quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Dois textos de Maria Álvaro



Dois textos de Maria Álvaro


Juventude

Como escorrem pensamentos e emoções ao longo das palavras, assim escorre a juventude pelos dedos feita espuma de gel.... Ah! A juventude!...Sabonete perfumado num banho embebido de prazeres molhados, borbulha macio e nos escapa instante, deslizando vivaz e inconsequente por mãos ávidas por ele... Beleza mesmo na feiura, sem engenho, sem arte, súbita, generosa e impaciente... Não se apercebe que não É, que apenas Está! 

Desliza a juventude... ...ágil... afoita... iludida campeã de ilusões e futuras derrotas... Desliza se desfazendo...como uma nuvem passageira... vapor impalpável que se acaba, chorando na dureza da terra... Arco-íris esfuziante, que se esfumaça suave ao sol, na manhã cintilante encharcada de chuva... ignorante da noite que o espera......

Maria Álvaro



Vazio de mentes

Com a comunicação nas redes sociais, o uso de códigos por adolescentes, e não só, vem limitando a necessidade de se estruturar frases completas e bem construídas. Acredito que várias línguas, não só a Portuguesa, estejam ficando cada vez mais pobres. E expressão verbal pobre conduz a pensamento pobre...e vice versa... 

Além do mais, na vida real, ao vivo, pouco se lê e, consequentemente, a expressão verbal fica ainda mais empobrecida nestes casos . Os jovens comunicam-se oralmente e por escrito através de idiomas telegráficos e gírias metafóricas, que têm a pretensão de substituir toda uma estrutura. 

São expressões estratificadas que todos usam de forma igual, sem que haja a preocupação de mostrar uma identidade crítica individual. Paradoxal e ironicamente, no mundo hoje altamente individualista, o jovem fala a pobre linguagem dos grupos. Tenta a identificação com os grupos apenas no que é aparente, na linguagem corporal, na forma de se vestir, de se maquilhar ou de se pentear, na linguagem e não consegue se caracterizar como indivíduo. 

Estão ficando cada vez mais raros os que buscam outras razões de integração em grupos que tenham finalidades éticas e sociais.. Uma boa parcela da juventude hoje não sabe e não quer se distinguir linguisticamente e é altamente voltado para interesses materiais de caráter também comum...interesses esses neles inconscientemente incutidos, em parte, pela subtil insinuação interesseira dos Media e do mundo capitalista. 

Vive-se um vazio de mentes...

Maria Álvaro

Poemas de Liliana Josué



Poemas de Liliana Josué


Em memória dum grande amigo que partiu desta vida terrena

As lágrimas por nós choradas
na tua quase vontade
de quereres , finalmente, livre pássaro
são tristes, fundas pesadas
apertam o coração
e marcam a existência
de quem te quis tanto, tanto…

mas mesmo assim tu partiste
levitando nesse prazer da ausência
de quem já não pertence aqui

foste habitar o eterno
que os vivos inventam por desconhecimento
o os mortos abraçam no contentamento
de o ter alcançado

ficam as memórias de um viver passado
ficam quase certezas de não estares infeliz
ficam as historias que tu não contaste
ficam os contornos dum tempo feliz.

23/01/2015
 
Liliana Josué


EVA

O vento batia forte
a chuva era um rosário
fevereiro, inverno na sua total nobreza
adversário rígido mas necessário

e foi nesse frio agreste
que certa criança nasceu
linda, loira, branca, doce
uma pérola pequenina
pérola minha, muito minha

sim, era o mundo que o meu ventre tinha dentro
e que nesse frio dorido
fez a vida receber

fio dourado
erva pura e verde
brisa marinha
calor do meu corpo cansado
esperança sem fim
vinda de mim
tenra haste desse fevereiro agreste.

