segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Crónicas do Fel de Amor


Crónicas do Fel de Amor

Recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»


Ando há mais de 2 meses a evitar escrever sobre um livro: Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante. Elegi-o como próxima leitura numa tarde chuvosa da Feira do Livro de Lisboa, alheia a todo o mistério do seu pseudónimo autoral mas a leitura havia de se concretizar mais tarde, quando Agosto já agonizava em Lisboa.

Tenho andado a evitar escrever sobre o livro porque ele me derrubou por completo. Já há algum tempo que assumi como evidência o facto de sofrer da patologia da leitura identificatória; no entanto, nunca um livro me tinha atingido com uma pancada tão seca e impiedosa.

Olga, a personagem principal da novela Os Dias do Abandono, diz a certa altura: “E depois, gostava da escrita que nos faz debruçar a cada linha e olhar para baixo, sentindo a vertigem da profundidade, as trevas do inferno.” A frase aplica-se, com precisão afiada, à escrita de Elena Ferrante. A sua leitura deu-me um mal-estar físico, recordou-me a vertigem e pôs de novo o abismo a devolver-me o olhar. Sublinhei passagens que se aproximam quase literalmente de algumas entradas diarísticas minhas, dos meus pensamentos mais íntimos e temidos.


 
 

Como por exemplo: “Queria ter a certeza chã dos dias normais, embora soubesse bem demais que persistia no meu corpo um movimento frenético noutro sentido, um relâmpago, como se tivesse entrevisto no fundo de uma cova um horrível insecto venenoso e todas as partes de mim própria continuassem tomadas ainda de um impulso de recuo, agitando os braços, as mãos, escouceando. Tenho de reaprender – disse para comigo – o passo tranquilo dos que pensam saber para onde estão a ir e porquê.”

Ou este diálogo: “ - Foi muito horrível? – perguntou-me ele, embaraçado.
- Sim.
- O que é que te aconteceu naquela noite?
- Tive uma reacção excessiva que destruiu a superfície das coisas.
- E depois?
- Caí.
- E onde é que foste parar?
- A parte nenhuma. Não havia profundidade, não havia precipício. Não havia nada.
 
Abraçou-me, manteve-me apertada contra o seu corpo por um momento, sem dizer uma palavra. Estava a tentar comunicar-me em silêncio que sabia, graças a um dom misterioso que lhe era próprio, tornar o sentido mais forte, inventar um sentimento de plenitude e de alegria. Fingi acreditar e foi por isso que, ao longo dos dias e meses que depois vieram, nos amámos devagar, serenamente.”

Tanto a segunda como a terceira novela, A Filha Obscura, terminam com uma fresta de luz mas é claro que ambas as personagens femininas são ainda cativas da obscuridade que as engoliu e que os únicos estratagemas que têm para lidar com o alçapão por onde se esvaiu o real são a mentira e o fingimento.

“Então, passa», disse ela.
«O quê.»
Fez um gesto para indicar uma vertigem, mas também uma sensação de náusea.
«O desnorteamento.»
Lembrei-me da minha mãe, disse:
«A minha mãe usava outra palavra, chamava-lhe caqueirada.»
Reconheceu o sentimento na palavra, fez um olhar de rapariguinha assustada.
«É verdade, escaqueira-te o coração: não consegues suportar estar contigo mesma e tens certos pensamentos que não podes dizer.»
 
Depois voltou a perguntar-me, desta vez com a expressão meiga de quem procura uma carícia:
«Mas mesmo assim, passa.»
Pensei que nem Bianca nem Marta tinham alguma vez experimentado fazer-me perguntas como as de Nina, com o tom insistente em que ela me estava a fazê-las. Procurei as palavras para lhe mentir dizendo a verdade.
«A minha mãe fez disso uma doença. Mas ela era de outro tempo. Hoje pode-se viver bem, mesmo se não passar.»

Estou exactamente nesse ponto. A tentar dar fé no real e a habitar com convicção a planura dos dias. Uns dias consigo, outros não. Gosto de acreditar que sucederei na minha busca e que o meu corpo tornará a ser casa. E então penso em Ulisses e lembro-me das palavras de Claudio Magris: “Talvez a minha odisseia literária seja aquela que conta a viagem ao nada e o respectivo regresso.”

Com essas palavras em mente, escolhi a minha odisseia para os tempos de chuva: A Divina Comédia. E de novo, logo nas primeiras linhas, o espelho identificatório:


 “No meio do caminho em nossa vida,
  eu me encontrei por uma selva escura
  porque a direita via era perdida.
 
