sábado, 28 de fevereiro de 2015

Sortido de Anedotas Recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Sortido de Anedotas Recolhidas na Net (Facebook sobretudo)

Sogra contra o casamento...

Durante uma das muitas discussões entre marido e mulher.
Diz esta:
- Que pena eu não ter seguido os conselhos da minha falecida mãe e nunca ter casado contigo!
O marido:
- O quê?! A tua mãe tentou evitar que casasses comigo?!
A mulher, lavada em lágrimas, acenou afirmativamente com a cabeça.
Volta o marido:
- Meu Deus! Como eu fui injusto para com aquela mulher…


Proveta alentejano...

Dois alentejanos estavam passeando. Diz um deles:
- Ó compadri, vocemecê sabi dizer alguma coisa da manêra como são fêtos os bebés proveta?
Responde o outro:
- Sê sim sinhori, amigo Chico! Olhi, até foi assim que a minha Maria e eu fizemos o nosso primêro filho!
Pergunta o primeiro muito interessado:
- Ah sim?!!! Antão, diga lá comé que foi?
Explica o segundo:
- Olhe, compadri, ela e eu íamos passeando pelo monti e a certa altura, ela parou à sombra duma olivêra e disse-me: ”Manéli, olha..., aprovêta”


A amante

Marido e mulher estão a jantar num belo restaurante quando entra uma rapariga absolutamente fantástica, que se dirige à mesa deles, dá um beijo apaixonado ao marido, diz "Vemo-nos mais tarde" e vai-se embora.
A mulher fita o marido, e furiosa pergunta:
- Quem diabo era aquela?
- Oh - responde o marido, - é a minha amante.
- Ah é? Pois esta foi a última gota de água! Para mim chega! Quero o divórcio!
- Compreendo - responde o marido, - mas lembra-te, se nos divorciarmos acabam-se as compras em Paris, os Invernos na República Dominicana, os Verões em Itália, os Porsches e Ferraris na garagem e o iate. Mas a decisão é tua.
Nesse momento entra um amigo comum no restaurante com uma loura estonteante pelo braço.
- Quem é aquela mulher que entrou com o Bernardo? -pergunta ela.
- É a amante dele - responde o marido.
- A nossa é mais bonita - responde a mulher.


Gravidez milagrosa

Uma solteirona descobre que uma amiga ficou grávida com apenas uma oração que fez na igreja de uma aldeia próxima.
Dias depois, a solteirona foi a essa igreja e disse ao padre:
- Bom dia, padre.
- Bom dia, minha filha. Em que posso ajudá-la?
- Sabe, padre, eu soube que uma amiga minha veio aqui há umas semanas atrás e ficou grávida só com uma Ave-Maria. É verdade, padre?
- Não, minha filha, não foi com uma Ave-Maria... foi com um padre nosso... mas ele já foi transferido!


Conversa entre beatas

Quatro mães católicas a tomarem chá:
A primeira, querendo impressionar as outras, diz:
- O meu filho é padre. Quando ele entra em qualquer lugar todos se levantam e dizem: «Boa tarde, Padre!»
A segunda não fica para trás e comenta:
- Pois o meu filho é bispo. Quando entra em uma sala, com aquela roupa, todos param o que estão a fazer e dizem: «Sua benção, senhor Bispo"!
A terceira, calmamente, acrescenta:
- Pois o meu é cardeal. Quando entra numa sala todos se levantam, beijam o seu anel e dizem: «Sua benção, Eminência!»
A quarta permanece quieta. Então, a mãe do cardeal, só para provocar, pergunta:
- E o seu filho, não é religioso?
Ela responde:
- O meu filho tem 1.90m, é bronzeado, com olhos verdes, pratica musculação e trabalha como stripper. Quando entra numa sala todo mundo olha e diz:
«MEEEUUU DEEEUS!!!»