06/02/2015
 
Liliana Josué

Joaquim Paço d'Arcos: 1908-1979



Joaquim Paço d'Arcos: 1908-1979

Um destes dias numa visita a um alfarrabista em Lisboa encontrei, entre outros, o livro “Amores e Viagens de Pedro Emanuel” da autoria de Joaquim Paço D’Arcos. Calhou-me a quarta edição de 1945 (a primeira é de 1935). Folhas amareladas e com espaço para dedicatória, mas não tive sorte. Estava em branco… Ainda assim, uma preciosidade de um autor cuja veia literária despertou precisamente em Macau, cujas primeiras impressões não foram as melhores

“A cidade sobre todas linda, a pérola cobiçada do Oriente, onde os meus dias teriam que decorrer; o seu bairro chinês pareceu-me aldeola cotejado com o de Hong Kong; o burgo português deu-me o aspecto de vilória de província, transplantada para sob aquele sol ardente. (…) Nem as colinas viçosas, nem as estradas. Serpenteando à beira-mar, nem as sombras seculares das árvores que abrigaram Camões, me reconciliaram com o forçado degredo”.  

Joaquim Belford Correia da Silva, filho do governador de Macau (1918-1923), Henrique Correia da Silva Paço d’Arcos, publicou duas obras com temas macaenses: "Amores e Viagens de Pedro Manuel" (1935) e "Navio dos Mortos e outras Novelas" (1952).

No primeiro título o protagonista é um chefe da polícia secreta de Macau que era também capitão de piratas nos mares da China. A segunda obra conta a história da filha de um rico chinês residente em Macau, assassinada pelo marido que não admitia que a sua mulher herdasse a fortuna do pai. O navio, que fazia o transporte de mortos chineses do estrangeiro, trouxe os corpos de ambos, pois o marido, condenado pela justiça inglesa, morrera na forca. 

Ao “Navios dos Mortos” o Times Literary Supplement referiu em Agosto de 1995 que se tratavam de “novelas que têm marca cosmopolita e recordam as de Somerset Maugham”. As obras são de ficção mas os locais e até algumas personagens são reais. Caso do padre Jerónimo, por exemplo. 

Numa entrevista em 1968 o próprio afirmou: “Existem determinadas figuras humanas que podem ter indirectamente inspirado algumas personagens da minha obra, mas profundamente modificadas. Se há algumas que dão traços de pessoais reais, são pessoas diferentes que nós depois mesclamos e transformamos inteiramente. As nossa figuras são criadas de imaginação, embora reflectindo aspectos da forma humana à nossa volta”. 

Neto do primeiro conde de Paço d’Arcos e irmão do segundo Conde, nasceu (1908) e morreu em Lisboa (1979). Conhecido como Joaquim Paço d’Arcos, foi um dos escritores portugueses do século XX mais traduzidos no estrangeiro: Brasil, Alemanha, Espanha, Finlândia, França, Inglaterra, Itália, Polónia, Roménia, Suécia, Estados Unidos, Rússia…). No The Penguin Book of Modern Verse Translation (1966) podem encontrar-se dois dos seus poemas.

Partiu com apenas quatro anos para Angola (1912) com os pais e, depois, para Macau (1919) e Moçambique, onde exerceu funções de secretário e chefe de gabinete de seu pai, governador entre 1925 e 1927. A viagem até Macau fez-se via S. Francisco e depois rumo a Hong Kong em 1919 no navio “Persia Maru” e de Hong Kong para Macau na canhoneira “Pátria”, a 22 de Agosto de 1919. 

“Demandei Macau em noite negra de tufão, na companhia do padre Jerónimo, ao qual fiquei talvez devendo a vida, pelas promessas que fez ao bom Deus se nos salvasse.” Ficaria até 1922. Chega com 11 anos e estuda no Liceu (então no Tap Seac) tendo colaborado no jornal da escola “A Academia”. 

Um dos professores do liceu foi o padre José da Costa Nunes que viria a ser bispo de Macau e que lhe terá dito da sua especial vocação para a escrita. Segundo Monsenhor Manuel Teixeira, Joaquim “estudava pouco e lia muito, empolgando-se, sobretudo, nos romances de Camilo”. 

Nos três anos vividos no território vai muitas vezes a Hong Kong e a Cantão. Em 1925, com apenas 17 anos, está em Moçambique onde é secretário do seu pai (governador da província), regressando a Lisboa dois anos depois até que ruma ao Brasil onde vive de 1928 a 1930 como comerciante (antiquário) e jornalista. 

