filmou as pilhas de cadáveres e os sobreviventes, provas irrefutáveis dos crimes cometidos pelo regime Nazi. O produtor Sidney Bernstein planeava usá-las num filme e convidou Alfred Hitchcock para o montar. Mas, depois do fim da Guerra, as forças de ocupação mudaram a sua política e em vez de confrontar a Alemanha com a culpa, preferiram instalar a confiança para tornar possível a reconstrução do pós-Guerra. E estas imagens de horror indizível foram confinadas aos arquivos. A Noite Cairá segue as pisadas deste filme inacabado conhecido como o “Hitchcock perdido”.

CRÍTICA
 
O documentário de Singer coloca o cerne da questão no projecto do produtor Sidney Bernstein, que devido a um conjunto de circunstâncias relacionadas com a instabilidade política do pós-guerra nunca chegou a ser completado. Até hoje: no final de 2014 o Imperial War Museum regressou às imagens recolhidas pelos soldados, num importantíssimo trabalho de digitalização e restauração. Um dos aspectos mais determinantes no projecto concebido por Bernstein, e que nunca chegou a ser verdadeiramente concretizado, está relacionado com o envolvimento de Alfred Hitchcock.

As imagens recolhidas pela equipa de Bernstein seriam o ponto de partida para aquele que seria o único documentário da carreira de Hitchcock. Uma das razões avançadas para a inviabilidade do projecto prende-se com a recusa em acolher o elevado número de refugiados judeus, tanto da parte dos Estados Unidos como do Reino Unido. Perante a intensidade visceral das imagens, temia-se que o documentário não cumprisse o seu propósito fundamental - que passava em larga medida pela demonstração da dimensão dos crimes cometidos pelo regime Nazi -, tornando-se antes numa ferramenta de pressão política; sensibilizada pela injustiça atroz cometida contra o povo judeu, havia a hipótese da população manifestar forte apoio ao acolhimento dos refugiados em território aliado. 


 
Por outro lado, e esta era uma questão primordialmente referente ao contexto do Reino Unido, haveria também o receio que a divulgação do documentário contribuísse para a desmoralização do povo alemão, frequentemente responsabilizado pelas ações do seu regime; com os primeiros sinais de uma guerra fria a poluir o horizonte político, a prioridade passavam também por evitar alienar um potencial aliado contra a então União Soviética. Em ambos os casos, é esta uma das dimensões da difícil relação entre o sentido último da história e a "imagem", e que parece fazer eco de algumas das reservas avançadas por Lanzamnn. Singer nunca entra em diálogo explicito com o debate lançado por Lanzmann, tão pouco nos moldes em que o realizador de Shoah colocou a questão, mas o que aqui importa sublinhar é a importância de uma reflexão sobre a relação entre imagem e a (re)construção da História.

Um dos motivos de maior interesse do documentário de Singer passa pela aproximação às sugestões e instruções dadas por Hitchcock à equipa de Bernstein. Para evitar suspeitas sobre a credibilidade das imagens, Hitchcock recomendou que se utilizassem planos e sequências longas – daí a insistência nos momentos em que é possível ver as campas a céu aberto com os corpos dos judeus, com soldados nazis junto das suas vítimas. Outra sugestão foi a de demonstrar a proximidade entre os campos de concentração e povoações civis, de uma maneira ou de outra implicadas naquela tragédia.


 
Algumas das imagens restauradas pelo Imperial War Museum vão sendo intercaladas ao longo de toda a exposição factual de A Noite Cairá, e o que é aqui também impressionante é a "nitidez" ou "realismo" que o digital vem trazer a este imprescindível documento histórico. É que a degradação das imagens de arquivo tendem a distanciar-nos do momento histórico em que foram recolhidas: é oposto da impressão provocada pela alta definição digital e da sua relação afetiva com o espetador.
 
A obra não nos apresenta uma leitura do sentido último do Holocausto, mas relembra-nos da nossa proximidade histórica com o horror do Nazismo.

O melhor: A contextualização da dimensão política do documentário.
O pior: Nada a apontar.

José Raposo, www.c7nema.net