"Três velhinhas reunidas para um chá da tarde:

- Bolas, acho que estou a ficar mesmo velha! - comenta uma delas. Ontem dei por mim com a vassoura na mão e não me lembrava se já tinha varrido a casa ou não.
- Isso não é nada - diz a outra. No outro dia eu dei por mim de pé, ao lado da cama, de camisola, e não sabia se tinha acabado de acordar ou se estava a preparar-me para dormir.
- Cruz credo - diz a terceira - Deus me livre ficar assim! E deu três batidinhas na mesa: toc-toc-toc. Olhou para a cara das outras e calmamente disse:
- Esperem um pouco que eu já volto! Estão a bater à porta!"


Já ouvi vários nomes...mas nozes não!

"O caçador e os esquilos
Dois caçadores, um experiente e outro novato, vão à caça em África.
Quando chegam ao local da caçada, o mais experiente diz para o outro:
- Ficas aqui e não fazes barulho nenhum.
O mais novato ficou quieto debaixo de uma árvore, enquanto o outro foi andando. Passados alguns minutos, ouve-se um grande grito. O mais experiente vem a correr, chega ao pé do outro e pergunta:
- Eu não te disse para não fazeres barulho?
- Eu sei e tentei. Até passou aqui um leão, olhou para mim e eu não disse nada. Uma cobra enorme chegou ao pé de mim, subiu por mim acima e eu não disse nada. Só que chegaram dois esquilos que subiram por dentro das minhas calças e começaram a conversar:
-Comemos aqui as nozes ou levamos para casa?"


Empregada Angolana

Fofoca de empregada Angolana
Aproveitando a ausência dos patrões, "Craudete", a empregada africana, fofoca com uma amiga de Luanda ao telefone:
- Maria, aqui nesta mansão é tudo fachada, nêga!
- Porquê, Craudete?, pergunta a amiga.
- Nada é dos patrão! Tudo é imprestado!
- Como assim?, pergunta a outra, curiosa.
- A roupa dos patrão não és deles, as dele é de um tal de
Armani, a gravata de um tal Pierre Cardin, os vistido dela és de uma tal Fatima Lopes e os carro é da Mercedes... Nada é deles, minina!
- Nossa, Craudete... Qui pobreza!
- O pió di tudo cê inda num sabe...
Outro dia o patrão tava no telefone falando com amigo dizendo que tinha um grande Picasso...
Pura mentira, Mana... É piquinininho, que dá dó.


E o Balde?

Sempre tive um tremendo tesão pela vizinha do apartamento ao lado.
Vivia pensando num jeito para traçá-la.
Um dia, conversando com o marido dela, ouvi dele:
- Preciso pintar meu apartamento, mas trabalho o dia inteiro e chego cansado.
Tentei contratar um pintor, mas o cara pediu os "olhos da cara" ...
Aí, tive a ideia:
- Não seja por isso. Estou de férias e pintar paredes é o meu hobby.
Posso fazer o serviço pra você, com prazer ....
O marido aceitou feliz, a oferta.
Bom papo que eu sou, mal comecei a pintar o apartamento e consegui levar a mulher prá cama.
Só não esperava que o marido fosse esquecer os documentos em casa e voltar, justamente nesse dia.
A mulher, ouvindo o marido abrir a porta da sala, correu para o banheiro e o marido me encontrou peladão, no quarto, em cima da escada, dando umas pinceladas na parede ....
Aos berros, perguntou:
- O que é isso, cara? ! ... Começou pelo quarto,... e nu ? !
- Ora, estou pintando de graça, começo por onde quiser.
- Mas nu ?
- Queria que eu manchasse a minha roupa com tinta ? ...
- Mas de «pinto» duro ? ! ? ! ....
- E onde é que eu vou pendurar o balde ?


Um Lisboeta, de passagem pelo Alentejo,

foi surpreendido com a notícia de que um amigo tinha falecido e seria enterrado naquela tarde..
Chateado com a situação, a perda de um amigo do peito, procurou saber onde seria o velório e foi para lá.
Ao chegar, viu que no caixão estava o morto inteiramente nu e ao lado um grande pote cheio de creme, no qual cada um dos presentes metia a mão e após apanhar um pouco, passava sobre o defunto.
Surpreendido pela cena, coisa inusitada para ele, aproximou-se da esposa e perguntou:
- Desculpe-me a ignorância, mas o que lhe estão a fazer, é tradição por aqui ?
A esposa respondeu:
- Não! É inédito! Nunca o fizemos. Ele é que pediu para ser cremado...