Ah, só dizer o que era é cousa dura
 esta selva selvagem, aspra e forte,
 que de temor renova à mente a agrura!
 
Tão amarga é, que pouco mais é morte;
 mas, por tratar do bem que eu nela achei,
 direi mais cousas vistas de tal sorte.
 
Nem saberei dizer como é que entrei, 
tão grande era o meu sono no momento 
em que a via veraz abandonei.”


Que, desta vez, a descensão aos infernos me permita um pequeno vislumbre do céu.



A "Casa dos Rapazes" e a Obra Social da PSP



A "Casa dos Rapazes" e a Obra Social da PSP



 
Na década de 1960 o problema da delinquência juvenil em Macau foi 'atacado' com recurso a métodos 'inovadores'. Os jovens que infringiam a lei praticando crimes de pouca gravidade ocupavam o dia em actividades nas oficinas da PSP junto à Porta do Cerco. Lages Ribeiro, na época Comandante da PSP, recorda o excelente trabalho desempenhado pelo Tenente Ranhada, "austero mas não tirano" e que "ajudava muitos aqueles jovens". Nessas oficinas "eles aprendiam um ofício, estavam ocupados. À noite iam dormir para uma casa da polícia ali na zona do Ramal dos Mouros, junto ao reservatório". (imagem abaixo)



A Colónia Balnear de Hac Sá era outra das obras sociais da PSP que realizava diversas actividades em prol dos mais desfavorecidos, nomeadamente, a angariação de fundos através de rifas como a que o documento acima, de 1965, atesta.
 
O Regulamento da "obra social" da P.S.P. de Macau foi aprovado pelo Portaria n.° 7 470 de 15 de Fevereiro de 1964.

 

 
Em 1961 foi criado Centro de Recuperação Social. O Asilo para Mendigos e Vagabundos, estabelecido de acordo com a portaria n.º 4998 de 8 de Setembro de 1951, e gerido pelo administrador das Ilhas, albergava pessoas com idade superior a 16 anos, desempregados e sem residência fixa em Macau, mendigos e vagabundos. 

Foi o Comandante da PSP do então, Major de Infantaria, Sigismundo G. da C. Revês, o fundador deste centro, e funcionava tal como um asilo, que posteriormente passou a depender da PSP. O centro era compreendido organicamente com 5 serviços especializados: 1) Serviço de Tratamento da Toxicodependência, 2) Serviço de Recolhimento, 3) Serviço de Crianças, 4) Serviço de Psiquiatria, e 5) Serviço de Mulheres.
 
Em 1968 a PSP um organismo militarizado directamente dependente do governador de Macau e compreendia o Comando, Secretaria, Conselho Administrativo, Serviços Administrativos, Serviços Técnicos, Secção de Trânsito, Esquadras e Postos, Centro de Recuperação Social, Banda de Música e Obra Social, tendo no seu quadro de pessoal um efectivo de 796 homens.
 
Publicada por João Botas


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Três Lendas


Três Lendas

Lenda de Algôs ou Algoz

 A origem do nome da povoação de Algôs, e a sua respectiva grafia, divide as opiniões dos seus habitantes. Uns afirmam que o nome desta povoação, que já existia no tempo dos romanos, lhe foi atribuído por D. Fernando I, rei de Leão, quando ali passou a caminho de Silves. Um dos seus homens achou a povoação tão insignificante que nem valeria a pena que nela se demorassem, ao que o rei retorquiu: "Algo es!". E assim se ficou a chamar Algoes e depois Algôs.


 Mas outros defendem a pés juntos uma outra versão. Quando a povoação era tão pequena que ainda não tinha nome, os seus habitantes não sabendo como lhe chamar resolveram fazer uma procissão para que Deus lhes desse inspiração. Como a imagem do santo que levavam no andor era do tamanho de um homem, houve uma vereda cujas árvores impediam a respectiva passagem. O dono das árvores opôs-se a que estas fossem cortadas. 


A discussão instalou-se e o pároco, para evitar confrontos, resolveu cortar a cabeça da imagem do santo para que a procissão prosseguisse. A população enfurecida contra o pároco resolveu chamar àquela povoação Algoz, que quer dizer carrasco, para que a ofensa contra o santo ficasse para sempre registada.


