quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Poemas de Sá de Freitas


Poemas de Sá de Freitas

 
COMO SINTO UM ADEUS

O adeus é prenúncio de ansiedade
Que surgirá nascida de uma ausência...
É princípio de angústia... é evidência
De prantos que virão com intensidade.

O adeus é um sentir de vacuidade,
É o interromper de uma convivência,
É um padecer com a triste permanência,
Da grande dor que traz uma saudade.

O adeus é esperança de um retorno;
É sensação terrível de abandono;
É temor do que inda não surgiu.

É apreensão que a alma mortifica;
Sonho de também ir, para quem fica;
Vontade de regresso à quem partiu.

 
HEI DE ENCONTRAR

Hei de encontrar ainda em meu caminho,
O amor que busco desde a mocidade,
Mesmo que seja no findar da tarde,
Que pressinto chegar-me de mansinho.

Não falo do gostoso «amor - carinho»,
Que traz ao nosso corpo a saciedade:
Falo do amor que falta à humanidade,
Sem o qual cada ser vive sozinho.

Falo daquele amor que mata a fome,
Que agasalha a quem no frio dorme,
Que ao desolado vem trazer alento.

Falo do amor que no perdão se aplica,
Falo do amor que o coração pratica,
Contido no primeiro Mandamento.

 
LUTES

Ao sentires a dor que vem terrível,
Para te torturar, roubar-te a calma,
Enchendo de angústia a tua alma,
De maneira cruel e indescritível...

Reajas, lutes, antes que enfraqueça,
Tua esperança que, depressa, foge;
Antes que o desespero, em ti, se aloje
E toda a força, em ti, desapareça.

Ergues-te antes de entregar-te à sorte;
Antes que venhas assistir a morte
Do otimismo e dos esforços teus...

Extermines com dor antes que aumente,
Antes que te transformes num descrente,
Que duvida do próprio Amor de Deus.





JANEIRO - Miriam de Sales Oliveira


JANEIRO

Miriam de Sales Oliveira

Janeiro ,como palavra,não existe na nossa língua;imagino que seja uma corruptela de Jannuarius,que era, em tempos mais antigos do que eu,dedicado à Jano,primeiro rei do Lácio,que o leitor sabe era o primeiro nome de Roma;e,se não sabia,ficou sabendo.Sabendo,pode exibir sua cultura no escritório e impressionar a secretária.

Eu não me sinto obrigada a prestar homenagem a um cara que não conheci,não é meu vizinho nem meu chefe e nada tem a ver comigo ou com vocês,concordam?

Se fosse januário,ainda vá lá,conheço alguns,inclusive a Januária,de Chico,que vivia na janela e boa coisa não deveria ser.E,também,o S. Januário,que lembra o Vasco.Até ai,tudo bem.

É um mês festeiro,aqui em Salvador,temos,após o réveillon,a festa do Sr. Bom Jesus dos Navegantes com sua procissão de barcos,a festa do Sr. Do Bonfim,com a lavagem e os banhos de cheiro,sem falar nos ensaios carnavalescos que ninguém é de ferro e baiano quando não está numa festa,está inventando alguma;por isso se diz que baiano não nasce,estréia.

O pior de tanta festa é que a chuva gosta de comparecer e cai com vontade,principalmente no Sudeste,pois,como o Nordeste precisa de chuva para amainar a seca e a chuva é pirracenta,cai no Sul,só para aporrinhar os paulistas trabalhadores e os cariocas,praieiros.

Bom é em Belém do Pará,lá,dizem,ainda não fui conferir,a chuva cai com hora marcada;a gente marca um compromisso,perguntando:
-Antes ou depois da chuva?
Terra civilizada é assim.

Dizem  que,no dia 12 de janeiro,em Flandres e no Brabant,na França,existe uma festa tradicional na qual as mulheres querem aparecer como as verdadeiras donas da casa;para isso,metem os maridos na cama e saem a resolver os problemas;os problemas das mulheres brasileiras é simplesmente tirar da cama os maridos para ir trabalhar.



