quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Jornal Raizonline Nº 263 de 12 de Fevereiro de 2015


Jornal Raizonline Nº 263 de 12 de Fevereiro de 2015

Coluna Um - Daniel Teixeira


Em tempos que ladram a nossa cultura passa

Verdadeiramente inspirador é este título embora a sua versão inicial dele difira. E daí talvez fosse também pouco correcto reescrevê-la aqui na sua formulação exacta porque no nosso entender só se lhe aplica o sentido e não o significado.

Na verdade a nossa caravana não tem cães que lhe ladrem, ou se os tivesse nem disso nos aperceberíamos, embora devamos ter presente que os tempos actuais ladram verdadeiramente, um pouco para todos ou então para muitos.

Depois temos também uma questão com uma outra proporcionalidade nos termos a utilizar do caso original e na transcrição que aqui fazemos. Na verdade somos talvez um pequeno grão de areia, um pequeníssimo grão de areia: Florbela Espanca faz referência à insignificância de um grão de areia que se desprende utilizando a expressão de Marco Aurélio. Apenas um grão que se perde...nada mais que isso.

Esta cultura da relativização das percas, quando as há, funciona assim para o Estoico Marco Aurélio e para a poetiza Florbela tendo em atenção que não se trata de uma redução qualquer, de uma redução de uma coisa.

Subtilmente, ou de forma subliminar, o que se afirma é que aquilo que se perde, o tal grão de areia, não afecta a estrutura da construção na qual se acredita: há coisas que sendo compostas por milhões de grãos de areia continuam na mesma. O espírito, a ideia, não se resume a uma soma de grãos (de areia), mas sim à riqueza da sua estrutura.

Por isso por aqui vamos nós todos, perdendo e ganhando alguns grãos de areia e uns e outros, os que se perdem e os que se ganham, recompensam-se entre si naquela ideia sempre acompanhada de que sem a perca de uns e sem o ganho de outros não haveria progressão: na ideia, nas coisas, nos homens, na cultura.

Que tenham uma boa semana são os meus desejos.

Daniel Teixeira

Ps: Este é o número 263 do Raizonline: na coluna da direita, na parte que se refere às etiquetas (O que aqui se escreve), encontrarão lá uma etiqueta com o Nº263-12/02/2015 que, aberto o link, dá acesso a todos os trabalhos publicados neste número.



«DIZEI-LHE QUE TAMBEM DOS PORTUGUESES ALGUNS TRAIDORES HOUVE ALGUMAS VEZES»


«DIZEI-LHE QUE TAMBEM DOS PORTUGUESES ALGUNS TRAIDORES HOUVE ALGUMAS VEZES»

Texto de Paulo em Filhos de um Deus Menor

«Dizei-lhe que também dos portugueses, alguns traidores houve algumas vezes» (Luiz de Camões - canto IV, estrofe XXXIII)

 Na verdade, com esta frase Camões não se referia ao ano de 2015 nem tão pouco ao século XXI, mas sim aqueles portugueses que nos tempos de D. João I, se passaram para o lado de Castela (Espanha) e combateram contra os interesses de Portugal.

Hoje, quando se coloca a questão da crise em Portugal, vêm os mais altos dignitários da Nação atribuir a culpa à conjuntura da Europa ou mesmo planetária fazendo, com isso, crer que Portugal é uma vitima inocente da «desgraça». Ninguém parece ter a coragem de Camões...

Porém, quando a crise passar - se passar - haja quem tenha a coragem de dizer que tal crise também se deveu a portugueses traidores que houve algumas vezes.

Embora São Paulo tenha dito que o Diabo não tem forma, que é «espírito dos ares» (o ar - mau das crenças populares) admite-se no entanto que Ele não possa ser o culpado da crise actual em Portugal. Na verdade o bicho das sete cabeças do Apocalipse, o veado da lenda da Senhora da Nazaré e o corvo de Santo Espedito, não podem ser arguidos neste processo.

Não porque sejam inimputáveis em razão de anomalia psíquica. Não. Os culpados são uma espécie de Diabos tornados ermitãos, isto é: aqueles que levaram uma vida dissipada e corrompida e, depois de velhos, se tornaram penitentes e filósofos. Estes não são inimputáveis, embora , por vezes, consigam dar a «volta» à justiça ainda que popular...