 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A esfinge de Édipo - Por Daniel Teixeira


A esfinge de Édipo

Por Daniel Teixeira


Todos nós sabemos que a famosa esfinge colocou a Édipo uma pergunta à qual ele respondeu correctamente. Sabemos que a Esfinge é um monstro, temos uma ideia daquilo que deverá ser a figura de um monstro mas pouco sabemos, em geral, sobre a Esfinge. Na verdade sempre nos interessou mais saber da correcção da resposta de Édipo do que da Esfinge.

Reza a história (das esfinges) que ela é fruto dos amores incestuosos da temível Equina e de seu filho Ortros, o cão de Gérion. Contudo, reza também a lenda que Hera (mulher de Zeus) a colocou às portas de Tebas a fim de punir esta cidade e o seu rei, Laios - pai de Édipo - culpado de amores contra a natureza com o efebo Críssipos.

Ou seja, a Esfinge, nascida do pecado, como se viu acima, é colocada  à entrada de uma cidade para punir um outro pecado, que, por acaso se passa com o pai de Édipo (este último pecado que será a famosa homossexualidade).

Como se fosse por acaso, e não se vá criticar de falta de imaginação os lendadores, a colocação da esfinge é feita no lado ocidental (não no lado oriental, não no lado norte, não no lado sul) e apresenta um enigma a cada viajante que se não lembre de entrar pelos restantes três lados da cidade, ou que se não lembre simplesmente de entrar pelo lado Ocidental mais ao lado Norte ou ao lado Sul do que o local onde está colocada a Esfinge. Aqueles que se não mostram capazes de resolver o enigma apresentado pela esfinge são devorados pelo monstro sanguinário.



Mas, apresentemos o monstro himself: A esfinge parece usar uma estranha máscara, de tal modo a sua face é impassível e já enigmática, daí que o termo esfíngico seja aplicado à falta de mobilidade expressiva.

Os seus olhos, imutavelmente vazios, parecem esconder alguma coisa de feroz e implacável, isto no seu desenho inicial, segundo se diz, desenho este (imaginado claro) que vem do tempo anterior aos deuses gregos, do tempo dos Titãs.

Aquela esfinge do Édipo, recriada pelos gregos já no tempo dos deuses, é, no entanto, feminina, sem dúvida, uma vez que a dúvida ficava em aberto na anterior descrição, não havendo definição de parecenças de género.

O seu corpo adelgaça-se (típico da definição feminina) ao ponto de se tornar o de uma leoa (também tipicamente feminina a descrição embora no plano temperamental) e o peito aparece, tal como a face, totalmente feminino.

Um pormenor andrógino, para aligeirar, e talvez como concessão envergonhada à anterior imagem - a original titânica - é o nascimento de asas no dorso, que mais tarde vem a funcionar como ideia antecipatória da conhecida figura do anjo que conhecemos hoje e sabemos que não tem género (nem masculino nem feminino) mas que aparenta ter sexo masculino.

O volume de personagens nestas lendas, gregas e posteriores, incluindo as romanas, embora enverede um pouco pela dispersão nalguns casos, bifurcando-se seguindo intervenções de vários deuses, acaba por se restringir neste plano quando se trata de descrever factos que relevem.

Parece haver da parte dos lendadores, provavelmente não os iniciais mas aqueles que deram seguimento ao contado uma intenção de simplificar de forma a facilitar a transmissão oral. Neste caso, e conforme veremos  mais à frente, a história de Édipo e da Esfinge aparece mesmo amputada de uma parte na sua versão mais conhecida.

Na verdade foram feitas pela Esfinge duas perguntas a Édipo e todos nós conhecemos largamente uma, mas não conhecemos pelo menos tão largamente a segunda.

A primeira é a tradicional pergunta sobre qual é o animal que tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à noite. É o homem, que na sua infância caminha sobre pés e mãos, que na idade adulta (meio-dia) se ergue sobre os dois pés e na velhice (noite) se apoia no cajado para caminhar.