Dois Poemas de Mário Matta e Silva


Dois Poemas de Mário Matta e Silva


NAS VOLTAS DA VIDA

Uma volta, outra volta
Nas voltas que o Mundo dá
Vou lutando em cada volta
E a volta não pára já.
Volta certa, volta e meia
Revolta sempre a voltar
Vai na volta o tempo anda
Na forma de se animar.
Anda à volta, volteando
Nas voltas deste viver
Cada volta que se dá
A vida passa a correr.
Volta à esquerda e à direita
Volteio de carrossel
Vai longe a volta que dou
No cavalo cor de mel.
São voltas que tu me dás
Meio loucas, desvairadas
Já nada volta pr’a trás
Nestas longas caminhadas.
Até quando andar à volta
Da onda, do sol, da lua
Dê eu as voltas que der
Volto a ter-te bela e nua.
Nas voltas do teu rosário
Ando voltando ao pecado
Sentindo que em cada volta
Eu canto meu triste fado.
Vai na volta, vou na volta
Destes dias turbulentos
Com remoinhos à volta
Da pobreza, sofrimentos.
Reviravolta sangrenta
Ais de choro, gritaria
Em cada volta que damos
Quero que a Paz nos sorria.
Ao voltar à engrenagem
Das rodas que o tempo tem
Ando à volta na viagem
Do tempo que vai e vem.
Até quando vou voltar
À espera desse futuro
Cada dia há-de avançar
Do claro para o escuro
Até me sentir definhar
Toca a rodar, a rodar.

25 de Janeiro de 2015

MÁRIO MATTA E SILVA


O SANGUE ESCORRE EM PARIS

Paris. Viagem calma pelo Sena
Por onde voam andorinhas
A aragem é suave, amena
As nuvens vão cinzentas, baixinhas.
Com Notre – Dame, Gótico antigo
Tenho o cântico-chão como abrigo.
Paris. Nos três gritos, fronte erguida
Liberdade, igualdade, fraternidade
Revolução de furores tão destemida
Tão viril, tão gentil, de tanta idade.
Solene Arco do Triunfo, erguido e forte
Contra o nazismo, vencendo a morte.
Paris. Coração a bater pela Europa
Charles de Gaulle, feito vitória
Vaga que se ergue na popa
A banhar França com sua História.
Avanços hábeis na modernidade
Berço de emigrados a gritar saudade.
Paris. Do cume mais alto, a tocar estrelas
Torre Eiffel no ferro emaranhado
Campos Elisios, suas coisas belas
Paz feita no apogeu do Mundo alterado.
Na cultura assenta fórmulas de poetas
Baudelaire. em flores do mal, é rei de profetas.
Paris. De Charlie Hebdo, reduto caricatural
Expressão em desenhos feita liberdade
Sem mancha de prosa, sem texto formal
Vê mensagens bramidas p’la religiosidade.
Jihadismo pressegue, mata atrozmente
Em no nome de Alá, ceifando inocentes.
Paris. Cidade bela tão violentada
Por terrorismo louco, em sangue desfeito
Com gente de máscara e arma apontada
Magoada a Europa, chora no seu peito.
Numa falsa Fé, num atraiçoado Islão
Faz escorrer sangue p’lo Mundo Cristão!

3 de Fevereiro de 2015

MÁRIO MATTA E SILVA




Dois textos de Maria Álvaro



Dois textos de Maria Álvaro


Juventude

Como escorrem pensamentos e emoções ao longo das palavras, assim escorre a juventude pelos dedos feita espuma de gel.... Ah! A juventude!...Sabonete perfumado num banho embebido de prazeres molhados, borbulha macio e nos escapa instante, deslizando vivaz e inconsequente por mãos ávidas por ele... Beleza mesmo na feiura, sem engenho, sem arte, súbita, generosa e impaciente... Não se apercebe que não É, que apenas Está! 

Desliza a juventude... ...ágil... afoita... iludida campeã de ilusões e futuras derrotas... Desliza se desfazendo...como uma nuvem passageira... vapor impalpável que se acaba, chorando na dureza da terra... Arco-íris esfuziante, que se esfumaça suave ao sol, na manhã cintilante encharcada de chuva... ignorante da noite que o espera......