Regressa a Lisboa e em 1931 era chefe de repartição da Companhia Nacional de Navegação. Já em França, em 1933, escreve o seu primeiro romance, Herói Derradeiro. Após uma segunda permanência no Brasil, é nomeado em 1936 chefe dos Serviços de Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros, cargo que ocupa até 1960, tornando-se igualmente, a partir de 1944, director da Trans-Zambezia Railway. 

Foi ainda presidente da Direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores e membro da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses. Foi ainda membro do Pen Club, da Société des Gens de Lettres de France e sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras.

No Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (Vol. IV, Lisboa, 1997) pode ler-se: “Obteve diversos prémios literários, o primeiro dos quais coincidiu com a sua nomeação para o cargo de chefe dos Serviços de Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros: foi o Prémio Eça de Queirós (1936), atribuído ao seu romance “Diário de um Emigrante” pelo Secretariado de Propaganda Nacional; o seu livro de novelas “Neve sobre o Mar” foi galardoado com o Prémio Fialho de Almeida, e a sua peça de teatro O Ausente obteve o Prémio Gil Vicente (1942); quanto ao Prémio Ricardo Malheiros, atribuído pela Academia das Ciências (…), o autor recusou-o devido aos termos em que se exprimia o relatório da comissão incumbida de o atribuir e que punha públicas reservas quanto à sua qualidade, designadamente pelo uso frequente de estrangeirismos.”

Romancista, dramaturgo, ensaísta e poeta, premiado diversas vezes, Joaquim Paço d’Arcos foi um caso de sucesso junto dos leitores nas décadas de 1940 e 1950 do século XX, em especial com o romance “Ana Paula”. 

O conjunto de obras que publicou sob o título genérico Crónica da Vida Lisboeta foi considerado por muitos críticos, quer portugueses, quer brasileiros, fundamental no âmbito da literatura portuguesa. 

Óscar Lopes escreveu que “Quando se quiser ver a nossa época [anos 40 - 60] num cosmorama literário, tal como hoje vemos a época da Regeneração através de Camilo, Júlio Dinis ou Eça de Queirós, será preciso recorrer a estes romances de Paço d’Arcos quanto a determinados sectores portugueses.”

Na poesia, o seu livro mais conhecido é o “Poemas Imperfeitos”, de 1952. E também aí Macau marca presença nos poemas “Medo” e “Foi numa terra distante”. 

Após a sua morte, a 10 de Junho de 1979, caiu praticamente no esquecimento. Mas não totalmente, já que como o próprio afirmou “escrever é projectar-se além da vida”. E ele escreveu dezenas de obras: contos, romances, ensaios, teatro, poesia…

Nos últimos anos de vida passou para o papel as suas memórias e não esqueceu Macau, claro, onde viveu parte da juventude. Deixou três volumes prontos e certamente surgiriam mais, mas acabaria por morrer no ano em que foi editado o último (já depois de morrer). Para ele o que escreveu foram “pedaços de livros, predominantemente seus, e pedaços de vidas, em grande parte alheias”. 

Para Hernâni Cidade, os livros de memórias são “transparentes como vidraça sem cor”, referência à análise objectiva que fazia das figuras humanas características da sua época, em especial das mulheres. Essas figuras/pessoas pertenciam à alta e média burguesia, meios que Joaquim Paço d’Arcos conhecia bem. Aliás, na sua obra encontram-se muitas marcas da sua vivência pessoal.

Em 2008 no centenário do seu nascimento foi doado o seu espólio à Universidade Lusíada que já exibiu publicamente uma parte e que ficou responsável pela sua inventariação e conservação. Já no início deste ano o Círculo Eça de Queiroz organizou em Lisboa uma sessão para celebrar a reedição, num só volume, das “Memórias da minha Vida e do meu Tempo”. Na ocasião, Fernando Pinto do Amaral e Guilherme Oliveira Martins evocaram Joaquim Paço D’Arcos.  Em Lisboa o seu nome ficou perpetuado numa rua.