Mas a outra, é assim: "Quais são as duas irmãs uma das quais dá nascimento à outra que por sua vez faz nascer a primeira?!"

A esta circular pergunta, respondeu Édipo: "Trata-se do Dia e da Noite!" (Aqui interessa dizer que Dia é feminino em grego o que nos faria esbarrar a nós que utilizamos o masculino para definir Dia).

Tendo assim acertado Édipo, a esfinge soltou um rugido terrível e acabou por se precipitar do alto da penedia, matando-se.

Por isso, e como conclusão, não nos esqueçamos nunca que a Édipo foram colocadas duas questões, uma que tem a ver com o homem e outra que tem a ver com o Universo. 

Seria contudo curioso analisar porque razão ambas as perguntas são basilarmente contraditórias porque a primeira fala de animal para definir o homem e a segunda fala do ser humano (duas irmãs) para apontar para o Universo. 


  

Romance acabado - Conto de Daniel Teixeira

Romance acabado
Conto de Daniel Teixeira


Eu tinha os condimentos todos na minha história, ou pensava que tinha, mas talvez eu tivesse exagerado na complexidade de dar volta ao romance e construir as páginas necessárias para que a obra ficasse satisfatoriamente aceitável.

Havia várias fontes de inspiração mas eram fontes ao nível superficial porque é praticamente impossível fugir às nossas referências literárias e o processo da minha personagem era bem diferente de tudo aquilo que seria pensável coadunando-se bastante com a minha anterior experiência de crítico literário.

Tratava este meu romance que acabou por não o ser do relacionamento entre o escritor e o público e a crítica também, embora esta última fosse referida de uma forma mais subtil.

O meu personagem era suficientemente inteligente para saber que podia dispensar alguns leitores, ou mesmo muitos, mas que estaria liquidado como escritor caso afrontasse a crítica de uma forma demasiado directa, de nada lhe valendo os numerosos prémios até ali acumulados. Seria irremediavelmente votado ao olvido, ostracizado.

A crítica que o tinha elogiado e continuava a elogiá-lo nunca o deitaria abaixo senão pelo olvido depois de o ter subido, isso sabe-se, eu sei como as coisas funcionam : poderiam aqueles que se tinham mantido mais discretos no seu apoio começar por meter uma ou outra opinião menos favorável, progressivamente, mas esse processo levaria muito tempo ou não seria nunca mesmo completado. Ele nunca seria reduzido a zero.

Para além disso, deste cuidadoso aspecto do seu relacionamento com a crítica e no outro campo onde se sentia sem peias, nas conferências, notava ele pela leitura das expressões das pessoas que uma parte grande do seu público então presente considerava que aqueles mitos, os mitos que ele criara, aqueles que ele pretendia desfazer mais não eram que manifestações da sua excentricidade.

Na verdade que coisa mais fácil de apreender pela grande massa, mesmo aquela que era muito, mas mesmo muito culta que todo ele era excentricidade?

Vestia-se quase como um mendigo, o cabelo encrespado parecia não ter sido regado havia dias ou mesmo semanas, o blusão surrado acumulava gordura no colarinho e nas mangas, a barba crescia-lhe desordenada e a sua forma de se expressar era extremamente difícil de ser entendida: entrava num caminho de discurso para logo se perder nas encruzilhadas e depois nas curvas e mais tarde regressava, passado tempo ao ponto de partida. Mas era bom a escrever, confuso, mas bom.

Assim, havia alguns planos que podiam muito bem ser considerados quase paranóicos no comportamento do meu personagem sobretudo quando se entendia - quando se entendia - o fio daquilo que ele dizia e que afinal era claro e simples para ele e para muita gente que o quisesse entender.

Mas, acho que as pessoas não o queriam mesmo entender quando ele falava: tinham criado dele uma imagem, tinham incorporado aquilo que ele escrevia na sua imagem dele e a razão da sua grande frustração devia-se não a ele mas sim aos outros que tinham de alguma forma feito daquilo que ele era aquilo que sempre pensaram e iam pensando dele sempre na mesma linha de construção.