Maria Álvaro



Vazio de mentes

Com a comunicação nas redes sociais, o uso de códigos por adolescentes, e não só, vem limitando a necessidade de se estruturar frases completas e bem construídas. Acredito que várias línguas, não só a Portuguesa, estejam ficando cada vez mais pobres. E expressão verbal pobre conduz a pensamento pobre...e vice versa... 

Além do mais, na vida real, ao vivo, pouco se lê e, consequentemente, a expressão verbal fica ainda mais empobrecida nestes casos . Os jovens comunicam-se oralmente e por escrito através de idiomas telegráficos e gírias metafóricas, que têm a pretensão de substituir toda uma estrutura. 

São expressões estratificadas que todos usam de forma igual, sem que haja a preocupação de mostrar uma identidade crítica individual. Paradoxal e ironicamente, no mundo hoje altamente individualista, o jovem fala a pobre linguagem dos grupos. Tenta a identificação com os grupos apenas no que é aparente, na linguagem corporal, na forma de se vestir, de se maquilhar ou de se pentear, na linguagem e não consegue se caracterizar como indivíduo. 

Estão ficando cada vez mais raros os que buscam outras razões de integração em grupos que tenham finalidades éticas e sociais.. Uma boa parcela da juventude hoje não sabe e não quer se distinguir linguisticamente e é altamente voltado para interesses materiais de caráter também comum...interesses esses neles inconscientemente incutidos, em parte, pela subtil insinuação interesseira dos Media e do mundo capitalista. 

Vive-se um vazio de mentes...

Maria Álvaro

Poemas de Liliana Josué



Poemas de Liliana Josué


Em memória dum grande amigo que partiu desta vida terrena

As lágrimas por nós choradas
na tua quase vontade
de quereres , finalmente, livre pássaro
são tristes, fundas pesadas
apertam o coração
e marcam a existência
de quem te quis tanto, tanto…

mas mesmo assim tu partiste
levitando nesse prazer da ausência
de quem já não pertence aqui

foste habitar o eterno
que os vivos inventam por desconhecimento
o os mortos abraçam no contentamento
de o ter alcançado

ficam as memórias de um viver passado
ficam quase certezas de não estares infeliz
ficam as historias que tu não contaste
ficam os contornos dum tempo feliz.

23/01/2015
 
Liliana Josué


EVA

O vento batia forte
a chuva era um rosário
fevereiro, inverno na sua total nobreza
adversário rígido mas necessário

e foi nesse frio agreste
que certa criança nasceu
linda, loira, branca, doce
uma pérola pequenina
pérola minha, muito minha

sim, era o mundo que o meu ventre tinha dentro
e que nesse frio dorido
fez a vida receber

fio dourado
erva pura e verde
brisa marinha
calor do meu corpo cansado
esperança sem fim
vinda de mim
tenra haste desse fevereiro agreste.

06/02/2015
 
Liliana Josué

Joaquim Paço d'Arcos: 1908-1979



Joaquim Paço d'Arcos: 1908-1979

Um destes dias numa visita a um alfarrabista em Lisboa encontrei, entre outros, o livro “Amores e Viagens de Pedro Emanuel” da autoria de Joaquim Paço D’Arcos. Calhou-me a quarta edição de 1945 (a primeira é de 1935). Folhas amareladas e com espaço para dedicatória, mas não tive sorte. Estava em branco… Ainda assim, uma preciosidade de um autor cuja veia literária despertou precisamente em Macau, cujas primeiras impressões não foram as melhores

“A cidade sobre todas linda, a pérola cobiçada do Oriente, onde os meus dias teriam que decorrer; o seu bairro chinês pareceu-me aldeola cotejado com o de Hong Kong; o burgo português deu-me o aspecto de vilória de província, transplantada para sob aquele sol ardente. (…) Nem as colinas viçosas, nem as estradas. Serpenteando à beira-mar, nem as sombras seculares das árvores que abrigaram Camões, me reconciliaram com o forçado degredo”.  

Joaquim Belford Correia da Silva, filho do governador de Macau (1918-1923), Henrique Correia da Silva Paço d’Arcos, publicou duas obras com temas macaenses: "Amores e Viagens de Pedro Manuel" (1935) e "Navio dos Mortos e outras Novelas" (1952).