Algumas das obras que deixou:

Romances: Herói Derradeiro, 1933. Diário dum Emigrante, 1936. Ana Paula: perfil duma lisboeta, 1938. Ansiedade, 1940. O Caminho da Culpa, 1944. Tons Verdes em Fundo Escuro, 1946. Espelho de Três Faces, 1950. A Corça Prisioneira, 1956. Memórias duma Nota de Banco, 1962. Cela 27, 1965

Contos e novelas: Amores e Viagens de Pedro Manuel, 1935. Neve sobre o Mar, 1942. O Navio dos Mortos e Outras Novelas, 1952. Carnaval e Outros Contos, 1958. Novelas pouco Exemplares, 1967.

Poesia: Poemas Imperfeitos, 1952.

Teatro: O Cúmplice: Peça em três actos, 1940. O Ausente: Peça em três actos, 1944. Paulina Vestida de Azul: Peça em três actos, 1948. O Braço da Justiça: Peça em nove quadros, 1964. Antepassados, Vendem-se: Peça em treze quadros, 1970.

Conferências e ensaios: Patologia da Dignidade, 1928. A Floresta de Cimento (Claridade e Sombras dos Estados Unidos), 1953. Carlos Malheiro Dias, Escritor Luso-Brasileiro, 1961. Algumas Palavras sobre a Missão do Escritor, 1961.A Dolorosa Razão duma Atitude, 1965.

Memórias: Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo: 3 vols., 1973, 1976 e 1979.





A Rã cozida ou os perigos da sociedade...


A Rã cozida ou os perigos da sociedade...

Por Irene Fernandes Abreu

Blogue Valium 50

Esta situação vem provar que, quando uma mudança acontece muito lentamente, escapa à nossa consciência e não desperta na maioria dos casos qualquer reacção, revolta ou oposição da nossa parte…

A Rã, desta história, não sabia que estava a ser cozida, tal como nós não nos apercebemos muitas vezes das graduais mudanças que se operam em nosso redor.
 
Imagine uma panela cheia de água fria, na qual uma pequena e inocente rã, nada tranquilamente.
Uma ligeira fonte de calor é colocada debaixo da panela. A água vai aquecendo lentamente. Pouco a pouco a água vai ficando morna. A Rã, acha isso bastante agradável e continua a nadar. A temperatura da água, porém continua a subir.
 
Agora a água já está quente demais para a Rã a poder desfrutar e nadar tranquilamente. Sente-se um pouco cansada, mas não obstante isso, não se amedronta. Finalmente a água está realmente quente. A Rã acha isso bastante desagradável, mas já está muito debilitada e por isso aguenta e não faz nada. A temperatura continua a subir, até que a Rã morre cozida, quase sem dar por isso, uma vez que a temperatura foi aumentando gradualmente, até ela perder os sentidos.
 
Se a Rã tivesse sido atirada para a água, com ela já quente, a pelo menos 50 graus, de temperatura, ela a Rã, com um golpe de pernas teria saltado para fora da água.

A Alegoria da Caverna, narrada por PLATÃO é, talvez, uma das mais poderosas metáforas imaginadas pela filosofia, para descrever a situação geral em que se encontra a humanidade. Para o filósofo, todos nós estamos condenados a ver sombras à nossa frente e tomá-las como verdadeiras. Essa poderosa crítica à condição dos homens, escrita há quase 2500 anos atrás, inspirou e ainda inspira inúmeras reflexões
 
Olivier Clerc, escritor e filósofo, nesta sua breve história, através da metáfora, põe em evidência as funestas consequências da não consciência da mudança que infecta nossa saúde, nossas relações, a evolução social e o ambiente. Podemos ver pois, desde a Alegoria da Caverna, de Platão, a Matrix, passando pelas fábulas de La Fontaine, a linguagem simbólica é um meio privilegiado para induzir à reflexão e transmitir algumas ideias.

Uma quantidade de coisas que nos teriam feito horrorizar 20, 30 ou 40 anos atrás, foram pouco a pouco banalizadas e, hoje, apenas incomodam ou deixam completamente indiferente a maior parte das pessoas.
 
Em nome do progresso, da ciência e do lucro, são efectuados ataques contínuos às liberdades individuais, à dignidade, à integridade da natureza, à beleza e à alegria de viver; efectuados lentamente, mas inexoravelmente, com a constante cumplicidade das vítimas, desavisadas e, agora, incapazes de se defenderem. 