Não havia mesmo nada a fazer, dizia eu mesmo ao meu personagem, porque eu dialogava com ele, procurava encontrar-lhe uma saída que lhe fosse satisfatória, que o levasse a permitir-me ao fim de umas duas centenas de páginas escrever finalmente a palavra «fim».

Ele chegara à conclusão que as pessoas não o liam tal como ele escrevia, quer dizer, que as pessoas davam um sentido diferente quer às suas palavras quer aos seus temas e ao percorrer quase o mundo em conferências tentou sempre explicar que não era aquilo que as pessoas pensavam o que ele queria dizer, porque essas mesmas pessoas faziam a identificação dos seus textos com ele mesmo e faziam as suas palavras, entendidas nesta perspectiva, como se fossem guias ou referenciais do seu comportamento real e ao tomá-lo como ídolo pensavam que a sua ligação comportamental pessoal era a ideal, aquela que deviam seguir.

Ora, de nada disso se tratava, repetia ele, uma vez e dezenas ou mesmo centenas de vezes quer em conversas particulares, quer em escritos, quer nas inúmeras conferências para as quais era convidado. A sua ideia - dizia ele - era a de criar nos seus leitores uma repulsa tão forte àquilo que os seus personagens representavam ou faziam que fizesse surgir neles, leitores, o desejo de uma moral e de um comportamento inverso.

E era dramática a situação dele, tentando combater moinhos que existiam de facto mas que não eram susceptíveis de lhe proporcionar nem sequer uma ilusória vitória.Tentei convencê-lo a suicidar-se, coisa que teria parecido uma coisa assim quase normal para quem trabalha na escrita a tal nível de complexidade e abstracção e que tem grande tradição na literatura e nas artes mas ele não aceitou a ideia o que me alegrou ao fim e ao cabo.

Para mim nada mais eficaz, nestes casos do que uma morte acidental, uma coisa que possa acontecer a qualquer um, uma doença em limite, enfim, uma morte normal se é que a morte é alguma vez uma coisa normal.

Mas tanto ele como eu tivemos receio que isso acabasse por funcionar como um incentivo maior à sua leitura, porque escritor morto tem mais sucesso. Havia a possibilidade, sempre tão seguida na literatura de o mandar para um sítio qualquer inopinado, uma reclusão num desconhecido local mas isso não resolvia nem o meu nem o problema dele.

Continuariam, os seus leitores à espera que ele voltasse e eu não conseguiria gerir a sua ausência de forma a meter o tão desejado termo «fim» no meu romance.

Que posso eu dizer mais? Nada mais tenho a acrescentar senão pedir desculpas por não ter escrito este romance. E daí, desculpa porquê ? Talvez este meu romance nem fosse lido senão por mim...bem talvez também o lesse a pessoa que fizesse a correcção e o ordenamento na editora, mas essa não conta.








A NOITE CAIRÁ de André Singer, Reino Unido, 2014


A NOITE CAIRÁ

de André Singer, Reino Unido, 2014, 75’, M/14

Recolhido em Cineclube de Faro



FICHA TÉCNICA
Realização: André Singer
Argumento: Lynette Singer
Fotografia: Richard Blanshard
Montagem: Arik Lahav, Steve Miller
Som: Aviv Aldema
Compositor: Nicholas Singer
Origem: Reino Unido
Ano: 2014
Duração: 75’



A 15 de Abril de 1945, as tropas britânicas libertaram o campo de concentração de Bergen-Belsen. Uma equipa de filmagens filmou as pilhas de cadáveres e os sobreviventes, provas irrefutáveis dos crimes cometidos pelo regime Nazi. O produtor Sidney Bernstein planeava usá-las num filme e convidou Alfred Hitchcock para o montar. Mas, depois do fim da Guerra, as forças de ocupação mudaram a sua política e em vez de confrontar a Alemanha com a culpa, preferiram instalar a confiança para tornar possível a reconstrução do pós-Guerra. E estas imagens de horror indizível foram confinadas aos arquivos. A Noite Cairá segue as pisadas deste filme inacabado conhecido como o “Hitchcock perdido”.