Neste ano de 2015 é preciso que o Povo saiba que Deus e o Diabo não são concorrentes, diga-se o que se disser; as clientelas é que diferem. Tal como o distinto advogado não aceita defender a causa do plebeu - excepto quando é mediática - , tal como o médico de nomeada não se interessa pelos clientes pobres, nem o ilustre pensador pelas vilezas deste mundo, assim os políticos endeusados - que são muitos - desconsideram as paixonetas dos seus «adoradores», as intrigas de bairro, as mortes na estrada, as reivindicações das classes profissionais distintas, a mesquinhez dos negócios domésticos e, de quando em quando, a bandeira de Portugal.

Infelizmente, hoje raramente se roga a Deus pelas coisas nobres mas, constantemente, solicita-se o Diabo para as coisas materiais (palácios, carros de alta cilindrada, piscina, dinheiro, prestigio pessoal). Esta divisão de papeis permitiu, nestes últimos anos, que a maioria dos que nos administraram tivessem solicitado mais do que rogado. Agora, o resultado esta à vista.

Muitos políticos, perante a actual crise, hão-de seguir a prudência popular neste ano de 2015, que aconselha a acender uma vela a Deus e outra ao Diabo, porque pensam assim: «Deus é bom mas não tenho de que me queixar do Diabo».


Paulo




E é sempre assim - Daniel Teixeira


E é sempre assim

Conto de Daniel Teixeira


Desde sempre que pensei que as coisas iam ficar por ali. Aliás desde o primeiro minuto que interiormente já pensava isso. Quer dizer, eu já a conhecia um pouco, muito pouco, é certo, mas sabia que havia uma diferença grande entre nós.

Talvez não fosse assim tão grande, essa diferença, afinal e talvez fosse eu mesmo que a fizesse grande. Talvez tenha sido assim tal como as coisas se passam nos dias das nossas vidas quando nem sequer queremos desejar uma coisa que sabemos não poder vir a ter.

O processo para mim é simples, ou é fácil de explicar e é quase evidente que eu o reconheça, o processo. Colocamos essa coisa que não podemos ter muito longe do nosso alcance para não vir a desejá-la e para não sofrermos por não a ter.

Era isso que eu pensava dela, ou era assim mesmo que eu pensava e por mais voltas que tivesse dado às minhas ideias sobre ela dificilmente teria pensado que as coisas não tivessem ficado por ali, quer dizer por ali onde eu as tinha colocado: ela inalcançável e eu sem ambições frustrantes sobre a forma como alcançá-la.

Depois, bem, depois, passado já bastante tempo de nos conhecermos as coisas deram uma volta, ou mesmo duas, se quisermos. Não sei exactamente como as coisas se foram passando e como o tempo conseguiu influir, mas houve um dia, aquele dia, em que as nossas distâncias diminuíram. E é por isso que eu disse acima que talvez tenha havido duas voltas porque acho que a nossa ideia se aproximou, convergiu, vinda de dois sentidos. De mim e dela.

Foi quase por acaso acho eu, talvez estivéssemos os dois precisados um do outro, ou cada um de nós de um outro. E o que se seguiu foi muito rápido.

Muito rápido mesmo foi aquele passo de proximidade e convergência.

Estivemos envolvidos durante toda a tarde e durante toda a noite: fomos dois rios sedentos de foz, duas cascatas deslizantes em murmúrio, dois corpos em reencontro, duas almas sobrevoando-se.

Depois, bem, depois, veio o sol, quer dizer, o sol da manhã começou a entrar por entre os cortinados, a derramar-se sobre os nossos corpos, sobre os seus cabelos, sobre o seu peito, sobre a sua face.

E foi estranho como me ficou a parecer, em poucos minutos ou mesmo em poucos segundos, que tudo aquilo era absurdo, que não estava tudo certo, que havia ali qualquer coisa ou quase tudo que não tinha lugar e que aquele não era o nosso mundo desejado e não era um mundo a desejar. Foi mesmo estranho, muito estranho. E foi isso que senti, estranheza.

Agora que penso nisso, já passado algum tempo, talvez não tenha sido estranho mesmo, nada estranho, aquilo que senti naquela manhã ensolarada naquele quarto. Foi somente o manifestar daquele meu desejo de manter as coisas como estavam antes, quer dizer, de a manter naquele justo ponto da minha ideia : ela inalcançável e eu sem ambições frustrantes sobre ela.