Lenda da Vila de Salir

A vila de Salir, no Algarve, deve o seu nome à filha do alcaide de Castalar, Aben-Fabilla, que fugiu quando viu o seu castelo ameaçado pelo exército de D. Afonso III. Antes de fugir, o alcaide enterrou todo o seu ouro, pensando vir mais tarde resgatá-lo. Quando os cristãos tomaram o castelo encontraram-no vazio, à excepção da linda filha do alcaide que rezava com fervor que tinha preferido ficar no castelo e morrer a "salir". 


De um monte vizinho, Aben-Fabilla avistou a filha cativa dos cristãos e com a mão direita traçou no espaço o signo de Saimão, enquanto proferia umas palavras misteriosas. Nesse momento, o cavaleiro D. Gonçalo Peres que falava com a moura viu-a transformar-se numa estátua de pedra. A notícia da moura encantada espalhou-se pelo castelo e um dia a estátua desapareceu. Em memória deste estranho fenómeno ficou aquela terra conhecida por Salir, em homenagem pela coragem de uma jovem moura. Ainda hoje no Algarve se diz que em certas noites a moura encantada aparece no castelo de Salir, sob o seu olhar. 

O rei mouro e a princesa viveram longos anos de um intenso amor esperando ansiosos, ano após ano, a Primavera que trazia o maravilhoso espectáculo das amendoeiras em flor.


Lenda de Dona Branca ou da Tomada de Silves aos Mouros

 Reinava em Silves o inteligente e corajoso rei mouro Ben-Afan que numa noite de tempestade, no intervalo das suas lutas contra os cristãos, teve um sonho extraordinário. Um sonho que começou por ser um pesadelo, com tempestades e vampiros, mas que se tornou numa visão de anjos, música e perfumes e terminou pelo rosto de uma mulher, divinamente bela, com uma cruz ao peito. 


No dia seguinte, Ben-Afan procurou a fada Alina, sua conselheira, que lhe revelou que tinha sido ela própria a enviar-lhe o sonho e que a sua vida iria mudar. Deu-lhe então dois ramos, um de flor de murta e outro de louro, significando respectivamente o amor e a glória. Consoante os ramos murchassem ou florissem assim o rei deveria seguir as respectivas indicações. Enviou-o ao Mosteiro de Lorvão e disse-lhe que lá o esperava aquela que o amor tinha escolhido para sua companheira: Branca, princesa de Portugal. 

Para entrar no mosteiro, Ben-Afan disfarçou-se de eremita e o primeiro olhar que trocou com a princesa uniu-os para sempre. O rei mouro voltou ao seu castelo e preparou os seus guerreiros para o rapto da princesa. Branca de Portugal e Ben-Afan viveram a sua paixão sem limites, esquecidos do mundo e do tempo. O ramo de murta mantinha-se viçoso, até que um dia D. Afonso III, pai de Branca, cercou a cidade de Silves e Ben-Afan morreu com glória na batalha que se seguiu. Nas suas mãos foram encontrados um ramo de murta murcho e um ramo de louro viçoso.



Poesia de João P. C. Furtado


Poesia de João P. C. Furtado

2015 SEJA DE PAZ PARA O POVO DO PLANETA TERRA

Para todos um belo e Feliz Ano Novo
Com menos sofrimento para o povo
Deste planeta Azul de nome Terra
Que a PAZ ganhe e vença a guerra
Que a harmonia entre os homens o alvo
E que o pensamento seja perfeito e novo
É o ano 2015 que em força aparece
Que traga a alegre PAZ que tanto carece

João P. C. Furtado

Praia 28 de Dezembro de 2015


SEM O MENINO NEM A ESTRELA

Não foi por falta de fé e oração
A festa não contava com o Vulcão
Que fez tremer a terra e o coração...
Esperava-se do céu a brilhante Estrela
Mas dormia o semeador da Estrela
foi-se a esquina comprar-se a vela
Do ano passado sobrou uma árvore velha
Sem o Menino nem a estrela pôs-se a coelha!

João P. C. Furtado

Praia, 16 de Dezembro de 2014


A TRAIÇÃO DA RUTE

A TRAIÇÃO DA RUTE escrito para um concurso!

Bela morena e tão doce crioula
 Roubaste o meu único coração
 E apaixonado e sem qualquer razão
 Deixaste-me sem dizeres um olá!