As previsões para nosso futuro, em vez de despertar reações e medidas preventivas, não fazem outra coisa a não ser a de preparar psicologicamente as pessoas para aceitarem algumas condições de vida decadentes e até dramáticas.

Se nós olharmos para o que tem acontecido na nossa sociedade desde há algumas décadas, podemos ver que temos sofrido uma lenta mudança no modo de viver, para a qual nós nos estamos a acostumar e, o pior, a aceitar como "natural". E porquê?
O martelar contínuo de informações, pelos mídia, satura os cérebros, que já não conseguem distinguir as coisas, que vão caindo na indiferença e no "habitual" do dia a dia...

Um resumo de vida e sabedoria, que cada um poderá plantar no seu próprio jardim, para colher os seus frutos.



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Crónicas do Fel de Amor


Crónicas do Fel de Amor

Recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»


Ando há mais de 2 meses a evitar escrever sobre um livro: Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante. Elegi-o como próxima leitura numa tarde chuvosa da Feira do Livro de Lisboa, alheia a todo o mistério do seu pseudónimo autoral mas a leitura havia de se concretizar mais tarde, quando Agosto já agonizava em Lisboa.

Tenho andado a evitar escrever sobre o livro porque ele me derrubou por completo. Já há algum tempo que assumi como evidência o facto de sofrer da patologia da leitura identificatória; no entanto, nunca um livro me tinha atingido com uma pancada tão seca e impiedosa.

Olga, a personagem principal da novela Os Dias do Abandono, diz a certa altura: “E depois, gostava da escrita que nos faz debruçar a cada linha e olhar para baixo, sentindo a vertigem da profundidade, as trevas do inferno.” A frase aplica-se, com precisão afiada, à escrita de Elena Ferrante. A sua leitura deu-me um mal-estar físico, recordou-me a vertigem e pôs de novo o abismo a devolver-me o olhar. Sublinhei passagens que se aproximam quase literalmente de algumas entradas diarísticas minhas, dos meus pensamentos mais íntimos e temidos.


 
 

Como por exemplo: “Queria ter a certeza chã dos dias normais, embora soubesse bem demais que persistia no meu corpo um movimento frenético noutro sentido, um relâmpago, como se tivesse entrevisto no fundo de uma cova um horrível insecto venenoso e todas as partes de mim própria continuassem tomadas ainda de um impulso de recuo, agitando os braços, as mãos, escouceando. Tenho de reaprender – disse para comigo – o passo tranquilo dos que pensam saber para onde estão a ir e porquê.”

Ou este diálogo: “ - Foi muito horrível? – perguntou-me ele, embaraçado.
- Sim.
- O que é que te aconteceu naquela noite?
- Tive uma reacção excessiva que destruiu a superfície das coisas.
- E depois?
- Caí.
- E onde é que foste parar?
- A parte nenhuma. Não havia profundidade, não havia precipício. Não havia nada.
 
Abraçou-me, manteve-me apertada contra o seu corpo por um momento, sem dizer uma palavra. Estava a tentar comunicar-me em silêncio que sabia, graças a um dom misterioso que lhe era próprio, tornar o sentido mais forte, inventar um sentimento de plenitude e de alegria. Fingi acreditar e foi por isso que, ao longo dos dias e meses que depois vieram, nos amámos devagar, serenamente.”

Tanto a segunda como a terceira novela, A Filha Obscura, terminam com uma fresta de luz mas é claro que ambas as personagens femininas são ainda cativas da obscuridade que as engoliu e que os únicos estratagemas que têm para lidar com o alçapão por onde se esvaiu o real são a mentira e o fingimento.

“Então, passa», disse ela.
«O quê.»
Fez um gesto para indicar uma vertigem, mas também uma sensação de náusea.
«O desnorteamento.»
Lembrei-me da minha mãe, disse:
«A minha mãe usava outra palavra, chamava-lhe caqueirada.»
Reconheceu o sentimento na palavra, fez um olhar de rapariguinha assustada.
«É verdade, escaqueira-te o coração: não consegues suportar estar contigo mesma e tens certos pensamentos que não podes dizer.»
 