CRÍTICA
 
O documentário de Singer coloca o cerne da questão no projecto do produtor Sidney Bernstein, que devido a um conjunto de circunstâncias relacionadas com a instabilidade política do pós-guerra nunca chegou a ser completado. Até hoje: no final de 2014 o Imperial War Museum regressou às imagens recolhidas pelos soldados, num importantíssimo trabalho de digitalização e restauração. Um dos aspectos mais determinantes no projecto concebido por Bernstein, e que nunca chegou a ser verdadeiramente concretizado, está relacionado com o envolvimento de Alfred Hitchcock.

As imagens recolhidas pela equipa de Bernstein seriam o ponto de partida para aquele que seria o único documentário da carreira de Hitchcock. Uma das razões avançadas para a inviabilidade do projecto prende-se com a recusa em acolher o elevado número de refugiados judeus, tanto da parte dos Estados Unidos como do Reino Unido. Perante a intensidade visceral das imagens, temia-se que o documentário não cumprisse o seu propósito fundamental - que passava em larga medida pela demonstração da dimensão dos crimes cometidos pelo regime Nazi -, tornando-se antes numa ferramenta de pressão política; sensibilizada pela injustiça atroz cometida contra o povo judeu, havia a hipótese da população manifestar forte apoio ao acolhimento dos refugiados em território aliado. 


 
Por outro lado, e esta era uma questão primordialmente referente ao contexto do Reino Unido, haveria também o receio que a divulgação do documentário contribuísse para a desmoralização do povo alemão, frequentemente responsabilizado pelas ações do seu regime; com os primeiros sinais de uma guerra fria a poluir o horizonte político, a prioridade passavam também por evitar alienar um potencial aliado contra a então União Soviética. Em ambos os casos, é esta uma das dimensões da difícil relação entre o sentido último da história e a "imagem", e que parece fazer eco de algumas das reservas avançadas por Lanzamnn. Singer nunca entra em diálogo explicito com o debate lançado por Lanzmann, tão pouco nos moldes em que o realizador de Shoah colocou a questão, mas o que aqui importa sublinhar é a importância de uma reflexão sobre a relação entre imagem e a (re)construção da História.

Um dos motivos de maior interesse do documentário de Singer passa pela aproximação às sugestões e instruções dadas por Hitchcock à equipa de Bernstein. Para evitar suspeitas sobre a credibilidade das imagens, Hitchcock recomendou que se utilizassem planos e sequências longas – daí a insistência nos momentos em que é possível ver as campas a céu aberto com os corpos dos judeus, com soldados nazis junto das suas vítimas. Outra sugestão foi a de demonstrar a proximidade entre os campos de concentração e povoações civis, de uma maneira ou de outra implicadas naquela tragédia.


 
Algumas das imagens restauradas pelo Imperial War Museum vão sendo intercaladas ao longo de toda a exposição factual de A Noite Cairá, e o que é aqui também impressionante é a "nitidez" ou "realismo" que o digital vem trazer a este imprescindível documento histórico. É que a degradação das imagens de arquivo tendem a distanciar-nos do momento histórico em que foram recolhidas: é oposto da impressão provocada pela alta definição digital e da sua relação afetiva com o espetador.
 
A obra não nos apresenta uma leitura do sentido último do Holocausto, mas relembra-nos da nossa proximidade histórica com o horror do Nazismo.

O melhor: A contextualização da dimensão política do documentário.
O pior: Nada a apontar.

José Raposo, www.c7nema.net



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Jornal Raizonline Nº 263 de 12 de Fevereiro de 2015


Jornal Raizonline Nº 263 de 12 de Fevereiro de 2015

Coluna Um - Daniel Teixeira


Em tempos que ladram a nossa cultura passa

Verdadeiramente inspirador é este título embora a sua versão inicial dele difira. E daí talvez fosse também pouco correcto reescrevê-la aqui na sua formulação exacta porque no nosso entender só se lhe aplica o sentido e não o significado.