Daniel Teixeira

UMA CASA EM BEIRUTE (2) - Sylvia Beirute


UMA CASA EM BEIRUTE (2)

Por Sylvia Beirute

 

 um nome. as pessoas reduzem-se a um nome. a linguagem agrava as coisas. as pessoas também se reduzem a linguagens. na realidade o nome e tudo o que ele comporta, como o chamar, o entoar, o evocar, reduz-se a uma linguagem. quando a criança me chamou, disse o meu nome: «Carlaiz», disse ela. disse-o de uma forma diferente. disse-o como se se desmoronasse a linguagem subjacente.

eu nunca pensei no meu nome com esta sensação associada, concluí. nunca o meu nome conheceu uma matéria tão informe, sem opositor chamativo, com uma redução subliminar, própria do domínio do puro. Carlaiz, perguntava a criança, aceitas jantar connosco na sexta-feira? e eu pensava. eu não parava de pensar na primeira questão. disse «porque não?» com um sorriso como se pudesse fugir sem pernas. «ainda tenho de tratar do meu contrato, acabei de chegar à cidade», acrescentei.
 
 a questão filosófica mais importante numa pessoa sozinha no mundo, senão num espaço, maior ou menor, é a possibilidade (ou capacidade) de escolher a própria família. se for num espaço estrangeiro esse acolhimento é paradoxalmente mais efectivo. como que há um distanciamento natural entre quem recebe e quem chega, mas que aproxima pela descoberta, conquista, ou curiosidade radiográfica. mas que será isto? por que será assim?
 
 de seguida propus-me a não responder a quaisquer perguntas que pudesse naturalmente formular. trazia muitas questões, procurava respostas. respostas daquelas que não perguntam de novo. especialmente aquelas que não perguntam o mesmo que já fora perguntado.

 quando cheguei a casa rezei e chorei. tenho o hábito de fazer sempre duas coisas ao mesmo tempo. acoplá-las ainda que aparentemente de tal não sejam passíveis. rezar e chorar creio que, ao contrário de outras, são duas funções que se podem executar em conjunto. com o tempo, quando chorava instantaneamente, também rezava. era como se impusesse ao verbo um outro lado transitivo. e vivia a experiência. dir-se-ia que rezava o choro. certos contrários não fazem sentido. não podia dizer que chorava a reza, por exterior a mim.

comecei a viver em beirute uma outra dimensão. a minha casa seria decorada segundo outros padrões, podia começar relações do zero, esconder o meu passado, desarticular-me por completo no exercício do ser individual.

 no meu ouvido ainda permanecia o meu nome dito pela criança: «Carlaiz».

Sylvia Beirute



O primeiro beijo dá-se com o olhar. - João Manuel Brito Sousa


O primeiro beijo dá-se com o olhar.
 
Por João Manuel Brito Sousa


Ando por aqui. De manhã, entre as dez e as onze, mais onze que dez, saio à rua. Fecho a porta do prédio e ponho o pé na calçada. Estou na cidade que eu amo. Um amor feito de muitas recordações e saudade.

A cidade de hoje recebe-me bem. Estou aqui à dois meses e já conquistei algumas boas amizades. Entre outras, cito, por ser justo, Humberto Daniel, Jorge Gaspar e José de Sousa Pinto.

Sei que o meu coração não consegue odiar. Vou andando assim, tentando viver, um dia de cada vez. e percorro lugares e caminhos, montras e lojas, umas que já existiam de antigamente outras que nasceram agora.

O primeiro lugar que visito é a livraria do Pátio das Letras, onde normalmente compro um livreco, dos baratos. Depois, sento-me na esplanada e tomo um café. Aparece malta e conversamos um pouco. Sigo depois até ao mercado, onde normalmente revejo amigos..

O último foi o Jorge Custoidinho, grande, grande, grande amigo, dos tempos da primária. Estou a vê-lo no seu primeiro dia de escola. Fomos sempre amigos, eu e o Jorge, irmão doutra amizade enorme, a Fernanda Custoidinho, a quem aproveito para saudar.

O Jorge cruzou-se comigo, parou e cumprimentou-me. Trazia o brilho da amizade no olhar. E fez-me uma pergunta engraçada: «onde é que estás agora ?...».

Entupi … que raio, pensei.. Mas expliquei-lhe e aprovou o projecto. Que não garanto seja o mesmo daqui a quinze dias… Encontro-me com outros amigos, como o Custódio Serôdio, o Joaquim da minha terra, que emigrou para França anos 50 e tais e que me contou uma história interessantíssima... Que não posso deixar de a transcrever.