Sai pelo mundo fora procurei-te
 Encontrei-te sim mas nos outros braços
 Briguei e lutei e de nada os esforços
 Pois não eras e nem podias ser a Rute

Teu quente sorriso pereceu falso
 E triste e choroso fiquei descalço
 Quanta dor me deste neste soluço
 Um certo dia lembrarás do meu abraço
 E me oferecerás o teu regaço
 Mas terei consolo e tal embaraço

Acredito que voltarás minha Rute
 Tu virás e até já vens a caminho
 Espero-te e até já tenho o vinho
 Comemoro e bebo e caio tal pedinte

De ti Rute nem sinal tu estas bem?
 Estou bêbado e no chão caído
Sou chamado de grande bandido
 É assim que estou culpa tua, meu bem!

Pouco tino me resta para ver a verdade
 Tu vens, Rute minha, será à tarde
 Eu é que espero-te desde madrugada
 Tu diz que serás mui bem chegada
 Eu acho que já é muitíssimo tarde
 Tu és Afrodite, eu humano, tu Divindade!

Altiva morena, negra de peito belo e alto
 Caminhas dengosa ao meu encontro
 Eu desanimado levanto, triste,  o ombro
 Parece que é mais um grande assalto!

Tu passas com outro, eu vejo ou sonho
 O Baco se tornou meu melhor amigo
 Torno-me valente e não temo o perigo
 titubeante vejo-vos, ele recebe teu carinho!

É sonho, estou certo, tu Rute não és de traição
 Nobre é o teu afável e puro e grande coração
 Sempre para mim tiveste enorme e única paixão
 E quando faltava, acontece, teveste compaixão
 Jamais condenar-me-ia ao frio e gelado caixão
 Ainda que o Hades tivesse para mim a reclamação!

João Furtado
 
Praia, 23de Janeiro de 2015
 




 

Crónica de Tom Coelho


Crónica de Tom Coelho

A Fragilidade da Vida

Podemos sobreviver 50 dias sem comer, 100 horas sem beber água, 15 minutos sem respirar, mas nem um único segundo sem fé.

«No fim dá certo. Se não deu, é porque não chegou ao fim.»
(Fernando Sabino)

Quase cinco anos após o falecimento de minha mãe, estou de volta a hospitais. Meu pai teve o que parecia ser um AVC (acidente vascular cerebral), pois sofreu uma hemiplegia – paralisação do lado esquerdo do corpo (braço e perna).

Transportado por UTI móvel até um hospital em São Paulo, uma tomografia indicou algo pior. Não era um AVC, mas sim um edema oriundo de metástase de um câncer posteriormente identificado em seus pulmões.

Para quem jamais fumou um cigarro sequer, foi uma grande surpresa. Sabe-se que 85% dos casos de câncer de pulmão acometem pessoas com histórico de tabagismo. Portanto, restam outros 15%, grupo no qual meu pai foi laureado.

Mais intrigante ainda é que a doença não é recente. Embora não seja possível precisar seu início, pode-se depreender que vem se desenvolvendo há mais de dez anos!

Isso me leva a rever drasticamente meu conceito sobre a funcionalidade dos check-ups convencionais. Acabo de descobrir que exames clínicos diversos e mesmo radiografias eventuais são insuficientes para sinalizar uma doença silenciosa e perversa como esta.

Ao longo dos últimos 30 dias temos vivido uma verdadeira maratona. Passamos por quatro hospitais, enfrentando uma burocracia invejável, digna do mais áureo período do militarismo em nosso país, para obter guias e autorizações.

Todos os procedimentos são morosos e sua abreviação depende da insistência e do monitoramento permanente de nós, familiares, junto aos burocratas do sistema. A saúde, tal qual a educação, é um excelente negócio...

Enquanto isso, assistir a meu pai, em seu cotidiano, leva-me a reconhecer a fragilidade e brevidade de nossas vidas. Do alto de seus 68 anos de idade, um homem ativo e falante tem limitações e inquietações patrocinadas pela doença que o aproximam de um recém-nascido, fazendo-o demandar auxílio para movimentar-se, alimentar-se, higienizar-se.

Em paralelo, o tempo, que passa devagar num leito de hospital, convida à reflexão. Paciente e acompanhante são tomados por um senso de urgência e de valorização da vida.

Lembranças que nos visitam a mente, memórias de pessoas e eventos, coisas que fizemos e deixamos de fazer. A sensibilidade floresce, de modo que basta ouvir a voz ou vislumbrar o semblante de quem se gosta para que as lágrimas inundem os olhos.

Não é por acaso que quando abordo o conceito das Sete Vidas, principio falando sobre a saúde. Sem integridade física e mental, todo o mais carece de significado.