Depois voltou a perguntar-me, desta vez com a expressão meiga de quem procura uma carícia:
«Mas mesmo assim, passa.»
Pensei que nem Bianca nem Marta tinham alguma vez experimentado fazer-me perguntas como as de Nina, com o tom insistente em que ela me estava a fazê-las. Procurei as palavras para lhe mentir dizendo a verdade.
«A minha mãe fez disso uma doença. Mas ela era de outro tempo. Hoje pode-se viver bem, mesmo se não passar.»

Estou exactamente nesse ponto. A tentar dar fé no real e a habitar com convicção a planura dos dias. Uns dias consigo, outros não. Gosto de acreditar que sucederei na minha busca e que o meu corpo tornará a ser casa. E então penso em Ulisses e lembro-me das palavras de Claudio Magris: “Talvez a minha odisseia literária seja aquela que conta a viagem ao nada e o respectivo regresso.”

Com essas palavras em mente, escolhi a minha odisseia para os tempos de chuva: A Divina Comédia. E de novo, logo nas primeiras linhas, o espelho identificatório:


 “No meio do caminho em nossa vida,
  eu me encontrei por uma selva escura
  porque a direita via era perdida.
 
Ah, só dizer o que era é cousa dura
 esta selva selvagem, aspra e forte,
 que de temor renova à mente a agrura!
 
Tão amarga é, que pouco mais é morte;
 mas, por tratar do bem que eu nela achei,
 direi mais cousas vistas de tal sorte.
 
Nem saberei dizer como é que entrei, 
tão grande era o meu sono no momento 
em que a via veraz abandonei.”


Que, desta vez, a descensão aos infernos me permita um pequeno vislumbre do céu.



A "Casa dos Rapazes" e a Obra Social da PSP



A "Casa dos Rapazes" e a Obra Social da PSP



 
Na década de 1960 o problema da delinquência juvenil em Macau foi 'atacado' com recurso a métodos 'inovadores'. Os jovens que infringiam a lei praticando crimes de pouca gravidade ocupavam o dia em actividades nas oficinas da PSP junto à Porta do Cerco. Lages Ribeiro, na época Comandante da PSP, recorda o excelente trabalho desempenhado pelo Tenente Ranhada, "austero mas não tirano" e que "ajudava muitos aqueles jovens". Nessas oficinas "eles aprendiam um ofício, estavam ocupados. À noite iam dormir para uma casa da polícia ali na zona do Ramal dos Mouros, junto ao reservatório". (imagem abaixo)



A Colónia Balnear de Hac Sá era outra das obras sociais da PSP que realizava diversas actividades em prol dos mais desfavorecidos, nomeadamente, a angariação de fundos através de rifas como a que o documento acima, de 1965, atesta.
 
O Regulamento da "obra social" da P.S.P. de Macau foi aprovado pelo Portaria n.° 7 470 de 15 de Fevereiro de 1964.

 

 
Em 1961 foi criado Centro de Recuperação Social. O Asilo para Mendigos e Vagabundos, estabelecido de acordo com a portaria n.º 4998 de 8 de Setembro de 1951, e gerido pelo administrador das Ilhas, albergava pessoas com idade superior a 16 anos, desempregados e sem residência fixa em Macau, mendigos e vagabundos. 

Foi o Comandante da PSP do então, Major de Infantaria, Sigismundo G. da C. Revês, o fundador deste centro, e funcionava tal como um asilo, que posteriormente passou a depender da PSP. O centro era compreendido organicamente com 5 serviços especializados: 1) Serviço de Tratamento da Toxicodependência, 2) Serviço de Recolhimento, 3) Serviço de Crianças, 4) Serviço de Psiquiatria, e 5) Serviço de Mulheres.
 
Em 1968 a PSP um organismo militarizado directamente dependente do governador de Macau e compreendia o Comando, Secretaria, Conselho Administrativo, Serviços Administrativos, Serviços Técnicos, Secção de Trânsito, Esquadras e Postos, Centro de Recuperação Social, Banda de Música e Obra Social, tendo no seu quadro de pessoal um efectivo de 796 homens.
 