Tomámos um café e ás tantas ele pega na palavra e falou mais de uma hora seguida. Disse Joaquim:

«Em 1963 em Paris fui convidado por uns amigos a festejar o nascimento do Marquitos, filho de um preso político espanhol que tinha lutado contra Franco. Esteve 23 anos seguidos na cadeia, até que Franco, em 1943 fez publicar um decreto-lei que libertava todos os presos políticos com mais de vinte anos de cadeia seguidos.

Saíra cá para fora, mas tudo lhe parecia estranho e não se entendia muito bem com o brilho das luzes, com a dinâmica da cidade e por aí fora. Andava vigiado e sabia disso. Estivera preso dos 20 aos 43 anos e a sua vida não conheceu a Primavera, ou seja, nunca tinha amado nem sido amado, apesar de sentir o desejo.

Um dia encontrou um amigo doutros tempos, que depois dos abraços e cumprimentos lhe disse: «Mira, esta noche às diez por acá »…. «No te entiendo», terá dito o presidiário.

«às diez en la calle. Por acá, si»… E foi mesmo.. De tal modo que às onze dessa noite os amigos estavam num bar de meninas. Que tal ? perguntou o amigo…. Hum, respondeu o preso, que entretanto pensava no momento que estava a viver, coisa que sempre combatera…O amigo voltou a aproximar-se e o presidiário, parecia infeliz.

O amigo então apresenta-lhe Isabel, uma menina a quem entregou uma nota de 500 pesetas, dizendo-lhe: «Leva-o para o Hotel e fá-lo feliz» e virando-se para o presidiário: «Está aqui o teu primeiro beijo». Depois contas-me. Tenho de ir. Hasta mañana, ainda disse..

Vamos disse a menina. Para onde? Para o Hotel, óbvio. Espera, disse o presidiário. Vamos até um café, quero conhecer-te melhor. E foram. Conversaram e às tantas, disse ela. Vamos ? Fazer quê ? não sei fazer nada. Deixa, eu faço tudo. Foram. Aconteceu o quê? Não sei.

às quatro da madrugada o presidiário voltou para casa onde o irmão e a cunhada o esperavam preocupados. Mas… tudo bem. A cunhada pediu-lhe o casaco para o escovar. E ao fazê-lo, encontrou num dos bolsos um papel enrolado. Perguntou ao presidiário, o que é isto, Ferdinand ?...

Mostra, disse Ferdinand, que entretanto aceitou o embrulhinho. Desenrolou-o. Era a nota de 500 pesetas que Isabel introduzira no seu bolso do casaco e onde tinha deixado escrito: «Volta amanhã outra vez»…

Ferdinand foi para o quarto depois de dar as boas noites.. Pensou no assunto. E resolveu no outro dia passar por uma florista e comprar 500 pesetas de flores. E dirigiu-se depois para o Hotel onde tinha estado com Isabel, onde deixou as flores, pedindo que as entregassem á menina tal.

E escreveu num cartão que colocou dentro do «bouquet: «Para Isabel, o meu primeiro amor:»…

Dias depois encontrou o amigo.
 - Então que tal?
- Hum… respondeu Ferdinand
- Saiu o primeiro beijo?
 - Hum… disse ainda Ferdinand.
 - Então ? insistiu o amigo.
 - E Ferdinand, disse: «O primeiro beijo dá-se com o olhar»




Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira


Menina, Mulher, Mãe, Companheira

Menina despojada da sua meninice cedo demais,
Mulher desnudada da sua feminilidade
Mãe sem quem embalar com suavidade
 Companheira forçada a caminhar só pelo cais

Criança que vislumbra os barcos e sonha neles embarcar
Mulher que fita os barcos e anseia pelo seu marinheiro
Mãe que, para lá dos barcos, olha o horizonte vazio sem lastimar  
Companheira que se abraça para escapar da solidão e encontra no mar o seu cheiro

Menina que se ajoelha à beira-mar e reza com fervor
Menina crente, com o peito aberto e a alma selvagem
Mulher que é corpo e essência, paixão e entrega sem pudor

Mulher ardente que se entrega ao mar sem medo do vendaval
Mãe que embala o cadáver que encontra na margem
Companheira que silencia no peito a ânsia intemporal… 