Podemos sobreviver 50 dias sem comer, 100 horas sem beber água, 15 minutos sem respirar, mas nem um único segundo sem fé.

A certeza de que faremos mais do que o possível, a segurança de que buscaremos todos os meios e recursos necessários, a esperança de que o bem vencerá o mal. E a confiança de que, no fim, tudo dará certo.



Poesia de Jorge Vicente


Poesia de Jorge Vicente

Cadernos de Gethsemani



1.


desceram das montanhas os primeiros animais, as primeiras aves, as mães que, nas casas
dos filhos, casam e cozem o pão;

desceram das montanhas a flauta e a voz humana,
essa imensa cosmologia
mais breve que o voo de uma libélula
e infinitamente mais silenciosa [ou triste]
que a humana escritura dos deuses.

Jorge Vicente


2.

o meu pequeno deus doméstico
ininterruptamente escrevendo na argila:

constrói uma pequena linguagem que
possa alimentar os pássaros.

jorge vicente



3.


tenho, perante mim, uma grande escolha:
ser humano,
o produto de uma linhagem específica
- animal bípede, ser pensante, com um
sentido de existência muito próprio,
construtor, criador, filósofo nas horas vagas
e com um sentido estético para a poesia

tenho, perante mim, essa escolha:
ser humano e ser presa de um destino
de pequenos nadas

não posso mudar o que se passa em gaza
nem fazer prognósticos para o meu próprio
futuro
não posso escrever "um verso a mais foi escrito
e tudo o que já foi dito antes será repetido mais
uma vez no meu próprio caderno"

tenho essa escolha
que é um cavalo que passa devagar
e que me desabriga de mim mesmo

[uma ferida aberta com todas as possibilidades
de tempo

e com pequenos nadas no lugar
das palavras].

Jorge Vicente


4.

começa por escrever um poema verdadeiro
daqueles leves bem leves
daquela leveza bem justa e boa
daquela leveza bem dentro bem fora da língua

começa por escrever um poema sem vícios de forma
sem domínio claro e preciso da linguagem
não precisas voltar nem deslizar sorrateiramente
pela história da literatura
ela não te pertence
nem tu a ela

começa por dizer vou jantar com o coração apertado
não tenho espaço para mergulhar
sem pé, nem tenho medo de escrever
vou mergulhar de bruços em todo o teu poder

[violo e esta é a minha verdade,
a língua vivida sem escafandro].

Jorge Vicente



Poemas de Patrícia Neme


Poemas de Patrícia Neme



FUGA

O que existe em você, que me agita, incomoda...
E desperta em meu ser emoções escondidas?
Em meu corpo, minh'alma não mais se acomoda...
E eu vagueio num mar de ilusões proibidas.

Já não sei mais de mim, a cabeça anda em roda...
Tive as minhas defesas, sem dó, invadidas...
E você nem cogita que tanto incomoda,
nem supõe, em meu peito, as candentes batidas.

E eu me escondo, eu me guardo, não sei o que faço
- quanto anseio sentir o seu beijo, um abraço -,
O meu tempo passou... Nada mais a sonhar.

Nada mais... Como pode tal fado, ferino,
me falar de você e marcar-me o destino
de fugir, e fugir, e fugir... Sem parar?



Soneto da Saudade

 O céu desperta triste, em tom cinzento,
 qual lhe fora penoso um novo dia;
 aos poucos, verte, em gotas, seu lamento...
 Um pranto ensimesmado, de agonia.

Um rouco trovejar, pesado, lento,
 parece suplicar por alforria,
 num rogo já exangue, sem alento...
 A chuva... O cinza... A dor... A nostalgia...

O céu despertou triste... O céu sou eu,
 perdida num sonhar que feneceu,
 sou prisioneira à espera de mercê.

Sonhando conquistar a liberdade
 desta prisão, que existe na saudade...
 Saudade, tanta, tanta... De você!



 Estupidez

 No circo armado na praça,
 grita alucinada massa,
 sem algo de humanidade.

Chega o homem prepotente,
 embrulhado pra presente,
 com olhar de crueldade.

Bandeirolas enfeitadas,
 prontas pra serem fincadas
 no que, de mal, nada fez.

O portão escancarado,
 o touro vê-se empurrado
 à sanha da estupidez.

E a turba grita excitada,
 quer vida sacrificada,
 quer sangue banhando o chão.

E baila, dança o toureiro,
 ante o indefeso cordeiro,
 num rito fútil, pagão.

Até que o corpo ferido,
 sem vida, jaz consumido...
 Pela civilização!