Publicada por João Botas


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Três Lendas


Três Lendas

Lenda de Algôs ou Algoz

 A origem do nome da povoação de Algôs, e a sua respectiva grafia, divide as opiniões dos seus habitantes. Uns afirmam que o nome desta povoação, que já existia no tempo dos romanos, lhe foi atribuído por D. Fernando I, rei de Leão, quando ali passou a caminho de Silves. Um dos seus homens achou a povoação tão insignificante que nem valeria a pena que nela se demorassem, ao que o rei retorquiu: "Algo es!". E assim se ficou a chamar Algoes e depois Algôs.


 Mas outros defendem a pés juntos uma outra versão. Quando a povoação era tão pequena que ainda não tinha nome, os seus habitantes não sabendo como lhe chamar resolveram fazer uma procissão para que Deus lhes desse inspiração. Como a imagem do santo que levavam no andor era do tamanho de um homem, houve uma vereda cujas árvores impediam a respectiva passagem. O dono das árvores opôs-se a que estas fossem cortadas. 


A discussão instalou-se e o pároco, para evitar confrontos, resolveu cortar a cabeça da imagem do santo para que a procissão prosseguisse. A população enfurecida contra o pároco resolveu chamar àquela povoação Algoz, que quer dizer carrasco, para que a ofensa contra o santo ficasse para sempre registada.


Lenda da Vila de Salir

A vila de Salir, no Algarve, deve o seu nome à filha do alcaide de Castalar, Aben-Fabilla, que fugiu quando viu o seu castelo ameaçado pelo exército de D. Afonso III. Antes de fugir, o alcaide enterrou todo o seu ouro, pensando vir mais tarde resgatá-lo. Quando os cristãos tomaram o castelo encontraram-no vazio, à excepção da linda filha do alcaide que rezava com fervor que tinha preferido ficar no castelo e morrer a "salir". 


De um monte vizinho, Aben-Fabilla avistou a filha cativa dos cristãos e com a mão direita traçou no espaço o signo de Saimão, enquanto proferia umas palavras misteriosas. Nesse momento, o cavaleiro D. Gonçalo Peres que falava com a moura viu-a transformar-se numa estátua de pedra. A notícia da moura encantada espalhou-se pelo castelo e um dia a estátua desapareceu. Em memória deste estranho fenómeno ficou aquela terra conhecida por Salir, em homenagem pela coragem de uma jovem moura. Ainda hoje no Algarve se diz que em certas noites a moura encantada aparece no castelo de Salir, sob o seu olhar. 

O rei mouro e a princesa viveram longos anos de um intenso amor esperando ansiosos, ano após ano, a Primavera que trazia o maravilhoso espectáculo das amendoeiras em flor.


Lenda de Dona Branca ou da Tomada de Silves aos Mouros

 Reinava em Silves o inteligente e corajoso rei mouro Ben-Afan que numa noite de tempestade, no intervalo das suas lutas contra os cristãos, teve um sonho extraordinário. Um sonho que começou por ser um pesadelo, com tempestades e vampiros, mas que se tornou numa visão de anjos, música e perfumes e terminou pelo rosto de uma mulher, divinamente bela, com uma cruz ao peito. 


No dia seguinte, Ben-Afan procurou a fada Alina, sua conselheira, que lhe revelou que tinha sido ela própria a enviar-lhe o sonho e que a sua vida iria mudar. Deu-lhe então dois ramos, um de flor de murta e outro de louro, significando respectivamente o amor e a glória. Consoante os ramos murchassem ou florissem assim o rei deveria seguir as respectivas indicações. Enviou-o ao Mosteiro de Lorvão e disse-lhe que lá o esperava aquela que o amor tinha escolhido para sua companheira: Branca, princesa de Portugal. 

Para entrar no mosteiro, Ben-Afan disfarçou-se de eremita e o primeiro olhar que trocou com a princesa uniu-os para sempre. O rei mouro voltou ao seu castelo e preparou os seus guerreiros para o rapto da princesa. Branca de Portugal e Ben-Afan viveram a sua paixão sem limites, esquecidos do mundo e do tempo. O ramo de murta mantinha-se viçoso, até que um dia D. Afonso III, pai de Branca, cercou a cidade de Silves e Ben-Afan morreu com glória na batalha que se seguiu. Nas suas mãos foram encontrados um ramo de murta murcho e um ramo de louro viçoso.