No primeiro título o protagonista é um chefe da polícia secreta de Macau que era também capitão de piratas nos mares da China. A segunda obra conta a história da filha de um rico chinês residente em Macau, assassinada pelo marido que não admitia que a sua mulher herdasse a fortuna do pai. O navio, que fazia o transporte de mortos chineses do estrangeiro, trouxe os corpos de ambos, pois o marido, condenado pela justiça inglesa, morrera na forca. 

Ao “Navios dos Mortos” o Times Literary Supplement referiu em Agosto de 1995 que se tratavam de “novelas que têm marca cosmopolita e recordam as de Somerset Maugham”. As obras são de ficção mas os locais e até algumas personagens são reais. Caso do padre Jerónimo, por exemplo. 

Numa entrevista em 1968 o próprio afirmou: “Existem determinadas figuras humanas que podem ter indirectamente inspirado algumas personagens da minha obra, mas profundamente modificadas. Se há algumas que dão traços de pessoais reais, são pessoas diferentes que nós depois mesclamos e transformamos inteiramente. As nossa figuras são criadas de imaginação, embora reflectindo aspectos da forma humana à nossa volta”. 

Neto do primeiro conde de Paço d’Arcos e irmão do segundo Conde, nasceu (1908) e morreu em Lisboa (1979). Conhecido como Joaquim Paço d’Arcos, foi um dos escritores portugueses do século XX mais traduzidos no estrangeiro: Brasil, Alemanha, Espanha, Finlândia, França, Inglaterra, Itália, Polónia, Roménia, Suécia, Estados Unidos, Rússia…). No The Penguin Book of Modern Verse Translation (1966) podem encontrar-se dois dos seus poemas.

Partiu com apenas quatro anos para Angola (1912) com os pais e, depois, para Macau (1919) e Moçambique, onde exerceu funções de secretário e chefe de gabinete de seu pai, governador entre 1925 e 1927. A viagem até Macau fez-se via S. Francisco e depois rumo a Hong Kong em 1919 no navio “Persia Maru” e de Hong Kong para Macau na canhoneira “Pátria”, a 22 de Agosto de 1919. 

“Demandei Macau em noite negra de tufão, na companhia do padre Jerónimo, ao qual fiquei talvez devendo a vida, pelas promessas que fez ao bom Deus se nos salvasse.” Ficaria até 1922. Chega com 11 anos e estuda no Liceu (então no Tap Seac) tendo colaborado no jornal da escola “A Academia”. 

Um dos professores do liceu foi o padre José da Costa Nunes que viria a ser bispo de Macau e que lhe terá dito da sua especial vocação para a escrita. Segundo Monsenhor Manuel Teixeira, Joaquim “estudava pouco e lia muito, empolgando-se, sobretudo, nos romances de Camilo”. 

Nos três anos vividos no território vai muitas vezes a Hong Kong e a Cantão. Em 1925, com apenas 17 anos, está em Moçambique onde é secretário do seu pai (governador da província), regressando a Lisboa dois anos depois até que ruma ao Brasil onde vive de 1928 a 1930 como comerciante (antiquário) e jornalista. 

Regressa a Lisboa e em 1931 era chefe de repartição da Companhia Nacional de Navegação. Já em França, em 1933, escreve o seu primeiro romance, Herói Derradeiro. Após uma segunda permanência no Brasil, é nomeado em 1936 chefe dos Serviços de Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros, cargo que ocupa até 1960, tornando-se igualmente, a partir de 1944, director da Trans-Zambezia Railway. 

Foi ainda presidente da Direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores e membro da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses. Foi ainda membro do Pen Club, da Société des Gens de Lettres de France e sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras.

No Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (Vol. IV, Lisboa, 1997) pode ler-se: “Obteve diversos prémios literários, o primeiro dos quais coincidiu com a sua nomeação para o cargo de chefe dos Serviços de Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros: foi o Prémio Eça de Queirós (1936), atribuído ao seu romance “Diário de um Emigrante” pelo Secretariado de Propaganda Nacional; o seu livro de novelas “Neve sobre o Mar” foi galardoado com o Prémio Fialho de Almeida, e a sua peça de teatro O Ausente obteve o Prémio Gil Vicente (1942); quanto ao Prémio Ricardo Malheiros, atribuído pela Academia das Ciências (…), o autor recusou-o devido aos termos em que se exprimia o relatório da comissão incumbida de o atribuir e que punha públicas reservas quanto à sua qualidade, designadamente pelo uso frequente de estrangeirismos.”

Romancista, dramaturgo, ensaísta e poeta, premiado diversas vezes, Joaquim Paço d’Arcos foi um caso de sucesso junto dos leitores nas décadas de 1940 e 1950 do século XX, em especial com o romance “Ana Paula”. 

O conjunto de obras que publicou sob o título genérico Crónica da Vida Lisboeta foi considerado por muitos críticos, quer portugueses, quer brasileiros, fundamental no âmbito da literatura portuguesa. 

Óscar Lopes escreveu que “Quando se quiser ver a nossa época [anos 40 - 60] num cosmorama literário, tal como hoje vemos a época da Regeneração através de Camilo, Júlio Dinis ou Eça de Queirós, será preciso recorrer a estes romances de Paço d’Arcos quanto a determinados sectores portugueses.”

Na poesia, o seu livro mais conhecido é o “Poemas Imperfeitos”, de 1952. E também aí Macau marca presença nos poemas “Medo” e “Foi numa terra distante”. 

Após a sua morte, a 10 de Junho de 1979, caiu praticamente no esquecimento. Mas não totalmente, já que como o próprio afirmou “escrever é projectar-se além da vida”. E ele escreveu dezenas de obras: contos, romances, ensaios, teatro, poesia…

Nos últimos anos de vida passou para o papel as suas memórias e não esqueceu Macau, claro, onde viveu parte da juventude. Deixou três volumes prontos e certamente surgiriam mais, mas acabaria por morrer no ano em que foi editado o último (já depois de morrer). Para ele o que escreveu foram “pedaços de livros, predominantemente seus, e pedaços de vidas, em grande parte alheias”. 

Para Hernâni Cidade, os livros de memórias são “transparentes como vidraça sem cor”, referência à análise objectiva que fazia das figuras humanas características da sua época, em especial das mulheres. Essas figuras/pessoas pertenciam à alta e média burguesia, meios que Joaquim Paço d’Arcos conhecia bem. Aliás, na sua obra encontram-se muitas marcas da sua vivência pessoal.

Em 2008 no centenário do seu nascimento foi doado o seu espólio à Universidade Lusíada que já exibiu publicamente uma parte e que ficou responsável pela sua inventariação e conservação. Já no início deste ano o Círculo Eça de Queiroz organizou em Lisboa uma sessão para celebrar a reedição, num só volume, das “Memórias da minha Vida e do meu Tempo”. Na ocasião, Fernando Pinto do Amaral e Guilherme Oliveira Martins evocaram Joaquim Paço D’Arcos.  Em Lisboa o seu nome ficou perpetuado numa rua.

Algumas das obras que deixou:

Romances: Herói Derradeiro, 1933. Diário dum Emigrante, 1936. Ana Paula: perfil duma lisboeta, 1938. Ansiedade, 1940. O Caminho da Culpa, 1944. Tons Verdes em Fundo Escuro, 1946. Espelho de Três Faces, 1950. A Corça Prisioneira, 1956. Memórias duma Nota de Banco, 1962. Cela 27, 1965

Contos e novelas: Amores e Viagens de Pedro Manuel, 1935. Neve sobre o Mar, 1942. O Navio dos Mortos e Outras Novelas, 1952. Carnaval e Outros Contos, 1958. Novelas pouco Exemplares, 1967.

Poesia: Poemas Imperfeitos, 1952.

Teatro: O Cúmplice: Peça em três actos, 1940. O Ausente: Peça em três actos, 1944. Paulina Vestida de Azul: Peça em três actos, 1948. O Braço da Justiça: Peça em nove quadros, 1964. Antepassados, Vendem-se: Peça em treze quadros, 1970.