Na verdade a nossa caravana não tem cães que lhe ladrem, ou se os tivesse nem disso nos aperceberíamos, embora devamos ter presente que os tempos actuais ladram verdadeiramente, um pouco para todos ou então para muitos.

Depois temos também uma questão com uma outra proporcionalidade nos termos a utilizar do caso original e na transcrição que aqui fazemos. Na verdade somos talvez um pequeno grão de areia, um pequeníssimo grão de areia: Florbela Espanca faz referência à insignificância de um grão de areia que se desprende utilizando a expressão de Marco Aurélio. Apenas um grão que se perde...nada mais que isso.

Esta cultura da relativização das percas, quando as há, funciona assim para o Estoico Marco Aurélio e para a poetiza Florbela tendo em atenção que não se trata de uma redução qualquer, de uma redução de uma coisa.

Subtilmente, ou de forma subliminar, o que se afirma é que aquilo que se perde, o tal grão de areia, não afecta a estrutura da construção na qual se acredita: há coisas que sendo compostas por milhões de grãos de areia continuam na mesma. O espírito, a ideia, não se resume a uma soma de grãos (de areia), mas sim à riqueza da sua estrutura.

Por isso por aqui vamos nós todos, perdendo e ganhando alguns grãos de areia e uns e outros, os que se perdem e os que se ganham, recompensam-se entre si naquela ideia sempre acompanhada de que sem a perca de uns e sem o ganho de outros não haveria progressão: na ideia, nas coisas, nos homens, na cultura.

Que tenham uma boa semana são os meus desejos.

Daniel Teixeira

Ps: Este é o número 263 do Raizonline: na coluna da direita, na parte que se refere às etiquetas (O que aqui se escreve), encontrarão lá uma etiqueta com o Nº263-12/02/2015 que, aberto o link, dá acesso a todos os trabalhos publicados neste número.



«DIZEI-LHE QUE TAMBEM DOS PORTUGUESES ALGUNS TRAIDORES HOUVE ALGUMAS VEZES»


«DIZEI-LHE QUE TAMBEM DOS PORTUGUESES ALGUNS TRAIDORES HOUVE ALGUMAS VEZES»

Texto de Paulo em Filhos de um Deus Menor

«Dizei-lhe que também dos portugueses, alguns traidores houve algumas vezes» (Luiz de Camões - canto IV, estrofe XXXIII)

 Na verdade, com esta frase Camões não se referia ao ano de 2015 nem tão pouco ao século XXI, mas sim aqueles portugueses que nos tempos de D. João I, se passaram para o lado de Castela (Espanha) e combateram contra os interesses de Portugal.

Hoje, quando se coloca a questão da crise em Portugal, vêm os mais altos dignitários da Nação atribuir a culpa à conjuntura da Europa ou mesmo planetária fazendo, com isso, crer que Portugal é uma vitima inocente da «desgraça». Ninguém parece ter a coragem de Camões...

Porém, quando a crise passar - se passar - haja quem tenha a coragem de dizer que tal crise também se deveu a portugueses traidores que houve algumas vezes.

Embora São Paulo tenha dito que o Diabo não tem forma, que é «espírito dos ares» (o ar - mau das crenças populares) admite-se no entanto que Ele não possa ser o culpado da crise actual em Portugal. Na verdade o bicho das sete cabeças do Apocalipse, o veado da lenda da Senhora da Nazaré e o corvo de Santo Espedito, não podem ser arguidos neste processo.

Não porque sejam inimputáveis em razão de anomalia psíquica. Não. Os culpados são uma espécie de Diabos tornados ermitãos, isto é: aqueles que levaram uma vida dissipada e corrompida e, depois de velhos, se tornaram penitentes e filósofos. Estes não são inimputáveis, embora , por vezes, consigam dar a «volta» à justiça ainda que popular...

Neste ano de 2015 é preciso que o Povo saiba que Deus e o Diabo não são concorrentes, diga-se o que se disser; as clientelas é que diferem. Tal como o distinto advogado não aceita defender a causa do plebeu - excepto quando é mediática - , tal como o médico de nomeada não se interessa pelos clientes pobres, nem o ilustre pensador pelas vilezas deste mundo, assim os políticos endeusados - que são muitos - desconsideram as paixonetas dos seus «adoradores», as intrigas de bairro, as mortes na estrada, as reivindicações das classes profissionais distintas, a mesquinhez dos negócios domésticos e, de quando em quando, a bandeira de Portugal.