Morreu a menina

As lágrimas caem do céu que vocifera ferozmente
A angústia e a raiva que traz nas nuvens que obscurecem o dia
Nesta terra gélida e desconhecida onde abriguei o espírito carente
De uma menina que morreu há muito, aquela que Via,

Morreu a menina inocente que clamava poesias ao vento
A que escrevia sentimentos para sobreviver
A que amava tão profundamente que raiava o sofrimento
A menina que eu não soube proteger…

O vento agride as árvores e força-as a recuar
As lágrimas do céu derramam-se sem cansaço,
E a que restou, luta para finalmente encontrar

Encontrar o caminho de onde se perdeu
O tão ansiado descanso no seu regaço
A certeza de que, afinal, algo ainda permaneceu…


Veneno

Tantas lágrimas derramadas num tempo já ido
Fluidas num rio de sal e angústia, lamacento de traição
Rio que corria revoltado e feroz, de mim condoído
Ferida de morte por um punhal afiado com desilusão…

E, ao nascer do Sol, o rio começou lentamente a secar
E no pântano viu-se nascer uma singela flor de esperança.
Os passos ficaram mudos na fuga e pensaram parar
E os raios ardentes acenderam a centelha voraz da aliança

Na lama da Razão ficou enterrado o punhal odiado
Encoberto, mas tão real quanto a desilusão que restou…
E ao anoitecer, quando a Lua do seu sono despertou,

O rio voltou a brilhar ao luar com um laivo esverdeado,
De veneno puro, que se impregna devagar e profundamente,
Para os laços dourados do amor macular, eternamente… 





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

ROBERTO GOMES – O Terno Branco

ROBERTO GOMES – O Terno Branco 


ROBERTO GOMES, acaba de lançar mais um livro de contos, A Guitarra de Jemi Hendrix, pela Criar Edições. Para os leitores que conhecem Roberto Gomes não haverá surpresa quanto a excelência de sua escrita ficcional. Mas, para os seus novos leitores, não será demasia dizer que ele é um dos escritores brasileiros contemporâneos mais importantes – daí minha indicação para que não deixem de ler o livro A Guitarra de Jemi Hendrix, que é composto por quinze excelentes contos. 

Mesmo voltado para a literatura – conto, novela, romance, bem como pela ficção infantil, com a qual foi distinguido com o Prêmio Jabuti – Roberto Gomes não se afastou da Filosofia, depois que se graduou, na Universidade Federal do Paraná, há algumas décadas. Na Universidade, não se  limitou a exercer a docência, também levou seus conhecimentos filosóficos para o livro, como é exemplo Crítica da Razão Tupiniquim, que há algumas décadas vem sendo adotado por muitas escolas do nosso país, e com edições renovadas.

Como nosso propósito nesta postagem é dar conhecimento aos leitores do lançamento do novo livro de contos de Roberto Gomes, vamos transcrever abaixo o conto O terno branco, do livro A Guitarra de Jemi Hendrix:


 
O terno branco

Roberto Gomes


Ele já não tinha nome.

Era conhecido pelos apelidos, que eram muitos, dependendo de onde estivesse, dos amigos a sua volta, se era madrugada e estava numa boate, se anoitecia e estava num boteco. Só não tinha um apelido para as manhãs, quando passava dormindo, roncando demasiado alto para seu corpo pequeno, produzindo um estardalhaço sonoro que parecia capaz de quebrar vidraças.

Acordava pontualmente às duas da tarde, a boca queimando, os olhos vermelhos, que dizia infestados por espinhos, não tem mesmo um espinho neste olho?, perguntava, abrindo as pálpebras com dois dedos em alicate. Saía da cama gemendo, ia ao banheiro, enfiava a cabeça debaixo da torneira e, num mesmo gesto, esticava a mão para apanhar a garrafa de conhaque que deixava no armário ao lado. Bebia no gargalo e estalava os beiços.

Sempre vestido de preto.

Uma calça e duas camisas pretas e puídas, que fediam a mil noites e muitas mulheres da vida. Só permitia que fossem lavadas às segundas-feiras, quando não acordava às duas horas da tarde e seguia roncando pelo resto do dia. Saía da cama quando já era noite. Pedia um café embora soubesse que ninguém o atenderia e, cruzando o corredor rumo à cozinha, declarava:

- Segunda-feira é mesmo um dia que não presta pra nada.