Conferências e ensaios: Patologia da Dignidade, 1928. A Floresta de Cimento (Claridade e Sombras dos Estados Unidos), 1953. Carlos Malheiro Dias, Escritor Luso-Brasileiro, 1961. Algumas Palavras sobre a Missão do Escritor, 1961.A Dolorosa Razão duma Atitude, 1965.

Memórias: Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo: 3 vols., 1973, 1976 e 1979.





A Rã cozida ou os perigos da sociedade...


A Rã cozida ou os perigos da sociedade...

Por Irene Fernandes Abreu

Blogue Valium 50

Esta situação vem provar que, quando uma mudança acontece muito lentamente, escapa à nossa consciência e não desperta na maioria dos casos qualquer reacção, revolta ou oposição da nossa parte…

A Rã, desta história, não sabia que estava a ser cozida, tal como nós não nos apercebemos muitas vezes das graduais mudanças que se operam em nosso redor.
 
Imagine uma panela cheia de água fria, na qual uma pequena e inocente rã, nada tranquilamente.
Uma ligeira fonte de calor é colocada debaixo da panela. A água vai aquecendo lentamente. Pouco a pouco a água vai ficando morna. A Rã, acha isso bastante agradável e continua a nadar. A temperatura da água, porém continua a subir.
 
Agora a água já está quente demais para a Rã a poder desfrutar e nadar tranquilamente. Sente-se um pouco cansada, mas não obstante isso, não se amedronta. Finalmente a água está realmente quente. A Rã acha isso bastante desagradável, mas já está muito debilitada e por isso aguenta e não faz nada. A temperatura continua a subir, até que a Rã morre cozida, quase sem dar por isso, uma vez que a temperatura foi aumentando gradualmente, até ela perder os sentidos.
 
Se a Rã tivesse sido atirada para a água, com ela já quente, a pelo menos 50 graus, de temperatura, ela a Rã, com um golpe de pernas teria saltado para fora da água.

A Alegoria da Caverna, narrada por PLATÃO é, talvez, uma das mais poderosas metáforas imaginadas pela filosofia, para descrever a situação geral em que se encontra a humanidade. Para o filósofo, todos nós estamos condenados a ver sombras à nossa frente e tomá-las como verdadeiras. Essa poderosa crítica à condição dos homens, escrita há quase 2500 anos atrás, inspirou e ainda inspira inúmeras reflexões
 
Olivier Clerc, escritor e filósofo, nesta sua breve história, através da metáfora, põe em evidência as funestas consequências da não consciência da mudança que infecta nossa saúde, nossas relações, a evolução social e o ambiente. Podemos ver pois, desde a Alegoria da Caverna, de Platão, a Matrix, passando pelas fábulas de La Fontaine, a linguagem simbólica é um meio privilegiado para induzir à reflexão e transmitir algumas ideias.

Uma quantidade de coisas que nos teriam feito horrorizar 20, 30 ou 40 anos atrás, foram pouco a pouco banalizadas e, hoje, apenas incomodam ou deixam completamente indiferente a maior parte das pessoas.
 
Em nome do progresso, da ciência e do lucro, são efectuados ataques contínuos às liberdades individuais, à dignidade, à integridade da natureza, à beleza e à alegria de viver; efectuados lentamente, mas inexoravelmente, com a constante cumplicidade das vítimas, desavisadas e, agora, incapazes de se defenderem. 

As previsões para nosso futuro, em vez de despertar reações e medidas preventivas, não fazem outra coisa a não ser a de preparar psicologicamente as pessoas para aceitarem algumas condições de vida decadentes e até dramáticas.

Se nós olharmos para o que tem acontecido na nossa sociedade desde há algumas décadas, podemos ver que temos sofrido uma lenta mudança no modo de viver, para a qual nós nos estamos a acostumar e, o pior, a aceitar como "natural". E porquê?
O martelar contínuo de informações, pelos mídia, satura os cérebros, que já não conseguem distinguir as coisas, que vão caindo na indiferença e no "habitual" do dia a dia...

Um resumo de vida e sabedoria, que cada um poderá plantar no seu próprio jardim, para colher os seus frutos.