Infelizmente, hoje raramente se roga a Deus pelas coisas nobres mas, constantemente, solicita-se o Diabo para as coisas materiais (palácios, carros de alta cilindrada, piscina, dinheiro, prestigio pessoal). Esta divisão de papeis permitiu, nestes últimos anos, que a maioria dos que nos administraram tivessem solicitado mais do que rogado. Agora, o resultado esta à vista.

Muitos políticos, perante a actual crise, hão-de seguir a prudência popular neste ano de 2015, que aconselha a acender uma vela a Deus e outra ao Diabo, porque pensam assim: «Deus é bom mas não tenho de que me queixar do Diabo».


Paulo




E é sempre assim - Daniel Teixeira


E é sempre assim

Conto de Daniel Teixeira


Desde sempre que pensei que as coisas iam ficar por ali. Aliás desde o primeiro minuto que interiormente já pensava isso. Quer dizer, eu já a conhecia um pouco, muito pouco, é certo, mas sabia que havia uma diferença grande entre nós.

Talvez não fosse assim tão grande, essa diferença, afinal e talvez fosse eu mesmo que a fizesse grande. Talvez tenha sido assim tal como as coisas se passam nos dias das nossas vidas quando nem sequer queremos desejar uma coisa que sabemos não poder vir a ter.

O processo para mim é simples, ou é fácil de explicar e é quase evidente que eu o reconheça, o processo. Colocamos essa coisa que não podemos ter muito longe do nosso alcance para não vir a desejá-la e para não sofrermos por não a ter.

Era isso que eu pensava dela, ou era assim mesmo que eu pensava e por mais voltas que tivesse dado às minhas ideias sobre ela dificilmente teria pensado que as coisas não tivessem ficado por ali, quer dizer por ali onde eu as tinha colocado: ela inalcançável e eu sem ambições frustrantes sobre a forma como alcançá-la.

Depois, bem, depois, passado já bastante tempo de nos conhecermos as coisas deram uma volta, ou mesmo duas, se quisermos. Não sei exactamente como as coisas se foram passando e como o tempo conseguiu influir, mas houve um dia, aquele dia, em que as nossas distâncias diminuíram. E é por isso que eu disse acima que talvez tenha havido duas voltas porque acho que a nossa ideia se aproximou, convergiu, vinda de dois sentidos. De mim e dela.

Foi quase por acaso acho eu, talvez estivéssemos os dois precisados um do outro, ou cada um de nós de um outro. E o que se seguiu foi muito rápido.

Muito rápido mesmo foi aquele passo de proximidade e convergência.

Estivemos envolvidos durante toda a tarde e durante toda a noite: fomos dois rios sedentos de foz, duas cascatas deslizantes em murmúrio, dois corpos em reencontro, duas almas sobrevoando-se.

Depois, bem, depois, veio o sol, quer dizer, o sol da manhã começou a entrar por entre os cortinados, a derramar-se sobre os nossos corpos, sobre os seus cabelos, sobre o seu peito, sobre a sua face.

E foi estranho como me ficou a parecer, em poucos minutos ou mesmo em poucos segundos, que tudo aquilo era absurdo, que não estava tudo certo, que havia ali qualquer coisa ou quase tudo que não tinha lugar e que aquele não era o nosso mundo desejado e não era um mundo a desejar. Foi mesmo estranho, muito estranho. E foi isso que senti, estranheza.

Agora que penso nisso, já passado algum tempo, talvez não tenha sido estranho mesmo, nada estranho, aquilo que senti naquela manhã ensolarada naquele quarto. Foi somente o manifestar daquele meu desejo de manter as coisas como estavam antes, quer dizer, de a manter naquele justo ponto da minha ideia : ela inalcançável e eu sem ambições frustrantes sobre ela.


Daniel Teixeira