Tomava café frio, olhava com desinteresse para a televisão, diante da qual a mulher e a filha estavam plantadas como duas samambaias. Ia ao banheiro com algum estrondo, empestando os ares da casa, batia portas, deixava cair os sapatos quando tentava calçá-los, atrapalhava-se com a camisa do pijama, que enroscava nos braços. Depois desta encenação que repetia com uma precisão de relógio, dizia puta que o pariu que ninguém fala comigo nesta casa! e, parado no meio da sala, decretava, com ênfase:

- Segunda-feira é mesmo um dia que não presta pra nada!

E voltava para a cama, onde se punha a fazer cálculos na tentativa de descobrir há quantos anos ninguém o ouvia, há quantos séculos não tinha notícias da filha, que estava lá plantada no sofá, como era mesmo o nome da desinfeliz?, há quanto tempo não conversava com o filho, que cuspia para o lado quando cruzava com ele? E a mulher, quem era ela?

Depois, dormia aos solavancos até mergulhar num sonho onde havia uma mulher que lhe dizia: vem. Ele ia, sentava-se à mesa, contava casos, anedotas, pregava apelidos em quem estivesse por perto e fazia com que todos rissem muito e batessem nas suas costas dizendo que era mesmo um sujeito admirável, uma figura. Acordava na terça-feira, às duas horas da tarde, pontualmente. E recomeçava.

No mais, terminava certas noites emborcado numa calçada, acordava com dois policiais cutucando suas costelas com o coturno. Noutras, abria os olhos numa casa desconhecida, no meio da madrugada, diante de uma cortina de plástico que era um escandaloso campo coberto com flores vermelhas e amarelas. Ou era erguido por dois braços fortes e jogado na rua, onde quebrava um dente contra o meio-fio. Ia até a farmácia, passava mercúrio cromo na boca, nos braços, na testa, pregava alguns esparadrapos pelo corpo e entrava no primeiro boteco.

Foi assim até o dia em que chegou em casa num domingo à tarde, provocando alvoroço na vizinhança, o que ele fazia em casa àquela hora?, o que estava acontecendo? Atravessou a curiosidade daquela gente cretina sem se deixar abalar e entrou em casa com um pacote muito jeitoso debaixo do braço. Cumprimentou a todos, não recebeu resposta alguma, a filha na frente da televisão, a mulher fabricando os biscoitos com os quais sustentava a casa, o filho cuspindo para os lados como se fosse um preto velho de macumba.

Entrou no quarto e, como sempre, deixou a porta aberta. Todos viram quando abriu o pacote com cuidado e dele retirou um terno branco, claríssimo, e uma camisa também branca. Viram quando estendeu o terno sobre a cama e dependurou a camisa num prego ao lado do armário. Despiu-se, jogando no chão o terno preto e a camisa preta, e estava nu, pois não usava cuecas, uma de suas implicâncias. Viram sua exibição inocente de carnes flácidas, a bunda murcha, o sexo desatento entre as pernas.

Então ele vestiu a camisa branca, as calças brancas, o paletó branco. Olhou-se no espelho balançando a cabeça e, quando se virou para a porta, a mulher, a filha e o filho fizeram de conta que não estavam olhando e mergulharam de novo na tela da televisão. Ele veio até a sala, perguntou se ninguém ia lhe oferecer um café. Não teve resposta. Foi à cozinha e tomou um copo de água, derrubou uma caneca e, quando retornava ao quarto, disse:

- Amanhã é segunda-feira e segunda-feira não serve mesmo pra nada.

Quando entrou no quarto, os três observaram o modo cerimonioso como ajeitou o terno branco no corpo, acomodou os punhos da camisa, aprumou o colarinho, alisou os lençóis, afofou o travesseiro e se deitou na cama. Ficou muito reto, parecendo maior do que era, as mãos sobre o peito, os sapatos apontando para o teto, o nariz muito fino interrogando contra a janela ao fundo.

Logo estava roncando aos arrancos. O filho fechou a porta do quarto, a filha aumentou o volume da televisão. Estranharam quando ele não acordou ao anoitecer da segunda-feira, pedindo café e reclamando que segunda-feira não serve mesmo pra nada. Só às duas horas da tarde de terça-feira abriram a porta do quarto.

- Acho que não roncava desde as dez horas de ontem, a filha explicou ao médico que foi chamado às pressas.